Retrato do dramaturgo Bertold Brecht - Jörg Kolbe (1954) - obra licenciada pelo direito CC BY-SA 3.0
Eugen Berthold Friedrich Brecht (1898-1956), conhecido profissionalmente como Bertolt Brecht, foi um renomado praticante de teatro e dramaturgo alemão que desenvolveu seus trabalhos, principalmente, durante o período compreendido entre as duas grandes guerras mundiais e o início da guerra fria. Uma de suas maiores contribuições no ramo das artes cênicas está na sua forma de compreender o papel que o teatro deveria desenvolver. Para Brecht, tanto a atuação, quanto a exibição do espetáculo teatral tinham um dever social a cumprir.
Uma de suas obras mais aclamadas e estudadas é a "Leben des Galilei" (Vida de Galileu). Nessa peça, Brecht (trans)cria a imagem de Galileu Galilei e retrata todo o conflito entre o italiano e a Igreja Católica ocorrido no século XVII, além das consequências desse embate não somente na vida do cientista, como, também, em toda a esfera científica e social da época. Assim, diversos temas de cunho social e político são colocados em pauta e o papel da ciência (e do intelectual) no desdobramento desse processo histórico são explicitados.
A obra possui três versões, cada uma delas foi escrita em um contexto sócio-político bastante particular. No intervalo de tempo entre os anos de 1938 a 1956 que abarcam as diferentes versões da peça, importantes acontecimentos levaram a ciência a desempenhar um papel fundamental na configuração da geopolítica mundial. As inovações de cunho científico-tecnológico alcançadas durante esse período impactaram fortemente a sociedade e a economia global que, num cenário de guerra, teve a indústria bélica como uma das grandes beneficiadas. Assim, a ciência e a tecnologia que aparelharam a guerra, fomentaram, também, a escalada da violência e da tensão para além dos tempos e espaços dos países beligerantes.
A tragédia da guerra, culminando com o lançamento das duas bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki pelos EUA, e as consequências que dela se sucederam, impulsionaram a corrida armamentista e o desenvolvimento de novas armas nucleares e termonucleares pelos países líderes de dois blocos antagônicos — o bloco ocidental, liderado pelos EUA; e o bloco oriental, encabeçado pela União Soviética — que acabaram por fundar uma nova ordem mundial e uma nova guerra; uma "guerra fria” que se estendeu por várias décadas. Foram nestes cenários, de uma guerra em curso e de extrema tensão política num mundo polarizado do pós-guerra, que Brecht trabalhou de forma intensiva e durante um longo período em seu “Projeto Galileu”.
No desenvolvimento do teatro épico e didático Brechtiano, isto é, de um teatro que pretendia exercer, sobretudo, uma função política de “educar" atores e públicos a se perceberem e se questionarem sobre seus próprios lugares e papéis na realidade social, os acontecimentos históricos vivenciados por Brecht tiveram repercussões notáveis tanto na construção de seus enredos como na constituição de suas personagens. Nas três versões da "Vida de Galileu”, em particular, a sucessão dos fatos históricos e políticos se manifestam também nas alterações que vão ocorrendo na constituição da personalidade da personagem principal: Galileu Galilei. E, conforme o próprio Brecht (dramaturgo e cidadão) vai ressignificando para si mesmo o papel da ciência e dos cientistas na conjuntura social e política de sua época, seus diferentes "Galileus" vão sendo (trans)criados de uma versão para outra da peça. (FITAS, 1998, p. 2).
A primeira versão do texto foi escrita entre 1933 e 1938. Nesse período, a ascensão do partido nazista modificou significativamente o cenário político da Alemanha, impossibilitando que dramaturgos e artistas, de forma geral, que tinham algum comprometimento social — como era o caso de Brecht — prosseguirem com seus trabalhos. Assim, nesse cenário político autoritário, não demorou muito para que Brecht se auto exilasse do território alemão e se instalasse, após passar por diversos países, na Dinamarca, onde seria finalizada a primeira versão da peça.
No primeiro esboço da versão dinarmaquesa, que ainda carregava o título "A Terra move-se", a personagem de Galileu é caracterizada, de forma geral, como sendo o grande professor que tem a capacidade e a "missão" de não apenas ensinar uma "nova" física, mas, também, demonstrar a sua “verdade”, por meio de argumentos e observações respaldadas em fatos experimentais. O foco principal dessa primeira versão era, a priori, utilizar da metáfora Galileana para expor a opressão vivida pelos intelectuais submetidos ao regime autoritário nazista alemão. Porém, antes mesmo de sua primeira estréia no teatro de Zurique, em 1943, um acontecimento marcante para a comunidade científica — e para Brecht — levou-o a reconfigurar seu Galileu e colocar novos significados a obra.
Encenação da cena XIV de "Vida de Galileu" - fotografia de Fred Erismann (1943) - obra em domínio público.
A proximidade entre o dramaturgo e os físicos do grupo de Niels Bohr (1885-1962) possibilitou que Brecht tivesse acesso à notícia sobre a realização da fissão nuclear do urânio, uma nova — e perigosa — forma de obtenção de energia, o que significava que os alemães tinham condições de produzir uma bomba nuclear e colocar seu enorme potencial de destruição à disposição dos nazistas. Sabendo disso, Brecht não poderia deixar de colocar em discussão as possíveis implicações dessa "novidade científica" e o papel da ciência — e dos cientistas — naquele momento, fato que o levou a realizar algumas retificações no até então esboço da primeira versão da obra.
De forma geral, tais alterações não modificaram estruturalmente o texto, mas imprimiram novos significados à emblemática cena da visita de Andrea à Galileu, já condenado pela Inquisição a viver em prisão domiciliar e sob vigilância constante. No primeiro esboço da versão dinamarquesa (finalizado em 1938), Brecht nos leva a vislumbrar a abjuração de Galileu a partir da perspectiva positiva sustentada pelos físicos. Nessa perspectiva, o cientista, com uma atitude astuta e sensata, abdica de seus ideais frente a pressão da Inquisição para permanecer vivo e, deste modo, poder continuar se dedicando secretamente a seus trabalhos que, mais tarde, levariam a formulação da ciência moderna.
Na retificação dessa mesma versão (finalizada em 1939 e apresentada em 1943), o dramaturgo, agora conhecedor dos estudos da fissão nuclear do urânio, já não enxerga o ato de Galileu de forma astuta e heróica. Para ele, essa perspectiva, embora aceita entre os membros da comunidade científica, era "simplista e redutora" (GIL, 2003, p. 9) e, além disso, não representava os caminhos que a ciência viria a tomar até então. Sendo assim, na versão que foi aos palcos em 1943, Brecht buscou colocar em questão justamente essa imagem heróica de Galileu, sobretudo, no momento da conversa entre o físico e seu discípulo Andrea.
Na cena, Galileu expõe o verdadeiro motivo de sua abdicação como sendo o excessivo medo da dor física, interpretada, aqui, como um acovardamento perante o poder. Apesar de defendido por seu discípulo, o italiano acusa-se, principalmente, de não lutar em nome da liberdade científica e de negar sua responsabilibdade moral e, sobretudo, social. Assim, no espetáculo de Brecht, Galileu é consciente das implicações negativas de sua abjuração e coloca sua atitude como uma forma de pecado para o conhecimento e para a sociedade, causando, desta forma, um "estranhamento" no público, que, após criar uma forte empatia com a personagem ao longo da trama, se percebe distante da mesma protagonista. Essa inversão de papéis de herói a possível vilão é colocada na primeira versão da obra e desenvolvida — com suas devidas modificações — nas versões que sucederam essa (GIL, 2003, p. 9-10).
Thomas Neumann (Andrea Sarti), Simone Frost (Virginia) e Ekkehard Schall (Galileu) encenando "Vida de Galileu" de Bertolt Brecht na Berliner Ensemble - fotografia de Vera Tenschert (19--?) - Disponível em: flickr.com
Após a exibição da versão dinarmaquesa, Brecht percebeu que a mesma já não refletia totalmente sobre os aspectos sociais e políticos que o mundo assistia. Nesse sentido, o dramaturgo começou a trabalhar em sua nova versão de Galileu. Essa segunda versão da obra, também conhecida como versão americana, teve sua escrita iniciada em meados de 1943, na Califórnia, local onde Brecht havia se instalado juntamente a diversos exilados alemães e austríacos que, assim como ele, fugiam do avanço do poder dos nazistas em diversos países europeus. A finalização e exibição dessa segunda versão se deu apenas em 1947, dois anos após um evento catastrófico modificar toda a visão de Brecht — e de Galileu — sobre a ciência e a sociedade: o lançamento das bombas de Hiroshima e Nagasaki.
O Galileu da versão estudunidense já havia presenciado o "deflagrar dos cogumelos atómicos" (FITAS, 1998, p. 14) e conhecia bem as implicações que esse evento traria para a humanidade, bem como a ameaça que a sociedade estava posta. Nas palavras de Niels Bohr em seu artigo “Ciência e civilização” publicado no famoso jornal londrino The Times, após o lançamento das bombas atômicas "atingimos um ponto onde o grau de segurança oferecido aos cidadãos de um país, através de medida de segurança colectiva, é completamente insuficiente" (BOHR, 1945 apud FITAS, 1998, p. 14). Ciente de tudo isso, a personagem principal dessa versão certamente não poderia ser o mesmo professor apaixonado pelo conhecimento como era na primeira e isso ficou mais claro, principalmente, no momento de sua adjuração, na penúltima cena.
Na épica cena, Galileu, assim como na primeira versão, expõe o verdadeiro motivo de sua retratação como sendo o medo da dor física e completa dizendo que não havia pretensão alguma desse ato o resguardar para continuar seus trabalhos. Andrea insiste na defesa da atitude de seu mestre e argumenta que, apesar de tudo, no fim, a ciência só reconheceria a contribuição científica do italiano e que, nesse sentido, ele seria visto como um herói. Após isso, Galileu, como alguém que, diferentemente da primeira versão, já conhecia o pecado das bombas nucleares, rebate com "Será que contribui? Bem-vindo à minha sarjeta, caro colega na ciência e irmão no pecado: eu vendo, tu és o comprador! (...) Santificada seja a nossa comunidade de traficantes, cheia de pureza e de medo da morte!" (BRECHT, 1984 apud FITAS, 1998, p. 17). Nesse momento, o "medo da morte" não representa apenas o medo da dor física do italiano e o acovardamento perante o poder, mas também a insolência de quem constrói armas sem se preocupar com o sofrimento que virá a causar. Assim, a segunda versão de Galileu é um homem mais amargo e desencantado, além de ciente do papel que ele desempenhou enquanto cientista.
Por fim, a terceira e última versão da obra foi escrita no período compreendido entre 1948 e 1956, anos finais da vida de Brecht. Nesses anos, após ser submetido a uma série de intimações no Estados Unidos, o dramaturgo já havia regressado à Alemanha e se instalado no lado oriental de Berlim. Nesse momento da história, ocorria uma grande tensão de cunho científico-tecnológico — e, claramente, bélico — entre os blocos soviético e estadunidense com o início da guerra fria, fato que levou o dramaturgo a repensar novamente sua versão do cientista.
Nessa última (trans)criação do físico italiano feita por Brecht, houve uma grande preocupação por parte de Brecht para que Galileu "fosse mostrado sob o aspeto de um criminoso social, de um perfeito patife" (ESSLIN, 1971 apud FITAS, 1998, p. 22), deixando evidente que o cientista "apesar de tudo é um herói e, apesar de tudo tornasse um criminoso" (BRECHT, 1970 apud FITAS, 1998, p. 22). Essa explicitação do criminoso social foi justamente o que diferenciou o protagonista da versão berlinense dos das demais versões. Além disso, nessa versão, Galileu, frente a tudo o que o desenvolvimento científico causou, projeta que o esperado é que novos cientistas, chamados, por ele, de "anões inventivos" (BRECHT, 1991, p.165) continuem se "alugando" para fazer qualquer tipo de máquina, assim como ele fez.
Primeira montagem de “Vida de Galileu”, em Zurique (1943) - Disponível em: teatroemescala.com
Ciente de sua culpa nesse processo, o Galileu "berlinense" idealiza um cenário no qual seu medo da dor física não fizesse com que ele abjurasse de seus trabalhos, em suas palavras: "Se eu tivesse resistido, os cientistas podiam ter elaborado algo de semelhante ao juramento hipocrático dos médicos, a promessa de utilizar exclusivamente o seu saber para bem da Humanidade!" (BRECHT, 1991, p.195), fazendo, assim, coro com alguns cientistas que, no período pós-guerra, com a escalada armamentista nuclear, defendiam que deveria ser estabelecido um compromisso entre todos os Estados para proibir a produção de armas nucleares. Todas essas afirmações vindo da boca de um Galileu dolorosamente lúcido e autocrítico, muito longe do retrato heróico, sereno e bondoso do ancião habitualmente conhecido.
Portanto, a imagem do Galileu herói é comum às três versões e sua heroicidade está na luta pela razão e, sobretudo, no seu amor à ciência, esse que é bem expresso na cena VIII, na qual o Galileu diz: "Penso às vezes: era capaz de me deixar fechar numa prisão dez braças abaixo de terra, onde a luz não penetra, se em troca disso ficasse a saber o que é a luz" (BRECHT, 1991, p.122). Porém, de versão em versão, essa imagem vai sendo cada vez mais deixada de lado, passando pelo Galileu humano e arrependido da primeira versão ao Galileu amargo e desencantado da segunda, até chegar, finalmente, à imagem do Galileu criminoso e anti-herói da última.