Após a publicação de "O Mensageiro das Estrelas" em 1610, Galileu Galilei retomou suas observações telescópicas e, no ano de 1613, divulgou uma coleção de cartas trocadas com o padre jesuíta Christoph Scheiner (1573-1650) com o título Istoria e Dimostrazioni intorno alle Macchie Solari (História e demonstrações acerca das manchas solares). Nas cartas, o cientista italiano desaprova a posição de Scheiner acerca da origem das manchas da superfície solar, além de duramente criticar o princípio de autoridade instaurado no meio científico e utilizado pelo jesuíta, fato que colaborou para o crescimento da "rivalidade" entre Galileu e os membros da elite católica.
Ainda nesse contexto de tensão, anos depois, em 1616, a carreira científica de Galileu Galilei sofreu um grande impacto com o decreto inquisitorial daquele ano, esse que proibia o tratamento do modelo Copernicano de mundo como uma alternativa à cosmologia tradicional e o limitava à uma mera hipótese matemática, fazendo com que o cientista italiano fosse obrigado a seguir determinadas condutas, como, por exemplo, não defender abertamente o modelo heliocêntrico, para não sofrer represálias por conta de seus trabalhos.
Diante desse cenário, um evento específico chamou a atenção dos cientistas da época e, novamente, colocou Galileu contra a Igreja Católica. No ano de 1618, três cometas ficaram visíveis nos céus da Europa e geraram diversas discussões no âmbito científico acerca de sua natureza e de suas características. Pouco tempo depois, no ano de 1619, o padre jesuíta e professor de matemática do Colégio Romano, Horácio Grassi (1583-1654), publicou um tratado no qual discutia a natureza desses astros e concordava com as conclusões de um dos maiores astrônomos da era "pré telescópio", o dinamarquês Tycho Brahe (1546-1601), que havia os classificado como corpos celestes, ou seja, que se encontram fora da atmosfera terrestre.
Além disso, o dinamarquês também afirmou que os cometas obedeciam uma trajetória que parecia girar em torno da Terra em órbitas que não se pareciam com círculos. Tal trajetória aparente é explicada pelo fato dos cometas apresentarem uma grande excentricidade em suas órbitas, fazendo com que um observador terrestre interprete seu trajeto como sendo em torno da Terra, mesmo eles orbitando o Sol (MARICONDA; VASCONCELOS, 2020, p. 144).
Assim, concordando com as afirmações de Tycho Brahe, Grassi classificou o fenômeno dos cometas como sendo uma evidência anti-copernicana justamente por conta de suas características físicas, de seu movimento aparente e pelo fato de sua trajetória não obedecer um movimento circular. Galileu, por motivos de saúde, não pode observar o fenômeno de 1618, porém, ainda sim, teve sua opinião intensamente cobrada, o que o levou a publicar seu parecer através de seu discípulo Mario Guiducci (1585-1646) em 1619 através da obra Discorso delle comete (Discurso sobre os cometas).
Na publicação, com uma argumentação firme e direta, Mario e Galileu sustentaram a tese de que os cometas eram frutos da refração da luz do Sol nos vapores atmosféricos e, por consequência disso, representavam fenômenos ópticos localizados na própria atmosfera terrestre e não corpos celestes que se encontravam além da Lua, como defendido por Tycho e, posteriormente, por Grassi. Desta forma, tal fenômeno não poderia ser visto como uma evidência contraditória ao modelo de mundo de Copérnico.
Com isso, após a publicação de Mario e Galileu, Horácio Grassi, ainda no mesmo ano e de forma quase imediata, prolongou a discussão por meio da obra Libra astronomica et filosofica (Balança astronômica e filosófica). Nela, o jesuíta por meio de um pseudônimo nomeado Lotario Sarsi — apresentado como seu discípulo — rebate a argumentação de Guiducci (e de Galileu) utilizando como argumento as medições realizadas por Tycho Brahe para determinar a paralaxe do cometa.
Além disso, Grassi (Sarsi) se dedicou a fazer ataques direcionados a Galileu e seus trabalhos no decorrer de sua dissertação, fato que tensionou ainda mais o clima entre o italiano e os membros da Igreja Católica e que, como resultado, levou à publicação, em 1623, de um dos trabalhos mais polêmicos não somente da carreira de Galileu Galilei, mas também, como colocado por Pires (2008, p. 125), "das ciências físicas": a obra Il Saggiatore (O Ensaiador).
Após anos em silêncio, Galileu finalmente respondeu aos ataques de Grassi (Sarsi) através da obra Il Saggiatore (1623), traduzida para o português como "O Ensaiador". Durante toda a dissertação, o italiano abusa de suas estratégias linguísticas e argumentativas para rebater as colocações do jesuíta e fazer duras críticas ao cenário científico da época. Embora a questão central de O Ensaiador seja a polêmica da natureza dos cometas (que Galileu se equivocou em suas colocações), a obra traz questões relevantes tanto para a formulação da ciência moderna, quanto para a demarcação do papel da matemática na física Galileana. Logo na imagem presente na capa de rosto, a relação entre o estudo da natureza e a matemática já é colocada em evidência, nela se destaca o modo no qual as duas colunas verticais — uma representando a Filosofia Natural e outra simbolizando a Matemática — são colocadas, passando a ideia de complementaridade e harmonia (MOSCHETTI, 2002, p. 116).
Estruturalmente falando, o livro é curto e bem organizado, Galileu reproduz e enumera alguns parágrafos do "Balança Astronômica" (obra de Grassi) e os rebate um a um, resultando, assim, em 53 seções de argumentação. Desses parágrafos, dois deles se destacam e ilustram muito bem o legado deixado por O Ensaiador. O primeiro corresponde ao sexto parágrafo marcado por Galileu, nesta seção, o italiano, rebatendo as afirmações de Sarsi (Grassi), reserva parte de seu discurso para ressaltar suas críticas ao princípio de autoridade presente no cenário científico. Para ele, grande parte da comunidade intelectual da época se apoiava, sobretudo, em opniões de célebres autores — Aristóteles, por exemplo — e muitas vezes desprezava a razão, fazendo com que o raciocínio humano permanecesse "estéril e infecundo" (GALILEI, 1999 [1623], p. 46).
Além disso, ainda na argumentação do mesmo parágrafo, o italiano aproveita para destacar a importância do papel da matemática no estudo da natureza, colocando que o universo "está escrito em língua matemática" (GALILEI, 1999 [1623], p. 46). Essa afirmação se tornou um dos trechos mais estudados e citados da obra, fato que evidencia seu impacto no cenário científico e sua contribuição para a formação da ciência moderna.
A outra seção que se destaca corresponde ao parágrafo de número 48, nele, Galileu apresenta uma forma de se analisar a natureza e os fenômenos levando em conta suas características — chamadas, por ele, de "qualidades" ou "acidentes". Tais qualidades podem ser fruto tanto do objeto analisado, quanto da sensitividade do observador. Nesta concepção, ele definiu como qualidades "primárias" justamente as que têm origem no próprio objeto e qualidades "secundárias" como sendo as que dependem do observador sensitivo. Assim, esses dois tipos de acidentes se distinguem por sua existência para além da sensação.
No caso do acidente primário, sua existência é garantida, pois sua origem se encontra no próprio objeto, diferentemente do acidente secundário, que quando removido o corpo sensitivo, nas palavras de Galileu, "nada é além de um puro nome" (GALILEI, 1999 [1623], p. 220). Tal diferenciação entre as qualidades presentes na natureza foi de suma importância para a definição das variáveis quantitativas dos fenômenos naturais, sendo as qualidades primárias possíveis de serem quantificadas e as secundárias consequências de acidentes primários sentidos pelo observador. Assim, Galileu apresentou ao mundo uma nova forma de conceber a ciência e definiu as condições do conhecimento da natureza, como havia colocado no parágrafo no parágrafo seis, através da escrita em linguagem matemática (MOSCHETTI, 2011, p. 21; MARICONDA; VASCONCELOS, 2020, p. 154).
Portanto, é perceptível que o legado deixado pela obra está intimamente ligado ao campo filosófico da ciência e, mesmo que na leitura transpareça que o italiano estava somente interessado em argumentar a favor de sua tese da natureza dos cometas e defender, mesmo que de modo velado, o modelo heliocêntrico de Copérnico, seus discursos deixaram claro que Galileu estava, na verdade, interessado em debater a ciência e os modos nos quais ela era concebida, sendo ele duramente crítico ao modo "tradicional" defendido pela Igreja Católica — marcado pelo princípio de autoridade aristotélica e pela não contestação da Filosofia imposta — e favorável, sobretudo, à liberdade de pesquisa, à autonomia científica e a abordagem matemática dos fenômenos naturais.
Deste modo, mesmo que O Ensaiador não possua o mesmo valor de "O Mensageiro das Estrelas" quanto ao conteúdo científico abordado, nem a importância do "Diálogo" com relação a divulgação e discussão dos modelos de mundo ou até mesmo do "Duas Novas Ciências" no quesito da enunciação geométrica e das definições dos movimentos, sua importância filosófica e intelectual é incontestável e marca um ponto crucial do pensamento de Galileu Galilei, antes de cientista experimental, depois de teórico e, agora, de filósofo natural (MARICONDA; VASCONCELOS, 2020, p. 143-146; PIRES, 2008, p. 125).
Embora a obra "O Ensaiador" carregue contribuições indispensáveis para a formação da ciência moderna e para a demarcação do papel da matemática no estudo da natureza, o objetivo inicial da publicação era, na verdade, discutir a natureza e as características dos cometas, tema no qual Galileu se equivocou em suas colocações. O italiano sustentou a ideia de que os cometas seriam fruto da refração da luz solar no vapores atmoféricos e que, por conta disso, deveriam corresponder a fenômenos puramente ópticos e com localização na própria atmosfera terrestre. Tal definição já havia sido antes defendida por Aristóteles e, mesmo com a conhecida oposição da Filosofia natural Galileana às definições do filósofo grego, a visão adotada pelo italiano em toda sua argumentação sobre este tema específico convergia com a ideia aristotélica.
Todavia, apesar de, neste ponto, ambos terem visões próximas sobre a natureza dos cometas, as razões que levaram cada um deles a sustentar essa definição divergem de forma significativa, sendo Aristóteles defensor de que tais astros não poderiam ser fenômenos celestes pois seu comportamento — apresentar um trajetória "incomum", variar de tamanho aparente durante seu período visível, etc — entrava em desacordo com sua concepção de universo supralunar perfeito e imutável e, seguindo essa definição, os cometas deveriam representar mudanças ocorridas em domínio terrestre, pois esse era mutável, diferentemente do domínio físico destinado aos céus.
Galileu, por sua vez, não compartilhava da mesma ideia de separação entre céus e Terra em dois domínios físicos distintos, inclusive, como sabemos, ele era um crítico a essa concepção. As razões que levaram o italiano a convergir, neste ponto dos cometas, com a definição aristotélica está mais ligada com a sua intenção de não comprometer o modelo heliocentrico de Copérnico (SILVA, 2006, p. 25).
Representação do modelo heliocentrico com as órbitas circulares dos planetas presente em "De revolutionibus orbium coelestium" (1543) de Nicolau Copérnico (Galileo: a very short introduction - Drake, 2001, p. 31)
Sendo assim, para entender a motivação de Galileu Galilei para não aceitar a natureza dos cometas como corpos celestes reais e supralunares, devemos entender, primeiramente, o modelo heliocêntrico Copernicano e suas características. Tal proposta de organização do cosmo surgiu como uma alternativa ao modelo geocêntrico de Ptolomeu e, nessa concepção de mundo, a Terra deixa de ocupar a posição de central do universo e passa a orbitar o Sol em uma trajetória perfeitamente circular. Com essa mudança, alguns fenômenos astronômicos, como por exemplo o movimento retrógrado dos planetas, puderam ter uma explicação física mais consistente, coisa que a cosmologia ptolomaica não oferecia. Além disso, o impacto que a teoria Copernicana teve no meio científico foi fundamental para o início da chamada Revolução Científica e para o surgimento de nomes como os de Johannes Kepler (1571-1630), Isaac Newton (1643-1727) e do próprio Galileu Galilei (ZANETIC, 1995, p. 46-47).
Porém, apesar do caráter revolucionário da proposta de Copérnico, algumas características marcantes do modelo geocêntrico de Ptolomeu ainda estavam presentes nessa nova ideia de organização do cosmo. Dentre essas, é importante citar o movimento dos planetas em órbitas perfeitamente circulares em torno do centro do Sistema Solar, tópico que está intimamente ligado à ideia de perfeição do cosmo, ideia essa que apenas Kepler, contemporâneo de Galileu, demonstrou ser inadequada, definindo que o movimento dos astros se dava em órbitas elípticas ao redor do Sol. Então, mesmo entrando em desacordo com algumas características fundamentais do modelo geocêntrico, o modelo heliocêntrico Copernicano ainda não estava "preparado" para assumir características que se afastassem ainda mais da concepção de universo perfeito, bem organizado e fundamentado nas formas geométricas perfeitas da natureza e foi exatamente tentando defender isso que, Galileu, em sua argumentação de O Ensaiador, acabou se equivocando sobre a natureza dos cometas.
O italiano, ao se deparar com a trajetória dos cometas (essas que, devido a sua grande excentricidade, aparentavam estar em órbita terrestre e realizando um movimento que, definitivamente, não era o perfeitamente circular), percebeu que, para aceitar esses astros como corpos celestes, ele teria que contestar uma das bases do modelo heliocêntrico de Nicolau Copérnico: o movimento desses corpos em órbitas circulares em torno do Sol.
Assim, para não comprometer a argumentação do modelo heliocêntrico e abordar uma possível forma elíptica nas trajetórias dos astros, Galileu preferiu negar a realidade física dos cometas e os considerar como fenômenos ópticos com localização na atmosfera terrestre, se aproximando, desta forma, à Aristóteles. Então, apesar de ser considerado um dos maiores nomes de toda a ciência, Galileu Galilei errou e manteve sua crença na natureza óptica dos cometas, protagonizando, assim, um profundo debate repleto de críticas e ataques contra o padre jesuíta Horácio Grassi. Tal desavença, combinada com outros acontecimentos e publicações posteriores, foram cruciais para a determinação do processo inquisitorial que levou o italiano a ser condenado à prisão domiciliar perpétua (SILVA, 2006, p. 25).