Galileu Galilei (1564-1642), um dos maiores nomes da história da ciência, iniciou seus estudos em sua cidade natal, Pisa, na Itália. Durante décadas, o cientista dedicou-se ao estudo da mecânica dos sólidos e dos fluidos, produzindo valiosos avanços nessas áreas do conhecimento, dentre os quais, a “famosa" lei de corpos em queda livre e a sua fundamentação a partir de experimentações com o plano inclinado.
Embora grande parte dos trabalhos de Galileu tratem de temas relacionados ao que hoje conhecemos como a mecânica clássica, talvez, uma de suas publicações mais emblemáticas seja seu curto livro intitulado Sidereus Nuncius (1610), traduzido para o português como "O Mensageiro das Estrelas". Nesta obra, o cientista italiano atribui ao telescópio um papel central na investigação científica e divulga ao mundo o relato de observações celestes realizadas com o instrumento, essas que viriam a ser utilizadas como argumentos favoráveis para a descentralização da Terra no Sistema Solar.
Além desse marco, outra obra impactante de Galileu Galilei foi o polêmico livro intitulado Il Saggiatore (1623), que chegou ao Brasil com o título "O Ensaiador", na dissertação, Galileu demonstra todo seu poder de argumentação para discutir diversos aspectos da então chamada Filosofia natural (isto é, a Física) e de suas bases epistemológicas. No presente material, tais obras servirão como pilar para o estudo de Galileu Galilei e para a análise do impacto dos trabalhos desse grande nome não somente no ramo da Física e da Filosofia da ciência, mas também, em outras áreas de estudo e manifestação cultural (LEITÃO, 2010, p. 11-20).
Primeiramente, para entender a importância dessas obras e seu impacto na história da ciência, devemos compreender o momento histórico e o pensamento científico do século XVII. Vale lembrar que durante os séculos XVI a XVIII a Europa passava por mudanças significativas no cenário científico e cultural com a chamada "Revolução Científica". Com isso, para o desenvolvimento de uma nova concepção de ciência, pareceu necessário não somente a contestação da autoridade científica estabelecida por instituições como a Igreja Católica, mas também, a destruição da síntese de ideias aristotélicas consolidadas até então.
Nesse cenário, Galileu aparece como um dos maiores opositores à tradição científica e filosófica instaurada no meio acadêmico, além de forte defensor do uso de verificações empíricas para a análise de elaborações teóricas e geométricas. Desta forma, estabelecendo uma relação intrínseca entre a matemática e a ciência, colocando-a como a linguagem da natureza (KOYRÉ, 1982, p. 49; GALILEI, 1999 [1623], p. 46).
As obras Sidereus Nuncius (1610) e Il Saggiatore (1623) surgem nesse contexto. A primeira apresenta ao mundo observações telescópicas feitas pelo próprio cientista, nela, Galileu demonstra que a Lua tem uma superfície irregular, que existem mais estrelas fixas do que aquelas que conseguimos distinguir a olho nu e, sobretudo, que Júpiter tem satélites que o orbitam. A segunda, por sua vez, possui um caráter mais filosófico e argumentativo e nela destacam-se, além da discussão central sobre a natureza dos cometas, os parágrafos 6 e 48 que versam sobre o papel da matemática na ciência Galileana e a distinção entre as qualidades relevantes para a elaboração geométrica do fenômeno, além de reforçarem sua crítica ao princípio de autoridade empregado, principalmente, à figura de Aristóteles no meio científico.
Deste modo, tais obras corroboraram para o início da desavença de Galileu Galilei com a Igreja Católica, haja vista que ambas entraram em debate com um dos pilares defendidos por essa instituição: a Filosofia natural aristotélica. Por conta dessas e de outras publicações posteriores, a imagem de adepto ao copernicanismo foi cada vez mais ligada ao nome de Galileu Galilei, fato que o levaria a ser condenado pela inquisição romana no ano de 1632 (KOYRÉ, 1982, p. 153-154).
O impacto das publicações de Sidereus Nuncius (O Mensageiro das Estrelas) e, principalmente, de Il Saggiatore (O Ensaiador) foram imediatos, os argumentos favoráveis à descentralidade terrestre no Sistema Solar presente na primeira obra e as críticas ao princípio de autoridade científica presentes na segunda intensificaram o conflito entre Galileu e a elite intelectual católica, sobretudo, os jesuítas. As críticas feitas pelo italiano atingiram diretamente a essa instituição contrarreformista e foram imprescindíveis para o afastamento da Sociedade de Jesus do processo inquisitorial contra o cientista.
Ainda antes, em 1613, Galileu já havia se envolvido em outra polêmica com esse grupo, nesse caso, através da divulgação de algumas cartas trocadas com o padre jesuíta Christoph Scheiner (1573-1650) discutindo sobre a natureza das manchas solares, nesse debate, o italiano, além de desaprovar a posição de Scheiner acerca das manchas, também fez duras críticas ao modo autoritário que o jesuíta vê a ciência, colaborando para o aumento da tensão presente nos anos que antecederam Il Saggiatore (1623) e, sobretudo, no período entre 1623 e sua condenação, em 1632 (MARICONDA, 2011, p. 60; PIRES, 2008, p. 120-121).
Durante os anos de 1624 e 1630, Galileu se dedicou na elaboração da obra que o levaria à inquisição romana, o célebre Dialogo sopra i due Massimi Sistemi del Mondo Tolemaico e Copernicano (Diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo Ptolomaico e Copernicano), livro que ilustrava um diálogo entre três personagens: Simplício, um representante aristotélico, Salviati, um adepto ao copernicanismo, e Sagredo, uma figura imparcial interessada no debate.
O diálogo é dividido em quatro partes (chamadas de jornadas), cada uma delas trata de um tema relevante acerca da contraposição entre os sistemas Ptolomaico e Copernicano, a primeira jornada se inicia colocando em pauta a cosmologia aristotélica e suas incoerências, a segunda traz argumentos para defesa do movimento de rotação da Terra, a terceira, por sua vez, discute questões astronômicas acerca do movimento de translação terrestre e a quarta e última jornada versa sobre a teoria das marés. Aproximadamente cinco meses após sua publicação, em agosto de 1632, a obra teve sua circulação barrada pois seu conteúdo entrava em desacordo com o preceito imposto em 1616 pelo Santo Ofício que proibia a defesa, o ensino e a disseminação de ideias heliocêntricas (MARICONDA, 2011, p. 62-65).
O quase imediatismo de censura por parte da Igreja Católica evidencia o grande impacto que a obra teve no meio acadêmico e, sobretudo, na sociedade do século XVII, haja vista que, além de conter conteúdos ditos proibidos, o "Diálogo" em sua formulação apresenta recursos que buscam democratizar o conhecimento científico. O primeiro tópico a se destacar está no fato da obra ser redigida em italiano, pois, naquela época, livros desse cunho eram normalmente escritos em latim e, por consequência, ficavam restritos à membros da elite intelectual vigente. Ao trazer sua obra em italiano, Galileu buscou atingir não somente o público já inserido no meio científico, mas também, o público excluído dele.
Além dessa estratégia, outro artifício linguístico utilizado pelo italiano está em sua estrutura de organização, pois, ao trazer a linguagem dialógica entre as personagens, o cientista, de forma didática, tenta convencer não somente o anti-copernicano Simplício, mas também de forma indireta, o leitor, a aceitar uma nova interpretação da natureza, passando a ideia de que tal entendimento de mundo era algo que não era conhecido e aceitado justamente por não ter sido colocado em pauta. Desta forma, o "Diálogo" apresenta um caráter revolucionário não somente por quebrar a cosmologia aristotélica, mas também por utilizar de artifícios linguísticos para incluir o público no meio científico, fato que representou um perigo para os ideais defendidos pela Igreja Católica, que não demorou para reconhecer isso e intimar Galileu a comparecer no tribunal do Santo Ofício para seu julgamento (DRAKE, 2001, p. 88-89; FEYERABEND, 1977, apud ZYLBERSZTAJN, 1988, p. 44).
Galileu enfrentando a Inquisição Romana - Cristiano Banti (1857) - obra em domínio público.
O julgamento de Galileu Galilei ocorreu em abril de 1633, alguns meses após sua intimação. No tribunal, diversas acusações foram feitas ao italiano, grande parte delas por conta das ideias copernicanas defendidas no "Diálogo" que descumbriam o preceito de 1616 imposto pelo Santo Ofício. Já era certo que o cientista seria culpado por heresia, todavia, ainda não se sabia exatamente qual seria sua pena, essa que poderia ser extrema como foi no caso do italiano Giordano Bruno (1548-1600), que foi condenado à morte na fogueira.
Ao fim do julgamento, com um longo discurso, Galileu, de "coração sincero e fé não fingida" (HAWKING, 2004, p. 52) abjurou de suas ideias heliocêntricas e foi sentenciado a cumprir prisão domiciliar por tempo indeterminado. Existem diversos estudos que demonstram que o italiano aceitou abdicar seus ideais em troca de sua vida, uma lenda diz que Galileu, ao sair do seu julgamento, pronunciou sob sua respiração a frase "Eppur si muove" (ainda sim, ela se move), demonstrando que, embora tenha sido obrigado a negar seus ideais, o italiano ainda acreditava na centralidade do Sol no Sistema Solar e no movimento de translação terrestre (HAWKING, 2004, p. 52-53).
Apesar de se tratar de uma lenda, a frase em questão reflete muito bem o rumo de Galileu Galilei após sua condenação, pois, mesmo estando sob vigilância em prisão domiciliar, o italiano não abandonou seus estudos e sua convicção de que a ciência necessitava de novas interpretações. Pensando nisso, ele dedicou os anos de 1634 à 1638 para a elaboração da obra final de sua vida, essa que recebeu o título Discorsi e dimostrazioni matematiche intorno a due nuove scienze (Discursos e as demonstrações matemáticas relacionadas a duas novas ciências).
Na obra, assim como no "Diálogo", o italiano utiliza a linguagem dialógica entre os mesmos interlocutores (Simplício, Sagredo e Salviati) para o desenvolvimento da conversa, porém, desta vez, as personagens discutem temas como as leis de movimento e a resistência dos materiais. O "Duas Novas Ciências" representa a síntese de todo o trabalho de Galileu Galilei no ramo da mecânica e da estrutura da matéria, as definições de movimento retilíneo e uniforme, da lei de corpos em queda livre e do movimento acelerado (bem como sua fundamentação com experimentos no plano inclinado), por exemplo, são apresentadas nessa obra. Para diversos estudiosos, tais definições serviram como pilar para a formulação das "famosas" leis de Isaac Newton (DRAKE, 2001, p. 102-103; HAWKING, 2004, p. 62).
Após essa última publicação, o cientista passou os últimos anos da sua vida em Arcetri, na Itália, onde morreu em 8 de janeiro de 1642 com 77 anos, o italiano já se encontrava praticamente cego e com alguns problemas de saúde. Mesmo após séculos de sua morte, a vida e as obras de Galileu ainda são estudadas e discutidas e suas contribuições atingem as mais diversas áreas de estudo e manifestação cultural. Visto sua importância para o desenvolvimento da Astronomia, a Aeronautics and Space Administration National (NASA) enviou a Júpiter, no ano de 1989, a sonda espacial "Galileo", a primeira sonda a orbitar o maior planeta do Sistema Solar, sendo uma das missões mais bem sucedidas da história das explorações de planetas.
Além disso, atualmente diversas linhas de pesquisa trabalham com inúmeros temas relacionados a Galileu, tais como: sua vida e seu impacto na história da ciência, a pluralidade metodológica de seus trabalhos, as estratégias linguísticas e os recursos didáticos presentes em suas obras e a influência de sua imagem no meio social e cultural. Portanto, Galileu Galilei se apresenta como um personagem de valor único não somente na ciência, mas também na Filosofia, na linguística, na divulgação científica e no ensino e, para o físico alemão Albert Einstein (1879-1955), "ele [Galileu] é o pai da física moderna - na verdade, da ciência moderna como um todo." (EINSTEIN, 1954, apud HAWKING, 2004, p. 62).
Fotografia da estátua de Galileu Galilei presente no Loggiato degli Uffizi, Florença - obra licenciada pelo direito CC BY-SA 4.0.
Representação artística da sonda "Galileo" passando pela lua de Júpiter - NASA (1996) - obra em domínio público.