Céline Sciamma. Retrato de uma jovem em chamas. 2020.
Texto escrito por Beatriz S Pereira com colaboração de Mateus Macedo, Fevereiro de 2021.
Céline Sciamma. Retrato de uma jovem em chamas. 2020.
Texto escrito por Beatriz S Pereira com colaboração de Mateus Macedo, Fevereiro de 2021.
Os elementos naturais são recorrentes no filme, mas estariam como símbolos para quê?
Ar quando a Héloïse corre, Terra quando a irmã se lança para as pedras e Marianne brinca com a areia, Água quando Marienne salva as pinturas e Héloïse quer descobrir se sabe nadar e boia.
O Fogo costura todos eles, se unindo a imagens do feminino;
Marianne se seca com os quadros em frente a lareira, nua, vemos a sua silhueta de lado; As velas da criada e para auxiliar na visão da pintura; Rapidamente para acender os fumos; A cena na fogueira com todas as mulheres cantando; O aborto em frente a lareira; A recriação do aborto ilustrado, em frente a lareira para auxiliar na visão; A lareira apagada atras de Marianne quando relembra a história e observa o fogo no quadro;
O vislumbre as sombras, sem saber do futuro e da realidade que verdadeiramente a cerca. As sombras tomam forma nos relatos das companheiras de Héloïse refletindo sobre o desconhecido, a situação matrimonial, o amor, o sexo, o amadurecer e abandono da inocência segura.
A morte da Eurídice é constantemente associada ao casamento da Héloïse, que não pode ser alterado, ela já está prometida e é o pontapé para o começo da história, ela é “picada pela cobra de Eurídice”. Assim como no mito, a morte de Eurídice também é o início da jornada e atrelada ao seu casamento.
Orfeu encanta as bestas e monstros com seu dom artístico, Marianne encanta com seus dons artísticos e executa a tarefa mais árdua para seus colegas de ofício.
Sua chance de adeus é a Marianne se voltar para trás como o Orfeu, olhar a amada morta ou, no caso, de noiva.
Os cortes e tratamento da câmera são uma revisita daquele momento, tratados com extrema sutileza pela diretora.
A apresentação das personagens aos poucos, revelando parte por parte de seus corpos rostos, deixando Héloïse ser a última a se revelar.
As cenas com espelho, a forma de retratar o erotismo, a nudez é essencialmente natural, associada a imagens muito brancas, do lençol. A própria brancura do lençol e da cama, que serve ao descanso e ao sexo, serve a tentativa de aborto e se liga ao vestido de noiva, que selou o destino de Héloïse e sua irmã;
A discussão do que é sentir o amar com uma queda abrupta que interrompe qualquer tipo de resolução;
As visões de Héloïse de noiva, assombrando Marianne de forma quase espectral, remetendo de novo a morte de Eurídice e ao fantasma que é o próprio casamento e fim da liberdade;
Uma última cena sem cortes, para mostrar as emoções de uma possível memória relembrada;
Cortes para o momento presente, quando começa a trazer a história, e quando ela termina na sala de aula, com o quadro finalizado.
É uma lembrança pessoal do que viveram, uma resposta ao retrato com livro na página 28.
Ela só pega fogo, não entra em combustão, cauteriza.
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