Memórias do passado recente
Publicado em 6 de Setembro de 2008 por covanca
Agora que falta uma semana, começou a contagem decrescente!
Capítulo I – A Viagem
Para os que ainda não passaram pela "Lomba do Vento" ou pelo alto do Picoto é tempo de fazer as malas. Nesse aspecto a tradição ainda é o que era. À alguns anos atrás, mas não muitos, os carros iam mais ou menos limpos para a viagem… que desperdício. Tínhamos de fazer uns bons 10 km em estrada de terra batida, ou melhor dito, cascalho até chegar a Covanca. A estrada que atravessa a povoação era de calçada, menos mal que as casas escapavam ao pó.
Capítulo II – Falta de água
Não contentes com a situação, ao chegar, havia quem lavasse o carro provocando logo um burburinho entre a povoação dada a falta de água que então se verificava. A expressão “É só para tirar a maior…” era ouvida com regularidade. Voltando à falta de água, problema que se verificou durante uns bons anos, havia racionamento. Cerca de uma hora à hora de almoço e uma outra hora à hora de jantar. Durante a noite supostamente o tanque deveria encher. O que é certo é que de manhã não havia água. Seria culpa das hortas que permaneciam verdejantes em pleno mês de Agosto?
Capítulo III – Primeiras impressões
Ao descarregar sacos e mais sacos dos carros íamos falando com os vizinhos dos próximos dias, que vêm ao nosso encontro. As ruas mostravam alegria, vibravam no ar flores em papel. Estas eram feitas à mão pela povoação, semanas antes, enquanto aguardava e pensava pelo regresso dos seus filhos. O som que se ouvia era o de vozes, normalmente em tom mais alto do que o normal (para quem vem da cidade) e com pronúncia serrana. Caso chegássemos em cima dos dias da festa era bem provável que o som que pairava no ar era o de uma música de Leonel Nunes distorcida pelos altifalantes em forma de sino do século passado. À porta da taberna do Ti Zé Agostinho a rua fervia de vida. Parece que anda vejo um cordão com peles de cabritos que eram encomendados pelo concelho fora.
Continua….
https://covanca.wordpress.com/2008/09/06/memorias-do-passado-recente/
Memórias do passado recente II
Publicado em 13 de Fevereiro de 2009 por covanca
(continuação)
Capítulo IV – As filhoses, a broa e o queijo fresco
Ao entrar por qualquer casa a dentro sentia-se um característico cheiro a fritos, sim estiveram a fritar filhoses! À quem goste delas quentes, mais ou menos bem passadas, com queijo ou marmelada, etc.. para muitos incluindo eu sabiam melhor quando regressava a Lisboa em que vinham em sacos de plástico (não eram do continente), posteriormente o destino era arca. Com sorte duravam mais um mês…
Ao relembrar toda aquela azáfama em redor do alguidar, da fritadeira, ao sair pela porta da cozinha vem logo à lembrança um outro aroma característico de então. Havia um forno, público, mesmo ao lado, o cheiro a lenha queimada e a broa espalhado pela aldeia era mais um sinal que as tradições continuavam. Recordo especialmente as broas pequenas cozidas embrulhadas em couve, mesmo a escaldar apenas com um pouco de manteiga eram um mimo.
Também o que nunca faltava na mesa era o precioso queijo fresco, de cabra é claro. Ovelhas nunca se viram por ali, pelo menos que se soubesse.
Recordo vagamente como se faz… Depois de ordenhar as cabras, trazíamos o leite num recipiente específico para o efeito (sim não sei o nome). O leite era misturado com outro ingrediente que o fazia qualhar depois com ajuda de uma forma eram pressionados esses ingredientes saindo a parte liquida pelos furos da forma. Pena é não saber os termos técnicos mas creio que deu para entender.
Quando, à tarde, vínhamos do rio a fome era mais que muita, as vítimas normalmente eram o queijo fresco e as famosas carcaças trazidas pelo padeiro que vinha às quintas-feiras…
continua…
https://covanca.wordpress.com/2009/02/13/memorias-do-passado-recente-ii/