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Talvez fosse de se esperar que eu começasse pela definição de "filosofia", mas, certo ou errado, não me proponho a tal. A definição de "filosofia" variará segundo a filosofia que adotarmos; para começar, diremos apenas que há certos problemas, julgados interessantes por certas pessoas, mas que não pertencem, pelo menos até agora, a qualquer uma das ciências especiais. Esses problemas são de molde a levantar dúvidas a respeito do que comumente se entende por conhecimento; e se as dúvidas requerem resposta, esta virá unicamente por meio de um estudo especial, a que denominamos "filosofia." Portanto, o primeiro passo para definir "filosofia" está na indicação de tais problemas e dúvidas - e será também o primeiro passo no verdadeiro estudo da filosofia. Entre os tradicionais problemas da filosofia, há alguns que não parecem merecer, em minha opinião, tratamento intelectual, por transcenderem nossa capacidade cognitiva; desses problemas não cuidarei. Existem outros, porém, para os quais, embora não seja possível encontrar-se solução definitiva neste momento, pode-se indicar o rumo para uma busca de solução, e o tipo de solução que, em tempo oportuno, venha a se revelar possível.
A filosofia origina-se de uma tentativa obstinada de atingir o conhecimento real. Aquilo que passa por conhecimento, na vida comum, padece de três defeitos : é convencido, incerto e, em si mesmo, contraditório. O primeiro passo rumo à filosofia consiste em nos tornarmos conscientes de tais defeitos, não a fim de repousar, satisfeitos, no ceticismo indolente, mas para substituí-lo por uma aperfeiçoada espécie de conhecimento que será experimental, precisa e autoconsistente. Naturalmente, desejamos atribuir outra qualidade ao nosso conhecimento : a compreensão. Desejamos que a área de nosso conhecimento seja a mais ampla possível. Isto, no entanto, é mais da competência da ciência que da filosofia. Um homem não vem a ser necessariamente melhor filósofo graças ao conhecimento de maior número de fatos científicos; são os princípios e métodos, e as concepções gerais, que ele deva apreender da ciência, caso a filosofia seja matéria de seu interesse. A missão do filósofo é, a bem dizer, a segunda natureza do fato bruto. A ciência tenta agrupar fatos por meio de leis científicas; estas leis, mais que os fatos originais, são a matéria-prima da filosofia. A filosofia envolve uma crítica, do conhecimento científico, não de um ponto de vista em tudo diferente do da ciência, mas de um ponto de vista menos preocupado com detalhes e mais comprometido com a harmonia do corpo genérico das ciências especiais.
As ciências especiais desenvolveram-se pelo uso de noções derivadas do senso comum, tais como coisas e suas qualidades, espaço, tempo e causalidade. A própria ciência tem demonstrado que nenhuma dessas noções baseadas no senso comum presta-se completamente à explicação do mundo; nenhuma ciência tem atribuição de empreender a necessária reconstrução de fundamentos. Isto deve ser matéria da filosofia. Quero dizer, desde logo, que acredito ser este um empreendimento da maior importância. Acredito que os erros filosóficos nas crenças do bom senso não somente produzem confusão na ciência, como também prejudicam a ética e a política, em instituições sociais, e a conduta de todos na vida diária.
Não faz parte de meu mister, neste volume, apontar os efeitos práticos de uma má filosofia : minha missão será puramente intelectual. Mas, se estou certo, as aventuras intelectuais já, empreendidas têm efeitos em muitos rumos que parecem, à primeira vista, bastante remotos em relação ao nosso tema. 0 efeito de nossas paixões em nossas crenças constitui assunto favorito dos psicólogos modernos; porém o efeito inverso, de nossas crenças sobre nossas paixões, também existe, embora não admitido por uma psicologia intelectualista antiquada. Ainda que eu não pretenda discuti-lo aqui, devemos tê-lo em mente, a fim de convir que nossos debates podem abranger matérias além da esfera ao intelecto puro.
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Nenhum dos problemas que levantamos são novos, bastam para indicar que nossas opiniões cotidianas sobre o mundo e nossas relações com ele são insatisfatórias. Estivemos a indagar se conhecemos isto ou aquilo, mas ainda não perguntamos o que é "conhecer". Talvez descobríssemos ter idéias erradas a respeito do conhecimento, e que nossas dificuldades crescem menos quando dispomos, neste particular, de idéias mais corretas. Penso que deveríamos iniciar nossa jornada filosófica pela tentativa de compreender o conhecimento como parte da relação do homem com sua ambiência, esquecendo, por enquanto, as dúvidas fundamentais que estivemos a considerar. Talvez a ciência moderna nos capacite a ver problemas filosóficos sob uma nova luz. Nessa esperança, vamos examinar a relação do homem com o seu meio, com o intuito de chegar a uma visão cientifica do que constitui o conhecimento.
In Russell, B. (1977): Fundamentos de Filosofia, Rio de Janeiro: Zahar, pgs. 7-20
( Texto integral disponível em Domínio Público)
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