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Texto 1:
A importância da Filosofia
Como todos os seres vivos, nascemos e morremos. Mas, diferente dos demais animais, perplexos diante da existência, perguntamos: qual o sentido da vida? A morte é o fim de tudo ou existem outras formas de existência? Que mundo é esse? Quem somos nós? Será que existe um deus que nos criou? Ou fomos nós que o criamos? Somos frutos do acaso ou filhos do destino? Temos algo de divino ou somos apenas reles mortais? Será que somos os mais inteligentes dos seres, já que somos os únicos a desenvolver uma técnica que nos possibilita atravessar os mares, voar pelos céus e dominar toda a superfície do planeta terra? Ou somos simplesmente os animais mais egoístas, vaidosos e pretensiosos, os mais incapazes de viver em harmonia com a Natureza? Seremos os seres mais evoluídos ou os mais destrutivos???
Esse tipo de indagação todos nós – pipoqueiros, sorveteiros, pescadores, agricultores, intelectuais, artistas, médicos, advogados, filósofos doutores e pós-doutores etc. – fazemos. Uns, com mais frequência, intensidade e complexidade, outros, com menos. Uns, com muito mais inquietação e curiosidade, outros, com muito menos. A diferença é apenas de grau, no fundo, todos nós, humanos, temos algo de filósofo, algo que nos leva a refletir e a questionar o que vivenciamos. Mesmo quem nunca pisou numa escola ou numa universidade, até quem não sabe ler e escrever, é um pouco filósofo, na medida em que tem seus momentos de questionamentos e devaneios.
Apesar de todos sermos mais ou menos filósofos, a Filosofia como ciência é, a princípio, hermética e incompreensível aos não “iniciados”. É um saber abstrato que se constrói a partir de palavras, juízos, raciocínios, ideias e teorias. Suas células primordiais são os conceitos: construções teóricas elaboradas pelos filósofos. Por isso, não é algo corriqueiro adentrar neste mundo invisível, impalpável e que não está em lugar algum – a não ser nas mentes de quem pensa. Distinta das outras Ciências Humanas, o objeto da Filosofia não é um “objeto”, não é nada em particular e pode ser qualquer coisa em geral. Pode ser um aspecto da realidade e pode ser a realidade em sua totalidade e eternidade. O exercício filosófico é um exercício de reflexão. A Filosofia olha para o próprio olhar, nas palavras de Aristóteles, “a filosofia é pensamento que se pensa”, é reflexão sobre o próprio pensar”.
( Texto de Fernanda Bulhões em: BULHÕES, F. Ensaios Filosóficos, Volume XIV– Dezembro/2016)
Texto 2 :
A cidade feliz
A reflexão aristotélica sobre a política não se separa da ética, pois a vida individual está imbricada na vida comunitária. Se Aristóteles conclui que a finalidade da ação moral é a felicidade do indivíduo, também a política tem por fim organizar a cidade feliz.
Por isso, diante da noção fria de justiça proposta por Platão, Aristóteles considera que a justiça não pode vir separada da philia. A palavra grega philos, embora possa ser traduzida por "amizade", é um conceito mais amplo quando se refere à cidade. Significa a concordância entre as pessoas que têm ideias semelhantes e interesses comuns, donde resulta a camaradagem, o companheirismo. Daí a importância da educação na formação ética dos indivíduos, preparando-os para a vida em comunidade.
A amizade não se separa da justiça. Essas duas virtudes se relacionam e se complementam, fundamentando a unidade que deve existir na cidade. Se a cidade é a associação de homens iguais, a justiça é o que garante o princípio da igualdade. Justo é o que se apodera da parte que lhe cabe, é o que distribui o que é devido a cada um. Mas é preciso lembrar que Aristóteles não se refere à igualdade simples ou aritmética, mas à justiça distributiva, segundo a qual a distribuição justa é a que leva em conta o mérito das pessoas. Isso significa que não se pode dar o igual para desiguais, já que as pessoas são diferentes.
A justiça está intimamente ligada ao império da lei, pela qual se faz prevalecer a razão sobre as paixões cegas. Retomando a tradição grega, a lei é para Aristóteles o princípio que rege a ação dos cidadãos, é a expressão política da ordem natural. Mesmo considerando a importância das leis escritas, Aristóteles valoriza o direito informal (ou seja, das leis não-escritas, compreendidas pelos costumes dos cidadãos): "Com efeito, de nada serve possuir as melhores leis, mesmo que ratificadas por todos cidadãos, se estes últimos não estiverem submetidos a hábitos e a uma educação presentes no espírito da Constituição" ( Texto de Maria Arruda Aranha no livro Filosofando)
Texto 3:
A grandeza do conhecimento
“O pensamento faz a grandeza do homem. (...) O homem não passa de um caniço, o mais fraco da natureza, mas é um caniço pensante. Não é preciso que o universo inteiro se arme para esmagá-lo: um vapor, uma gota de água, bastam para matá-lo. Mas, mesmo que o universo o esmague, o homem seria ainda mais nobre do que quem o mata, porque sabe que morre e a vantagem que o universo tem sobre ele; o universo desconhece tudo isso.” (Pascal)
O conhecimento, a racionalidade, nos tornam humanos e superiores aos outros seres. Como diz Pascal, o homem é frágil, um grão de matéria no universo, mas esse “quase nada” pensa, raciocina, conhece. A importância do conhecimento é imensa. Tanto, que vamos examinar três razões por que necessitamos dele.
Conhecer para satisfazer a curiosidade: É o espanto, a surpresa perante o “novo” que desencadeia nossa atividade intelectual. Começamos a pensar quando estamos diante do não-familiar, do estranho. Como seres racionais, impõe-se a nós a necessidade de entender, de ter uma explicação. Essa necessidade já se faz sentir na conhecida curiosidade infantil. Desde cedo, a criança quer saber o “o quê”, o “como” e o “porquê” das coisas. E carregamos essa curiosidade conosco a vida toda.
Negar respostas aos homens é desrespeitá-los em sua própria natureza. A ignorância é talvez a raiz de todos os outros males, porque fere o homem no que é mais específico: A racionalidade. Daí a gravidade social do descaso pela educação: Ele impede a democratização do conhecimento, o acesso à consciência das condições de vida dos indivíduos e de como melhorá-las… Daí também a grande injustiça social representada pela manipulação das informações, pela massificação dos meios de comunicação, que tiram do indivíduo o direito de livre escolha, já que ele fica sem condições de optar corretamente.
Como seres racionais, cabe-nos o direito de possuir dados objetivos para analisar. Nosso comportamento não pode ser a simples manifestação do que nos condicionam a responder, como acontece com o cachorrinho usado nos experimentos de Pavlov*.
Conhecer para se sentir seguro:O espanto perante o “novo” gera angústia, por não sabermos como nos afeta a realidade desconhecida. Observe como nos sentimos num “ambiente estranho”; como nos sentimos antes ou durante um “primeiro encontro”; como se sentem pessoas com “doenças ainda não curáveis”; ou como nos sentimos em relação ao “pós-morte”. Nossa segurança psicológica baseia-se na posse de informações objetivas que nos permitem dominar a realidade à nossa volta.
A desinformação e a falta de incentivo ao conhecimento, à reflexão e à análise constituem a forma mais cruel de manter o homem e sociedades inteiras assustados e angustiados em sua ignorância. Nessas condições, não há crescimento humano possível, pois o homem está encurralado e o papel de sujeito está vago! Infelizmente, há os que preferem manter o povo assim, acreditando que, “gado assustado segue o chicolte…”.
Conhecer para transformar: Conhecer é para o homem uma questão de sobrevivência. Como vimos, os seres vivos para sobreviver, em geral adaptam-se ao meio. Conhecendo o meio, o homem adapta-se a ele e o transforma. Observe, por exemplo, a arte de morar. Nossos ancestrais, ao procurar uma proteção segura contra o vento, o sol, a chuva, o frio, começaram a fazer simples abrigos, à semelhança das casas do joão-de-barro.
Hoje a casa do homem tem iluminação elétrica, a água corrente (quente e fria!), dezenas de andares, escadas e elevadores, paredes de aço e concreto, calefação central e ar refrigerado. A casa do joão de barro, porém, sequer tem portas! Tem permanecido inalterável ao longo das eras! O joão-de-barro não entende, não explica, não transforma: apenas adapta-se.
Maravilhosa racionalidade a nossa! Mas frustrada existência humana! Sim, pois a qualidade de vida dos homens melhora com as transformações que fazemos. Invenções e recursos técnicos facilitam nossa vida. Só que a maior parte da humanidade ainda não tem acesso sequer aos bens mínimos necessários à vida.
*Pavlov (1849 - 1936), fisiologista russo, ficou famoso por seus estudos sobre reflexo condicionado, em que a experiência típica consiste em tocar uma campainha (estímulo) no momento em que se dá alimento ao cachorro. Isso se repete por várias vezes (pelo menos trinta), até que o simples toque da campainha - sem a presença do alimento - é suficiente para provocar a secreção salivar (reflexo) no cachorro. Pavlov provou também que o reflexo ocorre mesmo quando o estímulo é doloroso.
Texto de Antônio Raimundo dos Santos no livro Para Filosofar - Editora Scipione - SP - 1996 (Pág. 32 - 34)
Pavlov - Experimento