Cerca de 42 anos depois, Jorge ainda tem uma sensação diferente ao passar pela avenida. Ele vê as casas de agora, mais modernas, diferentes, e tenta identificar qual seria o local exato do ocorrido após tantas mudanças. "Na época da explosão, as casas eram bem humildes, tinha uma vila de casas... então, quando a gente passa, a gente fica tentando lembrar qual é realmente o ponto da explosão". O dia do seu primeiro e último resgate ainda é vivo em sua memória, mas estas não são boas lembranças.
Para Antônio, lembrar do passado é “angustiante”, porque nem todas as memórias são boas. Se fossem, “seria uma maravilha”. No entanto, embora afirme que o acontecimento precisa ser deixado para trás, ele aponta a necessidade de aprendizado com a experiência vivida. A explosão foi para si um “marco de atenção”, um olhar mais atento e cuidadoso para o lugar que ocupa e também para a sua vizinhança, pois não deseja que ninguém passe pelo que passou. “Quem souber que tem, vizinho à sua casa, alguém trabalhando com fogos e, principalmente, com fogos pesados, denuncie. Denuncie o mais rápido possível pra não chorar lágrimas de sangue depois”, aconselha.
Adelaide compartilha desse cuidado, ela diz que "apesar da modernidade de hoje, o perigo continua". Quarenta e dois anos não são suficientes para apagar da memória as dores e os traumas daquela noite. "Até hoje eu tenho medo de fogos. Eu não posso ver um chiado que eu já fico querendo saber qual a origem pra saber pra que lado eu vou correr... É uma tradição da terra, as pessoas tem que usar com responsabilidade.", ressalta.
Rose Mary diz que relembrar é triste, "mas ao mesmo tempo são lembranças, coisas que a gente passou, que aconteceu...". Ela conta que a avenida daquele tempo não tinha tantos comércios como a de agora. Era uma avenida nova, recém aberta. "Não era asfaltada, não tinha calçamento, nada...", diz. Depois da abertura, aos poucos, foi que vieram a construção de casas, de conjuntos. Uma avenida que "todo mundo se conhecia" e um dos costumes era ficar na porta de casa, conversar, ver o movimento da rua. Para Rosângela, a estrutura da avenida melhorou. "Hoje é uma das avenidas mais bonitas... Hoje, aqui, particularmente, nessa parte que eu moro, o canteiro é todo florido... é bem desenvolvida em relação a comércio também, muita parte comercial aqui, tem restaurante, tem loja, tem muita coisa aqui.", conta.
Os irmãos Edson, Ivone e Edna recordam do tempo em que boa parte da vizinhança se reunia no armazém do pai deles para assistir à televisão, aparelho raro para a época. Era preciso guardar lugares para conseguir sentar. "Nem via a imagem direito, tinha que botar bombril, essas coisas... quando chegava na hora do comercial todo mundo ia embora", conta Ivone.
A avenida tem muitas histórias, assim como o acontecimento. As memórias contam sobre aquilo que os seus donos viveram e como eles se sentiram e enxergaram o ocorrido. São memórias individuais, mas também coletivas, conectadas por um passado difícil de esquecer. São memórias que não começam e não terminam na explosão de 1980, mas que, de alguma forma, passam por ela. Antônio, por exemplo, diz que não dá pra construir um presente sem ter um passado: "Como você vai subir em degraus se você não tem? Se você já não fez um? E ele não é de agora, é de ontem, antes de ontem, de dez anos, cem anos atrás... sei lá, mas é um degrau.".
Hoje, Antônio já está aposentado, com alguns degraus construídos e cicatrizes que deixam um rastro na memória e no coração, mas faz do passado um ensinamento - o degrau construído há 42 anos. Ele não é de lembrar da tragédia a todo o tempo, mas faz questão de passar adiante as suas lembranças, assim como Rose e tantos outros que contam para suas filhas, filhos, amigos, parentes ou conhecidos, um pouco da história que marcou a avenida e da avenida que marcou as suas histórias.