Durante o Sarau da 34ª Semana de Letras, realizado no dia 28 de setembro de 2022, foi divulgado os 3 poemas vencedores do Concurso de Poesia, são eles:
1º lugar: "Brecht Nordestino", de Charlys Mila Teixeira Vieira
2º lugar: "Rumo ao mar de Xaraés", de Eleno Florencio da Silva
3º lugar: "Grave Lesão", de Ana Beatriz Soli
Segue abaixo os poemas selecionados:
BRECHT NORDESTINO
Bora falá de um cabra, arretado feito a peste
Esse cabra se chamava Bertold Brecht
Rapaizin véi valente, fez prosa, foi repente
Trabalhou por sua gente e nunca se fez contente
Olha que lhe botaram fora de sua terra
Leriado invocado, pois deixou o hômi é danado, com vontade de ir pra guerra
Tomou de sua caneta, escreveu feito o cão
Batalhô com uma arma feita pela própria mão
Rabiscô o que tinha no quengo, deu ao povo armamento, foi um verdadeiro
lampião
E o povo foi pra luta, contra toda e qualquer opressão
Chega de seca e de fome, chega de coroné e de patrão
Hômi eu te digo, aqui comigo tive um atino
Tá é escrito, se fosse brasileiro, Brecht era nordestino.
(Mila)
Rumo ao Mar de Xaraés
Fiz uma canoa
De casca de jatobá
Remar rumo ao pantanal
Esse imenso, meu mar
O aguapé florido
A paisagem adornou
E um jacaré fingido
Como quem nem me notou
Boiou uma ariranha
De longe a me espiar
Saboreando uma piranha
Já é hora de almoçar
As margens do Rio Taquari
Segui vagarosamente a remar
Avistei uma majestosa sucuri
Que estava a digerir
Acabara de almoçar
Pra falar a verdade a fome chegou
Pensei no arroz de carreteiro
Senti até o cheiro e o inesquecível sabor
Aquele prato bem caprichado
Que o pantaneiro preparou
Adiante encontrei um velho caipira
Que me convidou para um tereré e prosear
Mostrou-me um pacu e uma traíra
Os peixes que conseguiu pescar
Ele puxou uma viola de cocho
Começou a pontear
Eu canto e conto estórias seu moço
Dos pescadores desse lugar
Aqui é tranquilo demais
Tanto que passa o vento
E o tempo fica para trás
E nesse meu barco sem convés
Sigo nessas águas de poucas marés
Que calmamente desaguam
No Mar de Xaraés
Eleno Florencio da Silva
GRAVE LESÃO
estrela de
cadente
à luz do escândalo
fruto de cansaço e sadismo
bichada desde o início
o meu produto fim de estação
mística teratológica
transtornada entre paredes
onde, por vezes, sou sã
n’arte psicótica em transe
de cores amarelas
vermelhas ou verdes
o meu divã
Poema ilustrado por Ana Beatriz Soli
Releitura de “A Estudante” (1916), de Anita Malfatti, e “A propósito da exposição Malfatti" (1917), de Monteiro Lobato.