E a gratificação só revelou...
Olha em volta...
Não é só uma gratificação.
Não é só um valor no contra-cheque.
Não é só quatro mil e quinhentos de um lado e promessa de curso do outro.
Isso aqui é mais fundo, mais velho, mais podre, mais estrutural.
A gratificação não criou a ferida.
A gratificação puxou o curativo.
E o que apareceu... Uma universidade que fala em excelência com a base exausta.
Que fala em valorização, com técnico trabalhando por três...
Que fala em inclusão, com estudante pobre sobrevivendo por bolsa.
Que fala em pertencimento, com terceirizada pagando pra circular dentro do próprio local de trabalho.
Que pertencimento é esse? Que inclusão é essa? Que excelência é essa? Que pisa no chão limpo por quem não pode nem sentar na mesa...
Porque o trabalho que a USP deixou de contratar... não sumiu, não evaporou... Virou banco de horas, virou ponte, virou recesso compensado, virou pool, virou remanejamento, virou centralização, virou mobilidade interna, virou nome bonito da violência administrativa. Menos gente, mais setor, mais tarefa, mais pressão, mais controle, mais tempo arrancado, mais corpo adoecido...
E ainda querem chamar isso de valorização. Valorização pra quem?
Porque quando é pra docente tem resolução, tem pressa, tem assinatura, tem dinheiro. Quando é pra técnico, tem comissão, tem estudo, tem análise, tem talvez, tem depois, depois, depois, depois...
Mas o adoecimento é agora.
A humilhação é agora.
A sobrecarga é agora.
O trabalhador com 30, 35, 40 anos de USP, sendo jogado de um lado pro outro, como peça de reposição.
É agora... na Odonto, Isso tem nome, tem rosto, tem clínica, tem laboratório, tem secretaria, tem técnico antigo sendo tratado como sobra. Tem estudante do noturno sendo empurrado pro diurno.
Tem permanência virando expulsão lenta.
Tem estágio que parece estágio no papel e função de servidor na prática.
E lá embaixo, mais embaixo ainda, estão as mãos invisíveis.
As que limpam, as que cozinham, as que transportam, as que vigiam, as que abrem, as que fecham, as que sustentam tudo, sem pertencer a nada...
A universidade usa essas mãos, mas não reconhece esses corpos.
Quer o trabalho, não quer o sujeito.
Quer a função, não quer o direito.
Quer a limpeza, mas não quer a presença.
Quer a circulação, mas não quer dar o buspe.
Então não. A nossa luta não é inveja de gratificação.
A nossa luta não é pedir migalha equivalente.
A nossa luta é contra o modelo.
O modelo em que o topo aparece, a paz e desaparece... O modelo em que o cérebro dá excelência, se apoia num corpo cansado, sobrecarregado.
Terceirizado, descartável.
A Gratificação foi a faísca.
Mas o rastro de querosene Já vinha sendo derramado há anos, e talvez seja isso que esteja em jogo agora.
Não só uma greve, mas o fim de um ciclo. O ciclo do arrocho, da centralização, da falsa modernização, da excelência às custas do esgotamento alheio.
Então escuta bem...
Não existe universidade de qualidade, com trabalhador tratado como variável de ajuste.
Não existe inclusão real, com permanência sob pressão.
Não existe valorização real, sem contratação.
Não existe pertencimento, onde reina a segregação.
E é por isso que a greve incomoda... Porque ela falou que não podia ser dito
Porque ela mostrou o que não podia aparecer.
Porque ela encostou o dedo na ferida que a reitoria queria chamar de gestão.
Mas a base cansou, e quando a base cansada fala, o prédio inteiro escuta... O prédio inteiro escuta.
Autor desconhecido