Os membros do Movimento elaboraram um texto a ser lido na última reunião da Congregação, com o objetivo não apenas de apresentar as pautas da greve, mas também de dar visibilidade às demandas gerais da Universidade — muitas delas frequentemente invisibilizadas. Confira abaixo o conteúdo do texto...
Prezados docentes e membros desta Congregação,
A USP orgulha-se de seus rankings, mas nos bastidores, a engrenagem que sustenta essa excelência está desgastada pela desigualdade. Os professores, são os responsáveis pela gestão de quase todos os setores desta casa e detêm a maioria nos conselhos deliberativos. Portanto, a manutenção das desigualdades que citarei a seguir é, em última instância, uma escolha de gestão.
1. Segregação e hierarquia: sabemos que a hierarquia existe em qualquer instituição, mas na USP, essa estrutura estimula uma segregação que coloca os funcionários como "colaboradores menores". Esse antagonismo cultivado cria um ambiente fértil para o desrespeito e, frequentemente, para o assédio moral.
2. Pagamentos de horas de pontes e recessos: funcionários são obrigados a compensar horas de recessos e pontes com o desconto no vale-refeição. Enquanto professores podem desfrutar destes momentos com suas famílias sem preocupação.
3. Desigualdade nas diárias: enfrentamos a disparidade nas diárias entre auxiliares, técnicos e especialistas e docentes. O custo de vida em uma viagem de trabalho é igual para todos; por que o valor da alimentação e estadia deve ser menor para quem ganha menos?
4. Projetos de extensão e a GACE: muitos projetos nascem de ideias de funcionários, são escritos e integralmente executados por eles, mas precisam de um "padrinho" docente para existir burocraticamente. E mesmo naqueles projetos idealizados por professores, a execução recai invariavelmente sobre os ombros de alunos e funcionários técnico-administrativos, entretanto, o prêmio e o reconhecimento vão para o docente, e agora, a GACE, segue sendo exclusiva aos docentes.
5. Carreira: a USP sabe fazer carreira para seus docentes, com critérios claros e progressões objetivas. Mas para o funcionário, a realidade é o descaso e um constante "elaborar sem fim" com recursos escassos. Enfrentamos dificuldades imensas para liberação de estudos e, mesmo quando conseguimos nos titular, esse esforço não se reflete em progressão ou melhoria salarial. A Universidade que ensina o Brasil a crescer, impede que seus próprios trabalhadores cresçam dentro dela.
6. Outras distorções: participação em comissões que geram pontuação para docentes progredirem na carreira, mas não geram para os funcionários, em parte porque sequer dispomos de uma carreira estruturada. A USP valoriza o trabalho burocrático/administrativo quando é feito pelo professor, mas o desvaloriza quando é feito por quem é profissional da área administrativa. Funcionários de nível básico assumindo grandes responsabilidades com alunos de graduação por meio das Atividades Curriculares Complementares (ACCOM) com atribuições que possuem caráter formativo, aproximando-se, em diversos aspectos, das atividades desempenhadas por docentes. Funcionários de nível básico e técnico com doutorado que orientam alunos de TCC, mesmo que de forma voluntária, e não têm o reconhecimento da Universidade.
Senhores Conselheiros,
A isonomia não deve ser um tema que nós, funcionários, precisamos vir aqui "implorar" todos os meses. Ela deveria ser uma bandeira defendida por vocês, que gerem este orçamento e estes setores. Não há excelência em uma universidade que prega a democracia para fora, mas pratica a segregação para dentro.
Esperamos que esta Congregação avance no sentido de reconhecer os funcionários não como um custo, mas como parte essencial da construção coletiva que é a USP, e que contribua para que tenhamos as mesmas condições de crescer e nos desenvolver nesta Universidade.
Trabalho igual, dignidade igual.
Muito obrigado.