Desenho . Diapositivos
19 de maio a 14 de Junho de 2018
Transvasar à repetição algo novo, transvasar-lhe a diferença, é este papel da imaginação ou do espírito que contempla nos seus estados múltiplos e fragmentados.
Deleuze (2000, p.149)
Em Um Desenho na Areia de João Paulo Queiroz, os desenhos repetem-se e diferem em tempo, mas não em espaço. Cada uma das suas séries torna-se uma experiência estética de lugar in loco, durante um certo período de tempo, no Verão. O artista tem vindo a realizar várias experiências contemplativas da natureza através de um olhar perceptivo, partindo, de certo modo, do corpo, enquanto espectador e sensação.
A praia revelou-se um dos seus lugares eleitos, para realizar esta performance estética da paisagem, segundo uma fenomenologia da percepção, mas numa «mediação», tal como Deleuze designava: «o conjunto destes princípios forma a experiência da diferença como diferença conceptual ou o desenvolvimento da representação como mediação». (Deleuze, 2000, p. 57).
Esta experiência como fenomenologia do espaço é registada como se fosse uma «dimensão espaço-temporal», que se expande através dum olhar sobre a curvatura espacial da percepção da coisa, a praia. Em cada topo do desenho, assinala «três grupos de algoritmos», tal como afirma o artista, que significam o dia, o mês e o ano. As letras que se seguem em baixo representam a ordem temporal de cada dia (a título de exemplo, a letra “a”, “b”, “c”, “d” e assim por diante), que consistem em 31 desenhos na sua totalidade. O artista repete o gesto e o movimento, mas apresenta a diferença do momento temporal como um sistema da experiência entre o corpo e o objecto, a natureza, tornando, assim, possível a abertura do espectador para o «mundo total» (Merleau-Ponty, 1999).
Tal como afirma Merleau-Ponty (1999, p. 408): «a percepção do mundo é apenas uma dilatação do meu campo de presença, (…) aqui o corpo permanece sempre agente e nunca se torna objecto». João Paulo Queiroz sente o corpo como experiência espacial e temporal. A dificuldade de concretizar a obra devido às condições físicas e climatéricas, leva o artista a sentir o próprio corpo e o objecto, enquanto natureza e material, em que a técnica produzida através dos pastéis de óleo sobre papel capta as diversas nuances e passagens da luz e sombra como sendo inerentes à cor, mas também a forma e a leveza inscritas sobressaem na construção do fenómeno. Nesta percepção da coisa, contemplamos a distinção entre a aparência e o objecto, enquanto síntese do lugar, na instalação Evidências.
Joana Consiglieri, 2018.
19th of May to 14th of June 2018
Transfer something new to repetition, to change it to difference, is this the role of the imagination or spirit contemplated in its multiple and fragmented states.
Deleuze (2000: 149)
Um Desenho na Areia, 2017 [A drawing in the sand] by João Paulo Queiroz, shows how drawings repeat themselves and differ in time, but not in space. Each of its series becomes an aesthetic experience of place in loco, during a certain period of time, in the summer. The artist has performed several contemplative experiences of nature through a perceptual look, starting with of the body as a spectator and sensation.
The beach comes out as one of his elect places to achieve this aesthetic performance of the landscape. According to a phenomenology of perception, but in a "mediation", like Deleuze designates it: ‘the set of these principles forms the experience of difference as conceptual difference or the development of representation as mediation.’ (Deleuze, 2000: 57).
This phenomenological experience of space is recorded as if it were a 'space-time dimension', which expands through a look at the spatial curvature of the perception of the thing, the beach. At each top of the drawing he points to "three groups of characters", as the artist asserts, which signify the day, the month, and the year. The letters below represent the temporal order of each day (such as the letter "a", "b", "c", "d" and so on), which consist of 31 drawings in its totality. The artist repeats gesture and movement, but presents the difference of the temporal moment, as a system of experience between the body and object, and nature. Thus making it possible for the openness of the viewer into the "whole world" (Merleau- Ponty, 1999).
As Merleau-Ponty (1999: 408) affirms: ‘the perception of the world is only a dilation of my field of presence, (...) here the body remains an agent and never becomes an object.’
João Paulo Queiroz feels the body as a spatial and temporal experience. The difficulty of concretizing the work due to physical and climatic conditions, leads the artist to feel his own body and object as nature and material, in which the technique produced with oil pastels on paper captures the various nuances and passages of light and shadow as being inherent in colour, but also the form and lightness inscribed bring us into the construction of the phenomenon. In this perception of the ‘thing’, we contemplate the distinction between the appearance and the object, as synthesis of the place, in the installation Evidences.
Joana Consiglieri, 2018.