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Gamecorp e a estratégia de defesa de Dantas              para enviar informações  para comentar

No dia 16 de maio de 2006,  sob fogo cruzado - depois de seu dossiê sobre as "contas secretas" de autoridades no exterior ter sido desmascarado -, Daniel Dantas concedeu entrevista à "Folha de S. Paulo" (leia aqui e aqui). Foi uma entrevista, como se denomina no jargão jornalístico, para "levantar a bola".

A repórter levantou duas bolas para Dantas cortar. O que significava que os dois argumentos foram selecionados por Dantas como os mais significativos de sua estratégia de ataque-defesa.

Um deles, o caso do investimento da Telemar na Gamecorp - empresa de jogos eletrônicos, da qual o filho de Lula é um dos sócios. O outro, a atuação do ex-presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Edson Vidigal, que concedeu liminares aos cotistas da CVC-Opportuniy, permitindo que retomassem o controle das mãos de Dantas.

Era uma entrevista defensiva, que sintetizava os dois principais argumentos de defesa. Através deles, Dantas pretendia provar que estava sendo vítima de perseguição política do governo.

Nem se entre, por enquanto, no mérito das denúncias. Nem vamos colocar nessa trama o papel do Ministro Antonio Pallocci - que, na entrevista, Dantas afirma ter trabalhado por sua destituição. Apenas chamar a atenção para o fato de que, naquele mesmo período, de herói da estabilidade, para a Veja, em pouco tempo Palocci se transformou em vilão. Passou a ser alvo de campanha cerrada, até sucumbir ao seu próprio ato criminoso de quebrar o sigilo do caseiro.

Por ora, vamos rever como Veja tratou do caso Gamecorp e Edson Vidigal nos anos anteriores, justo naqueles meses de 2005 em que se consolidou sua ligação com Dantas.

Nesse capítulo, o caso Gamecorp; no próximo, o caso Edson Vidigal.

A ginástica da Gamecorp

Como vocês se recordam, da leitura do capítulo anterior, o último ataque de Veja a Dantas foi no dia 18 de maio de 2005; a primeira defesa ostensiva, no dia 15 de junho de 2005.

No dia 4 de agosto de 2005 publiquei uma coluna em que revelava que a ida a Lisboa de Marcos Valério - o publicitário do "mensalão" - tinha sido a serviço de Dantas, e não de Lula, como insinuado em algumas notas de jornais (clique aqui).

A agência de Valério era contratada da Telemig Celular - controlada pelo banqueiro. Pouco tempo antes houve uma reunião entre o staff de Dantas e dirigentes brasileiros da Portugal Telecom (controladora da Vivo), onde lhes foram oferecidas as empresas Telemig Celular e Amazônia Celular.

Havia razões para essa ofensiva de Dantas. 

No dia 12 de abril de 2005, o Citigroup havia entrado com uma ação de perdas e danos contra Dantas na corte de Nova York (clique aqui).

Em maio de 2005, o presidente do Superior Tribunal de Justiça cassara a liminar que impedia a realização da Assembléia Geral Extraordinária do CVC-Opportunity - o fundo que controlava a Brasil Telecom -, na qual Dantas seria destituído.

O banqueiro corria contra o relógio para vender o controle das duas empresas, antes que perdesse o poder de mando sobre elas

Era esse o ambiente na época quando escrevi sobre Dantas. 

Dez dias depois, no dia 14 de agosto de 2005 recebi o primeiro ataque de Diogo Mainardi. O pretexto foi uma nota em que criticava seu procedimento de ter revelado a identidade de uma fonte depois de lhe ter garantido o “off”. Era apenas um parágrafo no qual seu nome sequer era citado.

A reação foi desproporcional. O titulo da coluna de Mainardi era agressivo: “Chega de ética, Nassif”. O intertítulo, mais ainda (clique aqui). 

A profusão de acusações lançadas - dentro do padrão Veja - mostrava que a intenção não era apenas polemizar: era claramente praticar uma "assassinato de reputação".

Me acusava de ter feito um "panegírico apaixonado" a uma empresa que patrocinava o site do Projeto Brasil; de ter defendido o investimento da Telemar na Gamecorp em retribuição a uma campanha publicitária veiculada em meu site pelo BNDES; e de copiar e-mail de Luiz Roberto Demarco, o arqui-inimigo de Dantas. Os ataques encaixavam-se plenamente na definição de "assassinato de reputação" das guerras empresariais ou políticas.

Pesquisando nos arquivos da "Folha" descobri que, uma vez, em quatro anos, escrevi um elogio de duas palavras ao fundador da empresa: ele tinha montado uma "gestão inovadora". E nada mais.

Não havia relação causal entre a campanha do BNDES e meu artigo sobre a Gamecorp. Apesar de sócio da Telemar, o banco  não tem por norma participar de decisões de investimentos de nenhuma empresa da qual seja acionista - menos ainda em valores tão insignificantes (para o porte da Telemar) quanto o que foi aportado na Gamecorp. E a campanha do BNDES, de apenas um mês, tinha sido montada especificamente para sites na Internet, e contemplado dezenas deles.

Como Mainardi jamais havia escrito sobre tema intrincado como esse, era óbvio que estava sendo "cavalgado" por Dantas, que lhe entregara o dossiê pronto. Aliás, como em praticamente todas as colunas que escreve sobre disputas empresariais.

As impressões digitais de Dantas eram tão óbvias que no dia 16 de agosto de 2005 respondi ao ataque de Mainardi em minha coluna, na própria “Folha” (clique aqui). No dia 19, a “Folha” publicou no Painel do Leitor uma contestação à coluna assinada por Maria Amália Cotrim, porta-voz do próprio Opportunity, com os mesmos argumentos brandidos por Mainardi em sua coluna (clique aqui) – e na que sairia na semana seguinte.

De nada adiantaram minhas explicações ou a carta de Paulo Totti, do BNDES, à Veja.

A carta de Totti saiu escondida na seção de Carta dos Leitores.

Na mesma edição, seis páginas de publicidade da Amazônia e da Telemig Celular.


 

Na mesma edição, outro artigo de Mainardi, repisando os ataques e passando ao largo das explicações dadas (clique aqui). Junto, mais seis páginas de publicidade, desta vez da Brasil Telecom, todas negociadas pessoalmente por Humberto Braz - o homem de Dantas incumbido dos contatos comerciais e do lobby com a mídia, preso na Operação Satiagraha por tentativa de suborno.


Mais tarde ficariam claros os motivos que o levaram a incluir a Gamecorp em seu ataque.

Na ação movida pelo Citigroup, uma das estratégias da defesa de Dantas era sustentar que o banqueiro estava sendo vítima de perseguição política. E apresentar como evidência o fato da empresa do filho do presidente ter recebido aporte de capital da Telemar, concorrente de Brasil Telecom. Por isso mesmo, qualquer análise que mostrasse lógica econômica no investimento estaria enfraquecendo a argumentação de Dantas no processo.

Em 11 de janeiro de 2008, a "Folha Online" trouxe matéria que comprovava amplamente essa tática (clique aqui).

Advogados do grupo Opportunity, do banqueiro Daniel Dantas, apresentaram à Justiça de Nova York documento em que acusam acionistas da Oi (ex-Telemar) de corrupção de membros do PT no governo para conseguir que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva altere a legislação para permitir a compra da Brasil Telecom, como publicado na edição de hoje da Folha de S.Paulo íntegra disponível somente para assinantes do jornal e Uol).

O documento, obtido pela Folha, também menciona o investimento milionário na empresa do filho do presidente Lula, a Gamecorp, que provocou polêmica em 2005. Os advogados do Opportunity alegam que a então Telemar tinha interesse na mudança da legislação do setor de telecomunicações, mas não apresentam provas da acusação.

Essa linha de defesa tinha começado a ser montada justamente no período em que Mainardi sacou do coldre a Gamecorp.

O espírito persecutório

A única informação correta era a respeito do email de Luiz  Roberto Demarco – um inimigo de Dantas, compulsivo até o limite da obsessão - que, de fato, havia me passado informações sobre reuniões do staff de Dantas com a direção da Portugal Telecom.

Inteligente, ousado, Demarco ganhou relevância por ter conseguido derrotar Dantas em um tribunal estrangeiro. Como a ação conseguiu bloquear um dos fundos de Dantas - que participava do controle das empresas de telefonia. Para poder liberar o fundo e retomar o controle, o Citigroup fechou um acordo financeiro bastante vantajoso para Demarco. Depois, vários adversários de Dantas aproveitaram as brechas abertas por Demarco para penetrar na fortaleza jurídica do banqueiro.

Demarco poderia ter se contentado com a derrota que impôs a Dantas. Mas, graças à sua obsessão, ajudou a desmascarar o banqueiro. De outro lado, sua obsessão ajudou a criar uma blindagem e a facilitar o trabalho de desqualificação patrocinado por Dantas, valendo-se principalmente de Mainardi.

Qualquer pessoa que não se tornasse inimigo de Dantas era imediatamente apontado como colaborador por Demarco e jornalista aliado. Da parte dos jornalistas de Dantas, qualquer crítica ao banqueiro faria parte de uma conspiração.

Esse clima persecutório produziu uma confusão monumental, que só ajudou a fortalecer o banqueiro. De um lado e de outro eram jornalistas e fontes levantando teses conspiratórias e acusações generalizadas. Separar o joio do trigo tornou-se tarefa inglória e em muito contribuiu para o silêncio com que a imprensa passou a tratar os escândalos de Dantas e as relações ostensivas com a Veja.

O que não significa que Demarco não fosse extremamente bem informado. Jamais forneceu uma informação incorreta, suportou campanhas difamatórias pesadas, mas não saiu da linha.

Tanto assim que, de posse de suas dicas, marquei uma reunião com Shakhaf Wine - um dos executivos da Portugal Telecom mencionado no e-mail. O encontro se deu no final da tarde, no escritório em frente ao shopping Iguatemi (clique aqui para ler a matéria).

Voltei em cima da hora para o meu escritório e, premido pelo horário de fechamento, acabei copiando trechos do e-mail de Demarco com os nomes das pessoas que tinham participado da reunião. Nada que pudesse ferir a ética jornalística. Nada que não pudesse ser explicado pela correria de um fechamento.

Mas o episódio passou a ser explorado de maneira a se criar a impressão de algo doloso. Eram os "factóides" típicos da tática de fuzilar reputações.

Junto com o primeiro ataque de Mainardi, a edição de Veja saiu com seis páginas de publicidade da Amazônia Celular e da Telemig Celular – empresas controladas por Dantas, e de alcance regional. Era algo sem nexo, para alguém que não entendesse as circunstâncias: duas empresas regionais fazendo encarte em uma revista de circulação nacional. Quando levantei essa questão, a alegação do Opportunity é que, além da Veja, o encarte tinha saído no "Valor Econômico" - com uma tiragem e um custo infinitamente inferior ao da revista.

Na edição seguinte, com o segundo ataque de Mainardi sairiam mais seis páginas de publicidade da Telemig Celular, mas aí compartilhadas com outras publicações.

Estava claro que Veja tinha entrado para valer no jogo de Dantas, e da forma menos sutil possível: dois ataques virulentos, inspirados por Dantas, em duas edições recheadas com 6 páginas de publicidade cada uma, programadas pelo proprio Dantas. Nem se teve o cuidado de separar as edições. Veja passava a se valer das mesmas práticas que denunciava em sua concorrente IstoÉ.

E uma das acusações que Mainardi me lançava  era em relação a um adjetivo elogioso que empreguei, em quatro anos de coluna, para qualificar o modelo de gestão do fundador de uma empresa que patrocinava o Projeto Brasil, da Agência Dinheiro Vivo. E o fato de ter veiculado uma campanha que havia programado dezenas de outros sites para veiculação.

O jogo estava apenas começando. Dali para frente, novos "assassinatos de reputação" seriam perpetrados de forma sistemática. Como a incrível "denúncia" contra o presidente do Superior Tribunal de Justiça, Edson Vidigal.

Mas aí é assunto para o próximo capítulo, a partir do qual o jogo ficará cada vez mais claro.

Próximo Capítulo: O caso Edson Vidigal