Por quê a gente é assim?

(Tava demorando pra botar isso pra fora....)

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Quem já conversou mais de 5 minutos comigo sabe que eu estava tentando uma bolsa para doutorado completo no exterior. Neste ano, CAPES que tradicionalmente abria bolsas, está remodelando seu sistema, Alban que também fornecia várias bolsas encerrou atividades. Ficamos restritos ao Cnpq e sua meia dúzia de bolsas.

 Ainda assim, cheio de coragem, enviei um projeto, com ajuda do Prof. Neucimar... Alguns dias após o prazo que eles mesmos deram para o resultado, recebi o seguinte parecer: (meus comentários em negrito)

atualização (15/11/2008): Assim como muitos que me mandaram mails contando uma história parecida, estou em processo de obter uma bolsa "de lá". 

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Nome: Fábio Augusto Salve Dias 

Processo: 200141/2008-2

Edital/Chamada: Doutorado no Exterior - GDE (exceto para a Alemanha)

Prezado(a) Senhor(a),

Comunicamos que, com base na análise do Comitê de Ciências da Computação, e de acordo com o estabelecido nas normas do CNPq para a modalidade, sua solicitação foi indeferida pela Diretoria Executiva do CNPq conforme justificativa abaixo:

(nenhuma surpresa aqui)

 Segundo o parecer ad-hoc, o documento apresenta "O objetivo principal deste trabalho é a definição de algoritmos para análise multi-dimensional de informações visuais." O texto apresenta uma revisão bibliográfica razoável, mas com poucas referências recentes a trabalhos publicados em periódicos internacionais indexados. 

(Concordo. Estava ocupado com minha qualificação na época, além do que, não acreditei que o projeto seria tão relevante assim.)

Assim sendo, considero a fundamentação teórica pobre. Tal como apresentados, os objetivos são vagos pois apenas apontam para uma área de pesquisa sem que haja uma definição concreta das contribuições pretendidas.

(Eu escrevi esse projeto em janeiro de 2008, para início em Setembro de 2008. Praticamente um ano adiante, visando uma instituição e orientadores com os quais nunca trabalhei. COMO eles queriam que eu fosse mais específico que isso? Como eu vou saber o que é cientificamente relevante daqui a um ano? Sem contar que, quem sabe o que realmente vai fazer quando começa um doutorado?)

Dois orientadores são propostos: B. Gilles e M. Couprie. Ambos possuem um bom número de publicações em periódicos internacionais indexados de alto nível, e têm feito importantes contribuições em áreas muito próximas às da pesquisa pretendida. 

(Claro que eles são bons. Eu não iria ter tanta dor de cabeça para ir para um lugar pior do que onde estou. E a proposta que escrevi foi justamente no que pensei que seria o resultado de nossas linhas de pesquisa.)

Na documentação apresentada não há um projeto propriamente dito; constam, apenas, a revisão bibliográfica e a formulação do problema. Não são fornecidas informações de cooperações ou contatos prévios nem um plano detalhado de atividades (disciplinas a serem cursadas, exames de qualificação etc.). 

(Como eu iria saber isso?)

O histórico escolar do beneficiário evidencia desempenho baixo nas disciplinas de conteúdo matemático, que são essenciais para o projeto pretendido. 

(Legal, fui julgado pelas notas em cálculo I-III, cursados em 2002/2003. Meu A em visão computacional no mestrado (2007) foi sumariamente ignorado. O mais interesssante é que meu mestrado é quase puramente matemático, com toques de processamento de imagens, mas apostando bastante em geometria projetiva. Se bem que não havia nenhuma referência a isso no meu currículo e eles não tem como julgar superação e motivação.)

Diante do acima exposto, do fato do beneficiário não informar nenhuma publicação decorrente do seu mestrado, e da possibilidade de realizar de forma parcial ou total os estudos no País, este parecerista não é favorável à concessão do auxílio pretendido. 

(Eu enviei o projeto no final do meu primeiro ano de mestrado. Para ter publicação a essa altura, deveria ter submetido, no minimo, 3 ou 4 meses antes (não vou me queimar com revistas "comerciais" sem relevância). Ou seja, teria que ter algo publicável após o primeiro semestre de mestrado!! Teoricamente eu não teria nem terminado as disciplinas, nem seria obrigado a já ter um projeto! Eu até poderia ter uma publicação, pois adiantei as disciplinas do mestrado na graduação e já estava avançado no projeto, mas preferi "arredondar" melhor o método e enviar para uma revista conceituada... coisa que ainda não fiz.)

Algumas das instituições onde esses estudos poderiam ser realizados são a própria UNICAMP (onde o beneficiário cursou graduação e mestrado), o IMPA e o IME-USP. Nessas três Instituições há pesquisadores ativos no tema proposto.   Não recomendado.  

(Claro. Ninguém disse que eu não poderia fazer isso no Brasil. A questão é: o que acontece se todos tivermos a mesma formação e mesma ideologia? Quem trabalha com pesquisa sabe que diversidade é um fator mais que importante para o sucesso. Não quero ir para lá porque a França é melhor que o Brasil (não que não seja também, só não é minha motivação) ou porque a instituição lá seja melhor que a Unicamp (talvez até seja, em alguns aspectos, pior), mas sim porque acredito que o intercâmbio seria interessante para minha formação profissional...)


O CNPq permanece à disposição de V.Sa. para novas solicitações em outras oportunidades.
Atenciosamente,

Jose Roberto Drugowich de Felicio
Diretor de Programas Horizontais e Instrumentais

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Percebam que não estou criticando o Cnpq. Estou criticando o país como um todo. Deve ser frustrante ter meia dúzia de trocados e tanta pesquisa de alto nível para, no final, escolher . Acredito que os comitês do cnpq ficariam bem felizes em conceder todas as bolsas pretendidas. Mas com tão poucos recursos, eles acabam tendo que se limitar a nem meia dúzia de gênios (ae thiagão!) e torçer pra dar certo.

Quem sabe, com um pouco menos de corrupção, politicagem e etc, um dia se consiga? O problema é que a corrupção não é exclusividade da "classe dominante" como partidos vermelhos genéricos teimam em afirmar. "A lei de gérson é o nosso evangelho", já disse o pensador, e é a mais pura e transparente verdade.

Vou ser muito criticado por isso, mas o problema do Brasil é o POVO. Sim, isso mesmo, o povo.  Podem até discordar, mas a democracia FUNCIONA. Temos os governantes que merecemos.

Quantas pessoas você conhece que, tendo as oportunidades obscuras que nossos governantes tem, não se corromperiam?

Eu boto a mão no fogo por mim mesmo e mais meia dúzia e amigos próximos e parentes. Mas mal enche as duas mãos.

A solução para este problema, além de demorada, coisa que brasileiro odeia, está cada dia mais distante. EDUCAÇÃO, de qualidade, para todos. O "de qualidade" é altamente relevante, pois quase ninguém que está na rede pública se encaixa nesse perfil.


Estou cada dia mais desistindo do meu espírito "não nasci no Brasil a toa, vou fazer algo pelo meu país" pelo espírito "vou sair daqui a nado antes que o país afunde". 

Verdade seja dita, no fundo, não me considero brasileiro (nem brasiliano). Sinceramente, eu me sinto paulista. Sim, pois tudo que usufrui de bem ou serviço público eram, invariavelmente paulistas. A pensão do Ipesp de minha falecida mãe, minhas bolsas Fapesp (IC/MS), meu colegial na Unesp (foi ótimo ter aula no colegial com professores doutores realmente motivados), graduação e mestrado na Unicamp... Até quando passava mal, os hospitais eram estaduais, no máximo municipais. 

Talvez seja minha memória falhando, mas acho que, até agora, as únicas coisas federais que obtive foram impostos a pagar e decepções....


E a única saída para o Brasil é mesmo o aeroporto... se bem que a nado não seria tão ruim assim...