Formas sagradas
Muitos artistas são influenciados pelas formas sagradas do candomblé e de seus muitos orixás, ou divindades, formas essas que constituem a base da linguagem escultórica de Mestre Didi. Nos terreiros, os praticantes invocam os orixás usando objetos rituais imbuídos de simbolismo. Didi começou a produzir esses implementos ainda adolescente, com sua confirmação como sumo sacerdote, ou assogbá, do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá.
Dois dos formatos mais prevalentes na obra de Didi são os do xaxará e do ibiri. Ambos são feitos de feixes de nervuras de folhas de dendezeiro. O xaxará é usado como uma vassoura de mão por Obaluaê, divindade tanto da cura quanto da doença, para varrer elementos indesejados. A forma em laço no topo do ibiri, por sua vez, evoca o útero de Nanã, deusa-mãe primordial associada à terra e às suas águas férteis.
No início da década de 1960, Didi passou a reconceber esses objetos, criando obras de arte que se afastavam das convenções rituais. A combinação do xaxará e do ibiri, vista em algumas das esculturas aqui reunidas, contempla a ligação entre o feminino e o masculino, a fertilidade e a mortalidade.
Orixás
No panteão dos orixás, cada divindade possui um símbolo identificador. Esses símbolos formam um rico léxico geométrico, compartilhado pelas religiões de origem iorubá do Atlântico Negro.
O corpus escultórico de Didi recombina essas formas em novas configurações, feitas com base nos atributos e nas mitologias dos orixás, intitulando essa obras em língua iorubá. O cetro Opa Oba Ile Ati Ejo Meji – Cetro do Panteão da Terra (anos 1980) combina o ibiri de Nanã e o xaxará de Obaluaê com duas serpentes arqueadas, símbolos do gênero dual de Oxumaré e de sua capacidade de atravessar o céu e a terra. A representação unificada dessas três divindades invoca uma concepção holística da vida, da mortalidade e do divino.
Em outros momentos, Didi invoca os filhos de santo, os seguidores dos orixás, como na obra antropomórfica Iyawo Sango: Ose Ati Eye Meji – Sacerdotisa de Xangô com duplo machado e pássaros (2011), ou na mais esquemática Omo Oba Aye – Filho do Rei da Terra (anos 1980).
Cetros
Cetros são apetrechos habituais na prática do candomblé. Normalmente produzidos com ferro, eles são reimaginados na obra de Mestre Didi, que adotava as nervuras de folhas de dendezeiro como base para a confecção das peças.
Enquanto seus primeiros trabalhos mantinham a escala menor e os formatos mais simples exigidos para o uso cerimonial, no fim da década de 1960 Didi passou a produzir cetros maiores e mais complexos, mais adequados à contemplação estética. Títulos expressivos também enfatizam o rico simbolismo das esculturas-cetro. Obras como Iwin Igi N’la – Majestoso Ancestral da Árvore (anos 1980), cujos braços de ráfia significam tanto galhos quanto membros antropomórficos, evocam a conexão entre árvores e figuras ancestrais.
Esses desvios em relação às convenções responderam, em parte, às oportunidades de exposição das criações de Didi no Brasil e no exterior. No fim dos anos 1980 e durante a década de 1990, o sacerdote-artista instalou vários cetros de grande escala em espaços públicos urbanos, contrapondo-se à marginalização das histórias afro-brasileiras e subvertendo as frequentes narrativas imperialistas dos monumentos públicos.
Modernismos afro-brasileiros
Artistas afro-brasileiros abraçaram legados culturais africanos na elaboração de novas linguagens visuais durante a segunda metade do século XX. Juntos, eles desafiaram a ideia de que a abstração é uma invenção do Modernismo europeu.
Com trajetórias paralelas à de Mestre Didi, muitos desses artistas participaram da cena cultural emergente de Salvador. Nas décadas de 1960 e 1970, o fervor social e intelectual da capital baiana foi além das artes visuais, estendendo-se para a literatura, a música, o teatro e as ciências sociais.
Diante da disseminação de preocupações quanto à melhor forma de alcançar uma modernidade distintamente brasileira, os artistas aqui apresentados adotaram diversas abordagens das estéticas negras da diáspora, recalibrando noções de identidade e autenticidade. Eles experimentaram diferentes graus de marginalização racial e de classe. Alguns tiveram acesso à formação acadêmica, outros foram autodidatas. Enquanto alguns abraçaram estratégias formais associadas à pintura popular e à escultura devocional, outros se inseriram em tendências dominantes, como o Construtivismo e o Concretismo.
Novas direções
O uso inventivo de materiais naturais por Mestre Didi incluiu o emprego de estratégias formais, que enfatizam o valor conceitual da nervura das folhas de dendezeiro, do couro e dos búzios. Ráfias e cabaças transformam xaxarás em figuras humanoides dinâmicas, uma lembrança potente de que a fibra das folhas, como todos os materiais usados pelo artista, está imbuída de energia viva.
Em uma rara escultura figurativa de Didi, Guardião (década de 1970), um feixe de nervuras de folhas de dendezeiro sustenta uma cabeça e um torso de barro; já em Ohun-Áso (2007), cordões pendentes dessas mesmas fibras evocam trepadeiras e bromélias. O artista empregou a folha de dendezeiro tanto como material de suporte quanto como motivo central em várias obras. Ope Awo Ibo – Palma Misteriosa do Mato (2011) apresenta ramos torcidos e sementes que brotam do manto central, evocando ciclos de regeneração.
A partir da década de 1970, Didi também usou as fibras dessas folhas, bem como peles de animais, para criar joias marcantes, aproximando sua obra do próprio corpo humano. Por extensão, esses ornamentos vestíveis evocam a estética da libertação negra, que se tornava cada vez mais presente na moda e na autorrepresentação das populações negras urbanas brasileiras.
Bichos
Animais como pássaros e serpentes aparecem com frequência na obra de Mestre Didi. Eles estão intimamente ligados aos orixás, alguns dos quais diretamente associados a espaços naturais por meio de um agrupamento cosmológico, ou panteão – como o panteão da Terra, o panteão da floresta e dos caçadores e o panteão da água. Além dos animais, Didi explorou diferentes representações zoomórficas, moldando as fibras das folhas de dendezeiro em tentáculos ramificados ou antenas sondadoras, por exemplo, a fim de criar um bestiário dinâmico de formas.
Rituais
Ao longo de suas décadas de carreira, a fotógrafa Arlete Soares acumulou profundo conhecimento sobre o candomblé e produziu um corpo de trabalho que carrega a influência de seu mentor, o fotógrafo e etnógrafo francês Pierre Verger, ao mesmo tempo que manifesta sensibilidade distinta.
Muitas das imagens aqui incluídas representam dois aspectos diferentes da prática do candomblé: o culto matriarcal aos orixás e a veneração masculina aos egunguns, os espíritos dos ancestrais. A série Festa de Oxóssi documenta sacerdotisas reunidas no terreiro São Jorge Filho da Gomeia, em Salvador, vestidas de branco e adornadas com folhas, bandeirolas de papel e símbolos da divindade caçadora. Junto com Mestre Didi, os escritores Jorge Amado e Zélia Gattai participaram da cerimônia registrada. Em contraste, uma imagem do terreiro Ilê Axé Opô Aganjú retrata a veneração aos egunguns, com seus trajes ornados e em camadas, que invocam os espíritos divinos dos ancestrais. Essas vestimentas ricamente ornamentadas também são vistas na série Voduns, que Soares fotografou no Benin, na África durante um intercâmbio cultural Benin-Bahia, que ocorreu em 1986 e celebrou as conexões contínuas entre o candomblé e as demais religiões de origem iorubá.
Legado e olórin tí a bí ní ilé Àsípà
Muitos artistas são influenciados pelos ensinamentos estéticos afro-brasileiros difundidos na obra de Mestre Didi. Fundada por ele em 1980, em Salvador, a Sociedade Cultural e Religiosa Ilê Axipá gerou criadores que atuam de acordo
com a noção de odara – conceito estético nagô segundo o qual não há distinção entre arte e sagrado, nem hierarquia entre objeto artístico e objeto utilitário.
Este núcleo da mostra – presente em diferentes pontos do espaço expositivo e em contato direto com os demais núcleos – reúne trabalhos que demonstram esse legado, como os de Goya Lopes, Nádia Taquary, Jorge dos Anjos e Ayrson Heráclito; esse último, por sua vez, convidou os dançarinos Negrizú e Inaicyra Falcão, filha de Didi, para integrarem o núcleo com seus trabalhos. A seleção traz ainda cinco olórin tí a bí ní ilé Àsípà (artistas nascidos no Axipá): Antonio Oloxedê, neto de Didi; Ojé Maxodi; André Otun Laran; Edvaldo Bolaji e Kleyson Otun Elebogi – cujas obras constroem pontes dinâmicas entre saberes ancestrais e a contemporaneidade.
Ajô: conhecimento e coletividade nos caminhos de Mestre Didi
Na cultura iorubá, a noção de ajô está intimamente ligada a uma prática matricial de ajuda mútua. Um dos grandes responsáveis pela salvaguarda e divulgação dessa cultura no Brasil, Mestre Didi entendia que a coletividade é um dos caminhos para a transformação social e a busca por equidade. Esta seção da mostra traz materiais que apontam para as redes construídas por Didi em seus diferentes campos de atuação – nas artes, na produção de conhecimento, no ativismo, na intelectualidade –, indicando a importância de sua trajetória para a inserção do Brasil no debate global sobre as culturas negras na contemporaneidade.
Abertura
7 de abril de 2026, às 19h
Visitação
até 5 de julho de 2026
terças-feiras a sábados, das 11h às 20h
domingos e feriados das 11h às 19h
Pisos 1, 1SS e 2SS
MESTE DIDI – INVENÇÃO E ANCESTRALIDADE NA ARTE
AFRO-BRASILEIRA
Concepção e realização
Itaú Cultural
Curadoria
Ayrson Heráclito e Rodrigo Moura
Assistência curatorial
Tiago Sant'Ana
Projeto expográfico
Francine Moura
Projeto de acessibilidade
Itaú Cultural
ITAÚ CULTURAL
Avenida Paulista, 149 – próximo à estação Brigadeiro do metrô | Entrada gratuita
Espaços acessíveis
o prédio do Itaú Cultural apresenta facilidades para pessoas com deficiência física
Estacionamento
Entrada pela Rua Leôncio de Carvalho, 108
Com manobrista e seguro, gratuito para bicicletas
Mais informações
Telefone: (11) 2168-1777
WhatsApp: (11) 96383-1663
E-mail: atendimento@itaucultural.org.br
ASSESSORIA DE IMPRENSA
ConteúdoInk
Cristina R. Durán
(11) 98860-9188
cristina.duran@conteudoink.com.br
Larissa Corrêa
(11) 98139-9786
larissa.correa@terceiros.itaucultural.org.br
Thayssa Souza
(11) 99307-1442
thayssa.souza@conteudoink.com.br
Letícia Tanaka
(11) 95384-5386
leticia.tanaka@conteudoink.com.br
Roberta Montanari
(11) 99967-3292
roberta.montanari@conteudoink.com.br