Por Natalia
A história da participação das mulheres nos esportes seja como praticantes ou como telespectadoras sempre contou com muita oposição. Isso está correlacionado à uma ideologia discriminatória existente desde a Grécia Antiga, que determinava restrições, baseando-se na suposta inferioridade do sexo biológico e determinando seu papel na sociedade. O Brasil, mesmo sendo validado como o país do futebol, não poupou esforços a esses ideais para estabelecer o âmbito esportivo também na estirpe patriarcal.
É importante ressaltar que a crua realidade do Estado do Espírito Santo, em relação à modalidade feminina em esportes considerados convenientemente destinados aos homens, reflete-se também em todo o país, chegando a alcançar cenários ainda piores. Devido a vários fatores, muitas meninas de épocas passadas, pararam de praticar e realizar qualquer atividade relacionada ao esporte, interrompendo uma trajetória onde almejam alguma aprovação, reconhecimento e possibilidades na carreira. Contudo, graças a objeção de algumas atletas, árbitras e outras mulheres que aspiram um lugar de respeito, contra aqueles que buscam atrasar e reduzir a modalidade, mudanças positivas foram conquistadas sim, apesar de ainda não ser o que se almeja quando o assunto é o respeito e a equidade. Infelizmente, ainda se está a engatinhar.
O preconceito era muito maior e quase ninguém conseguia praticar o esporte e receber apoio. Além disso, a partir do momento em que deixou de ser proibido pelas autoridades no Brasil, o futebol feminino capixaba assim como o do restante do país começou a avançar lentamente, apesar de ter permanecido por muito tempo abandonado. Se as condições para a modalidade adulta profissional é desfavorável, a formação da modalidade, ou seja, da base, como garantia de uma boa qualidade, de ganho e benefício, e da promoção de competitividade, encontra-se bastante precária, considerando o estágio ideal. Até 2017 não existia um campeonato de base estadual - organizado e não isolado -, e apenas seis estados possuem compromisso com a base.
Hoje em dia, a inclusão da mulher é mais frequente, mas mesmo assim continua difícil, por exemplo, uma menina que se destaca no esporte, que consegue ter acesso a clubes profissionais e campeonatos, alguns órgãos esportivos ainda não têm consideração com a modalidade como deveriam. Há muitos casos de clubes que não repassam as verbas da CBF para as jogadoras, não investem em equipamentos e condições básicas, e muitos campeonatos não são tão bem estruturados.
Pode-se salientar também a disparidade da desigualdade salarial que ocorre na Copa Libertadores e no Campeonato Brasileiro. Na Copa Libertadores, enquanto para o time vencedor da modalidade masculina já são desembolsados US$ 22,5 milhões (R$ 127,7 milhões), para o time vencedor da modalidade feminina são investidos apenas US$ 85 mil (R$ 469 mil, aproximadamente). Já no Campeonato Brasileiro, a questão do investimento progrediu, mesmo que bem pouco, não chegando a ser o mínimo justo para se investir em um produto que se espera retorno, valorização do público, progresso etc. O time vencedor, o Corinthians Feminino, na temporada levou para casa R$ 180 mil, enquanto este ano obteve R$ 290 mil e o vice-campeão R$ 190 mil. Apesar de ter tido um aumento de 57% na premiação do time vencedor do campeonato, os números ainda são indevidos, já que no caso da participação da modalidade masculina do Corinthians, se o time terminasse o campeonato na sexta posição em que estava, receberia um valor bem mais elevado, de R$ 24,7 milhões para o clube. E numa visão geral, a premiação concedida ao campeão do Campeonato Brasileiro Feminino, de R$ 290 mil, representa um valor de 0,87% dos R$ 33 milhões que o campeão do Campeonato Brasileiro Masculino recebe.
Quanto a menção e a transmissão em emissoras de TV, o esporte feminino praticamente não existia e ainda hoje a participação das mulheres em esportes raramente é noticiada. A Seleção passa na TV apenas em competições como Olimpíadas e Copa do Mundo e dificilmente a TV divulga a ocorrência de campeonatos nacionais, assim como feitos realizados pelas jogadoras. Outros esportes são ainda mais deixados de lado pela mídia como, o Futsal e o Futebol de Areia. Até mesmo a excelente trajetória da Seleção Brasileira Feminina de Beach Soccer em seu terceiro campeonato, a Copa Intercontinental, em agosto deste ano, não recebeu qualquer comentário ou prestígio, seja durante sua participação ou sua vitória. Seleção que ainda em 2019, quando ocorreram os dois primeiros torneios disputados, conquistou o bronze nos Mundiais de Praia e a prata no Sul-Americano.
Pode-se compreender então que a visibilidade para esportes vistos como o Futebol para a prática de mulheres, ainda é pouco inexistente, e no geral, as iniciativas de investir e de divulgar as atletas ainda são bem poucas comparado a estrutura que os homens recebem.
JUNIOR, E. Elas por elas: jogadoras capixabas falam sobre futebol feminino, gênero e sexualidade a partir de suas trajetórias. TCC (Bacharel em Educação Física) -
Centro de Educação Física e Desportos da Universidade Federal do Espírito Santo. Espírito Santo, p. 69. 2018.
BRASILEIRO feminino paga ao campeão Corinthians 0,87% do prêmio da Série A. UOL, 2021. Disponível em: <https://www.uol.com.br/esporte/futebol/ultimas-noticias/2021/09/27/brasileiro-feminino-premio-representa-087-do-valor-de-titulo-na-serie-a.htm> . Acesso em: 01 de nov. de 2021.