A memória é a base de uma pedagogia libertária. Afinal, devemos sempre lembrar que aqueles que construíram Tebas, a cidade de sete portas, não foram os reis da época. Devemos lembrar, para não esquecer, que é no presente que a memória é construída e disputada. No futuro, nos perguntaremos quem enfrentou a pandemia. Foram os governantes da época? Ou foram aqueles que saem nas madrugadas, antes dos passarinhos cantarem e do sol raiar para trabalhar? Aqueles que, apesar da ignorância por não saberem a diferença entre vírus e bactérias, ainda assim são obrigados a escolher entre o privilégio de vender sua força de trabalho ou serem os gestores de sua própria miséria? Se não foram os reis que construíram Tebas, nem os governantes que enfrentaram a pandemia, como permitimos sermos arrastados pelos processos históricos?
Galeano me contou uma vez, por meio de um de seus livros, sobre uma tribo na Terra do Fogo, onde as mulheres se sentavam na proa das canoas. Elas eram guerreiras, caçadoras e pescadoras, fornecendo sustento e proteção para a tribo. Enquanto isso, os homens desempenhavam suas funções cuidando da prole, das hortas e dos afazeres "domésticos", considerados por eles mesmos como tarefas secundárias. Então, em certo dia, os homens mataram todas as mulheres guerreiras e começaram a ensinar suas filhas que eles eram os verdadeiros guerreiros. Assustavam-nas com as mesmas carrancas que as mulheres costumavam usar para amedrontar os próprios homens. Os homens ensinavam às filhas das guerreiras que elas deveriam servir aos homens. Assim ensinaram às filhas das suas filhas gerações seguintes e ainda ensinam com máscaras nos rostos.
Em 31 de maio de 1964, uma parte da sociedade civil e militar decidiu pôr fim à, já frágil, democracia brasileira. Começaram a ensinar nas escolas, quartéis, imprensa e jornais que era para o próprio bem da sociedade, pois um espectro ameaçava nossas fronteiras. Os responsáveis por esse ato ganharam homenagens em forma de nomes de ruas e estradas, praças e viadutos, canais de televisão e jornais. Alguns deles ainda estão presentes, exibindo suas medalhas, méritos e máscaras.
No dia 31 de maio de 2021, quase 60 anos após esse acontecimento, muitas pessoas ainda temem as máscaras e as histórias usadas há tanto tempo. Ainda acreditam na existência de inimigos invisíveis, fantasmas vermelhos. Esse medo só serve para alimentar e reforçar as narrativas dos mascarados.
Por isso, a memória é a base de uma pedagogia libertária. Devemos recordar que algumas narrativas são máscaras que usam para nos amedrontar.
Crônica de: Diogo Valmor