Não há mortos nas ruas hoje
é um dia calmo
o trânsito está normal
há um grande espaço para a procissão
dos mortos de ontem
espaço para encaixar
Um sonho, uma ideia, um pequeno garoto,
Um empurrãozinho para o barco amado,
Um nome de guerra ao jazigo,
Uma rosa para um novo amor,
Uma mão para um camarada
Um lugar para ficar vivo um tempo
tempo suficiente para cumprimentos
e alcançar o sol
Hoje é um dia calmo, um dia de pedestres
em Beirute que dançam às ruas,
obstruindo os ônibus e deixando de comprar
jornais:
os jornais já voltaram para os escritórios
e os mortos estão descansando sobre a Calçada dos Mártires
nos limites de Sabra
Um dia calmo,
nossa vizinha sairá com sua camisola
para pendurar um pouco de sonolência ao nosso redor,
algum despertar lento
ela está muito letárgica para juntar as letras em palavras
Onde está a vida neste alvorecer vasto e vagante?
Nós não sairemos
Além da alvura de seu vestido uma razão
virá para nos levar para as ruas
mortos em seu "Bom dia"
Poema de: Ghassan Zaqtan
Texto traduzido por Evellyn Anacleto do Nascimento, a partir da tradução na língua inglesa de: Fady Joudah
Ghassan Zaqtan é um poeta e romancista palestino, autor de dez coleções de poesia, entre elas "The Silence That Remains: selected poems" (2007) e "Like a Straw Bird It Follows Me" (2012), este em que a tradução de Fady Joudah foi vencedora do prêmio Griffin Poetry Prize. Apesar de ter nascido em Beit Jala, nas proximidades de Belém, na Palestina, o poeta morou em diversos lugares, como o Líbano, Jordânia, Tunísia e Síria; o que, provavelmente, influenciou na sua obra pelo contato com contextos distintos. Em relação à sua escrita, Zaqtan prefere revelar o que está implícito no cotidiano das pessoas que vivem entre disputas territoriais, assim, ele afirma que não é o tipo de pessoa que fica na linha de frente, mas sim àquela que capta os pequenos acontecimentos acerca da ocupação, o que fica explícito em suas poesias.