Carta de Princípios do Coletivo de Educação Popular Flor de Maio
Quem Somos
Fundado em 2013, o Coletivo de Educação Popular Flor de Maio, localizado em Hortolândia/SP, luta pela democratização do acesso à educação pública, comunitária, gratuita e de qualidade. Temos como horizonte a construção da escola e da universidade popular, fundamentadas em um ensino emancipador que respeite as diversidades étnicas, sexuais, de gênero, religiosas e de pensamento e que leve a um levante da classe trabalhadora para a realização do Poder Popular de fato.
Atualmente as principais frentes político-pedagógicas de nosso coletivo são:
CineFlor;
Biblioteca Popular 'Carolina Maria de Jesus';
Cursinho Pré-Vestibular Popular;
Grupo de Astronomia Popular (GAP);
Flor do Dia (jornal do coletivo);
Jogos de Educação Popular;
Memórias das ditaduras: projeto de resgate de depoimentos e testemunhos de militantes que combateram movimentos ditatoriais na América do Sul, especialmente a do Brasil, na segunda metade do século XX;
Conjuntamente com essas frentes temos - além de nossa própria autogestão - processos formativos internos, formações abertas, atividades pontuais e atividades com outros grupos.
NOSSOS PRINCÍPIOS POLÍTICOS
Anticapitalismo:
Esse princípio é o que propicia a convergência entre diferentes correntes de esquerda dentro de nosso coletivo. Todas, sem exceção, opõem-se à mercantilização das relações e dos direitos sociais advindas do capitalismo e posicionam-se contra a propriedade privada dos meios de produção que torna possível a sua existência. Lutamos para dar fim à ele e pela construção de um novo mundo!
Antiassistencialismo & Antifilantropia:
Temos que ter atenção para que nossas práticas educativas não se tornem ou sejam tomadas como assistencialistas ou filantrópicas, o que gera uma hierarquização moral das pessoas e instituições envolvidas. Afinal, esses dois elementos vêm sendo utilizados em nossa sociedade neoliberal como um marketing social que camufla a destruição e exploração exercida pelas empresas capitalistas. Levamos em conta que a caridade difundida tanto através do assistencialismo como da filantropia se resume a prestação de serviços sociais de modo pouco crítico ou mesmo cego às necessidades de se destruir as raízes dos problemas e mazelas enfrentados, muitas vezes buscando apenas “limpar” a consciência ou a imagem de quem a realiza. Isso não significa fechar os olhos para as necessidades mais urgentes de nosso povo e território, mas buscar sua superação dentro de um projeto mais amplo de construção e acúmulo de Poder Popular verdadeiro. Nossa atuação deve ser militante e estar relacionada a um confronto com o sistema imposto e não um meio de adaptação a ele. Individualmente somos voluntáries nessa militância, porém não aderindo ao voluntarismo e assistencialismo.
Construção do Poder Popular
Em uma sociedade dividida em classes, os valores ditos universais são, na verdade, particulares. Isto significa, portanto, que não existe uma "democracia" abstrata de todas as pessoas. Dentro do capitalismo, a democracia é uma democracia burguesa, em que os grandes proprietários subordinam a maioria do povo, aqueles que só tem a sua força de trabalho para vender em troca de baixos salários.
O Poder Popular significa a inversão desta lógica política. Defendemos e lutamos por uma organização social em que nós, que viemos desde abaixo, de fato decidamos sobre nosso destino. Nossa classe deve decidir o que será feito com a riqueza produzida coletivamente por nós e apropriada individualmente pelo capitalista. Acreditamos que temos o direito de discutir e decidir de que forma essa riqueza será distribuída, onde será realocada, e lutamos para que a nossa classe construa o Poder Popular através de organizações deliberativas e representativas coletivas.
Em resumo, não depositamos as nossas esperanças em nenhuma instituição ou pessoa que não pertença à nossa classe. Lutamos por uma sociedade organizada pelo povo, pois somente o povo pode libertar o povo!
Emancipação:
É essencial que as diferenças sejam pautadas na construção do coletivo como forma de afirmar a importância da diversidade para que não persistam as opressões e as violências históricas contra minorias sociais. Sabemos que “ser humano” não é uma categoria universalizante. Os seres humanos se diferem por classes, cores, gêneros, sexualidades, deficiências, nacionalidades, religiões, línguas, culturas... Buscamos a emancipação de todo tipo de opressão social e a construção do pensamento crítico para compreender e combater essas opressões, incluindo as relacionadas com o meio ambiente e a natureza.
Nesse processo nos guia a horizontalidade dos saberes, sem a crença de que somos iluminades perante as demais pessoas e outros grupos: somos uma pequena parte de uma luta muito mais ampla que vem sendo travada em incontáveis geografias e momentos históricos. Se dedicar à construção da emancipação significa manusear e articular uma esperança propositiva de libertação não só da(s) humanidade(s), mas também dos seres vivos que coabitam nosso planeta. Não se trata de esperar, mas de esperançar concebendo coletivamente um mundo emancipado.
Memória
Precisamos conhecer nossa história. Para encontrarmos a potência para nossas lutas atuais, entendemos ser imprescindível a rememoração das experiências de incontáveis movimentos contestatórios à dominação e à exploração. Há uma presença dos antepassados em cada passo que damos e temos a responsabilidade de levar em frente e realizar os sonhos por um mundo mais digno, fraterno e emancipado. Temos muito o que aprender com suas vitórias, derrotas, alegrias, tristezas, estratégias e táticas. Cabe a nós, reconstruir e transmitir suas memórias, além de sistematizar as nossas enquanto coletivo.
Nossa luta é por memória, verdade e justiça: para as violências dos carrascos de nossos companheires, de nossos ancestrais, nem esquecimento nem perdão! Presentes, hoje e sempre, estão aquelas que caíram lutando! Vivas estão suas utopias que nos guiam!
Educação Popular:
Entendemos como Educação Popular aquela educação organizada coletivamente por “educadores” e “educandes”, sendo essas categorias não fixas, de modo que todes possam ocupá-las, simultaneamente ou em diferentes momentos. É uma educação que se realiza desde e com o povo, a partir dos movimentos sociais e populares. É uma práxis que estimula a dignidade, o diálogo, uma profunda e verdadeira democracia, a solidariedade, a criatividade, a pergunta, a rebeldia, a troca e a produção coletiva de saberes e experiências, valorizando diferentes expressões da cultura e da ciência. É a pedagogia da organização popular em prol de um projeto de emancipação construído desde abaixo.
Ou seja, não se trata apenas de um discurso ou de um conjunto de técnicas, mas de um fazer ético e político: uma forma de existência alternativa às educações patronais, populistas, clientelistas, opressoras e autoritárias, incluindo as dominantes no sistema escolar oficial. Devemos ter muito cuidado para que nossas discussões e atuações não caiam em usos rasos e despolitizados deste termo educação popular e para que não reproduzam e atualizem explorações, opressões e violências.
Autogestão:
Com a palavra autogestão estamos retomando o sentido de como ela foi e é usada por diversos movimentos de luta e não como está sendo implementada enquanto um instrumento da nova e mais radical fase do individualismo e da individualização geral das desgraças pela grande mídia, Estado e empresariado neoliberal. Isso significa que prezamos por:
Autonomia Financeira e Ideológica:
O coletivo não se submete ao financiamento de empresas e partidos, de modo a manter sua autonomia ideológica, afinal, quando quem paga é de fora, podemos nos ver presos: quem paga a banda, escolhe a música! Não aceitamos que essas condições firam nossos princípios e, por isso, nos organizamos internamente para arrecadar fundos necessários à manutenção de nossas atividades, através da organização de eventos com a venda de alimentos e outros produtos. Podemos contar também com ajuda de custo voluntária (nunca imposta) para a manutenção do Flor.
Todas as atividades organizadas pelo coletivo são gratuitas. Somos contra a mercantilização, mas precisamos sobreviver enquanto coletivo, o que nos exige empenho para a arrecadação.
Participação e Responsabilidade:
As decisões no Flor de Maio são tomadas coletivamente e necessitam de responsabilidade individual mediante à decisão coletiva. Ou seja, quem milita no coletivo precisa participar das decisões político-pedagógicas, dos planejamentos, das avaliações e dos balanços que dão um sul para nossas práticas. Mas, divididas as tarefas, quem assumi-la tem a responsabilidade de realizá-la e dar uma devolutiva ao restante do grupo. Individualmente, podemos eventualmente não conseguir realizar uma atividade, mas o coletivo precisa estar a par disso o quanto antes para que possamos buscar outras alternativas.
Horizontalidade:
Não contamos com uma estrutura organizacional hierárquica no coletivo Flor de Maio, ou seja, não aceitamos líderes, coordenadores ou dirigentes. Organizamo-nos em assembleias e reuniões para que as decisões sejam sempre coletivas e não de uma única pessoa. Além disso, revezamos funções internas para evitar a alienação derivada da especialização, que é característica do capitalismo.
A horizontalidade, em si, é um horizonte para o qual caminhamos para poder avançar na construção de relações mais saudáveis e de uma democracia direta. Levamos em conta a existência de relações de poder internas no coletivo - desde as derivadas das estruturas sociais, passando pelas relacionadas a tempo de participação no coletivo e até mesmo de outras origens - e que devemos estar sempre o mais conscientes possível das formas como vão se desenrolando no dia-a-dia. Precisamos colocar esse debate em pauta e diálogo contínuo, pois sabemos que as estruturas de poder hierarquizadas podem se dar de forma escondida ou informal, mesmo com uma organização estruturalmente horizontalizada.
Solidariedade
Compreendemos que é necessário o envolvimento com outros coletivos, movimentos, partidos de esquerda e segmentos religiosos externos ao Flor de Maio, mas sempre mantendo nossa independência ideológica e organizativa, pois o isolamento é incapaz de produzir mudança social significativa. Somente a partir da solidariedade entre nós é que poderemos derrubar nossos capatazes, buscando a construção de redes e articulações.
Internamente, também prezamos para que seja levada em conta a subjetividade de cada participante do coletivo. Isso significa que devemos entender e respeitar os limites de outre, de modo que nenhum membro se sinta sobrecarregado, dentro do possível. É disso que se trata a solidariedade entre companheires de luta. Tudo nosso, nada deles!
Formações
Nossa prática precisa de constante análise, avaliação, estudo, discussão e planejamento. Para isso realizamos momentos formativos - internos e/ou abertos - que são geralmente realizados nas reuniões presenciais e em atividades próprias com este fim.
Valorização do nosso território:
Cuidado com a Terra e a vida
É imprescindível que o debate ambiental esteja dentro do coletivo, uma vez que estamos assistindo os capitalistas destruírem o nosso planeta em troca de lucros absurdos e, consequentemente, a luta pela Terra nunca ficou tão evidente. Ao contrário do que pregam alguns bilionários, não temos um “Planeta B”. Estamos num momento urgente de embate entre projetos de Morte e projetos de Vida.
Nossa inserção nessa luta é a partir da organização comunitária e do reabastecimento com alimento orgânico e nutritivo da agricultura familiar, em contraposição tanto ao agronegócio “pop”, voraz e criminoso quanto aos projetos de “capitalismo verde”, que continuam tratando a natureza - com nós inclusos - enquanto mercadoria, baseados no marketing verde e até em projetos ecofascistas.
Que possamos enquanto coletivo, com os pés sujos de barro, contribuir na construção da soberania alimentar: por uma comida sem veneno, em busca da reforma agrária popular e um futuro de esperança. Pela construção de uma Hortolândia em contínua luta pela Terra.
Cuidado com nossa terra
Nossa geografia e nosso local de atuação principal é Hortolândia. E, como é lema na Educação Popular, “a cabeça pensa onde os pés pisam”. Assim, buscamos pensar dentro da especificidade de Hortolândia, uma cidade recém emancipada que está inserida de forma periférica na região metropolitana de Campinas.
Buscamos participar na construção e dinamização de movimentos políticos pedagógicos de e com o nosso território, a fim de voltar às raízes hortolandenses, nos libertando da educação neoliberal que assistimos crescer nos últimos anos, principalmente através de contrarreformas aprovadas pelo Estado e idealizadas pelas grandes empresas, que são parte do processo que vivemos de contrarrevolução permanente dos poderosos, das elites. Trabalhamos para sermos um território de resistência e luta de referência no meio que estamos inseridos e que também construímos cotidianamente.
Coletivo de Educação Popular Flor de Maio
“Abaixo e à esquerda é onde mora o coração”
Um dos lemas do movimento zapatista
A Flor e a Náusea
Carlos Drummond de Andrade
Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.