O encontro de carros que acontece no estacionamento do Ginásio Poliesportivo de São Bernardo do Campo é um dos pontos de convivência mais tradicionais ligados à cultura automotiva do ABC. Além de ser um espaço de exposição de veículos, ele funciona como um ambiente social vivo, onde colecionadores, vendedores, curiosos e apaixonados por carros se encontram para mostrar modelos, conversar, negociar e compartilhar histórias.
A atmosfera é marcada por luzes, sons, motores e muita circulação de pessoas. O evento costuma ocorrer em dias de semana especialmente nas noites de quinta-feira, e também conta com edições maiores que transformam o espaço em uma espécie de feira temática, com carros antigos, customizados, importados, modificados e veículos que carregam identidade própria.
São Bernardo do Campo tem um vínculo profundo com o setor automotivo. A presença de grandes montadoras e indústrias na região moldou o cotidiano, o trabalho e até a identidade dos moradores ao longo de décadas. Por isso, manifestações culturais ligadas ao universo dos carros fazem parte do tecido social da cidade.
Os encontros no Poliesportivo surgem dessa tradição: um espaço público grande, de fácil acesso, que naturalmente atrai grupos apaixonados por veículos. Essa relação entre cidade e automóvel se reflete no evento, que não é apenas um ponto de compra e venda, mas também uma celebração da memória industrial do ABC, onde carros se tornam símbolos de status, pertencimento e estilo. Além disso, São Bernardo abriga diversos eventos relacionados a veículos, como o encontro de Fuscas mostrado na foto ao lado que ocorreu em Janeiro de 2025.
Folha do ABC, 2025
O bairro Jardim do Mar, em São Bernardo do Campo, possui uma trajetória profundamente vinculada ao processo de urbanização da cidade e à consolidação de espaços públicos voltados ao esporte, ao lazer e à convivência social. Situado em uma região estratégica do município, o bairro se desenvolveu paralelamente ao crescimento industrial de São Bernardo, especialmente a partir da segunda metade do século XX, período marcado pela expansão urbana e pela forte influência do setor automobilístico.
Nesse contexto, destaca-se a criação do Ginásio Poliesportivo Adib Moysés Dib, que se tornou um dos principais marcos do bairro e da cidade. O equipamento público não apenas fortaleceu a prática esportiva, como também passou a desempenhar um papel central na vida social e cultural da população, consolidando o Jardim do Mar como um importante polo de encontros coletivos.
Ao longo do tempo, o espaço do Poliesportivo ampliou suas funções e passou a abrigar eventos que dialogam diretamente com a identidade urbana e cultural de São Bernardo do Campo. As Quintas do Poli surgem nesse cenário como uma iniciativa que ressignifica o espaço público, transformando-o em um local de convivência, lazer e expressão cultural. O evento reúne música, gastronomia e diferentes manifestações da cultura urbana, fortalecendo os vínculos comunitários e promovendo a ocupação democrática do espaço.
De modo complementar, a tradicional feira de carros, realizada na região, estabelece uma conexão simbólica com a história econômica do município, marcada pela indústria automobilística. Mais do que um espaço de comércio, a feira funciona como um ambiente de memória e sociabilidade, onde passado e presente se encontram.
Assim, o bairro Jardim do Mar e o Complexo Poliesportivo Adib Moysés Dib se configuram como territórios de relevância histórica e cultural, nos quais esporte, lazer e manifestações urbanas se entrelaçam. As Quintas do Poli, em especial, reforçam o papel do espaço público como elemento fundamental na construção da identidade coletiva e na valorização da história social de São Bernardo do Campo.
O encontro é simples na estrutura, mas rico na dinâmica. Geralmente, os carros chegam aos poucos ao longo da tarde e início da noite. Proprietários escolhem locais estratégicos para estacionar e abrir o capô, ajustar a iluminação, ligar o som ou simplesmente deixar o carro reluzindo para atrair olhares.
Visitantes circulam com calma, fazem perguntas, elogiam, tiram fotos e comentam detalhes técnicos como motor, suspensão, rodas, originalidade das peças e nível de conservação. Em volta, vendedores independentes oferecem acessórios, itens automotivos, peças e pequenas lembranças. Em alguns dias, food trucks e barracas de comida fazem parte do cenário, tornando o evento ainda mais acolhedor.
A composição do público é variada: jovens que gostam de carros esportivos, famílias que vão pela curiosidade, colecionadores de longa data, vendedores que dependem desse circuito e curiosos que passam apenas para observar.
Os organizadores solicitam 1KG de alimento não perecível para que os carros possam ser "Expostos" dentro do evento, mas isso não limita o acesso. Os alimentos são destinados a doação.
Apesar de ter momentos em que recebe apoio formal, o encontro funciona majoritariamente por organização comunitária. Grupos de entusiastas divulgam datas, compartilham regras básicas e incentivam um clima de respeito. Em edições maiores, a estrutura costuma incluir:
divisão de áreas por tipo de veículo;
espaço para alimentação;
pequenos estandes de venda de peças e acessórios;
áreas de circulação para evitar acidentes;
pontos de iluminação para exposição noturna.
Esse formato híbrido — parte espontâneo, parte estruturado — é um dos motivos que tornam o encontro tão característico.
Os carros expostos carregam histórias, memórias familiares, investimentos pessoais e escolhas estéticas.
Um Fusca restaurado, um carro rebaixado ou um esportivo modificado expressam estilos de vida e identidades distintas.
Há normas não escritas:
como abordar um proprietário;
como elogiar um carro sem desrespeitar o trabalho alheio;
como negociar e testar veículos;
onde estacionar, onde não passar, quando é apropriado ligar o som ou o motor.
Para muitos, o encontro é mais que um hobby. É um ritual semanal: rever amigos, trocar ideias, sentir-se parte de um grupo. A identidade se constrói ali, entre conversas sobre mecânica, música tocando ao fundo e rodas iluminadas refletindo no asfalto.
Um estacionamento comum se transforma temporariamente em um grande espaço cultural.
O evento reorganiza o território: delimita áreas de exposição, cria caminhos de circulação e estabelece zonas de convivência.
É a cidade sendo “reutilizada” simbolicamente por uma comunidade.
A feira exemplifica perfeitamente como práticas culturais aparecem em espaços cotidianos e urbanos. Ali se articulam:
estética;
pertencimento;
sociabilidade;
cultura material;
economia informal;
identidades locais.
É um encontro que, à primeira vista, parece apenas uma feira de carros, mas que, ao olhar de Identidade e Cultura, se revela como um campo rico de símbolos e relações sociais.
No fundo, o que ocorre no Poliesportivo é mais do que exposição de veículos — é a manifestação contemporânea de uma cidade marcada pela indústria, pela força do trabalho e pelo imaginário do automóvel como conquista pessoal.
Observar esse evento nos permite enxergar:
como grupos sociais se organizam;
como objetos se tornam símbolos;
como o espaço público é apropriado;
como a identidade urbana se expressa.
E é justamente essa profundidade cultural que fez da feira um espaço tão significativo para a análise do nosso grupo.
Avenida Kennedy, 1155, no bairro Jardim do Mar/Parque Anchieta (CEP: 09726-263)