Meu nome é Victoria Martina Chaves Gallo, tenho 32 anos e nasci em São Paulo capital. Sou filha de pais separados, com visões progressistas e humanas de vida. Minha mãe mineira e meu pai argentino, uma mistura de culturas um tanto quanto interessante. Fui criada para ser uma menina livre e nunca sequer almejei um casamento ou ter uma família tradicional. Fui uma criança obediente, carinhosa, tímida mas que adorava falar (e ainda adoro!). E acredito que a o poder da comunicação vem me salvando desde sempre.
Desde que me lembro, meus pais me criaram para que eu fosse quem eu quisesse ser (mesmo com todas as projeções naturais que os pais têm para a vida da gente). Sempre incentivaram a minha autonomia, o pensamento crítico e os meus estudos. Nessa missão de educar alguém, também me ensinaram, desde muito nova, que eu tinha direitos e deveres. Eu sempre soube que as coisas tinham consequências e aprendi que não deveria, nunca, jogar a minha razão no lixo - por qualquer motivo que fosse. Tudo foi pensado para que eu vivesse da melhor maneira e dependesse o mínimo de outras pessoas.
Sou uma mulher cosmopolita assim como fui uma criança e adolescente criada, na maior parte do tempo, em cidades grandes. Passei a minha infância e adolescência alternando entre São Paulo, Buenos Aires, Brasília e Curitiba.
Ainda na adolescência, morei por um período de 5 anos em São João da Boa Vista. E, bem do topo dos meus sonhos de adolescente, essa menina que nasceu na maior cidade da América Latina acreditava, ingenuamente, que sua individualidade seria aceita e respeitada em qualquer lugar. A realidade, porém, foi bem diferente. Paguei uma conta alta por ser quem eu era, e descobri, da pior forma, o que era uma sociedade coronelista, conservadora e machista.
Cheguei em São João da Boa Vista perto de fazer os meus 15 anos de idade, num contexto já complicado por conta das inúmeras mudanças de cidade (nem tudo são flores). Para quem só conhecia a realidade das grandes cidades, morar em uma cidade de 90 mil habitantes pode ser um tanto quanto assustador. E foi.
Mesmo esse cenário onde eu deixava para trás, mais uma vez, os meus amigos, a minha casa, os lugares que eu gostava de ir, vi uma oportunidade de recomeçar e continuar a minha vida de adolescente. Conhecer novas pessoas, redescobrir quem eu era e ir atrás dos meus velhos e novos sonhos. Explorar, conhecer, me descobrir, me abrir para um mundo novo.
Não é novidade para ninguém que adolescentes podem ser crueis, por diversas razões. Hoje, com mais maturidade, consigo entender todas as nuances das batalhas por espaço, por afeto e por atenção. Aqui falando, especificamente, sobre as inseguranças das meninas (totalmente naturais), na chegada alguém novo que "rouba o foco".
Também não há dúvidas que fomos ensinadas a competir uma com as outras, isso é fato. E nós nunca fomos ensinadas a nos acolhermos, a nos escutarmos, a ouvirmos e acreditarmos umas nas outras. Essa é a estratégia mais antiga do patriarcado, nos colocar umas contra as outras. A tal da rivalidade feminina sempre foi fomentada pelo sistema patriarcal e, em contrapartida, o pacto de silêncio da brotheragem sempre foi e segue sendo o maior trunfo dos homens.
Dito isso, o cenário da minha nova mudança era um tanto quanto desafiador: Cheguei em uma cidade do interior de São Paulo e não sabia, mas eu seria o alvo fácil de muitas retaliações.
Logo eu que nunca me considerei uma adolescente excepcional em nenhum sentido. Tampouco fazia coisas tão diferentes do que os outros adolescentes também estavam fazendo. Acho que a grande diferença entre eu e os locais é que eu não sentia necessidade de esconder as coisas que eu fazia, enquanto eles só faziam as coisas escondidas. Hoje vejo que isso foi um grande ponto de incômodo para toda uma sociedade que fazia de um tudo mas fingia que não. A famosa pílula de hipocritil à brasileira.
No dia 15 de janeiro de 2008 recebi um convite de alguns amigos/conhecidos, para ir em uma despedida de um deles que estava indo para um intercâmbio nos Estados Unidos. Contrariando minha mãe, que não queria que eu saísse naquele dia porque no dia seguinte iríamos mudar de casa, eu combinei com duas grandes amigas da época para irmos e nós fomos.
Eu só não sabia, mas a vida que eu conhecia estava prestes a acabar.
"Com umas amigas, fui para um esquenta na Mantiqueira para esperar os meninos buscarem a gente. De lá para a chácara dava uns 25 quilômetros de estrada de terra. Eles chegaram atrasados e pareciam bem loucos, mas subimos na caçamba da caminhonete. Quando chegamos na chácara, descobrimos que a festa tinha virado algo mais intimista, só com os meninos da turma.
Ficamos um tempo na beira da piscina, todo mundo conversando, até que sugeriram jogar sueca, um jogo de baralho que quem perdesse tinha de beber. Em dado momento, comecei a perceber que eu estava perdendo repetidas vezes e que talvez isso não estivesse de acordo com as regras, mas duvidei da minha capacidade de avaliar e continuei jogando. Minhas amigas estavam lá, mas elas precisavam ir embora às 4h. Nessa hora, eu já tinha vomitado e estava passando mal. Neste momento, um dos rapazes, que era o mais velho do grupo e que estudava medicina, disse que eu tinha 2 opções: ir para um hospital para tomar soro, ou ficar na chácara até de manhã, quando eles me levariam para casa. Eu ouvi quando ele garantiu para minhas amigas que ninguém ia encostar em mim. Não queria que minha mãe me visse daquele jeito, então decidi ficar
Minhas últimas lembranças são eles me colocando numa cama de solteiro e um deles em cima de mim. Quando acordei, estava nua da cintura para baixo e ouvi muitas risadas, então saí para ver o que estava acontecendo. Descobri que tinham filmado tudo, mas ainda estava mal e voltei para o quarto. Só voltei a acordar quando o estudante de medicina estava me estuprando.
Muito nervosa, chorando, perguntei a ele por que tinha feito isso. Ele me respondeu gargalhando que não tinha sido o único, citou pelo menos 4 nomes e resumiu: “todo mundo te comeu”. Fiquei em choque, fui tentar tomar um banho e fui empurrada para outro quarto, sendo violentada por mais um. Depois eu tomei o banho mais longo da minha vida e o pai de um deles chegou na chácara para me buscar, porque minha mãe estava preocupada. Antes de sair, ele conversou com o filho e os amigos dele.
Enquanto me levava para casa, ele dizia que o melhor a fazer era ficar quieta, afinal era uma cidade machista e as pessoas não iam entender o que tinha acontecido. Ele convenceu minha mãe de que estava tudo certo e eu não tive coragem de falar nada. Pensei que minha mãe fosse me julgar.
Passei uma semana praticamente sem comer, só dormindo e tomando remédio, porque eu sentia dor na vagina e no útero. Minha mãe achou que as dores eram da menstruação, mas não entendia meu desânimo. Uma amiga foi me visitar e saímos para conversar, paramos num lugar e quando cheguei todo mundo me olhou. Tive certeza de que a história tinha vazado e da pior forma possível.
Minha mãe começou a receber e-mails com fotos da chácara, insinuações de que algo havia acontecido ali, mas eu não conseguia contar. Começaram a me falar que tinham assistido um vídeo comigo, só que eu mesma nunca vi. Minha mãe foi ficando cada vez mais cismada com meu comportamento agressivo, algo incomum, até que leu mensagem de alguns dos meninos pedindo desculpas no MSN.
Eu voltei da escola e já tinha um advogado me esperando, minha mãe queria agir o quanto antes. Os estupradores eram parentes de pessoas poderosas na cidade, médicos, promotores… A primeira reação deles foi oferecer dinheiro, e obviamente minha mãe não aceitou. Poderia ser o primeiro passo para punir os estupradores, mas ali começava um novo inferno."