Será mesmo possível viver em paz com uma sentença injusta e perpetuada pelos órgãos que deveriam nos proteger? O quanto isso afeta o desenvolvimento pessoal e profissional das vítimas de violência sexual e institucional? O que acontece quando a sua palavra como vítima é desconsiderada? Então quer dizer que uma mulher ativa sexualmente autoriza investidas sexuais enquanto está inconsciente?
E foi assim que a minha luta pelo fim da violência de gênero, sexual e institucional começou. Sem que eu sequer soubesse o que isso significava exatamente.
Apesar dos longos anos que se passaram, nunca consegui me esquecer da sequencia de revitimizações e humilhações que fui obrigada a reviver quando a minha mãe tomou ciência e resolveu que iríamos fazer uma denuncia. Para uma adolescente que vivia numa cidade pequena esse parecia o pior cenário de todos. Nos meses seguintes ao fato tentei levar minha vida da melhor maneira possível, mas aqui entram os adolescentes e as suas maldades.
Depois de dormir uma semana seguida, quando B. foi me visitar na tentativa de me tirar da cama e entender o que de fato tinha acontecido, com muito custo cedi e sai de casa para dar uma espairecida. Fomos ao único bar da cidade, onde jovens todos costumavam se encontrar e se divertir. Não me esqueço da sensação paralisante de me aproximar daquele lugar e ser observada por absolutamente todos os que estavam ali. Mesmo ainda sem conseguir dimensionar o meu problema, senti um amargor na boca e um frio na barriga que me confirmava que todos estavam sabendo o que tinha acontecido comigo. Um verdadeiro pânico tomou conta de mim não só pelos olhares mas porque B. me contou que a situação tinha sido distorcida pelos próprios autores do crime. Ou seja, eles reverteram os fatos na expectativa de controlar a narrativa e me colocar no lugar de culpada pelo que tinha acontecido.
A minha ingenuidade e o medo que foi posto em mim, tanto pelos abusadores tanto pelo pai de um dos abusadores - que me levou de volta pra casa depois do fatídico episódio, e me convenceu (coagiu) de que eu conseguiria conviver com toda aquela dor em silêncio. Mas o silêncio tinha sido quebrado, eles tinham me exposto. Eles conseguiram colar em mim um estigma de quem “merecia”, “fez porque quis”. Enquanto eu guardava um segredo para o “bem de todos”, seguindo a risca as ameaças do genitor de um dos estupradores, não me parecia tão ruim. A partir do momento em que eu me vi, no olho do furacão, sendo alvo dos piores comentários que uma adolescente de 15 anos pode ouvir. A situação tomou outro tom.
Me lembro que ainda naquela noite, minha amiga e eu conversavamos do outro lado da rua, onde todo o burburinho sobre mim acontecia, um dos criminosos se aproximou. P. veio me pedir desculpas, pessoalmente. Minha amiga não exilou em dar um tapa na cara dele e me defender. Foi a primeira vez que alguém teve a coragem de se posicionar a meu favor. Essa minha amiga também tinha ido comigo para chácara e por ser mais velha tinha um pouco mais consciência que eu a respeito do que tinha acontecido. Eu só não sabia que ela seria uma das únicas que ficaria ao meu lado durante todo esse pesadelo.
Perceber que todos estavam falando de mim, me julgando e me colocando em uma posição de culpada mexeu muito comigo. Ainda estavamos nas férias letivas e eu só conseguia imaginar o que seria de mim quando as aulas voltassem. Algo dentro de mim já sentia e já sabia que as retaliações seriam cada vez mais intensas.
Meu comportamento mudou, sempre fui uma menina com personalidade forte e muito certa do que queria (e não queria). A partir de então me tornei uma menina reativa, agressiva que estava sempre na defensiva. Criei uma máscara, um personagem, porque não queria que aquela imensidão de dor e sofrimento me afetassem mais profundamente. Me transformei, ergui muralhas de proteção para sobreviver ao que viria ser a maior guerra da minha vida.
Sem dimensionar o tamanho da violência continuei vivendo, tentando varrer toda a sujeira para de baixo do tapete. Buscando válvulas de escape, me colocando em situações de risco. Tudo na tentativa de esquecer o que eu tinha passado - a qualquer custo. Prometi a mim mesma que não iria me render, não iria abaixar a cabeça, não deixaria que isso acabasse com a minha vida. Sem saber que, na verdade, a vida que eu conhecia já não existia mais.
Com muita insistência por parte das mesmas amigas que me acompanharam na chácara naquela noite, aceitei o convite para irmos a São Luís do Paraitinga passar o carnaval. Não serei hipócrita nem vou mentir, foi um carnaval regado a muito álcool. Ilusoriamente e ingenuamente, naquela época parecia que realmente conseguiria esquecer tudo aquilo que me fizeram se eu me colocasse em novas situações (de risco) - afinal de contas nada de pior poderia acontecer comigo. Eu só queria esquecer tudo a qualquer custo. Não preciso dizer que eu não queria voltar pra SJBV. Que por mim eu tinha ficado em São Luís ou em qualquer outro lugar que tivessem me levado. Mas a vida do menor de idade nunca foi de tanta autonomia assim. Todo carnaval tem seu fim.
O estupro aconteceu na madrugada do dia 16 de janeiro de 2008. O carnaval daquele ano, foi no início de fevereiro. Passamos uma semana em São Luís antes de voltar para São João. Uma viagem de retorno um tanto quanto amarga, parecia que algo dentro de mim já sabia que o inferno estava só começando.
Voltando para SJBV recebi um telefonema inusitado, outra grande amiga da época que estava de férias Europa na época, me ligou para saber se eu estava bem e o que tinha acontecido de fato. Comecei a entender que as coisas estavam tomando uma proporção maior do que antes. Ela me contou que W., um dos estupradores estava contando uma história distorcida sobre a noite do crime para uma turma de aproximadamente 10 pessoas. Um encontro intimista na casa do filho de um empresário famoso da cidade que se tornou uma grande exposição do crime que eles tinham cometido. Mas é claro que, novamente, eu havia sido responsabilizada pelas atrocidades que ele narrou sem ter vergonha para todo aquele grupinho. Foi durante essa ligação que eu tomei conhecimento de quem eram todos os agressores. W., tinha contado. Nomes que eu não sabia que tinham participado. Foi um pesadelo descobrir que haviam seis envolvidos no estupro daquela noite.
Cada noticia como essa me dilacerava, me arrasada, me frustrava e me deixava cada vez mais furiosa com a postura dos estupradores. Não conseguia entender o porque de tudo aquilo se eles mesmos me fizeram prometer (coação) que “O que acontece na chácara, fica na chácara”. O pai de um dos envolvidos, dono da chácara, me convenceu de que "pro meu próprio bem eu deveria me manter calada. Com um discurso moralista a respeito de Sao João, disse que as pessoas não entenderiam o que tinha acontecido. Me prometeu que nada sairia do controle e me levou pra casa, conversou com a minha mãe e convencendo-a de que eu era uma menina linda e querida pela família. Porque isso tinha mudado? O que teria acontecido para eles me exporem dessa maneira?
Andar pelas ruas da cidade já tinha se tornado uma experiência circense. Todos me olhavam, todos cochichavam, todos já tinham tirado conclusões sobre a versão que eles tinham contado. Eles controlavam a narrativa e quem controla a narrativa controla a verdade. Parecia que não havia nada que eu poderia fazer. Qualquer ida a um barzinho, a uma praça, os olhares me perseguiam. Os comentários mais asquerosos sussurravam baixinho enquanto eu passava ou estava na fila para ir ao banheiro. Eu sabia que era questão de tempo até minha mãe descobrir e ficava cada dia mais apavorada e irritada.
No meio disso tudo, a minha relação com a minha mãe foi ficando cada vez mais conturbada, eu cada vez mais irritada, sem paciência, chorando por qualquer razão e descontando todas as minhas frustrações em cima dela. Era um misto de “pq vc não faz alguma coisa?” Com “ainda bem que vc não sabe de nada pq isso ficaria ainda pior”. Foram dias de muito sofrimento sem que eu entendesse o que eu estava sentindo. Um mar de culpa, um oceano de raiva. Como tudo isso foi acontecer comigo? Só conseguia pensar que a minha mãe, assim como todos os outros, também iria me julgar. E escondi, e não contei e esperei…
O ano letivo estava prestes a começar e o meu medo já tinha se estendido a volta as aulas também. “Será que todos já sabem? Alguém vai acreditar em mim?” Se eu pudesse tinha largado os estudos naquele ano, mas ainda bem que fui persistente, corajosa e enfrentei.
Na escola as coisas não foram diferentes. Muitos amigos dos envolvidos estudavam comigo também. A maioria mais velhos, mas eles estavam lá. Fazendo motim, me encurralando no recreio. Lembro que um dos ápices do meu desespero foi quando um deles, Lucas A., me disse ‘Vi seu vídeo’. E eu, que nunca abaixei a cabeça pra nenhuma retaliação, naquele momento confrontei que vídeo era aquele. Eu tinha uma leve lembrança de ter acordado no meio da fatídica noite, e ter levantado pra ouvir as risadas que estavam vindo da cozinha. Estavam lá, todos os agressores, em roda, olhando para uma câmera e dando risada.
Naquele momento fiquei paralisada mas consegui reagir, lembro de ter pedido para ver o video também. Essa pessoa só riu na minha cara (e da minha cara) e disse que em algum momento esse vídeo chegaria até mim também. Fiquei arrasada, fiquei preocupada, só conseguia pensar na minha mãe e no que esse tal vídeo poderia fazer com a minha vida que já não estava nada fácil.
Foram dias difíceis na escola. Sempre um burburinho daqui, um comentário maldoso de lá. As pessoas já não queriam andar comigo, algumas diziam deliberadamente que tinham sido proibidas por seus pais de manter contato comigo. Meus amigos se tornaram fantasmas, a maioria deles só se relacionava comigo no período das aulas. As meninas sempre muito maldosas, foram as que endossaram a maior parte das violências que vivi. Ficava chateada e pensava ‘Como pode não acreditarem em mim?’.
Minhas amigas que estudavam no colégio que os estupradores frequentavam, vinham ao meu encontro no recreio para dizer que os rumores estavam cada vez mais intensos. Só se falava disso. Algumas acreditavam em mim, outras passaram a me descredibiizar e acabaram se afastando. A coisa foi tomando uma proporção inimaginável e, no fundo, eu sabia que algo estava prestes a acontecer.
Aqui cabe um lembrete, na época o Orkut era a rede social do momento, os jovens estavam lá participando de comunidades e postando suas humilde 12 fotos para criarem uma persona na internet. Eu não era diferente, estava lá tentando encontrar a minha turma. Algumas fotos do meu carnaval foram parar lá.
Eu me lembro da sensação, de querer, que as pessoas daquela cidade soubessem que elas não tinham me destruído e que não conseguiriam me destruiria de maneira alguma. Meu nome é Victoria e eu não seria derrotada tão facilmente. Eu estava realmente disposta a me colocar nesse lugar. Naquela altura do campeonato eu já sentia muita raiva e muita indignação com a postura das pessoas e com as mentiras que eram tão facilmente semeadas e espalhadas por qualquer um dos locais.
Com a gravidade dos fatos, as fofocas crescendo e as retaliações que eu já vinha sofrendo há quase mês na escola passei a voltar para casa cada vez mais irritada e mais desanimada. As brigas com a minha mãe começaram a se intensificar e eu via nos olhos dela uma total incompreensão para que eu estivesse agindo daquela maneira. Para piorar um pouco a minha vergonha e irritabilidade, minha mãe começou a me questionar o que de fato havia acontecido na chácara. Eu ficava desesperada, tomada por raiva, porque não entendia como ela havia chegado nesses questionamentos.
Os questionamentos passaram a ser diários até que um dia ela me contou que estava recebendo uma serie de emails que tinham como título ‘Verdades sobre o que aconteceu na chácara’ com fotos, selecionadas a partir do meu orkut, e com um corpo de email um tanto quanto ameaçador. Eu nunca entendi, e até hoje não entendo, qual era a intenção de tudo aquilo. Alertar? Assustar? Me culpabilizar? E conforme os dias foram passando, os emails continuavam a chegar. Naquela altura do campeonato o meu comportamento já tinha mudado por completo. Me sentia cada vez mais acuada, cada vez mais irritada e descontava toda essa frustração na minha mãe. Na minha cabeça ela estava me pressionando para saber de algo que ela também não entenderia.
Não demorou muito até que minha mãe se inteirasse do que tinha acontecido. Ficou cismada com a minha mudança brusca de comportamento e com todos os emails de ‘aviso’ que ela vinha recebendo. Resolveu mexer no meu computador, descobriu a senha do meu MSN e acessou as minhas conversas particulares e a verdade veio a tona: Eu havia sido estuprada por seis meninos.
Me lembro que cheguei da escola e ela estava enérgica, não me deu chances de ficar na minha ou de dormir (algo que eu fazia com frequência durante as tardes, porque não tinha vontade de fazer nada). Num primeiro momento não me contou como descobriu mas deixou claro que sabia o que tinha acontecido. Ela sabia de tudo inclusive quem eram os envolvidos. Minha mãe é uma mãe águia, uma mãe impar. Uma pessoa extremamente correta e crente nas instituições. Apesar de ser uma mulher rígida ela entendia que não era eu quem deveria ser punida pelo que tinha acontecido. Ela sempre soube quem eram os responsáveis e criminosos. Aos 15 anos eu não conseguia enxergar as coisas dessa maneira, só conseguia pensar que a retaliação seria muito maior do que a que eu já estava sofrendo e me desesperei.
Tive uma crise de choro, uma crise de raiva. Achava que ela queria me punir, que era ela quem queria destruir a minha vida me pressionando daquela maneira, não conseguia entender que eles já haviam destruído a vida que eu antes conhecia e que ela só tinha a intenção de reparar toda a dor que eles me causaram. Não demorou muito para que ela acionasse um advogado, mesmo contra a minha vontade, e também não demorou muito para que eu contasse o que tinha acontecido de fato para esse advogado. Foi aí que começou a saga da minha busca por justiça.
Meu advogado da época era um homem, com mais de 50 anos, e eu me lembro de sentir muita vergonha de ter que contar tudo o que eu ‘achava’ que tinha acontecido. Na noite em questão eu tinha passado mal de tanto beber vodka, estava desacordada. Tudo o que fiquei sabendo foi pela boca dos outros e dos próprios envolvidos que contavam tudo como se fosse uma grande vantagem. Relatei o que pude para o Dr., senti vergonha de contar que acordei com o estudante de medicina me estuprando. Mais vergonha ainda de contar que W., no dia seguindo, me empurrou para um quarto e me obrigou a fazer sexo com R. Pensava que isso fosse descredibilizar por completo tudo o que eu tinha passado. Dei o meu melhor e me abri com o Dr, dentro do que eu poderia aguentar naquele momento. Eu estava totalmente arrasada.
No dia 04 de março de 2008, passado quase quarenta e cinco dias depois do episódio, estavamos eu, minha mãe e o meu advogado atravessando a rua para irmos até a delegacia da cidade. Dei meu primeiro depoimento de muitos, muito envergonhada e nervosa porque me preocupava muito com o fato de ter ‘prometido’ não falar nada pra ninguém. Eu só não sabia que precisaria voltar algumas vezes até a delegacia e outros órgãos para repetir a minha versão dos fatos.
Foram algumas oitivas em que me expus, expus toda a minha fragilidade e vulnerabilidade para as autoridades. Conversei com delegados, promotores, psicólogas. Conversei mais de uma vez com a promotoria e com a delegada da delegacia da mulher. Cada vez que tinha que voltar a prestar depoimento me sentia extremamente humilhada, a promotoria conversava comigo como se desconfiasse que eu estava mentindo.
Tudo isso foi inflamando o meu estado de espírito e me desencorajando a falar porque eu sentia que nada do que dizia estava sendo levado em consideração. Eles duvidavam de mim, era claro. Tive embates ferrenhos com a minha mãe porque não queria mais prestar depoimentos, achava que ela estava me torturando mesmo sabendo que eu já havia sido torturada.
A famosa revitimização, hoje posso dar um nome para isso. Naquela época apenas me cansava de repetir a mesma história e não entendia o porque eu precisava fazer isso. O que passava pela minha cabeça que eles queriam me pegar na mentira o que me deixava ainda mais furiosa e desencorajada a falar com as autoridades. Sofri muito em cada depoimento que prestei.
Até que um dia me encaminharam para um perito ginecologista do IML, e para mim ali foi a gota d’água. Fui com a minha mãe, e na sala do médico estava ele e uma enfermeira. Durante o exame preventivo (papa Nicolau) o Dr. começou a me contar uma história sobre uma bebedeira que ele e a turma dele tinham tido na praia há muitos anos atrás. O história terminou da seguinte forma ‘Cu de bêbado não tem dono’. Fiquei completamente em choque, paralisada, numa situação de extrema vulnerabilidade. Estarrecida sem conseguir reagir aquela violência. Me lembro que a enfermeira que estava acompanhando o procedimento disse ao médico para que tivesse compostura, nem ela acreditava que o Dr. estava fazendo aquilo com uma adolescente de 15 anos de idade.
Mais um sofrimento institucional totalmente desnecessário para a minha conta, mais uma descrença que o sistema ia me levar em consideração. Mais uma violência indimensionável para uma menina que ao sair para se divertir com amigos, num lugar supostamente seguro, teve sua vida arrasada por completo.
A verdade é que a minha batalha tinha só começado. Nos meses que se passaram fui obrigada a reviver o trauma tanto na escola, nas ruas da cidade, nos barzinhos em que frequentava e também em cada visita para conversar com alguma autoridade. O Promotor responsável pela fase de inquérito do meu processo, coincidentemente era casado com a Tia de um dos estupradores. Vim a descobrir um pouco mais velha e lendo os despachos que ele fez a respeito do meu caso que fica evidente o quão arbitrário ele foi.
A estratégia da defesa, muito bem orientada por advogados e membros certos amigos dentro do MP, imputaram a mim a culpa pelo crime que sofri. Um escritório de 10 advogados foi montado para que a minha vida pregressa fosse utilizada como justificativa para que eles tivessem me estuprado. Angariaram testemunhas para falar dos meus hábitos, comportamentos e até da minha família - eu sou filha de pais separados e até isso foi usado contra mim. Meninos com quem eu já tinha me relacionado toparam ser testemunhas dos investigados falando mentiras a meu respeito e se aproveitando do fato de terem se relacionado comigo para me desmoralizarem como ser humano.
A narrativa que se criou - e que se sustentou até a minha sentença, é que eu havia provocado tudo aquilo. O fato deu não ser mais ‘virgem’ na época, justificava as investidas sexuais enquanto eu estava desacordada. O fato de consumir bebida alcóolica foi utilizado para justificar que ‘era impossível eu ter passado mal’. Um verdadeiro show de horrores.
Houve inconsistências nos depoimento dos acusados durante o tramite processual. Houve também a confissão parcial dos réus sobre o que tinha acontecido. Em nenhum momento eles negaram que tinham transado comigo mas levantaram a hipótese de que tudo havia sido consensual. Minhas testemunhas nunca mudaram seus depoimentos, eu também não.
O fato não foi questionado nem na minha sentença, bem como a confissão dos réus foi ratificada nessa mesma sentença. A única palavra invalidada e a única versão questionada foi a minha. O estudo social feito pelo MP, a minha tentativa de suicidio da epoca, as ameaças e retaliações contra mim e a minha mãe, nada disso foi o suficiente para que fosse considerada vítima de um crime brutal que mudou todo o curso da minha vida.
Eu era uma menina livre, bonita, não era local e não poderia manchar a reputação das famílias por mais que a vítima fosse eu.
A demora no aceite da minha denúncia, a atitude da promotoria parente de G. eram prenúncios de como tudo acabaria. Mesmo com a substituição da promotoria do meu caso, após esforços do meu advogado e da promotora substituta, não foram o suficiente para reparar o curso processual. Ao deixar o caso, o Promotor-Tio de um dos estupradores faz um despacho assustador onde deixava claro que a minha vida pregressa deveria ser investigada.
Importante dizer que sua atuação se deu de março de 2008 até junho de 2009. O Promotor agiu de forma suspeita, arbitrária e prejudicando as oitivas, as provas e deixando um lastro processual que interferiu nas decisões judiciais.
Muitos meses se passaram até a minha primeira audiência, no Fórum João Mendes, dia esse que nunca vou esquecer. Cheguei acompanhada pela minha mãe e o Fórum estava lotado de amigos e apoiadores dos réus. Parecia mais um jogo de futebol ou uma final de Big Brother. Fui recebida, ovaciada, ao coro de meninos e meninas que gritavam “puta, puta, puta”. Pelo menos 300 pessoas, sem exagero.
Minha mãe ficou completamente atônita, eu queria ir embora imediatamente mas tinha que cumprir as obrigações. No gesto mais lindo de apoio, me lembro da minha mãe olhar bem sério pra mim, pegar no meu queixo e ergue-lo enquanto dizia: “ Olha para o fundo do corredor, não abaixa a cabeça porque você não é a criminosa. Você é a vítima. “ Segui as instruções, completamente abalada pela situação. Algumas das pessoas que estavam ali fingiam que gostavam de mim. E eu, sinceramente, nunca consegui entender o que de tão ruim eu tinha feito para merecer tanto ódio.
Enquanto as coisas não aconteciam judicialmente, a perseguição ferrenha da sociedade continuava. Passamos a receber ameaças de morte via ligação, as pessoas passavam em frente a nossa casa e arremessavam ovos, gritavam palavras de baixo calão. O medo foi crescendo, andar pelas ruas já não era mais a mesma coisa. Eu confesso que nunca me intimidei, sempre tive tanta certeza da minha verdade. Acredito que por ser adolescente não conseguia tangilibilizar o risco que eu corria, minha mãe já via tudo com outros olhos e com outra maturidade. Ela entendia que cada dia que passava eu corria mais perigo, se é que isso realmente era possível (e era).
Em 2011 me mudei para Curitiba, depois de ter sido agredida fisicamente pela mãe de G. Minha mãe entendeu que tudo tinha ido longe demais e para preservar a minha vida e o que tinha sobrado da minha saúde - física e mental, era o certo a se fazer.
18 ANOS SE PASSARAM E AINDA CARREGO AS CICATRIZES
Nunca esqueci nada do que tinha acontecido comigo, arrisco dizer que e retaliação de uma cidade inteira e a violência institucional me marcaram mais que o fato em sim. Foi tudo muito triste, muito cruel e muito pesado. Não desisti de lutar e lutei para sobreviver.
Minha vida foi deveras disfuncional, passei ao menos 14 anos fazendo uso de válvulas de escape na tentativa de apagar tudo isso. Caí no fundo do poço e com ajuda de alguns, principalmente da minha mãe, entendi que varrer a dor para debaixo do tapete pode ser tão nocivo quanto tudo o que vivi. Encarar o problema, aceitar os fatos, aceitar que as coisas são como são é taréfua árdua. Me redescobri, me reinventei, renasci diante de tudo o que me aconteceu.
Hoje sou a minha melhor versão e estou pronta para seguir lutando com as armas que tenho, para continuar buscando justiça e reparação diante desse cenário lamentável de omissão do Estado. Não vou dizer que foi fácil mas se tornou menos difícil.
Hoje faço parte de um ambulatório (AISEP) do Instituto de Pesquisa do Hospital das Clínicas (IpqHC) para vítimas de violência sexual e levo muito a sério meu tratamento.
As sequelas ainda existem, fui diagnosticada com Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) e Transtorno de Estresse Pós Traumático (TEPT) - esse ultimo, inclusive, muito comum em soldados de guerra. Parei de beber, comecei a praticar exercícios, tenho uma psicóloga maravilhosa que me ajuda e me ampara para que eu siga o meu caminho da melhor forma possível.
Posso afirmar, com tranquilidade, que não tem receita para superar um evento como esse, talvez esse tipo de violência nunca seja superado. O que eu encontrei durante esse longo processo de autoconhecimento e cura foi apoio, acolhimento e amor - o que já ajuda bastante.
Em termos judiciais, foram dois processos movidos contra os estupradores: 1 cível e 1 criminal.
Na esfera cível os menores de idade foram condenados a liberdade assistida, pena branda, e nem preciso dizer que isso nunca aconteceu de fato. Contradizendo esse cenário, no âmbito criminal, os maiores de idade foram absolvidos. Minha mãe também moveu uma ação de danos morais contra os envolvidos, mas perdemos.
Esse resultado é fruto da atuação arbitrária da promotoria na fase de inquérito, que me revitimizou tantas vezes e sustentou a narrativa de que eu estava errada.
Quando saíram as sentenças uma sensação inenarrável de impotência, de ter sido tao invisibilizada e descredibilizada diante de um crime tao brutal. Minha mãe tentou recorrer, mas para a nossa surpresa os processos desapareceram. Eles tinham vencido, ou pelo menos acreditavam que venceriam assim. Foram anos a fio procurando os processos e tentando desarquivar os autos mas sem sucesso.
Será mesmo possível viver em paz com uma sentença injusta e perpetuada pelos órgãos que deveriam nos proteger? O quanto isso afeta o desenvolvimento pessoal e profissional das vítimas de violência sexual e institucional? O que acontece quando a sua palavra como vítima é desconsiderada? Então quer dizer que uma mulher ativa sexualmente autoriza investidas sexuais enquanto está inconsciente?
Em 2022, comecei a me tratar. E na tentativa de reconstruir a minha vida e buscar reparação judicial entrei em contato com o projeto As Justiceiras, que aceitaram o meu caso. Me forneceram apoio jurídico e quatro sessões de terapia. Fizeram uma denúncia na Ouvidoria das Mulheres, onde foi relatado o desaparecimento dos autos e a atuação insatisfatória da promotoria no meu caso.
Surpreendentemente (ou nem tanto assim), a denúncia foi recebida pelo mesmo promotor de justiça (tio de um dos agressores) e foi respondida e arquivada por ele. Não chegando sequer a corregedoria geral no MP. Adulta e mais consciente de todas as irregularidade processuais fiquei devastada mas sabia que essa guerra ainda não tinha acabado.
No começo desse ano (2025) iniciei um movimento forte de denuncias à autoridades, parlamentares, jornais e instituições a respeito do meu caso e de toda a impunidade que nele estavam envolvidas. Peticionei junto ao Ministério de Direitos Humanos e Cidadania (MDHC), Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) e Ministério Público de São Paulo (MPSP). Sem advogado, somente com instruções do gabinete do único parlamentar que respondeu o meu pedido de ajuda - Eduardo Suplicy.
O MDHC segue cobrando explicações da Promotoria de SJBV. O MPSP arquivou sumariamente minha denúncia sem que eu sequer soubesse o motivo ou pudesse me defender, mas não desisti. Peticionei novamente junto a Corregedoria Geral do MPSP um pedido de desarquivamento da minha denúncia e estou esperando alguma resposta. O CNJ e o CNMP acataram minha denúncia e os tramites estão caminhando.
Quero acreditar que em 2025 as coisas estejam diferentes, que a sociedade e as instituições (formadas por membros da sociedade civil) sejam capazes de reconhecer que erraram comigo. Me culpabilizaram por um crime cometido contra mim, foram incapazes de defender a Victoria de 15 anos que já carregava muito sofrimento e também, por omissão do Estado, carregou o estigma de ter a sua vida pregressa, como fator determinante, nas sentenças injustas que imputaram contra mim.
Sigo em busca da reparação institucional e não de retaliações pessoais. O meu único objetivo, nessa guerra que parece não ter fim, é ter a minha palavra como vítima ouvida e reconhecida.
Aos 32 anos e no auge da minha lucidez acredito que não estou pedindo nada demais, estou pedindo que façam a coisa certa. Por mim e por outras mulheres que não podem e não devem ser tratadas como eu fui. Sinto e sei que essa minha luta já não é individual.
Luto para que as subnotificações de um crime tão perverso quanto esse diminuam substancialmente. Luto para encorajar outras mulheres a buscarem justiça, proteção e acolhimento. Luto por um futuro em que nós, mulheres, sejamos levadas em consideração e ouvidas. Para que não tenhamos mais medo e para que sejamos protegidas por quem tem a obrigação legal de nos proteger: o Estado.