SIGA OS CAMINHOS DA TRÍADA
SIGA OS CAMINHOS DA TRÍADA
Na geometria, o quadrado é uma forma de certezas: quatro lados iguais, quatro ângulos retos, estabilidade absoluta. Mas, nas mãos do artista Ronan Pereira, o quadrado deixa de ser um ponto de repouso para se tornar um motor de movimento. A exposição TRÍADA apresenta um mergulho na pesquisa visual do artista, onde a estética da Op Art encontra a poética da superação sensorial. Idêntico em dimensão e origem, esse elemento inaugural se impõe como ponto de passagem. O quadrado se revela sutilmente no centro e nos cantos das composições, como vestígio e estrutura, despertando o olhar para um espaço ao qual a geometrização se abre para o fluxo: a cor se conecta, se expande e se dilui sem fronteiras fixas.
A obra de Ronan nasce de uma condição singular: sua visão monocular. Onde a biologia lhe oferece a planicidade do mundo, o artista responde com a projeção infinita da profundidade. Sua técnica baseia-se na fragmentação rigorosa do quadrado em dois triângulos cortados na diagonal. A partir dessa divisão, Ronan pulveriza as telas com complexos mapas preenchidos por essas formas geométricas, desafiando a percepção. Como um caleidoscópio que reorganiza fragmentos soltos em simetrias perfeitas, Ronan sobrepõe quadrados e cores para fabricar uma terceira dimensão que não existe na tela, mas que vibra na mente de quem vê. É nesse instante de fascínio que o encontro acontece: a obra acolhe o espectador e amplia seu olhar, dissolvendo a rigidez de suas certezas para dar lugar à vertigem de novas descobertas, onde a dúvida se torna deslumbramento.
O quadrado torna-se, então, o enigma; os fragmentos são uma provocação que transforma o observador em um investigador, onde apenas o olhar mais atento é capaz de descobrir a essência por trás da vibração cromática que simula a pulsação e o movimento.
Para Fayga Ostrower (1920-2001), teórica e artista plástica brasileira, a ordenação interior é o momento em que o artista transforma a matéria bruta da vida em linguagem. Ao aplicar esse conceito à obra de Ronan Pereira, percebemos que seu rigor milimétrico é técnica, mas também uma necessidade vital de estruturar o olhar. Cada quadrado posicionado é um ato de clareza contra o caos visual. É a prova de que, antes de ordenar a tinta sobre a tela, o artista ordenou a si mesmo, transformando a sua limitação física em potência criativa.
Angelina Accetta