A Saṃsāra não nasceu de um plano estratégico nem de uma tendência de mercado. Nasceu de uma circunstância muito menos romântica: uma prescrição médica.
Em 2011, na Índia, o meu médico de família, o Dr. Sutharia, foi direto ao assunto. Duas hérnias discais, torta, com dores constantes e uma recomendação clara, sem rodeios nem linguagem espiritual: “tem de praticar Yoga”. Não houve promessa de transformação interior, nem discurso sobre chakras, nadis ou iluminação. Houve apenas a constatação de que o corpo precisava de movimento, disciplina e atenção.
E foi assim que tudo começou.
A minha prática inicial não aconteceu em estúdios sofisticados, nem em retiros silenciosos. Aconteceu no terraço do prédio onde vivia em Vasai, às 4h30 da manhã, com as minhas vizinhas. Mulheres comuns, com rotinas exigentes, responsabilidades familiares e corpos cansados, para quem o dia começava cedo.
Não havia tapetes de Yoga. Havia toalhas de banho estendidas no chão, usadas com a naturalidade de quem resolve com o que tem. Vestíamos shalwar kameez simples, roupa do quotidiano, sem logos de marcas desportivas. O Yoga não era apresentado como identidade, nem como estética; era apenas algo que se praticava.
Nenhuma de nós se apresentou como “praticante espiritual”. Não se falava de deuses, energias ou intenções. Não se cantavam mantras nem se explicavam conceitos. Havia respiração, repetição e atenção suficiente para que o corpo, pouco a pouco, encontrasse alguma estabilidade. E isso bastava.
Sem o saber, aquela prática simples já continha algo essencial daquilo que, mais tarde, viria a reconhecer como Saṃsāra: a experiência concreta de ciclos, de repetição, de continuidade sem garantias. Não havia promessa de chegada — apenas a necessidade de recomeçar todos os dias.
Quando regressei à Europa, trazia comigo oito anos de vivência em Maharashtra e uma relação bastante simples com o Yoga. Por isso, o contraste foi inevitável.
Encontrei aulas onde se cantavam mantras sem explicação, onde se colocavam “intenções” no início da prática, onde se evocavam conceitos e divindades hindus perante pessoas que, legitimamente, não sabiam o que estavam a repetir. O mais curioso não era a presença desses elementos — era a ausência de perguntas. Presumia-se que tudo aquilo fazia parte do pacote. Que era “normal”.
Mas normal em que contexto?
Normal para quem?
E com que base?
Aquilo que eu tinha vivido como uma prática concreta, situada e despojada surgia agora revestido de uma espiritualidade genérica, frequentemente desligada das suas origens textuais, históricas e culturais. O Yoga aparecia menos como prática informada e mais como produto cuidadosamente encenado, apresentado como caminho de salvação rápida num mundo que raramente tolera processos longos.
Entretanto, a vida seguia o seu curso. Mãe solteira, a trabalhar, a praticar quando era possível — muitas vezes à noite, muitas vezes aos fins de semana. O Yoga foi deixando de ser apenas prática pessoal para se tornar também objeto de estudo.
As perguntas acumulavam-se: de onde vêm estas ideias? Quando surgiram? São antigas ou recentes? Tradicionais ou adaptações modernas? Nem sempre as respostas eram simples — e isso, longe de ser um problema, tornou-se um motor.
Foi neste contexto que iniciei uma Pós-Graduação em Yoga, com a duração de dois anos. O primeiro ano representou uma verdadeira explosão de conhecimento: estudo aprofundado de anatomia aplicada à prática, contacto estruturado com o sânscrito, análise de textos, e uma prática de āsana muito mais consciente e fundamentada. Muitas das dúvidas que trazia — tanto ao nível da prática postural como da compreensão teórica — começaram finalmente a encontrar enquadramento.
O segundo ano, contudo, revelou-se diferente. A estrutura repetia largamente conteúdos do primeiro, e algumas escolhas de docentes convidados levantavam mais interrogações do que propriamente esclarecimento. Não completei esse segundo ano — não por rejeição do percurso, mas por sentir que aquele formato específico já não correspondia ao tipo de aprofundamento que procurava naquele momento.
Longe de ser uma crítica, este processo foi essencial. Foi precisamente aí que consolidei a base que viria a sustentar a Saṃsāra. Descobri autores académicos de referência internacional, aproximei-me de uma leitura mais rigorosa dos textos, e conheci praticantes que se tornaram amigos — pessoas com quem partilho uma visão semelhante do Yoga: crítica, informada e despojada de excessos.
Foi também aqui que o conceito ganhou densidade. Não apenas como noção filosófica ligada a renascimentos, mas como descrição rigorosa da experiência humana: ciclos de construção e ruptura, fases de estabilidade seguidas de momentos em que é necessário recomeçar quase do zero. A minha própria vida tinha sido feita desses ciclos — pessoais, profissionais, geográficos — e o Yoga acompanhara-os não como solução mágica, mas como prática de permanência no movimento.
O formato de centro de estudo online não surgiu por conveniência tecnológica, mas por necessidade. Em Portugal, são poucas as ofertas verdadeiramente fidedignas e rigorosas no ensino do Yoga, sobretudo em língua portuguesa. Grande parte dos conteúdos disponíveis encontra-se excessivamente embelezada, simplificada ou modificada, muitas vezes por falta de formação sólida dos autores, outras vezes pelo cruzamento indiscriminado com práticas que não pertencem ao Yoga.
Reiki, espiritualidades genéricas, referências difusas a “culturas orientais”, elementos simbólicos deslocados do seu contexto — tudo isto é frequentemente introduzido nas aulas não como objeto de estudo crítico, mas como ornamento. Como se acrescentar camadas externas pudesse tornar a prática mais autêntica, mais profunda ou mais “sagrada”.
Cria-se, assim, uma encenação de templo, uma atmosfera ritualizada que pretende conferir legitimidade espiritual a algo que raramente é explicado. No entanto, o Yoga praticado na Índia — aquele que conheci — não acontece em cenários cuidadosamente preparados para criar mística. Acontece muitas vezes em tendas simples, que acolhem centenas de pessoas ao mesmo tempo, sem silêncio absoluto, sem incenso, sem estética pensada. A sacralidade, quando existe, não é decorativa; é contextual e vivida.
Foi neste vazio — entre prática vivida, discurso comercial e ausência de rigor — que a Saṃsāra começou a ganhar forma.
Na filosofia yoguica, Saṃsāra designa o ciclo contínuo da existência condicionada: repetição, mudança, perda, recomeço. Não é uma falha do caminho; é o próprio terreno onde ele acontece. Escolher este nome foi reconhecer que o percurso não é linear, que não há pontos finais definitivos, e que compreender os ciclos é mais honesto do que prometer saídas fáceis.
A Saṃsāra nasce, assim, desta caminhada prolongada:
da prática simples num terraço em Vasai, Maharashtra, Índia,
do estranhamento ao regressar à Europa,
do estudo feito em horários improváveis,
dos encontros com pessoas e autores certos,
da constatação de que, demasiadas vezes, o Yoga é avaliado mais pelo preço da aula do que pela veracidade do conteúdo.
Não nasce para prometer curas nem despertares.
Não nasce para competir com estúdios ou outros formadores.
Não se apresenta como uma exceção absoluta — existem outras iniciativas sérias, ainda que pouco numerosas.
Nasce como um centro de estudo online, assente em investigação académica, fontes primárias e pensamento crítico, num contexto em que esse tipo de abordagem continua a ser pouco frequente.
Estas são apenas as primeiras pedras. Não são conclusões finais. São o início de um espaço onde se pode praticar, estudar e questionar — dentro do ciclo, não fora dele; com seriedade, mas sem rigidez; com rigor, mas sem perder o sentido de humanidade.
Se chegaste até aqui, bem-vindo.
O caminho continua — devagar, como sempre foi.
Vic