Nos Açores temos diferentes afinações de acordo com determinada Ilha e com as características do instrumento. Mesmo dentro da mesma Ilha, pontualmente, há alterações à afinação da Viola, para se tocar este ou aquele tema.
No entanto, são duas as afinações principais e mais utilizadas. No caso das Ilhas de Santa Maria e São Miguel a Viola afina em Ré, Si, Sol, Ré, Lá (afinação da ordem mais aguda para a mais grave). Temos depois, nas restantes sete Ilhas (Terceira, Pico, Faial, São Jorge, Graciosa, Flores e Corvo), uma outra afinação, onde só se altera, em relação à fórmula anterior, a 1ª ordem de cordas, a mais aguda (ordem “prima”), passando o Ré a ser afinado em Mi. A afinação nessas Ilhas é de Mi, Si, Sol, Ré, Lá. Estas são as afinações da Viola de 12 cordas divididas em 5 ordens.
Esquema de afinação da Viola de 5 Ordens (1ª ordem em Ré) Esquema de afinação da Viola de 5 Ordens (1ª ordem em Mi)
Na Ilha Terceira, no caso da Viola de 6 ordens (a Viola mais tocada naquela Ilha), a afinação é Mi, Si, Sol, Ré, Lá, Mi.
Temos depois outros casos peculiares, como nas Flores, onde recebi um testemunho de um músico que lá fez recolhas, de que um dos tocadores de Viola afinava a primeira ordem em Ré para tocar um “Fado Antigo”, referindo estar a “afinar à moda de São Miguel”.
Na Ilha de São Miguel era comum alterar-se a afinação da 5ª ordem (a mais grave), baixando-a de Lá para Sol, para se tocarem as “Sapateias”. Também poderia ocorrer em mais algum tema executado na tonalidade de Sol. Esta alteração permitia ao Tocador ter o “Bordão de Sol” como uma espécie de “nota pedal” que vai sendo pulsada em intervalos regulares, ao longo da execução da melodia, para manter a sustentação de som. Esta situação ainda se verifica nos nossos dias.
Nas Ilhas de Santa Maria, São Miguel e Flores a Viola é tocada (tangida, ponteada) recorrendo ao polegar da mão direita. Quer isto dizer que a pulsação das cordas com a mão direita é efectuada apenas com o polegar, independentemente, da velocidade e dificuldade das passagens.
No caso das Ilhas Graciosa, São Jorge e Terceira, a Viola é ponteada com o indicador. A melodia das modas é executada com o indicador ficando para o polegar a tarefa de tocar os baixos (ordens de cordas mais graves). É importante assinalar que em São Jorge, por exemplo, quando estão a fazer acompanhamentos (acordes), fazem-no de modo rasgado.
Há diferentes formas de aplicar a combinação da execução com o indicador (melodia) e polegar (acompanhamento, baixos, nota pedal) nestas Ilhas. Há executantes que utilizam o polegar de forma mais regular, “enchendo” a música que executam com melodia e acompanhamento quase em simultâneo. Outros executantes utilizam o polegar de modo mais pontual, tocando o “baixo” em momentos mais “dispersos” ao longo da melodia. Esta combinação é algo que varia, acima de tudo, de acordo com gosto pessoal e conhecimentos de cada um, não havendo uma forma de execução que se possa considerar mais correcta em relação à outra. O importante, a meu ver, é que se conheça, estude e explore estas duas formas de articulação entre os dedos e que se aplique da melhor forma de acordo com cada contexto musical.
Nas Ilhas do Faial e Pico a Viola é tocada com a técnica do rasgado (rasgueado). A função de “pontear” a melodia recai sobre o bandolim e o violino. Deste modo cabe à Viola o papel de garantir o “ritmo” da música, de manter a dinâmica e vivacidade dos bailes. Há tocadores que referem que a Viola também faria solos, pontualmente, mas que no contexto dos bailes e serões de Chamarritas a Viola é rasgada para melhor se afirmar e se fazer ouvir.
O Corvo é a única Ilha na qual desconhecemos registos de executantes de Viola da Terra na actualidade.
Havendo estas 3 técnicas tradicionais de execução: polegar, indicador e polegar e o rasgado, que de modo generalista podemos identificar e atribuir a cada Ilha, a realidade é que o contexto de cada Ilha, de cada momento musical, dos conhecimentos de cada músico, podem condicionar e orientar para determinada execução. Há, ainda, novas explorações técnicas do instrumento no presente, de acordo com as linguagens musicais que cada um revê na Viola, fruto das suas próprias influências. Independentemente disso o conhecimento das técnicas tradicionais (técnicas historicamente informadas) é fulcral para o real conhecimento do instrumento.