A aquisição de uma imagem positiva de si próprio (e dos outros) está impreterivelmente dependente da qualidade da relação que a criança recebe dos pais. "O Homem é essencialmente um animal narcísico - que se admira e precisa de ser admirado" (Coimbra de Matos, 2001, p. 239) e como tal necessita de uma relação em que sinta que recebe apreço e afeto para se sentir reconhecido e valorizado por parte de quem dele cuida. Consoante se sente importante aos olhos dos seus cuidadores, assim a criança se vai sentir internamente, mediante a interiorização dessa relação externa valorizante. Daí a extrema importância de se sentir amada pelos pais para a sua autoestima e equilíbrio psicológico. Se as necessidades narcísicas da criança/jovem (necessidades de amor, empatia, valorização, reconhecimento, estímulo) não são respeitadas, a criança fica triste, deprimida, ansiosa, insegura e revoltada (Kohut, 1962).
Com a expressão "figuras parentais" referimo-nos genericamente aos cuidadores que são responsáveis pela existência e desenvolvimento da criança, com os quais ela estabelece vínculos emocionais fortes (porque íntimos e prolongados no tempo) e dos quais depende emocionalmente. Caso os cuidadores sejam psicologicamente doentes (presença de psicopatologia num ou nos dois elementos do casal), irão comportar-se de forma desadequada (de forma agressiva, ambivalente, depressivante) para com a criança e não irão responder adequadamente às necessidades psicológicas/emocionais/narcísicas dela, fragilizando-a psicologicamente.
A perturbação psicológica do indivíduo resulta diretamente do tipo de ambiente humano ao qual foi exposto. E mediante o conhecimento dos sintomas e dos comportamentos atuais do paciente podemos deduzir o tipo de relações (saudáveis ou patológicas) às quais o indivíduo esteve(/está) exposto. O objetivo último desta constatação não é culpar as figuras parentais, mas sim reconhecer o papel desempenhado pelas mesmas na estruturação do psiquismo do sujeito. Os pais, enquanto figuras de bondingII e vinculação, através do seu comportamento serão o modelo de relação que será interiorizado, através do qual a criança adquirirá estratégias de regulação do seu afeto e comportamento (Schore, 2001), desenvolvendo os seus esquemas relacionais.
As figuras parentais através do tipo específico de relação que estabelecem com o sujeito irão ser a matriz que moldará a perceção de si e dos outros. No fundo, a falha narcísica resulta sempre de relações parentais falhadas (porque desnarcisantes) que, devido às características das mesmas, não possibilitaram que o sujeito se sentisse valorizado e amado e assim adquirindo um sólido e estável sentimento de segurança afetiva (i.e., um objeto interno securizante).
Nos relacionamentos futuros, o sujeito tende a reproduzir o modelo relacional patológico assimilado na relação com os pais, transportando dentro de si a vivência traumática do desencontro emocional com os objetos significativos, que o conduzirá a relações ambivalentemente vividas num registo de idealização, dependência, imaturidade e precipitação, que rapidamente se tornam diferentes das expectativas criadas, acabando por conduzir à desilusão. Sem consciência disso, o sujeito repete constantemente o abandono emocional que viveu no seu passado (interiorizado no seu funcionamento psíquico), relacionando-se de forma semelhante à relação vivida com o objeto primário: de forma narcísica, depressivante, com grande ambivalência e retirada emocional, num estado de luto suspenso destas relações patológicas interiorizadas.
O desmantelamento da relação patogénica interiorizada através da "nova relação" (Coimbra de Matos, 2011) será o âmago do labor terapêutico, com vista à retoma do desenvolvimento suspenso e à instauração de uma espontaneidade e liberdade afetiva. Através da internalização de uma nova relação transformadora - na qual sinta liberdade para pensar, sentir e ser e onde possam haver momentos de verdadeiros encontros, que nutrirão a transformação do seu mundo interior - é possível sentir a confiança necessária para começar a trilhar novos caminhos relacionais.
Adaptado a partir de João Balrôa, in Revista Portuguesa de Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica, 2015 6(1): 125-145
Cada um de nós tem um estilo relacional próprio, um conjunto de princípios organizadores do seu mundo subjetivo e relacional, que se organizou no seu passado, e que transportamos connosco para as relações com os outros objetos que escolhemos e que nos escolhem e onde se reproduz ou se transforma o passado vivido. Quando na nossa história, o objeto não nos respondeu de forma adequada, ou nós não soubemos encontrar essa resposta, fica uma experiência falhada, a ressonância afetiva da frustração, o recalcamento do desejo do que não aconteceu. Mas fica também, a necessidade de retomar o tempo falhado, a evolução suspensa, para refazer as lacunas vivenciais e recuperar as experiência fundantes que não pudemos fazer, necessidade essa, que o recalcamento procura também silenciar.
E repetimos muitas vezes sem nos apercebermos sequer que estamos a repetir. Repetimos o que não podemos pensar nem compreender. E repetimos tanto mais, quanto maior a nossa resistência a recordar. Repetimos os modos de funcionamento que utilizámos para evitar o conflito receado, talvez porque vivido como demasiado ameaçador ou para não perder o afeto do outro, mesmo quando este era pobre e desadequado, mas talvez por isso, mais indispensável.
«Agora começo a perceber que afinal não era só a minha namorada que se comportava comigo como se tudo lhe fosse devido. Afinal é assim com quase todos os meus amigos. E eu aceito sempre fazer o que eles querem e como querem e depois fico furioso comigo, porque nunca faço o que realmente quero. Mesmos nas viagens com o meu amigo Pedro, sabe que acabo sempre por fazer o que ele quer e só raramente e com grande esforço, é que faço as coisas que realmente me interessam. E aí sinto-me mal, por estar a impor aos outros a minha vontade. Como se não tivesse direito a fazê-lo. E o pior é que mesmo eu aceitando tudo, ela acabou por se ir embora e me deixar».
Repetimos na esperança que desta vez seja diferente, na esperança de poder finalmente satisfazer o desejo não realizado, o desejo de sermos amados e reconhecidos. Repetimos na esperança de um dia encontrar o que não tivemos, mas que idealizámos, encerrados num passado que nos aprisiona o futuro, e onde muitas vezes, nomeadamente na experiência depressiva, a autodesvalorização e a culpabilização jogam um papel central, na tentativa do sujeito explicar o vivido.
«Não consigo fazer diferente. Até já percebi aqui consigo, que não é isto que quero, mas depois volto sempre ao mesmo. Enrolada no meu canto, arranjo desculpas para não sair e depois sinto-me sozinha, à espera que alguém telefone. Acabo por achar que não presto para nada e que, por isso, ninguém me telefona E acabo por ser eu a telefonar para casa. Será que continuo à espera que a minha mãe desta vez se interesse por mim? Mas como sempre, ao fim de 2 minutos está-me a falar do minha irmã mais nova ou a dizer-me as coisas que precisa que eu faça. E eu acabo por ir fazer o que ela me pede, furiosa comigo própria por o estar a fazer».
E assim, reféns do passado falhado, vivido, mas não compreendido e muito menos resolvido, fazemos acontecê-lo de novo. E ficamos presos à repetição desse passado, que parece impor-nos um destino, que determina os acontecimentos, mesmo antes que eles aconteçam. Repetimos o mesmo, porque atulhados de lixos e resíduos tóxicos, de raivas e culpabilidades inconsequentes, ficamos prisioneiros de percas vividas como irreparáveis, enleados em conflitos interiores e em dinâmicas relacionais que nos fecham em círculos viciosos que parecem sem saída e que nos impedem de nos tornarmos senhores dos nossos afetos Porque se são os laços afetivos que nos dão vida, estes, quando mal vividos, podem tornar-se algemas, prisões infantis que, bloqueando a nossa capacidade de pensar e sonhar livremente, nos prendem e asfixiam, não nos deixando emergir para a vida.
Na experiência analítica, a compreensão do passado relacional vivido aparece como uma dimensão fundamental, que permite "ressignificar o passado" (Matos,2008), reconstruindo a história vivida. Se a experiência analítica é uma relação criadora, é porque é uma experiência de encontro, que se tece sempre de luz (conhecimento) e calor (afeto), numa interação comunicativa duplamente observada e refletida, pelo analista e pelo analisando (Matos, 2002). É, por isso, uma cura pela relação, que a palavra imbuída de afeto ilumina. Porque o mundo intersubjetivo é, também, o da palavra partilhada. Palavra com que me narro e experimento, numa relação feita de "contacto emocional genuíno", nas palavras de Fairbain.
Palavra que, num espaço sentido como seguro, fiável e responsivo, se torna instrumento que transforma a relação com a realidade vivida, abrindo a porta à criação de novos significados e sentidos. Palavra, que é sempre co-construída no espaço da interação, o que faz com que a atividade narrativa e a atividade de compreensão e de interpretação, sejam sempre atos relacionais, cujo efeito terapêutico advém da experiência que permite a cada um dizer-se e sentir-se reconhecido na sua verdade. Porque é quando nos podemos dizer a alguém, que nos pode reconhecer na nossa verdade, que nos recriamos. E nesta experiência emocional compartilhada e conjuntamente pensada, torno-me não só mais capaz de criar novas narrativas, mas também de as viver, no sonho e na vida.
Porque a experiência analítica permite não só de construção duma nova narrativa, mas também, o desenvolvimento da "competência narrativa" (Ferro, 2004) do analisando, o desenvolvimento da sua capacidade de pensar e sonhar. E é por isso, também, que o que o processo analítico nos propõe, não é apenas a transformação dos conflitos inconscientes do analisando em conhecimento consciente, mas sim, a transformação do estilo relacional patológico e patogénico, num estilo relacional novo e criativo, que permite sair da repetição para a inovação, e assim, retomar o crescimento psíquico onde ele ficou suspenso (Matos, 2002). O que só acontece, no espaço duma relação afetiva e efetiva com um outro diferente, em que se cria um novo contexto intersubjetivo.
Adaptado a partir de Biscaia, in Revista Portuguesa de Psicanálise, 2001 31(1): 47-57
Conhecer a nossa mente é difícil, na melhor das hipóteses. É extraordinariamente difícil alcançar insights básicos sobre o nosso caráter e motivações - o tipo de insight que esperamos nos permita libertar de algumas neuroses e compulsões que tanto nos prejudicam. Donde, é profundamente desanimador perceber que alcançar o conhecimento de um ponto de vista meramente intelectual não se mostra suficiente. Existe uma diferença entre saber algo de um ponto de vista racional e sabe-lo emocionalmente.
Podemos, por exemplo, chegar a uma conclusão racional de que somos tímidos junto de figuras de autoridade porque o nosso pai era uma figura distante que não nos deu parte do apoio e amor de que precisávamos. Alcançar esta compreensão pode ser o resultado de um trabalho de muitos anos e, tendo-o alcançado, poderíamos razoavelmente esperar que os nossos problemas com a timidez e a autoridade diminuíssem. Mas os nós da mente, infelizmente, não são tão simples de desfazer. Uma compreensão intelectual do passado, ainda que acertada, por si só não será eficaz no sentido de nos libertar dos sintomas neuróticos. Para isso, temos que alcançar um entendimento muito mais próximo, detalhado e visceral acerca de onde viemos e do que sofremos. Precisamos de fazer uma compreensão emocional do passado - por oposição a uma compreensão intelectual, abreviada.
Teremos que reviver, com um nível de detalhe novelesco, todo um conjunto de episódios da nossa infância, nas quais os problemas em torno dos pais e da autoridade foram formados. Precisamos de deixar a imaginação voltar a certos momentos que foram insuportáveis, para nos mantermos vivos numa forma tridimensional nas nossas memórias ativas. Precisamos não apenas de saber que tivemos um relacionamento difícil com o pai, precisamos de reviver a tristeza como se ela estivesse a acontecer hoje. Precisamos de nos lembrar da luz que entrava do jardim, das calças de bombazine que vestíamos, do som da voz do pai ao atingir o pico de ansiedade, a raiva que sentiu porque não correspondemos às suas expectativas, as lágrimas que desceram pelo nosso rosto, a gritaria que se seguiu quando corríamos para o corredor, a sensação de que queríamos morrer e de que tudo de bom estava destruído. Precisamos de toda a história vivida, não de um mero ensaio.
A psicoterapia há muito reconheceu essa distinção. Ele sabe que pensar é extremamente importante - mas por si só, dentro do próprio processo terapêutico, não é a chave para consertar os problemas psicológicos. Insiste na diferença crucial entre reconhecer amplamente que éramos tímidos quando eramos crianças e reviver, em toda a sua intensidade, o que era sentir-se intimidado, ignorado e em constante perigo de ser rejeitado ou ridicularizado; a diferença entre saber, de forma abstrata, que a mãe não estava muito focada em nós quando éramos pequenos e de nos reconectar com o sentimento de desolação quando tentávamos partilhar algumas das nossas necessidades com ela.
A terapia baseia-se na ideia de um retorno aos sentimentos vividos no passado. É apenas quando estamos em contato adequado com os sentimentos que podemos corrigi-los com a ajuda de faculdades mais maduras - e, assim, resolver os problemas reais da vida adulta. Estranhamente (e curiosamente), isso significa que as pessoas mais intelectuais podem passar por um período particularmente complicado na terapia. Estas interessam-se pelas ideias, mas não recriam nem exibem facilmente as dores e angústias dos seus eus anteriores e menos sofisticados, embora sejam realmente essas partes que precisam de ser encontradas, ouvidas e - talvez pela primeira vez - confortadas e tranquilizadas.
Precisamos, para alcançar uma melhoria sólida e genuína, voltar atrás no tempo, porventura a cada semana, durante alguns anos, e reviver profundamente como era sermos nós próprios aos cinco, nove e quinze anos - e permitirmo-nos chorar e ficar apavorados e furiosos de acordo com a realidade da situação concreta. E é com base nesse tipo de conhecimento emocional, adquirido a muito custo, e não do tipo intelectual mais indolor, que poderemos um dia, com a ajuda de ventos favoráveis, descobrir um certo alívio para alguns dos nossos problemas interiores.
Tradução/adaptação do texto Knowing Things Intellectually vs. Knowing Them Emotionally