ANÁLISE E EXPECTATIVA DE DESEMPREGO
“A melhora do mercado de trabalho pode pressionar preços, isso devido à recuperação mais rápida do que o esperado do mercado de trabalho deixando um novo desafio à tarefa do Banco Central de domar a inflação”. Sob essa afirmação que causou uma forte surpresa com a queda da desocupação em abril, economistas já veem a taxa de desemprego corrente inferior à “neutra” – aquela abaixo da qual o emprego começa a pressionar os índices de preços.
Na média móvel de três meses do IBGE, a taxa de desocupação caiu de 11,1% até março para 10,5% em abril. No cálculo dessazonalizado da MCM Consultores, foi para 10,1%, abaixo da estimativa de desemprego de equilíbrio da casa, que está em 10,8%.
O desemprego de equilíbrio, ou taxa de desemprego que não acelera a inflação, é um conceito da economia que diz existir um nível a partir do qual o mercado de trabalho começa a ser fonte de inflação. Essa taxa não é uma variável observável, ou seja, cada economista tem o seu modo de estimar. Claro que existe toda uma incerteza rondando o cálculo [da Nairu], mas é possível dizer que o mercado de trabalho chegou no equilíbrio e já não há mais ociosidade.
Em séries mensalizadas e dessazonalidas, analistas estimam taxas de desocupação até em um dígito. Nas contas da XP Asset Management, ela chegou em 9,4% em abril, cerca de dois pontos abaixo do patamar do fim de 2021, nota o economista-chefe Fernando Genta. Ela também já estaria, segundo seus cálculos, ligeiramente abaixo da Nairu, que ele estima entre 8,5% e 9,5%. “Essa queda [do desemprego] se dá por um ritmo de contratação muito acelerado. De janeiro a abril, foram cerca de 3,5 milhões de vagas criadas. A projeção da melhora do mercado de trabalho atual para o restante do ano, estima que a taxa de desemprego pode encerrar 2022 em 9% pela métrica trimestral do IBGE, com ajuste sazonal – ou 8,8% no dado mensalizado de dezembro.
Ainda que haja perda de ritmo da atividade no segundo semestre por causa do aperto monetário e da desaceleração global, exatamente pela reação defasada do mercado de trabalho, ele ainda pode continuar se sustentando no período e sentir esses efeitos só na virada para 2023.
Na época, lembra ele, a taxa de juros já estava alta, mas a inflação de serviços continuou girando em nível elevado durante algum tempo, mesmo com o restante da atividade desacelerando. “A indexação dos salários faz com que, mesmo com uma economia desaquecida, esse efeito perdure”, afirma.
Para Bráulio Borges, economista-sênior da LCA Consultores e pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre), a taxa de desemprego neutra está abaixo das estimativas de boa parte dos economistas, que giram em torno de 10% – ele mesmo a estimava em 9,5% cerca de três anos atrás, mas acredita que a barra caiu.
Em suas simulações, se essa taxa neutra fosse mesmo 9,5%, a inflação em 12 meses estaria rodando 1,5 ponto acima do observado – 13,5% a 14%, não os cerca de 12% registrados em abril. Fazendo a pergunta inversa – qual é a taxa de desemprego de equilíbrio que geraria a inflação observada nos últimos anos, considerando ainda variáveis como petróleo, câmbio? -, Borges concluiu que ela precisa estar ao redor de 8%. “Parece que isso não está sendo levado em consideração”, diz.
Uma hipótese é que essa mudança estrutural no desemprego de equilíbrio seja explicada pela reforma trabalhista, observa Borges. Um estudo do ano passado, dos economistas do iDados Bruno Ottoni e Tiago Barreira, estimou que, por causa da reforma, a taxa natural de desemprego do Brasil poderia cair de 1,2 a 3,5 ponto percentual no longo prazo. Conforme mostrou o Valor no mês passado, outro trabalho, de professores da USP e do Insper, por sua vez, calculou que a regra que transferiu aos trabalhadores os custos com advogado das empresas em caso de derrota na Justiça reduziu a taxa de desemprego em 1,7 ponto.
Uma taxa de desemprego que preocupa em termos inflacionários ainda precisaria cair para mais perto de 6,5%-7%, diz o economista Juan Jensen, sócio da 4E e da 4intelligence. Ele nota que, a partir de abril, a sazonalidade costuma ser positiva para a queda do desemprego, mas, desta vez, não é possível saber se ela será plenamente usufruída por causa das incertezas eleitorais e do aperto monetário, que pressionam câmbio e investimentos. O mercado vai estar mais receoso em tomar decisões e isso afeta o mercado de trabalho.