EDIÇÃO ATUAL: JUN. 26
Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo Fenômeno sobre veículo blindado sendo recebidos no Haiti. Foto: Antonio Gauderio/ Folhapress
Por: Augusto Oliveira
A segunda rodada da fase de grupos da Copa do Mundo de 2026 reserva um encontro interessante no caminho da Seleção Brasileira. Às vésperas da partida entre Brasil e Haiti, nesta sexta-feira (19), o Echoa relembra a intervenção militar liderada pelo Brasil sobre o país da América Central.
Entre 2004 e 2017, o Brasil liderou a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (MINUSTAH). Promovidas pela Organização das Nações Unidas (ONU) e divulgada como uma missão de paz, ela teve como objetivo a pacificação do Haiti, que vivia um período especialmente turbulento de sua história.
Em 2004, o então presidente do Haiti, Jean-Bertrand Aristide, renuncia ao cargo sob forte pressão de grupos rebeldes internos e de potências internacionais como Estados Unidos e França. Aristide estava na presidência desde 2001, e seu mandato foi marcado por fortes crises políticas, com boicotes da oposição e baixa participação popular nas eleições, pelo fracasso na contenção da crise econômica que assolava o país, e por uma intensa crise de segurança, com o crescimento de facções criminosas armadas que controlavam o território haitiano.
Com a continuidade das ondas de violência e criminalidade no país, a ONU cria a MINUSTAH. Sonhando com uma posição no Conselho de Segurança da ONU, o Brasil, na época presidido por Lula, toma a frente da missão e envia suas forças ao Haiti para estabilização da região. Além do Brasil, outros países da América do Sul e da Ásia também contribuíram na missão.
Como um sinal de boa fé, a Seleção Brasileira de Futebol marcou um amistoso com a Seleção Haitiana, no chamado Jogo pela Paz. Com show de Ronaldinho, o Brasil goleia o Haiti por 6 a 0, um eufemismo macabro do que estava por vir.
O primeiro comandante da MINUSTAH foi o general Augusto Heleno, notável por sua participação futura no Governo Jair Bolsonaro e na tentativa de Golpe de Estado em 2022. Augusto durou pouco mais de um ano no comando da Minustah, tendo sido afastado em setembro de 2005 após acusações de violações de direitos humanos por tropas da ONU sob sua liderança, com alegações de mortes de civis e abuso sexual contra mulheres e crianças. Sua passagem no cargo também ficou marcada pela invasão da favela de Cité Soleil em julho de 2005, quando mais de 60 pessoas morreram e cerca de outras 30 ficaram feridas.
O sucessor de Heleno, o general brasileiro Urano Bacelar, foi encontrado morto após poucos meses no cargo. A morte, oficialmente considerada suicídio, ocorreu sob circunstâncias incertas, e surgiram teorias da conspiração que apontam que ele teria sido assassinado por resistir a usar a força em favelas haitianas. Ao todo, 11 generais passaram pelo cargo de forma fixa, todos brasileiros.
As trocas de generais e até de presidentes (tanto no Haiti como no Brasil, onde Lula deu lugar a Dilma) não diminuíram as acusações de violência das tropas das Nações Unidas. Enquanto isso, a condição socioeconômica da população continuou precária, com altos índices de violência, fome e desemprego. Toda essa situação foi agravada com desastres naturais que assolaram o país, com destaque para um terremoto de magnitude 7, ocorrido em janeiro de 2010, que deixou mais de 200 mil mortos e milhões desabrigados. Após isso, o país passou por um surto de cólera quando novas tropas das Nações Unidas enviadas para ajuda humanitária após o terremoto disseminaram a doença, que não era registrada no Haiti desde o século XIX. A ONU se recusou a indenizar o país pela epidemia.
Mesmo com a desaprovação do povo haitiano e com pressões políticas pelo fim da MINUSTAH, a ocupação militar seguiu até 2017, quando os países estrangeiros começaram a retirar suas tropas gradativamente. Após 13 anos, a Minustah deixou um Haiti ainda extremamente inseguro, violento e pobre, com conflitos frequentes entre gangues armadas. A instabilidade política típica da história do país nunca desapareceu, com resultados eleitorais sempre incertos. A crise teve um novo ponto alto em 2021, quando o presidente em exercício desde o fim da “missão de paz”, Jovenel Moïse, foi assassinado. A paz, no Haiti, nunca foi realidade. O Brasil, por sua vez, ainda não conseguiu o tão caro lugar no Conselho de Segurança da ONU, mas conseguiu tirar proveito da intervenção militar: da experiência no Haiti, surgiu o embrião das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), usadas nas favelas do Rio de Janeiro, desde 2008.
EDIÇÕES ANTIGAS:
Conscientização e combate ao abuso sexual infantil. Foto: Maio Laranja
Por: Giovana Silva
Durante o mês de maio, entidades das esferas públicas e privadas se movimentaram em prol da campanha de conscientização e combate à exploração sexual de crianças e adolescentes no Brasil. A #maiolaranja é uma iniciativa derivada da lei Nº 9.970, sancionada em 17 de maio de 2000, que instituiu o dia 18 de maio como o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.
Segundo dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde, o Brasil registrou 59.887 notificações de violência sexual contra crianças e adolescente em 2025. Mesmo com dados alarmantes, a informação pode estar longe da realidade, já que muitas das agressões acabam caindo em omissão, devido ao vínculo entre agressor e vítima, fenômeno comum na maioria dos casos. A cor laranja representa a flor gérbera e foi escolhida para simbolizar a vulnerabilidade de uma criança.
Além das ações de conscientização, o Maio Laranja também reforçou a importância do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), criado pela Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. A legislação estabelece direitos fundamentais para crianças e adolescentes e prevê mecanismos de proteção contra negligência, exploração, violência e abuso sexual. O estatuto também determina que é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar a proteção integral da infância.
Durante a campanha, especialistas destacaram a importância da denúncia e do acolhimento às vítimas. O Disque 100 foi divulgado como um dos principais canais gratuitos e sigilosos para denunciar casos de abuso e exploração sexual infantil. As ações realizadas ao longo do Maio Laranja reforçaram que o combate à violência contra crianças e adolescentes depende da conscientização coletiva e da atuação conjunta da sociedade na defesa dos direitos da infância.
À esquerda o atual presidente do Brasil, Lula; e à direita, Flávio Bolsonaro. Foto: Brasil de Fato/Reprodução: Agência ABr/ Agência Senado
Por: Isaque Ramos
A poucos meses do início oficial da campanha, o cenário político brasileiro para as eleições de outubro de 2026 desenha um quadro de forte estabilidade na polarização nacional, mas com profundas movimentações de bastidores. As pesquisas mais recentes apontam para um país dividido e indicam que, apesar dos desgastes de lado a lado, a disputa entre petismo e o bolsonarismo continua sendo o ponto principal do cenário das eleições de outubro. Pesquisas de intenção de voto divulgadas recentemente confirmam o favoritismo do atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, em sua tentativa de reeleição, contra o senador Flávio Bolsonaro (PL), herdeiro político e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. O cenário aponta, novamente, para uma disputa entre Lula x Bolsonaro.
No entanto, na última semana, uma notícia caiu como uma bomba para o atual senador e pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro. O portal “The Intercept Brasil” divulgou áudios de uma conversa entre o senador e o banqueiro Daniel Vorcaro, principal investigado do chamado “Escândalo do Banco Master”, banco do qual Vorcaro era o proprietário. Nas conversas, que ocorreram no fim de 2025, Flávio Bolsonaro aparece cobrando o repasse de cifras milionárias vindas do banqueiro. No total, as negociações giravam em torno de R$134 milhões.
Se por um lado as ligações financeiras entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro parecem estremecer a pré-campanha do candidato de extrema-direita, por outro, a crescente rejeição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), principalmente entre os mais jovens, parece abalar a pré-campanha do atual presidente. Do lado governista, a estratégia para amenizar os efeitos da rejeição foca em estabilizar a aprovação popular por meio da agenda econômica. O lançamento do programa Desenrola 2.0 foi bem recebido por 50% dos brasileiros, segundo pesquisa da Quaest. Ainda assim, o atual Presidente da República ainda sofre com a rejeição entre os mais jovens. Segundo pesquisa da AtlasIntel divulgada em março, 72% dos brasileiros entre 16 e 24 anos rejeitam o governo do pré-candidato à reeleição. A rejeição já passa dos 53% se considerar todas as idades. Tudo isso ainda se soma à histórica rejeição pelo Senado
da indicação do nome de Jorge Messias para a vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), a primeira desde o governo de Floriano Peixoto, em 1894, mostrando a imensa rejeição e o desgaste do atual governo.
Diante de um eleitorado polarizado e com as duas principais candidaturas sob o peso de altas rejeições, a definição da disputa de 2026 dependerá principalmente de como os dois lados irão lidar com as suas respectivas crises, sejam eles a rejeição do atual governo, sejam os crescentes escândalos de corrupção da oposição. Fato é que, em outubro, teremos novamente eleições extremamente disputadas, e, acima de tudo, polarizadas.
Chef Claude Troisgros na cozinha do Madame Olympe. Foto: Tomas Rangel
Por: Patrick Veloso
A cerimônia ocorrida no Copacabana Palace, dia 13 de Abril, reuniu os maiores nomes da gastronomia carioca e paulistana para o lançamento do Guia MICHELIN Rio de Janeiro & São Paulo 2026.
O Brasil alcançou marco inédito em toda a América Latina: Os primeiros restaurantes elevados à três estrelas Michelin, distinção máxima do guia. Feito realizado por duas casas da capital paulista — o Tuju, do Chef Ivan Ralston, e o Evvai, do Chef Luiz Filipe Souza.
A outra novidade da cerimônia foi a primeira estrela do Madame Olympe, dos Chefs Claude Troisgros e Jéssica Andrade, no Leblon, Zona Sul do Rio de Janeiro.
Em entrevista exclusiva ao Portal Echoa, o Chef Claude Troisgros fala sobre o reconhecimento pela Guia Michelin:
O que essa estrela representa em uma casa tão nova?
“Representa um reconhecimento do trabalho feito não só no Madame Olympe, mas também da nossa história na gastronomia brasileira
É algo constante. De dedicação, pesquisa, que coloca nosso restaurante nesse auge que é a estrela Michelin. A gente fica muito orgulhoso e feliz com isso.”
Sobre o restaurante: O que você e a Jéssica buscam apresentar ao público?
“Nosso principal objetivo, obviamente, é deixar o cliente feliz. É um restaurante pequeno, de 24 lugares, onde procuramos que o cliente sempre se sinta à vontade. Claro, um ‘à vontade’ acompanhado de muita elegância.
Buscamos esse ambiente de carinho. Do serviço, ao cardápio de vinhos, até à comida. Algo que seja o espelho da nossa alma. Acreditamos nisso, uma experiência gastronômica incrível, confortável, que valoriza também o pequeno produtor e o produto brasileiro.”
Como funciona o processo de conhecer, testar e executar novos ingredientes?
“É um processo bastante criativo. Nossa pesquisa vem muito através de viagens, eu e Jéssica viajamos bastante. Buscando sempre, no local em que estamos, novidades, gastronomia regional, moderna… Isso nos dá ideias que permite essa criatividade vir muito forte.
A Jéssica dá forma aos pratos, eu auxilio, e passamos por várias etapas até servir ao nosso cliente.”
Mais resultados da noite
O Guia Michelin não conta apenas com as famosas estrelas. A categoria “Bib Gourmand” indica restaurantes que oferecem uma excelente relação entre a qualidade e o valor da experiência.
Seis novos Bib Gourmand são indicados: Koral, no Rio de Janeiro, e Jiquitaia, Manioca JK, Ping Yang Thai, Tanit e Taboã em São Paulo. Agora, são 44 restaurantes na categoria Bib Gourmand.
Além disso, existem os restaurantes Recomendados. Estabelecimentos que são garantia de qualidade em todos os aspectos, mas não coroados com estrelas.
Sete novos restaurantes são recomendados:
Grotta, Kureiji, Bar da Dona Onça, SIMONE e Makoto San em São Paulo, e Sushi Vaz e Yayá Comidaria Pop Brasileira no Rio de Janeiro. Agora, são 81 restaurantes na categoria Recomendados.
Entre os destaques, o Tuju, novo três estrelas Michelin, renovou a sua Estrela Verde. A categoria reconhece estabelecimentos que priorizam métodos sustentáveis e ecológicos unindo-os com a alta gastronomia. Junto com o tri estrelado, A Casa do Porco e o Corrutela, todos de São Paulo, também renovaram sua Estrela Verde.
Guia Michelin
O Guia Michelin é o principal guia gastronômico do mundo. Com origem na marca de pneus Michelin, visando aumentar o número de carros vendidos e consequentemente, de pneus, foi criado um guia com informações úteis para viagens. Este manual possui informações como mapas, como trocar pneus, onde abastecer e uma lista de lugares para comer ou passar a noite.
Assim, em 1920, o guia começou a ser comercializado por 7 francos.
O prestígio de suas recomendações rapidamente aumentou, e em 1926, começou a conceder as famosas estrelas Michelin. Em 1931, estabeleceram que as categorias de uma, duas e três estrelas, e quatro anos depois, seus critérios foram publicados oficialmente.
Atualmente, o guia avalia aproximadamente 30 mil estabelecimentos em todo o mundo. Mais de 30 milhões de guias já foram comercializados.
Instagram de Guilherme Boulos criticando a escala 6x1: danos à saúde mental e física são principais pautas dos defensores da redução da jornada. Foto: Instagram/@guilhermeboulos.oficial
Por: Augusto Oliveira
Em pleno dia do trabalhador, a classe trabalhadora brasileira vê a sua principal reivindicação dos últimos anos entrar em fase decisiva: a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6x1. Com 3 propostas de emenda à Constituição (PEC) e 1 Projeto de Lei (PL) em trâmite no Congresso, a abolição da jornada em que se trabalha 6 dias e se folga 1 na semana e redução da jornada semanal máxima parecem cada vez mais próximas.
Com a precariedade das condições de trabalho aumentando cada vez mais, principalmente após a Reforma Trabalhista de 2016, a militância pelo fim dessa escala se intensificou a partir de 2023, com a criação do movimento Vida Além do Trabalho (VAT), por Rick Azevedo, na época balconista de uma farmácia e hoje vereador do Rio de Janeiro pelo PSOL. Paralelamente ao VAT, a deputada Érika Hilton (também do PSOL) protagonizou uma forte militância no Congresso ao criar, no ano passado, a PEC mais avançada no sentido de garantir uma boa qualidade de vida para o trabalhador. A PEC 8/2025 propõe:
Redução da jornada para 36 horas semanais;
Escala máxima de trabalho 4x3;
Sem redução salarial decorrente da redução da jornada;
Prazo de apenas 1 ano para implementação.
Na última quarta-feira (22), a PEC de Érika foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados e aguarda a formação de comissão especial para análise do texto.
A PEC de Érika tramita junto com outra que também propõe o fim da escala 6x1. A PEC 221/2019, de autoria de Reginaldo Lopes (PT), apresenta como principais pontos:
Redução da jornada de trabalho para 36 horas semanais;
Sem redução salarial decorrente da redução da jornada;
Longo período de transição de até 10 anos após promulgação.
A terceira e mais antiga PEC que também tramita no Congresso foi redigida por Paulo Paim. A PEC 148/2015 propõe:
Redução da jornada para 36 horas;
Sem redução salarial decorrente da redução da jornada;
Período de transição de até 5 anos, sendo que, no primeiro ano após a promulgação, a redução seria para 40 horas por semana; nos anos seguintes, a jornada semanal seria reduzida em 1 hora anualmente, até a meta de 36 horas.
Além das 3 PECs, o presidente Lula, na iminência da corrida presidencial de 2026, elaborou um Projeto de Lei com urgência constitucional. Na prática, isso significa que o projeto deveria ser votado em poucos meses, o que pressionaria, também, a votação das demais propostas. O PL de Lula é consideravelmente mais conservador se comparado com as PECs. Seus principais pontos são:
Redução da jornada para 40 horas semanais, ao invés de 36;
Escala máxima 5x2;
Sem redução salarial decorrente da redução da jornada.
Apesar de a luta contra a escala 6x1 avançar em 4 frentes no Congresso, parlamentares da direita tem freado o seu progresso, atrasando votações. As PECs de 2015 e 2019, por exemplo, estavam engavetadas, e só voltaram a ser pautadas depois do aquecimento do debate.
Os principais argumentos dos defensores da escala 6x1 giram em torno de preocupações com os impactos da redução da jornada de trabalho sobre a economia brasileira, como aumento da inflação e do desemprego e insustentabilidade econômica de pequenos empresários. No entanto, esse argumento foi usado em toda a história da luta de classes e reivindicações trabalhistas no Brasil, inclusive na última redução constitucional da jornada de trabalho, durante a década de 1980. Naquele período, o Brasil vivia uma das piores crises econômicas de sua história; mesmo assim, a redução da jornada de trabalho não causou uma situação de desemprego estrutural na economia nacional. Tampouco isso aconteceu após a instituição do 13° salário ou das férias remuneradas ou após a abolição da escravidão, período onde a preocupação da direita sobre os pequenos proprietários de escravos era maior do que com a dignidade e humanidade do trabalhador. Na verdade, o fim da escala 6x1 poderia ter o efeito reverso: para manter a produtividade, as empresas seriam obrigadas a criar mais vagas de trabalho, o que diminuiria o desemprego, especialmente se aprovada a escala 4x3.
Assim, a direita liberal argumenta que o fim da escala 6x1 deveria ser acompanhado de avanços estruturais na economia, como a qualificação da mão de obra. No entanto, é impossível esperar avanços nesse sentido se a própria escala 6x1 consome todo o tempo e a energia que o trabalhador poderia investir, por exemplo, em uma faculdade, o que realmente elevaria o nível de qualificação do trabalho.
Com a crescente pressão popular e o avanço das propostas no Congresso, o fim da escala 6x1 é iminente. Ainda assim, é importante que a esquerda não abra mão de pautas importantes levantadas no debate, sobretudo as trazidas pela PEC de Érika Hilton e esquecida pelo PL de Lula, como as 36 horas semanais e a escala 4x3, além de uma transição rápida que melhore rapidamente a qualidade de vida do trabalhador.
Ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro. Foto: Rogério Santana/Governo RJ
Por: Rafael Bittencourt
A pergunta que todos se fazem é “quem vai assumir o poder executivo do estado Rio de Janeiro?”. Com a renúncia do ex-governador, Cláudio Castro, na tentativa de evitar o julgamento, do qual é acusado de abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022, o ex-governador ficou inelegível por 8 anos do poder político.
Então, a renúncia do atual governador resultaria no vice, Thiago Pampolha, assumindo o governo do estado. Porém, Thiago já havia pedido afastamento um ano antes para assumir outra vaga.
Sem a presença de um governador e de um vice para assumir, a responsabilidade ficaria para o presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, porém, também impossibilitado de assumir, já que tinha sido afastado desde dezembro por suspeita de ligação ao crime organizado.
Devido a cassação de Rodrigo Bacellar, a presidência da Alerj está nas mãos de Guilherme Delaroli, que não pode assumir o governo do estado por ser presidente interino.
De forma provisória, o estado estava sendo governado pelo presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, o desembargador, Ricardo Couto.
A renúncia de Cláudio Castro foi vista por muitos como uma forma de burlar os rumos políticos, visto que, uma cassação eleitoral com mais de 6 meses para o fim do mandato deve acarretar em uma eleição direta — com o povo às ruas —, porém com uma renúncia, a votação seria indireta, decidida pelos deputados da Alerj, escolhendo um substituto.
Com o objetivo de acelerar o processo, seus aliados políticos fizeram com que Douglas Ruas fosse eleito o novo presidente da Alerj, sendo assim, assumindo, provisoriamente, o cargo de governador. Entretanto, horas depois, a votação para a presidência da Alerj foi anulada pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, alegando que o processo eleitoral só poderia ser iniciado depois de uma retotalização dos votos pelo TRE. Sendo assim, fica a responsabilidade do STF a decisão de como será dada continuidade desse processo eleitoral. Vale lembrar que, independente da decisão, em outubro ocorrem de fato as eleições para o governador do estado do Rio de Janeiro.
À esquerda o Presidente dos EUA, Donald Trump; e à direita, o ex-Líder Supremo do Irã, Ali Khamenei. Foto: MANDEL NGAN e KHAMENEI.IR / AFP
Conflitos no Irã pressionam petróleo, impactam mercados e apontam incertezas na economia global
Entenda todos os efeitos dos ataques no Oriente Médio na economia global.
Por: Henrique Pereira
A escalada de tensões envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos tem gerado efeitos diretos sobre a economia mundial, sobretudo nos preços de energia, no comportamento dos mercados financeiros e nas projeções de crescimento global. Analistas afirmam que, mesmo sem um conflito formal de grandes proporções, o atual contexto já é suficiente para provocar instabilidade em diferentes setores.
Um dos principais reflexos aparece no mercado de petróleo. O Irã figura entre os mais relevantes produtores globais e está situado em uma área estratégica, próxima ao Estreito de Ormuz, via marítima entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, responsável pela circulação de uma parcela significativa do petróleo mundial. Tal rota encontra-se totalmente bloqueada para trânsito de embarcações e sob controle das Forças Armadas iranianas.
É fato que qualquer interrupção no fluxo da commodity tende a provocar alta imediata nos preços internacionais, elevando custos de produção e transporte em escala global. E com todas as tensões que ocorrem na região do Oriente Médio, o valor do barril de petróleo subiu significativamente nos últimos meses, o que provoca efeito direto sobre a inflação. No final de fevereiro, um barril custava cerca de 70 dólares. Atualmente, o preço gira em torno de 100 dólares, com sua máxima tendo sido 120 dólares no final de março.
Países importadores de energia, como o Brasil, são amplamente afetados, com impacto nos preços dos combustíveis e, consequentemente, no custo de vida da população, limitando, portanto, o crescimento econômico local. Segundo a Agência Internacional de Energia, esta já é a maior crise energética da história, superando as da década de 1970.
Além disso, os mercados financeiros são afetados e sua instabilidade também é observada, principalmente com o aumento da aversão ao risco por parte dos investidores. As bolsas de valores ao redor do mundo registram maior volatilidade e, para os especialistas da área, toda movimentação é considerada bastante arriscada no atual cenário e qualquer notícia relacionada às tensões pode afetar o mercado.
Por isso, em um mundo cada vez mais globalizado, conflitos regionais deixam de ser problemas locais e passam a ter efeitos imediatos no mundo inteiro. O contexto envolvendo o Oriente Médio reforça como geopolítica, energia e mercados financeiros caminham lado a lado, além de retratar como uma instabilidade pode rapidamente se traduzir em impactos diretos no bolso da população.
Primeiro registro de um eclipse total visto do lado oculto da Lua. Foto: NASA
Por: Patrick Veloso
O foguete Space Launch System (SLS) foi lançado no dia 1° de Abril, às 19h35 (Horário de Brasília), do Centro Espacial Kennedy, em Cabo Canaveral, Flórida, dando início à Missão Artemis II. A tripulação, formada por quatro astronautas, está a bordo da cápsula Órion 2, que iniciou na última terça-feira (07) sua volta ao planeta Terra.
Tripulação:
Reid Wiseman (Comandante);
Victor Glover (Piloto);
Christina Koch (Especialista em Missão);
Jeremy Hansen (Especialista em Missão).
Artemis II é uma história marcada por pioneirismos. Victor Glover é o primeiro homem negro em uma missão lunar; Christina Koch se tornou a primeira mulher e Jeremy Hansen o primeiro não estadunidense a orbitar a Lua.
Com duração de aproximadamente 10 dias, a missão marca a volta de tripulantes às proximidades da Lua pela primeira vez desde 1972 (Apollo 17). A Missão Artemis II tem como principal objetivo o teste dos sistemas essenciais da nave Orion com tripulantes. O módulo que permitirá o pouso na superfície lunar poderá ser utilizado apenas em Artemis III.
Corrida Espacial:
China e Estados Unidos travam a grande disputa espacial do Século XXI.
O projeto “Artemis” pôs em evidência desdobramentos da atual corrida: a disputa de recursos presentes na Lua. Os principais recursos estratégicos dessa disputa são água em estado de gelo e Hélio-3
A presença de indícios de água, principalmente no polo sul do satélite, é algo fundamental para o futuro da exploração espacial. Para além da permanência de astronautas, possibilita produção de combustível e oxigênio.
Em 2019, a China foi o primeiro país a explorar o lado oculto da Lua com a sonda Chang’e-4. Em 2024, com a sonda Chang’e-5, o país foi pioneiro na descoberta de água em sua fórmula molecular (H2O), pela primeira vez encontrada em amostras físicas na superfície lunar — em uma região onde acreditava-se que água nessa forma não poderia existir.
Corrida energética:
Mesmo que, a princípio, o objetivo da Missão Artemis II seja de teste e validação do sistema da Orion para tripulantes, a missão é estratégica para reconhecimento de terreno e recursos estratégicos para a construção de bases na Lua.
Em entrevista à CNN, o professor doutor em Astrofísica e Cosmologia, Marcelo Lapola, explica o principal foco energético da disputa: A presença de Hélio-3.
“Como a Lua é bombardeada por raios ultravioletas, produziu-se muito Hélio-3.”
Este componente pode ser usado como combustível para reatores de fusão nuclear e gerar energia de forma mais segura e sustentável comparado a fissão nuclear atual. Raro no planeta Terra, mas abundante em solo lunar, 1kg do material vale cerca de R$30 milhões. Estima-se que o Hélio-3 disponível na Lua pode produzir dez vezes mais energia que todo petróleo, carvão e gás disponíveis na Terra.
Com isso, é possível que a construção de bases para administração e extração desses recursos, defina os próximos anos de exploração e disputa espacial.
Recorde da Missão:
A espaçonave atingiu os 406.771km de distância da Terra, batendo o recorde da Missão Apollo 17, se tornando o ponto mais profundo do espaço que a humanidade já visitou. De modo literal, nunca chegamos tão longe.
Cronograma Missão Artemis II:
Lançamento
Checagem geral da nave em espaço profundo
Viagem em cruzeiro para a Lua
Preparação para aproximação da Lua
Chegada ao sistema lunar
Passagem pelo lado oculto da Lua, ponto mais distante da missão e blackout de comunicação
Início do retorno para a Terra
Coleta de dados no caminho de volta
Preparação para reentrada
Retorno à Terra e fim da missão.
Conscientização sobre o TEA. Foto: Pontual Psiquiatria.
Por: Giovana Silva
Como parte do calendário anual do Ministério da Saúde, o mês de abril ganha a cor azul para a campanha de conscientização do autismo, uma condição de neural. Caracterizado pelo desenvolvimento atípico que afeta, principalmente, a comunicação, a interação social e o comportamento, o TEA pode se manifestar de várias formas em cada indivíduo. Assim como em outros meses, a campanha foca em ações que buscam informar a população a fim de dar visibilidade à causa e incentivar a sociedade a se preparar de forma empática para acolher a diversidade.
O dia 2 de abril, instituído em 2007 pela Organização das Nações Unidas como o Dia Mundial de Conscientização do Autismo, reforça a importância do debate sobre o tema a nível internacional. De acordo com a organização também, cerca de 70 milhões de pessoas são autistas no mundo.
Muitos especialistas afirmam que o diagnóstico ainda nos primeiros anos de vida, é fundamental para o desenvolvimento da pessoa com TEA, permitindo o acesso a tratamento e acompanhamento adequado. Ausência do contato visual, dificuldade de rastreio com a presença de estímulos sonoros ou não corresponder quando chamado pelo nome, dificuldades motoras como atraso em movimentos como sentar, engatinhar, e atraso da fala podem ser alguns sintomas apresentados cedo. Mas, para fechamento de diagnóstico existem três critérios que são: comportamentos restritos e repetitivos, dificuldades de socialização e linguagem.
No contexto do Transtorno do Espectro Autista (TEA), a cor azul passou a ser associada à sensação de calma e equilíbrio, sendo frequentemente utilizada em campanhas de conscientização. Em muitos casos, o estímulo visual dessa cor pode contribuir para amenizar situações de sobrecarga sensorial, comuns entre pessoas autistas, especialmente crianças.
Nos últimos anos, a representação do autismo também vem passando por mudanças. O tradicional símbolo do quebra-cabeça tem sido gradualmente substituído pelo infinito colorido, criado e adotado por pessoas autistas. O novo símbolo faz referência à neurodiversidade e à multiplicidade de formas de expressão dentro do espectro, reforçando a ideia de inclusão e respeito às diferenças.
Foto: Reprodução/ Folha de Pernambuco
Por: Isaque Ramos
O que o mundo temia por décadas se tornou realidade: uma guerra declarada entre as duas maiores potências do Oriente Médio e a maior potência do mundo. O conflito Irã x Israel/EUA eclodiu de vez no último dia 28 de fevereiro, quando Israel e os Estados Unidos da América lançaram um ataque conjunto contra Teerã, matando o então líder supremo do país, o Aiatolá Ali Khamenei, além de vários altos comandantes da Guarda Revolucionária.
A tensão entre as potências já era clara antes mesmo de a guerra explodir, em junho de 2025, Irã e Israel travaram um conflito que ficou conhecido como Guerra dos 12 dias, quando Israel lançou vários ataques coordenados contra dezenas de alvos no Irã, notadamente visando usinas de enriquecimento de urânio, na tentativa de frear o programa nuclear iraniano. É possível voltar ainda mais no tempo para explicar o conflito. Em 3 de janeiro de 2020, o governo de Washington (então governado também por Donald Trump, na época ainda no primeiro mandato) lançou ataques ao Aeroporto Internacional de Bagdá, vitimando 10 pessoas, entre elas estava o Major General da Guarda Revolucionária Islâmica e comandante da Força Quds, Qasem Soleimani. O assassinato de Soleimani, uma das figuras mais populares do Irã, já mostrava que para Donald Trump, quem não se curva aos interesses norte americanos recebe um alvo nas costas.
Embora no final de 2025, após a “Guerra dos 12 dias” um cessar-fogo frágil tenha sido assinado, no início de 2026 toda a diplomacia foi por água abaixo. Supostos “Relatórios de inteligência” apontando um suposto avanço do programa nuclear iraniano foram usados como justificativa pelo governo de Washington para, no dia 28 de fevereiro, lançar um ataque em coalizão com Israel contra a capital iraniana Teerã, dando início à guerra no Oriente Médio. Mesmo sem o seu líder supremo, o Irã não recuou e, logo após os ataques sobre a sua capital, lançou mais de 400 mísseis contra Israel e contra bases americanas no Golfo Pérsico. Países como os Emirados Árabes Unidos, Catar, Jordânia, Kuwait, Árabia Saudita e Bahrein foram atacados pelo governo de Teerã. O Irã ainda deu um duro golpe na economia mundial ao promover o fechamento do estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo mundial.
O cenário ainda é de incerteza. O presidente Donald Trump anunciou uma suspensão temporária de 5 dias nos ataques a infraestruturas energéticas iranianas, sinalizando que alguma negociação pode estar ocorrendo entre os governos. O Irã, agora governado por Mojtaba Khamenei, filho do antigo líder supremo, continua sendo atacado por Israel, que prometeu “caçar” cada membro do antigo governo iraniano.
Calendárido colorido no SUS. Foto: Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro
Por: Giovana Silva
Março Lilás: câncer de colo de útero
Trata-se de um dos tipos mais comuns de câncer ginecológico no Brasil e está fortemente ligado à infecção pelo papilomavírus humano (HPV). O tumor maligno se desenvolve nas células da região mais baixa do útero e isso acontece quando essas células passam a se multiplicar de forma desordenada.
O HPV é um vírus de alta incidência no brasil, sendo transmitido em sua maioria por meio de relações sexuais desprotegida, mas o tabagismo também aumenta o risco de desenvolver este tipo de cancer, já que produtos quimicos presente no tabaco podem prejudicar as células e torná-las mais propensas à infecção por HPV.
Nos estágios iniciais, o câncer de colo de útero pode não apresentar sintomas visíveis mas com o avanço do estágio da doença os sintomas mais conhecidos são: sangramento e corrimento vaginal anormal, dor pélvica, dor ao urinar, dor nas costas ou pernas e perda de peso rápida.
Por muitas vezes ser assintomático no início, torna-se mais difícil o diagnóstico, por isso, são utilizados alguns métodos de rastreio: exame de papanicolau, teste de hpv, exame clínico pélvico e colposcopia.Já o tratamento, irá depender de qual estágio está a doença mas algumas opções são cirurgia, radioterapia e imunoterapia.
A principal forma de prevenir o câncer de colo do útero é a vacinação contra o HPV. No SUS, a vacina quadrivalente, que protege contra os tipos 6, 11, 16 e 18, é oferecida para meninas e meninos de 9 a 14 anos e, desde 2024, passou a ser aplicada em dose única, com ampliação para adolescentes de até 19 anos que ainda não foram vacinados. Também está disponível no sistema unico de saúde para pessoas imunossuprimidas de até 45 anos e para vítimas de violência sexual.
Março amarelo: conscientização sobre a endometriose
A endometriose é uma condição ginecológica onde as células da parede do útero(endométrio)que deveriam ser expelidas durante a menstruação, crescem para fora do útero. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 190 milhões de mulheres sofrem com endometriose no mundo, aproximadamente 10% das mulheres em idade reprodutiva têm a doença.
O fator causador da doença ainda é desconhecido, mesmo que haja teorias para explicá-la. Seus sintomas são diversos e podem incluir: cólicas menstruais intensas, dor pélvica crônica ou constante, dor durante a relação sexual, alterações intestinais e infertilidade.
O diagnóstico é realizado através de acompanhamento clínico e exames complementares, a endometriose deve ser tratada com uma doença crônica e necessita de acompanhamento durante a vida reprodutiva, pois é nesse momento que a doença manifesta seus principais sintomas.
Março azul-marinho: câncer de intestino
Segundo o INCA, o câncer de intestino é o terceiro tipo mais comum no Brasil, atingindo o intestino grosso e o reto. Ele geralmente começa a partir de pequenos pólipos, que são “carocinhos” que crescem na parede do intestino e podem se transformar em tumor ao longo do tempo. Entre as principais causas e fatores de risco estão alimentação com pouca fibra, sedentarismo, obesidade, tabagismo, alcoolismo e histórico da doença na família.
O diagnóstico é feito por exames como a colonoscopia, que é o principal método para identificar o problema. Esse exame permite que o médico veja o interior do intestino e até retire pólipos antes que eles virem câncer. Também podem ser feitos exames de sangue oculto nas fezes e biópsia. Quando descoberto no início, as chances de cura são muito maiores, por isso o acompanhamento médico regular é tão importante.
O tratamento depende do estágio da doença. Nos casos iniciais, a cirurgia costuma ser a principal opção, podendo ou não ser combinada com quimioterapia ou radioterapia. Em situações mais avançadas, outros tipos de medicamentos também podem ser utilizados. Quanto mais cedo o câncer for identificado, mais simples será o tratamento e maiores são as chances de recuperação.
Donald Trump demonstra interesse na Groenlândia. Foto: National Geographic/CNN
Por: Rafael Bittencourt
A história da Groenlândia é marcada por gelo, resistência cultural e disputas estratégicas. Maior ilha do mundo, localizada entre o Oceano Atlântico e o Ártico, o território carrega uma identidade própria que foi construída ao longo de séculos mesmo sob domínio estrangeiro. Muito antes da chegada europeia, a Groenlândia já era habitada por povos inuítes, que desenvolveram modos de vida adaptados ao clima extremo do Ártico. No século XVIII, a ilha passou oficialmente ao controle do Dinamarca, tornando-se uma colônia dinamarquesa. Durante grande parte do século XX, a Groenlândia foi administrada diretamente por Copenhague. Em 1953, deixou de ser colônia e passou a integrar formalmente o Reino da Dinamarca como parte constituinte. Ainda assim, muitos groenlandeses sentiam que sua cultura e decisões políticas continuavam subordinadas aos interesses europeus.
Em busca de uma autonomia
A virada começou em 1979, quando a Groenlândia conquistou o chamado “Home Rule”, um regime de governo próprio que lhe concedeu maior controle sobre assuntos internos. Décadas depois, em 2009, um novo estatuto ampliou essa autonomia: o território passou a controlar seus próprios recursos naturais e ganhou o direito de declarar independência caso a população assim decida por meio de referendo.
Hoje, a Groenlândia administra áreas como educação, saúde, pesca e recursos minerais, enquanto a Dinamarca ainda responde por defesa e política externa. É uma autonomia desenvolvida, mas ainda dentro da estrutura do Reino dinamarquês.
O interesse dos Estados Unidos
O interesse dos Estados Unidos pela Groenlândia não é recente. Ele se intensificou principalmente no século XX, por razões estratégicas e geopolíticas. A posição da ilha é crucial para o controle do Ártico e para rotas aéreas e marítimas entre América do Norte e Europa. Durante a Guerra Fria, os EUA instalaram bases militares no território, como a Base Aérea de Thule, fundamental para monitoramento e defesa antimísseis. Com o derretimento do gelo provocado pelas mudanças climáticas, cresceu o interesse internacional, como da China e da Rússia, pelos recursos minerais da região, incluindo terras raras, petróleo e gás. Esses materiais são estratégicos para tecnologia e energia. Em 2019, o presidente Donald Trump sugeriu publicamente a possibilidade de os Estados Unidos comprarem a Groenlândia. A proposta foi rejeitada tanto pela Dinamarca, quanto pelo governo groenlandês, que afirmaram que o território “não está à venda”. A declaração reacendeu debates
globais sobre soberania e interesses estratégicos no Ártico. Há cooperação militar, acordos diplomáticos e investimentos econômicos. Os americanos reconhecem a importância geopolítica da ilha, enquanto o governo groenlandês vê nos EUA um parceiro estratégico, mas não um possível “proprietário". Para muitos groenlandeses, a questão central não é escolher entre Dinamarca ou Estados Unidos, mas fortalecer sua própria identidade e autonomia. O debate sobre independência ainda existe e faz parte da política local.
A Groenlândia é hoje um território autônomo que equilibra tradição indígena, influência europeia e interesse norte-americano. No fim das contas, o futuro da Groenlândia depende menos das ambições externas e mais das decisões de seu próprio povo.
Conscientização sobre a leucemia. Foto: Prefeitura de Guarujá
Por: Giovana Silva
Como parte do calendário anual do Ministério da Saúde, o mês de fevereiro ganha a cor laranja como parte da campanha de conscientização da leucemia, um tipo de câncer que afeta os glóbulos brancos do sangue e pode comprometer a produção das células responsáveis pela defesa do organismo. A campanha tem como objetivo informar a população sobre a doença, alertar para a importância do diagnóstico precoce e incentivar a doação de medula óssea, fundamental para o tratamento de muitos pacientes.
A leucemia pode se manifestar de diferentes formas e atingir pessoas de todas as idades. Entre os sintomas mais comuns estão cansaço excessivo, palidez, febre frequente, infecções recorrentes, manchas roxas pelo corpo, sangramentos e dores ósseas. Por serem sinais que muitas vezes se confundem com outras doenças, o acompanhamento médico e a realização de exames são essenciais para a identificação precoce.
A causa exata da leucemia não é conhecida, mas ela é influenciada por fatores genéticos e ambientais. Como outros tipos de câncer, as leucemias resultam de mutações no DNA, que podem ocorrer espontaneamente ou devido à exposição à radiação ou substâncias cancerígenas e são influenciadas por fatores genéticos e a partir do relato de sintomas feitos pelo paciente, o médico solicita o hemograma. Caso se apresente alterado, é feito o exame da medula óssea. Diagnosticada a leucemia, o início do tratamento deve ser imediato.
No Brasil, o tratamento da leucemia é oferecido de forma gratuita e integral pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O paciente geralmente inicia o atendimento pela Atenção Básica, como postos de saúde e clínicas da família, onde são solicitados exames iniciais. Confirmada a suspeita, ele é encaminhado para serviços especializados em oncologia e hematologia. O tratamento pode incluir quimioterapia, terapias medicamentosas específicas e, em alguns casos, o transplante de medula óssea, todos garantidos pelo SUS em hospitais de referência.
Quando o transplante é indicado, o sistema público de saúde cobre todas as etapas do processo, desde a busca por um doador compatível no Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (REDOME) até a realização do procedimento e o acompanhamento do paciente. Além do tratamento médico, o SUS também oferece suporte psicológico e social, fundamentais durante o enfrentamento da doença.
Durante o mês de fevereiro são realizadas campanhas para conscientizar e informar a população a fim de identificar também a doença em estágios iniciais. Em caso de dúvidas, procure uma unidade básica de saúde de referência na sua região.
Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Foto: g1
Por: Isaque Ramos
Em uma operação militar que não se via desde a invasão do Iraque em 2003, os Estados Unidos invadiram a Venezuela e capturaram seu líder, Nicolás Maduro, na madrugada de 3 de Janeiro. Na operação batizada de "Absolute Resolve" (Resolução Absoluta), os Estados Unidos alteraram drasticamente o tabuleiro político das Américas ao violar a soberania de um Estado independente.
Através de ataques aéreos coordenados e incursão de forças de elite que resultaram na captura do líder venezuelano, o governo da maior potência militar do mundo levou a crise venezuelana a um ponto de não retorno, consolidando uma nova era de intervencionismo direto sob a administração de Donald Trump. A semente desta ofensiva foi plantada ainda em novembro de 2024, com o retorno de Trump à Casa Branca. Se em seu primeiro mandato a estratégia de "pressão máxima" limitou-se ao campo das sanções econômicas, o cenário de 2025 marcou uma guinada definitiva para a coerção física. Ao rotular o governo venezuelano como uma estrutura de "narcoterrorismo", e, consequentemente, Maduro como um “narcoterrorista”, a doutrina "Americas First" de Trump transformou o Mar do Caribe em um teatro de operações, onde bloqueios navais e interceptações de cargueiros de petróleo prepararam o terreno logístico (e a narrativa) para a invasão da capital venezuelana.
A justificativa moral norte-americana para a ação tem base no controverso e contestado processo eleitoral venezuelano de 2024. Após o fracasso dos acordos diplomáticos que previam garantias democráticas, o pleito venezuelano, marcado pela suposta perseguição de Maria Corina Machado (principal nome de oposição ao regime Chavista) e denúncias de fraude em massa, tornou-se o estopim necessário. Para a Casa Branca, o reconhecimento da vitória de Maduro pelo Conselho Nacional Eleitoral foi interpretado como um símbolo de resistência ao poder americano, levando o governo Trump a descartar as vias institucionais em favor de uma solução de força que já vinha sendo articulada nos bastidores do Pentágono.
Esta intervenção não ocorre de forma isolada, mas sim impulsionada pela grande ascensão da extrema-direita em todo o continente, criando uma rede de apoio regional que facilitou as manobras de Washington. Enquanto líderes como Javier Milei, na Argentina, e Nayib Bukele em El Salvador (este último inclusive cedeu a maior prisão do país para Trump mandar prisioneiros capturados pelo ICE, serviço de imigração dos Estados Unidos) saudaram abertamente a operação como uma "cruzada pela liberdade", a ação militar aprofundou as rachaduras diplomáticas na região. Governos progressistas, como os de Lula no Brasil e Claudia Sheinbaum no México, condenaram a invasão, classificando-a como um retrocesso às práticas imperialistas do século passado, evidenciando uma fragmentação que enfraqueceu os blocos de mediação sul-americanos.
No cenário pós-captura, o futuro da Venezuela permanece cercado de incertezas. Washington sinalizou que exercerá uma "administração temporária" para garantir a transição, atraindo de imediato executivos de gigantes petrolíferas americanas para assumir o controle da infraestrutura da PDVSA (Estatal Venezuelana que controla a extração de petróleo no país). Contudo, o custo humano já é visível nas ruas de Caracas, onde, segundo o governo Venezuelano, mais de 100 pessoas morreram durante a operação militar norte-americana na capital do país. Enquanto o que resta da cúpula bolivariana tenta manter uma linha de defesa, o mundo observa se a nova "Doutrina Trump" resultará em uma reconstrução democrática ou se mergulhará o continente em um ciclo de instabilidade diplomática e conflito prolongado.
Conscientização e combate à hanseníase. Foto: gov.br
Durante o mês de janeiro, o Sistema Único de Saúde (SUS) reforça as ações da campanha Janeiro Roxo, voltada à conscientização, prevenção e diagnóstico precoce da hanseníase. A iniciativa busca informar a população sobre os sinais da doença e a importância do tratamento gratuito disponibilizado por unidades de saúde pública.
Por: Giovana Silva
Como parte do calendário anual do Ministério da Saúde, o mês de janeiro ganha a cor roxa como parte da campanha de conscientização e prevenção à hanseníase. O dia 26 de janeiro marca o Dia Mundial da Hanseníase, reforçando a importância da informação, do diagnóstico precoce e do tratamento adequado. Comumente conhecida como lepra, Hanseníase é uma doença infecciosa crônica causada pela bactéria Mycobacterium leprae, que afeta principalmente a pele e os nervos, provocando manchas, dormência e perda de sensibilidade (ao toque, calor e dor), além de possíveis danos musculares e incapacidades.
Conhecida por relatos religiosos, e datada a aproximadamente 4 mil anos, acredita-se que a doença surgiu no Oriente, considerada uma das doenças mais antigas conhecidas pela humanidade e tratada por séculos com medo e preconceito pela falta de informação. Sua chegada no Brasil é ocorreu durante a colonização portuguesa, com primeiros casos registrados no Rio de Janeiro por volta de 1600. Por muitos anos estigmatizada, a bactéria causadora da doença só foi identificada em 1873 pelo médico noruegues Gerhard Henrik Armauer Hansen.
A falta de informação levou muitas pessoas acometidas pela doença ao isolamento compulsório nos chamados hospitais-colônias. Fundado em 1929, o maior e mais conhecido hospital-colonia do Brasil, Hospital Colônia de Curupaiti, é localizado no Rio de Janeiro e chegou a abrigar cerca de 400 pacientes após a sua fundação. Hoje conhecido como Instituto Estadual de Dermatologia Sanitária (IEDS), deixou de ter como forma de tratamento o isolamento compulsório em 1980, graças a movimentos que reivindicavam direitos e condições melhores de vida para portadores da Hanseníase.
Com o avanço das pesquisas médicas, descobriu-se que a transmissão ocorre quando uma pessoa com hanseníase, na forma infectante da doença e sem tratamento, elimina a bactéria para o meio exterior, infectando outras pessoas com maior probabilidade de adoecer. A forma de eliminação da bactéria pelo doente são as vias aéreas, por meio do espirro, tosse ou fala e não pelos objetos utilizados pelo paciente. Em 1981, a Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a recomendar a poliquimioterapia (PQT), um tratamento que consiste em uma junção de antibióticos contra a hanseníase, capaz de curar a doença sem que o paciente precise se afastar de suas atividades, sem prejuízos sociais como antigamente. A doença é a mesma, mas o tratamento é muito mais eficaz, sendo possível evitar o desenvolvimento das deformidades da doença, quando iniciado de forma precoce. Além disso, para reduzir o preconceito, o termo “lepra” não deve mais ser usado.
O Sus oferece de forma gratuita o tratamento e acompanhamento dos pacientes em unidades básicas de saúde e em referência, não sendo necessário internação. Com o diagnóstico feito através de um exame físico geral dermatológico e neurológico para identificar lesões ou áreas de pele com alteração de sensibilidade e/ou comprometimento de nervos periféricos.
Durante o mês de janeiro são realizadas campanhas para conscientizar e informar a população a fim de identificar também a doença em estágios iniciais. Em caso de dúvidas, procure uma unidade básica de saúde de referência na sua região.
Réveillon de Copacabana. Foto: Gabriel Monteiro/Riotur
Por: Stela Nunes
Ano Novo Gregoriano:
Acontece em países como o Brasil, Estados Unidos, Alemanha, França e Itália, por exemplo. Celebrado em 1º de janeiro, o Ano Novo Gregoriano marca o início do calendário civil adotado oficialmente pela maior parte do mundo desde sua instituição no século XVI. A comemoração tem início na noite de 31 de dezembro e é caracterizada por eventos públicos com queimas de fogos de artifício, shows e contagens regressivas, especialmente em grandes centros urbanos. Apesar de sua padronização global, a data incorporou práticas culturais locais, resultando em rituais variados, como no Brasil, o qual o uso de roupas brancas está associado à ideia de paz e renovação. Com bebidas espumantes, como o champanhe, que tornaram-se um símbolo da celebração, o Ano Novo Gregoriano consolidou-se não apenas como uma festa coletiva, mas também um como um marco social e midiático, fortemente ligado ao turismo, economia e claro, à resoluções pessoais para o futuro.
Ano Novo Lunissolar:
O Ano Novo Lunissolar, adotado em diferentes culturas asiáticas, é calculado a partir das fases da Lua combinadas ao ciclo solar, o que faz a data variar a cada ano. As celebrações costumam durar vários dias e priorizam o reuniões familiares, a limpeza ritual das casas e homenagens aos ancestrais. A comida tem papel central, com pratos simbólicos associados à prosperidade, longevidade e felicidade. Oferendas e elementos decorativos, como lanternas, cores auspiciosas, símbolos de boa sorte, transformam os espaços públicos e privados e reforçam a ideia de renovação e equilíbrio. Ocorre na China, Taiwan, Hong Kong, Singapura, comunidades chinesas no mundo todo, entre outros países e regiões.
Songkran:
Do sânscrito, que significa “passagem” ou “movimento”, o Songkran marca o Ano Novo tradicional da Tailândia e ocorre em abril, período de forte calor no país. A celebração tem origem religiosa e está associada à purificação espiritual, simbolizada pelo uso da água. Inicialmente, a água era usada de forma ritual para limpar imagens de Buda e abençoar familiares mais velhos, contudo hoje, a prática se transformou em grandes festivais populares nas ruas. Pratos típicos tailandeses são consumidos durante o período, especialmente refeições compartilhadas em família. Apesar do caráter festivo, o Songkran mantém forte ligação com valores de respeito, renovação e espiritualidade.
Enkutatash:
O Enkutatash, que significa “presente de joias”, é o Ano Novo etíope e ocorre em setembro, coincidindo com o fim da estação das chuvas e o florescimento do campo. A celebração está profundamente ligada aos ciclos da natureza e à ideia de renovação agrícola. Crianças costumam oferecer flores amarelas às famílias, e canções tradicionais fazem parte do ritual. Pratos típicos da culinária etíope, como injera — pão tradicional, feito principalmente de farinha de teff — acompanhada de ensopados, são compartilhados em reuniões familiares. O Enkutatash dura cerca de uma semana e combina celebração comunitária, espiritualidade cristã ortodoxa e forte identidade cultural.
Rosh Hashaná:
Celebrado pelas comunidades judaicas no mundo todo. O Rosh Hashaná é o Ano Novo judaico e ocorre entre setembro e outubro, conforme o calendário hebraico. Nesses dias sagrados, judeus de todo mundo desejam um “Shanah tovah” (hebraico para “bom ano”). A data é profundamente espiritual e reflexiva. As celebrações incluem serviços religiosos prolongados nas sinagogas, nos quais o toque do shofar — instrumento feito de chifre de carneiro — simboliza um chamado ao despertar espiritual. Em casa, famílias realizam refeições rituais com alimentos carregados de significado, como maçã mergulhada no mel, romã e chalá redonda. O Rosh Hashaná também dá início aos Dez Dias de Arrependimento, que culminam no Yom Kipur, considerado o dia mais sagrado do ano. O período inaugura dias dedicados ao arrependimento, à reconciliação e ao perdão.
Diwali:
O Diwali, também conhecido como Festival das Luzes, é celebrado durante cinco dias, conforme o calendário lunissolar hindu, em diferentes regiões da Índia e por comunidades hindus ao redor do mundo. O Diwali simboliza a vitória da luz sobre a escuridão e do bem sobre o mal, sendo marcada pela iluminação de casas, ruas e templos com lamparinas de óleo. Antes do festival, famílias realizam uma limpeza minuciosa dos lares, prática associada à purificação espiritual. Com a preparação e troca de doces tradicionais como barfis, gulab jamun e jalebis, além de refeições festivas compartilhadas, o Diwali conta com rituais religosos e decorações especiais para dar as boas-vindas a deusa da riqueza e prosperidade, Lakshmi, a qual é recebida com flores, entradas de areia colorida e pasta de arroz. O festival é um perído de renovação que reforça laços familiares e valores coletivos.
Foto: Carta Capital
Por: Pablo Silva
A Sociedade Não Se Cala
No último domingo (7 de dezembro), milhares de pessoas se reuniram em capitais brasileiras como Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte, para denunciar todas as formas de violência contra as mulheres. Os protestos foram impulsionados por uma onda de casos que ganhou destaque na última semana. Entre eles, o crime ocorrido no Centro Federal de Educação Tecnológica (CEFET-RJ), em que duas mulheres foram assassinadas por um ex-funcionário. Outro caso que chocou foi o de São Paulo, no final de novembro, em que uma jovem foi arrastada por cerca de um quilômetro debaixo de um carro pelo seu parceiro. A exaustão da população diante desses crimes motivou a reunião de domingo, um clamor unificado por justiça.
O que define a Violência
Feminicídio é a palavra utilizada para definir o homicídio de mulheres cometido em razão do gênero, ou seja, quando a vítima é morta por ser mulher. Este crime está diretamente relacionado à violência doméstica e familiar. A Lei nº 13.104/2015 torna o feminicídio um homicídio qualificado e o coloca na lista de crimes hediondos, com penas que variam de 12 a 30 anos de reclusão.
O feminicídio por violência doméstica e familiar (também chamado de “feminicídio íntimo”) ocorre quando o crime decorre da violência doméstica, na maioria das vezes praticada em âmbito familiar por alguém conhecido, com quem a vítima possui ou possuía uma relação afetiva. Este tipo é motivado pela perda de controle sobre a mulher e pelo sentimento de posse que o agressor nutria. Já o feminicídio por menosprezo ou discriminação resulta da misoginia – o ódio ou aversão a mulheres e a tudo que é feminino – e, muitas vezes, é precedido por violência sexual, mutilação e desfiguração da vítima.
A Cultura que mata
O Brasil lidera o ranking de números absolutos de feminicídio na América Latina, posição atestada por relatórios da Organização das Nações Unidas (ONU) desde 2017. Essa triste realidade ocorre em um país onde mais da metade da população é composta por mulheres, que, diariamente, são assassinadas por seus companheiros.
Neste contexto misógino, ditados populares como “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher” e “Roupa suja se lava em casa” exemplificam como a cultura machista é perpassada e impregnada na sociedade brasileira como algo “normal” e rotineiro. Essa naturalização permite que diversos casos ocorram sem que haja a devida sensibilidade e intervenção da sociedade.
A Liberdade que leva à Morte
Existem diversas formas de prevenção ao feminicídio, entre elas a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), que visa punir o agressor e inibir novas violências. No entanto, o problema reside na falha do sistema de Justiça brasileiro, que frequentemente resulta na impunidade de criminosos. Um exemplo notório dessa falha ocorreu em 2023, em Uruguaiana (RS): um homem foi detido após agredir sua companheira grávida, Kelly Lidiane, mas foi liberado e, na mesma noite, a assassinou a facadas. Em decorrência disso, muitas mulheres se sentem inibidas e com medo de denunciar, visto que, em muitos casos, os agressores saem pela porta da frente da delegacia. Tal situação ocorre apesar da existência de recursos como a Delegacia de Atendimento à Mulher (DEAM), que deveria garantir a proteção e o apoio às vítimas de violência.
Canais de Ajuda
Para frear essa epidemia, existem diversas formas de denúncia e apoio. A principal delas é o Disque 180 (Central de Atendimento à Mulher), utilizado para denúncias anônimas e informações. Outro recurso crucial é a Delegacia de Atendimento à Mulher (DEAM), focada no combate à violência de gênero, acolhendo denúncias e orientando as vítimas. Por meio da Lei Maria da Penha, a vítima também tem acesso a acolhimento e encaminhamento para apoio psicossocial e jurídico, ferramentas essenciais com o objetivo de quebrar o ciclo da violência e garantir a segurança.
Foto: Instagram (@waomatcha)
Por: Stela Nunes
Wellness é a busca ativa por um estado de bem-estar físico e mental pleno, através de hábitos saudáveis, escolhas conscientes e um estilo de vida equilibrado. É um conceito multidimensional que atravessa o mundo físico. Uma cultura muito semelhante ao universo fitness. Embora as palavras sejam parecidas, o segundo refere-se principalmente à prática de atividades e exercícios para a melhora da aptidão física. Fitness é sinônimo de “boa forma” física (fit = em forma; ness = condição, que não tem relação com aparência). Já wellness está atrelado ao bem-estar, uma vez que a tradução de well para o português seria “bem”.
Acordar às cinco da manhã; o conjunto de roupas da Alo Yoga que chegam a mil reais; a garrafa Stanley sempre à mão; bater a meta diária de 10km de corrida antes do trabalho; o super coffee funcional; a melatonina antes de dormir; e a skincare em camadas que antes era um hábito, agora se torna um ritual de “hidratar, tratar e prevenir”. Esses são apenas alguns dos comportamentos de uma rotina considerada saudável nesse lifestyle.
A rotina de corrida, natação, musculação, hot yoga e pilates passa a ser relacionada não apenas sobre saúde, mas também sobre a performance estética. Ser saudável virou sinônimo de ser magro, disciplinado e visualmente limpo. A estética “menos é mais” e clean girl — a atual tendência de beleza que prioriza o visual minimalista, que remete ao natural e básico, com peles saudáveis e cabelos impecáveis — compõem uma nova moral: a pureza visual, o espírito focado e a hiperprodutividade. O corpo tornou-se uma vitrine moral. E nela, quem aparece em “forma” transmite autocontrole, foco e sucesso. É a cultura wellness convertida em uma identidade pronta para o consumo.
E por trás desse culto ao corpo magro e alta performance está um mercado bilionário: só no Brasil, o universo wellness movimenta cerca de R$510 bilhões. As marcas não vendem bem-estar, vendem uma simbologia; uma ideia de pertencimento. As indústrias farmacêuticas lucram com gominhas, canetas emagrecedoras e fórmulas milagrosas enquanto a população segue exausta e frustrada, apostando sempre no próximo produto, como em um jogo de azar emocional. E aqui, o capitalismo atua como coerção estética e afetiva: nos empurra a corrigir o corpo enquanto ignora nosso cansaço e nos exige maior produtividade.
Mas esse senso de urgência não é de hoje, ele nasce na pandemia, do frenesi do algoritmo, do medo e da solidão. Segundo um estudo realizado pela Universidade de Chicago, o aumento da sensação de solidão é proporcional à nossa preocupação com nós mesmos. Ou seja, isolados, nos voltamos obsessivamente para o nosso autoaperfeiçoamento. Se o mundo desmorona, que pelo menos o corpo esteja impecável. E o resultado? Uma sociedade fisicamente esgotada e obcecada por um lifestyle impossível para a maioria. Mas talvez a maior contradição seja estar em uma cultura hiperprodutiva que transforma saúde em performance, ocultando que o verdadeiro autocuidado é justamente o oposto, desacelerar. Porque, no fim, o que nos falta não é disciplina ou suplementos. Falta a pausa e o silêncio.