Vivemos numa sociedade que venera os grandes números, onde o sucesso e o desenvolvimento parecem medir-se exclusivamente pelo volume do dinheiro acumulado. Recentemente, o serviço regional de estatística publicou os dados dos PIBs por ilha entre 2021 e 2023. O que podemos pensar a partir destes números?
Para compreendermos a verdadeira dimensão da questão, convém clarificar, de forma simples, o que é o PIB (Produto Interno Bruto). Em traços gerais, este indicador representa o valor de mercado de todos os bens e serviços finais criados num determinado território, num certo período de tempo. Para se evitar a dupla contagem — ou seja, contar o valor do trigo, depois somar o da farinha e novamente o do pão —, calcula-se o Valor Acrescentado Bruto (VAB) de cada etapa, deduzindo os consumos intermédios ao valor das vendas da produção. Este indicador elementar pode ser lido de três formas consistentes entre si: pela ótica da produção (a soma dos VABs e impostos líquidos de subsídios), pela ótica da despesa (o que as famílias, empresas e Estado consomem e investem, mais o saldo das exportações) e pela ótica do rendimento (a soma das remunerações do trabalho, lucros, juros e rendas).
Olhando para os dados estatísticos recentes, percebemos que o bolo económico cresceu: o PIB regional passou de 4.374 milhões de euros em 2021 para 5.374 milhões em 2023. A fatia micaelense domina, passando de 59% para 60,8% (atingindo os 3.271 milhões de euros). Em contrapartida, ilhas como a Terceira registaram a maior quebra no seu peso relativo, descendo para 20,31%. Faial, São Jorge, Graciosa e Santa Maria também viram a sua relevância percentual recuar, enquanto Pico, Flores e Corvo registaram subidas quase marginais. Se dissecarmos o Valor Acrescentado Bruto por setores, a assimetria adensa-se e revela as nossas dependências. A nossa economia é esmagadoramente dominada pelo setor terciário (serviços, turismo e comércio), que em 2023 gerou quase 3.796 milhões de euros na região, contrastando fortemente com os 589 milhões do setor secundário e os «meros» 295 milhões do setor primário.
Perante a ilusão destes grandes agregados macroeconómicos, urge perguntar: para onde vai esta riqueza? A concentração geográfica em São Miguel é apenas o espelho de uma concentração muito mais perversa e perigosa: a concentração social. Num sistema capitalista desenhado para acumular capital, o facto de a economia crescer não significa, de forma alguma, que a vida do trabalhador que recolhe o lixo, do caixa de supermercado ou do professor tenha melhorado. Pelo contrário, assistimos a um assoberbamento da classe média e baixa, confrontadas com a estagnação dos salários face à inflação galopante e a uma crise na habitação que asfixia os jovens.
Produzir riqueza não basta; é um imperativo ético distribuí-la com justiça. Se a ótica do rendimento nos ensina que o PIB resulta da soma de salários e excedentes de exploração, a realidade das ruas mostra-nos que este aumento da riqueza tem engordado desproporcionalmente as contas de poucos, em detrimento de quem efetivamente a cria com o seu suor: os trabalhadores. A nossa obsessão pela produtividade cega num planeta de recursos finitos tem de dar lugar a uma política centrada na dignidade humana. Não podemos tolerar que, enquanto se celebram recordes orçamentais, existam açorianos a contar os cêntimos ao fim do mês para garantir comida e um teto.
Dinheiro não falta, falta é vontade de justiça.
Julgo ser pertinente advertir que as linhas que se seguem são fruto de uma deambulação terapêutica. Uma tentativa de articulação de pensamentos que, julgo, poderão interessar ou provocar outros. Certamente que aquilo que entendemos como «opinião» sempre o serão, não obstante, a linha para a vida interior poderá estar mais ou menos esbatida.
Esta altura da Páscoa oferece uma possibilidade de regresso a casa. Isto significa a oportunidade de andar pelas ruas povoadas de memórias. Trata-se de uns dias em que vem ao de cima uma espécie de vida dupla, da sensação de que existe uma vida na ilha, que continua, além daquela que se tornou familiar noutra geografia. De facto, não consigo conceber um cenário em que o espectro do basalto genético seja apagado. Como escreveu Daniel de Sá: «Sair da ilha é a pior maneira de ficar nela!».
Nesse contacto com a terra-mãe, «A ilha em que nascemos é um eixo do Cosmos, uma pequena-pátria, um mundo de referências matriciais», como afirma António Machado Pires, existe uma grande fecundidade para a reflexão. A cada passo dá-se um novo clarão mental.
Foi neste contexto e neste estado que ao olhar para um dos mupis partidários em branco, com cartaz por colocar, que se me veio à mente um beliscão, intuitivamente se apoderou a necessidade de suprir essa falha (sendo algo também da minha responsabilidade). Bastou o tempo de uma respiração para essa trivialidade ficar ofuscada por questões: porque é que importa o mupi ter um cartaz? porque importa haver propaganda política? porque a propaganda partidária é poluição visual, mas publicidade comercial não gera tanto descontentamento?
De uma quase vergonha por uma falha que a mim chamei, passei à frustração de um nobre perdedor. De como o esforço político é ingrato. É fácil esquecermo-nos que as coisas não se fazem sozinhas, principalmente aquelas que não vemos a serem feitas. São precisas pessoas que despendam do seu tempo livre para levar a cabo esse trabalho militante. Um trabalho militante que é o que dá vida à democracia. A democracia é experimental, só existe se for exercida. Posso garantir que essa ação não se resume a rabiscar um papel de tempos a tempos e colocar numa urna. É um trabalho de intervenção cívica, de criação de espaços de discussão e ação. Tornar questões visíveis é vital para dinamizar o espaço pública e a propaganda tem aí um papel (principalmente provocador/incitador).
Estava a sair de um supermercado a contemplar a principal rua da vila, quando surgiu outra reflexão, que se segue justamente desta última: então, quem se predispõe a este trabalho militante? Quantos conterrâneos podem afirmar, por exemplo, já terem organizado uma lista com um programa e gerido uma campanha que avançasse uma visão e um plano de ação para a nossa terra? Quantos? E quantos se queixam diariamente da nossa arena política?
Aquilo que me custa neste cenário nem é a fraca motivação para participar politicamente, até porque a forma como a vida está hoje construída é para constranger de tal forma o nosso tempo, que não conseguimos fazer nada. O mais frustrante é ter de levar com os comentários habituais como «são todos iguais», «mentirosos», «só querem tacho», sendo incapazes de perceber que falamos de pessoas. No caso de comunidades pequenas, de pessoas que conhecemos. Entra-se em inconsistência lógicas, ora sobre o que importa são os candidatos, ora sobre a experiência que deve ter quem nunca lhe foi dada essa oportunidade.
Tantos limões.
Há uma certa coreografia no quotidiano das nossas vilas e cidades que, vista de longe (ou talvez de muito perto, através da lente do cansaço) se assemelha a um teatro de sombras. A política local, com os seus rituais de proximidade, as inaugurações e as querelas de assembleia municipal sobre o sentido do trânsito numa rua sem saída, parece carregar em si a marca do insignificante. É, muitas vezes, uma micro-gestão do óbvio, onde o debate ideológico é engolido pela logística do buraco na estrada ou pela estética da iluminação de Natal.
Poderíamos, num ímpeto niilista, dizer que tudo isto é pointless. No grande tabuleiro do mundo, onde se decidem impérios, climas e algoritmos, que importa o destino de um subsídio a uma filarmónica ou o ajuste direto de um jardim? Vivemos num tempo de gigantismo, onde o que é local parece condenado à irrelevância estatística. A política, reduzida ao nível do bairro, corre o risco de ser vista apenas como um ruído de fundo, uma distração para quem não tem acesso aos verdadeiros centros de poder.
No entanto, é precisamente nessa aparente insignificância que reside a teimosia da nossa existência.
Vale a pena a política local? Se a medirmos pela capacidade de mudar o eixo da Terra, a resposta é um óbvio "não". Mas a vida não se processa no eixo da Terra; processa-se no intervalo entre a casa e o trabalho, na qualidade do silêncio noturno, na preservação de uma memória coletiva que só quem ali pisa consegue decifrar. A política local é a política da escala humana. É o último reduto onde o nome de uma pessoa ainda pesa mais do que o seu número de contribuinte.
Dizer que é insignificante é ignorar que a felicidade (ou a falta dela) é quase sempre uma questão de pormenor. Vivemos nesta tensão: entre o reconhecimento de que somos pequenos e a necessidade absoluta de organizar essa pequenez com alguma dignidade. A política local é o esforço, por vezes patético, por vezes heróico, de dar ordem ao nosso pequeno caos.
Pode ser pointless perante a eternidade, mas é o que nos mantém ligados ao chão que habitamos. É o reconhecimento de que, embora o mundo seja vasto e indiferente, a nossa rua não o pode ser. Insignificante, talvez. Mas é aqui que vivemos. E, enquanto vivermos, a política (essa teimosa tentativa de não deixar que a vida seja apenas um acidente) será sempre o nosso modo mais imperfeito e necessário de dizer que estamos aqui.
Como podemos participar? No patamar municipal, a Câmara Municipal assume o papel de órgão executivo, gerindo os serviços e o pessoal, enquanto a Assembleia Municipal, como órgão deliberativo, detém o poder de aprovar orçamentos, planos anuais e a definição de taxas e impostos. Esta mesma lógica de proximidade replica-se nas freguesias, onde a Junta executa e a Assembleia de Freguesia delibera. As assembleias reúnem-se ordinariamente quatro a cinco vezes por ano, mas é nas reuniões da Câmara e das Juntas (semanais ou mensais) que o pulsar do quotidiano é gerido. A lei garante que a política não se feche em gabinetes: as reuniões das assembleias são públicas e os órgãos executivos são obrigados a abrir as suas portas aos cidadãos pelo menos uma vez por mês, permitindo que a voz do vizinho ecoe diretamente no centro da decisão.
Foram várias vezes que aqui abordei questões atuais que nos atordoam, dificultam a perceção da realidade e a atuação nela.
Uma faceta desse fenómeno está na privação extrema, como forma de asfixiar qualquer resistência, ainda que meramente racional. Trata-se de colocar os indivíduos sob grandes quantidades de stress: uma infinidade de horas de trabalho e uma família para cuidar, sempre com a questão de se será possível pagar as contas, se haverá um dia em que não haverá comida sobre a mesa. «Pode até ser, geralmente, que a ação dos determinismos seja ainda mais impiedosa quanto mais ignorada for a extensão de sua eficiência» (Os herdeiros, Bourdieu & Passeron, 2014, p. 45), ou seja, a consciência da privação diminui com o aumento da privação.
A violência das palavras de Clarice Lispector que partilhei no outro dia certamente que nos ajudam a deixar isto claro. Caso queiramos outro exemplo para nos recordarmos, reparemos nestas palavras da Hora da estrela «Macabéa pedir perdão? Porque sempre se pede. Por quê? Resposta: é assim porque assim é. Sempre foi? Sempre será. E se não foi? Mas eu estou dizendo que é. Pois.» Trata-se de uma mulher à beira da morte, cuja vida se confundiu com a sua exploração. Uma identidade de tal forma plena que a questão «quem sou?» só foi uma vez pronunciada «Assustou-se tanto que parou completamente de pensar».
Pelas nossas terras, não obstante, também há muita gente que pode viver a medir o salário, mas sabendo sempre que as contas estarão pagas. Pessoas que têm «tempo para si». Que ao fim do dia conseguem ver televisão, ir às redes sociais, estar no café,… Ao falarmos com estas pessoas, contudo, ouviremos repetidamente que «não têm tempo». Com maior ou menor grau, há tempo, não há é disponibilidade, energia, principalmente mental. Ou seja, mesmo quando poderíamos ter um espaço de questionamento, reflexão e ação, somos arrebatados para o sofá com o cansaço.
Mesmo quando olhamos para quem tem, à partida, maior disponibilidade mental, mais tempo, como é o caso de jovens, apercebemo-nos que os mecanismos anteriores também estão presentes, além de se tornar claro um outro: o assoberbamento. Vivemos numa constância de estímulos. Somos bombardeamos com informação, quer seja visualmente como auditivamente. Os fones são paisagem, a publicidade omnipresente. O silêncio parece extinto. Escusado será afirmar que a ausência desse silêncio impede o questionamento e reflexão.
Esta sociedade hiperativa paralisa-nos. Torna-nos inerciais, neutraliza-nos. Tudo isto já aqui antes abordei. Aquilo que me parece pertinente de salientar é que não basta criar o silêncio para brotar o espírito crítico.
A inércia mantém-se, significa que estamos anestesiados, até a um abanão em contrário. Significa que nos habituámos a ser meros recetores. O ato de pesquisar tornou-se estranho para nós. Aquilo que nos entretém não é selecionado por nós, mas por um algoritmo. Não estamos simplesmente afogados em informação, já não nos lembramos como se nada. Mesmo num cenário em que seria possível tornar razoáveis os níveis de exposição a informação, ainda haveria muito trabalho a fazer sobre a forma como a digerimos. Vi muita gente a ofender-se com a expressão «cretinos digitais» que um manifesto atirou para o espaço público, mas não estaremos a tapar o sol com a peneira? Não estaremos em negação?
Seria tão bom que «espírito crítico» não fosse ruído, mas algo para levar a sério.
Hoje falamos de algo que, à primeira menção, provoca um suspiro de exaustão, um revirar de olhos ou um franzir de sobrancelhas: a burocracia. No sentido comum, o termo tornou-se sinónimo de atraso, de montanhas de papéis inúteis e de balcões onde a lógica parece morrer lentamente à mão de um carimbo gasto. Associamo-la à inércia e ao obstáculo, mas raramente paramos para pensar realmente nela.
A burocracia, na sua génese e pureza conceptual, não existe para ser um entrave, mas sim uma ferramenta de transparência. É ela a garantia democrática de que as decisões públicas não dependem do humor matinal de quem nos atende ou do apelido que carregamos. Ao exigir o registo, a norma e o processo estrito, a burocracia cria algo precioso: a memória institucional. Sem este rasto, estaríamos condenados ao arbítrio; seríamos pasto da vontade volátil dos poderosos de turno. É o processo burocrático que permite que um cidadão, daqui a dez anos, possa escrutinar uma decisão tomada hoje. A burocracia é, portanto, o rasto escrito da nossa justiça.
Contudo, é fundamental compreender que a burocracia não é inocente. Ela não é um mecanismo neutro que apenas veicula decisões; ela molda a realidade, exerce poder e, muitas vezes, cria a sua própria lógica de sobrevivência. Para compreendermos este peso, vale a pena recuar a Max Weber, o sociólogo que dissecou como o poder se legitima através de três formas puras de dominação:
A primeira é a dominação carismática, assente na sedução e na devoção extraordinária a um líder. Aqui, a regra é a vontade de quem comanda, o que torna o sistema instável e profundamente pessoal. A segunda é a dominação tradicional, sustentada na crença na santidade das tradições e no "sempre foi assim". É o poder dos patriarcas ou dos senhores feudais, onde a obediência é devida ao estatuto herdado, ao modo típico de fazer as coisas.
Por fim, surge a dominação racional-legal, onde reside a burocracia moderna. Para Weber, esta era a forma mais eficiente porque se baseava na lei e na competência técnica. No entanto, ele alertava para o perigo de a burocracia se tornar uma "jaula de ferro": um sistema tão técnico e impessoal que acaba por desumanizar quem o utiliza e quem por ele é servido. A burocracia não é inocente porque, ao procurar a eficiência máxima, pode anular a ética e a liberdade individual em nome da norma – além de enviesamentos.
A burocracia disfuncional acontece precisamente quando o objetivo da sua existência é ignorado. É o momento patológico em que a norma deixa de servir o cidadão para passar a servir-se a si mesma. Quando a burocracia é encarada como um fim e não como um meio, entramos no reino do kafkiano. Aqui, o formulário já não serve para organizar dados vitais, mas para justificar a manutenção de um departamento; o selo já não autentica uma verdade, apenas adia uma solução.
Viver e orientar em comunidade exige, portanto, um equilíbrio delicado. Não podemos viver sem regras, sob pena de regressarmos ao estado de natureza onde vence o mais forte. Mas também não podemos permitir que a regra se torne uma barreira intransponível à própria vida. Orientar uma comunidade é possuir a sabedoria de distinguir o papel que protege e organiza do papel que asfixia e paralisa. É o esforço de recordar que, por trás de cada processo numerado, existe uma pessoa real e uma necessidade concreta que não pode ser devorada pela máquina.
Os Açores são uma encruzilhada de destinos e vontades. Contudo, as recentes notícias sobre a utilização da Base das Lajes por parte das forças armadas dos Estados Unidos, como plataforma logística para o reabastecimento de aviões destinados a operações contra o Irão, devolvem-nos a uma realidade mais amarga: a de que a nossa "centralidade" é, tantas vezes, a medida da nossa servidão.
Assistimos, nas últimas semanas, a um bailado retórico de "autorizações condicionais" e explicações de circunstância. O Governo português, através do Ministério dos Negócios Estrangeiros, apressou-se a garantir que nada foi feito fora do quadro do Acordo de Cooperação e Defesa de 1995. Mas há algo de profundamente hipócrita na afirmação de que Portugal mantém o controlo sobre o que se passa naquele pedaço de terra terceirense quando, simultaneamente, se admite que certas operações podem ocorrer sem aviso prévio. A soberania, quando fatiada em "cláusulas de exceção" ou "interpretações tácitas", deixa de ser um direito inalienável para passar a ser um incómodo administrativo.
O que está em causa não é apenas a logística militar, mas o pilar da nossa identidade insular e a dignidade do Estado. Ao permitir que a Base das Lajes sirva de posto de abastecimento para o belicismo cego, Portugal abdica da sua tradição de construtor de pontes para se tornar num cúmplice passivo de uma escalada de violência cujas consequências não controla. É a hipocrisia de quem apregoa o Direito Internacional em fóruns europeus, mas consente na sua violação em solo açoriano sob o pretexto de uma "aliança estratégica" que parece funcionar apenas num sentido.
A resposta do executivo de Lisboa, marcada por uma ambiguidade que roça a submissão, ignora o grito de alerta que vem das gentes da Terceira. Aqueles que, legitimamente, se manifestaram às portas da Base não o fizeram por partilharem das ideologias do regime de Teerão, mas por perceberem que a paz não se constrói com aviões-tanque a descolar do nosso quintal para alimentar fogueiras noutras paragens. Existe uma profunda assimetria ética em falar de "defesa" quando se viabilizam ataques que ignoram a autodeterminação dos povos e a estabilidade global.
Para os Açores, o risco é duplo. Somos nós que estamos na linha da frente, somos nós que nos tornamos um alvo potencial nas geografias do terror, sem que a nossa voz tenha qualquer peso real na decisão de abrir ou fechar a porta. A Região Autónoma assiste, quase como uma espectadora de luxo, à gestão do seu território por poderes que falam inglês e decidem em Washington, com o aval silencioso de um Terreiro do Paço que prefere a conveniência da vassalagem à coragem da afirmação soberana.
Não podemos aceitar que a nossa "açorianidade" seja reduzida a uma coordenada geográfica útil para a guerra. A Base das Lajes deve ser um espaço de cooperação para a paz e para o progresso, não um buraco negro na soberania nacional onde as leis da moral internacional deixam de se aplicar. É tempo de exigir transparência, é tempo de recusar o papel de "parvos", como tão bem denunciou a crítica mais audaz, e de recordar que Portugal, se quer ser respeitado no mundo, tem de começar por se respeitar a si próprio, começando por estas Lajes que são de todos, mas que parecem, cada vez mais, pertencer a outros.
Permitam-me começar este artigo com dois excertos da «Hora da Estrela» de Clarice Lispector. O primeiro, mais longo, trata-se de uma nota entre parênteses que o narrador coloca. Esta obra foi muito recentemente editada pela Companhia das Letras Portugal - que está a fazê-lo a uma série de obras da autora.
«Se o leitor possui alguma riqueza e vida bem acomodada, sairá de si para ver como é às vezes o outro. Se é pobre, não estará me lendo porque ler-me é supérfluo para quem tem uma leve fome permanente. Faço aqui o papel de vossa válvula de escape e da vida massacrante da média burguesia. Bem sei que é assustador sair de si mesmo, mas tudo o que é novo assusta. Embora a moça anônima da história seja tão antiga que podia ser uma figura bíblica. Ela era subterrânea e nunca tinha tido floração. Minto: ela era capim.» (Editora Rocco, 2020, p. 27)
«Só uma vez se fez uma trágica pergunta: quem sou eu? Assustou-se tanto que parou completamente de pensar. Mas eu, que não chego a ser ela, sinto que vivo para nada. Sou gratuito e pago as contas de luz, gás e telefone. Quanto a ela, até mesmo de vez em quando ao receber o salário comprava uma rosa.» (Editora Rocco, 2020, p. 29)
Ainda vou a meio do livro, mas já tão tantas as questões que pairam. Mais do que inaugurar questões, a força está nas formulações, em conseguir passar uma mensagem com todo o rigor, expressando o que muitas vezes não o parece ser, algo que parece ficar entre as palavras e entre as linhas. Quem questiona o valor da literatura, não experimentou a liberdade de conseguir ver em palavras crenças nossa que nunca conseguimos exprimir.
No primeiro excerto temos um excurso do narrador sobre a noção de privilégio sem o nomear. Este é um romance publicado em 1977 no Brasil, mas que se aplica muito bem a nós. As condições financeiras reproduzem desigualdades sistémicas. Podemos tentar enganar-nos dizendo que a escola é um elevador social, contudo rapidamente nos apercebemos que há escolas e escolas, estudantes com acesso a material e outros não, estudantes com tempo livre e outros que têm de ajudar a família,… No nosso quotidiano, com o mínimo de atenção, apercebemo-nos disso mesmo. Alguém preocupado com garantir que a família tem comida e teto, não tem a mesma disponibilidade para observar e pensar o mundo como alguém que pode dar esses fatores por garantidos. O que o excerto me parece excelente a fazer, é traduzir esta ideia, sem colocar no privilégio uma carga negativa que não tem: sermos privilegiados não constitui um mal que nos é intrínseco, é uma condição que não nos desvaloriza, mas da qual devemos ter consciência se queremos uma sociedade justa. E perceber que o privilégio de uma classe média baixa é muito distinto do das elites económicas.
O segundo excerto também nos provoca: queremos pensar no sentido da vida? Não estamos nós numa sociedade cheia de estímulo e de ruídos para ignorarmos o silêncio do que o eu tem para nos dizer?
Ao longo da História é possível dar conta de como as classes médias são aquelas que mais facilmente mudam regimes, revolucionariamente ou democraticamente. São quem tem os meios, quaisquer que sejam, para enfrentar o poder, ou simplesmente a mínima confiança para se levantar do sofá e ir votar.
Hoje temos notícia de mais guerras que se somam e que cada vez mais estão à nossa porta. Tenhamos a ousadia de perguntar quem somos. Uma pergunta perigosa, que nos querem fazer crer sem sentido ou importância. Em que é que acreditamos? O que faz de nós seres humanos? E ajamos.
Por vezes fico a pensar sobre autossuficiência. Somos autossuficientes? Não confundir com autossustentabilidade, mas anda lá perto. O que é ser autossuficiente hoje?
Julgo que a primeira resposta que nos vem quando indagamos sobre a nossa autossuficiência é uma categórica negação. Somos ilhas, temos recursos limitados, conseguimos lá manter-nos sozinhos! A verdade, não obstante, é que desde o século XV houve sucessivas gerações que viveram nestas terras entregues somente a si. Esses nossos antepassados não eram autossuficientes? Não é preciso puxar muito pela cronologia, os nossos avós, pelo menos no seu início de vida e nas freguesias mais periféricas são capazes de testemunhar realidade muito semelhante.
Certamente que essa autossuficiência em muito difere daquela que nos ocorre hoje. Produzir os nossos alimentos, ferramentas e pertences não nos basta quando sabemos das maravilhas que podemos ter para nos facilitar ou abrilhantar a vida. Se a partir de hoje não houvesse mais nenhum navio ou avião a passar pelo arquipélago, certamente que nos desenrascaríamos, afinal, beneficiamos da vantagem de já ter um conjunto de bens que seríamos incapazes de produzir e que nos podem ajudar, além de não faltar terra para cultivar. Não acharíamos piada nenhuma, mas sobreviveríamos.
Aquilo em que mais me ponho a pensar neste assunto é justamente na diferença, naquilo que hoje damos como imprescindível. Suspeito que isso dirá muito sobre nós, sobre as nossas especificidades no século XXI, a nossa forma de ver e estar no mundo. Afinal, somos igualmente seres humanos, temos exatamente as mesmas necessidades fisiológicas, quando comparados com os nossos ascendentes, o que mudou?
Arriscaria a dizer que nenhum das nossas necessidades mudou ou foi criada. O que mudou foi a tecnologia do nosso quotidiano. Somos como o lusitano Viriato, mas com carros e telemóveis. Gostamos da tecnologia, principalmente porque muitas vezes nos facilita a vida. Na verdade, parece que a estrela polar da inovação é essa mesma. Com a inovação, advém a complexidade e sofisticação das ferramentas, o que só se torna operacional num mundo globalizado, com partilhas de recursos, saberes e, na prática, muita exploração de mão-de-obra.
A nossa tendência para o facilitismo sempre esteve connosco, simplesmente se evidencia mais agora, porque o progresso tecnológico tem seguido uma lógica exponencial, sendo que a cada dia há cada vez mais novidades – uma verdadeira aceleração que nos impacta de mil e uma formas e que já aqui falámos. Claro que o desenvolvimento tecnológico não é inocente, dão-nos coisas para nos viciarmos, de modo a nos tornarmos nós próprios o produto, a mercadoria.
Não queria, contudo, desenvolver o meu raciocínio por estes terrenos, queria antes perguntar sobre a pertinência ou mesmo importância da autossuficiência. A principal vantagem de alguém que seja autossuficiência é a possibilidade de gerir os seus próprios recursos, como considera melhor. Existe o exercício da soberania sobre esses recursos. Por outro lado, não necessitando de qualquer ajuda, garante a sua autonomia. São dois lados da mesma moeda.
Confesso que muitas vezes me pergunto se a autossuficiência não é uma palavra que se tenta deixar fechada, porque pode emancipar, dar ideias sobre liberdade que podem ser perigosas no nosso sistema. Talvez a ideia mais perigosa seja mostrar como somos e vivemos num mundo de carne e osso, quotidiano, sobre o qual podemos agir e procurar satisfazermo-nos.
«O que é evidente, mente. Evidentemente». Li esta passagem em Evidentemente: histórias da educação, uma obra belíssima e riquíssima de António Nóvoa, em que afirma o modo superficial como muitas vezes se debate a educação, nomeadamente, com uma falsa sensação de familiaridade. Hoje, gostava de abordar uma evidência que mente, uma dessas confusões linguísticas com um reflexo político, e quotidiano.
São tantos os exemplos que até arrepia. Pensemos no casamento entre casais homossexuais: há quem o defenda, como quem se lhe oponha. Pensemos em quem não se quer comprometer com nenhuma das posições e afirma somente «temos de encontrar um meio termo». Pensemos na violência racista: há quem diga que o respeito pela dignidade humana é universal e quem berre para «voltarem para a sua terra». «Temos de encontrar um meio termo.» Pensemos em Gaza: em como tanta gente persistentemente defende a paz e como há quem tente justificar a morte de crianças. «Temos de encontrar um meio termo», repetem eles. Pensemos numa criança que se afoga: uma pessoa pretende correr e socorrê-la, enquanto outra se recusa. Uma terceira, confrontada com estas opções, sentencia «temos de encontrar o meio termo».
Existe aqui uma confusão entre o que é imparcialidade e neutralidade. Esta última, tantas vezes confundida com a virtude da moderação, é, na verdade, um deserto de carácter – na melhor das hipóteses. A imparcialidade, pelo contrário, exige o rigor do juízo, a análise dos factos, a justiça da balança; mas a neutralidade é a negação do movimento, é o congelamento da consciência face ao sofrimento do outro. Nesta aritmética social, o «meio termo» tornou-se o esconderijo dos cínicos. Se um prato da balança contém o direito à existência e o outro contém o extermínio, o ponto médio não é a justiça, é a barbárie atenuada.
Nas nossas ilhas, onde o mar nos ensina que não há meio termo entre a terra e o abismo, deveríamos ser os primeiros a entender que a neutralidade é uma ficção de quem está seguro no cais. Quando o debate público se resume a uma busca incessante por um centro morno, o que estamos a fazer é multiplicar a nossa humanidade por zero. E, como aprendemos desde cedo, multiplicar por zero dá sempre zero. Não importa quão grande seja o valor da dignidade que colocamos na equação; se o fator multiplicador for a nossa indiferença «neutra», o resultado será a nulidade absoluta.
Muitas vezes, a condescendência do «meio termo» é até mais ensurdecedora do que alguns dos opressores. É uma voz que se veste de prudência, que se perfuma com a retórica da ponderação, mas que, no fundo, é apenas o vazio de quem não quer ter o trabalho de sentir, ou a coragem de enfrentar quem brinca com o que há de humano. No mundo conturbado em que vivemos, pede-se a clareza de quem sabe que o mal não tem «outro lado» que mereça ser validado pelo compromisso.
Que saibamos, pois, distinguir a luz do nevoeiro. Que não nos deixemos seduzir pela mentira da evidência fácil, aquela que nos diz que a paz se constrói com a soma das metades de uma injustiça. Porque no fim do dia, quando as luzes se apagam e a consciência se deita, o que resta não é o que evitámos dizer, mas o que tivemos a coragem de defender. A vida, essa sim, nunca foi neutra. E nós também não podemos ser.
O país está a viver dias trágicos. Perante o sofrimento de tantas famílias vítimas de tragédias naturais, ficámos atónitos com a proximidade dessa dor. A campanha para a segunda volta das presidenciais ficou num plano distante, na verdade, quase parece que nem houve eleições. Bem sei que ainda assim houve a polémica sobre o adiamento das eleições. Na prática, um movimento demagógico: a lei já contempla que locais em estado de calamidade possam fazer esse adiamento – tanto que aconteceu. Um triste exemplo de instrumentalização das vítimas.
Na verdade, esta tragédia não justifica totalmente o quase desinteresse (para não dizer desinteresse quase completo) do país para com a segunda volta. A sua previsibilidade, a vitória praticamente garantida de Seguro fizeram desmobilizar o interesse no debate. A verdade é que nada está garantido e os portugueses reconheceram-no indo às urnas praticamente com a mesma participação da primeira volta. Eu fui dos que foram só para cumprir com o contributo mais básico para a manutenção da democracia.
Esta saber, agora, o que podemos esperar. Ao longo desta campanha vimos um António José Seguro coerente e medido nas suas ações e palavras. Falou nos sítios certos, nos contextos certos, e deu espaço ao escrutínio da comunicação social nos momentos pertinentes. Trata-se de uma postura muito diferente do atual presidente, Marcelo Rebelo de Sousa. Existe uma seriedade e um peso institucional que são carregados com seriedade e sobriedade. Certamente que no tempo dos influencers, isto pode ser visto como oldschool, até pode ser visto como mais do mesmo, como elitismo. Independentemente de outras considerações, parece-me uma boa notícia: sente-se a responsabilização: não se trata de uma figura pública, mas do mais alto representante do povo português. Quando as instituições são tão atacadas, o respeito institucional é uma lufada de ar fresco*. O facto do início do seu discurso de vitória ter sido dirigido às vítimas das recentes tragédias e principalmente à resposta que é preciso ter, mostram sinais promissores de um verdadeiro estadista.
A verdade é que já passou a lua de mel: António José Seguro terá de ser marcante além da sua forma de agir. Ainda está bem presente na memória a sua proposta, há um ano apresentada, sobre o Orçamento de Estado não ter de ser aprovado na Assembleia – já para não falar de acontecimentos com mais de 20 anos. Perdoa-se o excesso de neutralidade a bem de uma suposta imparcialidade com fins eleitorais, apesar de ser evidente que sem escolhe a neutralidade está a tomar um caminho igualmente ideológico – caso seja essa a alergia.
Não estou convencido de que este não tenha sido o melhor cenário para o governo. António José Seguro facilmente promulgará tudo o que o governo lhe apresentar – oxalá faça um pouco de frente às maiores indecências como o pacote laboral. Não se espera grande defesa do povo português e, ao mesmo tempo, sendo supostamente de uma área política distinta da do governo, Montenegro ainda vai vir por aí abaixo a armar-se em vítima sobre o PS que o restringe, ou rejubilará pela sua capacidade em construir pontes com pessoas tão distintas. António José Seguro parece servir bem Montenegro. Aguardemos pelo conteúdo.
*Falo do ataque à sua raiz, à sua existência. Bem sabemos como grande parte das nossas instituições falham e geram desconfiança, precisam de uma reforma, mas isso não significa deitar fora os seus valores, antes radicalizá-los.
Por vezes, aquilo que mais apetece é estar estatelado e enroscado na cama. Isto acontece, porque tanto na experiência de adormecer, como naquela de acordar, estamos munidos de conforto. Um colchão confortável, lençóis macios, dois edredões dentro de uma capa extraordinariamente fofa pelo número de anos que têm,… Conforto e segurança ímpares em relação ao resto do dia.
Quando estou na cama e sinto esse conforto, não consigo deixar de questionar sobre o número de pessoas que não o têm. Não estou a falar só de quem não tem uma cama onde dormir, como também de quem tendo, vê nela a mera satisfação de uma necessidade fisiológica. Na nossa realidade (felizmente, tanto quanto é possível afirmar), esta última realidade é mais comum do que a primeira, no entanto confesso que duvido que isso se traduza numa qualidade de vida exponencialmente melhor. Dedicar a maior parte das horas acordado ao trabalho para chegar a casa e fazer as tarefas domésticas com o espectro de não saber se consegue pagar as contas todas, não parece de forma alguma uma vida digna.
Infelizmente, parece que sentir o conforto da cama é um privilégio. E se o é algo tão básico e previsível do nosso dia-a-dia, o que dizer de matérias contingentes? Da segurança que sentimos na rua perante os olhares que nos depositam, testemunhos de diferentes atitudes quando o agrado ou desagrado para com as caraterísticas que exibimos. Dos horizontes que se podem alcançar com a carteira vazia. Assumir o privilégio não é negar mérito, é defender a dignidade humana, considerando de elementar bom-senso que todos possamos ser privilegiados do mesmo modo. Não deixa de ser caricato que em pleno século XXI ideias como ninguém passar fome, todos terem teto, todos terem respeito, entre outras, ainda são miragens e em muitos casos não são consensuais. É triste ver como quem mais tem a ganhar em justiça é quem se torna cúmplice, quem se divide ao sabor de ficções imaginárias que perpetuam desigualdades dolorosamente reais.
Parece-me que o maior problema no contacto com a utopia, o projeto da sociedade justa, é o do vulgarmente familiar. Nós vivemos numa realidade material. Quando afirmo a palavra «quotidiano», carrego-a com a materialidade do dia-a-dia: desde o café, ao autocarro, ao abraço, além de categorias como trabalho, tarefas ou refeição. «Quotidiano» é o filme de cada um que se vai desenrolando, é a perspetiva de cada corpo que interage fisicamente com o que o rodeia. Sentimos, vemos e ouvidos em espaços, ruas e edifícios, muito específicos, quando colocados em perspetiva com a restante humanidade. Fazemo-lo dia após dia. Estas interações toldam aquilo que perspetivamos como possível, como alcançável, nos seus vários graus. Aquilo que nos é acessível é tido com normalidade, daí o darmos por garantido, a facilidade de ignorar privilégios, a ausência de questão. Não obstante, num momento de nova conquista, do alcance de algo que se queria, que não era normal, rapidamente chega o momento do impacto com a normalidade: materializou-se. Não estou a dizer nada de extraordinário: o saber popular sintetiza-o como «o melhor da festa é esperar por ela». Aquilo que nos é futilmente familiar é-o pela sua materialização, o seu pensamento, no domínio do ideal, foge-lhe.
Receio que este vulgarmente familiar seja a casa de muito cinismo que toma qualquer ação como uma desilusão à espera de acontecer. Na verdade, o vulgarmente familiar é que é uma ilusão, que se desmonta com o espanto, a loucura da vida.
Confesso que por vezes não sei o que dizer. No tempo da imagem, em que o aspeto visual é o centro da atenção, seria de esperar que as imagens impactassem, contudo parece que o efeito é o oposto: o assoberbamento com a quantidade de imagens tornou-nos apáticos sobre elas, tornou-nos massas inerciais.
Da «Terra da Liberdade» chegam-nos imagens de pessoas que morreram às mãos da violência policial. Pessoas cujo crime foi oporem-se às políticas de ódio e autoritárias que emanam da Casa Branca, ou simplesmente existirem numa pele que o sistema insiste em criminalizar. A violência não é propriamente novidade; a história dessa nação foi erguida sobre alicerces de brutalidade sistémica. O que é novo é a sua transmissão em direto, sem qualquer tentativa de encobrimento. O que outrora era feito na sombra, hoje é conteúdo de feed. Práticas caraterísticas da Gestapo ou da PIDE, que julgávamos enterradas nos livros de história como avisos sombrios do passado, são agora documentadas à luz do dia e transmitidas em tempo real para os nossos telemóveis. Vemos agentes da autoridade a atuar como forças de ocupação contra os seus próprios cidadãos, e a normalização deste espetáculo macabro é, talvez, o aspeto mais aterrador do nosso tempo.
Como é possível ter chegado a este ponto? A resposta reside, em grande parte, no assoberbamento. Vivemos numa torrente contínua de estímulos visuais onde tudo tem o mesmo peso. A imagem de um homem asfixiado sob o joelho de um polícia compete pela nossa atenção com o anúncio de um novo automóvel ou com o vídeo viral de um animal de estimação. Esta saturação sensorial não nos torna mais informados; torna-nos dormentes. O horror, quando repetido ad nauseam e intercalado com o trivial, perde a sua capacidade de chocar. Transforma-se em ruído de fundo, numa banda sonora visual do colapso civilizacional que aceitamos como o "novo normal".
Ignoramos as crises, porque achamos que não são connosco. Mas esta é a grande armadilha da nossa era: somos vítimas deste sistema, mas facilmente nos tornamos cúmplices dele. Ao escolhermos o silêncio, ao desviarmos o olhar para não perturbar o nosso conforto, estamos a legitimar a violência. A nossa inércia é o combustível que alimenta a máquina de opressão. O sistema conta com a nossa exaustão e com o nosso cinismo para continuar a triturar vidas impunemente.
Mas nem tudo é escuridão. Felizmente há quem se mova, recusando a sedação coletiva. Vemos isso nas manifestações enormes nos Estados Unidos, onde multidões heterogéneas ocupam as ruas, desafiando o gás lacrimogéneo e os bastões, para gritar que a vida importa, que a dignidade não é negociável. Esses corpos em movimento, que se recusam a ser apenas espectadores da sua própria tragédia, são o lembrete de que a apatia não é um destino inevitável, mas uma escolha que podemos rejeitar. Há uma pulsão de vida que resiste, que se organiza e que exige justiça, provando que a solidariedade ainda é a arma mais poderosa contra o medo.
E por cá? Por Portugal, que a esperança permita que a história não se repita como farsa, nem como tragédia. Aproximam-se momentos decisivos. Que no dia 8 de fevereiro, e em todos os dias que se seguem, a voz dos opressores fique bem longe do poder. Porque a "Terra da Liberdade" não é um lugar geográfico, é uma construção diária. E se não queremos que as imagens de violência que hoje nos chocam se tornem o cenário da nossa própria realidade amanhã, temos de quebrar esta inércia. Temos de ser mais do que olhos que veem; temos de ser cidadãos que sentem e que agem.
O país mediático coloca, naturalmente, os seus olhos nos resultados das eleições presidenciais, debitando palpites sobre o que acontecerá na segunda volta além de tentar explicar a primeira. Atendermos a este movimento permite-nos, na verdade, fazer uma crítica à própria democracia, ou melhor, ao processo democrático em que vivemos.
Algo transversal às democracias ocidentais consiste no modo como os atos eleitorais em específico e a comunicação política em geral se traduzem numa corrida de cavalos. O conteúdo político não é o projeto de sociedade, mas sim o ranking da popularidade. O êxito das sondagens e em especial das tracking polls é sintoma disso mesmo.
Na verdade, esta constatação é intuitiva na opinião pública se a formularmos como uma ode ao clubismo partidário. O mais bizarro aqui trata-se do modo como, afirmando essa verdade, se empurra logo de seguida toda a responsabilidade e se instala a inércia. Sabemos o que está mal, mas não lutamos pelo melhor.
A partir do momento em que reconhecemos o esvaziamento do debate político, deve ser nosso dever enriquecê-lo. Não se trata de da noite para o dia passar a ser tribuno e candidatar-se aos altos cargos da nação. Trata-se de, junto da nossa comunidade, participarmos civicamente. Trata-se de fazermos valer os nossos direitos no quotidiano com um sentido de justiça. Trata-se de nos aproximarmos das associações, das paróquias, dos sindicatos, dos clubes, das entidades que agregam e mobilizam e nos juntarmos para construirmos um espaço público vivo e participado. Trata-se, acima de tudo, de exercitar a crítica e de, aliás, ser um militante dessa mesma atitude.
Uma atitude crítica é seguir o caminho da busca do radical, ou seja, da raiz. Uma atitude crítica é tatear os limites. Uma atitude crítica concretiza-se em ser capaz de pensar, exercitar a razão, de forma estruturada e rigorosa sobre um objeto definido.
Esta atitude está nos antípodas do sentido pejorativo conotado à tentação cínica do abate cego, como está aliás também nos antípodas da oca certeza que caracteriza o conspiracionismo. Não nos esqueçamos que o corolário do espírito crítico é a humildade intelectual, é o exercício consciente e inconsciente da autocrítica.
Não se fique, contudo, com a ideia ingénua e cínica de que esta atitude denota um sábio e que se não é generalizada é por falta de vontade de iluminação. A política como corrida de cavalos não é somente um sintoma, mas também uma causa moldando a discussão e reflexão no espaço público. São inúmeros os outros sintomas que se tornam causas, justamente por serem esses fenómenos que permitem a manutenção de uma organização societária tão injusta e desigual. A experiência da escassez de tempo é praticamente universal e traduz-se na busca de escapes inerciais ou na própria inércia. A ausência de tempo no nosso quotidiano é na verdade o esgotamento da nossa energia mental. Uma energia que se dissipa pelo assoberbamento dos estímulos com que constantemente vivemos. No caso das classes onde a desigualdade material é pela negativa mais evidente, esta ausência de tempo revela de facto também o seu sentido literal. A uns atira-se areia para os olhos, a outros são as próprias correntes que os cegam.
Julgo nunca ter estado tão certo em relação a um dever moral que me assiste. Se me permitem esta intromissão da vida pessoal além do pensamento, recordo que sou estudante do mestrado em ensino de filosofia. O que antes era uma inclinação, esta semana tornou-se um imperativo. Comecei a ser professor, assumindo a minha parte na demanda pela emancipação intelectual.
Estamos na derradeira semana das presidenciais que a 18 de janeiro indicam quem poderá ser o próximo presidente da República Portuguesa. Indicam, uma vez que muito provavelmente haverá uma segunda volta a 8 de fevereiro. Permitam-me partilhar algumas notas sobre este processo, bastante presente na comunicação social, mas afastado da cabeça dos portugueses, que «estão cansados de eleições».
Em primeiro lugar, uma nota técnica: porque não se está a usar o sistema que se montou em 2024, nas europeias, com recurso a cadernos de voto digitais e a possibilidade de voto em qualquer mesa? As eleições presidenciais são eleições com um só círculo, a única conta a fazer é a de quantos votos cada candidatura atingiu em todas as mesas de voto.
Preciso também de deixar a minha irritação sobre a questão de candidatos excluídos estarem nos boletins de voto: este assunto é sempre tratado como algo novo e como alvo de admiração, mas resulta de um procedimento que está previsto e calendarizado pela CNE, se querem falar no assunto, que se exponha num formato compatível com essa mudança. Isto só denota a superficialidade que tendemos a cair no debate público.
Passemos ao conteúdo político. Li recentemente uma reportagem (10/01/2026) da jornalista Paula Luz no Público sobre a candidatura de André Pestana. Numa parte do texto, é possível ler a descrição de uma interação do candidato presidencial com um vendedor de castanhas de 43 anos numa rua de Coimbra. O vendedor estava preocupado com um «amigo» que estava a ganhar mais com o subsídio de desemprego do que a trabalhar. Ao Pestana afirmar a impossibilidade disso acontecer, o vendedor «corrigiu-se» dizendo que se referia ao «rendimento mínimo» (RSI). Segundo a jornalista, Pestana explica detalhadamente como isso não é possível e como os valores são deturpados por discursos demagógicos. O candidato riposta com «Eu sou o único candidato que denuncia que eles estão todos a mamar. Até o Chega, que recebe cinco milhões de euros de subvenção, sabia?». Permitam-me citar o excerto que se segue na reportagem «[O vendedor] anui. Quando fica sozinho, volta a repetir ao PÚBLICO o discurso tantas vezes propalado por André Ventura.» Este cru jornalístico captura extraordinariamente: como desmontar racionalmente o discurso demagógico tem sido ineficaz; como se reconhece o papel dos mais fortes na degradação da vida, mas é mais fácil criticar os mais fracos; como cada um acha que é o único que trabalha a sério; como se mantém a ilusão de que a minha falta de dinheiro se deve ao estado social e não aos benefícios fiscais; como cada um tem a sua verdade.
Estas são umas eleições em que o voto útil menos sentido faz, afinal, já basta a segunda volta para votarmos no «menor mal». Podemos votar em quem de facto acreditamos. Isto não é importante numa visão romântica da política, é vital para a democracia que assim seja: votarmos com base no medo de algo não soa nada democrático. É triste que a maior parte dos presidenciáveis opte por tentar manipular o voto útil – tendo uma grande ajuda das sondagens na tentativa de moldar a opinião pública.
Preocupa-me à direita a popularidade que Cotrim de Figueiredo tem alcançado. Trata-se de um candidato para quem votar em Ventura é mau não porque significa um voto para Ventura, mas porque supostamente aproxima Segura da presidência. Entende-se o raciocínio pragmático e por isso mesmo é perigoso: a guerra partidária acima da defesa dos valores democráticos. Há já muito que aproxima Cotrim e Ventura, algo que fica ainda mais evidente com os dois a reconhecerem que apoiariam Passos Coelho – algo bastante revelador, se não tivermos memória curta; e não nos esqueçamos do papel de Seguro.
Vamos começar o ano com uma introspeção. Já são incontáveis as vezes em que me refiro aqui à aceleração da vida, ao assoberbamento que sentimos e que nos deixa exaustos.
Quando falo em aceleração, é aludindo ao conceito físico que se traduz na variação da velocidade. No nosso caso, na nossa sociedade, assistimos a uma aceleração positiva, consistindo no aumento da velocidade. Trata-se de um conceito hoje muito utilizado na sociologia e na filosofia, com o pensador alemão Hartmut Rosa como um dos seus maiores proponentes. O desenvolvimento tecnológico é um dos maiores potenciadores dessa aceleração: quanto mais o nosso quotidiano depender de tecnologia, mais evidente será a aceleração, afinal o desenvolvimento tecnológico está, ele próprio, acelerado. Processos do dia-a-dia como comunicar com alguém, escrever um relatório, acostumar a um novo sistema informático, requerer algo a um serviço, incluindo serviços públicos, são acompanhados da expectativa de imediatez. Hoje é possível falar com outra pessoa do outro lado do mundo instantaneamente, nas nossas ilhas não faltam testemunhos de gente viva de uma comunicação muito mais lenta dentro da própria ilha. Só este facto estruturante do nosso dia-a-dia já nos mina a virtude da paciência. A nossa vida é marcada por prazos que nos perseguem, temos tarefas para despachar em cada vez menos tempo a bem da produtividade.
O desenvolvimento tecnológico é efeito e causador do aumento exponencial da informação. Além de vivermos a correr, cada vez mais apressados, vivemos numa manancial de informação: são conhecimentos que temos de adquirir, são redes de burocracia que se adensam, são publicidades por todo o lado, é a música constantemente nos fones, são todos os livros que temos de ler, são os dados que temos de tratar, é o scroll infinito nas redes sociais, são as notícias que se atualizam ao minuto,… Sentimos uma urgência de consumir tudo e de produzir ao máximo. As perceções hoje que temos sobre nós e sobre o mundo são profundamente marcadas por estes desenvolvimentos.
Há várias estatísticas que indicam que, em média, os indivíduos adultos passam pelo menos 6 horas do seu dia a olhar para écrans. Recebemos centenas de notificações por dia. Isto só para falar em como somos assoberbados pelos telemóveis. Os conteúdos das redes sociais duram uns segundos, mas passamos horas nelas, veja-se o manancial de estímulos! Não admira que nos seja tão difícil empenhar-nos em atividades menos estimulantes, como brincadeiras ao ar livro, ou ler um livro na cama de rede. Ironia das ironias: refugiamo-nos nesses estímulos constantes para fugir à aceleração.
Outro dia estava a dar uma volta de carro sintonizado na Antena 2. De repente, apercebi-me que estou a ouvir mais música clássica. Ao pensar no assunto, cheguei à conclusão de que é uma resposta inconsciente à procura de menos informação, de menos estímulos: a procura por sons de instrumentos físicos, onde as camadas de informação são os sons desses instrumentos. É claro que a música clássica tem uma enorme densidade, aquilo que digo é que é desprovida da voz humana que nos faz meditar sobre o que diz ou das construções digitais que acrescentam novas sonoridades. Apercebi-me do refúgio no papel, para ler e escrever. Apercebi-me do interesse em escolas helenísticas, como no estoicismo. Apercebi-me, portanto, em como se procura um porto seguro em etapas anteriores de desenvolvimento tecnológico.
Apercebi-me do erro de perceção que podemos ter: estas respostas não são reacionárias, uma postura conservadora, antes um exame crítico. São a bolsa de ar do conhecido para escrutinar o desconhecido. Estamos num constante jogo de resignificação.
2026 está no horizonte. 2025 em breve deixará de ser escrito caligraficamente para se registar a data dos apontamentos, cristalizando-se como mais um ano completo em informação sobre as ações humanas, os desenvolvimentos ambientais,… Cristalizando-se como quem diz, «a História é escrita pelos vencedores». Considerações à parte, falemos daquilo que nos apoquenta nestes dias: o que queremos que 2026 seja.
As resoluções e desejos abundam: resoluções sobre as nossas ações, desejos sobre o espírito do mundo. No que às resoluções concerne, de facto, esta é uma boa altura, como, na verdade, qualquer outra, para nos perguntarmos sobre quem fomos e quem queremos ser. Será que as nossas ações são condizentes com os nossos valores? Essa dissonância depende de nós ou é condicionada por outras condições (tempo*, dinheiro, saúde,…)? Será que temos os nossos valores estabelecidos sequer? Estarão bem fundamentados? Confesso um receio que tenho: as resoluções serem vazias justamente por não responderem a estas perguntas e que isso leve a que as pessoas se sintam impotentes. E a impotência não se limita às resoluções: quando assumimos como desejos tudo o que se traduza numa melhoria do mundo (mesmo as mais vagas como «paz» ou «felicidade»), uma vez que se corre o risco de nos excluirmos do papel que podemos ter na ajuda para a sua concretização. Não estou a ser idealista, a nossa comunidade faz parte do mundo, não temos de ser mártires ou heróis, basta sermos pessoas decentes no nosso quotidiano e que usem parte do seu tempo para a sua comunidade.
Dito isto, gostava de aqui deixar um desejo – ciente do meu papel na sua concretização, que passa, justamente, por este artigo. O meu desejo é que haja mais espírito crítico. Bem sei que é uma palavra gasta, por isso mesmo é importante defendê-la, não deixar que lhe esvaziem o significado. Ter espírito crítico é questionar, é pensar estruturalmente, radicalmente, ir
à raiz. Entre outos, identifico dois obstáculos à cultura de um espírito crítico: por um lado, confunde-se espírito crítico com depreciação; por outro, é muito fácil convencermo-nos que temos empreendemos espírito crítico, quando não o fazemos.
A crítica não é estar do contra: é perceber os limites e, nesse sentido, estabelecer relações e apontar caminhos. É por isso que qualquer crítica deve ser construtiva e é por isso que não podemos confundir ser construtivo com ser conformista. Com isto também não quero apregoar que devemos ser desconfiados de tudo, antes que devemos ser exigentes. Dá trabalho, dá, porque refletir não é só emitir palavras.
Muitas vezes baralha-se opiniões com posições, uma emissão de palavras com uma tese fundamentada; levando a que muitos se julguem a última bolacha do pacote, convencidos da sua razão. O corolário do espírito crítico é a humildade intelectual, de facto, ele sem ela não é ninguém. A aproximação à verdade não se faz com verdades absolutas, mas da interseção da pluralidade de verdades relativas.
Pensar pela nossa cabeça é usar o que melhor temos para melhorar as nossas vidas e as dos outros, façamo-lo bem.
* Julgo que já aqui escrevi sobre como a falta de tempo deve ser tida como falta de disponibilidade, ou energia, mental, na medida em que a sociedade em que vivemos nos esgota quer seja no esforço que empreendemos no quotidiano, quer seja no que nos é imposto de expectativa, tudo isto num meio de assoberbamento de informação – estímulos contantes que nos chegam dos ecrãs, das publicidades, dos fones,… É esta exaustão que nos tira tempo, porque qualquer pouco tempo que temos, é para tentar não enlouquecer. Olha, que bela resolução de ano novo: fazermos o possível para mudar esta sociedade que nos esgota.
Lembra-se de dia 11 de dezembro? 11 dias separam-nos desse dia. Não resisto a notar como o exercício de abrir, por exemplo, os sites da comunicação social, mostra como a greve geral já foi um evento longínquo, só aqui ou ali com alguma atualização. Certamente a greve conseguiu algo verdadeiramente extraordinário: quebrar o monopólio de temas da extrema-direita omnipresentes na esfera pública, como é o caso da imigração. Durante um dia foi impossível ligar a televisão sem dar conta do assalto que este governo pretende fazer aos direitos dos trabalhadores – com uma reforma que não foi apresentada nas eleições e que até da estrutura sindical do PSD é alvo de crítica. Durante um dia discorreu-se sobre problemas reais dos trabalhadores e não de fantasmas criados para temperar a opinião pública.
É mais um testemunho da doença a que estamos votados nesta sociedade: a aceleração e assoberbamento não permitem maturar o pensamento, antes cortá-lo sistematicamente com novos temas, numa perceção de obsolescência que nos faz largar o osso com o qual nos açoitarão pouco depois.
Passaram 6 dias, desde as desastrosas declarações do Ministro da Educação, Ciência e Inovação, Fernando Alexandre, que geraram uma enorme indignação por colocarem o ónus da degradação de infraestruturas públicas, direta ou indiretamente, nas classes mais desfavorecidas. Tentou-se, até, normalizar essas declarações interpretando-as como uma crítica às gestões negligentes de espaços direcionados para classes desfavorecidas. Os maiores neoliberais quase soaram marxistas. O problema, contudo, mantém-se: Fernando Alexandre é ministro, sendo ele o decisor político, estas afirmações são um exercício de escárnio. Claro que hoje a polémica se resume a artigos escritos no dia, mas só publicados depois.
Não deixa de ser curioso que a própria comunicação social prova deste seu veneno: entre os dias 11 e 12 de dezembro, os maiores jornais do país foram publicando um manifesto assinado pelos seus diretores, totalizando 13 vozes. Trata-se de vozes da imprensa, a chamar a atenção para o facto de em 2026 ser possível que 8 distritos percam a sua distribuição diária de jornais. Também se têm ouvido vozes de jornais regionais e locais a anunciar o seu fim. Ora, nem é um tema marcante na agenda pública.
Certamente que a comunicação não tem consciência do buraco que cavou, só assim é possível que afirmações tão estapafúrdias como as do diretor do Expresso tenham visto a luz do dia, relembro: «É graças ao discurso radical de André Ventura que hoje se pode falar de políticas de imigração sem pruridos, sem ofender ninguém e principalmente sem que a extrema-esquerda acuse qualquer um de xenofobia assim que se começa a discutir a questão». Julgo que não vale a pena dissecar o conteúdo do que foi dito, é óbvio que o discurso de ódio e a violência, inclusive política, estão a aumentar com a instrumentalização da imigração. É tão óbvio que a imigração deva ser discutida, como é óbvio que nunca podemos duvidar de que qualquer indivíduo tem de ter a sua dignidade humana assegurada. O mais interessante aqui é como na semana seguinte a assinar o manifesto sobre democracia, a mesma pessoa assina estas palavras – não só contraditórias, como ofuscantes.
As redes sociais treinam-nos como agentes que reagem, não a sermos críticos, no sentido de pensarmos estruturadamente sobre algo. Mesmo quem produz conteúdos está, na verdade a reagir. Quem melhor para afirmar isso do que quem escreve estas palavras?
A Tinta-da-china editou em outubro um livro com uma capa muito curiosa, um ensaio escrito por Omar El Akkad «Um Dia, Sempre Teremos Sido Todos Contra Isto». Na capa lê-se: «Um dia, quando for seguro, quando não houver consequências pessoais por chamar as coisas pelos nomes, quando for demasiado tarde para responsabilizar seja quem for, sempre teremos sido todos contra isto.».
Olhando em redor, parece ser mesmo isto. Onde hoje falha o bom senso, amanhã veremos um desvario; a inação será atenuada pela complexidade que as várias situações supostamente têm.
Estas palavras aplicam-se perfeitamente às atrocidades a que todos os dias testemunhamos na nossa televisão sobre Gaza, por exemplo – aliás, o centro do livro mencionado é justamente esse. Quando se escrever a História e se expuser o genocídio que está a ocorrer, tomaremos com desdém qualquer pessoa que tente justificar a violência utilizada contra civis. Olhemos para o horror do Holocausto para percebermos o processo: ele ocorreu, houve quem não só o considerasse como uma possibilidade, mas algo que devia ser levado a cabo, apesar de hoje sentirmos as milhões de mortes que foram infligidas.
Este é um exemplo extremos, afinal, falamos sobre a existência da própria vida, contudo este mecanismo de ação, marcadamente cínico – na aceção contemporânea -, está presente em muitas mais dimensões. Por exemplo, na desigualdade. Quando se erradicar a pobreza, olhar-se-á para a existência de pessoas em condição de sem-abrigo como uma aberração: como foi possível defender uma sociedade que deixou pessoas a passar fomos, que deixou pessoas a viver na rua, enquanto outras tinham mais recursos que muitos países como um todo. O mesmo raciocínio se aplica, noutro exemplo, às alterações climáticas: como foi possível fechar os olhos a algo que já estava a ter impactos trágicos? Só mais um exemplo: como foi possível ostracizar quem vem para o nosso país e ajuda a tornar-se funcional? Isto, e muito mais, está tudo a acontecer, todos os dias somos confrontados com as suas consequências nefastas, nós ou outros.
Numa primeira objeção, talvez de diga que estou a ser demasiado otimista: parto do princípio de que o tempo, a História, progredirá para a resolução destas questões; afinal, só quando algo é de facto concretizado, se pode discutir aquilo que é possível ou impossível, aquilo que podia ter sido sustentado desde logo.
Pensemos agora no panorama do indivíduo, de uma pessoa qualquer que vive nesta sociedade (qualquer um de nós). Gostamos muito de histórias de heróis, aqueles que são pessoas ordinárias, mas extremamente altruístas e idealistas. Na verdade, gostamos tanto que nos convencemos que somos uma dessas pessoas. Convencemo-nos, porque estamos confiantes do nosso «espírito crítico». Somos todos paladinos da verdade. Não precisamos de mais do que duas palavras sobre um assunto, para sobre ele discorrermos como especialistas. Afinal, temos de ter uma opinião sobre tudo e tudo corresponde a tanta coisa que não dá para alongar muito.
Escusado será de dizer que isto não é espírito crítico nenhum. Uma crítica é uma análise radical, estrutural, a algo, testando as suas fundações e os seus limites. Qualquer pessoa pode tomar posição sobre tudo, mas para isso precisa de garantir rigor na informação e na argumentação. É chato, mas só assim é que não somos marionetas.
Achamo-nos heróis hoje porque vivemos num mundo onde somos a personagem principal, vivemos numa sociedade individualista. Sem argumentação e sem contraditório, é assim que cada um de nós se torna um herói. Afinal não somos mais do que massas inerciais. Temos de nos abrir ao mundo, deixar afetar, sentir, para pensar e agir.
No próximo dia 11 de dezembro, esta quinta-feira, haverá uma greve geral. Trata-se de uma reação ao pacote laboral proposto pelo governo. São muitas as reações que se têm em relação a este assunto. Permitam-me trazer aqui alguns factos que a caraterizam.
Desde logo, parece-me importante notar como Portugal é dos países europeus onde menos se faz greve – e onde mais tempo se trabalha. A contestação não é habitual quando olhamos para o que acontece noutros sítios e esta greve é ainda marca por ser somente a quinta greve geral convocada simultaneamente pelas duas grandes centrais sindicais – CGTP e UGT. Na verdade, desde o 25 de abril só houve 10 greves gerais. A última já foi há 12 anos, mas talvez nos soe recente, afinal, a austeridade levou a 5 greves gerais entre 2010 e 2013.
Mais: mesmo quem nunca convocou uma greve geral, fê-lo. Perante o reconhecimento da impossibilidade de diálogo imposta pelo ministério, a União dos Sindicatos Independentes aderiu. E a cereja: os Trabalhadores Social Democratas também aderiram. Estamos, portanto, a falar da estrutura sindical associada ao Partido Social Democrata – que, relembre-se, lidera o governo que quer importa esta reforma laboral.
Esta não é uma greve que possa ser subestimada, quem lida com as questões laborais está preocupado. O próprio governo dá sinais de desespero perante a forte contestação que se aproxima.
Por um lado, temos a ministra a adotar uma retórica demagoga, manipulativa, afirmando que “estamos todos um bocadinho cansados de greves por razões políticas”, algo que o primeiro-ministro prontamente adotou e até a comunicação institucional do governo assimilou. Dizer “partidário” já seria um golpe populista, mas “político” é pura demagogia, é cavalgar na desafeição da democracia e ajuda à sua ruína. Qualquer greve é um instrumento político, da mesma forma que reformas laborais o são. Aliás, a própria ministra reconheceu uma motivação política para a sua ação: “a lei que está em vigor é que tem algum desequilíbrio em favor dos trabalhadores”.
Por outro lado, e se não colar a retórica, o primeiro-ministro já veio atirar areia para os olhos: o objetivo da sua legislatura é aumentar o salário mínimo para 1100€, mas agora já fala em “1500 ou 1600 euros”. O que não falta neste governo são surpresas: uma reforma na ciência e o próprio pacote laboral na base desta greve que não faziam parte do programa eleitoral, por exemplo. Contudo, ao contrário da materialização desses desaires, o salário mínimo para 2026 só aumentará 50€, segundo o governo, para 920€. Não é esta outra estratégia de alguém desesperado?
Espanta-me que não tentem falar do custo da greve, das centenas de milhões que não serão produzidos se o país parar durante um dia. Não deixa de ser curioso imaginar que impacto teria uma greve de acionistas: o impacto da greve geral é a prova de que são os trabalhadores o centro da economia.
As greves são sempre mais que uma greve, são o reconhecimento de quem faz o país avançar. São a exigência de se valorizar quem trabalha, com condições de trabalho dignas e justas. Este pacote laboral estás nos seus antípodas: facilita despedimentos, incentivo a precariedade, ataca a parentalidade, retira rendimentos e mina o próprio direito à greve.
Esta quinta-feira o país tem de parar, sob pena de fecharmos os olhos e ser demasiado tarde. É certo que muita gente sente que tem estabilidade ou que está perto da reforma, mas que tenha empatia, nem que seja só pelos seus filhos, que viverão num país ainda pior para quem trabalha, onde um jovem nunca sabe se pode confiar no ordenado ao fim do mês para constituir família.
Este fim-de-semana foi marcado pela XIV Convenção Nacional do Bloco de Esquerda. Tive a oportunidade de participar nela como delegado eleito pelas ilhas do grupo oriental, experiência que me leva a dedicar aqui algumas palavras.
A Convenção foi marcada pelo exercício de autocrítica: não só a oposição interna, mas também vários delegados da moção maioritária teceram duras críticas à atuação do partido e o rumo a reconsiderar. E bem. Só através da crítica, ou seja, da análise rigorosa dos limites, é possível avançar. Permitam-me algumas considerações que me parecem pertinentes mesmo para quem não é aderente do Bloco – pertinentes para quem quer melhorar o mundo.
Desde logo, é preciso cristalizar o básico: para que serve um partido. No artigo do passado dia oito de julho abordei esta questão com um pouco mais de detalhe. A conclusão é simples: um partido é um meio para a participação democrática. Vivemos numa democracia representativa, o que significa que abdicamos de cada cidadão ser um decisor político sobre as matérias a legislar, cedendo essa responsabilidade a cidadãos que são eleitos para os órgãos aos quais reconhecemos essa autoridade legisladora. No nosso país, como em muitos outros, a Constituição prevê que essa representação deve ter como plataformas partidos políticos (à exceção das autárquicas - onde pode haver candidaturas independentes, porque partidos regionais são ilegais - e das presidenciais - sendo as candidaturas individuais, uma vez que é um cargo uninominal). Os partidos são, então, grupos de cidadãos que partilham um determinado conjunto de ideias. Será muito difícil alguém se rever totalmente na ideologia e no programa (a concretização da ideologia numa proposta de sociedade) de um partido. Essas pequenas cedências são compensadas pela união, pelo trabalho conjunto. Num partido não tem de haver necessariamente relações de amizade, mas fraternidade.
Existem, então, dois erros que me parecem comuns e costumam passar negligenciados: a espera e a imposição.
Por um lado, é fácil apontar o dedo a dirigentes, com ou sem razão para isso; o mais difícil e urgente é ser proativo. Perante o desgaste de quem é responsável, a cura está no entusiasmo de mais gente. Não nos podemos esquecer que a democracia só o é se houver processo democrático e este faz-se com a abertura e justiça para a participação, mas também, claro!, com a participação.
Por outro lado, na tentativa do alargamento da militância cai-se ora no marketing, ora no Cavalo de Troia. Ora se tenta vender o partido, ora se cria uma plataforma partidária sem o assumir. Estas visões têm o partido como fim e não como meio, estando muito próximas do clubismo. Devemos estar no máximo de espaços políticos não-partidários não para promover a marca, mas porque reconhecemos nesses espaços a possibilidade de melhorarmos a comunidade. Não escondemos a militância partidária, simplesmente não é ela um fim: o fim é a transformação do real. Face ao que defendemos e ao que é conquistado, quem se rever no dito e feito perceberá intuitivamente que partido traduz esse querer. É assim que damos conteúdo à política: os partidos são plataformas programáticas.
É certo que estes dois parágrafos podem ser acusados de serem otimistas quanto à predisposição política das pessoas. A verdade é que a cada dia a Verdade de Sileno parece mais próxima, contemplamos o fim. O emaranhado de crises em que vivemos deve ser o que nos compele a construir um mundo melhor. Se não por nós, pelos nossos filhos.
Hoje apresento na faculdade onde estudo um poster sobre um problema que me atormenta e que julgo já aqui ter partilhado: o aumento exponencial da informação. Aquilo que mais me apoquenta é que esta formulação não me parece precisa: é preciso reformulá-la.
A sociedade contemporânea vive imersa num ambiente marcado pela multiplicação incessante de dados, mensagens e estímulos. A informação não é apenas algo que recebemos passivamente; é uma construção. Ela poderá ser definida de imensas formas desde incerteza removida, fragmentos de conhecimento, dados organizados ou símbolos comunicados, entre outras definições. Até pode ser encarada como algum padrão de organização da matéria e da energia ao qual um ser vivo atribui significado. O indivíduo não absorve informação como um recipiente vazio: integra-a num quadro interpretativo, atribuindo-lhe sentido segundo as suas necessidades e enquadramentos simbólicos. Assim, qualquer aumento de fluxos implica, necessariamente, transformar os próprios modos de leitura e de uso.
No quotidiano, as fontes de informação multiplicam-se: meios de comunicação, redes sociais, mensagens digitais, espaços culturais, instituições, escolas, serviços públicos. Cada uma produz modos específicos de relação com a informação, efemeridade, desafeição, assoberbamento, desinformação, ansiedade, vício, futilidade, desconcentração, otimização, exclusão, ignorância informada e desorientação. Que se note como muitos destes aspetos são muitas vezes apontados como aquilo que temos de melhorar e, portanto, como se relacionam com informação. Esta diversidade de origens e impactos torna essencial repensar não apenas o conteúdo que circula, mas o sistema relacional que o sustenta.
Algumas perguntas cruciais ocorrem-me: Como alargar? Como demorar? Como nos abrimos? Como digeríamos? Como encontrar? Como desbloquear? Como averiguar? Como prevenir? Como evitar? Como gerir? Como desligar? Como avaliar? Como aprofundar? Como substanciar? Como pensar? Como persistir? Como organizar? Como abrandar? Como incluir? Como clarificar? Como ensinar? O que ensinar? Como pesquisar? Como selecionar?
Neste momento torna-se me claro: a questão subjacente é uma e só uma: como garantir o acesso democrático à informação?
Democrático não apenas no sentido de disponibilizar conteúdos, mas de assegurar condições equitativas para compreender, contextualizar e usar esses conteúdos de forma consciente. Significa fomentar literacias múltiplas, incentivar a reflexão, promover transparência e criar ambientes que favoreçam a autonomia intelectual.
A sociedade da informação não é apenas um fenómeno tecnológico, é um desafio cultural, político e ético. Exige que reconheçamos a complexidade dos sistemas informacionais e a importância de formar cidadãos capazes de navegar, interpretar e participar ativamente na construção do conhecimento comum. A educação é, como seria de esperar, uma área crucial para enfrentar todas estas questões; não numa ótica de preparação para o mercado ou como alguém que padronizadamente usa ferramentas, mas como forma de emancipação.
Este é um tempo estranho. O conceito-chave aqui é algo que, tendo uma concretização material, tem uma natureza prática virtual. Regulamos a nossa sociedade por nuvens. Não posso deixar de notar como esta evasão do mundo se afasta de um propósito de estruturação e vai de encontro ao que se descreveu no artigo da semana passada.
Lembro-me bem de estar no carro, há talvez 8 anos, a passar por Malbusca, mais conhecida hoje por ser o local de onde se esperam colocar microssatélites em órbita, e ouvir no rádio, através da Rádio ASAS do Atlântico, “Losing My Religion” dos R.E.M. Quando cheguei a casa, fui pesquisar qual era aquela música. Rapidamente cheguei a “Everybody Hurts” da mesma banda.
Uma voz melancólica destaque-se por cima de acordes maiores, supostamente alegres, cantando versos como:
«Quando o teu dia é longo / E a noite, a noite é só tua / Quando tiveres a certeza de que já tiveste o suficiente / Desta vida, bem, aguenta-te / Não te deixes ir / Porque toda a gente chora / Toda a gente sofre às vezes / Às vezes tudo está errado / Agora é hora de cantar juntos / Quando o teu dia é só noite (aguenta-te, aguenta-te) / […] / Encontra conforto nos teus amigos / […] / Não desistas / Não, não, não, tu não estás sozinho».
De facto, não se pode dizer que seja raro o momento em que contactamos com o sofrimento. Podemos estar a falar de uma discussão de casal, de um resfriamento na amizade, uma noite mal dormida, uma avaliação menos boa, um autocarro perdido, palavras que não nos chegam, trabalho para dar e vender, réguas sobre as vidas dos outros, as luzes azuis que inebriam, os compromissos que se acumulam, e até podemos falar do dinheiro que não estica, do estômago que não gera quimo, do corpo cuja única água que sente é a da chuva.
No “Mundo como Vontade e Representação”, Schopenhauer afirma «Entre os desejos e as suas realizações decorre toda a vida humana. O desejo, pela sua natureza, é sofrimento; a satisfação engendra bem depressa a saciedade. O alvo era ilusório, a posse rouba-lhe o seu atrativo; o desejo renasce sob uma forma nova, e com ele a necessidade; senão é o fastio, o vazio, o aborrecimento, inimigos mais violentos ainda do que a necessidade».
Mesmo que nos saciemos, rapidamente geramos uma nova necessidade por cumprir e, portanto, sofrimento, argumenta Schopenhauer. Esta perspetiva, apesar de pessimista, aponta a algo crucial: excetuando-se quem não tem as suas necessidades fisiológicas básicas cumpridas, percebemos a cada momento que uma infinidade de outras necessidades foram satisfeitas. Trata-se uma lógica algo epicurista: face ao medo de sofrer, sabemos que qualquer período de sofrimento tem um fim; e face ao medo de não alcançarmos um bem, sabemos que não é preciso muito para o fazer, basta satisfazer o básico, como um bom prato e amigos. Na esmagadora maioria dos casos de quem está a ler este texto, podemos mesmo falar em privilégio: nas condições sociais e económicas que nos colocam numa posição em que damos muito conforto por adquirido, conforto a que a maioria da população atual e histórica não tem, apesar de estarmos longe da loucura de quem quase tudo tem, dos titãs.
Estas mensagens de simplicidade para ultrapassar o sofrimento não bastam. Servem para sermos capazes de dar um passo atrás e ter uma visão geral. Nesse momento, devemos perceber que nenhum determinismo por redes causais, nem um fatalismo religioso implicam o conformismo. Não sabemos os efeitos, nem o que está na mente de Deus; sem régua, seguimos pelo nosso pé.
Sofrer é suportar, é dar sentido à dor. Precisamos de tempo, de fraternidade, compreensão e abertura. Precisamos de uma comunidade que erradique a dor sem sentido, a da injustiça, e que permita sarar as outras. Essa é a nossa utopia concretizável, o nosso horizonte de esperança.
Variações canta «Muda de vida se tu não vives satisfeito / Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar».
Juntos.
Uma das bandeiras que o Bloco tem agitado, tanto nos Açores como a nível nacional, é a do subsídio de alimentação: todos os trabalhadores, incluindo do setor privado devem ter direito ao subsídio de alimentação; esse subsídio deve ser, no mínimo, aquele estabelecido para a função. Sim, 1.7 milhões de trabalhadores recebem o subsídio de refeição; sim, vários recebem, por exemplo, 2,40€. Como é que algo que nos parece tão básico é negado? Perguntemo-nos primeiro, porque é que é básico?
Quando falamos de ser básico, trata-se de ir ao fundamento, à estrutura. Para o fazer, julgo ser necessário abordar o trabalho. Para que serve o trabalho?
O trabalho é tido como uma ocupação em troco de dinheiro, alguém cede do seu tempo e esforço para ter um bem universalmente trocável. Isto, contudo, faz-nos encarar o trabalho como uma troca, algo sem fundamento, como sendo uma mera função que habita esta realidade. Para algo tão fundamental na nossa sociedade, algo que ocupa um terço do nosso dia, metade do tempo que passamos acordados durante quarenta anos, isso parece pouco. Porque é. O trabalho, na verdade, deve ser visto como a nossa contribuição para a nossa comunidade: dedicamos parte da nossa vida a criar algo, na expectativa de que a somas dos algos que todos produzimos resulte numa comunidade com algos suficientes para uma boa vida.
É essa a dignidade do trabalho, a autonomia que nos dá. Autonomia é nós participarmos na lei que nos rege, é tomarmos a nossa vida nas nossas mãos. Participamos num esforço comunitário que nos permite condições de vida que sozinhos não conseguiríamos – essa é a boa vida. O trabalho é, portanto, crucial, mas não deve ser um fardo que se estende sem significado, o tempo além-trabalho, aquele em que nos cultivamos, é o mais importante.
Bem sei que isto deve soar a utópico, afinal, um em cada dez trabalhadores, sim, trabalhadores, está em situação de pobreza nosso país. Como é que é possível que um trabalhador não tenha as condições mínimas de vida?! O limiar da pobreza é de 7,59€ e o preço de um cabaz essencial no final de outubro estava em torno dos 243,68€, dois valores que nos devem fazer refletir. 6€ euros no mínimo de subsídio de refeição são assim tão descabidos? Deviam ser mais, 12€ poderiam muito bem acabar com parte dos problemas de muita gente.
O mínimo para quem trabalha é ver as suas condições mínimas de vida automaticamente garantidas. Alimentação é o mínimo. Habitação também o devia ser. Água, luz, saneamento idem. Ninguém devia passar frio ou ficar sem tomar um medicamento, porque o salário não chega.
Como é possível que isto não seja o senso comum? Como é que se considera normal que haja quem trabalhe quase desde quando o sol nasce até quando se põe e ainda seja passe dificuldades? Como é que é possível não se perceber a perversidade em que estamos mergulhados? Ainda estes dias li no Linkedin, rede social para uma comunicação eminentemente empresarial, duas publicações absurdas: uma pessoa que tentava vender os seus serviços de aconselhamento a despedimentos e fazendo-o através de um exemplo de um dilema; e uma outra pessoa que escreveu como mais vale ter piores condições de trabalho e um bom chefe do que um mau chefe e melhores condições. Claramente descarrilámos.
E negamos que descarrilámos, porque nos custa reconhecer que somos vulneráveis. Preferimos espezinhar quem está pior do que nós do que encarar quem é responsável por esta realidade injusta, não só para nos sentirmos superiores, mas porque estamos tão embriagados pela narrativa dominante que nos achamos um dos donos disto tudo, ou melhor, achamos que podíamos ser um deles. Um oftalmologista e um espelho recomendam-se.
A guerra é hoje quase omnipresente no nosso quotidiano, é raríssimo o dia que passamos sem qualquer menção a guerras, conflitos armados ou genocídios. A violência em larga escala através de estados ou grupos organizados normalizou-se. As nossas reações hoje são na sua maioria de indiferença ou mesmo de cinismo. Parece que há uma Terceira Grande Guerra às nossas portas e é tida como inevitável.
Há quem diga que já começou, que já vivemos num mundo movido a ódio e sangue, em que o nosso medo é justificado – um medo que vai da utilização da bomba atómica à arma branca no bairro. Pergunto-me a quem estas perceções podem dar jeito, sabendo desde já que são uma forma de normalização, de nos conformamos.
Há quem diga que a guerra é outra: os seus moldes são cibernéticos. Não são os drones o único meio bélico não-tripulado. A perturbação das redes informáticas pode afetar as nossas redes de distribuição de energia, a logística hospitalar, os centros de conhecimentos, a privacidade dos nossos dados,… Num mundo digitalizado, a guerra informática é uma possibilidade, cujas repercussões já vamos sentido no quotidiano se estivermos um pouco atentos – ou se pesquisarmos notícias.
Mas o que são ciberataques? No Glossário de Termos Militares do Instituto Universitário Militar não se define ciberataque, mas ciberespaço e ciberdefesa como «domínio global dentro do ambiente informacional que consiste na interdependência de redes e infraestruturas de tecnologia de informação, tais como a internet, redes de computadores, entre outros» e «implementação operacional da garantia de informação para assegurar a confidencialidade, integridade e disponibilidade dos meios de comunicação e sistemas de informação, em resposta a potenciais ameaças com origem no ciberespaço», respetivamente. A terminologia da NATO define um ciberataque como «um ato ou ação iniciado no ciberespaço ou através dele com o objetivo de causar efeitos prejudiciais» - numa tradução livre.
O meu ponto-provocação hoje é simples: não será o mundo da pós-verdade o maior dos ciberataques? A epidemia das fake news nas redes sociais não constituem um ataque à nossa democracia através de redes de informação informática? Não é ao cenário catastrófico do inverno nuclear que se assemelha o início da nossa autodestruição, até a ficção científica tem a necessidade de explicar as causas desses cenários, o seu início está sim no conquistar de uma hegemonia cultural que permita a sua execução. Ou seja, é preciso moldar a opinião pública para aceitar o inaceitável, para se conformar, mesmo perante aquilo que vê como negativo.
Pergunto-me se as redes sociais digitais associadas a grandes empresas como a Meta (Facebook e Instagram), X ou ByteDance (TikTok), como um todo, não podem ser vistas como um ciberataque: um vírus que nos afasta de uma internet democrática e nos submete a algoritmos que nos tratam como mercadoria, como um produto, ao mesmo tempo que promovem a nossa perda de pensamento crítica, radical, que reduzem o nosso intervalo de atenção, que nos colocam em bolhas, em câmaras de eco,…
É quando contemplamos o fim do mundo que a esperança é mais necessária. O fim do mundo tal como o conhecemos é a prova de que ele pode ser mudado, a esperança deve levar-nos a resistir para que em vez do apocalipse, tenhamos a utopia, em vez das crises que vivemos desembocarem em regimes opressores e violentos, devemos pensar radicalmente e construir as nossas comunidades assentes na liberdade, justiça e fraternidade.
Um relógio que se orienta pelo fuso da Europa Central deveria ter marcado algo em torno das 20:45. Estava sentado no chão, com as minhas costas a encontrarem uma coluna que se destacava da parede e a tentar combater a dormência que se apoderava das minhas pernas. Fechei os olhos para me abstrair de qualquer ruído visual e poder apreciar a música que «Mahler Chamber Orchestra» proporcionava. Afinal, não é todos os dias que podemos estar na famosa sala vienense, onde acontece o concerto de ano novo que a RTP1 televisiona, a ouvir composições tão belas que o nosso quotidiano raramente nos propicia.
Estava, portanto, na famosa Großer Musikvereinssaal da Musikverein. Um local extraordinário que nos transporta para o século XIX. É a fachada neoclássica estrategicamente iluminada, é o átrio sofisticado, é a escada, cada degrau, uma expectativa, é o espaço de intervalo corrido a mesas altas e brancas com bebidas brancas, é a grande sala banhada a ouro, suportada por 32 estátuas no meio de muitos outros ornamentos que negam uma superfície lisa. É a Viena imperial. É um outro mundo.
Mas no século XXI que mundo é esse? Que rutura é esta? Parece-me haver aqui várias respostas. Por um lado, é a quebra do quotidiano: um espaço radicalmente diferente para uma atividade atípica, do ponto de vista da esmagadora maioria das pessoas. A música clássica é perspetivada de um outro modo daquela da pop, por exemplo. Ouvi-la ao vivo é ainda menos habitual. Por outro lado, temos uma dimensão social muito evidente: várias das outras pessoas ali presentes pagaram mais de 200€. Não será difícil de imaginar o desconforto deste choque, o abalo da questão da nossa pertinência naquele lugar – qual a relação entre poder económico e música? Mas há um outro lado, na verdade uma hipotenusa.
Os nossos bilhetes eram os mais baratos, 12€, numa secção em que se assiste em pé. Assim o fizemos durante a primeira parte do concerto, contudo, na segunda já não aguentava e, encontrando-se metade daquele espaço vazio, resolvi, como várias outras pessoas, desfrutar sentado daquele espetáculo. Foi em algum momento depois dessa decisão que tive uma imagem extraordinária: por entre a floresta de pernas que florescia a 1.5m de mim conseguida, por entre os bancos que se lhe seguiam, ver no palco o violoncelista. O mais evidente nesta abertura eram umas barras de metal que separam o espaço daqueles em pé, da zona em que começam as cadeiras. Uma barra que de altura não terá mais de 1m, ainda assim, para quem estava na minha visão, era uma grade.
Estava eu então atrás das grades a ouvir a música, ao lado de outros turistas curiosos e vienenses musicofílicos com a preferência de poupar algum dinheiro. Vem-me à memória outra cena desta afortunada viagem: quando estávamos sentados no Café Central a comer um Sachertorte e um Apfelstrudel. Outra joia do final do século XIX, onde foram clientes habituais pessoas como Zweig, Freud e Trotsky, e mesmo Hitler e Stalin. Entre o rebuliço das vozes que se combinam e as fífias das fotografias que se multiplicam numa porta sem descanso, perguntava-me se naquele café alguém pedia «o habitual». Os trabalhadores ofegantes na minha cabeça eram lidos como as pessoas que Anna Pacheco tão vivamente aborda em «Estive aqui e lembrei-me de nós».
Um café que deixou de ser café para ser uma atração. Uma sala de concertos que tolera a plebe. Vivemos num mundo que normaliza nos satisfazermos com umas férias a correr, cujas memórias são fotografias que empenhamos com orgulho numa vida virtual, mesmo que isso esvazie o sentido dos espaços que para outros são os do seu quotidiano. Soa familiar?
No final do dia, o mais bonito de tudo é mesmo o pôr-do-sol.
Há uma semana e um par de dias tivemos as eleições autárquicas. Na semana passada, atrasado, abordei a flotilha, esta semana, atrasado, falo sobre as autárquicas. Bem sei que este foco na questão do atraso pode soar repetitivo, mas é importante: num mundo em que o espaço público discute fervorosamente um assunto e existe pelo menos menos um assunto novo a cada dia, acabamos por refletir superficialmente e abruptamente. Se um assunto não tem seguimento, não é possível pensar melhor, ter mais informação, mais modos de a relacionar. Refletir depois de um tema passar da ordem do dia é resistir perante a indiferença, o cinismo, e mesmo a hipocrisia que o é por inércia.
Já aqui o mencionei e torno a mencionar: é extremamente difícil na maioria das semanas escolher um tema, por haver tantas pontas por onde se pagar. Com tanta dispersão, não chegamos a tudo. Pior, começamos pelos fenómenos mais bizarros e polémicos, ótimos para servir de isco e distrair-nos sobre aquilo que muda estruturalmente as nossas vidas (mesmo sendo essas mudanças cada vez mais evidentes). Para rematar esta nota inicial, talvez seja importante tranquilizar dizendo que não é obrigatório termos uma posição sobre tudo. Isso exigiria haver tempo para estudar algo e tempo para refletir sobre esse algo. O espírito crítico tem como corolário a honestidade intelectual. Temos de ser capazes de perceber os nossos limites. Para comentários sem pertinência estão as redes sociais cheias. Servem para quê? Fazer alguém sentir-se superior? Sentir que se fez algo apesar da ação ser inconsequente? Neste sentido, parece até que as redes sociais substituíram os portais de queixa, o primeiro instinto não é falar com quem de direito, é ir para as redes sociais - o que desresponsabiliza as instituições que existem para dar seguimento a esses casos.
Passemos às autárquicas. Mais uma vez, discorrerei na perspetiva de ser candidato, uma perspetiva que é preciso atender para se poder pensar, de facto, a democracia representativa.
A noite eleitoral é a pior parte. Sabemos que fizemos o melhor que podíamos nas condições que tínhamos, que podia ter sido feito mais e melhor, mas que a nossa consciência está tranquila. Sabemos também, contudo, que esse trabalho não é o único fator. Candidaturas sem campanha têm ótimos resultados e outras vêm o seu esforço sem resultado. Não se trata de valorizar o esforço ou de injustiça, isso não cabe no vocabulário eleitoral de uma democracia representativa, trata-se da frustração de ver que são fatores externos às candidaturas, às suas propostas e candidatos, que influenciam o voto. A noite eleitoral é quando percebemos se temos sorte. O tipo de sorte que é cheio de coincidências, quem diria.
Talvez no processo de campanha para as eleições locais a fonte de maior exasperação seja a contradição a que constantemente os eleitores se submetem: por um lado votam-se em pessoas e não em partidos, por outro, há pessoas em partidos errados, por serem considerados mais pequenos. Estamos em piloto automático até nos processos democráticos, que nem nos apercebemos dissonâncias cognitivas em nós.
Por fim, a machadada final. Quando fui votar, ouvi de um homem atrás de mim: se houver muita fila, vou-me embora, estar aqui é um favor que faço. Quando o valor que damos ao voto é um par de dança, então o valor da democracia é inexistente, uma fachada. Este é um terreno fértil para os discursos daqueles que nos querem de cabeça curva. Há muitos que concordam com isso, principalmente aqueles que passam a vida a ostracizar os mais vulneráveis das nossas comunidades e, por isso, já têm a própria cabeça curvada sem o saberem.
Bem sei que é um assunto que passou de moda, como tudo, ao fim de dois dias, já é História. Como durante a campanha não pude usar esta via, faço-o agora para comentar (os comentários) sobre a Global Sumud Flotilla.
São muitas as críticas que foram avançadas de forma a atacar a flotilha. Gostava de olhar com um pouco de atenção sobre cada uma delas, para tentar perceber, de facto, do que se trata. Que se note que a crítica é sempre bem-vinda, no sentido de um exercício para perceber os limites de algo, tendo em vista a sua melhoria. Para ser útil, é preciso que a crítica seja estruturada, informada e honesta intelectualmente. Vamos a isso!
A maior objeção quanto à flotilha é ser um veículo de vaidades. As pessoas que seguem naqueles barcos não têm como propósito principal chegar a Gaza e levar ajuda, só querem chamar a atenção. Estão lá para ter ganhos pessoais e políticos. Primeiro, tenhamos em conta a forma como a própria flotilha se apresenta: «é uma coligação internacional de organizações da sociedade civil, movimentos populares e indivíduos empenhados em acabar com o cerco ilegal de Israel a Gaza através de mobilizações não-violentas» [tradução minha]. Julgo que esta crítica não coloca em causa a missão em si, por isso temos aqui duas questões: uma de âmbito filosófico e outra de âmbito histórico, sobre as pessoas específicas desta missão. Por um lado, perguntamo-nos: um ato altruísta perde o seu valor por ser reconhecido? É disso que aqui falamos, de pessoas que arriscam a sua integridade física por uma causa nobre e estão a ser faladas por isso. Pergunto-me: em Portugal são muitas as entidades locais e nacionais, IPSSs e associações, de índole cristão que trabalham junto das populações para ajudar em situações de vulnerabilidade social, o facto de sabermos quem as integra leva-nos a questionar o seu altruísmo? Bem sei que aqui podemos dizer que a atenção é muito maior. O perigo é maior. E, mais importante, as pessoas envolvidas são figuras públicas. A comunicação social adora histórias com figuras públicas. A flotilha sabe-o, por isso é que foi assim organizada. Muitas foram as flotilhas com anónimos que partiram desde 2008, mas que só agora sabemos, porque a comunicação social ignorou. Para aumentar a possibilidade de chegar a Gaza era preciso os holofotes mundiais. Neste ponto, colocamos a questão particular: como lidaram estas pessoas com esse foco? Só vieram a público falar da sua vida a bordo para desconstruir desinformação. Nenhum dos participantes fez da sua participação o foco. E pensamos, o que ganham estas pessoas? Segundo penso, a recompensa individual destas pessoas é o orgulho dos seus descendentes pela sua coragem.
E isso é do ponto de vista de quem fica no sofá. Quem toma uma abordagem cínica de afirmar que se sabia que nunca chegariam a Gaza ignora dois aspetos. O primeiro: esta é a maior flotilha humanitária da História, quase 50 embarcações com quase 500 pessoas. O segundo: normalizam o problema que justifica a viagem: a repressão ilegal de Israel através do seu bloqueio em Gaza, inclusive a ajuda humanitária. Até o nosso governo chamou estes ativistas de irresponsáveis, quando foram raptados em águas internacionais. Irresponsável é achar que um governo pode cometer um genocídio de forma impune.
Ainda há quem critique que a ajuda humanitária seria simbólica. Esta flotilha pretendia abrir um corredor humanitário, para que a ajuda de facto pudesse chegar a Gaza.
«Eu defendo os direitos humanos, mas» há limites nas palas que nos pomos.
Hipocrisia é uma palavra muitas vezes mal usada segundo alguns dicionários: ela parece servir como sinónimo de “incoerência”, um “hipócrita” como alguém que prega algo e faz o oposto. O famoso dicionário online Priberam apresenta a definição “Demonstração de bondade, de amabilidade, de ideias ou opiniões apreciáveis que não corresponde àquilo que alguém pensa ou sente de verdade” e a Infopédia da Porto Editora corrobora com “fingimento de qualidades, princípios, ideias ou sentimentos que não se possuem, falsidade”, mas já dando o tom para o uso corriqueiro da palavra. O termo grego que lhe está na base esclarece: “dissimulação”. Da incoerência à falsidade é um passo, ambas ressalvam uma dissonância. Eu não escrevo isto para explorar um “erro”, até porque a língua é dinâmica e as palavras ganham novos significados, mas porque a hipocrisia no seu sentido lexicográfico parece andar a pulular no espaço público.
No passado dia 10 de setembro um ativista político norte-americano de extrema-direita foi morto a tiro enquanto discursava numa universidade. Basta olhar para há uns dias para ver como este era um tema sensível – e ainda o é, mas o tempo já o esbateu numa sociedade que não consegue lembrar-se de algo dois dias depois.
Foi um tema sensível. Sensível por ser a morte de uma pessoa. Sensível pela sua violência. Sensível pelo seu significado. No meio de tanto ruído, parece que o silêncio é o único refúgio, mas é preciso pensar o que acontece e por isso só hoje menciono este assunto.
Um homicídio é um homicídio, é um retirar vida que deve sempre ser condenado. Isto não deve significar, contudo, um seguir em frente irrefletido. Homicídios têm causas que devem ser evitadas e não santificam as suas vítimas. Charlie Kirk não era um simples comentador, era um ativista que ajudou a criar um movimento supremacista, que incitou a crimes de ódio, que defendeu que as mortes de crianças em tiroteios nas escolas eram um preço a pagar pela liberdade no posse de armas,… Aquilo que espero é que quem está a “celebrar” não o faça pelo homicídio, mas pela morte destas ideias, tal como ela tomaria lugar se Kirk continuasse vivo e tivesse mudado de opinião. Infelizmente, as ideias não desaparecem com a morte do seu ideólogo, o assassinato político não deve ser opção.
Nas redes sociais multiplicaram-se as reações, condenando quem quer silenciar a liberdade de expressão e atacando quem não se comove com o homicídio. A primeira hipocrisia está no facto de muitas destas pessoas nem terem conhecimento prévio sobre Kirk, usam o seu assassinato como arremeço político. A segunda hipocrisia é falarem de Kirk mas não dos mais de 300 mortos só este ano nos EUA, vítimas de tiroteios, nem quando em junho a deputada estadual Melissa Hortman foi assassinada com o seu marido.
Só é sensível por ser mediático, por expor o resultado da agenda de ódio, porque dá jeito não falar. Criam-se falsas polarizações, quando se devia falar no extremar.
Pessoas que na nossa geografia tiraram do seu tempo para falar de Kirk, mas que ignoram as dezenas de milhares de mortes de inocentes na Palestina. O nosso governo finalmente reconhece o estado palestiniano e fá-lo como um frete, até se enganando na bandeira. E é um frete: reconhece, mas fica em silencia sobre o ataque a um navio português com tripulação portuguesa que segue para Gaza com ajuda humanitária.
Este é o último texto que escrevo antes das eleições. Resta uma mensagem: que deve ser o nosso bem-estar o centro da preocupação e não conceitos abstratos, que isso é possível se assim decidirmos e, portanto, que não fechemos os olhos a uma oportunidade para mudarmos o mundo começando pela nossa comunidade.
Nas autárquicas, numa sociedade da informação, pode ser complicado obter e refletir sobre as várias alternativas para um concelho, atendendo a todo o ruído. São três órgãos para os quais elegemos, multiplicam-se as candidaturas, recebemos informação de outras geografias também com essa multiplicidade e os espaços de disputa de ideias não abundam. Por Santa Maria temos a sorte de ter meios de comunicação locais que garantem a existência de espaços de confronto de ideias, ou, pelo menos, da sua divulgação. Como temos um ambiente associativo rico, tenho esperança que se juntem ao apelo democrático forças vivas que promovam debates setoriais e com a participação do público, permitindo que os eleitores façam a sua escolha com informação e em consciência.
No meio deste cenário, haver um espaço de comentário ou análise de política local, é ainda uma raridade maior. Em Santa Maria, a rádio do Clubes ASAS do Atlântico junta duas pessoas, ligadas historicamente aos dois maiores partidos, que de há uns anos para cá, fazem o comentário algumas vezes ao ano. No comentário que saiu na passada sexta, o primeiro de dois sobre estas eleições, presumo, os comentadores deixaram-me a pensar num ponto que me parece crucial.
Disseram que um programa eleitoral não pode ser uma lista de compras, que quem se propõe a fazer muito, acaba por não conseguir concretizar. São tantos os aspetos que me parecem errados aqui.
Desde logo, há um enorme processo de simplificação: estamos a falar de umas eleições para mandatos de quatro anos para Câmara Municipal, Assembleia Municipal e Assembleias de Freguesia (bem como as Juntas que se constituem com base nelas). Dois órgãos mais dois vezes o número de freguesias. Tudo isso com um horizonte de quatro anos. Dizer que meia dúzia de medidas bastam, é ignorar a necessidade de substanciar e clarificar uma visão, é passar um cheque em branco.
Até se poderia apelar a uma capacidade de síntese para facilitar a vida ao eleitor que pretende informar-se das várias alternativas. Essa comunicação é assegurada pelos meios de campanha, desde as redes sociais aos panfletos. O programa eleitoral é o substrato de toda essa comunicação. Julgo que não rara a vez, confundimos um panfleto com um programa – até porque muitas vezes não existe programa, só panfleto como base textual.
Talvez se possa dizer que numas eleições para um poder de proximidade a pessoa constitua uma importância superior ao fator ideológico, do próprio programa. Confiarmos em alguém é o bastante para lhe darmos o nosso voto. O problema é que as pessoas mais competentes podem sê-lo trilhando um caminho que não pretendemos.
Tudo isto parece-me ir de encontro ao que já antes falámos: querem-nos fazer crer no inevitável. Reduzir as possibilidades do que pode ser feito. Quando dizem que ter muitas propostas é insensato, negam a impossibilidade de ser apresentada uma alternativa ao habitual. Fazem crer que tudo tem de ser de uma certa forma à exceção de uma ou outra prioridade. Parece-me que uma prova desta postura é o facto de afirmarem (à semelhança das regionais de 2024) que é preciso esperar pelos programas serem apresentados – que ainda nenhum tinha sido – para se analisar melhor as eleições, apesar da base do nosso já estar disponível desde o dia 1 de setembro.
Bem sei que ler as várias listas de compras, se existirem, é exaustivo, um trabalho para quem está muito indeciso entre as candidaturas. O mínimo a que apelo é que se faça o esforço para ter o mínimo de informação sobre as propostas, para que cada um escolha a melhor visão para os seus concelhos.
É exasperante escrever estas palavras. Há uns anos a atualidade apontava naturalmente para temas a comentar semanalmente, hoje sinto-me assoberbado por a cada dia termos tanta coisa que devia ser destacada. A quantidade do que antes seria considerado um escândalo acontece numa velocidade vertiginosa, já faz parte do nosso quotidiano. O que antes seria entendido como necessitando de responsabilidade, hoje é só mais um facto. Isto vale para o nosso país, a nossa região e o nosso mundo.
É como se tivéssemos perdido a capacidade de nos indignarmos. Não porque as razões se esgotaram, mas porque se tornaram tantas e tão recorrentes que o cansaço se sobrepôs ao dever de reagir. A normalização do absurdo transformou-se no novo normal, e, com isso, cada um encontra desculpas para se alhear. As manchetes já não despertam consciências, mas reforçam trincheiras de opinião, enquanto o espaço público se confunde com arena de insultos e silêncios cúmplices. O mais inquietante é que esta anestesia coletiva não resulta apenas da velocidade dos acontecimentos, mas também de uma erosão da confiança - nas instituições, nos representantes, nos valores que antes pareciam firmes. O perigo é claro: quando a exceção vira regra e o desvio parece inevitável, deixamos de exigir melhor e conformamo-nos com o mínimo.
Essa resignação é talvez o maior triunfo de quem prefere o poder à responsabilidade. Um povo cansado, que aceita a mediocridade como inevitável, é facilmente governado. Não porque confie em quem o dirige, mas porque já não acredita que a mudança seja possível. Esta descrença, cultivada dia após dia, instala-se como erva daninha em cada conversa de café, em cada comentário resignado de “é sempre a mesma coisa”, até se tornar paisagem.
É aqui que reside a perversidade: quando se abdica da exigência, a democracia transforma-se em ritual sem substância. Vamos às urnas, mas sem convicção; discutimos política, mas sem esperança; indignamo-nos, mas apenas no espaço seguro das redes sociais, onde tudo se esgota em segundos. A velocidade do ciclo noticioso - e a nossa aceitação dele - converteu a cidadania numa coreografia repetitiva, em que fingimos participar enquanto, na prática, nos retiramos.
Contudo, a responsabilidade não é apenas dos que decidem em nosso nome. Também é nossa, na medida em que nos deixamos paralisar. É cómodo acreditar que os problemas são sempre “lá de cima” ou “lá de fora”, como se não tivéssemos papel a desempenhar. Mas a história mostra que as maiores mudanças nascem quando a sociedade deixa de aceitar a normalidade do inaceitável. O que falta não são motivos para agir - são vontades que rompam a inércia. A questão não é se o mundo está pior do que antes. É se nós, perante este mundo, decidimos ser espectadores passivos ou protagonistas imperfeitos. Porque a indiferença não é neutra: é sempre uma escolha, geralmente a mais cómoda para os que preferem que nada mude.
Participar politicamente não é apenas votar de quatro em quatro anos, nem repetir lugares-comuns em jantares de família. É assumir que cada gesto conta para moldar a comunidade. A política não é palco distante ocupado por “eles”; é reflexo das nossas escolhas e omissões. Se quisermos quebrar o ciclo da indiferença, teremos de reencontrar a coragem de exigir, propor e construir. Porque desistir não é opção: quando a cidadania se retrai, o espaço é ocupado por quem não hesita em transformar o poder em privilégio.
Tenho aqui falado sobre as forças que nos empurram para acreditar na inevitabilidade da nossa situação, que nos fazem conformar. Há duas semanas identifiquei o problema falando em despolitização, apelar-se no discurso político diretamente, ou no popular, a uma abordagem do problema que o foque sem contexto e oriente par a solução do «bom-senso» - aquela «equidistante», centrista, «moderada». Na semana passada radiquei duas forças movem essa agenda na educação e no tempo, no ataque à primeira e no estrangulamento do segundo. Muito falta dizer sobre este assunto tão complexo por denotar a nossa formatação por um sistema, parece-me pertinente prolongar o assunto percebendo outros sintomas e outras consequências.
Antes de mais, à semelhança da semana passada, parece-me importante esclarecer o tom conspiracionista: quando falo em sistema, refiro-me à nossa organização económica e social, que podemos enquadrar na visão neoliberal.
Um dos pontos que mais joga a favor desta sistema é a sua capacidade de criar feedbacks positivos, ou seja, de tornar os seus sintomas em causas de si próprios. Tomemos como exemplo dois assuntos, entre si relacionados, que têm um papel de destaque no nosso quotidiano.
A desinformação está hoje perigosamente normalizada. Uma ida às redes sociais revela-nos carradas de publicações sem qualquer preocupação com o rigor informativo. As fake news são republicadas vezes sem conta, sendo o seu alcance muito maior do que qualquer desmentido que venha a ser feito. Parece que qualquer coisa vale. A verdade está resumida a um título e, talvez, um lead, devidamente recheado de adjetivos. Não sabemos para onde nos virar para saber o que está certo, acabamos por cair num relativismo: cada um que fique com as suas verdades. É assustador como somos capazes de ter consciência disto sem o criticar: há uns dias falava com uma pessoa que me disse «disseram-me que era assim, eu acho que é assim, até posso estar mal, mas para mim não importa, é assim». Este relativismo, por um lado, desorienta-nos sobre a verdade, e por outro predispõe-nos a aceitar um caminho, a troco de não termos de lidar com a sua procura. O relativismo empurra-nos para o autoritarismo.
Não pensamos e não queremos pensar. A isto está adjacente um fenómeno de anti-intelectualismo. Há uma aversão ao próprio pensamento. O exercício teórico é visto de lado, como sendo algo fútil e inútil. O importante é arregaçar as mangas, partir para a ação, produzir algo, algo útil. Há uma exceção: pensar só se for para otimizar. Negligencia-se o facto da técnica nascer do conhecimento. A complexidade desta temática deve ser imensa. Não é só o sistema dizer-nos para não pensar condicionando a investigação ou privilegiando consumos culturais menos densos, é o seu reflexo nas mentalidades. Não rara a vez, são as pessoas mais vulneráveis que adotam uma postura jocosa perante o que identificam como intelectual: é o cenário perfeito: quem mais tem a ganhar em pensar, é levado a rejeitar esse passo.
Rejeitamos as «conversas profundas», caricaturando-as como quase uma viagem psicadélica. As conversas quotidianas vão saltando de temas em temas com frases feitas. É preciso recuar e pensar. Pensar além do 2D do problema. Ter uma visão integrada. Dá trabalho: é preciso procurar informação, perceber os contextos, e relacionar tudo coerentemente; mas é o caminho da emancipação.
Temos de ser capazes de deixar de aceitar passivamente o que acontece e perguntar-nos: porquê?
Na semana passada discorreu-se neste espaço sobre como nos levam a aceitar que só existe um caminho possível e que ele consiste no que deve ser considerado a opção moderada. Permitam-me recuperar as ideias principais sucintamente.
São vários os exemplos no discurso político que incentivam a que se desvalorize a ideologia, desde slogans, a expressões populares, tendo muitos agentes políticos apoiado essa posição. As eleições autárquicas como um todo são um bom exemplo, uma vez que a perceção geral é que são umas eleições sobre problemas muito específicos sem enquadramentos ideológicos – nem falando da sua redução a concursos de popularidade. Trata-se de uma falácia: o mesmo problema pode ser resolvido de formas diferentes. Perante esta objeção que me parece intuitiva, o sistema precave-se fazendo-nos crer que só algumas soluções fazem sentido – quer seja por serem consideradas como «senso-comum» ou exequíveis. Se olharmos para quem governou o país nas últimas décadas percebemos as estreitas balizas por onde andámos. Cria-se a ideia de um «centro», algo que não é de um lado, nem de outro, e semeia-se nele a «virtude».
Antes de seguir, permitam-me um esclarecimento: quando falo em sistema, refiro-me à visão neoliberal (advoga a desregulação económica). Por vezes evita-se a utilização desses palavrões, mas parece-me que isso é tornar o assunto obscuro, um adversário sem rosto, e estupidificar o leitor – bem sei que pode ser uma forma de não afugentar quem lê, mas acho que somos todos crescidos para não nos atirarmos para o chão a chorar quando lemos algo com o qual não concordamos (pelo menos incialmente).
Explorámos a retórica que utilizam, mas hoje damos uns passos atrás e vejamos que mecanismos do nosso dia-a-dia nos fazem crer neste fatalismo. Um fatalismo que convence um funcionário a receber o salário mínimo que não vale a pena reivindicar mais, por não ser possível.
A forma mais óbvia de o fazer é cortando o mal pela raiz: uma educação limitada, que não coloque o indivíduo em contacto com a pluralidade. O desincentivo à leitura é um ótimo exemplo, a leitura estimula a imaginação e coloca-nos em contacto com outros modos de pensar. É absolutamente distópico como hoje é possível um governo sentir-se legitimado a extinguir o Plano Nacional de Leitura e a Rede de Bibliotecas Escolares sem qualquer explicação. Estes mecanismos de formatação estão cada vez mais evidentes e são assumidos em alto e bom som.
O outro mecanismo é aquele que permeia o nosso quotidiano: esgotar-nos. Mesmo quem tem algum tempo depois do trabalho e de cuidar da família, sente que não tem tempo, justamente por não ter qualquer energia. Isso significa que não há energia para olharmos criticamente esta realidade. Vencem-nos pelo cansaço. Funciona tão bem que nos sentimos mal de nãos «sermos produtivos», ou seja, ainda queremos sobrecarregar-nos mais. Somos cúmplices da nossa desgraça por sermos uma engrenagem no ciclo. Crescemos formatados para a competição num habitat que chamamos de mercado de trabalho, o nosso objetivo é nadar em dinheiro, desconfiamos do outro, não lhe esticamos a mão, não percebemos que é uma isca, que nos prometem um céu ao qual estamos vedados.
É difícil enfrentar essa realidade, trata-se de tomar um balde de água fria e perceber que os adversários são os donos isto tudo. Prece que estamos contra a corrente, a certo ponto, sentimo-nos sozinhos. Mas não estamos: existe muita gente que sabe que outro mundo é possível. Temos de reivindicar os espaços e criar a comunidade que queremos nas nossas mãos.
Dou por mim a ver notícias para perceber se o mundo acabou. Parece-me evidente que este é um sintoma de algo que não está bem. Julgo que o mais importante, e o que torna esta vivência mais frustrante, é afirmar que este não é o único mundo possível. Nós vivemos no meio de convenções que são definidas por humanos. Muitas vezes querem-nos fazer crer que há um só modo de fazer as coisas, e, nessa senda, concluem que se deve afastar a ideologia da política, ser «pragmático», o que, na prática, é despolitizar a política.
Permitam-me um exemplo pessoal que me marcou por ser tão óbvio: nas regionais de 2024, na rádio, tive uma pequena discussão com o candidato da IL sobre se o transporte marítimo devia ser público ou privado; um comentador dessa estação, posteriormente no seu espaço, fez notar que essa reflexão não tem utilidade: toda a gente sabe que a resposta é «mista», onde o público apoia o privado. Esta objeção evidencia os dois pecados desta narrativa: ela quer afastar a ideologia, mas a resposta que dá é ela própria ideológica e, mais ainda, tenta camuflar essa flagrante contradição com a aparência de «moderação», de «centrismo», um bom-senso construído retoricamente – pensemos: numa parceria público-privada o Estado continua a ter despesa, só que abdica de controlar esse serviço, pelo que esta não é uma posição intermédia. Nós temos imensas armadilhas destas.
No espaço público damos conta dos maiores absurdos que se fazem passar por bom-senso: sempre que há uma manifestação e a ela se associa uma contramanifestação de neonazis, independentemente do tema, existe gente iluminada que afirma que é preciso chegar a um compromisso. Muitas vezes aquilo que está em oposição é um direito humano e a sua própria violação. Como é possível falar-se em compromisso quando o outro interlocutor tem como único programa a legitimação da sua violência, do seu ódio? O discurso sobre o genocídio em Gaza também aqui é representativo: há muita gente que sobre a fome que o governo israelita está a infligir na população de Gaza, defende que Israel deve ser compensado se levantar o cerco. De forma a tentar tornar mais óbvia esta posição «centrista», é comum falar-se em antissemitismo e no ato terrorista do Hamas a 7 de outubro de 2023, ignorando toda a História precedente. Nem é preciso inventar, basta descontextualizar, basta jogar com a ignorância. Confundir antissemitismo com antisionismo é o pão nosso de cada dia neste âmbito, mudando o foco das mortes de inocentes.
Estamos na altura em que as candidaturas às autárquicas já estão definidas e tentarão começar a ganhar espaço. Estas eleições são, por excelência, o campo da despolitização: diz-se que as pessoas contam mais do que partidos, que as propostas são concretas. Não há ideologias quando se fala de poder local. Quero ver quem diz isso depois de se privatizar a água; das estradas não serem arranjadas, porque se baixaram impostos aos lucros das empresas; de se deixar cair património histórico, porque não rende; de não se fazer manutenção às escolas para melhorar o marketing turístico;… Se há um plano, há prioridades, escolhas coerentes e, quer queiramos quer não, isso é ideologia. Talvez na maior parte das vezes não haja planos e seja isso que oculta a ideologia.
Da nossa parte é preciso espírito crítico. «Isto tem de ser assim, porque é assim»; nenhuma criança fica satisfeita com uma resposta destas, porque é que nós ficamos? É claro que implica esforço, mas enquanto andarmos como autômatos a encontrar sucessivamente o elo mais fraco da sociedade para responsabilizar por todos os males e marginalizar, os problemas continuarão os mesmo.
A. É impressionante como ninguém quer trabalhar hoje em dia. Até vêm de fora. Ainda outro dia vieram cá parar mais de 30 por barco. Estes imigrantes ilegais vêm para aqui sugar dinheiro ao Estado!
B. Se são ilegais, o Estado não então por ele identificados, como é possível receberem apoio?! Mas não vamos por aí, pensemos antes: mais de uma dezena dessas pessoas foi hospitalizada. Estas pessoas passaram dias num pequeno barco sujeitas a condições adversas, tendo como esperança chegarem vivas a terra. Será que essa escolha foi feita levianamente? Não será a evidência do desespero? Somos tão ingénuos ao ponto de nos esquecermos que há mais de 50 anos também pessoas fugiam do nosso país, entrando ilegalmente noutros para conseguirem ter uma vida? Em 2015 a fotografia de uma criança síria morta numa praia turca correu o mundo causando horror, mas agora, passada uma década, parece que foi só mais um momento que nos fez normalizar as tragédias humanitárias, as violações à dignidade humana, tornando-nos cada vez mais indiferentes ao sofrimento do outro.
A. Mas há muitos que vêm para aqui, mesmo legais, e não fazem nada. Ou melhor fazem: ser violentos e roubar. Ah, e ainda se metem às dezenas num apartamento fazendo o preço das rendas subir!
B. Eu ter de dividir casa com mais pessoas para pagar a renda faz aumentar a crise na habitação ou é mais uma evidência dessa crise? Muitos dos imigrantes que são alvos destes ataques estão entre os trabalhadores mais pobres do país, é óbvio que não conseguem fazer face sozinhos ao balúrdio que as rendas se estão a tornar. Apesar disso, contribuem anualmente com quase 3 000 000 000€ para a segurança social – já se deduzindo ajudas que podem receber de desemprego ou parentalidade, como qualquer português. A polícia já negou várias vezes a relação entre imigração e criminalidade. Só 12% dos presos são imigrantes. Porque é que nos é tão difícil aceitar que estas pessoas vêm para cá construir honestamente uma vida melhor? O problema não parece ser o facto de serem imigrantes. Reino Unido, Itália, França contam-se entre os países com mais imigrantes depois do Brasil que ocupa de longe o primeiro lugar e, no entanto, não é sobre eles que ouvimos falar, nem são deles os rostos que acompanham as notícias sobre imigração. A maior parte dos imigrantes em Faro são britânicos, mas se pesquisarmos sobre imigração no Algarve não são as suas caras a aparecer. Também não aparecem as caras de nómadas digitais que em Portugal podem imigrar ao abrigo do estatuto de residente não habitual, pagando menos taxas, o que faz com que se percam 1 500 000 000€ em impostos. O problema parece ser, então, com os imigrantes pobres e racializados.
A. Lá estão vocês a inventar minorias. Só querem é falar de sexo às crianças e chamar ao vandalismo ativismo.
B. Cada ser humano deve ter a sua dignidade independentemente de qualquer caraterística. Isso leva-nos a defender também quem está em minoria e a dar conhecimento sobre a sua dignidade. A educação sexual, por exemplo, dá ferramentas às crianças para identificarem situações de abusos e prevenir experiências precoces desinformadas, que podem resultar em gravidezes indesejadas. Tudo isto tem de ser defendido. Tal é a gravidade dos problemas que nos rodeiam, desde o clima a Gaza, que toda a visibilidade é pouca.
:Dividir, circunscrever, marginalizar, «dividir para reinar». Somos assim tão parvos? Enquanto andamos a discutir temas sem senso, está um governo a facilitar despedimentos, a por um preço em dias de férias, a fazer reformas surpresa no financiamento à investigação e a piorar as várias crises pelas quais estamos a passar:
Este início de semana o Bloco em Santa Maria definiu os seus candidatos para Vila do Porto. Serei candidato à Câmara Municipal de Vila do Porto. Acho importante dedicar hoje estas palavras a falar do porquê, da motivação que anima esta decisão – minha e das pessoas marienses do Bloco.
Muitas vezes fala-se em dar à terra o que a terra nos deu, ou então fala-se do sentir o dever. Ambas estas perspetivas têm problemas e muitas vezes mais não parecem do que exercícios demagógicos, artífices. Confesso que a minha motivação pode ser um acidente, um mariense que tropeçou nas condições certas. Para mim, aceitar estes desafios são uma forma de aliviar a consciência: quando os meus netos me perguntarem o que fiz para melhorar a vida deles, posso dizer que, pelo menos, tentei influenciar o rumo político da nossa comunidade. Onde se falava em riqueza e dinheiro, passou-se a falar em bem-estar e justiça; onde se falava em guerra e ódio, passou a paz e cooperação. É por ter esta perspetiva que me parece quase incompreensível haver quem renegue aos seus direitos políticos de participação, quer seja votando como candidatando, especialmente quando são pessoas que tanto criticam tudo e todos. Talvez o que isso queira dizer é que não têm um projeto, uma visão.
Nós temos um plano. Sabemos bem que queremos chegar a uma comunidade mais justa e solidária e sabemos que não há soluções mágicas. Reconhecemos que a realidade é complexa e articulada, razão pela qual preferimos falar em ações a tomar, caminhos a percorrer, ao invés de colocar as propostas em temas. Identificámos três ações fundamentais: desenvolvimento, sustentabilidade e participação. O desenvolvimento traz condições de vida. A sustentabilidade traz boas condições de vida. A participação garante as boas condições de vida. Trata-se de implementar o progresso autossustentável e democrático.
Sabemos ao que vimos. Não temos ilusões de grandeza. Sabemos que nos candidatamos para eleger vereadores, deputados municipais e de freguesia, longe do ideal de ganhar a maioria dos órgãos – por agora. Aquilo que temos de mostrar é que essa eleição, mesmo que não num contexto de vitória, impede que haja maiorias absolutas, que o PS ou PSD governem sozinhos. A eleição de vereadores e deputados do Bloco permite influenciar a política local, desempatar o que antes passava sem esforço. Desta tensão temos a defesa dos interesses da nossa terra.
Estou nesta luta para passar esta mensagem. Uma política que pode ser diferente. Que confiar em quem realmente acreditamos e que nunca teve uma oportunidade para fazer, pode trazer progresso. Estamos conscientes da dificuldade de passarmos esta mensagem. As pessoas estão totalmente desanimadas com a política. É frustrante quando alguém assim não percebe que nós também: é por não gostarmos da forma como a política está hoje que nos damos a este trabalho todo.
É um trabalho, portanto, ingrato aquele que nos espera. Mas é necessário e de consciência tranquila. É necessário porque os marienses merecem uma atuação política que não dependa dos interesses partidários. De consciência tranquila porque é feito abertamente e renegar aos nossos valores.
Esta candidatura que abraço não é um espaço que tem de ser preenchido. É uma nova liberdade que é dada aos marienses, uma outra cruz no boletim de voto que signifique esperança. O apelo que aqui deixo é para que ninguém fique indiferente.
Há uns anos parecia que a loucura era estrangeira, que a distopia até podia torna-se realidade, mas não no nosso quintal. De facto, do outro lado do Atlântico temos um presidente cuja base só hesita em apoiá-lo quando ele diverge das teorias da conspiração – é o caso Epstein que enfraquece a sua imagem, não o usar o exército contra o próprio povo ou ser capaz de dizer que Gaza deve ser um resort. Nós também pagamos esta distopia: foi selado um acordo entre EUA e EU do qual a Europa sai humilhada, com taxas de 15% impostas sem retaliação e obrigação de importações aos EUA. A conversa belicista de armar a Europa afinal serve para encher os cofres dos EUA com cenas de milhares de milhões – se cada euro for um segundo, são mais de 3000 anos! Quando enfrentamos crises sociais como da habitação e pobreza, quando negligenciamos a catástrofe climática para a qual caminhamos, os nossos recursos, o nosso dinheiro, é usado para estimular egos e matar. É bastante comum afirmar-se que em Portugal não existe dinheiro, mas se há algo que a novela sobre armamento revelou é que afinal só depende da vontade política. Que fiquem registadas as escolhas.
Mais do que este alinhamento de Portugal com a Nato (servidão aos EUA), temos episódios nacionais também distópicos só esta semana. Desde logo o veto de Portugal a incluir numa declaração da CPLP o direito de palestinianos à alimentação, atendendo ao cenário infernal em que estão mergulhados. Como é possível Portugal tomar esta atitude? E estamos a falar só de palavras num papel, imagine-se se fosse mais do que isso. Na verdade, não precisamos de imaginar. Os EUA têm em Portugal um cúmplice nas suas operações militares e os Açores carregam essa triste mancha.
A ministra da saúde referiu-se aos primeiros relatórios que começam a ser concluídos sobre as mortes em novembro associadas a atrasos do INEM, manifestando que está a «aprender» com essas mortes. Isto é admissível? Claro que a declaração à imprensa não teve direito a perguntas.
O partido de extrema-direita já nos habituou à sua manipulação demagógica na retórica, em completa indiferença em relação à verdade, mas esta semana o seu líder foi capaz de publicar na sua conta um vídeo que manipula com vídeo de Mortágua, reordenando algumas das suas palavras de forma a passar a mensagem falsa. Confesso que mais chocante do que esta impunidade é o facto de ser tão óbvio que o vídeo é uma colagem de excertos, levando a crer que quem o apoia sabe bem o que está a fazer.
Por fim, numa lista que podia infelizmente ser muito mais longa, temos a notícia de que em Portugal também se procedem a detenções injustificáveis de imigrantes: um homem que mora há anos em Portugal que, inclusive, tem contrato de trabalho, faz descontos, tem residência fixa e não cometeu nenhum crime está detido pela deficiência dos processos burocráticos da AIMA – tornando-o irregular e não ilegal. Mais, a sua detenção é justificada com base no risco de fuga, apesar daquilo que lhe havia sido pedido era ter abandonado o país – que recusou cumprir.
São casos que nos revoltam, contudo, após alguma reflexão, são capazes de nos fazer sentir impotentes. Parece ser a escuridão, o ódio, a mesquinhez, a levarem a melhor. No meio de tantos casos destes, habituamo-nos, normalizamos, e tornamo-nos indiferentes.
A mensagem que aqui gostava de deixar é a de que se cada um trabalhar na sua comunidade para travar esta onda, resistimos. O poder local em concreto pode ser um tampão, dinamizando a comunidade através de valores como a cooperação, estando próximo da população, do seu quotidiano, e sendo um veículo de literacia. Se alguém se preocupa com a sua terra, não fique indiferente nestas autárquicas.
É bastante comum ouvir falar sobre a experiência. A experiência profissional, a experiência de vida, a experiência como estatuto de autoridade. Resta saber o que é essa experiência. Deixo já aqui a conclusão a que quero chegar: a experiência são experiências.
Fala-se de experiência da vida como aquela que permite dar lições. Alguém que viveu o suficiente para ser levado a sério, como uma autoridade. A experiência confunde-se, então, com a vida, e mesmo com o trabalho. Há uma espécie de ascetismo popular que é automático pelo passar do tempo. A imagem do ancião. Procuramo-lo para orientar a nossa vida, desde conselhos sobre decisões a tomar, até à melhor altura para semear batatas.
No nosso quotidiano, pelo menos para um jovem em busca de trabalho, a “experiência” aparece mais frequentemente ligada a uma expectativa da entidade empregadora, no sentido de recorrer ao trabalho de alguém já com garantia de qualidade.
Nestes casos fica evidente o óbvio: a experiência é um atributo positivo, algo a honrar e privilegiar.
Mas como pode esta concepção sobreviver a tantas contradições? Vejamos algumas.
Se é uma honra a experiência de uma vida, porque é que os nossos idosos são marginalizados pela sociedade, vistos muitas vezes como inúteis? Como é que as empresas querem contratar jovens com formação, mas exige terem experiência, quando estão na altura do primeiro emprego? Vamos adiante. Qual a autoridade de um ancião pescador em relação à agricultura? Porque vemos com maus olhos que um filho de político seja político, mas com naturalidade que o filho de sapateiro seja sapateiro? Como conjugamos a experiência com as mudanças tecnologias, pode um agricultor de 40 anos ser mais experiente nas metodologias que um ancião? Porque a cultura popular valoriza a experiência manual e despreza o que entende como teórico? Talvez a maior, como podemos usar a experiência como justificar para impedir que se outro ganhe experiência?
Aquilo que me parece ficar desde logo evidente nestas provocações é o que adiante logo no início: não podemos falar de experiência sem experiências.
A experiência não pode ser vista como algo linear e único. É o conjunto dos casos, das vezes. Alguém experiente em trabalhar cerâmica é quem já o fez várias vezes, incluindo as que levantaram problemas que precisaram de ser resolvidos. Termos feito bem uma peça não garante que amanhã a façamos igualmente bem, já se hoje resolvemos uma falha no processo, amanhã somos capazes de a resolver de novo e é esse o conhecimento que comumente associamos à experiência. Se hoje tanto se valoriza a interdisciplinaridade é justamente por se reconhecer que as experiências de outros meios podem ajudar a resolver problemas que os experientes dos seus meios podem ter dificuldades.
Vejo a experiência como um reportório, um tesouro de experiências. É dessa diversidade de experiências que surge a experiência. A experiência, então, é um alargar horizontes, é o acumular de saberes e técnicas sem a necessidade de um fio condutor. Não é algo que se resuma num CV, não é algo que outro além de mim saiba aquela que tenho - muitas vezes fica como que como conhecimento latente. Mais do que um exercício passado, é a predisposição no presente de viver.
A maior implicação está na idade: a experiência não é em função da idade, mas uma natural correlação - afinal, quem tem mais anos, teve mais possibilidades de viver. Um jovem pode ter mais experiência que um ancião. Esta soará a mais uma provocação, contudo, é necessária: temo-nos agarrado à experiência numa lógica de estabilidade, sem perceber que ela significa inovação e progresso.
Julgo que já todos pensámos sobre o poder, já todos nós indagámos sobre o que consiste. Não o percebemos como algo material, quando muito, com um simbolismo material, como um trono ou um edifício. No final de contas, questionamo-nos o sentido de obedecer a algo – até que nos lembrarmos que existe polícia.
Gostava de trazer aqui hoje o pensamento de Giorgio Agamben, um filósofo contemporâneo italiano, sobre este assunto. Escreveu Homo sacer: poder soberano e vida nua I nos anos noventa. Este livro inicia, justamente, com o estudo da lógica da soberania, com o paradoxo da soberania: o soberano está, ao mesmo tempo, dentro e fora do ordenamento jurídico. Cabe ao soberano decidir sobre a suspensão da lei, estando a lei fora dela mesma, e podendo o soberano, mesmo estando fora da lei, afirmar que não há fora da lei.
Esta construção teórica faz corresponder política a biopolítica, a intromissão da política na vida, afirmando que a existência de um poder soberano se traduz numa relação de bando, de marginalização, uma exclusão inclusiva, refletida no homo sacer e que se traduz numa vida nua – uma vida politizada exposta à morte. Uma vida nua, portanto, sem dignidade e sujeita à norma que a marginaliza. Este aparelho teórico assume como expoente máximo na contemporaneidade a figura do campo de concentração, sendo, não obstante, pertinente hoje para a compreensão de inúmeros fenómenos político-sociais.
Hoje, podemos mencionar inúmeros outros exemplos de vidas nuas. Um dos mais evidentes é o genocídio que está a ser levado a cabo em Gaza. Qualquer genocídio se insere numa lógica de tanatopolítica, política sobre a morte, sendo evidente a presença da biopolítica. Um caso menos evidente é aquele resultante das ocupações israelitas: os palestinianos residentes nesse território estão numa relação de bando com a norma israelita. São vidas nuas vulneráveis ao próprio Estado que as afirma como suas. Uma cidadania sem significado.
Numa lógica semelhante, temos o fenómeno da imigração ilegal. É relativamente evidente a vida nua que está presente num centro de detenção de imigrantes, por haver a expressão de um poder que exerce uma coerção visível. Mais interessante será a análise de pessoas que vivem num país sob a condição de imigrantes ilegais. Este estatuto, tal como aquele de palestinianos com cidadania israelita, denota a exclusão inclusiva do homo sacer. São corpos colocados à margem, passíveis de serem violentados, por uma norma que os marginaliza. A perversidade de se querer excluir um corpo, mas mantendo-o, sem a possibilidade de inclusão nem de indiferença. Não faltam exemplos de entidades desenhadas precisamente com esse propósito – um dos exemplos mais recentes podendo ser o Alligator Alcatraz. Esta lógica, contudo, não se esgota em noções de identidade nacional. Qualquer grupo ou indivíduo é sujeito a esse estado de exceção. Os exemplos históricos contemporâneos e ainda hoje existentes de indexar vidas nuas a pessoas trans, racializadas, trabalhadores do sexo, condenados, pessoas em condição de sem-abrigo,…, revelam a perversidade já mencionada. Uma expressão mais óbvia da biopolítica consiste no condicionamento do corpo feminino, em questões como a interrupção voluntária da gravidez.
Julgo que este é um prisma importante de termos hoje, para percebermos como a política influencia a nossa vida quotidiana e nos pode expor à mais precária das situações. Numa verdadeira democracia, somos capazes de defender a nossa liberdade. Talvez este seja um texto mais pesado, mas eles são precisos.
No passado sábado, dia 5 de julho, decorreu a IX Convenção Regional do Bloco de Esquerda Açores. Trata-se da reunião máxima da região, tal como a convenção nacional o é a nível nacional. Trata-se de uma marca da Autonomia essa equiparação entre a dirigentes regionais e nacionais. Esta reunião é, portanto, fundamental para se orientar a linha política a seguir durante, normalmente, os próximos dois anos, bem como escolher os dirigentes nesse período que garantam que essa orientação é cumprida. É um momento por excelência de reflexão. Ainda para mais quando vivemos num arquipélago, onde os contactos regionais são normalmente feitos por meios telemáticos.
Deste cenário, ecoou-me uma questão: o que é um partido? Muitas serão as respostas humorísticas ou cínicas, mas esta é uma pergunta fundamental para se poder credibilizar a nossa democracia.
Vivemos numa democracia representativa, elegemos, por voto secreto na urna, quem pretendemos que represente os nossos interesses durante um determinado mandato. Abdicamos da nossa autonomia (auto-legislação) para que haja uma classe que se dedique exclusivamente à governança.
O veículo que se criou em Portugal para servir de intermediador entre os eleitores e os eleitos foi a figura do partido: um grupo de pessoas com uma visão política agrega-se e dá a conhecer um programa – cabendo às urnas decidir os graus de representação sentidos pelos eleitores em relação a cada programa.
Só nestes parágrafos já identificamos alguns problemas em relação à realidade: por um lado, essa classe governante ora é tida como uma carreira, ora é mantida em part-time levantando questões sobre conflitos de interesses; por outro, atualmente os partidos parecem moldar-se ao sabor da opinião pública, sem uma espinha dorsal. Estes são alguns problemas de operacionalização, deixo de lado considerações teóricas sobre outras opções que são discutidas na Filosofia e na Ciência Política. Quero focar-me no sistema em que vivemos quotidianamente.
Assim sendo, já temos o que é, resta saber como deve ser. Quando penso num partido político, penso em duas dimensões inerentes: a programática e a fiscalizadora.
A programática é, certamente, a mais óbvia: a um partico compete propor. Propor soluções que se coadunem com a sua visão do mundo e da sociedade que pretendem atingir. Na prática, trata-se de avançar com o seu programa e responder à atualidade coerentemente. Esse exercício de proposta nasce democraticamente do partido, com a participação dos seus militantes, com a discussão que promove nas ruas, não se reduzindo a uma prática burocrática nas instituições democráticas.
Por outro lado, uma dimensão que até pode estar no espaço público, mas que geralmente é tratada superficialmente: a fiscalização à atuação das instituições. Todos os partidos são responsáveis por denunciar aquilo que lesa os cidadãos. Acontece muito falar-se, por exemplo, de corrupção, mas raramente se vê forças partidárias a serem capazes de apontar situações concretas (que se note que uso aqui corrupção no seu sentido mais lato). Até os partidos que se encontram na governação têm todo o interesse em prestar um bom serviço de fiscalização: é a garantia de uma boa governança – além de um sinal de espírito crítico e honestidade intelectual.
Por fim, deixo esta pequena reflexão: a liberdade que temos nas urnas consiste na possibilidade de escolher entre vários quadrados no boletim de voto, menos partidos são menos opções, mas para haver partidos são necessárias pessoas. Os partidos são rostos, mas mais do que a sua soma. A liberdade que cedemos é parcialmente retomada quando nos juntamos à construção.
Durante muito tempo, para mim, quando se falava de realismo, em particular, de ser realista, interpretava como sendo a descrição de uma atitude racional, a sangue frio, de assentar os pés no chão para falar de soluções. Quem não tem sonhos, vê-o como um método em si; quem tem sonhos, encara o realismo como ou o diagnóstico do ponto de partida, ou a projeção do caminho a seguir até ao sonho. Quando se diz «sou realista» e soa a «surrealista», estamos perante uma ironia conspirada pelo som em que se traduz a nossa língua, uma vez que o surrealismo é, justamente, o oposto do realismo, na medida em que desconstrói e subverte o racional. Hoje, contudo, essa ironia parece já não existir, «sou realista» e «surrealista» sobrepuseram-se no que diz respeito ao retorcimento do racional. Hoje, alguém realista é quem acha que pensa racionalmente, mas, em bom rigor, está perdido na irracionalidade.
Como é isso possível? Algo é certo: falta-nos pensar, afinal, ser racional envolve um pensamento lógico. Sentimos que pensamos, não se trata de construir um percurso lógico, mas de uma perceção. O que sentimos que pensamos que substitui o nosso próprio pensamento e porquê? Vivemos sob uma pressão constante: são as contas, são as expectativas, são os prazos, são as redes sociais,… uma aceleração social que nos coloca num ritmo frenético, mesmo vivendo num local pacato. O nosso bem-estar está comprometido, refletindo-se na saúde, tanto a nível físico como mental. O desconforto não é amigo do pensar. Somos mais suscetíveis a atalhos argumentativos, a motes, a frases feitas, a qualquer material que não exija muito esforço mental – porque não o temos. O espírito crítico vai pelo cano abaixo, a honestidade intelectual nem tem oportunidade de ser mencionada. Ora, se não tivermos consciência deste nosso cansaço mental, podemos assumir que essas frases feitas são um percurso do pensamento, mas são, na verdade, só um pensamento, desconexo de tudo, que consideramos verdade, porque assim o assumimos sem qualquer crítica.
É claro que não chegámos a este ponto do nada: aqueles que trabalham de sol a sol certamente que não terão grande energia mental. Desde o início da Filosofia que se reconhece que é preciso ter tempo e a barriga cheia para se dar ao luxo de pensar. Aquilo que é estranho é haja tantas barrigas cheias a não pensar. Falta tempo, portanto. E, de facto, falta, é a aceleração. Pessoas que teriam todas as condições para ter um espírito crítico não o executam. Aceita-se o discurso dominante e receia-se dizer o contrário – quer seja pela marginalização ou pelo esforço necessário a contra-argumentar. Não é impressionante que o sistema em que vivemos se perpetua, apesar do esgotamento em que nos coloca, precisamente por estarmos esgotados?
Bem sei que argumentar custa e contra-argumentar ainda mais: é preciso conhecer sobre o que se está a discutir, perceber a posição, criticá-la e, de preferência, apresentar uma outra posição.
Mas se não o fizermos, aceitaremos as desigualdades como uma inevitabilidade: como é concebível que haja alguém que possa comprar uma ilha e tanta gente que passe fome? Se não o fizermos, aceitaremos genocídios: como é possível que se assassine uma criança que recorreu à parca ajuda humanitária para se nutrir?
Só nesta cegueira é possível perceber a confusão em que o conceito de liberdade está mergulhado: como é possível acharmos que a liberdade do outro não é a nossa? como é possível confundir direito e dever?
Este realismo de hoje transforma vítimas em cúmplices, é surreal.
No tempo da internet estamos habituados a desumanizar: é uma realidade a duas dimensões, pautada por aquilo que vemos nos ecrãs. É fácil esquecer que do outro lado do ecrã também está um ser humano, alguém de carne e osso. Por essa razão, prolifera o ódio nos comentários de redes sociais, porque não encaramos quem criticamos na sua cara. Sente-se à distância a impunidade e fanfarronice que transbordam das caixas de comentários. Podemos perguntarmo-nos: qual a importância disto? Certamente podíamos colocar-nos indiferentes, afinal, cada um faz as suas escolhas. O problema é que este fenómeno tem consequências: a esmagadora maior dos portugueses usa redes sociais, estamos a falar de um espaço comum que é quotidianamente acedido por milhões de pessoas. A postura destrutiva torna esse espaço tóxico, gera mal-estar gratuitamente. A sua omnipresença propaga o cinismo: sentimo-nos indiferentes, «tudo está mal, de que serve fazer algo?». E essas atitudes vão-se materializando: o cinismo é reforçado e o discurso de ódio vai perdendo a vergonha pela sua normalização. A própria agressividade com que as pessoas falam parece estar a acentuar-se.
Os espaços digitais que têm um potencial imenso para fomentar uma rede social, no sentido de percebermos que somos uma teia, e partilharmos democraticamente informação (no seu sentido mais lato), torna-se a cada dia um local mais suscetível de interferir negativamente com a nossa saúde mental. A internet tal como a conhecemos hoje parece estar prestes a mudar, com um surgimento em força da Inteligência Artificial – que ameaça ainda mais o nosso sentido crítico, pelo menos da forma que está a acontecer. Sendo este um espaço que participou e participa na socialização secundária de várias gerações e nos últimos tempos parece estar a entrar na socialização primária, é fundamental dar-lhe sanidade. Não podemos deixar a educação e a civilidade, mas mãos de empresas oligárquicas, cuja preocupação é o lucro.
Talvez quem esteja a ler ache isto tudo um exagero. Eu posso dizer por experiência que não é. Mais uma vez: esse discurso promove a inércia, o ficarmos quietos, porque só é alvo de críticas quem faz algo. Olhemos para as páginas de associações e não tardará a encontrarmos um bitaite que desvaloriza o trabalho de quem dá voluntariamente à comunidade abdicando do seu tempo pessoal. Olhemos para as páginas de escolas para se ver as perversões de consciência criadas. Visitemos as páginas de partidos ou políticos para ver como o insulto é a norma.
Choca-me particularmente ver como a primeira reação é de repulsa, independentemente do conteúdo ou pessoa. No âmbito político, é impressionante como não se distingue um candidato que nunca teve poder ou um político de carreira. São ambos maus.
Esse sentimento, na verdade, enquadra-se no tal cinismo que se revolta contra uma imagem que construiu de «política» no seu todo. O problema é que nessa perspetiva a única saída é o autoritarismo. É a saída mais fácil: é a única capaz de acabar com o ruído da pluralidade, porque a suprime. Elimina todas as incertezas, porque impõe um caminho.
O apelo que gostava de deixar nestas palavras é para que nos lembremos de que a pessoa que está do outro lado de uma representação, seja um ecrã ou um cartaz, é também uma pessoa. Devemos ser capazes de manter um mínimo de respeito – é surreal ser preciso escrever isto. Tal como devemos olhar e analisar as pessoas, além das entidades – que só existem por ser grupos de indivíduos. Este planeta é um palco de luta de egos, convém sabermos com quem estamos a lidar – principalmente se for para nos representar.
Em quatro dias houve três agressões em Portugal imputadas a neonazis. Espancaram atores, voluntárias que alimentavam pessoas em situação de abrigo – um polícia que interveio-, e também um homem que lhes apareceu. A primeira versão do Relatório Anual de Segurança Interna tinha um capítulo que abordava a violência provocada por grupos da extrema-direita. O governo decidiu suprimir esse capítulo. Pelas piores razões sabemos hoje a ameaça que estes grupos constituem – e este é só o começo. Também há pouco tempo foi noticiado o esforço que existe para constituir uma milícia. Não estamos a falar de escaramuças políticas pontuais, mas de violência organizada. Estamos a falar de um esforço de recrutamento que está a acontecer debaixo do nosso nariz. Como colocou a atriz e encenadora Maria do Céu Guerra: como é que isto é possível que no nosso país 30 anos depois de Alcindo Monteiro ter sido morto no Bairro Alto e envolvendo pessoas que participaram nesse crime?
Quando se fala sobre discurso de ódio, sobre a discriminação nas ações e que começa nas palavras, estamos, na verdade, a falar sobre a legitimação das ações discriminatórias. Estamos a falar de como normalizar o insulto pelo apela a caraterísticas leva ao sentimento de legitimação de formas de violência a pessoas meramente por possuírem essas características. Foi assim com o antissemitismo que levou ao holocausto, é assim com o racismo e a xenofobia em relação a grupos que, em bom rigor, são escolhidos como bodes expiatórios.
Aquilo que vemos em Portugal é o fortalecimento desse discurso de ódio, mesmo que se refute cada «argumento» apresentado, mesmo que se demonstre que a sua alimentação é à base da mentira. Neste momento a segunda força parlamentar em Portugal é o principal veículo desse discurso, pelo que a sua normalização nunca foi tão forte no Portugal democrático. Perdeu-se a vergonha. Hoje dizer que «era bom era no Estado Novo» já não é motivo de embaraço e, no limite, é tido com indiferença.
Aquilo que nos chega do redor do mundo é que esta insanidade é internacional. A violência que se antecipa em Portugal já existe noutros países e existem exemplos onde o poder foi tomado por essas ideologias autoritárias. Os Estados Unidos de Trump são o expoente: em menos de 6 meses, foi instalado um regime de terror que desumaniza os imigrantes, deporta-os indiscriminadamente, dispara sobre manifestantes, impede eleitos federais de acederem a instalações de detenção, algema um senador por abrir a boca, olha para o genocídio em Gaza e só diz que o local era ideal para uma resort, discrimina jornalistas, acaba com programas de ajuda humanitária, assedia cidadãos que contestam as suas posições, corta financiamento às universidades que não acarretam a sua censura,... Isto tudo naquela que é a «liderança do mundo livre». Nós não somos imunes.
Não nos podemos dar ao luxo de ficar calados e quietos. Não seremos coniventes com quem nos quer incutir o medo e tirar a liberdade.
Permitam-me terminar com as palavras de Lídia Jorge no discurso de 10 de junho de 2025 que podem ter passado um pouco ao lado:
«Mas alguma coisa desse outro fim de século, que se seguiu ao tempo da Renascença malograda, relaciona-se com os dias que estamos a viver. O poder demente, aliado ao triunfalismo tecnológico, faz que a cada dia, a cada manhã, ao irmos ao encontro das notícias da noite, sintamos como a terra redonda é disputada por vários pescoços em competição, como se mais uma vez se tratasse de um berloque.
E os cidadãos são apenas público, que assiste a espetáculos em ecrãs de bolso. Por alguma razão, os cidadãos hoje regrediram à subtil designação de seguidores. E os seus ídolos são fantasmas.»
Podíamos falar sobre as distopias bem reais que acontecem pelo globo, os delírios discursivos que se traduzem em infernos. Devíamos, até, fazê-lo como alerta para não seguirmos esse caminho. Certamente, mas hoje já não temos de ir longe. No nosso país já foram passados os limites da decência. O verbo importa: eles passaram.
No passado dia 4 de junho vimos, em direito na televisão, uma pessoa a fisicamente condicionar outra, um homem a agarrar o pescoço de uma mulher. Infelizmente, este é um caso condenável longe de ser extraordinário: o patriarcado está enraizado na nossa sociedade, basta olhar para o horror da violência doméstica. Acresce ao choque do gesto, a identidade de quem o praticou: o nosso Presidente da República. Depois de já ter feito alguns comentários despropositados em relação ao corpo feminino, Marcelo Rebelo de Sousa considerou correto agarrar o pescoço de uma mulher que viu na sua presença uma plataforma para falar para a comunicação social sobre o genocídio com o qual somos cúmplices, apelando à participação numa ação de protesto nesse dia. Esta mulher interveio com todo o respeito e falou sempre calmamente. O nosso Presidente, contudo, foi incapaz de ouvir o que tinha a dizer, desvalorizando o caráter da pessoa, interrompendo, virando as costas. O que dizer de nós quando o nosso próprio Presidente se julga no direito de agarrar uma cidadã para a subjugar à sua palavra?
No passado dia 5 de junho a nossa Assembleia Regional viveu mais um lamentável momento. Enquanto se falava sobre o flagelo da toxicodependência no arquipélago, o deputado e líder do CHEGA ia deitando a sua verborreia usando termos como «trogloditas», «treta», «bandidos», …, um linguajar incendiário e vazio a que já nos acostumou (atenção a ente verbo), até que é capaz de soltar a maior das barbaridades: «Olhe, por mim era fuzilá-los todos». A leveza com que a pena de morte é encarada por este parlamentar é simplesmente aterrorizante. Igualmente aterrorizante foi a completa inércia do Presidente da Assembleia Regional: um total silêncio perante estas palavras. Bem sabemos de onde pode vir esse silêncio: no fim da sua performance medíocre, o deputado ameaçou chumbar uma moção de confiança e fazer cair o governo de Bolieiro, mostrando como a AD está dependente do seu apoio. Que democracia é esta em que a aritmética parlamentar, o ego de governar, importa mais que a dignidade humana?
Estes dois episódios são representativos da normalização do discurso de ódio, ou seja, da vulgarização da ameaça ao outro com base nas suas caraterísticas. Cada vez é mais fácil encontrar comentários violentos, os argumentos passam a ameaças. Cria-se um clima de tensão que culmina na própria violência – uma preocupação das próprias forças de segurança no Relatório Anual de Segurança Interna. Como estas pessoas são tão estridentes (omnipresentes digitalmente) parece que hesitamos em abrir a boca. O discurso do ódio está cada vez com maior tração.
A frustração é imensa e a paciência é escassa, querem-se pensos rápidos e encontrar bodes expiatórios é um. Em vez de pensarmos fundamentalmente e fundamentadamente sobre os problemas, preferimos atirar para um grupo social a culpa de tudo – para o outro. Atiramos para quem é mais fraco, claro. Exigiria coragem olhar os verdadeiros culpados, os donos disto tudo que todos os dias desafiam a dignidade humana. Eles ficam felizes a ver como o povo se divide e autoagride.
Normalizar o inormalizável é fechar os olhos à injustiça para com o outro, mas não nos esqueçamos que um dia esse outro seremos nós e ninguém restará para nos defender.
Na semana passada procurei convencer quem leu aquelas palavras de que há uma possibilidade para tomarmos em nós próprios a nossa liberdade. Glosei a visão do «viver como se»: estabelecermos as nossas regras e vivermos de acordo com elas. Talvez a melhor palavra seja máximas, princípios, motes,… o que importa é ter em mente que vivemos num mundo palpável e as convenções em si mais não são do que ideias. Mesmo legalmente é possível contrariar o discurso dos governantes: perante uma agenda que nos pretende dividir, podemos defender a solidariedade e participar em ações associativas ou sindicais, por exemplo. Mesmo em posições institucionais podemos fazê-lo: no mínimo reivindicando, no máximo propondo votações. O que aqui importa é a proatividade: é a possibilidade de moldarmos o próprio mundo, de conseguirmos caber nele. Não se trata, portanto, de uma ação individualista, mas de um compromisso individual para com a comunidade. Não nos esqueçamos, contudo, que uma pessoa é o suficiente para dar um exemplo, para mostrar que é possível e abrir caminho.
Mas isto é desafiante. Vivemos constantemente num estado de impotência. Como pode alguém conseguir motivação? Mesmo que haja tempo, com que energia mental? Será complicado para quem faz as contas contanto com os cêntimos conseguir pensar sequer na sua condição para considerar uma ação fundamentada. Duvido que as pessoas que estão nessas condições estejam as ler estas palavras, mas se tiverem: saibam que uma vida com condições é possível, que está nas nossas mãos essa possibilidade e que o vosso voto na urna vale tanto como o de um multimilionário. Para os outros, tudo isto vale, mas há que ir mais além: se há tempo, vamos moldar o mundo. Há que fazer algo, se não por nós, pela responsabilidade de deixar um mundo melhor aos nossos filhos. Certamente haverá quem leia este discurso como ingénuo. Não surpreende, afinal, este sistema ensina que as coisas têm de ser como são e que finais felizes só nos filmes (e não em todos). Temos de combater o cinismo que só provoca a inércia. Mas que motivação?
No seguimento das eleições de 18 de maio, nas quais a reflexão ética e humanista foi cilindrada, uma pessoa que me é próxima pelas lides políticas disse: nos primeiros dias fiquei tristíssima, agora estou só furiosa». Revi-me naquelas palavras, da inércia perante um mundo decadente, surge a responsabilidade de o reconstruir. A motivação não é mais do que o nosso instinto. Um instinto que condena as injustiças. Como é possível haver pessoas a passar fome e pessoas que ganham milhares de euros por segundo?! Onde está a linha mínima para a dignidade humana? Ligar a televisão é saber de mais mortes de crianças em Gaza – contudo desligar a televisão não resolve o problema. Se não nos motiva a utopia, um projeto de sociedade, então que nos motive a defesa da dignidade perante a miséria que hoje existe. É um combate multidimensional e multidirecional, qualquer pessoa é capaz de encontrar um papel que a si se adeque dentro da sua própria comunidade.
Quando se dá o primeiro passo já se sabe que não será um caminho fácil. É ir contra a corrente. É estar sempre a ser criticado por quem nada faz. É fazer muito sem reconhecimento. É fazer muito e sentir-se quase sempre impotente. Permitam-me uma autoajuda filosófica: abracemos uns textos estoicos ou epicuristas no que nos dizem sobre moderar as emoções, sobre aceitar o passado, o irreversível, e seguir, sem nunca esquecer os filósofos cínicos que nos mostraram que a razão é mais importante que a própria lei, que podemos tomar a vida nós próprios.
No passado dia 19 de maio quem andasse por Ponta Delgada via uma cidade cinzenta. Ao testemunhar isso mesmo, senti o arrepio de ver que uma realidade que caminhava para esse cinzento acordou com as nuvens nesse tom já na ressaca eleitoral. Entretanto, regressei ao Porto. Por cá os dias estão quentes, com poucas nuvens no céu e um sol ardente que traz um céu azul e evidencia a verdura das folhas das árvores. Embaraçadamente relembrei-me que o «cinzento» é uma metáfora.
É uma metáfora por duas razões: os «tempos cinzentos» são sobre as nossas convenções, sobre a forma como a sociedade é organizada, esse cinza pode ser encontrado em alguns espaços, mas as coisas são a cores; e é esse o segundo lado, a realidade com a qual todos os dias lidamos é palpável e reflete em todo o intervalo das frequências visíveis, não vem nas nuvens escritos os maus augúrios, somos nós que temos de ter o olho aberto e perceber que as nossas mãos apalpam esse cinzento.
Hoje abundam os comentadores políticos. Têm eles mais tempo de antena que a maioria dos detentores de cargos públicos e servem muitas vezes mais como maquilhadores do que como intérpretes. Talvez seja por me movimentar na Filosofia, mas não consigo ver nesses esforços mais do que um chamamento de sereia para se aceitar uma narrativa. No que concerne ao que digo, não pretendo que tomem estas palavras como certas, mas como um incentivo a ligar ao cérebro. Poderão até chegar a conclusões diferentes das minhas, mas que sejamos capazes de fazer um esforço crítico, de pensar mais profundamente, informadamente e com honestidade intelectual.
Há cinco anos li Cartas a um Jovem Contestário de Christopher Hitchens, foi neste texto que pela primeira tomei contacto com o apelo ao «viver como se». Perante uma sociedade, uma lei, que nos impede de viver como consideramos mais correto, devemos viver dessa forma, abrindo uma brecha que possa servir de exemplo e permitir a visibilidade e, quiçá, a hegemonia cultural para conseguir moldar a sociedade.
Este termo do «como se» hoje soa-me familiar: trata-se do alemão «al sob» de Kant, usado por este filósofo como a necessidade de pressupormos um conjunto de aspetos, vivermos de acordo com eles, para podermos dar seguimento às nossas vidas. No caso kantiano, trata-se de pressupor que Deus existe e que a alma é imortal, algo que a ciência não pode provar, mas que, existindo, permite-nos um caminho para viver. Na verdade, este «als ob» também está presente no seu famoso imperativo categórico para agirmos moralmente: «age como se a máxima da tua acção se devesse tornar, pela tua vontade, em lei universal da natureza».
O «como se» de Hitchens, contudo surge de Vaclav Havel, do seu livro Moc bezmocných [Poder dos impotentes], um livro, como se pode imaginar pelo título, sobre resistência.
Se hoje acho importante trazer esta perspetiva é porque parece que temos de entrar neste modo de vigilância e tomada de atitude. Temos hoje a nossa Constituição sob ataque, particularmente no que respeita aos direitos humanos e a sua tradução nos serviços públicos. O «como se» relembra-nos que a política é mais do que o ato de votar, é participar. Participar nas nas instituições democráticas, mas também nas associações, nos sindicatos, nos grupos informais,… Participar é dar tempo à comunidade, seja sendo um candidato político ou ajudando numa peça de teatro da escola do filho. O mundo quotidiano é um mundo palpável que podemos moldar alheios às teias inteligíveis do poder.
O local, a comunidade, é o espaço de excelência para a livre e autêntica participação. Se cada um de nós moldar a sua, temos uma verdadeira democracia.
É madrugada de segunda, estou a escrever este texto na ressaca de uma noite eleitoral onde a memória do Estado Novo parece ter sido esquecida 50 anos depois das primeiras eleições livres. Como se nota, não escrevo este texto a pensar em toda a gente, escrevo-o para o leitor e leitora que se alinha com uma visão verdadeiramente democrática da sociedade, o que implica a defesa dos direitos que são, aliás, sinónimo de liberdade (um direito é uma escolha possível, não um dever). Escrevo este texto, também, como candidato, mesmo que esta opinião só me vincule a mim, por ter a experiência de fazer campanha nestas eleições. Pasme-se, será, claro, esse o tema deste texto.
É uma noite forte, emotiva pela negativa. A esquerda perdeu em Portugal (e nem estou a falar do PS). Mesmo com a subida do Livre, houve perda de mandatos. O Bloco de Esquerda teve uma pesada derrota, passando a ter uma só deputada, Nos Açores, pela primeira vez superámos a percentagem nacional – o que é, claro um mau prenúncio. Tivemos pouco mais de 2%. Não é o pior resultado do Bloco nos Açores, mas quase. Enquanto candidato, tomo a responsabilidade de refletir mais do que todos. Permitam-me o desabafo: esta foi uma campanha muito exigente, com uma presença quotidiana na rua, em reuniões, no porta-a-porta. Mesmo nas ilhas sem o candidato foi feito porta-a-porta. Trata-se de um esforço imenso para tão poucos voluntários. Uma grande preocupação minha agora é dizer a essas pessoas que devem ter orgulho de terem colocado tanto tempo e energia das suas vidas nessa demanda, porque não é toda a gente que se dispõe a isso a troco de esperança num mundo melhor. Certamente que nos cabe refletir e tomar consequências a partir deste resultado, mas também precisamos de reconhecer que vivemos em tempos cinzentos (não podemos cruzar os braços, mas também não podemos esperar milagres). Os resultados regionais seguem os nacionais, tornando-se evidente a predominância dessa tendência quando a comparamos às intensidades da campanha das várias candidaturas.
Confesso que das coisas que mais me doeu foi ver que em Santa Maria, ilha onde nasci, cresci e sempre contribui como pude, não tive qualquer impacto. Pela primeira vez um mariense foi cabeça-de-lista. Não duvido, contudo, que muitas serão as vozes que amanhã dirão que as ilhas pequenas nunca são ouvidas, que os jovens não se interessam por política, que os políticos são todos iguais.
Ganhou o partido do homem que decidiu sozinho que um país devia ir a eleições, porque não quis ser transparente. Ganhou um partido de escândalos, que nestas eleições nem quis partilhar a cara dos seus candidatos – não precisava, parece que é de um homem só.
Depois da heterocrítica, vem a autocrítica. Tenho algumas confissões: protagonizar uma campanha de âmbito geográfico mais alargado tornou evidente as suas lógicas performativas, e por isso e não só, senti-me quase «mais do mesmo». Posteriormente hei de desenvolver este raciocínio.
O importante agora é ninguém saltar do barco, é ninguém largar a mão de ninguém. Temos um forte risco de retrocesso à nossa frente. A vida vai piorar.
Temos de pegar nesta nova realidade e perceber que a política não se esgota no parlamento. Toda a ação que tomamos tem um valor político. Se falarmos, então, de um papel ativo na comunidade mais político é. Desde a ação informal de ajudar o vizinho, àquela formal de participar numa associação, nós somos agentes de mudança, podemos ter uma ação direta na comunidade, mesmo que seja em contramão em relação à visão do governo.
Tenhamos a ousadia de o fazer para construirmos nós próprios uma vida digna.
A cada dia que passa torna-se mais evidente o desfile de pavões que se vão agitando na esperança de atrair apoiantes – eu incluído. Aproximam-se as duas semanas de campanha que antecedem a eleição da Assembleia da República dia 18 de maio – 11 para quem votar em mobilidade.
Não precisávamos de estar em eleições, Montenegro escolheu-o, porque não quis ser transparente, recusando esclarecer os portugueses quanto à possível violação de exclusividade das suas funções. Desde a construção da casa, à tentativa de extorsão judicial de um jovem, o nosso primeiro-ministro não tem vergonha em mostrar a sua chico-espertice. A sua continuação como líder do PSD constitui uma falência completa do bom senso.
É esta a situação em que estamos e com ela temos de trabalhar. Temos de tornar estas eleições numa oportunidade para pegar na esperança por um mundo melhor e concretizá-la numa configuração progressista da Assembleia da República.
Quando um açoriano ou açoriana coloca a cruz no boletim de voto, está a escolher as pessoas que serão eleitas pelos Açores (cinco pessoas proporcionalmente obtidas). Não se está a escolher, portanto, o primeiro-ministro, mas quem pretende que o represente. Além desta importante clarificação, existem mais dois aspetos cruciais a ter em conta: a abstenção e o voto útil. Estas dinâmicas são aquelas que empobrecem a democracia e a pluralidade. O voto útil até é contraproducente: se não se pretende que a extrema-direita eleja, temos de garantir que é outra força política a ficar em terceiro, no caso dos Açores. O BE é o partido melhor colocado para isso, sendo que, mesmo para eleger, bastaria que quem já votou Bloco, leva-se outro amigo a votar também. O voto útil também nos pode levar ao cenário de 2022: uma maioria absoluta que é incapaz de resolver os problemas, porque se instala no centrismo que nos trouxe até eles. Tenhamos em mente que o último governo que durou a legislatura inteira, 4 anos, e onde mais conquistas se somaram, foi no dito da «geringonça».
Não pretendo continuar este texto como um apelo ao voto, o programa fala por si e espero que sejamos capazes de nos próximos dias o apresentar claramente. Permitam-me falar da experiência do porta-a-porta, que temos feito com o objetivo de ouvir o que as pessoas têm a dizer, a partir do seu próprio espaço.
Muitas são as pessoas que cortam qualquer conversa à partida, afirmando que não têm qualquer interesse por política. Várias são aquelas que afirmam que «são todos iguais». Não falta cinismo e pessimismo. Não será de admirar, afinal, vivemos em tempo de crises.
Ao falar com estas pessoas pergunto-me como é possível esperar que os jovens possam ter uma atitude pró-ativa: a geração dos seus pais passou a vida a contagiar este cinismo.
Ainda assim, muitos são os jovens que vão puxando pelo associativismo, ou pela defesa de causas. Ou que estão na política a tentar garantir que há lugar para um futuro digno.
O meu apelo particular aos jovens é da necessidade de sermos nós a assumir a responsabilidade que temos pela nossa vida, de sermos uma força progressista capaz de clarear estes tempos de supressão da liberdade.
Para concluir, lembro-me de um senhor que nos abriu a porta: toda a vida votou no mesmo partido, apesar de, como vincou, a sua primeira bola de futebol ter sido oferecida por um presidente de junta de outro partido. A política é sobre propostas e valores e não sobre clubismos.
Tenhamos espírito crítico, humildade intelectual e empatia. Pensemos e tentemos fazê-lo além das nossas bolhas. Dia 18 de maio podemos mudar de vida.
São muitas as crises que atravessamos e que nos sufocam: desde a dimensão económica, em que a inflação persiste, a par da estagnação dos salários, à dimensão climática, que se traduz numa intensificação de catástrofes, passando pela dimensão social, a onda de ódio que se propaga.
Se já acompanha estes artigos de opinião, saberá que há uma intencionalidade de clickbait no título: é claro que aqui pretendo trazer algumas medidas que devem ser tomadas como forma de lidar com estas crises, mas não são respostas definitivas que só por si as resolverão. A realidade é mais complexa, em que tudo se articula com tudo, e, portanto, é preciso pensar a partir da raiz da questão. Vamos, então, abreviar esse exercício e passar a um punhado de ações concretas sobre alguns dos aspetos mencionados.
A habitação apresenta-se como um enorme desafio: tanto o preço das casas como as rendas sobem de forma que se tornem inacessíveis. Hoje é raro um jovem poder almejar a comprar casa, à semelhança de como os nossos pais fizeram. O que podemos fazer? Estabelecer um teto nas rendas, ou seja, valores máximos de acordo com a localização e as características dos imóveis; parar a construção de hotéis; reduzir o alojamento local onde o turismo é excessivo; acabar com os vistos gold e construir casas públicas para baixar os preços. O teto às rendas será certamente o que mais resistência poderá levantar: aquilo que se pretende é contrariar a especulação, não obrigar os senhorios a praticarem um preço específico. Esta solução está em prática, por exemplo, na Holanda. Qualquer senhorio que tenha bom senso está hoje a praticar valores abaixo daqueles que seriam estabelecidos como teto (experimente no site holandês: https://huurprijscheck.huurcommissie.nl/onzelfstandige-woonruimte).
Ao mesmo tempo, é necessário aumentar os rendimentos. O salário mínimo deverá alcançar os mil euros em 2026, o subsídio de refeição deve ser garantido também no setor privado e as pensões dignificadas. Ainda na dimensão laboral, o progresso tecnológico deve refletir-se na diminuição da semana de trabalho para quatro dias (sem aumento horário diário) e a reforma completa aos 40 anos de descontos. Particularmente em relação aos trabalhadores por turnos deve-se: garantir regras para o seu descanso, nos fim-de-semana e entre turnos, antecipar a idade da reforma e atribuir obrigatoriamente um subsídio de pelo menos 30% do salário
Perante esta visão e a necessidade de reforço dos serviços públicos, será legítima a questão: e dinheiro? A política é a arte da definição de prioridades, não obstante, através da justiça fiscal é possível uma nova fonte de receita: impostos justos sobre as empresas digitais e as grandes fortunas. Este imposto aplica-se a fortunas acima dos 3.500 salários mínimos nacionais - cerca de três milhões de euros, sendo aplicada uma taxa progressiva entre 1,7% e 3,5%. Três milhões menos 1,7% são 2 949 000€, muito longe de uma purga aos ricos, pretende-se que contribuam para a comunidade, a que permitiu a construção dessa fortuna. Numa mesma ótica de justiça, será pertinente impor leques salariais nas grandes empresas para que um administrador não possa ganhar mais num mês do que um trabalhador num ano. Vemos os ricos ficarem cada vez mais ricos, concentrando em si a riqueza, cavando um fosso social. Em Portugal, os 10% mais ricos detêm 60% da riqueza, é da mais elementar justiça que os milionários cedam uma parte, ainda que ínfima, dessa enorme desigualdade.
Reparei que tenho escrito dois tipos de textos: uns que expõem a minha visão sobre factos do mundo e outros, mais teóricos, que pretendem pensar a ação humana. Ao fim e ao cabo, são textos pessimistas e otimistas. Hoje quero deixar clara a ligação entre os dois, a continuidade em que parecemos habitar.
É verdade que olhar ao redor não é um exercício leve, provavelmente acarretará a identificação de problemas que assolam o quotidiano dos indivíduos, das famílias, das empresas, das organizações,… Vivemos mergulhados em crises.
As alterações climáticas constituem umas das maiores crises, sendo já possível de constatar o aumento de fenómenos climáticos adversos ao redor do globo, sendo que nos Açores se tem especial preocupação a efeitos como galgamentos oceânicos, cheias rápidas, fenómenos de erosão costeira, deslizamento de vertentes,… Longe de uma história que se conta às crianças, estamos a falar de vidas que ficarão em risco – e que, em bom rigor, já estão. Talvez para os mais jovens esta crise seja particularmente ruidosa: é uma hipoteca do seu futuro.
Ou então a habitação! Como é possível que a taxa de esforço para arrendar uma casa em Ponta Delgada possa ser de 58%?! Em Lisboa é 91%... Os custos continuam a subir com os salários estagnados. Como é possível comprar comida, roupa, material escolar e até mesmo poupar nestas condições?
Como se não bastasse, temos um clima internacional de cortar à faca: entre chantagens financeiras com impactos bem materiais e genocídios, é preciso algum esforço para escrever notícias sensacionalistas – o extraordinário parece que se generalizou, ah! mas é possível inventar climas de suspeição apesar de serem factualmente errados, como em relação aos imigrantes, uma certa comunicação social arranja sempre forma de voltar costas ao importante e desinformar. A ganância e o ódio estão por toda a parte. Os Estados Unidos estão num processo fascizante e deixaram cair o véu eu cobria a oligarquia que eram.
As 10% das pessoas mais ricas do mundo detêm 75% da sua riqueza. As 10% mais ricas de Portugal detêm 60% da riqueza do país – as 50% de pessoas com os rendimentos mais baixos representam 3,5%. As desigualdades estão-se a aprofundar, estando a classe média em processo de extinção. A oligarquia não é uma realidade só nos EUA.
O que vamos dizer aos nossos filhos quando eles nos perguntarem o que fizemos para combater estas crises? Queremos o peso na consciência de admitir que ficámos parados enquanto o seu futuro, a sua qualidade de vida, era roubado? Queremos assumir essa inação perante nós mesmos?
Vamos dizer que vivemos isto, que as sentimos na pele. Sentimos a frustração, e mesmo a raiva, associadas a este retrocesso. E que fizemos o que estava ao nosso alcance para o mudar: desde a mais pura e básica das simplicidades, indo votar, às ações mais complexas, como a manifestação e a greve. Parados é que não.
Vamos dizer que não foi difícil ver no mundo terreno propício ao pessimismo, um convite ao cinismo. Contudo, a única utilidade dessa visão foi a de identificar as brechas que precisavam de tratamento.
Vamos dizer que do olhar negativo da raiva percebemos aquilo que estava estruturalmente errado e construímos com melhores alicerces.
Estas próximas eleições ainda não serão capazes de chegar aos alicerces, mas poderão, se as açorianas e açorianos assim decidirem, começar esse trabalho ao mesmo tempo que se estancam os problemas (por exemplo, com tetos às rendas).
Tenhamos a coragem de exigir a dignidade que merecemos e mudar de vida.
Foram muitas vezes aqui que reclamei das más-línguas, quer seja na forma de grossaria ou cinismo, os dois modos de abater qualquer esperança: pela ação destrutiva, normalmente envolta em ignorância, ou pela indiferença. Permitam-me um desabafo: eu também estou farto da política. Sendo primeiro candidato à Assembleia da República pelos Açores (pelo Bloco), será certamente suspeita esta afirmação. Talvez soe a demagogia: pois bem, corro esse risco, mas não faço qualquer tenção de «simplificar» o meu discurso, terraplanando-o, pelo que o método certamente atentará a minha autenticidade.
Antes de continuar, que se deixe claro que estar farto da política não significa não tentar ter uma postura positiva. Primeiro, vejamos do que se trará quando falamos em «política», o porquê de estar farto dela e como superar esse estado.
Quando alguém diz estar farto da política, normalmente di-lo em reação à política institucional, ao testemunho de discussões entre representantes eleitos, por exemplo, ou de comunicados do governo. É perante as notícias que mais se evidenciam essas reações. Esse objeto a que frustradamente chamamos «política» vou entender como fazer-política (é mesmo com hífen para ficar evidente ser um conceito). Isto é importante para separar a dimensão prática, quotidiana, da política das vertentes teóricas presentes na Ciência Política e Filosofia Política, entre outras áreas de investigação. Não estamos a falar de sistemas eleitorais, nem de tipos de regimes, estamos a falar da ação e pensamento dos agentes políticos (entenda-se qualquer cidadão, independentemente de ser um titular de cargo político).
Quais são os vícios do fazer-política? A minha resposta a esta questão julgo ser uma pista sobre o porquê de haver poucos filósofos a dedicarem-se à política institucional (o que talvez seja contraintuitivo para o leitor que vê a Filosofia como o campo dos discursos vazios…).
As discussões que assistimos parecem não ter substância, e mesmo os debates de onde constam a enunciação de medidas concretas deixam ainda alguma desconfiança, porque a política é tida como um jogo de aparências. A lógica consumista, que se desenvolve assente num plano neoliberal, encurta a nossa atenção e orienta as nossas expectativas de modo que mais facilmente se coloca um político a dançar no TikTok do que a explorar fundamentalmente o seu projeto. O pior dos vícios é este: a discussão radical, estrutural, está ausente, perdida na espuma dos dias.
Como se não bastasse essa falta de espírito crítico, ainda falta honestidade intelectual. Partidos são entendidos como clubes. As pessoas não se abrem a novas visões. Há uma impaciência ignorante. Muitas vezes, quem mais se julga um paladino do espírito crítico é quem menos honestidade intelectual tem.
Este ponto é importante por estarmos num tempo onde a indiferença perante a verdade é assustadora. Se aquele discurso parecer bom, não importa mais nada. Hoje diz-se uma coisa e amanhã outra. Quem ontem era um maluco aficionado de teorias da conspiração, agora é eleito.
Como corolário, há um ambiente anti-intelectualista. Tudo o que não tenha um sentido prático evidente é para deitar fora e muitas vezes cai-se nesta retórica, tentando demonstrar a utilidade da teoria.
E agora? Um fascista na casa branca, um chique-esperto como primeiro-ministro português, uma sensação de limite no ar. E agora?
Tenho duas respostas: a primeira é apelar ao envolvimento. Não querermos governar nós, é deixar os outros governar. A segunda é mudarmos a nossa forma de pensar a política: discutamos valores, a matriz de uma sociedade futura, pensemos a partir da raiz.
Não é difícil olhar para o mundo e vaticinar maus momentos para a democracia. Será, aliás, um lugar-comum: muitos com mágoa, uns poucos com felicidade e a esmagadora maioria coloca-se indiferentemente. Já muito escrevi aqui sobre este tema – é crucial, trata-se do mais básico a ser garantido na nossa sociedade! -, venho hoje deixar mais algumas notícias que nos devem fazer refletir, mas, acima de tudo, um exemplo que testemunhei sobre o assunto.
Um cientista francês foi impedido de entrar nos Estados Unidos por ter sido encontrada no seu telemóvel uma mensagem crítica de Donald Trump. Três professores de Yale que estudam o fascismo decidiram sair dos EUA por não os verem como um local seguro – entre o desinvestimento e as restrições à liberdade de expressão, inclusive com detenções. Nem as exposições sobrevivem e são agora alvo de censura.
Estes episódios são sonantes, são impactantes, quanto mais não seja, estão presentes nas notícias. São macroagressões à democracia. Agora gostava de passar às micro. Estas microagressões provavelmente vão-nos passando despercebidas, mas se olharmos atentamente, percebemos que atuam como térmitas para o enfraquecimento da nossa democracia.
Nos passados tempos estive envolvido num processo eleitoral para a eleição dos representantes dos estudantes no Conselho Pedagógico da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Trata-se de uma eleição para um órgão de faculdade, nada que exija uma grande logística, complexidade, formalidade, mesmo sendo uma eleição com mais de cinco mil eleitores. É uma eleição com uma importância modesta: impacta a vida destes milhares no seu quotidiano letivo, mas é circunscrita. Trata-se de eleições, portanto, simples.
Existem milhares de eleições deste tipo circunscrito que acontecem no nosso país, a esmagadora maioria com elevadas taxas de abstenção. Só por si, isto já é uma microagressão à Democracia, por constituir uma parca participação.
O meu relato, contudo, assume contornos mais caricatos. Trata-se de um problema que nem surge entre as listas candidatas, mas em relação à comissão eleitoral. Perante a proximidade do espaço e a simplicidade da eleição, esta estrutura decidiu sem qualquer abertura ao diálogo, impor um calendário que não está previsto no regulamento. Não satisfeita com o gozo do poder (parca ambição), exige ainda que a afixação dos cartazes seja feita com uma fita-cola específica indicada pela faculdade, sob pena de serem retirados. Na verdade, a faculdade indicava outro tipo de fita-cola e a organização da pessoa que presidiu à comissão dias depois usou uma fita-cola também não indicada. Tratou-se de uma forma de obstaculizar a campanha. Não satisfeitos, no dia das eleições decidiram fazer uma leitura abusiva do regulamento e arrancaram (literalmente, deixaram pedaços de fita-cola atrás) os cartazes. É curioso que tenham sentido necessidade de tamanho drama numas eleições em que só uma das listas tinha propostas. A direção da faculdade preferiu ficar em silêncio perante esta obstrução eleitoral. Também há no meio desta história um possível conflito de interesses, mas o país já está farto de falar disso.
Estas pequenas ações de má-fé e abuso de poder são microagressões à nossa Democracia por desrespeitarem os processos previstos, dificultarem a participação, a informação, perverterem os ideais democráticos. E acontecem por todo o lado, se tivermos atenção, muito além de momentos eleitorais, até – quando vemos estruturas democráticas como meras formalidades, por exemplo.
No dia das mentiras era bom poder dizer que tudo isto são tretas, mas a treta é a situação em que estamos.
Se há algo que a minha licenciatura em Filosofia me tem ensinado é que as palavras importam. Não no sentido de pretensão intelectual, mas do nosso entendimento do quotidiano: parte relevante do nosso pensamento consciente é através da linguagem, comunicamos com o outro com palavras, oralmente ou por escrito, nem que seja para pedir o comando da televisão ou queixar de ter quase deixado as chaves em casa. Se há mundos platónicos, a linguagem é uma forte candidata. Às vezes convém pararmos e pensar um pouco no que dizemos ou ouvimos além do que dizemos ou ouvimos. Escolher uma palavra e não outra até pode ser inconsciente e inocente, mas tem certamente consequências. O melhor de tudo: a língua é dinâmica.
Há palavras azaradas, e não por acaso, que vêm os seus significados afunilados. «Crítica», por exemplo, é normalmente entendida como uma atividade destrutiva, uma opinião negativa sobre algo. Ora, ela na verdade pode ser interpretada de forma mais abrangente: como uma análise racional sobre algo. Ou seja, a crítica como inerentemente construtiva e que até pode ser favorável! É assim que se entende a palavra no Iluminismo e ainda nos nossos dias na Cultura. Outra palavra usurpada é «radical»: entendida como algo extremo, drástico, tem uma aceção muito mais importante, a de estrutural, de ir à raiz, de ver o que está na base. «Crítica» e «radical» são, portanto, palavras importantes para quem pretende ter um espírito crítico (olha-a aqui!), não deixa de ser de questionar, então o porquê de tanto falarmos na importância desse espírito, mas ao mesmo tempo rotular desfavoravelmente as suas caraterísticas.
O comodismo e a autoimagem talvez sejam a resposta: queremos manter a aparência para nós próprios que somos os maiores sabichões, sem fazer qualquer esforço. Tornamo-nos cínicos e só nos movemos se a isso formos obrigados. O pessimismo, ao mesmo tempo, também é uma palavra maldita – a não ser que seja antropológico. Nada deste parágrafo é produto nosso enquanto indivíduos, mas enquanto membros de uma sociedade. Permitam-me, então, avançar com um paradoxo que defendo: a crítica pessimista é uma forma de otimismo: trata-se de apontar as brechas, o que permite sará-las e continuar a construir.
Todos os dias lido com estas amarras contemporâneas: fadiga, desvalorização pessoal, culpabilização,... Sinto-me inerte. Não sou só eu, provavelmente também é assim que te sentes (chegados a este ponto, julgo que o «tu» se permite). É daqui que surgem os problemas crescentes de saúde mental. Como chegamos a este ponto? Através de todas as narrativas que vamos engolindo: as expectativas sobre a vida padrão, a competição omnipresente, a ânsia pela novidade, um consumismo que vai muito além das nossas relações materiais…
Arrastamo-nos quando tudo isto nos esgota. No entanto, agora, neste momento, já não só me arrasto: eu digo que me arrasto, eu escrevo que me arrasto, eu sei que me arrasto. Neste momento tomo consciência da minha condição. Sou pessimista e tenho as brechas elencadas. Vejo-as. Estão naqueles parágrafos, como também aos nossos olhos: a renda que pesa, a precariedade que ameaça, até no buraco da estrada, ou na árvore que não existe. Está nas bombas que ainda caem e na fome que existe.
Já não falamos só de palavras. A desigualdade e o ódio são bem materiais. Agora sabemos que estamos num mundo. Sabemos que esse mundo pode ser mudado, tal como eu posso comer esta clementina. Qual é o nosso tesouro? A motivação, a esperança de mudar o que percebemos ser concretizável. Porque é um tesouro? Porque é o que nos permite quebrar a inércia e agir.
Há muitas formas de agir, pelo meu lado, sou candidato à Assembleia da República e gostava de contar com a tua motivação para mudarmos vidas.
Estas eleições antecipadas vêm com um cheiro azedo. O meu receio é de que seja a democracia putrefacta, ou melhor, o espírito democrático. Permitam-me começar com o caso e depois, então, desenvolver.
No passado dia 13 de março, o jornalista Rodrigo Guedes de Carvalho da SIC publicou no Expresso um artigo de opinião, «Eu não sou medricas, tu é que és», sobre as eleições antecipadas. Numa das citações que circulam pelas redes sociais do Expresso, é possível ler-se «Vamos todos perder tempo e crença com mais campanhas». Para ele, Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro «parecem querer servir, antes de tudo mais, as próprias claques».
É-me difícil ler estas palavras sem nelas colocar a ambição política que este jornalista pode ter. Trata-se de uma demagogia centrista, na medida em que é um comentário de café que pretende afirmar-se como o bom senso, que culpa os partidos políticos, sem qualquer visão construtiva. Já dizia o outro: a democracia representativa é o pior de todos os regimes, à exceção de todos os outros. Eu próprio acho que o sistema deve ser estruturalmente mudado, mas apontar baterias aos partidos desta forma não é outra coisa que não desonestidade intelectual.
O pior destas afirmações nem foi isto, mas a conclusão que se retira: as eleições como «perda de tempo». Estamos a falar de um pivô de um dos telejornais mais vistos do país.
Esta retórica não é nova e muitas vezes vêm associada à questão financeira: eleições como um desperdício de dinheiro. É certo que as eleições custam dinheiro [1], tal como tudo custa. As eleições servem para que os cidadãos definam os seus representantes, as pessoas que farão decisões que impactarão as vidas de todos nós. Elas são a mais direta demonstração do poder popular. Esta é a forma pela qual o nosso sistema funciona, considerar isto um custo é não valorizar a liberdade que temos. Volto a repetir, este sistema podia ser melhor, devia ser mais democrático do que é, mas isso não significa que o atiremos para o canto e esperemos por um autocrata que venha cuidar de nós. Significa que somos nós que nos devemos interessar e construir para a sua melhoria.
Sobre o «problema» do financiamento seja fácil argumentar que os partidos devessem juntar o seu próprio financiamento, em vez de terem direito a subvenções públicas. Que se note que existe essa possibilidade, mas está fortemente regulamentada. Pois bem, veja-se o caso dos Estados Unidos em que esse financiamento é do encargo dos candidatos, perguntemo-nos se o que queremos é a possibilidade das elites económicas escolherem quem tem meios para passar a sua mensagem [2][3].
Esta retórica está em linha com aquela neoliberal e, portanto, fica-se com a sensação que há quem queira privatizar até as eleições. Isto não é descabido, tendo em conta a forma como encaramos a ciência, o modo como nos sentidos sem chão e o jogo de poderes que existe, o discurso tecnocrático sai quase como que algo natural. Só que não o é e, na verdade, não é mais do que o desejo de consumar o sonho capitalista de explicitamente tornar a nossa democracia numa oligarquia explícita.
Para sermos funâmbulos à beira do abismo, antes fossemos nietzschianos.
[3] https://theintercept.com/2024/08/24/dnc-aipac-squad-cori-bush-summer-lee/
Bem sei que não será uma opinião consensual, «uma música muito bonita, mas não eurovisiva», mas convém falar de outra coisa além dos dissabores da política internacional para manter a sanidade. Hoje trago a «Deslocado», dos NAPA, a vencedora por um triz do Festival da Canção 2025.
Este ano, por coincidência com outros compromissos, com muita pena minha, não consegui acompanhar as semifinais do Festival. Recuso-me a vê-las desfasadas ou numa altura posterior, pelo que não as vi de todo. Recuso-me, porque a magia do Festival é colocar centenas de milhares de portugueses (no passado eram milhões) unidos na celebração de cultura. Principalmente numa cultura muitas vezes experimental, um palco público para se darem a conhecer novos artistas e sonoridades. Julgo que este é um grande orgulho para a televisão pública. Aplico o mesmo princípio à Eurovisão que agrega centenas de milhões de pessoas, consistentemente mais de 160 milhões através das televisões. Se existe uma boa televisão, então será esta que apesar de nos colocar nas nossas casas, estabelece pontes entre nós.
São muitas as discórdias que podemos ter, até porque existe um modelo competitivo que nos direciona para a escolha de clubes, mas nem tem de ser assim. Na verdade, nem temos de apoiar uma música, não temos de apoiar a escolhida portuguesa, só por ser «nossa», até podemos apoiar a de outro país. Estes momentos são de riqueza pela diversidade, não de fechamento sobre nós. É uma grande festa. Muitas são os que dizem que «antes é que era bom», mas o saudosismo há em todo o lado e significa o que significa. Existe um grande público jovem com um espírito cosmopolita que assegurará este Festival como um momento de fraternidade.
Mas olhemos para a música vencedora, é sobre ela que quero falar. «Deslocado» tem uma melodia lindíssima e uma letra extremamente elegante. Talvez o único ponto que fico com pena de não ter sido alterado é a utilização direta da referência à Madeira: tratando-se de um sentimento tão universalizável, é pena esta menção restritiva, que podia ter sido alterada por uma subtil rima; não obstante percebo que seja justamente essa ilha que lhes é berço a grande protagonista e a base de toda a música, sendo, na perspetiva da banda, uma justa homenagem.
«Deslocado» descreve o sentimento de vazio de alguém que vive fora do local das suas raízes. O próprio nome já o indica, podendo facilmente ser um hino de qualquer emigrante, mas este nome é uma subtil abreviatura para «estudante deslocado». É esta a realidade que dá origem à letra e que me parece bastante presente no verso «Por mais que possa parecer / Eu nunca vou pertencer àquela cidade». Nós de facto estamos integrados numa vida social e académica, os nossos familiares provavelmente até acham que gostamos mais de estar na «cidade», mas a verdade é que esse local em nós é pensado sempre como um «aquela» e não «esta». Numa poética portuguesa com o recurso ao mar e à saudade temos referências tão diretas como metafóricas que ecoam em qualquer pessoa (mesmo naquelas que sempre viveram no mesmo local). A melodia fica na cabeça, com uma boa campanha e uma prestação em palco que consiga passar essa mensagem, esta música é bem capaz de conquistar um mundo que procura paz, harmonia, fraternidade, contra os senhores da guerra; uma música que não fala da guerra, mas na paz, aquela que é de cada um de nós enquanto indivíduos, mas que só existe por haver um «nós».
Concluo com o cerne do refrão: «O mar de gente / O Sol diferente / O monte de betão».
Vai-se a ver e afinal aqui sempre se esteve a falar de política.
A minha tarefa há muito que já não será indicar que algo está mal, toda a gente o sente, quando muito será tentar mostrar precisamente a causa dessa intuição. Não obstante, olhando para o que aqui posso escrever, penso que a responsabilidade de quem está deste lado é exortar à ação.
Parece que aqui se vem colher a dose diária de pessimismo. Que chatice esta. Eu não fico feliz, mas só nos estaríamos a iludir se quiséssemos ignorar que a AfD, partido de extrema-direita alemã com ligações neonazis, acabou em segundo lugar com 20% dos votos. A extrema-direita alemã. Se os alemães parecem já ter perdido a memória, o que será dos outros?
Não bastasse a falta de memória, temos ainda de levar com as barbaridades que diariamente saem da Casa Branca. Então não é que Trump acabou com os EUA como «líder do mundo livre»? Perante o presidente de um país em guerra, um país invadido, a preocupação é sobre a ausência de fato. Relembremos a imagem de Musk há duas semanas com o filho na Sala Oval e só nos apetecerá rir com a absurdidade com que a pós-verdade se desenrola aos nossos olhos.
Por cá, temos um governo que é ou extremamente incompetente, ou nos toma por indivíduos desprovidos de inteligência. Não é que quando eram os outros a governar se exigia uma reforma na transparência, incluindo o preenchimento de formulários sobre incompatibilidades, e agora, quando chegam ao governo, ignoram completamente essa necessidade?! 18% dos portugueses estão de tal forma fartos do mundo político que são capazes de votar nos autofágicos e Montenegro brinca ele próprio com os seus conflitos de interesse. «Seria justo e até adequado, fechar tudo, abandonar tudo só porque circunstancialmente fui para Presidente do PSD e agora estou Primeiro-Ministro?» Montenegro ficou admiradíssimo quando um dia estava no seu escritório e o arrastaram para o PSD sob o forte desígnio nacional. Que massada aquela.
Outro dia, uns amigos riam-se quando lhes dizia que cada vez mais me achava num ideário epicurista, mas não lhes era difícil ver a ligação, até porque prontamente perguntaram: queres um Jardim? O epicurismo foi uma escola da Filosofia Helenística, que defendia uma certa clausura em comunidade. Como outras escolas desse período, surgiu como forma de suportar a vida, apaziguante as angústias e receios. Parte dessa receita, que foi vista injustamente como essencialmente hedonista, consiste em viver com aqueles que comungam da mesma perspetiva. O Jardim, mais do que uma escola de Epicuro, foi uma comunidade onde viviam aqueles que partilhavam os ensinamentos desse mestre. Num mundo de incertezas como pode ter sido a Grécia de IV a.C., podemos tender-nos a voltar para os nossos amigos e querer encontrar um refúgio. Ora este tempo não é para isso. Por muito que queira ceder a essa visão, aquilo que precisamos é da nossa ação, da nossa atitude, do nosso arregaçar de mangas. O mundo está do avesso? Pois bem, então é preciso é pô-lo direito, não fingir que não se está a ver. Talvez nos seja tão fácil ficarmos no nosso (suposto) refúgio, porque não vivenciamos com os nossos sentidos as crises que assolam o mundo. Às vezes até parece que elas só existem na comunicação social. A verdade é que é óbvio que tanto o emagrecimento da carteira como o aumento da temperatura se fazem sentir ou se farão sentir para a esmagadora maioria de nós.
É preciso sair, falar, unir, organizar. Talvez pareça muito, mas nós somos tantos que pequenas atitudes podem ter grandes repercussões. Mais vale tentarmos uma boa solução para um amanhã melhor, do que canalizar estas energias para o ódio ou o bota-abaixo de sofá. Parece mentira, mas estamos juntos.
Temo estar sempre aqui a trazer assuntos que soem algo distantes de nós. Julgo que fique explícito o seu valor. Hoje poderia tentar olhar para as eleições alemãs, mas para evitar saturar este espaço com assuntos internacionais (que são muito nacionais também), passo para algo mais fundamental.
Hoje trago uma preocupação que me tem sido recorrente. Este será um texto mais de perguntas, na esperança de surgirem respostas. Qual o problema, afinal? Informação.
Muitas vezes se fala da nossa época como aquela da informação, até se diz que ela vale mais do que o outro (aludindo, por exemplo, à utilização de dados para publicidade personalizadas). Aquilo a que assistimos é a um aumento exponencial da informação. Refiro-me a livros [1], artigos científicos [2], mas também aos próprios dados presentes na internet [3]. Certamente que o aumento da formação, nomeadamente no ensino superior com produção académica, explica parte deste fenómeno [4], contudo, a produção diária de informação nas redes sociais, ou em sites pessoais, também constitui dados e certamente numa contribuição ainda maior.
A minha questão é como lidamos com este aumento da informação? Como encontramos o que queremos? Que ferramentas ou algoritmos devemos usar para filtrar essa informação?
Estas perguntas têm corolários muito diretos na pedagogia: que informação é relevante ser ensinada e faz mais sentido ensiná-la ou ensinar modos de pesquisa?
Não obstante, estende-se a mais áreas e o jornalismo encontra aqui um desafio sobre como processar a informação rapidamente (e devidamente), assegurando a narrativa da verdade, por oposição à desinformação que nunca foi tão fácil propagar.
No mundo científico até nos podemos perguntar se fazem sentido publicações individuais, ou em revistas que é necessário pagamento.
Talvez a IA consiga ajudar a processar informação, no sentido de conseguir indicar com maior precisão precisamente aquilo que procurámos, no entanto, a mera apresentação desse suposto fim, não nos permite contactar com o contexto em que se encontra.
Aquilo que assistimos é a uma generalização no acesso à informação, quer por quase 70% ca população ter acesso à internet, pela maior formação ou mesmo pelo aumento da informação que até agora problematizei. À partida, isto é algo positivo: nós refletimos com base em informação, pelo que quanto mais informadas, melhor. Só que a enormidade da quantidade de informação que existe imobiliza-nos: pelo facto de termos de filtrar imenso, de procurar imenso, e, por outro lado, pelo acesso aparentemente fácil, na medida em que com um clique é possível ter acesso ao maior dos livros, numa ilusão de conhecimento (facilmente confundimos a busca de um material com o seu estudo). Basta pensarmos na quantidade de coisas que transferimos para ler ou ver «depois» e acaba por nunca ser aberto – mas nós sentimo-nos, contudo, (falsamente) familiarizados com essas mesmas coisas.
Mais uma vez aqui posso evocar a honestidade intelectual sobre a qual muito tenho insistido, vindo a par do espírito crítico. Certamente duas atitudes essenciais para lidar com esta questão. Mas aquilo que me parece é que estamos perante algo maior do que a ação pessoal: são as instituições, no seu termo mais lato, que se terão de adaptar a este tsunami de informação.
[1] https://ourworldindata.org/books
[3] https://www.statista.com/statistics/871513/worldwide-data-created/
[4] https://www.dgeec.medu.pt/art/ensino-superior/estatisticas/diplomados/652fbe07bd5c2b00958292c9
Este sábado fui assistir ao filme do momento: Ainda Estou Aqui. Depois de dezenas de indicações, de várias vitórias e do estrelato da nomeação ao Oscar, muito já foi dito sobre essa obra, sendo que qualquer crítica que posso fazer pecará. Compele-me a consciência, não obstante, que aqui escreva sobre aquela que é a mensagem coletiva mais poderosa do filme – que, tenha-se em mente, reconstitui uma história verídica.
Acompanhamos os passos de uma família que vive feliz. Está-se em plena ditadura militar no Brasil, mas o ambiente soa a alguma liberdade. Trata-se de uma família com um estatuto económico bastante confortável, uma casa que podia ser entendida como «progressista» pelos nossos padrões, com elementos de contracultura, principalmente através do acesso aos discos mais recentes de artistas nacionais e internacionais. Ora, esta imagem é um desafio para nós: como pode uma ditadura, que é em tons de cinzento, ser retratada nestas cores vivas? Pode porque falamos de pessoas. Pode tal como as pessoas viam a cores, mesmo quando a televisão só mostrava imagens a preto e branco, ou como as estátuas gregas eram coloridas, apesar de hoje as vermos monocromáticas. Somos seres humanos independentemente do contexto em que estamos, somos sempre mais parecidos do que julgamos, há sempre uma fútil sensação de familiaridade. A mística parece desaparecer com o fim da ignorância. Todo o resto do filme é a desconstrução destas cores: mostrar a tragédia de uma família que se confunde com os tons de cinza – e o combate, portanto, pela sua emancipação destes.
Isto faz-se lembrar o que Sérgio Godinho canta: «O fascismo é uma minhoca / que se infiltra na maçã / ou vem com botas cardadas / ou com pezinhos de lã». Privar de liberdade não é necessariamente ser preso ou ficar agrilhoado, é negar a autonomia, a autodeterminação. É possível haver alegria num ambiente de censura: não nos enganemos, essa não passará de uma aparência, um sentimento que buscará na simplicidade, uma vez que os nossos caminhos fogem à nossa vontade. A minha avó ao pensar no passado recordava os momentos de felicidade como algo genuíno e ingénuo.
Este tema da felicidade teria pano para mangas, mas permitam-me parar a divagação por aqui com estes exemplos de alerta para que as aparências iludem, que as imagens que construímos podem ser perigosas. Hitler foi eleito. Não foi de um dia para o outro que a liberdade se foi, foi-se perdendo. Neste processo temos de estar atentos ao outro: o poder quer o povo dividido, então vai criando inimigos que se confundem com grupos sociais e são esses os primeiros a perder a liberdade. Quando dermos conta, também a perdemos.
Esta semana não trouxe melhores notícias que as anteriores. Trump publicou a famosa citação «Aquele que salva o seu País não viola nenhuma Lei», que simboliza a possibilidade de ser julgado de forma diferente perante uma mesma lei - quem tem o poder, tudo pode. E nos EUA o poder está com um rosto mais visível do que nunca: uma oligarquia que consiste na esmagadora influência política que uma elite económica detém. Musk levou o filho para a Sala Oval e mostrou ao mundo um triste espetáculo de luta de egos, mas, mais do que isso, do assalto à democracia. Desde o conflito de interesses até ao interromper o presidente, tudo.
Por cá parece que a Assembleia da República virou tasca à conta de 50 deputados cujo único plano é a satisfação do interesse pessoal. Como se estes momentos que erodem a confiança nas instituições não fossem maus o suficiente, Montenegro esforçou-se para ser incompetente na garantia de transparência. Pezinhos de lã.
Combater os ventos fascizantes é um dever que não pode ser ignorado. Sejamos capazes de estar atentos, questionar, perceber quem sai beneficiado é um bom indicador, e refletir com honestidade intelectual.
Estava eu à beira do horror de preencher esta página com mais um assunto da atualidade política, quando me deparei com um vídeo no TikTok de um influencer português que me obrigou a mudar o rumo.
De que trata o vídeo de Miguel Queirós que reuniu 249 mil gostos e 918 comentários? É a caricatura de um estudante de uma universidade privada que colocado em confronto com obstáculos na sua vida ou na de um outro, como um assalto, uma mudança de pneus, ou um tropeção, reage com conhecimentos teóricos que estão presentes na escolaridade obrigatória. Por exemplo, reage ao assaltante começando a tocar flauta desajeitadamente, ou chega junto de um transeunte que tropeçou e questiona-lhe de que tipo é a oração subordinada que utilizou e, claro, num outro exemplo, ao ver o pneu furado, coloca-se a «medir o ângulo do furo», concluindo que pelo Teorema de Pitágoras não o consegue ajudar. São só alguns dos exemplos.
O vídeo é claro, de humor. Confesso ter-me rido bem a vê-lo, o problema surge quando, doentiamente, tive curiosidade em ler os comentários. Julgo poder aqui dizer «doentiamente» por todas as razões e mais algumas que este espaço de opinião já foi colecionando. Ora, eu ri-me da absurdidade do vídeo, denunciada explicitamente pela caricatura afetada da personagem, as pessoas dos comentários que li (doentiamente bastantes), contudo, riam-se das situações. Rapidamente perdi a vontade de rir.
O que está explícito nuns e subjacente em todos é de que na escolaridade obrigatória são ensinamos muitos conteúdos que em nada beneficiam as nossas atividades do quotidiano. Há um descentramento entre aquilo que é ensinado e aquilo que é utilizado. Os exemplos mais comuns normalmente referem o choque com a burocracia, algo para o qual não há preparação. Não vou abordar este assunto dizendo que quase todos os exemplos apontados estão presentes em várias disciplinas, como também em cidadania – deixo aos queixosos a tarefa de lerem os programas -, quero mesmo enfrentar as mais teóricas das afirmações que são afirmadas e defender a sua importância.
Neste mundo consumista em que vivemos preocupamo-nos primeiramente pela substância, pelo conteúdo, e tendemos a ignorar a forma, as estruturas. Pois bem, saber o Ciclo de Krebs, reconhecer tipos de orações, ou resolver uma equação de segundo grau não possuem valor somente por si, nem mesmo pela articulação de conteúdos, o seu grande contributo ao nosso desenvolvimento está no seu poder cognitivo. Com o desenvolvimento tecnológico, particularmente do digital, a nossa memória parece ter a tendência de diminuir, por termos ajudas externas, o mesmo com a nossa capacidade de raciocínio. A escola não só ensina como exercita. Treina as nossas faculdades cognitivas.
Depois há o lado do conteúdo que está na fronteira com a forma: este conhecimento criticado por ser excessivamente teórico, às vezes mesmo abstrato, não é entendido como uma grelha básica de interpretação. Nós queremos algoritmos, no sentido de instruções, para todas as nossas tarefas, mas se não soubermos a teoria de onde eles advêm, os problemas serão muito mais difíceis de resolver. Para desconstruir é preciso saber construir primeiro.
No último artigo falei da falta de seriedade que abunda no espaço público por parte de políticos, comentadores,…, mas ela vai muito mais além, aloja-se na multidão. Faz lembrar Le Bon. Quando temos um grande número de pessoas a dizer algo, o senso comum, ligamos um automatismo em que nos deixamos inebriar e encarreiramos nas falácias ad populum. Acomodamo-nos neste conforto que mais não é do que a ilusão de pertença. Talvez o aspeto mais perverso seja que quando temos esta atitude até temos a sensação de sermos os mais sábios no espírito crítico. Volto ao mesmo: não podemos falar de espírito crítico sem honestidade intelectual e vice-versa, claro.
Entre as deambulações sobre a pós-verdade, o bullshit, as fake news, convém não nos perdermos na interpretação desta realidade em que vivemos. Estes novos conceitos e talvez uma abordagem que parece demasiado teorizantes são uma forma de tentar complexificar as nossas grelhas de interpretação de forma a precisar aquilo que vivemos e discernir caminhos. No meio disso é fácil alguém que esteja ligeiramente descentrado do debate, sentir-se deslocado e a leste daquilo que se diz. Permitam-me simplificar estas questões desembocando-as num conceito que não deixará dúvidas: seriedade.
Seriedade como quem diz: integridade de caráter, ou ser sério, ou seja, que age com dignidade, que é sincero, honesto, real. Muitas destas palavras escondem uma imensidão de perguntas, mas fiquemo-nos pela imagem do senso comum, que, aliás, é a que confere estes significados de dicionário. O que nos falta é, portanto, seriedade. Falta-nos dignidade e sinceridade. Que se note brevemente que aqui não coloquei seriedade como algo que se opõe ao que é risonho, muito pelo contrário, mas deixemos essa questão de lado por hoje.
Há algum tempo, mas pouco, o CHEGA publicou um vídeo no qual perguntava a transeuntes lisboetas se concordavam com a possibilidade de imigração e depois questionavam se esses mesmos interlocutores acolheriam esses imigrantes nas suas casas. Esse vídeo mostrou um punhado de pessoas que responderem que sim e que depois confrontados com a segunda pergunta responderam não. Aquilo que o CHEGA quer mostrar é como estas pessoas são incoerentes e nem elas querem o que defendem. Este vídeo tem dois problemas: na premissa e na execução. A premissa é errada: eu posso defender algo que não quero para mim - a isto chama-se direito. Defender só aquilo que faz sentido à minha luz é puro egoísmo. Essa argumentação só faz sentido numa lógica de restrição de Liberdade, que foi o que elaborei na semana passada, por isso não me alongo. O problema de concretização prende-se com o facto de que nessa resposta uma disse que «sim» e todas as outras, as que responderam «não», prontamente disseram que não tinham espaço disponível. É intelectualmente desonesto e de uma comunicação incompetente achar que qualquer uma dessas respostas significa o «não» que quem concebeu o vídeo quer que signifique.
Estas questões de desonestidade intelectual perturbam-me particularmente. Não são meras mentiras ou falácias, são ataques à inteligência alheia, são o reflexo de uma postura de ortodoxa presunção.
Esta semana a política aduaneira estadunidense é um dos assuntos mais falados, trata-se de Trump começar uma guerra comercial com os seus países vizinhos. Impressiona-me a forma como ele sempre prometeu este protecionismo, as tariffs, como forma de sancionar, culpar?, os vizinhos e ao mesmo tempo prometeu uma descida de preço nas compras e os norte-americanos querem os dois. Escusado será dizer que os preços aumentam. Ou são ignorantes, ou sadomasoquistas – e não dos que respeitam o consentimento. Este protecionismo não é mais do que uma forma de desviar as atenções e inflamar o ego de um homem. Que o mundo consiga seguir a seriedade de Claudia Sheinbaum.
Para concluir, não resisto a confrontar a seriedade com a idade: por muito que se tente correlacionar a idade positivamente com a seriedade, o nosso mundo não deixa de nos provar quotidianamente como estamos errados. Parte substancial da juventude de hoje está mais consciente das crises em que vivemos do que muitos daqueles que constituem os atuais decisores. Isto para não falar das dissonâncias cognitivas dos que negam confiar na juventude, apesar de passarem a vida a reclamar que nenhum jovem quer saber do quer que seja – isso também é falta de seriedade.
Não há espírito crítico sem honestidade intelectual e vice-versa. Mais seriedade. Mais honestidade intelectual.
Se há algo que se normalizou no espaço público, é a mentira. A abertura à desinformação não é algo que nos espante particularmente, afinal há já muito que se diz que «todos os políticos são mentirosos». Associamos mentira à prática política. Daí à indiferença sobre qual é a verdade, é um passinho. Podia alongar-me a falar neste assunto, mas ainda na semana passada tentei mostrar como a desinformação parte de um mecanismo para nos dividir de forma a se manter um sistema que nos é prejudicial. Permitam-me hoje abordar uma das mentiras que me parece mais gritante, e, no entanto, das mais estruturais do atual debate político. Uma com a qual esbarramos a cada slogan. Uma que a mais simples lógica rebate. Refiro-me à mentira de que os movimentos conservadores, particularmente os demagógicos de extrema-direita, são paladinos da Liberdade.
É a palavra que a extrema-direita tem sempre à mão. Estas semanas têm sido marcadas pela política norte-americana que nos traz um perfeito exemplo disto. Estas pessoas afirmam-se como defensoras da Liberdade. O valor que nos confere autonomia (palavra de origem grega que significa a lei de nós próprios). A Liberdade é a nossa possibilidade de emancipação, de podermos agir e ser como bem entendermos – naquele que é o quadro legal, ou seja, dentro do respeito pelo outro. Este é aliás o único que a Liberdade pode encontrar a esta luz: a Liberdade do outro. Dividamos a apropriação da Liberdade pela extrema-direita em dois momentos: a reação e a ofensiva.
A Liberdade entra no vocabulário da extrema-direita certamente por ser uma palavra bonita, algo com que todos nos queremos identificar. Não obstante, ao olharmos para a retórica desse movimento apercebemo-nos que a Liberdade é encarada primeiramente como Liberdade de expressão: aquilo que é propagado é que existe uma agenda woke que estabelece uma cultura de cancelamento (silenciamento) sobre aqueles que discordam dessa agenda. Normalmente, são os grupos feministas ou queer aqueles acusados de o fazer, mas também aqui podemos acrescentar ambientalistas, pacifistas,… Ou seja, o que a extrema-direita reivindica é o suposto direito a poder ser misógino ou xenófobo, por ser Liberdade de expressão. Dentro deste raciocínio está uma mentira: a cultura de cancelamento não existe em Portugal e mesmo nos EUA aquilo que mais se vê são vozes que propagam o seu discurso de ódio pelas redes sociais, pelas televisões, pelos jornais, pelos livros,… afirmando estarem a ser canceladas, mas a fazê-lo literalmente com acesso a todos os meios de comunicação. O raciocínio em si também é uma mentira: discursos que incitam ao ódio segregam e matam, não são um exercício de Liberdade, mas de libertinagem por condicionar a Liberdade do outro.
Mas não queria avançar já, vejamos o segundo momento. Perante a suposta perda da possibilidade de tudo dizer, a solução é restringir narrativas. A solução a não ter de se respeitar pessoas trans é eliminá-las legalmente. A solução para se poder falar como bem entender de pessoas LGBT é banir das escolas livros que contenham essas temáticas.
É isto que me causa a maior espécie: como podemos olhar para alguém que pretende restringir a Liberdade do outro e dizer que esse é que é o defensor da Liberdade? A resposta não é difícil: é afirmando que existem Liberdades maiores ou menores dependendo de quem falamos – é a destruição do Estado de direito. A extrema-direita é incapaz de perceber que aquela terceira pessoa contra quem falam pode bem ser um filho, um pai, um amigo. Ao restringirmos a Liberdade do outro, restringimos a nossa própria Liberdade.
Este domingo que passou tivemos um aperitivo daquilo que nos espera de agora em diante do outro lado do Atlântico. Muito foi o alarido sobre o fim da rede social TikTok nos Estados Unidos marcado para o dia 19. De facto, a partir desse dia, apareceu uma mensagem na aplicação a afirmar ser impossível abri-la, mas já com um tom de esperança: a declarar a sorte de Trump querer impedir o banimento. Qual não é a surpresa de poucas horas depois, ainda dia 19, portanto, já aparecer uma mensagem de boas-vindas a agradecer a Trump os «seus esforços» e, portanto, a permitir a utilização da aplicação, como se nada fosse. Relembremos que a tomada de posse presidencial está marcada para amanhã. Aquilo que continuaremos a ver serão jogadas de bastidores, muitas vezes bem às claras, que denunciam a oligarquia e as agendas pessoas dos seus agentes, usadas como uma forma de propaganda. É claro e evidente que o poder económico abraçou esta virada que nos reporta para tempos sombrios: desde um governo composto por vários multimilionários, a grande influência de Musk às grandes redes sociais estarem todas orientadas.
Quero acreditar que a pergunta que está nas nossas mentes é de como aqui chegámos. Em 2017 muito se perguntou. Em 2020 e 2022 parece que fazer essa pergunta podia ser rasgar uma frágil harmonia. Hoje essa pergunta é crucial, porque como ela envolve a memória histórica de um dos mais horrorosos e trágicos episódios da história humana, o Holocausto, pode ser que quem ainda se iluda possa abrir os olhos. Desde a década passada se diz: estamos a experienciar o ressurgimento de uma onda fascista, de movimentos autoritários que restringem a liberdade com a promessa de segurança e estabilidade.
Permitam-me a ousadia de aqui trazer um mecanismo que me parece central para explicar esta deriva que também sentimos no nosso país (basta ligar a televisão para ver como nos querem tornar mediaticamente e politicamente nuns EUA de marca branca). Esse mecanismo está presente em quase todos os artigos que aqui escrevo, mas na sua maioria das vezes não está explícito: é o dividir para reinar. É a polarização das questões. Não me interpretem mal, o problema aqui não é a existência da polarização: se houve um pensamento único, então já estávamos num caminho irreversivelmente mau. O grau da polarização é um problema, certamente, por impedir a discussão estruturada, mas, acima de tudo, o grande problema reside nas questões: o nosso esforço é desviado para temáticas que não são estruturais. Desta forma, enquanto se discute a cor da parede, há alguém que a vai partindo – e, pasme-se, esse alguém é o mesmo que alimenta a discussão da cor. Quando se for a ver, já não há parede para pintar.
As redes sociais são uma excelente forma contemporânea de instrumentalização: ao mesmo tempo que cria bolhas de pessoas com características semelhantes, vai introduzindo conteúdo de acordo com essas caraterísticas sobre assuntos polémicos. No Facebook, por exemplo, tenho sempre conteúdo de páginas de apologia ao Estado Novo a aparecer-me, apesar de clicar para ocultar. No TikTok aparecem-me várias vezes contas de extrema-direita, apesar de não seguir nenhuma. Esta é a instrumentalização mais direta, mas conteúdo feminista, LGBT,…, é facilmente usado como estímulo a esta polarização através de caricaturas.
A única forma de evitar a instrumentalização, quer das redes sociais, mas também aquela promovida pelos discursos políticos e até mesmo por órgãos de comunicação social é perguntar sempre o porquê. Quem?, como?, quando?, estas perguntas jornalísticas sobre o contexto que dão trabalho. Não é preciso estarmos a fazer sempre isto, mas quando dermos por nós a começar a pensar ou dizer coisas mais ortodoxas, é melhor ir confirmar.
Quem não vir esta semana como uma de loucos, certamente vive alienado desta realidade – e digo-o com a maior das humildades intelectuais. Entre assuntos regionais, nacionais e internacionais, é difícil não ficar indiferente, pelo menos atónito, com a absurda falta de bom senso, de ponderação, de honestidade,… Confesso que no trabalho de estudo que tenho para a escrita deste tipo de artigos, fico sempre espantado em como tenho a sensação que as coisas aconteceram há mais tempo do que aconteceram: a loucura está num registo acelerado, que nos inunda de exemplos.
Nos Açores temo a Sata a anunciar que pretende transforma-se numa empresa de low cost – não o diz diretamente, mas para aí caminha. Com a desculpa do corte de custos, pretende-se desmantelar uma companhia com um excelente serviço de voo para a tornar mais atraente aos olhos de quem a poderá querer adquirir no processo da privatização. O nosso bem-estar nunca é uma prioridade.
A nível nacional presenciámos no sábado a uma manifestação contra a xenofobia que juntou mais de cinquenta mil pessoas – na sequência do triste episódio da Rua do Benformoso. Até o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, bispo José Ornelas, foi vocal na defesa desta manifestação que considerou «uma acção bonita de dizer que ‘nós não nos resignamos’». Ao mesmo tempo, contudo, umas poucas centenas juntaram-se ao Chega para uma contra-manifestação onde se afirmaram as mentiras e a retórica violenta e de fragmentação do costume. Nas redes sociais até se deram ao trabalho de falsificar os panfletos da outra manifestação. Montenegro, o nosso primeiro-ministro, contudo, considera que estão em causa «dois extremos» e que ele deve ser encarado como a figura da «moderação». Com isto equivale-se a xenofobia ao seu combate, equivale-se a defesa dos Direitos Humanos ao seu ataque. Não nos esqueçamos que Montenegro é a pessoa que afirma que o aumento real dos casos de violência doméstica é só uma «perceção», porque aquilo que acontece são mais denúncias, mas que depois atira que «Não é preciso que haja muitos crimes para que as pessoas se sintam inseguras» para justificar operações policiais desproporcionadas que relacionam criminalidade com imigração – algo desmentido pelos factos e pelo próprio primeiro-ministro em junho. Dúvidas houvesse, somos governados por condescendentes sádicos extremistas.
Muito disto passa com a conivência da comunicação social, na medida em que muito do comentário político nas nossas televisões se tornou um espaço de desinformação. Até o Eça é instrumentalizado por quem claramente nunca o leu.
Os maiores delírios, contudo, parecem ter sido os internacionais. Trump ameaçou com uma ação militar para controlar a Gronelândia (território autónomo da Dinamarca) e defendeu a anexação do Canadá, além de querer mudar o nome do «Golfo do México» para «Golfo da América». Trump quer seguir o exemplo de Putin e a Europa emudeceu.
No meio disto, o poder económico cada vez mais às claras intervém na política (dentro e fora de fronteiras). Já não bastava Musk disseminar informação falsa sobre a política europeia, numa clara interferência, como ainda decidiu apoiar abertamente partidos de extrema-direita como os neonazis alemães da AfD. A Musk juntaram-se Bezos a censurar a publicação de um cartoon humorístico do jornal em que é dono (exatamente 10 anos depois do atentado a Charlie Hebdo) e Zuckerberg, dono do Facebook, anunciou que a plataforma vai permitir qualquer conteúdo de desinformação e ajudará Trump a fazer frente a uma Europa que impede a «inovação» e uma América Latina com «tribunais secretos». Perderam a vergonha de mostrar que os únicos interesses que defendem são os seus.
Este Natal foi diferente para a minha família: passámo-lo no Faial com os meus avós – em vez de virem a Santa Maria. Foi uma boa quadra festiva. Não é, contudo, um retrato biográfico em torna de uma consoada que quero aqui trazer. Antes, permitam-me discorrer sobre alguns pensamentos que fui tendo enquanto percorria as estradas faialenses.
Terminei o ano com um tom que pode parecer algo negativo ou pessimista – falar em «crítica» dá nisso. Nada mais longe da verdade, a missão de um espírito crítico é identificar as frechas ou abri-las até em lugares de maior fragilidade, de forma a poder construir um edifício que seja seguro. Por isso é que nós temos a conceção do progresso como algo contínuo, porque nunca está acabado. O que temos de refrear é a nossa visão do progresso como algo linear: estamos certamente num dos melhores momentos em que a humanidade viveu até agora em termos de conforto, mas, além desta ser uma realidade estatística, não pode ser dada por garantida. A crítica faz-nos refazer, melhorar. Bem sei que muitas vezes me perco em aspeto abstratos, quer seja pela dimensão teórica sobressair, ou por serem assuntos que não contactamos diretamente, hoje é dia de concretizar.
Nos passeios que fiz, o que mais me ocorreu foi «memória» - estava para aí virado por algum motivo. Em locais com presença humana a sua História faz-se por duas vias: a natural e a humana/cultural. Nos Açores é evidente, em qualquer ilha, que essas duas Histórias são uma. O nosso tesouro de memórias é imenso, nos seus sentidos mais latos possíveis.
Não obstante, as ruas da cidade da Horta parecem querer que a memória seja um segredo. Não é dado particular destaque a edifícios e, mesmo aquele que existe, não é concretizado num conjunto de informações. Claro que podemos ser nós a fazer a pesquisa, mas não são essas informações por si o essencial. É a concretização da memória no local, é a relevância histórica (relevância no seu sentido mais geográfico/cartográfico de relevo). É a importância que damos à memória o que lhe dá vida – é intuitivamente esse o funcionamento face ao esquecimento.
De facto, faça-se a nota, no que concerne a informações resumidas o sítio do turismo funciona quase perfeitamente (https://www.discoverfaial.com/cidade-da-horta/) – e ele parece-me bem feito. Talvez a maior ausência seja a do folclore, dos aspetos etnográficos, musicais e mesmo místicos, como lendas. Este último aspeto é particularmente importante, uma vez que estas histórias refletem o pensar e sentir que nos é anterior, e parece-me ser o aspeto menos valorizado nos esforços culturais. É pena, a própria produção cultural contemporânea poderia inspirar-se.
Há uma História mais, aquela que entrelaça o natural e o humano: a atividade sísmica. Só na memória de quem está vivo, habitam dois grandes sismos, sendo que foram uma constante desde o povoamento. Estes momentos resultaram em esforços resilientes e fraternos.
A Igreja de São Mateus, cujo edifício está em ruínas pela ação do sismo de 1998, é um excelente exemplo de um local onde se podiam preservar os vestígios e construir integradamente um centro de interpretação – reforçar as ruínas e criar um edifício que as permita ver do interior (mantendo a fachada exterior). Seria a forma de preservar os estragos que estes fenómenos deixam e mostrar aquilo que ao longo da História foi sendo superado diversas vezes. Há uma enorme potência nesta simbologia.
Também me deixa uma enorme pena que igrejas reconstruídas se encontrem fechadas, para evitar furtos, ao invés de se adotar um sistema de segurança – muitos destes espaços têm uma grande força arquitetónica e revelam o caráter renovador da reconstrução.
Memória não é mera conservação, até porque é dinâmica e deve ser inovadora, mas é sempre cultura.
No passado dia 13 de dezembro, a Câmara do Comércio e Indústria de Angra do Heroísmo (CCIAH) emitiu um comunicado a manifestar «a sua profunda preocupação face à» «desresponsabilização parlamentar», no âmbito da discussão em torno do Orçamento e Plano regionais para 2025. Feitas as contas, segundo a CCIAH, as propostas de alteração ao Plano totalizariam uns 30 milhões de euros adicionais, caso fossem todas aprovadas – o que, questiona-se, parece contraditório com a preocupação da oposição sobre a dívida. Mais, afirma-se que «todas elas [as propostas apresentadas no âmbito do Orçamento] sem a respetiva explicação de “onde se vai buscar a verba” para a sua execução.» As propostas refugiram-se na utilização da dotação provisional, que constitui, pelo ver da CCIAH, um entrave a «contas públicas saudáveis» e que «evidencia inconsciência política quanto à gestão dos recursos públicos e preocupação exclusiva com a agenda partidária e não com o bem comum.» O comunicado termina com: «A CCIAH espera que, assim, o Estado – a Região, no caso em apreço –, como pessoa de bem, tenha condições para cumprir as suas obrigações, nomeadamente com o tecido empresarial que, reiteramos, é o único que gera riqueza nos Açores.»
Permitam-me, então, alguns apontamentos. O que é agenda partidária se não a busca do bem comum segundo o respetivo partido? Culpabilizar os partidos por terem uma agenda política revela uma aversão à democracia enquanto pluralidade. E isto já diz tudo, aliás, dizem as últimas linhas do comunicado: o que deve haver é uma tecnocracia cuja linha científica é ditada pelos interesses empresariais. Eu percebo isto, afinal estamos a falar de uma Câmara de Comércio. Aqui o que mais me choca é que a comunicação pegou neste comunicado e assim o publicou, sem qualquer trabalho de verificação. Houve um partido, contrariamente ao comunicado, que não utilizou a dotação provisional como sugestão em algumas das suas propostas: o Bloco. Porque não interessa reconhecer esse facto? Talvez porque nesse caso a sugestão era diminuir os apoios às empresas para permitir a redução dos passes de autocarros, ou, no caso de outra, reduzir a promoção do destino Açores para a reabilitação do parque habitacional do Aeroporto de Santa Maria.
O que devemos retirar daqui? A necessidade de nos perguntarmos o que pode estar por detrás de algo. Marx expôs como as questões sociais e económicas impactam as nossas vidas; Nietzsche evidenciou o caráter artificial dos valores; Freud revelou como temos um inconsciente que nos influencia; todos questionaram aquilo que viram como aparências e fizeram por levantar o véu e espreitar. É esta visão crítica que precisamos em relação a tudo. Tudo: desde as mensagens que recebemos com hiperligação manhosas para encomendas que nunca fizemos, a discursos inflamos de políticos. O mundo digital já nos devia ter ensino isto. A literacia é aqui a palavra da moda e a palavra-chave. No entanto, não quero aqui defender um ceticismo radical, ou uma desconfiança crónica que desemboca num cinismo inercial: a dúvida não é um momento de ofensiva, mas de abertura; só nos é possível questionar quando temos boa-vontade, quando queremos realmente perceber algo. É a empatia e, sobretudo, a honestidade, especialmente, intelectual, as faculdades que nos permitem ouvir o outro, perceber, pensar e argumentar. Eventualmente, chegamos a conclusões comuns, se não, ao menos conseguimos defender melhor as nossas posições. Que a crítica não seja desculpa para o ódio, a divisão; que a estabilidade e o consenso não sejam desculpas para neutralizar a crítica: é este o meu desejo para 2025.
No passado dia 19 de dezembro, a PSP desencadeou uma operação de «prevenção criminal» no Martim Moniz, em Lisboa, um bairro que se destaca pela sua diversidade cultural e humana. Mobilizaram-se diversas unidades policiais, realizaram-se seis buscas não domiciliárias, e o objetivo declarado era identificar e apreender armas ilegais, detendo eventuais suspeitos de posse das mesmas. A imagem mais marcante que chegou às redes sociais foi a da Rua do Benformoso completamente vedada, com dezenas de pessoas encostadas às paredes, de mãos no ar, enquanto os agentes armados executavam as diligências.
«O primeiro-ministro considerou que as operações policiais de prevenção "têm um duplo conteúdo", ou seja, aumentar a "tranquilidade dos cidadãos, por um lado", e combater as "condutas criminosas", por outro.
Montenegro reafirmou ainda a segurança como "prioridade do Governo". "Eu tive a ocasião de [o] dizer ao país, mesmo quando o país mediático me criticou muito. Sinceramente, nunca senti o mesmo do país das pessoas", atirou, depois de defender que a percepção de insegurança não depende do número de crimes.» [Notícia 2116362 do Público]
A perceção de insegurança tem sido utilizada como uma ferramenta política poderosa. Não nos esqueçamos da desastrosa conferência de imprensa de 27 de novembro. Quando Montenegro afirma que «A perceção de insegurança não depende do número de crimes» e que estas operações também buscam a «tranquilidade dos cidadãos», temos a confissão da instrumentalização da polícia. Esta operação digna de um estado policial não era necessária – a menos de 300m há uma esquadra da PSP que pode garantir o policiamento de proximidade. Assim, o real impacto destes acontecimentos, a sua utilidade, cede lugar à construção mediática de um estado permanente de alerta. Esta instrumentalização do medo muitas vezes desvia a atenção das causas estruturais dos problemas urbanos, transformando soluções de longo prazo em intervenções de choque para satisfazer audiências momentâneas. Esta é uma estratégia de extrema-direita e faz lembrar histórias de tempos que não se querem repetir.
Em vez de reconhecer que a imigração não é um bicho papão, como todos os dados apontam, decidiu direcionar o descontentamento das pessoas para um problema inventado. Em nome de uma «segurança» meramente discursiva, cria-se um ambiente de medo que reforça a divisão entre comunidades já marginalizadas e o restante tecido social. Os próprios moradores afirmam: «Não achamos mal a polícia vir cá. Só não percebemos porque nos encostam à parede». Como é que nós nos sentiríamos se fossemos obrigados a encostar à parede só por estarmos naquele sítio àquela hora e saber que é um elemento da nossa identidade o motivo?
Este ponto merece ser sublinhado: enquanto estamos ocupados a hostilizar o outro, desviamos os olhos da raiz dos problemas. Problemas que dizem respeito à desigualdade económica, à falta de acesso a serviços públicos essenciais ou à ausência de oportunidades para integração social. Neste clima, a polícia torna-se frequentemente instrumento de um Estado que, ao não conseguir garantir um contrato social pleno, opta por uma estratégia de aparente contenção. Quando confundimos polícia com solução, enfraquecemos a credibilidade das instituições democráticas.
As implicações para o Estado de Direito são profundas. Ao transformar regiões específicas da cidade em palcos de militarização do quotidiano, reforça-se um discurso de éticos contra não-éticos, «bons» e «maus», onde as populações mais vulneráveis são criminalizadas pela sua própria existência.
No passado dia 4 de dezembro, na Cidade de Nova Iorque, o CEO da UnitedHealth Group foi assassinado pelas 19:00 com testemunhas próximas do local e várias imagens de câmaras de vigilância. A naturalidade e leviandade na concretização do crime foi um choque, mas o mais chocante estava por vir. Aqui, hoje, proponho-me a deixar algumas notas que me parecem percursos pertinentes para explorar este episódio.
Desde logo, o âmbito. Segundo as autoridades, as balas disparadas que vitimizaram Brian Thompson tinham escritas as palavras «negar», «defender» e «depor». Estas palavras estão a ser interpretadas como a sistematização das estratégias das seguradores norte-americanas para recusarem pagar seguros de saúde, tal como este livro de 2010 pretende expor: Delay, Deny, Defend: Why Insurance Companies Don't Pay Claims and What You Can Do About It. Esta interpretação tem sido vista como particularmente pertinente, uma vez que a UnitedHealth Group possui a Unitedhealthcare, uma enorme segurada, responsável por uma grande fatia dos seguros de saúde dos norte-americanos, este grupo é, aliás, a oitava maior empresa do mundo em termos de receitas. Recordemo-nos que nos Estados Unidos não existe um sistema nacional de saúde, a saúde não é vista como um direito universal, gratuita, os indivíduos têm de adquirir seguros de saúde, estando dependentes da sua aprovação para poderem pagar as consultas, exames, operações, tratamentos,… No caso desta empresa, um em cada três pedidos foi recusado, um número tão grande que foi implementada Inteligência Artificial para acelerar essas recusas (que tem uma margem de erro de 90%...).
Ora, se as pessoas são obrigadas a pagar por seguros, que têm sistematicamente aumentado o seu custo, e não vêm o retorno quando precisam, não é preciso muito para ver como este motivo não será descabido. Agora, ninguém deve ser morto por isso, nem é preciso dizê-lo, qualquer morte é uma tragédia, o que não é incompatível com a crítica daquilo que fez.
A verdade é que as reações nas redes sociais denotam uma relativização do assassinato: afinal, não é Thompson responsável por incontáveis mortes por negação de cobertura?, argumentam. Esta frustração é transversal ao espectro político, inundou qualquer rede social e as notícias do suspeito até nas revistas cor-de-rosa surgem. Parte da raiva que elegeu Trump por ser outsider em breve verá um governo com mais de uma dezena de multimilionários. Coloquemos em perspetiva estas noções de números enormes, que tornam difícil a nossa imediata compreensão da realidade: se cada euro corresponde a um segundo, para ter um milhão de euros seriam precisos 11,5 dias, para acumular um milhar de milhão (o billion norte-americano) seriam 31,8 anos! Como serão as respostas?
Permitam-me três notas: grande parte da falta de choque pelo assassinato em si advém da normalização da violência de armas (já houve 81 tiroteios em escolas só este ano); uma grande parte das reações ao suspeito foram no sentido de o tornar um sex symbol; por fim, a sua idolatria como justiceiro demonstra a nossa tendência ao culto do chefe.
Permitam-me terminar com As Pessoas Sensíveis (Sophia de Mello Breyner Andresen):
“As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas
[…]
«Ganharás o pão com o suor do teu rosto»
Assim nos foi imposto
E não:
«Com o suor dos outros ganharás o pão»
Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito
Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem”
Há duas semanas escrevi aqui sobre a solidão na terceira idade, a partir de um diálogo ouvido num autocarro portuense. Se a memória não me engana, já em outros momentos dei alguns toques no assunto. Um dos privilégios de fazer campanhas é ter a oportunidade de falar com várias entidades e, numa região que também envelhece, o bem-estar na terceira idade é algo que me tem ficado sempre presente no pensamento. O que gostaria de trazer hoje tem mais que ver com o modo de abordar o assunto.
Antes disso, permitam-me justificar o interesse no tema. Desde logo, posso apontar as razões de há duas semanas: «Primeiro, porque nós, os cegos de agora, um dia estaremos na mesma posição. Segundo, são os nossos pais e avós. Terceiro, são quem construiu o mundo em que vivemos. Quarto, são os mais prováveis de serem vistos como sábios, pela potencial maior experiência de vida». A terceira idade afeta-nos em toda a linha, enquanto familiar, enquanto cidadão, enquanto contribuinte, enquanto nós próprios. O que quero implicar com isto é aquilo que tenho mais consistentemente vindo a afirmar: a necessidade de um pensamento sistémico, particularmente, um pensamento político neste formato. Tudo está relacionado com tudo, pelo que devemos ser capazes de articular, quer seja pela própria consequência de uma medida em várias dimensões, como pela comparação, paralelismo, história,… E aqui chego a um interesse que me diz respeito particularmente: os jovens têm mais em comum com os idosos, do que com quem está em idade ativa. Que se note que estou a falar enquadrado nesta visão de perceção social, até preconceito etário, de vivência social. Falamos de pessoas que vistas como dependentes e inúteis no seu presente para a sociedade, sendo a grande clivagem os jovens terem a utilidade em potência e os idosos não.
Toda esta introdução serve para que não caiamos no erro de levar o tom da defesa dos direitos e interesses de idosos como a ajuda a necessitados, a indivíduos sem voz, que precisam de ser levados ao colo. No fundo, como coloquialmente se diz, «coitadinhos». Isto é de uma arrogância extrema pela superioridade, completamente absurda, que cria, como pela cegueira, pela falta de horizonte que denota.
A interseccionalidade é um daqueles termos contemporâneos que por aí vão andando e ganhando espaço nas discussões académicas. Como de costume, nada mais é do que a reformulação de outro pensamento anterior como a hegemonia cultural ou, arrisco-me a dizer, o cosmopolitismo ético. Na prática, estamos a falar da união das lutas, dos interesses, particularmente de grupos marginalizados. Neste caso, jovens e idosos têm em mão a tarefa de arrumar o idadismo na nossa sociedade. A tarefa é mostrar como são forças dinâmicas da sociedade, como abrem novos horizontes na sociedade, principalmente através da ousadia e da experiência, respetivamente. Cada novo ser humano é uma nova esperança de melhoria do mundo, é uma voz que deve ser ouvida – sempre, independentemente da idade. E o envelhecimento, independentemente da idade, deve ser ativo. Se não temos condições para estas duas premissas, falhámos.
Claro que esta tarefa só é desempenhada se se ganhar espaço na agenda mediática e política. Por isso, é importante vermos estas faixas etárias a aproximarem-se do mundo da política e reivindicarem uma voz – sendo, claro, fiéis aos seus interesses, não se alienando por alguma razão, como muitas vezes acontece.
As discussões sobre faixas etárias devem ser conduzidas com empatia, mas não condescendência, sob pena de se abrir clivagens geracionais que impedem um diálogo estrutural.
Esta semana tivemos a confirmação daquilo a que vem o nosso Governo Regional: uma preferência por negociar com a extrema-direita do que com o campo democrático. Todas as 23 propostas do CH Açores foram aprovadas. O PAN apresentou 44 e duas foram aprovadas, o BE apresentou 40 e todas rejeitadas, o PS apresentou 36 com três aprovadas (a IL não apresentou propostas). A normalização da extrema-direita, aquela sem pudor na instrumentalização de crianças para promover o conflito e a discórdia, desviando o olhar da raiz dos problemas, tem mais um passo no nosso país e é triste que venha da nossa região.
Já várias vezes aqui trouxe as questões da indiferença e da pós-verdade. De como cada vez nos importamos menos com factos e nos deixamos levar pelas nossas intuições e sentimentos pessoais. Eu não digo que haja uma verdade objetiva que deve ser seguida, até porque isso seria entrar numa tecnocracia. Deve haver diferentes pontos de vista, porque é daí que se se gera a discussão e, por conseguinte, a reflexão, a ponderação. E é aqui que os factos são precisos: o caminho de cada fação faz-se através de encontrar a sua forma coerente de abarcar e explicar os factos. Aquilo que nós vemos hoje é a indiferença perante os factos. É bullshit (à maneira de Frankfurt). Diz-se o que se pensa ser preciso em cada situação perante o outro – para persuadir, manipular ou simplesmente manter uma conversa. Factos e coerência não são mais necessários. A memória é, portanto, algo inútil: e isso faz-se sentir bastante. Relembremo-nos de alguns episódios que tanto alarido provocaram, e bem, mas que parecem ter ficado enterrados.
A 12 de abril o diretor do Expresso publicava «É mais do que um embuste. É enganar os portugueses» sobre a forma como se estavam a manipular os números da redução do IRS.
A 17 de maio estilhaçou-se a última réstia de bom senso na Assembleia da República quando o seu presidente proferiu «No meu entender, pode». Aguiar-Branco reponde assim à pergunta «se uma determinada bancada disser que uma determinada raça ou etnia é mais burra ou preguiçosa também pode [ser dito sem repreensão]».
No dia 23 de outubro, Pedro Pinto afirma na RTP «se a polícia atirasse mais a matar, o país estava em ordem».
Na capa do Expresso de dia 22 de novembro lia-se garrafalmente a manchete «Número de alunos sem aulas caiu 90% face a 2023». Na no dia 29 de novembro aparecia modestamente um título que afirmava «Ministro faz mea culpa: números de alunos sem aulas não são fiáveis», desta vez, sem nota do diretor.
No dia 25 de novembro, Ventura, durante a sessão solene do 25 de novembro declarou enquanto apontava para as bancadas à esquerda: «Como dizia Jaime Neves sobre a guerra do Ultramar, era mesmo assim: “Quando nos mandavam limpar, nós limpávamos tudo.” Já começámos, vamos continuar.»
No dia 29 de novembro no parlamento foi discutido, no âmbito do Orçamento de Estado, discutiu-se o fim do corte aos vencimentos de políticos que foi uma das medidas a partir de 2011 para controlar as contas públicas. O CH decidiu fazer isso passar por um aumento de salário e pôs-se a pendurar cartazes na fachada da Assembleia como protesto. Aguiar-Branco aqui já se sentiu, esperemos que tenha percebido o alcance do «no meu entender, pode», e acusou essa ação de constituir «vandalismo político». Perante a recusa do CH retirar os cartazes, de várias maneiras e modos, acabou-se por chamar os bombeiros. Ventura esperou que os bombeiros chegassem a cada janela, olhando-os nos olhos, e, um a um, foi retirando os cartazes. A fatura dos bombeiros foi de quase duzentos euros. Permitam-me a nota de que IL, Bloco e Livre também votaram contra (e o PCP absteve-se).
Esta lista seria interminável ao pensar noutras controvérsias, mas entre as mais recentes e as mais antigas, aqui fica esta triste antologia.
Julgo que já se torna repetitiva a forma como começo este segmento semanal: podia-se falar de muita coisa sobre estes tempos complexos que vivemos, mas… [e procedo a abordar um assunto lateral ou mais abstrato]. A verdade é que é que as notícias falam por si, não sei até que ponto faz sentido falar da espuma dos dias com já tantos a fazê-lo. Qualquer leitor fará os seus julgamentos sobre uma notícia e, se sentir alguma humildade intelectual quando pretender tecer julgamentos, procurará mais informação ou autoridades (leia-se especialistas) sobre o tema. Qualquer relevância que posso reivindicar a estas minhas linhas cinge-se ao esforço de trazer outras perspetivas, de preferência, sobre elementos estruturantes, aqueles que podem explicar certas cadeias de eventos, apesar de não os vermos e, eventualmente, diferir algumas notícias por descargo de consciência. Dito isto, hoje venho falar de uma conversa que ouvi num autocarro outro dia:
Estavam 4 idosos sentados nos lugares de prioridade, sendo que duas senhoras falavam entre si e, entretanto, juntou-se um senhor à conversa. Pelo que percebi, nenhum se conhecia. O diálogo que ouvi seguiu moldes semelhantes aos seguintes:
Senhora A – Os vizinhos já não são como antigamente.
Senhora B – Os meus trabalham o dia todo, sou a única reformada no prédio, tenho medo que se morrer, ninguém fará fé.
Senhora A – Tens de andar mais de autocarro, eu ando sempre duas vezes ao dia!
Senhor A – Eu vou ali de autocarro ao Arrábida almoçar e depois trago uma sopa para jantar.
Permitam-me a nota de que não tenho propriamente por hábito coscuvilhar as conversas – apesar de no autocarro serem bastante interessantes -, mas naquele dia íamos como sardinhas e estava ali ao lado. Antes de desenvolver o que quero, note-se o «fará fé»: na altura interpretei como não tendo ninguém para socorrer ou reportar, mas agora julgo que pode haver um sentido um pouco mais profunda: o «fazer fé» como prova de vida, uma testemunha em como aquela pessoa viveu, existiu, um medo da sua existência se esfumar com o desaparecimento corpóreo.
E é justamente por um caminho próximo que quero aqui deixar: a solidão. Afinal, ela afeta-nos a todos, mais cedo ou mais tarde, em várias etapas, pelas mais variadas razões. Talvez a implicação da tecnologia nos levar para um mundo virtual que é, note-se, virtual. Talvez a desconfiança que recebemos do mundo, principalmente pelas notícias, nos leve a afastarmo-nos. Talvez a saúde metal pública não esteja nos seus melhores dias. Circunscrevamo-nos:
E a solidão que os nossos idosos sentem? Será fruto de um idadismo? Não será preciso muito para vermos como a sociedade rotula os reformados de não-úteis (escrevo assim para evidenciar). Na era da produtividade, da novidade, parece que o seu lugar é num lar longe da vista.
Isto deve causar-nos estranheza. Primeiro, porque nós, os cegos de agora, um dia estaremos na mesma posição. Segundo, são os nossos pais e avós. Terceiro, são quem construiu o mundo em que vivemos. Quarto, são os mais prováveis de serem vistos como sábios, pela potencial maior experiência de vida.
Ver os mais idosos como sábios e mestres a ouvir e cuidar é comum em muitas tradições e certamente já o foi na nossa. Principalmente numa economia essencialmente tradicional em que os filhos herdam a profissão dos pais. Hoje as técnicas são desprezadas para um setor primário em que ninguém quer trabalhar. E como pessoas idosas têm mais dificuldade com a atualização das suas técnicas ao meio informático, são vistos como ultrapassados. Permitam-me a ousadia de afirmar que aprender é mais sobre disponibilidade mental do que etapas de vida a isso propícias. Não obstante, se adotarmos essa visão, tenhamos em conta que com a atualização exponencial da tecnologia, nós também seremos os ultrapassados, por muito saber de qualidade que hoje tenhamos.
As últimas semanas não têm sido amenas no que concerne à saúde em Portugal. Permitam-me trazer aqui dois temas que marcaram a atualidade.
No dia 21 de outubro foi noticiado que os técnicos de emergência pré-hospitalar, responsáveis pelo atendimento das chamadas de emergência de saúde do INEM fariam greve às horas extraordinárias por tempo indeterminado a partir de dia 30 de outubro. No dia 2 de novembro expunha-se picos em que havia mais de 100 chamadas em espera, associando-se duas mortes ao tempo de espera. No dia 5 de novembro a ministra mostrou-se surpreendida com a existência de uma greve. Com a sétima morte, no dia 7 o Presidente da República pede respostas, levando o primeiro-ministro a reconhecer a «situação grave».
No passado dia 9 de novembro, sábado, a Direção-Geral da Saúde tornou pública a mudança de cor dos boletins de saúde infantil e juvenil, de forma a tornar todos amarelos – anteriormente eram cor-de-rosa e azul, dependendo do sexo – sendo que com duas versões, cada uma com o símbolo do sexo correspondente. Esta decisão teria um fundamento gráfico, na medida em que os cadernos de vacinação já são amarelos. Foi também dito que os boletins de saúde seriam emitidos provisoriamente, uma vez que seriam desmaterializados, passando para o digital.
Qual foi, então, o desenrolar destes acontecimentos?
Nesse dia 7, dezassete (17) dias após a convocação da greve, a ministra decide reunir com o sindicato, levando ao término da greve. As carências do INEM estão expostas na comunicação e exigem-se respostas: no dia 9 a secretária de estado da gestão da saúde afirma que a comunicação social está com «anemia», afirmando que os tempos de espera são semelhantes a anos anteriores, e no dia 12 a ministra afirma perante o parlamentou lamentou as onze mortes associadas a atrasos no INEM nos últimos dias, assumindo «total responsabilidade pelo que correu menos bem no INEM». «pelo que correu menos bem».
Quanto aos boletins, no dia 12, o mesmo em que a ministra foi ao parlamento, três (3) dias após o comunicado da DGS, o ministério ordenou que os boletins continuassem a com as cores a azul e cor-de-rosa.
A nossa ministra da saúde demorou 17 dias a agir perante uma greve, uma semana depois da primeira morte associada ao tempo de espera no INEM, mas em três dias resolveu intervir sobre a cor dos boletins – estando simultaneamente a lidar com ambas as situações. Nenhuma reposta foi dada para esta decisão do ministério interferir na resolução da DGS, mas ao que tudo indica trata-se de uma resposta às críticas de como se estaria a ir pelo caminho da «ideologia de género», do movimento «woke», anulando-se os papéis de género. Esta crítica foi tida abertamente pelo CDS, parceiro de governo. Não deixa, no entanto, de ser mal aplicada: os boletins continuavam a figurar símbolos que se associam aos sexos, continuando o binariedade simbólica, mesmo que com uma cor única.
Aquilo que aqui vemos é um Ministério que rapidamente dá resposta a uma suposta guerra cultural, mas se revela incompetente e apática em lidar com as situações de vida-morte que tinha em mãos. Isto deve assustar-nos. Os conservadores preocupam-se mais e afirmar o seu conservadorismo (que se traduz em restringir os direitos de todos), do que em desempenhar as suas funções. Olhamos para a equipa que, entretanto, Trump escolheu e percebemos isto mesmo. E isto num clima de completa pós-verdade, em que os responsáveis saem impunes: veja-se o caso de Valência em que o presidente da região negligenciou o alerta meteorológico, chegou atrasado duas horas à reunião de emergência por estar a almoçar,…
Esta semana fica marcada pela eleição de Donald Trump como presidente dos EUA (as cheias em Valência e a greve no INEM não devem, claro, ser esquecidas, falo numa dimensão global). Tratou-se do nosso fim da inocência: volvidos 79 anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, parece que nos voltámos a esquecer da perversidade de que somos capazes – digo isto algo dramaticamente, afinal, infelizmente o que não faltam são «fins da inocência» nestas últimas décadas, ainda muito recentemente podemos olhar para o genocídio em Gaza, a particularidade com Trump é estarmos a falar de um indivíduo que pela segunda vez ocupará um dos cargos mais importantes do mundo, mesmo depois da sua responsabilidade no ataque ao Capitólio e de ser considerado culpado de vários crimes.
Permitam-me aqui descrever parte da minha tarde de terça-feira – curiosamente o dia das eleições estadunidenses. O meu propósito para o início da tarde era simples: ir à loja CTT levantar o subsídio social de mobilidade enquanto estudante deslocado. Estando há quatro anos a estudar no Porto, não me é estranha esta prática, não havendo dificuldades de maior com a burocracia exceto em casos mais estranhos. Desta vez estava descansado, tinha as informações todas direitas, tal como várias das outras vezes. Acontece que chegado ao local vejo o meu pedido recusado: aquela viagem como foi paga por uma pessoa coletiva, tinha de ter uma declaração da agência de viagens em como tinha sido paga por essa entidade, mas fui eu o viajante. Fiz notar que a fatura da agência já possui essas informações, mas sem sucesso. Irritado, até porque o funcionário deixou implícito que eu estaria a tentar cometer fraude, afastei-me. Como estava a chover, fui ao site dos CTT, já que me lembrava de ter lido lá o procedimento sobre estes casos. Constatei que a informação era que sendo a viagem paga por entidade coletiva, devia a fatura vir nesse nome e nas informações constar o nome e NIF do passageiro – o que efetivamente tinha. Tirei nova senha. Desta vez foi a gerente a dizer-me que era preciso a declaração, que havia uma circular interna. Fiz notar que a declaração seria redundante quer em conteúdo, quer em legitimidade, mas nada feito. Continuava a chover, pus-me a ler a legislação: afirmava o mesmo que o site. Siga nova senha. Mostrei a esta terceira funcionária o decreto-lei, mas a gerente, que desta vez nem apareceu, permaneceu inabalável. Deram-me um guião para a declaração: além do texto não corresponder ao que me foi pedido, dele consta a justificação da viagem, o que é legalmente irrelevante – uma violação da privacidade, portanto. Fiz a minha única queixa num livro de reclamações.
O que mais me revoltou nestes acontecimentos não foi o tempo que perdi, não foi o excesso de burocracia, não foi a irrazoabilidade generalizada ou mesmo terem implicado que podia estar a cometer uma fraude: o que mais me afetou foi eu ter consciência de que concordo com o procedimento. A burocracia prevista em lei parece-me adequada e necessária – mínima, por outras palavras, o que não significa que tenha uma visão crítica, como achar que o processo devia ser mais automatizado. Eu concordo com o procedimento da forma como está previsto. E, por isso, quando chego aos CTT e levo com estes baldes de água fria, sinto-me órfão. Exagerando: eu estou do lado deles e eles excluem-me.
Ao dar por mim a pensar neste sentimento apercebo-me: esta frustração é lenha para a fogueira. É esta revolta que pode levar sensatos a serem insensatos nas urnas. A minha visão é estruturalmente diferente da sociedade em que vivemos, pelo que a vivência deste sentimento só se dá em situações muito concretas, não é de estranhar a demora em chegar a esta conclusão. É impressionante como este sistema nos cultiva o ódio - e o piromaníaco.
Vivemos numa vibrante atualidade. O tema que hoje domina o nosso dia são as eleições nos Estados Unidos da América. Talvez aborde alguns aspetos que me parecem importantes nelas, nomeadamente da retórica e formatos utilizados, no próximo artigo, já com uma pequena reflexão sobre os resultados. Mas a atualidade não se fica por aqui, é o suspense de outras eleições, mesmo em internas como dos conservadores britânicos onde se acentuou a deriva para a extrema-direita, ou as municipais brasileiras. Também podíamos discutir isto de olharmos a democracia como sinónimo de idas às urnas – a participação democrática acontece em qualquer segundo e se ela morre, é porque nos negamos a reconhecer a necessidade deste cuidado constante. Podíamos de novo falar das guerras que brotam pelo globo, principalmente aquelas que estão às portas da Europa – até porque são essas que as televisões ocidentais prestam atenção. Até podíamos refletir sobre os desastres naturais, as tragédias humanitárias como a que aconteceu em Espanha, e perceber que eles são exceções que cada vez marcarão mais a nossa agenda – afinal, vivemos numa emergência climática. Podemos falar disso tudo, de toda esta complexidade e entropia que nos rodeia, mas quero aqui evidenciar o corolário: a ressonância desse caos que nos habita.
Tudo o que aqui foi dito reverbera em nós, na medida em que além de assimilarmos a informação, temos a preocupação daquelas que são as suas consequências. Talvez ainda haja muita gente que não percebe como situações como estas afetam a sua vida, e provavelmente isso explica muita coisa, no entanto, ninguém perde pela demora. Propositadamente elenquei só exemplos estrangeiros, porque esses soam-nos longínquos. Permitam-me deixar aqui duas reportagens que me parecem importantes e que podem ter passado ao lado: uma sobre uma falta de democracia que pode existir na Madeira, mas que me parece ser espelho do que acontece em muitos lugares [1] – no mesmo dia também houve uma reportagem sobre a (falta de) liberdade de imprensa, também partindo da Madeira, onde se aborda o problema do jornalismo de comunicados -, outra sobre a violência que está a acontecer nas manifestações em Portugal, particularmente a atuação policial [2] – que já inclui jornalistas como vítimas. São algumas investigações recentes que me impactaram, espero que quem estiver a ler isto consiga arranjar algum tempo.
Mesmo quem diga que isto não importa, que aquilo que se quer é
Eu sou um jovem que vem de uma família que nunca passou dificuldades, nunca pude ter tudo, mas nunca me faltou nada. Estou no ensino superior, ainda por cima a estudar algo que gosto. Não obstante, dou por mim por vezes a pensar em como só o Euromilhões parece ser a solução para ter uma vida estável: conseguir ter um lar e criar uma família [3]. Aquilo que me disseram era que se tivesse boas notas e fosse estudar para o ensino superior ia estar bem na vida. Parece que já não é bem assim. E além das crises que nos encerram horizontes, vemos uma negação em curso da nossa possibilidade de exigir mudança – e não deixa de ser irónico que muitos dos políticos que, quais fanfarrões, bradam aos sete ventos pela mudança, são aqueles que mais nos querem limitar.
São tempos de impotência e, por isso mesmo, decisivos. Saibamos fazer ouvir a nossa voz.
[1] https://www.publico.pt/2024/10/13/sociedade/reportagem/madeira-especie-democracia-2106881
[2] https://www.publico.pt/2024/11/03/sociedade/investigacao/anatomia-detencao-psp-2108323
[3] Que ninguém interprete isto como uma apologia ao jogo, antes pelo contrário, só piora a situação.
Na semana passada comecei a escrever como desenvolvimento da minha intervenção nas Conferências Zuraida Soares. Escrevi sobre aquela que me parece ser uma outra forma de organização programática, que fosse capaz de encarar a nossa realidade como um todo, na sua complexidade e articulação, fugindo aos tradicionais temas que figuram nos panfletos eleitorais. Analisámos sucintamente estas questões, levando-nos a considerar os valores como essa outra possibilidade, que além de permitir ter a visão da comunidade que cada projeto preconiza, desvela a ideologia fundamenta um sistema parlamentar através de partidos. Acabámos esse artigo referindo como uma possível questão-chave é «o que é uma vida boa?».
É justamente pela pergunta da vida boa que começamos. Ao fazê-la estamos à procura de respostas que cruzam todo o nosso quotidiano, lembrando-nos de valores, de afazeres, como de sonhos, por exemplo. Podemos adotar uma miríade de abordagens, como já problematizamos, mas o caminho que gostava de continuar a trilhar é outro: esta pergunta faz-nos construir o nosso cenário de conforto. Em última instância, a resposta pode ser uma utopia, enquanto a realidade ideal. Agora, não achemos que utopia seja o sonho irrealizável, longe disso. Podemos pensar a utopia como um concreto a concretizar-se, como estando um porvir nas nossas mãos por construir – olhemos para o Princípio Esperança de Ernst Bloch. O que me parece extremamente de valioso que aqui está subjacente é esta positividade, pensar no que queremos, qual o objetivo, não nos toldando o pensamento ao imediato amanhã. Facilmente nos podemos perguntar o de que vale tomar uma ação sem termos em vista um bom futuro ou se não nos revermos naquele que nos é apresentado ou se não o conseguimos sequer ver.
Julgo que já algumas vezes aqui trouxe o nome de Marina Garcés, perdoem-me invocar novamente o seu pensamento: os temos em que vivemos reportam-nos para a vertigem do limite, de nos confrontarmos com um abismo inultrapassável. O apocalipse apoderou-se do nosso imaginário. Experienciamos o grande limite das alterações climáticas, da insustentabilidade na exploração de recursos naturais, da gestão do espaço (veja-se a crise na habitação), temos colocado em causa os limites da nossa humanidade através da inteligência artificial, mas também pela desumanização que tanto as guerras como o ódio propagam – só para mencionar alguns limites daquele que é muitas vezes visto como o primeiro mundo. Não admira que nos sintamos que vivemos na berma de um amanhã que se vai esvanecendo cada vez mais. Não admira que o pessimismo surja em força, incluindo um pessimismo antropológico. Não admira, então, que esteja tão presente nos nossos dias o cinismo – nas suas aceções relacionadas com o sarcasmo e a hipocrisia.
É esta atitude de crítica imóvel, mas também vazia por ser superficial, que nos coloca na borda da desistência. Pior, essa atitude de constante desprezo é contagiante: entra num ciclo de feedback positivo, em que se vai enraizando cada vez mais. E de atitude passa a comportamento: atua como um nocebo, o efeito de um placebo pela negativa, uma profecia autorrealizada. Nesse ponto, já não estamos somente na nossa individualidade a desprezar o mundo, mas a organicamente inscrever esse desprezo no próprio mundo. É neste ciclo que nos encontramos e é dele que temos de sair. Sob a aparência de desvelar todo o conhecimento do sistema, a verdade é que nos cega as reais possibilidades de mudança. Quer seja a pensar em novos mundos, quer seja em ações do dia-a-dia, façamos o esforço de pressupor o bem – nem que seja por turnos.
Este sábado decorreu o primeiro dia das terceiras Conferências Zuraida Soares em Santa Maria. Tive o prazer de moderar uma tarde em que intervieram José Soeiro e Pedro Filipe Soares, sobre a semana de quatro dias e a relação da inteligência artificial com o trabalho, respetivamente. Além das exposições terem sido bastante elucidativas, sucedeu-se um participado debate sobre esses temas. Julgo que, assim, se fez uma bonita homenagem a Zuraida Soares e ao seu espírito democrático. Hoje aquilo que aqui trago é uma melhor sistematização daquela que foi a intervenção de abertura que fiz. Estes temas já neste espaço foram sendo publicados, sendo a minha esperança que o leitor atue como juiz do sucesso na melhoria da sua concretização.
Desde logo, há um aspeto crucial que me parece necessitar de ser alterado: a forma como construímos os programas eleitorais. Eles são organizados em função de temáticas colocando algumas propostas concretas sob a alçada ora das acessibilidades, ora da saúde, ora da economia,… e isto quando não se usa um critério geográfico e se somam propostas debaixo de um teto como uma ilha ou um município – por vezes meramente meia dúzia de propostas. Esperam-se, então, duas coisas: que o eleitor seja capaz de perceber qual o projeto político de um partido com base nessa leitura e que consiga distinguir os projetos de cada partido. Parece-me que estas duas tarefas se tornam bastante complicas, por um lado, pode haver um reduzido número de propostas, por outro, é preciso tempo, algo que é cada vez mais raro – e não propriamente por opção nossa.
Qual a alternativa? O que me faz mais sentido e se me afigura como intuitivo é ter uma abordagem sistémica da realidade. Ou seja, como os mais diversos aspetos se conjugam numa só vivência – afinal, não vivemos na economia, ou no trabalho, ou na cultura, ou na educação,… vivemos onde tudo isso coexiste -, devemos ser capazes de entender que uma proposta tem um impacto em mais de uma área temática – e tomar partido disso mesmo. Basta pensar como, por exemplo, o estímulo do ecossistema espacial em Santa Maria vem atrelado a questões de acessibilidade, saúde, habitação, saúde, economia, emprego,…, em diferentes medidas conforme a sua dimensão. Da mesma forma como quando afirmamos que é necessário construir habitação se está a trabalhar sobre a economia, os assuntos sociais, o urbanismo, os transportes públicos,… Até aqui aquilo que parece é que, então, a uma proposta temos de associar várias áreas – o que, convenhamos, só nos está a dificultar as coisas. A alternativa é abandonar as questões temáticas como organização da visão. São importantes como é importante estudar as disciplinas, mas uma visão de conjunto é o que precisamos quando falamos de como poderá ser uma comunidade futura. Isto é bonito de se dizer, mas como concretizar?
Uma possibilidade é através de uma perspetiva de valores. Afinal, vivemos numa democracia representativa à base de partidos e, supostamente, aquilo que os distingue é a sua ideologia. São os seus valores que apontam a sociedades distintas possíveis. Então porquê relegar a isso? Ao se escolher falar de desenvolvimento, justiça, igualdade, liberdade, dinamização, sustentabilidade,…, faz-se uma direta distinção das prioridades. Tal como nas temáticas, cada projeto deve abordar os vários valores, mas há uma disposição hierárquica que garante que cada projeto será naturalmente distinto e facilmente distinguível.
A pergunta que qualquer projeto deve responder é «o que é uma vida boa?», é aqui que temos uma visão sobre a totalidade, chegando a conclusões que nos são impossíveis pelos óculos seletivos de segmentações temáticas, que mais não fazem do que tornar a política um potencial exercício de tecnocracia.
Permitam-me que hoje desenvolva as pontas soltas de há uma semana: se bem se recorda, discorri sobre duas esperanças quanto ao porto espacial em Santa Maria – o desenvolvimento da ilha e o debate sobre o acesso ao espaço -, sendo que me parece que a segunda razão ficou com algum desenvolvimento por concretizar.
Desde logo, o que é o acesso ao espaço? É a colocação de equipamento no espaço, sejam satélites em órbita, sondas, rovers para explorar novas superfícies,… Normalmente, os satélites mais baixos encontram-se a 160 quilómetros da superfície terrestre, os lançamentos que ocorreram em Santa Maria tiveram uma altitude máxima de aproximadamente 5,6 quilómetros – daí serem adjetivados de atmosféricos. Desta forma, percebemos como aquilo que existiu até agora foram testes. Não obstante, o objetivo será conseguir aceder ao espaço para lançar microssatélites. Este acesso parece ser rentável, porque muitas empresas parecem interessadas em colocar em órbita equipamentos seus e, portanto, procuram uma solução low-cost para microssatélites. A minha questão é: com que direito se mandam equipamentos para o espaço? As respostas óbvias são para investigação científica e telecomunicações, incluindo aqui as questões de navegação terrestre. De certa forma, a minha questão mantém-se, mas pode ser reformulada para clarificar: quem faz sentido ter acesso ao espaço? Serão as agências espaciais dos países, serão as empresas, serão consórcios internacionais de investigação, será uma federação de agências espaciais,…? Esta questão pode à partida parecer vazia de importância, mas ela tem duas dimensões: uma teórica e outra prática.
Começando pela teórica: o acesso ao espaço prende-se à motivação para o fazer. O movimento de colocar material nossa, artefactos de humanidade, fora da Terra é uma forma de expansão. No passado já fizeram movimentos semelhantes quando falar da “descoberta” do Novo Mundo. Dirão muito provavelmente que não podemos falar em colonialismo quando falamos de espaço, porque não existem pessoas na Lua, em Marte ou em asteroides (dou estes exemplos for serem as superfícies atualmente de interesse para explorar). A verdade, contudo, é que muitos projetos de exploração espacial pretendem levar a cabo uma exploração, por exemplo, de materiais e, assim sendo, pergunto-me: de quem são esses materiais minerais? Os sonhos a curto prazo são de montar bases nessas superfícies, de quem é essa superfície? A resposta provavelmente óbvia é que não é de ninguém. Estas respostas levam a uma consequência muito prática: uma corrida por essas posses. Será talvez ainda uma corrida muito embrionária, mas não quer dizer que exista. É, aliás, bastante ruidosa no que concerne, por exemplo ao turismo espacial, a empresas que levam turistas ao espaço. Basicamente, o que aqui quero dizer é: este acesso deve mesmo ser arbitrário, o acesso ao espaço não deve ser para o interesse da humanidade? Uma empresa privada criar uma base no espaço não representa os meus interesses, tal como um país o fazer também não. Estes esforços devem ser internacionais. Depois de ver o que as fronteiras nos fazem cá em baixo, é tempo de pensar o que fazer lá em cima.
Não obstante, ainda temos a ordem prática, a qual concretizo com dois exemplos de problemáticas no acesso ao espaço. A primeira é o lixo espacial que já orbita a Terra, apesar de falarmos de um voluma de espaço gigante, a verdade é que isto já se está a tornar um problema e colocar em causa a segurança dos equipamentos que estão funcionais e que podem ser atingidos. Tem de haver um planeamento. O segundo é que muitos dos satélites em órbita têm como propósito missões de defesa nacionais – a guerra também se faz do espaço. São muitas vezes as empresas de defesa aquelas interessadas em explorar infraestruturas de monitorização de atividades espaciais. Quem opera o teleporto espacial em Santa Maria, que é concessionado pela ESA, é a Edisoft, uma empresa que pertence ao Grupo Thales, um gigante da defesa nacional que viu as suas ações aumentar sucessivamente desde a invasão da Ucrânia. Longe de querer levantar suspeitas, quero mostrar como este não é um tema inocente, mas um debate urgente e necessário – que, infelizmente, por cegueira ideológica, nunca será tido pela Portugal Space.
Nos passados dias 26 e 28 de setembro ocorreram os lançamentos de dois foguetões a partir de Santa Maria. Trata-se do início da concretização de um projeto que já tem vindo a ser pensado desde há sete anos e que no início deste ano foi catalisado com uma alteração no processo: em vez da utilização do porto espacial ocorrer por concurso, com um determinado caderno de encargos (como durante estes anos se tentou sucessivamente), tornou-se a possibilidade de realizar estas atividades através do pedido de licença. Estes eventos, não obstante, ainda constituem um estado embrionário da atividade, sendo as primeiras tentativas práticas da viabilidade desta atividade. Permitam-me, contudo, apontar aquela que me pareceu uma área que ficou em falta: a comunicação. Sendo esta uma estreia deste tipo da atividade, seria de todo o interesse que o Governo Regional tivesse publicado as etapas do processo (do licenciamento) e que o responsável pelo consórcio do lançamento não acabasse uma entrevista, no espaço da questão aberta, a pedir às pessoas para não irem a Malbusca ver o lançamento sem qualquer desenvolvimento. Vivemos anos de intensa preocupação e alguma polémica para depois se esquecer aquilo que podemos chamar de transparência?
Passemos, então, ao nosso primeiro ato de fé: o acesso ao espaço como possibilidade de desenvolvimento da ilha (e do arquipélago). Além dos funcionários diretamente associados ao porto espacial, temos um ecossistema que vai tomando forma, através de algumas estações, numa paisagem de antenas. É bonito de ser ver, mas esperemos que cresça. Não estamos a falar de uma enchente de empregos, mas de mais oportunidades de trabalho que têm a vantagem de ser de emprego qualificado: é a possibilidade de fixarmos as nossas gentes com melhores condições de vida e atrair outras pessoas para a nossa comunidade. Que se saiba, contudo, fazer um crescimento sustentado. Certamente que as entidades públicas, o Governo Regional e a Câmara Municipal, deverão acompanhar de perto estes desenvolvimentos, pugnando por aqueles que são os interesses da comunidade e não esquecendo os investimentos públicos na saúde, acessibilidades, transportes, vias públicas, educação,…, que os devem acompanhar. Temos de ter sempre presente a visão do todo, impedindo quaisquer deslumbramentos.
E isto encaminha-me para o segundo ato de fé: o acesso ao espaço como uma nova oportunidade. Muito se fala sobre as vertentes materialistas de colocarmos satélites em órbita, de como existe uma indústria em crescimento que poderá rejubilar com um lançador em Santa Maria, mas pensemos, no fim do dia, o que está a acontecer. Perguntemo-nos: o que estamos a colocar lá em cima? Bem se pode dizer que isso nos é indiferente, que aquilo que se quer é só a atividade de lançar, mas não será muito difícil de perceber como é atitude é nociva para se pensar o espaço público. Pessoalmente, identifico dois problemas: a entrega do acesso ao espaço a privados e os interesses da defesa que espreitam. Quando falamos do Espaço, falamos de ausência de fronteiras, queremos mesmo que a competição tire o lugar da cooperação outra vez? Já tivemos muitas oportunidades ao longo da História de criar uma narrativa de união e falhámos sempre. Retiremos a ganância da equação. Ainda por cima quando no espaço temos um ponto importante no setor da defesa. Nada nos garante que quem usará o porto espacial não estará a fazê-lo para colocar em órbita equipamentos que participam nas guerras que tanto abominamos na televisão. Desenvolvimento quer-se e precisa-se, mas nunca baixemos a guarda do poder crítico.
Uma estranha polémica que de vez em quando surge sobre o ensino obrigatório tem como alvo a disciplina de Cidadania. Dos alunos temos a queixa de que muitas vezes esta disciplina é usada para outros fins, sendo raro o ensino de algo nela previsto. Dos pais faz-se sentir a indignação perante conteúdos da disciplina, nomeadamente ao que concerne à educação sexual. Permitam-me ocupar parte desta página a abordar esta disciplina, até porque este governo já anunciou a intenção de no secundário ter uma nova disciplina, Literacias [1].
Antes de mais, recordo uma história em terras marienses. Em 2019 estava numa reunião do Conselho Pedagógico da escola, onde um dos pontos de trabalho era a aprovação dos critérios de avaliação das várias disciplinas. Só houve um critério que geraram discussão: os de Cidadania. Eles previam que 70% da avaliação versa-se sobre as atitudes e valores, sendo os restantes 30% sobre os conhecimentos. Indignei-me com a desconsideração para com a disciplina [2]. Na discussão ironizaram a minha posição dizendo que eu queria que os estudantes soubessem os Direitos Humanos de cor. Bem, tendo em conta aquilo que se obriga os alunos a decorar em todas as disciplinas, saber os DH não me parece que fosse a gota de água na visão deles. Mas não é isso que queria, no limite, que ficassem familiarizados com os DH. Mas esta questão é só uma na vastidão que é a Cidadania. E chocou-me e choca-me agora ainda mais a posição destes professores, uma vez que já tantos livros e artigos se escreveram em Ciências da Educação sobre Cidadania há décadas em Portugal. Conto isto para mostrar como a desvalorização desta disciplina também poder existir de dentro das escolas.
Talvez um problema seja haver um desconhecimento generalizado sobre os seus conteúdos, pelo que tomo a liberdade de aqui enunciar os domínios: Domínios: Direitos Humanos (civis e políticos, económicos, sociais e culturais e de solidariedade); Igualdade de Género; Interculturalidade (diversidade cultural e religiosa); Desenvolvimento Sustentável; Educação Ambiental; Saúde (promoção da saúde, saúde pública, alimentação, exercício físico); Sexualidade (diversidade, direitos, saúde sexual e reprodutiva); Media; Instituições e participação democrática; Literacia financeira e educação para o consumo; Segurança rodoviária; Risco; Empreendedorismo (na suas vertentes económica e social); Mundo do Trabalho; Segurança, Defesa e Paz; Bem-estar animal; Voluntariado; Outras (de acordo com as necessidades de educação para a cidadania diagnosticadas pela escola e que se enquadre no conceito de Educação para a Cidadania proposto pelo Grupo). Existem vários documentos, todos disponibilizados num site para o efeito sobre estes conteúdos [3].
Ora, quem lê isto percebe que falar de Cidadania ou de Literacias é o mesmo. Ao criar uma disciplina igual com um nome diferente, o governo pisca o olho aos conservadores que querem o fim da disciplina e aos liberais que se esquecem que a literacia financeira faz parte de cidadania e berram pelo seu espaço. Afinal, foge a uma disciplina que é acusada de ter uma carga doutrinal, através de um gesto marcadamente ideológico.
Um à parte sobre este assunto: a escola nunca será totalmente neutra e ainda bem. Perante a violência, a discriminação e a injustiça a escola não pode ser negligente. Continuar esta raciocínio é matéria para outro artigo.
[1] https://24.sapo.pt/atualidade/artigos/literacias-eis-a-nova-disciplina-obrigatoria-no-secundario
[2] https://ae-ebssma.blogspot.com/2019/11/associacao-de-estudantes-opoem-se-aos.html
Na passada quinta-feira o Bloco de Esquerda, na voz de António Lima, fez uma declaração política no plenário da Assembleia Regional sobre a cultura nos Açores. Aconselho a visualização que está disponível no site da ALRAA [1]. Aquilo que vemos é como o discurso na Assembleia está a ser alterado, mudando aquele que podíamos falar como sendo o centro ideológico da questão. Passámos de uma hegemonia na aceitação do apoio à atividade cultural a uma maioria parlamentar que defende a existência da cultura como produto, ao sabor do mercado. Nem pretendo aqui falar em pormenor da declaração, nem da resposta da Secretária, pretendo expor aquilo que foi dito e pode ter passado mais despercebido na comunicação social – é, claro, impossível estar a passar no telejornal ou a transcrever o debate na sua íntegra. Ainda assim, as curtas citações que passaram já dão uma ideia da direção [2].
Comecemos com aquele que era o discurso sobre a política cultural até aos últimos anos: quais os apoios? aumentaram em relação ao ano passado? já foram transferidos?...
A declaração política do Bloco aquilo que afirmou foi a necessidade de pagar os apoios em atraso aos agentes culturais, de valorizar os centros culturais da região, como os museus, e de preservar o património histórico, como o imóvel. Fê-lo com exemplos particulares tendo uma ideia de fundo muito evidente: é necessária uma estratégia para a cultura, de forma a ajudar o setor a crescer e, como tal, enriquecer a nossa comunidade e a própria democracia.
Joaquim Machado, deputado do PSD, é o segundo a tomar a palavra para começar dizendo que não é habitual escolher a cultura para declaração política (que é um momento de destaque no debate) e prosseguir com a tentativa de uma piada: dizer que o a «cultura é estatizada», sendo que o debate parecia estar a decorrer na «Venezuela». Logo após diz que os apoios à cultura devem ser complementares, pelo que os atrasos nos pagamentos por parte do Governo não devem ser vistos como razão para o cancelamento das atividades. Mais: se essa organização cancelar por não ter os apoios, ela nem devia ter tentado fazer em primeiro lugar. Parece-me que vários deputados do PSD ficaram apreensivos com esta intervenção, pelo menos isso: estamos a falar de uma hostilização brutal aos nossos agentes culturais que não me lembro de ter algum precedente no PSD ou PS Açores. Talvez o Joaquim Machado sempre tivesse pensado assim, mas nunca o tivesse dito, a verdade é que ficamos a saber que a retórica neoliberal radical da Iniciativa Liberal e do Chega já está a extremar o PSD. Como se não bastasse, incorpora associações falsas e palavras ocas, numa demagogia pura, berrando Venezuela para desviar o nosso olhar. Tudo isto nos deve preocupar.
É preciso estar muito alheado da realidade para achar que a maior parte dos nossos agentes culturais, em grande parte associações sem fins lucrativos, dinamizadas por voluntários pro bono, tem capacidade para suportar os custos dos eventos. Podia Joaquim Machada dizer para esses agentes cobrarem valores, ou colocá-los mais altos, mas isso só demonstra como a cultura passou a ser vista como um negócio, esquecendo o seu caráter emancipador que a devia tornar universalmente acessível.
Tudo se torna mais cómico quando nos lembramos que no dia anterior PSD, IL e CH fizeram grandes elogios a Vitorino Nemésio, à valorização da cultura, um apelo à leitura. Os três afirmaram que o fecho de uma editora e de uma livraria açorianas vale zero – é o mercado, estúpido.
[1] https://video.alra.pt/Asset/Details/ee3577bf-bc44-48cd-be06-1991e153f390
Antes de estar de regresso à vida estudantil, estou de regresso ao Porto. Para o fazer apanhei dois aviões que me puseram a pensar – talvez contemplar seja melhor palavra. Ainda sem descolar olhava pela janela e pensava na sorte que tinha por ter nascido no meio daquela paisagem. Tanta terra, tantas gentes, e acabo por existir nuns noventa e sete quilómetros quadrados que dão pelo nome de Santa Maria. Pela janela vejo um espaço plano totalmente alterado por obra humana, mas ainda assim com tons de encher as vistas, quilómetros quadrados de pastagens com uma vegetação que as povoou pela sua aridez, vejo uns conjuntos de casas gémeas que testemunham uma retrotopia da mitologia popular, vejo mais ao fundo um segmento de reta branco, a aorta da presença humana. Ao fundo uns montes que nos fazem imaginar o que Gonçalo Velho poderá ter visto. Mas talvez o verdadeiro transe seja das encostas: o momento em que o azul aparece, onde uma última réstia de verde é o conforto do, julgamos, conhecido. Atrever a olhar o horizonte é questionarmo-nos o nosso estado de espírito: vemos possíveis novos mundos ou a asfixia que espreita, vemos o tudo ou o nada, sentimos a potência ou a impotência. (os quadros de Antoine Noguez bem nos avisam) Nisto, já o avião levantou, ficam os recortes ornados pela espuma e surgem as baixas: o que há ali? Muitos são os que me saberão responder e mostrar fotografias, mas já a reflexão vai longe, no volume assombroso do oceano. É nas nuvens que percebo a sorte de com regularidade experienciar a visão de um pássaro, de como sentar junto de uma janela no avião é um sonho de milhões que já não existem e de outros tantos que nunca terão a oportunidade de o fazer. A humildade do privilégio e das ordens de grandeza instala-se. São Miguel aparece como um manto verde, sendo a cidade um formigueiro. De qualquer que seja a distância que se veem as nossas ilhas, qualquer que seja o sentido sensorial, o gosto estético, os Açores são um paraíso. Somos uns pontos no meio do Atlântico, não faltam preciosidades e paragens igualmente fantásticas neste globo. Estas são aquelas que temos o prazer de atuar.
É perante toda esta beleza, numa total arrematação, que me pergunto: de onde vem a nossa fealdade? Como é possível que com vistas tão cheias, sejamos capazes de produzir injustiças, violência,… Como criámos um sistema em tons de cinismo, um jogo distópico onde são as lotarias natural e social os principais garantes de conforto? E como nos permitimos a viver e ser liderados num sistema assim? Estas questões são feitas num tom leviano e numa ténue comparação, mas julgo que isso não retira a sua importância.
Confesso que esta reflexão foi influenciada por uma notícia que tinha acabado de ler: Macron, presidente francês, decidiu indigitar como primeiro-ministro Michel Barnier, um conservador de um partido que reuniu 5,41% dos votos e que conta com o aval de Le Pen. Face à vitória da coligação de esquerda com quem os liberais fizeram a frente republicana, esses mesmos liberais decidiram agora ceder o governo à influência da extrema-direita. Em vez de subir o salário mínimo ou baixar a idade da reforma, os neoliberais preferem a retórica anti-imigração e o garante de não subir os impostos aos mais ricos dos ricos. Macron colocou os seus interesses e os da sua classe à frente do seu povo. Infelizmente, não nos faltam Macron’s – em Portugal também somos governados por um.
Isto só me lembra um livro: A Barata de Ian McEwan: uma paródia à Metamorfose de Kafka, mas neste é a barata que se torna em pessoa – o primeiro-ministro do Reino Unido.
Aterro com as mangas arregaçadas.
“Que coisa espantosa é um livro. É um objeto plano feito de uma árvore com partes flexíveis nas quais estão impressos muitos rabiscos escuros engraçados. Mas basta olharmos para ele para entrarmos na mente de outra pessoa, talvez morta há milhares de anos. Através dos milénios, um autor está a falar clara e silenciosamente dentro da sua cabeça, diretamente para si. A escrita é talvez a maior das invenções humanas, ligando pessoas que nunca se conheceram, cidadãos de épocas distantes. Os livros quebram os grilhões do tempo. Um livro é a prova de que o ser humano é capaz de fazer magia.” Muitas são as citações que podia trazer sobre os livros e a leitura, esta é de Carl Sagan (in «Cosmos»). Para ela ficar irrepreensível, só faltava, mencionar a ligação do espaço – ele separa-nos tanto como o tempo (em última instância, até porque o próprio movimento decorre no tempo). Sucintamente, a leitura abre a mente, qualquer uma é um convite para um novo mundo. Isso coloca-a na pureza da cultura: é o tratar de algo que desabrocha. Mesmo os romances que se fala mal para dar a entender que se é um erudito exigem da nossa parte criatividade para ver a ação. Outros formatos como os filmes e as séries correm o risco de, por nos dar uma imagem, nos tirar a necessidade de criar, esse empurrão que podia ser necessário para pensar o que está a ser dito ou feito e levar a algo que nos acompanhará, mesmo que latentemente. O que não quer dizer que tudo o que tem imagem está em perda, antes pelo contrário, é capaz de abrir caminhos que a leitura não abre (olhar para um quadro ou ler uma história levam a questões distintas). Ao fim e ao cabo, tudo aquilo que se seguirá pode ser expandido para as outras expressões estéticas.
Se a leitura é assim tão fascinante, porque parece motivar tão pouco na escola? Não são raros os comentários de quem desdenha a Educação Literária em Português, considerando-a inútil. Bem, inútil obviamente que não será, por tudo aquilo que já disse antes, aquilo que me imporá questionar é, sobre o que se lê? O programa do secundário está feito para abordar cronologicamente as grandes obras da língua portuguesa (na sua esmagadora maioria, daquelas portuguesas). Camões, Eça, Pessoa, Saramago, além de outros, são importantes eixos da Educação Literária [1]. Todos os estudados são escritores geniais, vale a pena experimentar a sua leitura e perceber um pouco da sua obra. Mas para alguém que não está predisposto a ler, ganhará motivação? Depende. Se se identificar com algo, seja o tema ou a escrita, talvez até catalisado por se identificar com a biografia do autor, aí provavelmente ficará motivado.
É preciso diversificar as leituras na EL: note-se desde logo o número extremamente reduzido de mulheres, por exemplo; note-se sobre os ambientes que escrevem. As circunstâncias parecem-nos muito distantes. É aqui que entra uma sugestão: vamos trazer autores regionais e locais para estudar [2]. Nos Açores temos tantos autores e tão bons. Nas últimas semanas, por exemplo, li toda a obra poética editada do padre Serafim Chaves, absolutamente magnífica. Autores com quem mais facilmente nos identificamos por terem referências que nos são familiares. Mais, autores que nos mostram como há muitos mais bons autores do que julgamos. Não o façamos, contudo, como um bairrismo bacoco, é o oposto, é abertura e partilha – e liberdade das escolas, dar autonomia, dignificando.
Tu também podes ler, tu também podes escrever. Tu também podes criar, tu também podes ser.
[1] https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/ficheiros/programa_metas_curriculares_portugues_secundario.pdf
[2] https://edu.azores.gov.pt/lista-de-livros-recomendados-prl/
Uma das ideias que me parece mais consensual no senso comum é o horror à guerra. A aversão generalizada ao sofrimento. Quando vemos imagens de cenários bélicos a nossa empatia é convocada, sendo o lamento recorrente. Nas conversas de circunstância não é rara a vez em que nos deparamos com algum comentário neste sentido, provavelmente lembrando uma notícia. Na nossa memória recente estão imagens da Ucrânia e de Gaza. Permitam-me hoje abordar aqui um pouco sobre estas últimas.
Os números [1] dão-nos conta de mais de 42 000 mortes desde o ataque do Hamas a 7 de outubro. Destas mortes, mais de 41 000 são de palestinianos, de entre os quais mais de 10 000 crianças. As Nações Unidas, o maior organismo diplomático mundial, já afirmou que vê indícios de genocídio [2]. Israel tem bombardeado continuamente alvos civis, incluindo hospitais e escolas. Quase 300 trabalhadores humanitários foram mortos, além de pelos menos 113 jornalistas. Israel tem dificultado a chegada de ajuda humanitária a Gaza.
Como chegámos aqui? Trata-se de uma questão demasiado complexa para tentar sumariar pelo que deixo aqui uma sugestão de leitura sobre a origem [3] e o desenvolvimento deste conflito [4] que já sucede há décadas.
Com este texto o que gostava era de deixar alguns alertas. Ou melhor, um e algumas informações: a empatia cega [5]. Ao sermos constantemente confrontados com estas imagens traumáticas, acabamos por nos esgotar. Ainda decorre uma guerra na Ucrânia, mas onde ficaram as demonstrações de apoio? Mais, acabamos por nos focar no sofrimento daquelas pessoas. Qual é o quadro geral, o que está aqui em jogo?
Nesta senda, gostava de chamar a atenção para o duplo-critério que o ocidente tem tido: sancionando e excluindo a Rússia quanto mais é possível, Israel ainda não teve qualquer percalço – apesar de até já ter morto mais civis do que a Rússia! Como é possível este olhar para o lado? O cenário torna-se ainda mais inexplicável com as intervenções israelitas no Irão e no Líbano, neste último levando à morte de quase uma centena de civis. Igualmente inexplicável é o facto de ser sempre noticiado a recusa do Hamas num cessar-fogo, quando já várias vezes houve um acordo diplomático deste grupo com mediadores e quando Netanyahu já deixou claro que não está interessado num [6].
Mais, nos Estados Unidos vimos duas primárias democráticas atingirem os maiores valores de sempre no financiamento. Uma entidade israelita financiou com 25 milhões de dólares candidatos para fazerem frente àqueles que defenderam o fim do envio de armas para Israel [7].
A Alemanha expulsou Varoufakis por este defender a autodeterminação palestiniana [8].
Nestes casos vemos o antissemitismo a ser usado como desculpa para afastar qualquer chamada de atenção sobre Gaza, apesar de já inúmeras entidades internacionais estarem a falar no assunto. Resta afirmar que mesmo uma posição antissionista não é necessariamente antissemita, tanto que existem várias organizações de judeus que se manifestam contra o que está a acontecer.
[2] https://news.un.org/pt/story/2024/03/1829706
[3] https://www.nationalgeographic.pt/historia/israel-e-palestina-como-e-quando-comecou-conflito_4382
[5] Bregman, R.; Humanidade: Uma História de Esperança; Bertrand Editora; 2021.
[6] https://www.publico.pt/2024/08/20/mundo/noticia/netanyahu-concorda-proposta-continua-sabotar-cessarfogo-2101338
[7] https://theintercept.com/2024/08/24/dnc-aipac-squad-cori-bush-summer-lee/
[8] https://jacobin.com.br/2024/04/fui-banido-da-alemanha-por-defender-a-causa-palestina/
Sabem quando se acerta mesmo ao lado? Pois bem, quando se tem uma ideia e se começa a escrevê-la, ela ganha vida própria e acaba por seguir desgovernada. Por vezes, chego ao final de um artigo e fico impressionado como acabei por não dizer o que queria, apesar de ter escrito sobre o que queria. Na semana passada aconteceu e, tratando-se de um assunto mais intimista e ao qual julgo ser pertinente ser adicionado mais alguns aspetos, por isso, hoje retomo o fio à meada.
Na semana passada escrevi sobre a inércia que sinto em debruçar-me sobre os projetos, planeando, mas raramente conseguindo executar. Por me parecer algo algo transversal, fi-lo. Dúvidas houvesse, basta olhar para o associativismo – que tem outras carências igualmente obstaculizantes, que por sua vez, se manifestam também nos indivíduos e os leva a afastarem-se destas atividades. Tentei mostrar como isso me parece ligado à drenagem de energia inerente à sociedade (capitalista) em que vivemos: entre o ritmo acelerado da vida e a fixação na competitividade – mesmo connosco próprios.
A contribuição voluntária à comunidade, importante para a dinamizar e fortalecer, sofre particularmente com essa inércia. A atividade comunitária por excelência, a política, fica empobrecida – surgindo aqui um ciclo vicioso. Por ser esta uma peça central de mudança, permitam-me deixar aqui alguns testemunhos da minha experiência de sete anos como agente político. Desde logo, a política é vista como um capricho (estendo esta observação ao associativismo): as pessoas praticam-na como passatempo. Claro que isto está ligado diretamente à visão clubística que se tem. Isto é evidente no âmbito local ou para candidatos que não se conseguem eleger, quando avançamos para os ocupantes de cargos públicos o pensamento muda: são os tachos. As generalizações, contudo, mantêm-se: é tudo igual. Isto é o apelo à inação da própria comunidade, é a automutilação, a demissão do poder sobre si própria! Fazer política é entregar-se à comunidade e enquanto não a dignificarmos, nunca será digna. Poderia ainda acrescentar o «devias mudar de partido», como se as urnas só aceitassem certas cruzes, e o «és demasiado novo», como se isso excluísse qualquer contribuição válida. Quem sai do sofá é puxado por quem nele está.
No meio disto, dou comigo a pensar em como posso “simplesmente” profissionalizar-me, provavelmente como professor no ensino secundário, e viver a vida recatadamente, num canto, rodeado pela família e amigos, numa ilustrada ignorância e negligente inocência. Talvez haja quem leia estas linhas e me troce por estar a enunciar tão doces planos de vida num tom tão espinhoso. Pois bem, faço-o por serem uma ilusão: para muita gente esta “simplicidade” não está ao seu alcance. As aspas advêm de por detrás desta palavra estar subentendida contextualmente uma outra: estabilidade. No momento em que o maior sonho de muitos jovens é comprar casa, no tempo dos estágios, da precariedade,… a estabilidade é um privilégio que nos sai em rifa através da família que nos sustenta. Esta vida, que seria a mais básica das ambições, não está ao alcance de todos, isso não nos importa? Levar essa vida, agora, seria entregar a vitória a um sistema doente. Esta vontade vem de uma misantropia que, afinal, é asfixia pelo sistema. Isto é, aliás, o que garante, muitas vezes a sua sobrevivência: segmentar quem por si sai prejudicando, criando grupos ilusórios com desavenças artificiais – “dividir para reinar”. É a pensar num futuro mais distante, numa conversa com possíveis netos, que percebo que não pretendo ser um vencido da vida. Isto é suficiente para uma motivação política, contudo, os projetos pessoais, ainda que para a comunidade, ainda ficam pelo caminho.
Não faltam assuntos para comentar, mas, infelizmente, eles não perderão atualidade se esperarem um pouco mais. Hoje utilizo esta página como terapia, a exteriorização de o desabafo de um mariense de 22 anos. Este é um exercício de honestidade e franqueza.
Neste momento, escrevo de Santa Maria, encontrando-me de férias – apesar de ter um trabalho de investigação extracurricular ainda a decorrer. Tenho tempo livre. Tenho ideias. Contudo, quase nada é feito, e o que se consegue é a ferros. Cansaço? Talvez. Preguiça? Talvez. Desmotivação? Talvez. Mas nenhuma destas caraterizações promete esgotar esta inércia, esta resistência ao movimento. Já algumas vezes ao longo destes anos escrevi sobre este assunto. Pois bem, também é daqui que parto hoje. Julgo ser pertinente, porque esta questão me parece presente em muitas mais pessoas e é sintoma de algo que nos liga.
Permitam-me que comece por elencar alguns projetos que gostava de levar por diante, de forma a enquadrar o contexto social em que isto se me aparece (talvez escrevê-los aqui também funcione como catalisador).
Até hoje nunca me faltou nada, nunca passei necessidades. Isso faz de mim alguém privilegiado, face à realidade portuguesa e, mais ainda, açoriana. Esse bem-estar associado a um gosto pela ilha (pelo seu património natural e histórico), leva-me a sentir um dever de retribuição. Pelo menos desde 2017 tenho tentado contribuir ativamente para a nossa comunidade. Muitas ideias me cruzam a cabeça, muitas foram escritas e apresentadas, muitas ficaram esquecidas (várias fracassaram, outras ficaram órfãs), neste momento tenho quatro: Pensar Santa Maria, um think tank que pretende gerar informação e reflexão universalmente acessível sobre a ilha, já em funcionamento, mas com muito pouca adesão; a organização de um compêndio sobre a ilha; a elaboração de um percurso valorativo e sistémico que sirva de contribuição para o seu futuro; e a sistematização do pensamento filosófico mariense através da análise dos seus autores e da cultura popular. A estes projetos somam-se outros sem relação com a ilha, germinando todos eles daquilo que estudo e da atividade política.
Para estes projetos (como para tudo) precisa-se abundantemente de tempo, em alguns de mais pessoas.
Por norma, o décimo segundo ano é aquele com mais tempo livre, não obstante, foi aquele que menos ideias executei. Essa experiência levou-me a considerar verdadeiro a sabedoria popular: quanto mais tempo se tem, menos se faz. O atrito cinético é menor ao estático. Parece que precisamos de ser forçados a organizar o tempo para agir. Temos de entrar num registo de tensão para não parar. Não deixa de ser curioso que qualquer pessoa diga que não tem tempo. Ao mesmo tempo que a tensão gera a atividade, também a inibe. O trabalho, a família, levam a que muita gente se afaste, por exemplo, do associativismo. Há uma enorme dificuldade em encontrar grupos de pessoas dispostas a dar do seu tempo à comunidade.
E sinto-me culpado por acabar por não fazer. Por não ser produtivo. E é nesta consequência que se torna evidente que o sistema em que estamos tem um grande papel. As ideias tornam-se em obsessões que não arrancam por termos sempre metas distantes, além de nos esgotamos no ritmo frenético da vida, também o fazemos nas nossas expectativas, uma competição connosco próprios. Além do cansaço, imobilizamo-nos um pessimismo – mais vale estar quieto do que mais um fracasso. Falta empreendedorismo, dirão alguns. Pois bem, ele só acentua essa competição.
Este pessimismo que pesa radica de um sistema (construído por nós) que nos falha, não da nossa condição humana. Resta, portanto, a esperança.
No passado sábado, dia três de agosto, passaram duas peças no Telejornal da RTP Açores sobre as taxas de criminalidade nos concelhos açorianos e a insegurança sentida em Ponta Delgada, como abertura.
É-nos, desde logo, apresentado que, segundo o INE, os Açores têm a maior taxa de criminalidade, com 40‰. Aquela segunda circunferência em índice é importante: não estamos perante uma percentagem, mas uma permilagem. Ou seja, o que aquele indicador afirma é que por cada mil habitantes num dado espaço, ocorreram nele 40 crimes. Nos Açores, em 2023, ocorreram, em absoluto, 9788 crimes reportados pelas autoridades. Isto é importantíssimo ficar claro, porque na reportagem, quer no visual, quer na narração se afirma ser percentagem, o que seriam valores dez vezes superiores. Dez vezes.
Percebemos que esta reportagem, lamentavelmente, tem realmente um problema na literacia matemática, uma vez que também é afirmado que o valor da taxa de criminalidade em Portugal, de 35,0‰, é uma média, o que não faz qualquer sentido. Só poderia ser média, caso Continente, Açores e Madeira, tivesse o mesmo número de pessoas. Mesmo ignorando isso, se se tentasse fazer uma «média» o valor seria 33,9‰. Já agora, o que estava escrito no gráfico era «Portugal continental» em vez de «Portugal» ou «Nacional».
É afirmado que existe um aumento considerável dos casos de roubo na rua (houve mais 36), não obstante, não é dito que a taxa desses crimes é menor do que a do Continente ou a da Madeira. Já agora, 60% deles foram em Ponta Delgada.
Porque isto importa? Quem ouviu a reportagem, julga que os Açores se tornaram um local inseguro, o que não corresponde à realidade. Se virmos os dados detalhadamente [1], apercebemo-nos que o número dos casos total aumentou ligeiramente em relação a 2022 (0,5%), menos que a nível nacional (8,2%), e menos do que em 2021. Percebemos que só em 4 ilhas houve um aumento dos casos (em São Miguel diminui ligeiramente) – Santa Maria, por exemplo, tem, pelo menos desde 1993, o seu menor número absoluto. Mais de metade dos casos foram em Ponta Delgada e Ribeira Grande. Aquilo que parece estar a acontecer é uma diversificação das categorias de crime.
Há crime e devemos preocuparmo-nos em baixá-lo, particularmente preocupante a violência física, como a doméstica, mas não podemos ser sensacionalistas e criar um clima de insegurança onde ele não existe. Há uns meses o AO publicou uma notícia com o título «Dados de criminalidade são preocupantes» onde se lê que a pessoa citada que manifestou essa preocupação esclarece que ainda não se sabe se esse é um aumento real, ou casos a serem reportados e que anteriormente não o tinham sido. Foi uma opção jornalística a escolha do título que mimetiza as estratégias da CMTV.
Na notícia seguinte temos a reportagem sobre a insegurança em Ponta Delgada a dedicar 22 segundos de imagens a sem-abrigo e pedinte, sendo que não encontrei estudos que provassem uma prevalência do crime nessas comunidades. Como se não bastasse, o autarca fala em que por vezes se descriminaliza sem pensar nas consequências, o que me parece uma referência direta à toxicodependência. Caminhamos para estigmatizações que funcionam mais como profecias autorrealizadas do que análises racionais.
Nenhum dos jornalistas terá agido de má-fé, incorporaram este discurso, que só gera desconfiança e um apoio aos autoritarismos, daquele que é o cenário nacional (e mundial) da comunicação social.
Um sistema democrático, pelo menos tendo por base aqueles até agora concretizados, não é perfeito. Qualquer sistema padece dos seus males, o desafio é encontrar um que os minimize. Quando se fala em «aprofundar a democracia» aquilo que se refere é de reduzir os males da democracia, através da expansão dos valores democráticos – daí que se fale de «radicalização» como «ir à raiz». Um dos grandes males da democracia, que sempre existiu, e que parece não haver um antídoto eficiente, é a demagogia. A manipulação é uma técnica importante para a captação de votos, havendo muitos aspirantes ao poder político que afastam os escrúpulos e não têm receios em mentir ou iludir.
Num regime democrático é o povo o decisor, pelo que a comunicação política é dirigida às massas. Não significa, contudo, que uma mensagem ressoa igualmente em todos os seus recetores. Aliás, uma estratégia, atualmente usada e abusada pelo negócio dos dados digitais, é a segmentarização do eleitorado. Trata-se de ter uma mensagem específica para jovens, outra para pensionistas, outra para trabalhadores, cristãos,… A publicidade digital, pelas redes sociais, coloca as pessoas em caixas e expõem-nas à mensagem respetiva. Isto, claro, não é necessariamente demagogia, não obstante é um instrumento muito utilizado por conseguir colocar uma mensagem cirúrgica num local em que será provavelmente bem recebida, sem haver o olhar crítico de alguém que, por ter uma experiência diferente, possa ter e reconhecer nessa mensagem possíveis falhas. Ou seja, este tipo de comunicação apela à adesão instantânea, sem lugar para o pensamento.
Pois bem, escolher um público-alvo. A classe mais apontada é a classe média: são as pessoas que têm uma bolsa de ar – mesmo que ligeira. Se formos ver, percebemos que a abstenção é maior entre aqueles economicamente mais desfavorecidos e as classes altas são muito pouco numerosas. É a classe média aquela que tem moldado as grandes mudanças de sistema. O que sente a classe média atualmente (e quase sempre)? Que está asfixiada por impostos, que nada recebe, que é o motor da sociedade, que não tem visibilidade,… Todos estes sentimentos são sintomas do sistema capitalista em que vivemos, todos são propícios a serem instrumentalizado.
Suponhamos, num caso meramente hipotético, que existe uma proposta para que as crianças com pais trabalhadores tenham prioridade no acesso às creches, em relação àquelas cujos pais estão desempregados. Esta proposta tem a aparência perfeita! Valoriza quem trabalha (apesar de não considerar o trabalho doméstico, nem especificar a aplicação do critério), «coloca os subsidiodependentes no seu sítio» (apesar da maior parte do subsídios irem para os 20% mais ricos… [1] [2]), fala dos filhos (apesar de ser sobre os pais),… No fundo, é lobo em pele de cordeiro por de uma forma aparentemente lógica, levar a uma resolução inconstitucional e gerar divisão – quando as pessoas estão umas contra as outras, é mais fácil de radicalizar pela força do ódio. O mais triste nesta situação é fazer com que as crianças sejam discriminadas com base nos pais, levando a um ataque direto à igualdade de oportunidades. É inadmissível a hipoteca do futuro. É instrumentalizar crianças. Há 28 deputados que deviam ter vergonha.
Demagogia feita à maneira é como queijo numa ratoeira – canta Lena D’Água.
[2] Só um quarto da população portuguesa tem um rendimento por pessoa no agregado de mais do que 2000€ por mês.
Bem sei que existem notícias mais estimulantes e interessantes no outro lado do Atlântico, mas, também por isso, convém olharmos para uma notícia que passou algo despercebida pela nossa comunicação social – de vez em quando acontece informações importantes serem relegadas para um canto perdido numa página, para a semana julgo trazer outra.
No passado dia 9 de julho, a Amnistia Internacional lançou, em Lisboa, um relatório sobre o direito à manifestação na Europa [1]. A Amnistia Internacional é uma entidade internacional de renome no que concerne à defesa dos Direitos Humanos. O direito à manifestação é o que nos permite protestar, refletir e dar visibilidade a leis injustas e situações problemáticas. Sobre Portugal, são sete as preocupações [2]: Legislação sobre direito de reunião pacífica; Restrições quanto à hora, local e conteúdo dos protestos, sanções e punições; Tratamento discriminatório e diferenciado por parte da polícia; Policiamento dos protestos; Responsabilização dos agentes das forças de segurança; Desobediência civil; Estigmatização e retórica negativa contra os protestos. Vejamos sucintamente cada uma delas.
Desde logo, é necessário que os organizadores não sejam responsabilizados por condutas alheias e assumam responsabilidade além da organização, bem como não mencionar só cidadãos «nacionais» nesse direito e não haver custos associados.
Por um lado, tem havido várias manifestações com entraves relativos à forma de notificação, tal como a proibição em determinado local e horário. Por outro há a própria necessidade de manifestação (contrariando a própria Constituição) e a responsabilização dos promotores, levando estas a sanções.
Tem existido uma conduta diferente das forças policiais frente a diferentes manifestações. A Amnistia não apresenta exemplos neste ponto (talvez para evitar ferir suscetibilidades, o que poderia mudar o foco do essencial?), contudo parece-me evidente olhar para manifestações que implicaram o corte de estradas ou de neonazis por oposição aos ativistas climáticos ou pró-palestinianos.
Além dessa discriminação, o próprio policiamento tem resultado na dispersão de protestos, no uso de técnicas de dissuasão e revistas.
Neste sentido, é necessário haver uma responsabilização dos polícias que infrinjam a lei. Relembro, até o escrevi há uns meses, que vários jornalistas em Portugal têm sido agredidos pela polícia enquanto fazem a cobertura dos eventos.
A desobediência civil não está devidamente legislada, recaindo no direito à manifestação. O Público fez uma reportagem muito boa sobre o tema [3]. De recordar que tem havido apreensão de telemóveis e proibição de captação de imagens, o que é ilegal, além de que aqueles que foram judicialmente condenados por desobediência (mesmo pacífica) têm sido condenados.
Por fim, algo que me alarma imenso: há um discurso pejorativo contra o ativismo. Este sistema é tão perverso que é capaz de nos colocar, cidadãos, a ver quem luta pelos seus (nossos) direitos como o mau da fita. Claro que isto não aparece do nada: há alguma comunicação social com especial afinco nesta matéria, além de que se tenta lidar com grupos de manifestantes como organizações criminosas.
A AI tem uma página com várias informações legais sobre o direito à manifestação em Portugal, de forma a qualquer pessoa puder ter facilmente conhecimento [4].
[1] https://www.amnistia.pt/wp-content/uploads/2024/07/PREOCUPACOES_PORTUGAL_.pdf
[2] https://www.amnesty.org/en/documents/eur01/8199/2024/en/
[3] https://www.publico.pt/2024/07/15/azul/noticia/desobediencia-civil-nao-lei-direito-manifestacao-esta-respeitado-2097419
[4] https://www.amnistia.pt/protege-os-teus-direitos/
Bem sei que nas últimas semanas tenho andado com o olho focado mais lá para fora do que cá para dentro, trazendo a esta página as eleições que se realizaram no Reino Unido e em França. Fi-lo porque estamos a falar de eventos com fortes implicações em nós, quer seja pelos emigrantes que lá estão como pelo impacto diplomático e económico de diferentes resultados. Mais, ao se tentar pensar sobre as eleições, está-se a desvelar aqueles que são os nossos ventos contemporâneos: temos a possibilidade de, com o devido distanciamento, testemunhar aquilo que pode acontecer cá dentro. Estas análises são sempre difíceis, estamos a falar de cenários com muitas variáveis, onde a diferença de culturas se pode demonstrar crucial, mas com a globalização assiste-se a uma generalização de fenómenos cada vez mais, bastando olhar para a vaga da prominência de políticos e programas políticos de extrema-direita – digo-o assim, porque em vários casos se observa uma aproximação da direita democrática aos discursos, por exemplo, anti-imigração, como forma de tentar reter eleitorado.
Da França temos, justamente, esse legado. O resultado da normalização da extrema-direita, do não combate a políticas discriminatórias, à base do ódio, tornou a sua demagogia, a manipulação, livre de qualquer censura moral. O governo francês criou um pacote legislativo sobre imigração que contou com o apoio da extrema-direita [1] [2]. Se as suas ideias vencem sem ter sequer uma maioria na assembleia, não é de estranhar a sua vitória na primeira volta. Felizmente mostrou-se que o cordão sanitário funciona, mais uma vez, devendo habitar as nossas mentes a necessidade de unir esforços quando se trata de defender a democracia. Não obstante, nunca houve tantos lugares para o partido dos Le Pen como agora. Resta perceber que entendimentos vão ser tidos para a formação do executivo francês.
Do Reino Unido chegou-nos o desgaste e a resistência. O desgaste de um governo de tal forma que os votos nos seus candidatos foram divididos por outros partidos de direita, nomeadamente um partido de extrema-direita, levando a que, devido ao sistema, o Labour fosse beneficiado. Ou seja, mesmo tendo menos votos que em 2019, os trabalhistas conseguem uma maioria absoluta esmagadora ao nível dos resultados de Tony Blair. Tendo em conta que a participação recuou sete pontos percentuais e que o aumento do Labour foi de um ponto percentual, julgo que poderemos ver como os ingleses mão estão propriamente confiantes no programa do, agora, primeiro-ministro trabalhista. Isto é um duro golpe para aqueles que afirmavam que a posição socialista do Corbyn em 2017 (quinto melhor resultado popular absoluto de sempre do partido) não só não afastou eleitores, como os atraía. A eleição de independentes esquerdistas, entre eles Corbyn, além de verdes, nestas eleições, demonstra a importância do eleitorado que procura estas vozes. Só pela resistência eleitoral, pelo sistema culturalmente bipartidário, não temos mais vozes desalinhadas no parlamento. Por outro lado, esta mesma resistência impediu que a força de extrema-direita conseguisse um sucesso eleitoral maior do que o que teve – com muitas polémicas em torno de racismo e da ajuda à Ucrânia.
Julgo que algumas destas questões não haviam ficado claras, pelo que senti necessidade de as trazer de novo. Prometo que deixo aqui este assunto arrumado.
[1] https://pt.euronews.com/2023/12/20/parlamento-frances-aprova-nova-lei-de-imigracao-mais-restritiva
As eleições no Reino Unido permitiram-nos assistir na primeira fila às voltas que os analistas fazem. Uma mostra de como o comentariado político recusa qualquer honestidade intelectual. Talvez, assim, ao vermos lá fora, consigamos reconhecer cá dentro esse mesmo mal.
Na quinta-feira já estava decidido quem seria o novo primeiro-ministro, não havia dúvidas. As sondagens à boca das urnas davam uma das maiores vitórias de sempre aos trabalhistas. Com 412 em 650, devem ter um domínio absoluto do voto popular. Errado. O sistema eleitoral britânico é por círculos uninominais, sendo que quem fica à frente é eleito. O Labour teve mais 10p.p. que os conservadores, sendo que estes se ficaram pelos 121. O Reform UK, partido de extrema-direita, teve 14,3% e acabou com 5 deputados.
O problema dos comentadores. Se forem pelos mandatos, vão ter de dar tanta importância aos Verdes como dão ao Reform (algo que não acontece). Se formos pelo voto popular, temos de reconhecer que Starmer teve menos votos que Corbyn tanto em 2017 como em 2019. Os trabalhistas só ganharam porque os conservadores perderam.
Mas houve outras contas a serem viradas do avesso: a segunda volta das eleições legislativas francesas relegou a extrema-direita, que saiu com vantagem da primeira volta, para o terceiro lugar. Este resultado foi conseguido com o acordo de uma frente republicana, segundo a qual candidatos dos campos republicanos, nomeadamente a coligação do presidente ou a de esquerda, em círculos à segunda volta com mais de dois candidatos onde havia extrema-direita, desistiam a favor de outros, tornando a segunda volta polarizada entre a extrema-direita e o outro candidato. Resultou.
Em termos ideológicos aquilo que pode ser inferido é a recusa dos franceses terem um governo autoritário, contrário aos valores da Revolução Francesa: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Essa era a ameaça que pairava numa possível vitória do RN (o partido de extrema-direita que apoia Le Pen). A participação eleitoral é a maior desde 1997, tendo havido maior participação justamente nos locais em que a RN tinha maior força. Para mim, uma das mudanças mais impressionantes foi protagonizada por François Ruffin: no primeiro turno teve 34% por oposição aos 41% da sua adversária (RN), no segundo, com uma participação semelhante, atingiu os 53%. Houve corridas muito mais renhidas. O impressionante é como os dois candidatos disputavam o eleitorado de um terceiro, que desistiu pela frente republicana, tendo Ruffin alterado a sua estratégia de marketing, da noite para o dia, num direcionamento para essa franja. Este parece-me um exemplo a ser estudado.
No final das contas, a coligação de esquerda, a Nova Frente Popular, ganhou estas eleições com uma maioria relativa. Não se pode dizer que houve pouca emoção. Mais: o Ensemble (coligação que está atualmente no governo) conseguiu o segundo lugar. A frente republicana salvou a pele a Macron e abriu as portas à possibilidade de mudança através do programa da NFP. Infelizmente, parece que vai ser muito difícil um entendimento entre a NFP e o ENS para a formação de um governo. Seria um governo constantemente preso, a avançar aos solavancos e sem obra, um presente para a extrema-direita. O que provavelmente acontecerá será uma personalidade do centro-esquerda a ser primeiro-ministro, sendo o governo apoiado pelos ecologistas, socialistas, macronistas e republicanos moderados (o partido “Republicanos”, entenda-se). Assim, não fica o RN sozinho na oposição, mas também a França Insubmissa que, apesar de ser o maior partido da NFP seria o mais difícil de integrar num governo que puxa ao centro, permitindo uma alternativa à esquerda.
Concluo com o que disse a semana passada e que hoje muitos jornalistas e comentadores parecem ainda não ter percebido, adotando cegamente as palavras de Macron: a NFP não é de extrema-esquerda.
Esta semana é recheada de emoção: entre eleições na França, no Reino Unido e um debate nos Estados Unidos da América, não falta matéria para explorar. As eleições no Reino Unido serão esta quinta-feira, 4 de julho; as francesas terão a primeira-volta a 30 de junho e a segunda a 7 de julho.
Podemos começar pelo Reino Unido, aquelas que parecem as eleições mais previsíveis, com as sondagens a indicarem uma pesada derrota para os conservadores no poder há 14 anos. É o resultado de um acumular de escândalos, desde as festas durante a pandemia às apostas sobre a data das eleições antecipadas. Note-se que depois do Brexit, coube a Theresa May liderar o país, acabando por demitir-se e levar a antecipadas em 2019, que levaram Boris Johnson ao poder. Por sua vez, Johnson demitiu-se em 2022 ao fim de vários escândalos. Sem eleições nacionais, só internas ao Partido Conservador, Liz Truss chega ao poder. 44 dias depois demite-se. É assim que Rishi Sunak chega ao poder: numas eleições internas no Partido Conservador em que só são auscultados os deputados conservadores. Trata-se de um ambiente com um travo claramente amargo. Talvez uma das medidas mais emblemáticas de Sunak seja o «parem os barcos» [1]. A desumanidade é abismal. O serviço nacional de saúde, que era uma jóia da coroa, é visto como estando ao abandono. O mais extraordinário não é a pesada derrota que os conservadores vão sofrer, mas sim os trabalhistas, partido que ganhará, não ter uma visão mais clara e consequente. O investimento público previsto é quase insignificante, principalmente comparado com o Labour de Corbyn. O governo muda, provavelmente haverão melhorias, mas não se esperam diferenças que impactam realmente as pessoas.
Em França a maioria presidencial vai ficar reduzida ao terceiro lugar, a extrema direita ganhará as eleições e o segundo lugar caberá à coligação de esquerda, a Nova Frente Popular. Ao ver as reportagens das nossas televisões afigura-se um padrão: só se mencionar a NFP no fim e fazê-lo considerando-a o extremo oposto à extrema-direita. Esta é uma vitória do discurso de Macron. A forma acrítica como isso é feito, leva a que se veja uma coligação, que inclui o centro-esquerda, como um perigo à democracia, quando o seu programa inclui propostas como aumentar o salário mínimo; a gratuitidade do acesso à escola; reverter a reforma às pensões de Macron e colocando a idade da reforma nos 60 anos, de novo; taxar as grandes fortunas; ajuda à Ucrânia;... Isto só é um perigo a Macron, por se ter um programa que dá prioridade às pessoas, ao mesmo tempo que é alternativa à extrema-direita. É particularmente chocante ao vermos os ataques que são feitos a um programa apoiado por centenas de economistas, sendo que a economia de França tem vindo a piorar no governo de Macron [2].
Isto não é, contudo de espantar, mais uma vez, em maio, André Ventura foi o político com maior tempo de antena nas notícias televisivas portuguesas [3]. Ao mesmo tempo, chama aos jornalistas de inimigos [4]. Há uma luta pela hegemonia cultural muito violenta a tomar lugar.
[2] https://eco.sapo.pt/2024/06/30/defice-e-divida-elevados-poem-franca-no-caminho-de-ser-o-enfant-terrible-da-uniao-europeia/
É domingo de manhã, véspera de São João, tenho de despachar algum estudo, para não atrasar. Naturalmente, acabo a ver um documentário sobre a biodiversidade num dos nossos canais generalistas. Percebo que é realmente disso que preciso, então passei pelos canais de documentários à procura do que existia. Confirmo aquilo que já havia pressuposto. Então decidi escrever este texto para abordar um assunto que me parece importantíssimo: as alterações que se deram nas nossas televisões, mais precisamente, na programação dos canais, e como isso revela alguns dos nossos problemas.
Para começar, importa esclarecer a importância da televisão: na psicologia social avolumam-se os estudos sobre a influência que os media desempenham nas nossas atitudes e comportamento. Desde as teorias sobre a agenda pública ser definida pelos media [1], a sua importância na socialização [2] e o conformismo que geram [3]. Apesar de hoje falarmos muito das redes sociais e, em geral, do meio virtual, a verdade é que a televisão continua a ser um meio muito visto [4] – além de que muito do seu conteúdo acaba por ser acedido nos meios online.
Desde logo, começo pela questão que me moveu hoje: o conteúdo dos canais de documentários. Lembro-me, quando era criança – o que não foi há mais de uma década, de passar por esses canais e ver muitos programas que davam a conhecer a natureza, o universo e a História. Havia imagens, um narrador e especialistas convidados. Havia programas mais superficiais e informais, outros num registo mais rigoroso. Mesmo com muita informação a passar ou lado ou sendo esquecida quase de imediato, ficava maravilhado. Ao longo do tempo esses programas foram sendo substituídos por reality shows, onde parca informação se pode retirar. Nesses canais, só ocasionalmente passa um bom documentário, atualmente, os melhores até podem ser especulação sobre OVNIS. Felizmente, a RTP Play é um excelente arquivo público e gratuito de documentários (além de séries e filmes) [5].
Sobre os reality shows que abundam hoje, Rutger Bregman, em Humanidade, afirma «tome algum tempo para ver os bastidores dos programas e verá candidatos a serem conduzidos e jogados uns contra os outros de formas chocantes», apresentado vários exemplos e fontes. Aquilo que vemos como realidade é manipulação.
Trata-se da busca pelo sensacionalismo, aquilo que enche o olho. Bregman diz-nos «as notícias, segundo várias dezenas de estudos, são um perigo para a saúde mental». Elas versam o excecional, que nós tomamos como quotidiano. «O fascínio pelo apocalipse domina o panorama político, estético e científico. É uma nova ideologia dominante que é necessário isolar e analisar antes que, como um vírus, se apodere do âmago das nossas mentes», escreve Marina Garcés no Novo Iluminismo Radical. Os canais de informação impõem-nos um mundo que não é o nosso ao mesmo tempo que o constroem.
Esta nossa sensação de impotência é potenciada pela neutralização da nossa crítica, do nosso questionamento. Vejamos os canais juvenis (não infantis): as séries com atores deram lugar a desenhos animais, ainda por cima, sem conteúdo. Há uma infantilização em curso, que faz ecoar a Máquina do Tempo de H. G. Wells.
Enquanto isso, um leão marinho brinca com um pedaço de lixo nas Galápagos.
[1] Veja-se a teoria do agenda setting de McCombs e Shaw. Deixo aqui um conjunto de estudos de um laboratório poru«tuguês com muitos recursos interessantíssimos: https://labcomca.ubi.pt/estudos-do-agendamento-teoria-desenvolvimentos-e-desafios-50-anos-depois/
[2] Veja-se a teoria do cultivo de Gerbner.
[3] Veja-se a teoria da espiral do silêncio de Noelle-Neuman.
[4] https://www.marktest.com/wap/a/n/id~2aac.aspx Para um maior aprofundamento: https://gulbenkian.pt/publications/inquerito-as-praticas-culturais-dos-portugueses/
Estou a meio da época de exames, também em entregas de trabalhos, além de outros compromissos (incluindo uma investigação) e, no entanto, parece o momento em que tenho menos trabalho, não por tudo fluir, mas por ficar imobilizado por períodos de tempo, levando a que o trabalho seja feito por convulsões, ao ritmo da pressão dos prazos. Apesar de acreditar que tenha, no mínimo, uma incapacidade de gestão de tempo, julgo que esta experiência é partilhada por muitas mais pessoas, diria, até, por uma ampla maioria.
Será uma sobrecarga de trabalho o que leva a esta atitude? Será uma preguiça exacerbada? Será um cansaço? Julgo que mesmo que seja alguma destas opções, estaremos diante um conjunto de outros sintomas e não uma explicação para esta inércia. Aquilo que me parece mais provável prende-se com o que partilhamos: a realidade em que vivemos, um mundo em aceleração. Não se trata meramente de um mundo que se move a grande velocidade, mas a uma velocidade cada vez maior. Isto atordoa-nos, porque nos destabiliza: sentimo-nos cronicamente ignorantes. Não conseguimos estar a par de tudo, mas temos de estar em todo o lado, no entanto sempre com um sentimento de impotência.
Não admira que haja tantos livros de autoajuda e tantos treinadores disto e daquilo. Se me permitem, parece-me que a leitura de clássicos da Filosofia possa ser uma ótima ajuda em lidar com esta situação. Penso, por exemplo, em Nietzsche. Confesso que, baseado no que ouvi, achava que este autor se inseria no niilismo, num estado de espírito pessimista e derrotista, no entanto, depois de o estudar e ler, apercebi-me como errada é essa leitura. Nietzsche apresenta-nos um mundo integral: onde há prazer e dor. Aquilo que ele nos diz não é mais nem menos, de que nos compete pegar nas possibilidades que essa integralidade contém, somos nós que lhe damos significado (temos a tal vontade de potência). Também a poesia me parece uma grande ajuda: a sua estrutura permite aberturas, tanto nas palavras como nos espaços em branco, que são convites à desconstrução do mundo e, mais, à sua reconstrução. Admito que às vezes leio poemas sem os tentar interpretar, porque só me apetece experienciar a ritmicidade das palavras, a sua ressonância. E alargarmos às artes plásticas, talvez o movimento surrealista seja um bom exemplo: subverte as regras com as quais lidamos quotidianamente, despe-as. Muitas vezes, fá-lo humoristicamente. Nesta situação, haverá algo mais terapêutico sobre a tragédia do mundo do que nos rirmos dela?
Mas isto não nos resolve o problema, só nos permite viver com ele. No ano passado publicou-se em Portugal um pequeno ensaio de Marina Garcés, Novo Iluminismo Radical*, que me parece analisar de uma forma assombrosa o espírito do nosso tempo. É uma leitura em profundidade, e olhem que eu tenho sentido imensa dificuldade em encontrar profundidade em vários trabalhos. Ela fala-nos, por exemplo, do analfabetismo ilustrado: conhecemos muito e podemos pouco. Algo utilizado como ponte as neutralizações da crítica, a impossibilidade de pensar estruturalmente a realidade: «a saturação da atenção, a segmentação de públicos, a uniformização das linguagens e a hegemonia do solucionismo». Basicamente, segundo entendo: não sabemos por onde nos virar, então fechamo-nos numa bolha, sempre à procura de remendos.
Acho que já se percebeu que a solução é a mudança deste sistema em que vivemos – com fraternidade e radicalidade. Julgo também ser necessário afastar um obstáculo que podemos colocar a nós próprios: o idealismo. Mesmo que concretizemos algo, nunca será como queremos. Será essa a beleza da utopia, um caminho constante.
* Com «radical» entenda-se «estrutural», que vai à raiz.
Hoje trago uma catrefada de referências que nos devem fazer pensar. Confesso que o faço, também, porque é difícil escrever sobre este assunto, de tal forma violenta é a informação. Falo da situação que que está a acontecer em Gaza, do genocídio, impossível de negar, que já levou, até, ao Tribunal Internacional emitir mandados de captura para líderes israelitas e do Hamas [1]. Estamos a falar de uma destruição avassaladora, cujos números são absolutamente horripilantes [2]. Mais de 15 000 crianças já foram mortas em Gaza. As próprias agências da ONU no local estão a ser atacadas [3] e a ajuda humanitária está a ser negada [4].
Já morreram tantos palestinianos desde outubro como ucranianos desde fevereiro de 2022. Não obstante, o tratamento internacional tem sido muito diferente, até porque Israel é visto como um aliado do Ocidente (e produto deste). Face a esta inação dos governos, vários protestos se desencadearam, como nos Estados Unidos [5]. Vários estudantes a ocupar as suas universidades, exigindo um corte de relações das instituições com Israel. A resposta tem sido a brutalidade, sendo de referir que é habitual os conselhos de administração terem pessoas com ligações a Israel [6].
Em Portugal também se formou esse movimento estudantil [7]. Devia ser um orgulho termos gente que se importa com a vida humana a milhares quilómetros de distância, mesmo sem implicações diretas neles. Olhando para o caso do Porto: pacificamente ocuparam uma zona exterior da FCUP, sem ter interrompido ou impedido qualquer aula. Exigiam um corte de relações com Israel, o que já tinha acontecido com a Rússia, sem problema [8]. A diretora decidiu lidar com o protesto da pior forma, recusando o diálogo e fazendo um ultimato. Um segmento dos ocupantes, em resposta, ocupa uma sala de estudo (onde não decorrem aulas). Existe violência por parte dos seguranças e de estudantes que se assumem como de extrema-direita. Na manhã seguinte os estudantes acabam a ocupação frente a um forte contingente policial, sem qualquer vestígio de vandalismo. Impacta-me particularmente a quantidade de mentiras que outros estudantes afirmam: entre armas brancas e vandalismo, que a própria diretora reconheceu não existir.
Numa ação mais recente, num protesto pacífico ao discurso de von der Leyen, os manifestantes foram agredidos pela polícia [9] e pelos próprios militantes do PSD/CDS/PPM [10], enquanto a presidente da Comissão Europeia, numa trágica ironia, afirmava que «Se vocês estivessem em Moscovo estariam presos em dois minutos», saudando a liberdade de expressão que os manifestantes tinham.
Este é o nosso tempo, são os nossos contemporâneos, saibamos estar do lado certo da História, aquele que respeita a dignidade humana.
[1] https://news.un.org/pt/story/2024/05/1831876
[2] https://www.aljazeera.com/news/longform/2023/10/9/israel-hamas-war-in-maps-and-charts-live-tracker
[5] https://www.bbc.com/portuguese/articles/cd134y7zw3yo
[6] https://www.instagram.com/p/C6eikmouK51/?img_index=1
[7] https://mariasaraivabrandao.wordpress.com/2024/05/18/o-espaco-que-as-ideias-ocupam/
[10] https://twitter.com/britoguterres/status/1799033836149584021
Hoje trago apontamentos destes tempos que vivemos. Coisas que me parecem pertinentes deixar janelas para refletirmos.
O ponto mais chocante desta lista é a entrevista de Óscar Cardoso ao Correio da Manhã [1]. No lead lê-se que este ex-agente da PIDE não via a atuação desta polícia como fazendo uso da tortura. Trata-se de algo impensável nos 50 anos do 25 de abril. Num vídeo que corre nas redes sociais [2], ouvem-se estas e outras barbaridades a serem ditas por quem teve uma pensão atribuída por Cavaco Silva (e recusada a Salgueiro Maia). O nosso repúdio deve ser total e evidente. É preciso nos insurgirmos contra este discurso.
Infelizmente, podemos esperar o branqueamento deste tipo de discurso na Assembleia da República, já que Aguiar-Branco se recusa a respeitar o regimento (e a Constituição) [3].
O CH Açores propôs a caça ao rato [4]. Esta tentativa da normalização da arma de fogo, a desresponsabilização da ação do Estado sobre um problema comunitário, são maus pronúncios que nos devem soar distópicos.
Um triste espetáculo da política portuguesa tem sido o experimentalismo da comunicação da Iniciativa Liberal nas redes sociais. Fazem vídeos de ataque pessoal, sem mencionar propostas [5], esvaziando o debate e estimulando o gosto pelo alimentar do ódio à política. Como se não bastasse, ainda consegue fazer uma apologia ao consumo do álcool [6].
Tem sido frequente a utilização das contas institucionais do Governo da República para fazer propaganda, luta partidária além da divulgação. Isso verifica-se nos avisos da CNE [7], mas facilmente se sente a vergonha em lê-lo em algumas publicações, tal como a do aeroporto [8]. Esta é a demonstração de como temos um governo que abertamente governa a olhar para as eleições e não para o país.
Hossenfelder, uma física teórica alemã, que se tornou youtuber para fazer divulgação científica, publicou um vídeo onde crítica o modo atual de fazer ciência [9]. Parece-me importante percebermos que aquele mundo que consideramos como a maior das verdades se rege por forças completamente alheias à ciência. Precisamos de repensar a forma como olhamos a investigação, tanto nos laboratórios como na academia.
Ainda numa ótica do repensar, um economista que ganhou o Nobel, Angus Deaton, publicou um artigo em que «repensa a sua visão económica» [10]. Este pensador neoliberal atesta a falência da doutrina na sua tecnocracia, abandonando a ética, e levando às desigualdades e concentração de poder. É particularmente interessante ler o seu testemunho sobre os sindicatos, onde afirma a sua necessidade hoje para lidar com os abusos laborais.
[2] https://twitter.com/WalterDomings/status/1784667036833996868
[5] https://www.tiktok.com/@liberalpt/video/7375626605399461153
[6] https://www.tiktok.com/@liberalpt/video/7358921632540413217
[8] https://twitter.com/govpt/status/1790502373439177003
[9] https://www.youtube.com/watch?v=LKiBlGDfRU8&ab_channel=SabineHossenfelder
[10] https://www.imf.org/en/Publications/fandd/issues/2024/03/Symposium-Rethinking-Economics-Angus-Deaton
Nestas últimas duas semanas, trouxe uns tópicos que me parecem pertinentes no seguimento das eleições europeias, que se realizarão dia 9 de junho. Hoje julgo concluir esta sequência.
Desde logo, é importante divulgar uma grande alteração na votação: dia 9, sem inscrição prévia, é possível votar em qualquer mesa de voto. Também vai estar disponível o voto antecipado em mobilidade a 2 de junho, nos moldes que já têm vindo a ser usados nas eleições dos últimos anos. [1]
Tal quando comecei esta sequência, julgo que é necessário vincar o debate sobre a Europa, sobre as instituições europeias, que é necessário ser feito de forma estrutural, radicalmente. A União Europeia, neste momento, pode ser perspetivada como uma oportunidade perdida de um projeto internacionalista. Um bloco europeu que se deve saber alargar, é uma chave importantíssima para conseguir lidar com grandes temáticas, que levam a crises, como as alterações climáticas, as migrações, inteligência artificial, a digitalização,… Não obstante, só faz sentido falarmos desta unidade, se tivermos em mente um modelo democrático: um Parlamento Europeu desburocratizado e com mais poder, em que as suas eleições sejam vistas como eleições transnacionais e com protagonistas de nível europeu, sendo a Comissão Europeia um resultado direto dessas eleições. É óbvio que a realidade é muito mais complicado do que aquela que eu posso fazer crer com estas pretensões virgula com tudo tento mostrar como está nas nossas mãos a possibilidade de mudança.
Algumas controvérsias colocaram as instituições europeias nas notícias, como o caso do Qatargate. É uma realidade que muitos eurodeputados auferem de rendimentos de outras atividades que desempenham. O POLITICO tem um artigo que analisa com rigor esta questão. São 185 os eurodeputados nessas condições e é curioso notar que só 4% são da Esquerda e os seus rendimentos correspondem a 0,2%, caso semelhante com os verdes. Ou seja, é curioso notar que esta questão parece-me funcionar como um espelho da ideologia. No meio disto, aquilo que nos importa é garantir que não existem conflitos de interesses. Felizmente, já algumas medidas foram adotadas [3].
Contudo, a necessidade de transparência afigura-se cada vez mais premente. Úrsula von der Leyen já afirmou a sua disponibilidade, enquanto spitzenkandidat, de diálogo com os Conservadores, que incluem partidos de extrema-direita como o de Meloni e o Vox. Tendo em conta as eleições mais recentes nos diversos países e as sondagens que vão saindo, é expectável um crescimento dos grupos parlamentares das direitas radicais e extremistas. Esta porta aberta é o fim das possibilidades de um verdadeiro projeto europeu. Nós estamos numa situação agradável [4].
Julgo ser importante evidenciar a demagogia desses projetos que se alicerçam no ódio, que não poupam insultos à «classe política», mas que faz quase 1 000 000€ noutras atividades [2] e tem uma escassa participação legislativa [5].
A minha esperança é que os jovens sejam um garante de progresso, olhando para quem por toda a Europa foi privado da sua Liberdade e não ouvindo quem prefere incendiar a construir.
[3] https://www.politico.eu/article/eu-meps-qatargate-transparency-assets-declaration/
[5] https://www.politico.eu/article/european-parliament-data-groups-far-right-green-deal-gender/
Esta semana aloja, na sua quinta-feira, o Dia da Europa. Para muitos portugueses, União Europeia é sinónimo de apoios financeiros, de projetos – principalmente para quem nasceu nos anos oitenta e por aí diante. Parece-me que pensamos muito pouco a Europa e o nosso lugar nela. Os momentos em que mais ouvimos falar nela são de cinco em cinco anos, aquando das eleições europeias – e, mesmo assim, os temas de campanha e os debates, muitas vezes, resvalam para assuntos nacionais. Cerca de metade dos portugueses não está interessada nestas eleições que ocorrerão a 9 de junho, apesar de uma grande maioria perceber o impacto da EU nas duas vidas [1]. Estas eleições são aquelas com maior abstenção em Portugal. Julgo que isto revela um pouco daquela que é a minha intuição: a Europa é uma oportunidade perdida. Este projeto internacionalista cria a possibilidade de uma ação conjunta, com um profundo impacto dentro das suas fronteiras, mas, também, fora delas. O caso das alterações climáticas é um excelente exemplo. A Europa é uma defesa aos perigos do mercado desregulado, da inteligência artificial desregulada,… Ou melhor, podia ser. Podia ser tudo isto e mais. Basta irmos às redes sociais das instituições europeias para se ter um cheiro do que pode ser feito [2]. Onde está o «mas»? Na falta de democracia. É isso que devemos discutir: como democratizar a Europa. Desde logo, não nos fazia mal nenhum ver o debate entre aqueles que são as escolhas dos partidos europeus como possibilidades para presidir à Comissão Europeia [3].
Permitam-me olhar um pouco para o cenário eleitoral das europeias em Portugal.
Já temos todos os cabeças-de-lista a estas europeias [4]. Tanto o PS como a AD (PSD+CDS) surpreenderam. O PS por colocar Marta Temido em destaque, quando o seu nome parecia (talvez ainda esteja) seguro para a Câmara de Lisboa, mas também por constituir uma renovação total (nenhum dos eurodeputados atuais do PS manterá o seu lugar). Não obstante, parece mais do mesmo e só o nome de Bruno Gonçalves gera alguma curiosidade. Por outro lado, a lista da AD surpreendeu pela novela com Rui Moreira e com a escolha de Bugalho para a encabeçar. Rui Moreira sempre afirmou que cumpriria o mandato até ao fim no Porto, mas andou pelos corredores a dizer que seria cabeça-de-lista da AD para ser comissário europeu [5], e veio a público queixar-se da indecência da AD o convidar para segundo ou mandatário (a ofensa!). Bugalho foi efetivamente uma surpresa. Já li várias críticas pela idade e falta de experiência política. Discordo e em artigos anteriores já o expliquei. O problema de Bugalho é que andou anos no comentariado a fazer campanha, apesar de se afirmar como jornalista. Trata-se de uma traição ao bom senso. No seu primeiro discurso [6] já conseguiu: errar o número de quinas da bandeira portuguesa (um episódio caricato, já que o governo da AD ajuda a importar uma guerra cultural, mudando o logotipo do governo de forma a melhor «respeitar» a identidade nacional) e usar uma expressão conotada com a extrema-direita [7]. Bugalho é, aliás, a prova do desvio do PSD para a direita, numa tentativa de recuperar eleitorado do CH. Muito mau prenuncio.
[1] https://europa.eu/eurobarometer/screen/home
[2] https://www.instagram.com/europeanparliament/reels/
[3] https://maastrichtdebate.eu/watch-live/
[4] https://www.jpn.up.pt/2024/04/23/saiba-quem-sao-os-candidatos-as-eleicoes-europeias/
[6] https://www.youtube.com/watch?v=RGxoQwyc9K0&ab_channel=PSDTV
No passado dia 25 de abril celebrámos os 50 anos da nossa democracia, da liberdade como valor fundamental, sujo mote é o do seu aprofundamento. «Celebrámos», como quem diz, a multidão gigantesca de portugueses que saíram à rua e muitos outros que gostariam de lá ter estado ou estiveram através das suas ideias. A verdade é que existe uma parte dos portugueses a quem o 25 de abril é indiferente, e outra em como foi um evento negativo [1] [2]. Haverá sempre um grupo de desalinhados, como em tudo (e ainda bem, porque nos relembram do nosso papel ativo, de como nada pode ser dado como garantido), mas quando mais de um milhão de portugueses confia o seu voto, a sua voz, num partido que abandona o parlamento mal se começa a cantar «Grândola Vila Morena», ficamos cientes que algo está mal. E não foram só os deputados do CH a abandonar o hemiciclo, como também os do CDS e uma minoria do PSD [3].
Sobre este episódio, julgo tratar-se claramente de uma tentativa de associar a música à esquerda, uma tentativa de polarizar a sociedade que, em última instância, polarizará sobre os valores de abril. Está-se a dar uma importação da guerra cultural que se vive no outro lado do Atlântico pela direita radical, sendo que a direita democrática é cúmplice, pelo medo da perda de eleitorado. «Grândola Vila Morena» foi uma senha do 25 de abril, tal como «E depois do adeus», tendo sido usada como a confirmação do início do processo revolução: esta cação de José Afonso representa o 25 de abril, não fações partidárias.
Outra forma de enfraquecer o 25 de abril advém da sua relativização, como a de Moedas a tentar associar a revolução à «moderação» [4]. Como a tentativa de ofuscar as comemorações do 25 de abril, através de uma discussão sobre o 25 de novembro [5], mais uma vez, com o propósito de importar uma guerra cultural. Nisto, fica a vergonha de ver a maior Câmara Municipal do país a não dar resposta a uma tradicional comemoração da Revolução dos Cravos [6].
O caminho deve ser o de aprofundamento de abril: não faz sentido a discussão sobre os seus valores, mas a discussão sobre a forma como os concretizar. A liberdade é o maior dos valores de abril, não me cabe na cabeça a possibilidade de a discutir (mas é isto que está a acontecer).
Um grande obstáculo às discussões são as incursões moralizantes, que pretendem fazer as discussões na base de regras sem um substrato teórico fundamentado. Não se discutem valores, mas contingências particulares, desmembrando a ação política. Muitas vezes, mais uma vez, são instrumento para a guerra cultural.
Saibamos celebrar abril, juntos. Apesar de parecer haver uma relutância em se publicarem números, desde 1974 que não se deve ter visto tanta gente nas ruas a celebrar abril [7]. Ninguém largará a mão de ninguém.
[2] https://sondagens-ics-ul.iscte-iul.pt/wp-content/uploads/2024/04/Estudo-ICS_ISCTE_25A.pdf
[4] https://twitter.com/Moedas/status/1782880958435283172
Estamos a poucos dias dos 50 anos do 25 de abril. Arrepia-me escrever estas palavras, por sentir a vertigem da sorte que tenho: estou vivo e faço-o num espaço e tempo onde a Liberdade se escreve com um éle maiúsculo [1]. Nunca conheci a sua ausência, mas os meus avós sim. Sentiam-na não só pelos constrangimentos à expressão do pensamento, como também na falta da «paz, pão, habitação, saúde e educação» [2].
A melhoria de condições de vida é transversal às várias dimensões, o que não significa que estejamos no ponto ótimo: é necessário melhorar, continuamente, sempre a tentar cumprir abril, uma esperança que alumia o caminho.
Não obstante, o nosso mundo hoje enfrenta grandes desafios, crises que nos servem de desafios, à nossa capacidade de superação e engenho, mas que também custam vidas. As crises climática, social (desigualdades), migratória, geopolítica,.. intersetam-se no nosso tempo e o 25 de abril tem de lhes fazer frente. O seu grande contributo reside em nos colocar a pensar nas grandes questões: a nossa forma de fazer política, de agir socialmente, tem sido a concatenação de compromissos em áreas circunscritas, impedindo qualquer discussão estrutural. Como é possível pensar o futuro sem discorrermos sobre o que é a vida boa? Perguntava ainda outro dia a professora Paula Pereira. Tem toda a razão.
Deixarmos cair a radicalidade do pensamento é o que leva a que as pessoas sejam suscetíveis a preferir tecnocracias e autocracias, como podemos ver na sondagem que saiu em parceria com o Público [3]. As pessoas, sentindo tempos de incerteza, buscam a segurança num poder central, num foco único capaz de garantir uma verdade e um rumo. Ainda para mais quando temos a corrupção e as questões de criminalidade a serem percecionadas como as piores áreas, segundo a sondagem realizada em parceria com o Expresso [4]. É terreno fértil para quem se quer afirmar como um messias. Queremos olhar o futuro, melhorando o presente, mas não podemos esquecer o passado. Preservarmos a memória é essencial.
Aquilo que importa é perceber que «25 de abril» é um gerúndio, um presente em construção. «25 de abril» é o respeito pela dignidade humana, que compreende uma vida boa, tal como o pensamento crítico, uma atitude inconformada que aponta sempre à melhoria do presente e, além de o pensar, executa. É verdade que estão a sair da toca [5], que se normaliza o ódio e a ignorância, mas somos, democratas, muitos mais. Sejamos capazes de mostrar isso, não nos demitirmos da nossa parte. Se isso implica ir para a rua participar na marcha do 25 de abril, que seja, se for ir a uma Assembleia Municipal tomar palavra no período do público, que seja, se isso for assinar petições, que seja, se isso for ter de explicar àquele familiar ou amigo que o Estado Novo não são boas memórias, que seja, se for explicar que os direitos não são obrigações, mas possibilidades de existência, que seja, se for distribuir panfletos, que seja. Cada um de nós tem cabeça, consegue perceber onde melhor encaixa. Celebremos, dancemos, cantemos, e garantamos que deixamos ao outro, nosso contemporâneo ou vindouro, um lugar para se juntar à celebração. Viva ao 25 de abril!
[1] https://freedomhouse.org/country/portugal/freedom-world/2024
[2] https://www.youtube.com/watch?v=HVCt3RGcjRQ&ab_channel=SergioGodinhoVEVO
[4] https://sondagens-ics-ul.iscte-iul.pt/wp-content/uploads/2024/04/Estudo-ICS_ISCTE_25A.pdf
Desde logo peço desculpa a quem lê este texto por quase metade serem referências: julgo serem todos pontos desta semana que passou que nos devem fazer refletir.
Se na semana passada já aqui tinha posto a incoerência de Montenegro quanto à primeira medida, que foi a mudança do logótipo, em vez da baixa dos impostos, esta semana ficámos a conhecer mais contradições deste novo governo, demonstrando um enorme desrespeito pelos eleitores.
A grande notícia é a do «choque fiscal» [1], tão aguardado, e de tal forma frouxo que até as forças de direita o criticam. Fazendo as contas, é fácil perceber que a redução do IRS corresponde quase totalmente ao previsto pelo PS, nos 1500 milhões anunciados, há só um acréscimo de 173 milhões em relação ao avançado por Medina [2]. Julgo que ver estes dois vídeos [3] nos permitem perceber a desonestidade deste governo. Isto deve-nos preocupar seriamente, estamos a falar dum «partido de governo» que sistematicamente atua diferentemente do proposto.
Infelizmente, também sabemos para quem trabalha este governo, quem pretende beneficiar. As mudanças no IRS jovem, por exemplo, beneficiam só quem tem salários mais elevados [4]. As moções de censura apresentadas justificam-se, justamente, pelos benefícios dados a uma elite económica, em detrimento dos trabalhadores [5].
Como se não bastasse, temos reações de retrocesso em questões sociais, tendo, por exemplo, o Observatório das Migrações já alertado para as fragilidades desta nova visão sobre a imigração [6]. No âmbito de uma proposta votada no parlamento europeu sobre o aborto, Montenegro mostrou-se desfavorável ao reconhecimento desse direito como direito fundamental na União Europeia [7].
Este conservadorismo que figura no governo tem paralelo na sociedade civil, fruto de uma normalização que permite o à-vontade para dizer as maiores absurdidades [8], ainda por cima com o apoio de um ex-primeiro-ministro. Ao olharmos para estes académicos conservadores, percebemos facilmente a sua desonestidade intelectual e baixeza moral [9].
Nos Açores, uma deputada, imagine-se, do CHEGA, achou por bem votar contra um voto de saudação aos 50 anos do 25 de abril (ao contrário de todos os outros deputados) [10]. Já para não falar do drama da SATA e as vagas no Governo dois meses depois das eleições.
Quando chegamos a este ponto, só apetece mesmo dizer: não me chateiem. Mas que ninguém se iluda: este é o momento de irmos para a rua defender a nossa voz e os nossos direitos.
[3] https://twitter.com/Tomas_Pereira_T/status/1778704118460112989
[5] https://www.publico.pt/2024/04/11/politica/noticia/be-pcp-tentam-rejeitar-programa-donos-2086674
Olhamos para a agenda mediática, para os jornais, para a agenda política, e percebemos que se fala do que importa: de resolver a crise na habitação, da emergência climática, da melhoria do Serviço Nacional de Saúde, a fixação de jovens, o combate à precariedade laboral, o aprofundamento da democracia, a erradicação da pobreza,…
Mentira.
Peço desculpa pelo sarcasmo, mas aquilo que se fala é de um logotipo. Mais concretamente, a reversão do logotipo do governo. Não vale a pena entrar em discussões sobre design, sobre simbologia, julgo que isso está mais do que debatido. Aquilo que me importa é a ação. O próprio autor do design adotado em 2023 disse que esta mudança é «ideológica e estratégica» [1], e muito bem. Aliás, a justificação avançada pelo governo assume-o perfeitamente: «repõe símbolos essenciais da nossa identidade» [2]. Ou seja, esta mudança tem um cunho nuclearmente nacionalista. Da confusão e ignorância sobre o que é um símbolo do governo, traz-se para Portugal a tentativa de acender a chama do identitarismo nacionalista. Este é um presente à extrema-direita, que, nem mais nem menos, é quem mais grita sobre o assunto. O grande acontecimento é esta discussão de Twitter ter passa a ser uma decisão política assumida por um executivo. A identidade nacional, que não tem tido problemas em Portugal, de repente tornou-se uma prioridade. É trágico perceber que é uma prioridade o ponto de ser a primeira medida tomada por este governo quando na campanha foi dito que a primeira medida seria a baixa dos impostos [3]. Como de não fosse suficiente a direta democrática entrar no jogo da extrema-direita, temos ainda a mostra como aquilo que foi dito em campanha de pouco vale.
De forma semelhante, esta semana lemos numa notícia que o programa económico que foi apresentado em campanha por Montenegro afinal tem de ser mudado para respeitar as metas europeias [4]. O problema? Essas metas já eram conhecidas no final de 2023 [5] e Pedro Nuno Santos, no debate com Montenegro já tinha alertado para questão. Parece que os polígrafos desta vida terão bastante trabalho em relação às declarações deste governo.
Também é lamentável a posição do governo sobre o genocídio em Gaza, de novo evidenciando a vontade de uma mudança cultural na sociedade portuguesa, que foi publicada pelo MNE [6]. Quando temos António Guterres na ONU, e até os EUA que finalmente mudaram a retórica, a alertar a plenos pulmões para o massacre que Israel inflige aos palestinos, o ministério de Rangel fala no Hamas e nos civis israelitas, sem qualquer menção aos crimes que estão a ser cometidos pelo país.
Com um governo assim e um Presidente da República assado [7], temo pelo futuro.
[5] https://eco.sapo.pt/2023/12/20/novas-regras-orcamentais-arrancam-em-2024-saiba-o-que-muda/
[6] https://twitter.com/nestrangeiro_pt/status/1777037486989906293
E está fora de moda. Vivemos numa sociedade acelerada, onde o tempo é visto como um recurso escasso e valioso. É «natural» tudo ser feito sem haver lugar para uma respiração profunda (só para suspiros e mesmo assim…). Quando se faz uma pergunta a alguém, a nossa expectativa é de uma resposta naquele exato momento. Provavelmente, talvez dependendo do contexto, até julgaremos a pessoa que toma uns momentos – pior ainda se não souber a resposta, então foi fazer-me perder o meu tempo! [1]
Como se não bastasse o imediatismo da resposta, ela tem de ser concisa. Um bom raciocínio é o mais simples possível, que permita a coerência mínima da teia conceptual e está a andar. A nossa atenção é menor e não queremos debater (com debater entendo uma troca de argumentos válidos estruturada e justificada, muito longe das redes sociais e da maioria das conversas de café). Ou seja, pensar antes de responder, responder justificadamente e permitir o desenvolvimento da resposta é tudo, na verdade, um custo de tempo. É esta a nossa sociedade. Não admira que às vezes as respostas de que precisamos estejam tão longe da nossa vista.
O pensamento crítico é a atitude de não aceitar per si uma afirmação, desconstruindo a realidade que nos é dada, e formular estruturada e justificadamente essa afirmação, num sólido processo construtivo. Estes processos são complicadíssimos de fazer com tudo o que nos aparece: é impossível estarmos o dia todo a fazê-lo. Por isso, confiamos nos testemunhos. Nesse sentido, o nosso treino tem de ser o de reconhecer a autoridade epistemológica das fontes e estar atento a algo que soe mais estranho, averiguando se houver essa importância. Este hábito de questionar e investigar tem de ser estimulado, por forma a se perceber o que é pura retórica, demagógica, e o que tem conteúdo.
Para que servem debates? Quando os interlocutores têm posições definidas e fundamentadas, podem ser úteis para encontrar fragilidades na argumentação e, assim, robustecer cada raciocínio. Parece-me ser muito romântica a ideia do debate como conversão. Não digo que com eles pessoas não possam mudar de opinião, mas parece-me uma minoria das vezes. Talvez em alguns se consegue chegar a alguma conclusão conjunta, mas isso exige haver uma flexibilidade ou essa conclusão ter um caráter geral/abstrato. Agora, quando falamos de debates entre alguém com uma posição definida e fundamentada com alguém sem opinião ou de espectadores sem opinião de um debate entre pessoas com posições definidas e fundamentadas, penso que já podemos falar mais claramente da possibilidade de conversão. Julgo que esta é a base dos debates eleitorais: a persuasão dos indecisos. Um grande problema é existir muita gente (pelo menos muito ruidosa) que tem as posições definidas, mas não fundamentadas: não esclarece, nem deixa esclarecer. Emperra o debate. E aqui encaixa o desenvolvimento da questão anterior: mesmo diante das afirmações mais estapafúrdias devemos tomar um tempo para pensar, quanto mais não seja em como foi possível aquela verbalização ou como contrariá-la.
Não sei se por estar em Filosofia, o meu primeiro instinto numa conversa é contrariar, mesmo que concorde com o que a pessoa está a dizer. Admito que é bastante irritante, faço-o, muitas vezes inconscientemente, em piloto automático, como resposta cética. No mínimo, treina-se a paciência (dos outros).
[1] É interessante analisar como em certos contextos não saber a resposta é o suposto, há um endeusamento da ignorância. Talvez pela insegurança pessoal que se gera por viver numa sociedade sedenta de respostas (e rápidas) e sentir-se que não se consegue atingi-las (nos moldes que a sociedade fast food impõe).
As nossas circunstâncias parecem estar a mudar. Talvez não seja num rompimento, mas antes numa transformação gradual que tem na atualidade uma expressão que começa a ganhar visibilidade. A deterioração dos valores de abril parece evidente, sendo que me parece ingénuo afirmar que esse processo é especificamente deste tempo e não uma questão estrutural, cultural. A hegemonia cultural hoje, aliás, é da normalização do ódio. E da selvajaria.
Recordo que num artigo anterior já escrevi sobre a utilização de crianças, filhos de políticos, como arma política [1]. Intuitivamente, por bom senso, seria impensável num debate este assunto ser levantado ou ter qualquer relevo. O respeito pela vida privada e pela integridade do outro, neste caso acentuado por ser relativo a pessoas estranhas à atividade política, tem de ser um princípio na arena política. Se hoje é possível este debate rasteiro, é porque se normalizou a selvajaria.
Basta ir às redes sociais para perceber esta banalização da barbaridade. Existe um completo atropelamento ao outro a partir do momento que discorda da opinião, ou até, e aqui entra no ódio, integra uma comunidade considerada intrinsecamente inferior. Não são raras as ameaças à integridade física que se leem nesses espaços. Isto não pode ser visto como normal.
Este discurso de ódio [2], em específico, tem levado a um aumento nos crimes de ódio [3], esta correlação já tem vindo a ser estudada há anos [4]. Trata-se de uma hegemonia cultural do ódio que custa vidas. Infelizmente, ao que tudo parece indicar, os Açores foram palco de um desses hediondos crimes [5]. Quando se dá margem a discursos discriminatórios, segregadores e violentes, é impossível achar-se que é inconsequente. Infelizmente está bem à vista. Está agora a ser lançado um livro de um investigador português, Vicente Valentim, justamente sobre esta normalização [6].
Neste contexto, é imperativo agir. Não basta colocarmo-nos à margem, mas intervir. Não necessariamente ir para a rua marchar, mas consciencializar quem tem esse discurso à nossa volta que, além de intrinsecamente errado, tem consequências terríveis para vidas.
É necessário criar a empatia pelo outro, mesmo que não o conheçamos. Por isso também é importante o que acontece à volta do mundo. Há uns dias deparei-me com uma notícia [7] sobre declarações da UNICEF a afirmar que as crianças em Gaza nem têm «energia para chorar». Quando algo não nos afeta, é fácil fechar os olhos e deixar andar.
Acabo com esta citação, tão conhecida, proferida por um pastor luterano na sequência do holocausto:
«Primeiro eles vieram buscar os socialistas, e eu fiquei calado — porque não era socialista.
Então, vieram buscar os sindicalistas, e eu fiquei calado — porque não era sindicalista.
Em seguida, vieram buscar os judeus, e eu fiquei calado — porque não era judeu.
Foi então que eles me vieram buscar, e já não havia mais ninguém para me defender.»
(Martin Niemöller)
[1] https://sites.google.com/view/pedrogasparamaral/colabora%C3%A7%C3%B5es/di%C3%A1rio-insular#h.f6gntkf01xn
[2] https://www.publico.pt/multimedia/interactivo/discurso-de-odio
[3] https://expresso.pt/sociedade/2024-02-09-Crimes-de-odio-em-Portugal-subiram-38-em-2023-9bab2866
[6] https://www.vicentevalentim.com/book-project.
Permitam-me hoje uma análise mais fria e refletida sobre as legislativas do passado dia 10 [1].
Grosso modo, parece que a AD aumenta em relação a 2022 a custo do PS, traduzindo-se a diminuição da abstenção no crescimento das terceiras forças, principalmente, no do CHEGA. Trata-se de uma abordagem generalista e intuitiva, havendo, contudo, a conivência dos números. Significa isto que a maioria dos eleitores continua a valorizar o centro, votando nas duas forças do centrão, e um expressivo eleitorado volátil no seu cerne. Não obstante, o PS deve ter sofrido um sangramento dum punhado de eleitores para os partidos à sua esquerda, nomeadamente o Livre, tendo, ainda assim mantido o grosso do apelo ao voto útil. De notar que a grande queda do PS e o modesto aumento da AD são acentuados por fatores terceiros, a diminuição da abstenção e estes novos eleitores não terem optado pelo centrão. Pedro Nuno Santos terá mais votos que António Costa em 2015, quando ficou em segundo, e Luís Montenegro terá uma votação pouco superior a Durão Barroso em 1999, quando este ficou em segundo.
Continuando nos números, o CHEGA tem um resultado expressivo, ultrapassando o PRD em 1985 e, escrevo antes de sair os votos do estrangeiro, a pouca distância do PCP em 1979. De tal forma expressivo, que, se a eleição fosse por um círculo nacional, teria menos deputados do que os já distribuídos. Este é, aliás, um excelente tema: os votos desperdiçados nestas eleições foram mais de 673 000 [2]. Existe um site que intuitivamente indica ao utilizar se o seu voto foi usado (se o partido elegeu no círculo onde votou), elencando estes números circunscritos a essa pesquisa [3]. Se houvesse um círculo nacional de compensação, à semelhança do que temos nos Açores, PS, AD e CH perderiam alguns deputados, e o BE, por exemplo, passava de 5 para 10 (trata-se do dobro dos deputados).
Passando à necessária análise da conação aos eleitores do CHEGA: parece-me incorreto dizer que estas 1108797 pessoas são descontentes. Eu duvido muito que quem tenha votado IL, BE, CDU, L, PAN,… também não esteja descontente. É algo mais. Pode-se dizer que é uma vontade radical de mudança, mas há alternativas estruturais, e também com retóricas populistas, como o BE e a CDU. É, aliás, interessante notar que o CH se apresenta como antissistema, mas aceita donativos dos maiores vultos económicos [4] e não consegue assegura a transparências dessas contas [5]. Fala muito de corrupção, mas é incapaz de expor um caso e, mesmo sobre as minorias que acusa de parasitismo, não consegue apresentar um exemplo real – quando temos uma Mortágua nas comissões de inquérito... É importante notar que a comunicação social deu um pódio tremendo ao partido e, quando o contrariava, perdia impacto [6]. Também me parece pertinente olhar para as regionais açorianas de fevereiro e notar um paralelismo dos resultados: será esta viragem à direita algo estrutural e não meramente circunstancial?
Aquilo que me parece importantíssimo, independentemente de tudo o que deve ser debatido e feito, é fazer com que a literacia política e dos media chegue ao maior número de pessoas possível.
[1] https://www.legislativas2024.mai.gov.pt/resultados/globais
[2] https://www.jn.pt/6761243323/mais-de-670-mil-votos-desperdicados-nas-legislativas/
[3] https://omeuvoto.com/elegeu/
[4] https://www.sabado.pt/portugal/detalhe/familias-mello-e-champalimaud-financiaram-o-chega-em-2021
Escrevo estas palavras na fatídica noite de 10 de março de 2024. Vejo os resultados a aparecerem no computador e comentários arremessados na televisão. Tenho 22 anos e medo do futuro.
2024 era para ser um ano de festa, um ano para lembrar os horrores da falta de liberdade, de perceber que não se pode dar a democracia como garantida, é uma construção quotidiana. O facto de termos pessoas a sair do sofá para votar num partido que tem uma retórica antagónica à nossa constituição, demonstra como é necessário um debate sobre a nossa organização mais básica.
Intitular este artigo com «fachos» e não «fascistas», advém de considerar que esta onda de ódio vem da frustração e não de uma vontade de implantar o programa do partido de extrema-direita. Não obstante, a discussão de saber se há uma mudança sociológica na população portuguesa (e europeia/internacional), numa viragem à direita, conservadora (mais do que numa perspetiva económica) deve ser estudada.
Os Açores vão ser representados por 5 homens, um dos quais sem propostas, a falar dos filhos dos outros. Eu tenho sérias dúvidas que a maioria dos açorianos se revêm nestas pessoas e isso deve-nos fazer refletir.
Mais do que qualquer palavra que possa escrever, importa a questão: qual o valor da liberdade? Este espaço em branco não é engano, é a tua voz, porque importa, porque é ela que dita o nosso futuro, porque ela não se esgota nas urnas, é tempo de parar e refletir, contrariar a aceleração do mundo:
Bem sei que na semana passada já usei este título, por isso acrescentei a interjeição, mas ela importa: vinca a indignação que sinto ao ver este curso de coisas. Se na semana passada discorri sobre a infantilização dos jovens (e podia fazê-lo, também, das pessoas em geral), a desresponsabilização parental, hoje escrevo sobre a instrumentalização das crianças.
A minha motivação vem de um episódio muito concreto: logo ao início do debate entre os cabeças-de-lista açorianos, na primeiríssima intervenção de todas, que coube ao candidato do CHEGA, Miguel Arruda, temos as palavras «Antes de mais queria fazer aqui uma pergunta ali ao senhor Francisco César, para começar, o seu filho já está inscrito na JS?» [1].
Se estas declarações não merecem a nossa indignação, então temos mais um sintoma do desmoronar da nossa democracia nos seus 50 anos. Julgo haver aqui duas dimensões necessárias de abordar: a instrumentalização das crianças, mas também o próprio debate.
Francisco César tem 45 anos, pelo que me parece ilógico achar que qualquer filho seu estaria em idade de ocupar um cargo público. Assim sendo, a afirmação só tem o propósito do ataque pessoal, é mera retórica (e de tabernerio – com todo o respeito pelos próprios taberneiros). Na resposta do deputado «socialista» temos a confirmação do filho ter meramente 11 anos. Miguel Arruda achou por bem abrir um debate a falar de uma criança de 11 anos que provavelmente nem tem bem consciência do que está a ser acusada. Trespassou-se a vida privada e trouxe-se ao debate uma pessoa que não tem nada a haver com política. Mas isto cabe na cabeça de alguém?
Em que mundo é que se faz política a sério com ad hominem e instrumentalização de inocentes? Tanto mais séria é a questão quando percebemos que se está a pôr em perigo vidas de pessoas que nada têm a ver com o assunto (nem os próprios políticos deviam ser o assunto, mas as suas propostas e visões). E este discurso está a ser normalizado! O próprio moderador nem reagiu com qualquer repreensão, simplesmente mudou de assunto. Já há umas semanas tinha acontecido algo muito semelhante com Rui Tavares [2]. O CHEGA está a fazer um trabalho de fundo de tentar tornar esta retórica aceitável (tal como muitas outras), principalmente através das redes sociais. Não é aceitável publicarem-se fotos de crianças (terceiros) como forma de fazer política. Não é aceitável publicar-se fotos de crianças (terceiros) sem consentimento. Não é aceitável.
E enquanto estamos desta disputa pelo bom senso, onde a vida privada e o debate político se imiscuem, esse debate perde-se. E é esta a segunda dimensão: a democracia perdeu a vitalidade, a reflexão informada e estruturada, a oposições de visões construtivas. Como é possível debater com quem quer rebolar na lama e nos atira para ela? Não é por falta de aviso que nos vamos afundar, é mesmo estupidez.
Como nota final, é tragicamente engraçado como tanto as críticas da semana passada sobre as crianças e jovens, tal como esta instrumentalização, vem daqueles que a plenos pulmões berram para «deixar as crianças em paz» quando concerne a ensinar a respeitar. Percebemos, assim, que se trata de pura demagogia eleitoral, cavalgar no ódio alheio, nessa força que temos em nós e nos cabe domar para vivermos numa comunidade funcional, justa e fraterna. Não nos deixemos enganar pelo ódio.
De várias frentes ouvimos falar da infantilização dos jovens. Desde o tempo no ecrã à falta de desenrasque, são vários os exemplos usados. Este é visto como um sério problema à autonomia pessoal, à própria vivência em comunidade. Nas universidades, local onde frequentam jovens adultos, assistem-se a cenas de secundário, onde o não-saber estar parece imiscuído em parte destes novos estudantes.
Não só pelo desenvolvimento pessoal, mas também pelo impacto na sociabilidade, esta é uma questão extremamente pertinente de explorar. Porque acontece? O famoso TikTok? As sensibilidades? Havendo uma diversidade de problemas, maior é a diversidade de respostas. Aquilo que me parece é que estas questões em muito se relacionam com a educação (não ensino), pelo que os pais têm mais a haver do que aquilo que é costume se falar. A par de outros fatores, são as suas atitudes que moldam os jovens. No próximo parágrafo trago um exemplo corrente.
Fala-se de proibir o uso do telemóvel dentro das escolas. Ora há aqui uma decisão de base que temos de tomar: pretendemos pessoas com hábitos saudáveis ou incutir proibições? Julgo estar para aparecer a criança que não veja no fruto proibido um aliciante. Além de que o que devemos almejar é que os cidadãos sejam pessoas autónomas, capazes de tomar as suas próprias decisões, tendo como base o seu bem-estar. Uma escola é uma comunidade, regendo-se como uma: salvaguardar a liberdade de cada um, assegurando a integridade do outro. Não lhe compete outras escolhas, sendo o seu objetivo basilar o ensino (dos poucos elevadores sociais que existe). Essencialmente, educar está nas mãos dos progenitores e ensinar nas da escola – que até podem ensinar sobre o assunto, dar informação. Se os pais entendem que o filho não deve usar o telemóvel na escola, então podem escolher não o deixar levá-lo para a escola – mal estaríamos se as escolas não tivessem a capacidade de comunicar com as famílias, se os alunos precisassem. Assim sendo, colocar na escola o ónus da educação, implica uma mudança estrutural da sociedade: a abolição da família. Parece-me que os encarregados de educação que usam desta retórica, que eu entendo à luz dos malefícios que os telemóveis trazem [1], acabam por se demitir da sua tarefa, é uma desresponsabilização. Ainda para mais, fazer estas discussões sem incluir as próprias crianças e jovens é, por si só, contribuir para a sua infantilização, principalmente jovens a partir do segundo ciclo, ignorando quem está no centro do potencial da proposta. Em última instância, é uma noção muito errada da democracia, onde o paternalismo é ensinar a estar calado e aceitar o que outro impõe.
Julgo que muitas vezes nos esquecemos de algo: jovens são tela em branco. Em tudo. De que serve queixar que o filho está perdido no mundo virtual, se o pai passa horas e horas nas redes sociais? Quantos hábitos e formas de pensar não nos compõem por esta osmose? A própria abstenção parece-me um fenómeno de imitação, onde os filhos aprendem dos pais a desilusão e impotência sobre o regime democrático.
Houve, há e haverá sempre um conflito geracional, é algo inerente à nossa existência. Resta-nos tentar ser melhores, tentar refletir mais estruturada e aprofundadamente. Muitas vezes não nos apercebemos das nossas incoerências por, simultaneamente, não pensarmos em tudo a mesmo tempo, dividimos em compartimentos, mas que vida faz sentido sem pontes entre eles?
[1] https://www.theguardian.com/lifeandstyle/2024/jan/10/smartphone-screentime-good-bad-expert-advice
Todos temos esta intuição de olhar para o nosso tempo e colocarmos as mãos à cabeça, talvez como forma de nos sentirmos parte de um tempo especial, que nos sirva de conforto existencial. Estou certo de que a nossa História é mais estática do que parece: os problemas são os mesmos, apesar de se apresentarem com contornos distintos. Gostamos muito de dar destaque ao tempo, mas é no espaço que se jogam muitas desigualdades e idiossincrasias. Falo do espaço como coordenada, urbanismo, ecologia, nacionalidade, instituição, tradição, objetos,… Não obstante a tudo isto, partilho aqui algumas preocupações que tenho particularmente tido. Partilho-as como forma de dar visibilidade, mas também para fazer o clique a quem considera que não estamos a ir por um caminho grave.
Desde logo, começámos o mês com o espectro de uma ameaça direta e assertiva à nossa democracia: a possibilidade da polícia não colaborar nos procedimentos das eleições a 10 de março [1]. Por muito justa que seja a luta das forças de segurança públicas, é completamente injustificável colocar em causa a nossa democracia. Termos declarações deste teor feitas nos 50 anos do 25 de abril deve fazer-nos refletir em como é fácil perder algo que damos por garantido.
Há uma outra situação gravíssima que só estes dias me tenho apercebido: a violência contra jornalistas. Portugal é um país seguro e calmo, um nas posições cimeiras no mundo. [2] O editorial conjunto das redações do Fumaça e do Setenta e Quatro, perto da sua conclusão, elenca quatro situações, além daquela que lhe dá origem. [3] São 5 situações em dois meses – 8 jornalistas agredidos. É inconcebível que em parte destas situações tenha sido a própria polícia a agredir, mesmo havendo a identificação de jornalistas.
Claramente tem de haver uma clarificação e uma reflexão estrutural sobre a polícia que está a atingir um ponto de rutura muito perigoso.
No ambiente de campanha temos, também, muitos dissabores. Desde logo, a interrupção infeliz que Luís Montenegro fez a Mariana Mortágua no debate: “Posso interromper?”, perguntou Montenegro; “Não, não pode”, respondeu Mortágua; Montenegro afirma “Poder posso mas não quero, poder posso mas não quero.” É impressionante como o líder do segundo maior partido tem uma intervenção deste tipo. Além da infantilização do debate, temos uma ponta do patriarcado em que vivemos. Muito se falou sobre o assunto e muito se percebeu como as mulheres na política têm a vida muito dificultada. No debate de Montenegro com Inês Sousa Real ficou claro o desrespeito do líder da AD.
Como se não bastassem estes episódios, ainda temos a prova de como a comunicação social escolhe dar palco, desproporcional, ao Chega. Não é pura negligência violar as regras dos debates e dar a Ventura e a Montenegro 19min a cada, quando o tempo máximo tem sido 14min – situações houve que acabaram o debate sem chegar aos 11min para infelicidade dos candidatos. [4] Como se não bastasse, há o recurso a ferramentas pseudocientíficas para valorar os debates, como o «Pulsómetro». [5]
Nós não começámos o fogo, mas temos a responsabilidade de o controlar e extinguir, sob pena de sermos queimados.
[1] https://www.publico.pt/2024/02/03/politica/noticia/sinapol-admite-forte-possibilidade-protestos-policias-impedirem-eleicoes-2079193
[2] https://www.visionofhumanity.org/wp-content/uploads/2023/06/GPI-2023-Web.pdf
[3] https://fumaca.pt/psp-agride-jornalistas-do-fumaca-e-setenta-e-quatro/
[4] https://www.publico.pt/2024/02/16/politica/noticia/debates-televisivos-esticaramse-tempo-ventura-principal-responsavel-2080463
[5] https://twitter.com/joaobernarciso/status/1755292164400050184
Escrevo estas linhas na sequência das regionais passadas, enquanto açoriano e candidato. Julgo que, mais, estou em crer que estas linhas possam servir de reflexão para qualquer pessoa que se interessar pelo assunto.
Um dado que me parece importante é notar a força que alternativas aos dois principais partidos têm conseguido. Em 2012 eram 14594 votos, em 2016 eram 16186, em 2020 eram 24348 e em 2024 são 21519. Que se note que em 2020 estão-se a incluir os votos no CDS e PPM, pelo que o número cresceu. Claro que se pode argumentar que este aumento é natural, porque há diminuição da abstenção. Bem, antes de mais a abstenção só diminuiu em 2020 e em 2024, além de que podia diminuir e as pessoas optarem por votar só nos dois grandes. Há, efetivamente, um desconforto com o estado de coisas que faz candidaturas alternativas a PS e PSD serem mais atrativas. Digo desconforto e não descrença, porque me parece que esta última se traduz na abstenção.
Esta aposta na alternativa resultou na pluralidade de termos 8 partidos na Assembleia. Isto é excelente porque permite: as alternativas terem um palco de afirmação, mas também de trabalho, podendo, mais do que falar, propor e votar. Nós podemos ver o que essas forças defendem e o que estão a fazer, tendo uma antevisão do que poderá ser o seu trabalho se chegarem ao executivo.
O grande desafio é se conseguir eleger projetos alternativos por círculos eleitorais mais reduzidos: 2 ilhas elegem 4 deputados cada, 4 elegem 3, 1 elege 2. Se na Terceira com 10 já é difícil e em São Miguel com 20 são duas forças alternativas, que, no máximo conseguem eleição simultânea, não é certamente fácil termos uma alternativa com um crescimento que rompa com o bipartidarismo. Não obstante, esta conclusão tem mais de mentalidade e cultura do que de pragmatismo. O nosso sistema eleitoral, com a compensação, torna-nos num exemplo de sucesso no que concerne ao respeito pela percentagem de votos na respetiva percentagem de mandatos. Tem em conta que são 57 deputados, um partido conseguir superar 1,75% regionalmente deve garantir a eleição de um deputado (3,5% de dois, 7% de 4,…). Por vezes não será perfeito, por dinâmicas específicas de cada eleição, mas está sempre próximo dessa justiça – até porque o método de Hondt depende muito do resultado do vencedor. Isto quer dizer que, em qualquer ilha, ao se votar num partido está a contribuir para ele estar representado, mesmo que não eleja por aquela ilha. Decerto que se o conhecimento do sistema eleitoral fosse mais generalizado, teríamos mais pessoas a apostarem em alternativas mais próximas da sua identificação pessoal.
Além disso, e que particularmente afeta ilhas pequenas, está o derrotismo: se se acha que não elege, não se vota. Os votos na alternativa têm aumentado, mas nessas ilhas é são precisos pelo menos 20% para a eleição. Muitas vezes me disseram para ir para um partido dos grandes, se quisesse realmente fazer algo pela minha terra. Faz algum sentido ir para um partido com ideais que não me revejo para ter a oportunidade de trabalhar pela nossa terra? Nos Açores há muita gente extremamente capaz e séria que é fiel a si própria e, por isso, se submete à frustração partir mais pedra que o vizinho e, provavelmente, não ter resultados. Uma em cada quatro horas que estive acordado desde o início de dezembro dediquei-as à campanha, as ações e divulgações do programa. Eu e muitos outros. 1+1 são 2, as urnas começam vazias. Pior do que isto é ver que alternativas sem seriedade, vazias, sem trabalho, simplesmente à base do ódio (às pessoas e ao mundo), conseguem mobilizar mais.
Escrevo este artigo por volta das 23:30 de domingo (e acabo uma hora e meia depois), no calor dos resultados eleitorais. Começo por fazer uma breve análise macroscópica deles.
Estamos diante de um cenário de bipolarização. Já se antecipava essa tendência pela aposta numa coligação de direita, havendo a expectativa da concatenação de votos do PSD, CDS e PPM. Ora, não só houve concatenação como acréscimo. Mas o PS não ficou atrás, tendo também aumentado o número de votos (apesar de mingar em termos relativos). Ou seja, a diminuição da abstenção serviu para reforço destes polos. Seria interessante saber quantas pessoas não tiveram o voto condicionado pelos empates técnicos das sondagens, até porque elas próprias afirmavam um elevado número de indecisos.
Uma grande preocupação é que no meio da bipolarização tenha havido o crescimento expressivo de uma terceira força – o que não colocou em causa a bipolarização. Se virmos os votos de todos os partidos que não a coligação, o PS ou o CH, percebemos que os totais de 2020 e 2024 são muito semelhantes. Mais uma vez, parece ser a abstenção a peça chave. Houve sensivelmente mais dez mil votos, que é, aproximadamente o que estas três forças cresceram. Perceber que transferências estão em jogo é muito complicado, talvez mais tarde possa tentar avançar um cenário. Uma possibilidade é a migração do voto do BE para o PS como voto útil, algo que me parece bastante provável, até pela influência das sondagens e a estratégia do próprio PS. Existem várias dinâmicas locais que devem ser tidas em consideração e que, no fim, explicam o resultado ao final da noite.
De notar que em termos de mandatos, que, ao fim e ao cabo, é o que importa de uma eleição, a coligação conservou os mandatos que já tinha, sendo que a única mudança é interna: PSD conseguiu, se não me engano nas contas, engolir um deputado ao CDS e ao PPM – espanta-me nos comentários de domingo não se falar destas mudanças internas. Pela perda de relevo relativo do PS e BE, 3 deputados saíram destas forças, acabando nas mãos do CH. Esta, na prática, foi a única mudança na Assembleia: o enfraquecimento da esquerda e centro-esquerda em benefício da extrema-direita.
Posto tudo isto, a abstenção diminuiu, mas continua a ser, sensivelmente, de 50%. Não há como camuflar a descrença das pessoas na política. Enquanto candidato, foi o que mais senti nas ruas. Uma em cada duas pessoas (se bem que é preciso ter cuidado com a abstenção técnica) achou que o seu voto era desnecessário. Não obstante, quando olhamos para onde provavelmente foram os votos de quem em 2020 se absteve, vemos um aumento do CH.
Isto é particularmente problemático quando nos apercebemos que esta força é só retórica: fala de corrupção a toda a hora sem ter exposto qualquer caso de corrupção (como o BE fez incansavelmente e corajosamente), acusa os mais desfavorecidos de parasitismo, sem apresentar qualquer denúncia concreta, qualquer caso concreto. Em Santa Maria, o candidato (e independentemente do seu caráter) não participou em debates, tinha 9 propostas no manifesto e uma era repetição da outra, praticamente não fez campanha e quando abriu a boca, raras foram as ideias,… e, no entanto, conseguiu 170 votos.
Quase que me apetece dizer que as pessoas têm uma descrença na política e eu tenho uma descrença nas pessoas: a coisa que mais parecem valorar é o ódio, não importa o resto. Mas não o faço, porque há muitos mais que têm bom senso e estão atordoados. O castigo dos sérios que não querem governar é serem governados pelos maus. Eu farei parte dos que resistem.
No seguimento das regras eleitorais, mais uma vez me abstenho de falar de política neste segmento.
Opto por abordar a minha área de estudo como um todo: a Filosofia. Muitas vezes me perguntam que estudo, ao que se segue a questão do que é isso em concreto? A ideia mais comum prende-se com uma coletânea de opiniões de «pessoas mortas» sobre assuntos sem qualquer dimensão prática, talvez por ser assim que muitas aulas de Filosofia possam parecer. Bem, é claro que vou defender o oposto a isto.
Como se pode imaginar, não há uma definição propriamente dita, não sendo aceite universalmente. Parece-me, aliás, que quando consideramos uma possibilidade de definição de alguém, é o momento que consideramos esse alguém um filósofo – sim, porque em Filosofia não se é filósofo, é-se considerado filósofo. Passemos ao objeto, a tentar uma descrição. Bertrand Russel afirmou que a Ciência se ocupa do que conhecemos e a Filosofia do que desconhecemos. Julgo que a ideia subjacente é a deste campo como a inquirição persistente. A Filosofia pergunta os porquês que a Ciência tenta responder – ao falar de Ciência, refiro-me tanto às naturais e exatas, como às sociais e humanas. A Filosofia é a dúvida radical, que vai à raiz, mas, além disso, que lhe dá sentido. Existem várias posições filosóficas sobre o mesmo tema, por existirem várias formas de dar sentido às questões. As teorias acabam por nos aparecer como respostas, mas todos sabemos que a uma resposta se seguem milhentas perguntas.
O essencial é, então, clarificar ao máximo o que se entende por cada palavra que se usa, cada conceito, e articulá-la. Ninguém consegue ler o nosso pensamento e não são raras as vezes que temos dificuldades em exprimi-lo. Será este um dos maiores desafios. A única regra que a Filosofia exige é a coerência, um uso correto da Lógica. A partir do momento que há um sistema sólido, sem contradições, pelo menos de maior, temos um caso digno de ir parar a um manual escolar. A beleza da Filosofia parece-me estar nisto mesmo: o livre jogo de articulação. Parece que podemos estar a dizer algo e o seu contrário, mas, se for bem feito, estamos diante uma obra de arte robusta.
Muitas vezes, o que a Filosofia nos faz é dar um passo atrás, fazer-nos enquadrar. E nesse momento percebemos como qualquer questão, de alguma forma, se relaciona com outra qualquer questão. Se pensarmos bem, isso não é assim tão estranho: todas as questões têm um denominador comum, a nossa realidade. Fui para Física para apreciar a realidade como um músico aprecia uma música e passei para Filosofia pela mesmíssima razão.
Esta tentativa de dar sentido ao mundo – ou provar a inexistência dele -, esta distanciamento e profunda reflexão, este preciosismo na noção falada, leva-nos a crer que, mais do que conteúdo, Filosofia é forma. É o bom pensar, uma espécie de método. Isto abre uma porta a uma tudologia, algo que, obviamente é indesejado. O desafio está justamente em se estar profundamente informado sobre aquilo que se aborda. É preciso ter informação para saber aquela está em falta, ou até mesmo para desconstruir e reformular. É por todos estes processos que é importante toda a gente ter um contacto com a Filosofia. A abordagem em contexto escolar de várias perspetivas sobre temas que são pescados de várias áreas, são a oportunidade de ver a forma como grandes pensadores jogaram com os seus raciocínios. O objetivo não é decorá-los, mas percebê-los. Ver como chegaram a eles. A nós, cabe-nos mundos outros.
Por respeito ao período de campanha oficial, que acarreta igualdade de tratamento aos partidos políticos, este artigo e o da próxima semana não serão sobre as regionais, nem terão conteúdo propagandístico.
Posto isto, a nossa questão: como progride a História? O que vivemos hoje é totalmente diferente do que já aconteceu, ou tem traços comuns? Haverá um outro eu que estará nestas mesmas condições a escrever este mesmo artigo no futuro? Na História há dois grandes conjuntos de teorias: lineares e cíclicas. As lineares têm em comum a defesa de uma cronologia como reta, uma evolução propriamente dita. As cíclicas realçam que os momentos históricos se repetem, mesmo que não sejam exatamente iguais e havendo progresso.
Podemos olhar para esta questão pensando no tempo, como sendo a sua extrapolação metafísica. Aliás, na Antiguidade Clássica, a cultura grega concebia o tempo, justamente, como cíclico. Tinham as mais variadas formas de o justificar e de lidar com ele, estando presente na mitologia e nas crenças de transmigração da alma – também muito presentes no mundo oriental. É o iluminismo que cimenta a visão do tempo como uma reta. O cristianismo haverá de ter dado o seu contributo, tal como a teoria darwiniana da evolução, mas o progresso tecnológico que radica do pensamento iluminista será decerto o expoente da razão como estrela polar para o futuro do Homem, rumo a um desconhecido cada vez melhor que o momento anterior.
Mais do que um problema filosófico ou da História (ou da Física), falamos de uma questão com profundo impacto social, estando aqui igualmente subjacentes teorias sociológicas. Falar de um tempo cíclico leva-nos a olhar para a História e poder vê-la de uma forma algo determinista, na medida em que identificamos um tempo muito semelhante ao nosso e especulamos o futuro com base no que aconteceu no passado – muito útil para evitar catástrofes humanas. O passado é um espelho do futuro e o trabalho do historiador é, também, fazer alertas à navegação. Claro que o modelo linear não exclui esta importância do historiador, mas tenta trazer algum otimismo, olhando para o futuro como uma tela em branco, cujo passado é mero conselheiro.
Uma noite apeteceu-me pensar diferente. Talvez seja absurdo, mas se fizer alguma das pessoas que lê estas palavras pensar, dou-me por feliz. Julgo que o nosso tempo histórico não é linear, nem cíclico: é estroboscópico. Pensemos numa bola de basquetebol que largamos: ela cai, bate no chão, sobe, desce, sobe, desce,…, até ficar no chão. Se lhe dermos um empurrãozinho para a frente quando a largamos, podemos ter uma imagem estroboscópica perfeita: tiramos periodicamente fotografias, de um mesmo local, ao espaço onde esta a bola e fazemos uma montagem, juntando todas as fotografias. Veremos nesta imagem a bola várias vezes repetidas, quase que fazendo uma linha a marcar o seu trajeto – mais espaçado aqui ou ali, denotando as várias velocidades do movimento. Um conceito perfeito para cinética na física. Mas esta bola é cada momento do nosso mundo, todo um contexto que se move estaticamente.
Dirão que esta minha imagem é cíclica, uma vez que conserva a sua maioria, que é um movimento algo aleatório. Dirão que esta minha imagem é linear, porque avança no tempo com mudanças, mesmo que com alguma aleatoriedade. Pois bem, a mim, cabe-me justificar: os nossos problemas humanos são os mesmos de sempre. Apesar do mundo progredir, o nosso contexto é essencialmente o mesmo. Isto acontece por uma razão muito simples: as nossas necessidades são sempre as mesmas, mesmo que possam assumir novos moldes.
Na semana passada, expus a minha visão de construção do programa, a minha matriz programática. Neste momento, julgo poder falar do outro lado da moeda: a crítica, a fiscalização. Estas duas componentes são essenciais no trabalho parlamentar, independentemente de estar no partido do governo.
Nesse domínio o Bloco está mais do que à vontade: tem sido ele a oposição que investiga e denuncia. Se não estamos a pagar 5 milhões de euros ilegais de dinheiro dos contribuintes à EDA, deve-se ao olho atento bloquista. Se sabemos que o governo fez ajustes diretos com a, então, empresa do subsecretário Faria e Castro, idem. Em Santa Maria compilámos dez exemplos, a que chamamos «10 Mandamentos», de más práticas governativas [1].
A farsa surge quando olhamos para o panorama partidário e percebemos que várias candidaturas esquecem o interesse público, que a política não é futebol. Passo a alguns exemplos.
Há umas semanas o governo visitou Santa Maria, apresentando vários projetos. Entre eles, um da Santa Casa, sob tutela da vice-presidência. O provedor da Santa Casa de Vila do Porto aproveitou o seu discurso para sinalizar carências da entidade que ficaram por resolver e que são problemas da ilha: como a extensa lista de espera de idosos dependentes em ter um espaço que os acolha. O vice-presidente, Artur Lima, optou por humilhar o provedor, numa resposta rasteira. Artur Lima desprezou os problemas de Santa Maria. Não é a primeira vez, já que é bem conhecido a sua repulsa pelo investimento no aeroporto de Santa Maria, ou basta olhar para a sua área de tutela na ilha para perceber a estagnação a que a vetou, até com elevados tempos de resposta a pedidos das entidades. Sobre tudo isto, Carlos Rodrigues, atual candidato da coligação, no âmbito do Conselho de Ilha (reunião pública), pediu desculpa ao vice-presidente pelas declarações do provedor em nome dos marienses. Como é possível o candidato submeter-se assim a quem humilha os seus? Mais: falar em nome dos marienses. Em meu nome não falou. Se alguém precisa de um pedido de desculpas é o nosso provedor pelo desrespeito de que foi alvo.
Noutro exemplo, no fim de 2022, numa audiência na Assembleia da República ao responsável pela ANA, na sequência da questão da reabertura noturna do aeroporto de Santa Maria, o deputado do Chega afirmou «"não se pode pedir a uma empresa privada que assuma prejuízos por causa do desenvolvimento de uma ilha». A ANA tem lucros de 300 milhões de euros e para a reabertura só era necessário pagar mais um salário. Entre os interesses e a ignorância, este partido é o pior que o sistema tem e tenho pena do seu candidato em Santa Maria não ter comparecido no debate.
Por fim, olhar para a execução do prometido em orçamentos e ver que se chega ao extremo de só se terem executado 5 dos 30 milhões de euros em 2022 em Santa Maria. Em 2023 a previsão baixa para 19 milhões, ainda não havendo dados de execução. Esta grande quebra deve-se muito à Iniciativa Liberal e a sua cegueira sobre o endividamento zero.
Muitas destas questões vão-nos passando ao lado no quotidiano, mas demonstram o que cada um realmente é.
A acrescer a isto, vemos que os problemas são os mesmos de ano para ano e os partidos a apostarem em políticos de carreira, que até agora foram incapazes de os resolver. É necessário ousar mudar, ter a coragem de dar a voz a uma alternativa que possa, de facto, apresentar uma nova perspetiva, com novo fulgor. Em Santa Maria, a isso me proponho.
[1] https://sites.google.com/view/santamariatemfuturo/10-mandamentos?authuser=0
Tenho muito falado na urgência de uma estratégia, de um pensamento, interligado. Em concreto, como podemos aplicar esta noção? Para o ilustrar, usareis dois exemplos que me são próximos, como o são dos marienses – julgo que qualquer pessoa tem contexto suficiente para compreendê-los plenamente.
Algumas ilhas açorianas não contam com a presença de varroa, um ácaro prejudicial às abelhas. Trata-se de uma caraterística praticamente única no globo. Santa Maria é uma dessas ilhas, já havendo vários produtores a colocar mel no mercado. É um produto de alto valor, totalmente biológico. Havendo espaço no mercado e boas condições para se implantar, é uma excelente oportunidade de diversificação económica. Como integrar? Através de parcerias com os serviços florestais, no sentido de perceber como o ecossistema mariense potencia essa exploração sustentadamente – por exemplo, uma definição de locais de silva-mansa. Infelizmente a nossa floresta endémica está ameaçada por espécies invasoras, pelo que há uma grande oportunidade de diálogo entre o setor agropecuário e florestal, no sentido de, preservando a ilha, diversificar a economia. Ainda na questão do mel, as entidades públicas e privadas também podem ser incentivadas a ter plantas melíferas, havendo aqui uma interseção com o urbanismo. Também é possível estimular um turismo profissional, com eventos em torno deste assunto a ocorrer em solo mariense – sendo que para isso é necessário ter a garantia de boas acessibilidades. Seria, também, muito positivo que houvesse, pelo menos, um curso profissional que desse uma formação inicial aos jovens que pretendem ser produtores, sendo que isto deve ser acompanhado de apoios ao início da exploração, havendo esse interesse.
O outro exemplo rende-se com a zona do aeroporto. Santa Maria tem parte da sua identidade vinculada a este espaço, pelas décadas, em meados do século passada, de efervescência económica e cultural decorrentes da presença do aeroporto internacional. Dentro da ilha, onde as garrafas eram de barro, havia uma pequena cidade de chapa e alumínio. O declínio do aeroporto foi um duro golpe. Hoje discutimos a sua reabertura noturna, uma migalha – um tema particularmente embaraçoso, porque bastaria a contratação de um profissional, algo que não devia custar à ANA, uma vez que tem lucro na casa dos 300 milhões de euros. O nosso aeroporto tem uma potencialidade de aumentar de novo a sua importância e com isso gerar emprego e receita. Mas também é a oportunidade de pensarmos em toda a sua área: no parque habitacional, talvez a construção de novos com inspiração nesses, uma reabilitação de infraestrutura para fins públicos, como a musealização da torre antiga, um combate a infestantes, com um projeto de arquitetura paisagista,…
Agora, para isto, aquilo que precisamos é de investigação: mobilizar os recursos da Universidade dos Açores para produzir conhecimento científico sobre Santa Maria, tal como a réplica açoriana desta proposta. Temos de enunciar os grandes temas e reunir em seu torno equipas multidisciplinares, cada um com as suas visões e intersetá-las. Não quero que esse estudo, por exemplo, diga que se deve investir na reabilitação de casas devolutas: quero que digam quantas casas devolutas há, a sua localização, a sua tipologia, uma sondagem com as intenções dos proprietários, em que paisagem estão inseridas,… É à política que cabe o estabelecimento de um percurso, mas nunca se pode descurar a informação e o conhecimento.
Hoje apercebi-me da profunda dimensão de uma música dos anos oitenta do nosso cancioneiro português, pelo que gostava de a explorar aqui. Não obstante, aproveitando o início deste ano, parece-me apropriado abrir a narrativa e tomar uma posição mais ampla.
Desde o início dos tempos que cada um de nós procura a felicidade. Esse conceito de eudaimonia ocupou páginas e páginas de pensadores ao longo do tempo, além de estimular as nossas ciências sociais e humanas. Dentro deste último ponto, a título de exemplo, a pirâmide de Maslow constitui uma hierarquia de necessidades que, em última instância, nos leva à felicidade [1]. Até posso aqui enunciar as etapas, de baixo para cima, que vão sendo passadas: fisiologia (como alimentação), segurança (como habitação), afeto, estima e realização pessoal. Julgo que muitos de nós percebemos o quanto somos privilegiados, quando confrontados com esta lista de necessidades.
A nossa vida é, então, marcada pela busca da supressão de necessidades e é nisso que a política se deve enquadrar, sempre num ponto de vista consequente e integrado. Em qualquer altura este desafio é difícil, mas nestes dias tenho pensado particularmente na terceira idade. Felizmente, cada vez vivemos mais tempo, tal como, e em parte por isso, temos uma população mais envelhecida (olhando para os Açores e, particularmente, Santa Maria). Estas realidades levam a que tenha de haver uma aposta em respostas ao nível da saúde, segurança social, criação/ampliação de lares,… Há um grande problema de isolamento que trás invisibilidade e, como tal, uma qualidade de vida deficitária. Infelizmente, atualmente, a posição do governo regional é de preferir um apoio ao domicilio sem dar os meios para isso, fazendo com que entidades como a Santa Casa não consigam aumentar a sua capacidade para fazer face às listas de espera de pessoas idosas altamente dependentes (por não disponibilizarem financiamento para esse investimento). Pessoas que trabalharam toda uma vida e que chegam ao fim numa posição precária.
Na verdade, foi por pensar nestes assuntos que captei numa nova interpretação o «Vinho do Porto», música de Carlos Paião e Cândida Flor que nos representou na Eurovisão de 1983 [2]. Nesta obra musical temos duas partes melódicas: a primeira, que se arrasta, cheia de repetições; e uma segunda, alegre, cheia de vida. A própria letra é sensível a essa mudança com a primeira associada à produção do vinho e a segunda ao seu usufruto. Não é o vinho a alegria, antes a festa onde está, esse ambiente onde somos todos irmãos. Faz lembrar uma música que o leitor com mais interesse no Festival da Canção podia ter adivinhado pelo título [3]. Voltando ao «Vinho do Porto», esta componente do labor não tem necessariamente de ser vito como um constituinte negativo da vida, antes como uma mecânica que precisamos para a comunidade viver na sua «festa», na sua realização. Um leitor mais pessimista talvez diga que, na verdade, a música reflete a vida: um início de trabalho e uma reforma de festa – infelizmente, na realidade, esta última parte está muito longe da verdade.
Aquilo que me apraz é justamente salientar este dar e receber, o trabalho para a comunidade e o saciamento das nossas necessidades, ambos contribuindo para a felicidade. Que 2024 traga muita felicidade!
[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/Hierarquia_de_necessidades_de_Maslow
[2] https://www.youtube.com/watch?v=X1jsclRxrWw&ab_channel=FestivaisdaCan%C3%A7%C3%A3o
[3] https://www.youtube.com/watch?v=vJPZ5mc0Eis&ab_channel=RTP
Nesta altura do ano seria o mais indicado ter uma mentalidade natalícia ou fazer um balanço do ano. Pois bem, a minha criatividade não chega para trabalhar o tema que quero aqui trazer nesses moldes, pelo que o apresento em bruto e quem o ler, se assim o entender, pode fazer uma ponte com a altura do ano.
Assim sendo, termino o ano com um apelo ao pensamento sistémico: coabitamos um ecossistema. Em última instância, esse ecossistema é a Terra e percebemos melhor do que nunca a gravidade que desequilíbrios ambientais geram, bem como o poder do humano em desencadeá-los [1] – só não notamos mais, porque, felizmente, habitamos num país, dito, desenvolvido [2].
Desengane-se, contudo, quem achar que falo apenas de ecologia. As alterações climáticas são o exemplo por excelência dos impactos em ecossistemas: nós, que fazemos parte do ecossistema, lançamos gases com efeito de estufa para a atmosfera, ocorre o efeito de estufa, dá-se a acidificação dos oceanos (um processo natural para contrabalançar a nossa emissão de gases), animais marinhos não conseguem desenvolver as suas conchas e esqueletos [3], essas espécies desaparecem dessas zonas, os seus predadores também,… É só uma linha das milhentas possíveis de mostrar que vivemos em teia. Também podemos falar do enorme número de refugiados climáticos, ou de quebra de mão de obra por questões de saúde decorrentes de ondas de calor ou poluição, ou a destruição de edifícios em inundações ou a sua inutilização pelos materiais não suportarem as amplitudes térmicas [4]. Tudo problemas políticos.
Deixemos de lado as alterações climáticas. Olhemos para o nosso mel. Os Açores são uma região privilegiada para a sua produção, por ainda não ter a prevalência de um ácaro prejudicial às abelhas [5]. Trata-se de uma excelente oportunidade para diversificação económica! Contudo há outras ameaças, como a mudança da flora que as abelhas polinizam. Não obstante, é possível combater essas espécies invasoras e ainda obter vantagens económicas [6]! A investigação em biologia dá-nos esta visão da tal teia que devemos trazer para tudo. A investigação científica dá-nos modos de compensar e melhor operar aquilo que pretendemos.
Os desequilíbrios que hoje provocamos artificialmente só podem ser explicados pela presunção e ignorância. Por olhar ao próprio umbigo e pela relutância à ponderação e investigação.
Cada proposta que vemos em cima da mesa (e em campanha eleitoral veem-se muitas), tem várias consequências a vários níveis. Um exemplo: a ausência do navio de passageiros para Santa Maria levanta maiores custos para a realização de eventos e escoação de produtos, reduz o número de turistas de outras ilhas, reduz as emissões por via marítima, aumenta aquelas por via aérea, mitiga uma rota deficitária, implica mais custos em viagens aéreas,…
Em suma, o que quero transmitir é que o quer que façamos ou decidimos consequenta mais que o seu objeto. Pensemos integradamente.
[1] https://news.un.org/pt/news/topic/climate-change
[2] https://news.un.org/pt/story/2023/09/1820467
[3] https://noticias.uac.pt/wp-content/uploads/2023/09/Revista-17_09_2023-12317-Paginas-12e13-Edicao.pdf
[4] https://climate.ec.europa.eu/climate-change/consequences-climate-change_pt
[5] https://fnap.pt/seis-ilhas-dos-acores-reconhecidas-como-indemnes-de-varroose-pela-uniao-europeia/
“O mundo é um palco e todos os homens e mulheres são meramente personagens”, segundo Shakespeare. Penso que é fácil termos esta relação: quanto mais não seja pelos dias em que nada nos parece fazer sentido, em que perguntamos, afinal, porque fazemos o que fazemos? e a cada porquê colecionamos novas incertezas. Nesses momentos, tendemos a ver o mundo como uma farsa, uma aparência, onde somos marionetas e nem sabemos se somos quem controla os fios. Há aqueles dias em que não nos voltamos para o mundo, mas para a sociedade: porque é que me submeto à legislação, a papeis?, qual a legitimidade da nossa democracia?, afinal, o poder é um mero conceito. Nesse momento as nossas instituições esfumam-se e sentimo-nos, quase, como os outros animais - digo quase por estes também terem as suas instituições. O mundo é, portanto, um palco, uma ficção à qual tentamos dar sentido. Hoje, gostava de fazer uma outra alusão a partir da célebre frase shakespeariana: o mundo como palco de egos.
Desde logo, perceber de que forma uso os termos. O mundo, naturalmente, é o ambiente onde estamos, o espaço que partilhamos na nossa vivência. Já o ego corresponde à nossa resposta à pergunta quem somos?, trata-se do conjunto de crenças, opiniões, que temos sobre nós próprios. Quando dizemos que alguém tem o ego inflamado, quer dizer que se tem em grande consideração. A forma como nos vemos, naturalmente, não é necessariamente coincidente com o que as outras pessoas vêm em nós - nem a como de facto somos, se é que é possível ser dessa forma. Não obstante, mesmo não coincidindo, o ego afeta a nossa forma de estar no mundo. Dito isto, penso ser natural afirmar que aquilo que todos procuramos é ter um ego positivo, reforçá-lo, estimulando a nossa auto-confiança e auto-estima, o nosso bem-estar. Assim sendo, não só o nosso ego impacta as nossas ações e visão do mundo, também o queremos agradar. Daí se segue que as nossas ações são maracadas pela tentativa de reforço do ego. E está criada a ficção: não sabemos o que somos, sabemos o que queremos ser e dançamos neste palco da “melhor” forma que conseguimos - julgo que para a maioria de nós as aspas não se aplicam.
Julgo que esta última visão não nos incomoda particularmente, afinal, o único problema parece ser as pessoas incorrerem no mal para benefício próprio, contudo, esse problema pode-se argumentar que sempre acompanhará a História da Humanidade. O problema, parece-me, é quando o próprio bem sai afetado: quando dentro do campo do moral e legítimo (segundo o sentido comum) se entra numa competição. Quando podemos falar de palco para luta de egos.
Esta é uma luta normalizada. Neste sistema somos linhas num papel que diz onde estudámos e trabalhámos. Para fazer face, valoriza-se a quantidade à qualidade, retirando o genuíno e omitindo as verdadeiras questões. Não temos nada a ganhar com o evitar de discussões, já basta nos camuflarmos para parecermos bem.
Em jeito de comentário final, penso ser esta uma das razões para vermos poucos filósofos e formados em Filosofia como políticos - discutem-na academicamente e mediaticamente, mas sem tomar uma participação no real processo de decisão. Como facilmente duvidam e notam esta coreografia de aparências, quase como se perde a esperança numa real consequência. Talvez também aqui haja uma misantropia que pode vir de pensar o Homem - que se note que não estou a dizer que os filósofos são misantropos.
Posto tudo isto, é uma maravilha poder estar para conhecer pessoas tão fantásticas.
Os problemas são mais fáceis do que parecem e as respostas mais difíceis do que se possa intuir. É esta a mensagem que, hoje, pretendo transmitir. Ela parece-me especialmente importante num período como este, que antecede duas campanhas eleitorais (para as regionais açorianas e as nacionais, ambas antecipadas). Vejamos por partes:
O que quero dizer com «problemas»? Refiro-me a todo e qualquer enunciado que se possa ter ou fazer. Toda a afirmação que possa ser colocada sob a forma de pergunta. Se amanhã chove, o que se entende por Mecânica Quântica, como redistribuir rendimentos, quando se deve fazer uma média, porque é que o carro está a fazer um barulho estranho, como se processa a fotossíntese, o que está alguém a sentir,… Mais gerais ou mais concretas, mas práticas ou mais abstratas, são tudo problemas.
Porque parecem difíceis? Aqui falo da dificuldade que é perceber o problema, sabermos a forma da peça que falta, mesmo não sabendo como está pintada. Ora, se o meu carro não anda, até posso conjeturar um conjunto de possibilidades, mas como não tenho muitos conhecimentos de mecânica, não consigo avaliar a situação de forma a escolher (sem ser aleatoriamente) a solução que posso ter equacionado. Portanto, a dificuldade de perceber problemas é que para saber a forma da peça que falta, temos de saber as peças que estão à volta: como ninguém sabe tudo, torna-se complicado. Há problemas que requerem muita energia mental, ou empatia, que nos afasta de os tentar perceber.
Mas então, porque não o são? Nós vivemos na era da informação, não só porque há uma enormidade de desenvolvimento técnico e científico a ser feito diariamente, mas também porque dois terços das pessoas têm acesso à internet [1], o maior reservatório dessa informação, além de cerca de 320 000 bibliotecas públicas no mundo [2]. Todos nós temos um cérebro para pensar e, com tempo, todos conseguimos entender quais as peças que definem os contornos de qualquer problema.
O que quero dizer com «respostas»? Uma resposta é, portanto, uma teia de ideias que é coerente com as premissas do enunciado, a peça que completa o puzzle. Desta forma, mesmo que coloquemos um problema como tendo como possibilidades de resposta «sim» ou «não», a simples escolha de uma palavra não é inteiramente uma resposta, por carecer do que lhe dá substância. Nunca devemos negar justificação às respostas.
Porque parecem intuitivos? Como seres racionais e criativos, mesmo que não queiramos, o nosso cérebro está sempre a funcionar. Quando ligamos isto aos nossos instintos, obtemos as intuições: quando nos debruçamos sobre um problema temos um palpite quase instantâneo. Na verdade, o nosso sistema social empurra-nos para termos de responder na hora, sendo o melhor exemplo os exames académicos. É-nos estranho alguém ter de pensar.
Mas então, porque não o são? A cada resposta há uma quantidade de novos problemas.
Enquanto entes de razão temos a possibilidade de recolher e sistematizar informação. Um problema é perceber que falta uma peça. Só se estivermos esgotados, não conseguimos concluir essa ausência. Podemos pensar criticamente. Uma resposta é saber que peça falta. Mais difícil, pode ser qualquer coisa. Mas a nossa capacidade de sistematização é capaz de avaliar as respostas que as pessoas vão dando e perceber se o puzzle fica com bom aspeto com essa peça, isto, se há coerência. Podemos pensar criticamente. Não nos deixemos levar por discursos fáceis, pensemos.
Isto não está bonito: estamos no meio de duas crises políticas, uma nacional e uma açoriana. O espetro da corrupção, dos casos e dos casinhos, vai assombrar a agenda como combustível para demagogia e não como discussão sobre propostas para aumentar a transparência e as boas-práticas públicas.
Outro dia, apareceu-me um vídeo no TikTok da JP de Lisboa, de janeiro deste ano [1]. Tratava-se de um excerto do espaço de comentário onde têm a palavra Cecília Meireles e Mariana Mortágua. Em letras garrafais, sempre no vídeo, a JP afirmava «Cecília Meireles desconstrói a demagogia de Mariana Mortágua e do BE».* Fui ver por curiosidade. Falavam de habitação, Mortágua a explicar porque a construção não é necessariamente uma solução. Posto isso, julguei que a desconstrução fosse a demonstração por parte de Meireles como tal ideia é falaciosa. Mas não. A ex-deputada do CDS-PP não aponta qualquer contra-argumento sobre a questão, escolhe mostrar-se insultada por Mortágua a associar à defesa de «interesses», acusando-a de demagogia. Isto é desadequado por duas razões: toda a gente tem interesses e Mortágua não acusou Meireles de estar a ganhar nada com a sua posição. É triste ver uma reação deste tipo num dos quadros mais capazes do CDS, e ainda mais triste a JP considerar que este excerto em algo desconstrói a demagogia.
Na verdade, o vídeo é um excelente exemplo de demagogia. Em tempos recheados de populismo e demagogia temos tendência em confundir estes dois conceitos. A demagogia é a manipulação com fins políticos. O populismo é a defesa de um «nós» e «eles». [2] Este vídeo é demagogo, porque está apresentado de forma a que a pessoa tenha interesse em clicar, acabando a ver uma pessoa a falar num tom de voz assertivo e elevado, sem conteúdo. Isto leva-me à mensagem principal que queria aqui trazer: a novilíngua na comunicação política. Ainda antes disso, dizer que a posição de Mariana Mortágua, ao afirmar a existência de interesses de um grupo económico, enquadra-se numa perspetiva populista, por ser uma oposição entre interesses de dois grupos (normalmente uma grande maioria em oposição a uma pequena minoria**). Este populismo económico não deve ser confundido por demagogia, uma vez que não se socorre de mentiras [3] e tem conteúdo político.
Sobre a novilíngua, lembrei-me fazer o exercício de ir ao Youtube do CHEGA: ARRASA, EMOCIONANTE, VERGONHA, ÉPICO, FARSA, FRAUDE, MARIMBAR, TERRORISTAS. Isto tem de ser uma nova língua, porque em português não significa nada. É conteúdo desprovido de significado, onde ficamos minutos a ouvir uma pessoa aos berros.
Eu até comecei por conceber este artigo como glossário, mas é impossível, porque as palavras pura e simplesmente só existem em forma, para captar a atenção, são usadas indiscriminadamente.
*Não deixa de ser curioso o facto das minhas pesquisas terem uma clara tendência à esquerda e o algoritmo do TikTok e do Instagram mostram-me conteúdo de direita. O Facebook é um caso mais extremo, estando de vez em quando a mostrar e a sugerir uma página de apoio ao Estado Novo – tive de a bloquear para deixar de aparecer no meu feed. A agenda de quem controla o algoritmo está forte em Portugal, tenhamos todos muito cuidado.
**Há um populismo extremamente perigoso, aquele que se socorre na vertente social, atacando minorias como aquelas sexuais, étnicas, raciais,… O racismo e a xenofobia usam muito esta oposição entre «pessoas de bem» e aquela «minoria que tem de ser combatida», como os imigrantes ou os ciganos.
[1] https://www.tiktok.com/@juventudepopularlisboa/video/7192368351224548613
[2] https://lawliberty.org/between-demagoguery-and-populism/
[3] https://wid.world/
No dia 10 de novembro de 2023 houve a assinatura de dois protocolos de colaboração entre o Politécnico do Porto (P.PORTO), a Universidade do Porto (UP) e os Serviços Sociais da Guarda Nacional Republicana (GNR) e da Polícia de Segurança Pública (PSP) com o objetivo de permitir aos agentes das forças policiais acederem aos serviços de alimentação das instituições de ensino a partir de dezembro. [1] Este desenvolvimento não aparece do nada, uma vez que já no início do ano o ministro da Administração Interna afirmou essa vontade, embora num espírito nacional. [2] Trata-se de uma decisão muito mal pensada essencialmente por duas razões.
Em primeiro lugar, porque as cantinas já se encontram cheias, havendo enormes filas para ter as refeições. Quando as condições de conforto não estão garantidas para a própria população académica que é suposto servirem, como se pode pensar em responsabilizar estas entidades pela alimentação de mais gente?
Em segundo lugar, juntar estudantes e agentes policiais num mesmo espaço faz lembrar um clima muito pouco democrático, principalmente numa altura onde se fazem sentir vozes estudantis por uma mudança nas políticas ambientais. [3] Como pode o ministro da Administração Interna falar em «fomentar a convivência» entre estudantes e polícias quando temos notícia de uso desproporcional de força [4] e uma detenção por uma pessoa ter dito para verem se a polícia não roubou nada enquanto esta os revistava [5]? Como se pode ver isto se não como uma forma de dissuadir os alunos de se manifestarem, ainda por cima quando a direção da FLUP em maio os silenciou? [6] O próprio ministro parece não esconder o que está subentendido ao dizer «[os agentes podem] socializar com os estudantes, que vivem muitas vezes momentos que exigem uma atenção especial» [1]. Uma atenção especial pela polícia?
Há uma vilificação de ativistas, mesmo daqueles que protestam pacificamente, que colocam o direito à manifestação em causa. As metas para apaziguar as alterações climáticas estão ainda muito aquém. [7] Estes jovens que estão a ser detidos estão do lado certo da História, a defender uma Terra habitável, a defender vidas. Esta medida das cantinas pode resultar numa situação tumultuosa que só vai dar a ganhar à extrema-direita.
Que se note, por fim, que ninguém se deu ao trabalho de disponibilizar publicamente os protocolos. Não há respeito pelos estudantes, nem pela academia.
[1] https://noticias.up.pt/cantinas-da-u-porto-abrem-as-portas-aos-elementos-da-gnr-e-psp/
[4] https://www.publico.pt/2023/11/17/azul/noticia/situacoes-excepcionais-repressao-protestos-clima-levaram-policia-volta-universidades-2070671
[5] https://www.publico.pt/2023/11/24/azul/reportagem/activistas-ocupam-ministerios-marcha-ate-ambiente-invasao-infraestruturas-somam-20-detidos-2071482
[7] https://www.publico.pt/2023/11/14/azul/noticia/caminho-errado-so-vamos-reduzir-2-emissoes-ate-2030-43-necessarios-2070210
Hoje não me apetece falar da atualidade. Abrir um jornal e ver o que lá vem até dá arrepios (e nós podemos estar na ponta da europa, mas ainda assim no conforto da europa). Vou aproveitar para deixar aqui uma sugestão de leitura que me tem ocorrido.
Para ajudar a que aquilo que vou escrever faça sentido, convém fazer um pequeno resumo dos meus hábitos de leitura antigos: enquanto pré-adolescente e adolescente preferia ler divulgação científica e histórica, sentia ser por eles que podia construir um sentido sobre o mundo. Nesse sentido, colocava a ficção num patamar inferior, restringindo-me a alguns clássicos e os pedidos escolarmente. Esse preconceito foi caindo aos poucos, principalmente quando me apercebi que a ficção científica ou as utopias/distopias nos levavam as pensar, mas ainda assim continuava nos clássicos.
Em paralelo, em 2014 comecei a ler Carl Sagan, um dos maiores divulgadores de ciência de sempre, e pus-me a ler a sua obra toda (o que continuo a fazer). Se fui para Física, em muito se deve a Sagan. Se acabei em Filosofia, muito se deve a Sagan: o meu livro preferido dele é «Um Mundo Infestado de Demónios» [1] que, mais do que divulgação científica é um manifesto ao ceticismo, à educação e à literacia, além de uma tentativa de compatibilizar ciência e religião. Sagan foi um pensador que sabia bem que a Ciência não sobrevive por si só e há muitos demónios a assombrá-la – e que afetam as nossas vidas, como ganham dimensão política.
A revolução em mim, contudo, foi quando olhei para a prateleira da Bertrand do Parque Atlântico e o «Contacto» [2], único romance de Carl Sagan. Já antes o tinha visto, mas, como se pode imaginar pelo que disse antes, nunca tive vontade de o levar. Naquele dia foi diferente. Aconteceu. No fim de 2019 ou início de 2020 dei comigo a devorá-lo.
O que Carl Sagan fez foi uma versão ficcionada de toda a sua obra científica: através da narrativa abordar os vários assuntos. Percebi que matérias sociais, humanas, as questões que falei sobre o «Mundo» são aqui trazidas não só com a paixão do narrador, mas também as emoções das personagens. Talvez o que me tenha feito cair o preconceito com toda a ficção, foi justamente perceber que o estudo/especulação literária das emoções e sentimentos levam ao aprofundamento das matérias. Isto nem é complicado de perceber: e são o guia da nossa racionalidade. São o reflexo da nossa inteligência. Como gosta muito de dizer uma professora minha, são dinâmicas de tensão.
Podia colocar aqui inúmeros excertos de diálogos vertiginosos das personagens – sempre numa linguagem quotidiana. Podia exemplificar o sentido humor sempre presente. Podia sumariar o fio condutor da narrativa, muito bem construída. Penso que mais vale deixar para quem for ler esse prazer.
No na seguinte à morte do autor, foi lançado o filme baseado nessa obra. [3] Como é habitual, o livro leva a melhor. É interessante que até a emoção da leitura me parece um pouco mais forte, apesar de ser habitual os filmes serem fortes na empatia que pretendem atingir.
Fica aqui esta sugestão, talvez de esperança, talvez de inspiração, que possa abrir novas protas.
[1] Carl Sagan, Um Mundo Infestado de Demónios, Gradiva, 4ª edição, 2012.
[2] Carl Sagan, Contacto, Gradiva, 3ª edição, 2012.
[3] Contact, Robert Zemeckis, Warner Bros, 1997.
O local que me parece propício a uma maior concentração é estar confortavelmente sentado num avião. Talvez seja pela ausência de internet, consigo estar duas horas e meia a ler belamente. Na passada quinta apliquei esse método para ler um livro [1] de um professor sobre o qual tinha alguma curiosidade (a minha motivação até era mais pela forma do que pelo conteúdo).
Apesar de não ser o meu interesse ler rigorosamente sobre escolástica medieval, houve uma noção que me arrebatou: autonomizar é dignificar. Conferir autonomia é permitir que alguém se concretize, que possa definir o caminho que pretende trilhar. É justamente aí que reside a dignidade: a pessoa tem um caminho a fazer, um propósito para existir. Dar autonomia é dar espaço à realização do propósito.
O projeto político deve ser autonomizar, que é como quem diz, garantir possibilidades. Garantir que duas mulheres possam casar – o que não obriga que todas as mulheres casem com mulheres. Garantir que pessoas possam abortar ou requerer eutanásia – o que não obriga a todas as pessoas abortem ou requeiram eutanásia. Garantir que o SNS dê resposta a pessoas trans – o que não obriga a que pessoas cis tenham de usar esses mecanismos. Dar possibilidade não é conferir obrigatoriedade. Do mesmo modo, dar autonomia é garantir que uma pessoa abaixo do limiar de pobreza consiga frequentar o ensino superior, se o desejar – o que não obriga a que todas as pessoas frequentem esse ensino. Garantir que toda a gente tenha uma resposta aos seus problemas no SNS sem ter de pagar balúrdios. Penso que a questão dos rendimentos é a mais ilustrativa: num sistema onde a moeda rege a qualidade de vida, há que garantir que cada pessoa tem o suficiente para viver (muito acima de sobreviver). O Estado tem de garantir que o rendimento mais baixo de todos garante uma vida boa.
Há uma grande complexidade que se gera, quando nos apercebemos que as pessoas se organizam em pequenos grupos, as famílias – sendo elas muito diferentes entre si, com necessidades diferentes. O desafio do Estado é conseguir garantir resposta dos serviços públicos fundamentais e prestar apoio às anomalias da vivência individual: como ter filhos, ajudar o associativismo,... escolhas individuais que edificam a comunidade – para além das questões individuais que acima já se mencionou. Além de criar condições económicas para garantir uma ampla oferta cultural, estabilidade na criação de empresas e justiça social.
Que se note que autonomia não é independência. Autonomia do indivíduo perante o coletivo, mas reconhecendo-se como parte deste. Vivendo em comunidade, estamos submetidos a um sistema, a uma estruturação e burocracia. Para assim vivermos, precisamos de confiar nas instituições e respeitar as suas regras. Para termos um Estado que nos ajude a autonomizar, temos, por exemplo, de pagar impostos. Uma questão importante, claro, é como se distribui o poder no Estado: a democracia, enquanto cada cidadão poder exercer a sua voz, ser eleito e eleger, é, também, autonomizar. Como última nota, falar no coletivo é, também, falar no individual sobre a forma do outro: saber respeitar o espaço daquela e o seu caminho – tão legítimo como o de qualquer um.
[1] REBALDE, J., Liberdade humana e perfeição divina na Concordia de Luis de Molina, (Col. Textos e Estudos de Filosofia Medieval, nº 7) Húmus Ed., Famalicão 2015; ISBN: 978-989-755-162-8.
Há tanto que se passa e que me parece relevante, que decidi, hoje, fazer uma manta de recortes sobre temas da atualidade: falemos de pântanos políticos no meio do Atlântico, de rendimentos e de lavagem cerebral.
Escrevo este artigo no sábado, quando Nuno Barata anunciou o voto contra o Orçamento e Plano Regionais para 2024. [1] Podemos afirmar com toda a convicção que este Governo morreu. Mantendo-se o cenário tal como está, não haverá qualquer documento para 2024, assumindo o executivo de Bolieiro um papel de gestão corrente. Poderá ainda acontecer poder haver algum acordo de última hora, uma mudança no sentido de voto, mas parece-me que este cenário, na verdade, é o melhor possível para a direita açoriana. Eu até arriscaria dizer que esta coreografia já vinha sendo delineada desde 2020, acordada em compadrio entre os partidos da coligação e do ex-apoio parlamentar.
Mesmo com este fracasso, o governo consegue acabar a legislatura, ou, pelo menos, levar a que as eleições não soem a antecipadas. Frente ao eleitorado, empunhará a taça de chegar ao fim, sendo uma alternativa credível ao PS. Como a memória coletiva tende a ser curta, as tensões, zangas, trafulhices, serão empurradas para debaixo do tapete. Se fôssemos agora a eleições antecipadas, se o governo se demitisse, o eleitorado estaria em contacto direto com a instabilidade.
O mesmo se passa com os ex-parceiros, na verdade: apesar de sem eles não ter sido possível este governo, já no início deste ano decidiram começar a distanciar-se, de forma a poderem disputar o seu respetivo espaço. Tentam manter a energia de 2020, ignorando os seus contributos desastrosos na política executiva – a tal memória curta.
Mas isto não seria possível sem o contributo decisivo de uma pessoa: Marcelo Rebelo de Sousa. O mesmo Presidente que dissolveu a Assembleia da República por o Orçamento ter sido chumbado, apesar do Governo não se ter demitido, é o mesmo que, vendo o mesmo cenário, mas agora na sua área política, não se pronuncia, nem assedia a oposição. Marcelo tem uma agenda muito clara.
O Eurostat divulgou dados sobre rendimento segundo o poder de compra dos países europeus no ano de 2022. [2] Portugal é o sexto país com os rendimentos mais baixos, terceiro da zona Euro. Além disso, a par do sul e este europeus, tem uma desigualdade de rendimento maior do que a média europeia. [3] Esta realidade é ainda mais gritante nos Açores. [4]
Nas poucas palavras que me restam, deixar nota da lavagem cerebral que o governo italiano está a levar a cabo: uma revolução cultural que normaliza a visão fascista. Meloni, que se tenta apresentar como uma moderada, tem levado a cabo um processo de nomeações de ideólogos de si próximos para diretores artísticos, programadores e responsáveis de museus. [5] Que ninguém subestime o poder da cultura.
Num destes dias estava estacionado no sofá e a testemunhar a diversidade de conteúdos dos canais de televisão. Num daqueles acessos de saudade, coloquei na RTP Açores e fiquei a ver as Notícias do Atlântico. Lá vi uma reportagem sobre a Conferência Internacional sobre Alterações Climáticas que não deixa ninguém indiferente: os Açores fazem parte deste planeta, não só vão sentir os efeitos do aquecimento global, como já os sentem. [1]
Apesar de já ter lido uma exposição rigorosa do que foi mencionado na Conferência [2], não me parece de todo desadequado trazer para aqui o assunto e explorá-lo um pouco.
Desde logo, ecoar as conclusões apresentadas na Conferência:
Fazendo a média das temperaturas mínimas de 1971 e 2000 e daquelas entre 1991 e 2020, apercebemo-nos de um aumento de um grau centígrado. De notar que a Conferência de Paris (2015) estabelece esforços para o aumento ficar por 1,5 graus, sendo que já em 1997, em Quioto, se pretendia um aumento máximo de dois graus.
Recorde-se que o aumento da temperatura leva ao derretimento das calotas polares, subindo o nível das águas do mar, potencia fenómenos como o El Niño, só para dar alguns exemplos à escala global. O aumento de um grau é capaz de branquear corais, aumentar a reprodução de gafanhotos e diminuir as áreas férteis para café, entre outros exemplos concretos.
O número de dias com temperatura máxima acima dos 25 graus centígrados aumentou, no período já mencionado, de 48 para 61, um aumento de 27%. Significa isto um aumento de secas, havendo também uma diminuição da precipitação – as ondas de calor são particularmente problemáticas para a saúde de grupos de risco, como idosos. Também ocorre um aumento de dias de chuva intensa. Ou seja, há um aumento de fenómenos extremos.
Justamente, nos períodos de 30 anos considerados, assistiu-se a um aumento de ciclones tropicais de 20 para 35. Além do aumento deste total, a intensidade também saiu reforçada: entre 1971 e 2000 houve 2 ciclones de intensidade igual ou superior a 3, enquanto entre 1991 e 2020 houve 11 – um aumento exponencial.
Finda esta descrição, aproveito para mencionar a monitorização de gases com efeito de estufa na Terceira da responsabilidade do IPMA. [3] Ao olharmos para os dados notamos a clara tendência de aumento do dióxido de carbono e metano. Muito pouco rigorosamente, olhando para o gráfico do dióxido de carbono, podemos afirmar que a cada ano há um aumento de 1,82 ppm, sendo que no globo esse aumento é de 2,27 ppm. Apesar da ligeira diferença nestes ritmos, apercebemo-nos que os valores absolutos são muito semelhantes.
Há uns poucos anos foi publicado um artigo científico sobre a evolução e previsão das alterações climáticas nos Açores. [4] Nele afirma-se justamente «Os resultados das recentes previsões de vários modelos climáticos, indicando o aumento da temperatura do ar e a diminuição da quantidade de precipitação, são também claros em relação ao aumento de eventos extremos na região dos Açores».
Preocupemo-nos.
[3] https://www.ipma.pt/pt/oclima/gases.estufa/
Quando falamos de alterar o mundo em que vivemos, fica a questão do método, independentemente da meta: como aplicar a mudança? Como é que a mudança se relaciona com o tempo? A nossa utopia, a sociedade a que queremos chegar, é atingível através das instituições já existentes? A evolução precisa de uma rutura que coloca as massas na rua? No fundo, reforma ou revolução?
Este tema ocorre-me no seguimento de uma discussão de cantina, como de costume. Nesta, tive um amigo a tentar demonstrar como o que dizia contradizia o que lhe tinha dito há dois anos – o que facilmente pode acontecer, a mudança de opinião é normal. Neste caso, tinha plena noção da minha coerência, mas a constipação esgotou-me as faculdades mentais. Então agora estou em casa a pensar sobre este assunto, com o objetivo de sintetizar e sistematizar uma visão pessoal sem referências diretas.
Desde logo, penso ser importante perceber que existem várias dimensões associadas à nossa utopia (aqui uso utopia como a sociedade que pretendemos atingir), pelo que pode acontecer que a resposta à questão, reforma ou revolução?, pode ser diferente para cada uma. Estas vertentes mencionadas resumem-se em três: política, economia e social.
A vertente política consiste na organização do poder, ou seja, nas estruturas e instituições que se consideram legítimas para tomar decisões. Monarquia, oligarquia, tecnocracia, anarquia, democracia (direta, representativa,…),… são tudo possibilidades de regimes que se diferenciam pela forma como representam o poder.
O lado económico consiste na forma como se distribuem os recursos. O sentido comum é pensar no dinheiro como expoente máximo do recurso, sendo isso, claro, resultado da circunstância em que vivemos. Não obstante, o dinheiro serve, justamente, para controlar a obtenção de recursos, sejam produtos ou serviços.
A dimensão social relaciona-se com a carga cultural, muito ligada também a questões de ética. Lutas como feminismo e ativismo queer enquadram a sua ação aqui. Trata-se, portanto, da forma como as pessoas se veem e se relacionam entre si, bem como a perceção do eu.
Apresentadas estas definições tentarei defender a dinâmica como me parece que cada uma deva ser modificada:
A parte política é aquela que agenda e delibera as decisões, sendo que, enquanto fonte de poder, condiciona as outras dimensões. A questão de como distribuir o poder é importantíssima numa sociedade, sendo necessário um forte alinhamento dos cidadãos. Justamente por isso, parece-me importantíssimo que as mudanças de regime sejam manifestadas pelas massas. Se se mudou de regime sem uma revolução, existe uma forte possibilidade do anterior regime viver de alguma forma. A utilização de referendos seria a forma mais racional e pacífica de consumar a alteração do poder – sendo muitas vezes feito como validação de alterações aos sistemas eleitorais.
A vertente económica seria a queria mais vantagens a ser mudada por uma revolução, por ser a que tem um impacto material na vida quotidiana das pessoas. Contudo a atual burocracia, complexidade e desigualdade acabam por a tornar insustentável. As reformas progressivas serão então mais prudentes.
No campo do social percebemos que existe uma inerência cultural: o pensamento é dependente do tempo, havendo uma evolução muito visível. O que hoje consideramos certo, amanhã pode ser visto como questionável. É necessário ter um espírito reformador que permita a evolução cultural.
Por fim, notemos que estas dimensões estão interligadas, sendo esta anatomização um exercício teórico.
Há já algum tempo que não fazia um daqueles artigos, pessoais?, sobre temas muito estranhos. Hoje isso fica resolvido. Durante a semana passada passei por uma longa constipação que me atirou para a cama e para o sofá, sem grande capacidade de trabalho. Não obstante, no sábado de manhã deparei-me com a nova música de Troye Sivan, «One of your girls». [1] Esta foi a raiz das várias questões que se seguiram.
A música em si versa sobre a dolorosa e não rara realidade de gays se apaixonarem por héteros, a melodia fica no ouvido, não sendo particularmente ousada. Julgo que o grande impacto advém do videoclipe. No vídeo, numa primeira parte, temos a filmagem de vários homens, entre eles Troye Sivan, que têm um interesse romântico no Ross Lynch (uma estrela-adolescente de há dez anos na Disney). Há uma evolução para só o cantor e o ator serem os protagonistas, estando o primeiro a fazer drag (ou seja, adotar a expressão que associamos à mulher, desde a roupa, maquilhagem à postura). Neste contexto, o que se pretende é mostrar a submissão do sujeito lírico à paixão proibida que sente.
O que mais me tocou foi justamente contactar com esse ato inesperado de drag: os contactos anteriores com essa atividade foram sempre circunstanciais, onde já contava com a sua presença, como ao ver RuPaul's Drag Race. Apesar de nunca me ter manifestado crítico ou desgostado, ao saber ao que ia, os meus preconceitos eram acionados, levando a uma homofobia internalizada – nomeadamente sobre homens homossexuais socialmente afeminados. Aqui, apanho desprevenido, vi-me confrontado com uma nova realidade que me cativou imenso.
As questões pessoais que se despertaram com este encantamento resultaram em questionar se não seria bissexual: aquela pessoa está a representar a forma como vemos uma mulher. Vendo outros exemplos do tipo (até para saciar questões mais sociológicas) percebi que a atração não era sexual, mas antes uma experiência estética, como quando olhamos para o Jardim das Delícias Terrenas de Bosch. Despido do preconceito, percebi que era arte o que me chegava.
Encontrei um artigo deste ano [2] do vencedor do prémio «Pulitzer para a crítica» onde é abordada a questão estética e a relação com as políticas conservadoras (e autoritárias) que têm proliferado nos Estados Unidos da América. O ponto principal é que drag é uma forma intrinsecamente antipatriarcal, que vai contra a elite dominante e, por isso, um alvo a abater a bem da estabilidade do poder. O artigo explica muito melhor do que podia aqui deixar esta questão, bem como origens, significado e importância do drag.
Isto deixa-me a porta aberta para o pensamento de uma importante filósofa norte-americana, Judith Butler – publicou em 1990 uma obra basilar sobre o tema. Deixo aqui referência a uma pequena entrevista muito interessante. [3] Para ela, o género é uma construção social (algo que atualmente parece óbvio) – sendo o sexo atribuído à nascença e podendo ser corrigido posteriormente. O género é, na verdade, uma performance, sendo que o que consideramos como sendo um homem ou uma mulher um conjunto de fatores culturais. Masculinidade e feminilidade são performances. Fazer drag é provar isso mesmo: que as categorias somos nós que as colocamos.
Nós podemos escrever-nos a nós próprios.
[1] https://www.youtube.com/watch?v=ZhGl8McrOHo
[2] https://www.latimes.com/entertainment-arts/story/2023-02-22/aesthetics-of-drag-gop-legislature
[3] https://www.theguardian.com/lifeandstyle/2021/sep/07/judith-butler-interview-gender
A minha avó é uma ilha. Era. No passado dia 4 de outubro a nossa família ficou um pouco mais pequena. Desde já peço a paciência do leitor, mas esta semana o presente artigo não pode ser de outro modo senão esta homenagem.
Estes dias mais intensos, à distância da família (voos cheios), são só mais toleráveis pela presença de pessoas amigas. O facto da maior parte não saber do sucedido permitiu manter a normalidade e evitar um isolamento severo. Não se trata de uma negação da dor: olhar a vida como quem olha uma formiga, reconhecer a sua fragilidade e a necessidade de a agarrar. Este era o sentido, profundamente otimista, de Angelina Bairos Pereira: «Amanhã também é dia».
Esse otimismo, companheiro de viagem, é, talvez, a marca do seu nascimento humilde. Uma entre a fraternidade de 9 que viviam na serra, rebentos de um tradicional casal rural. Uma vida marcada por valorar o que se tem, onde a felicidade, longe do nosso conceito utópico, é a fonte da força. Estou longe de dizer que foi uma vida fácil: foi uma vida de trabalho, foram rugas vincadas pelos obstáculos da vida, mas sempre com um amanhã. Os meus avós conseguiram criar 7 filhos, deram-lhes a oportunidade de estudar fora: é comovente como, sempre que chegava a Santa Maria, a primeira pergunta que me fazia era «Como vão os estudos?» A preocupação com a emancipação dos seus, o grande respeito pelo Conhecimento. A minha avó tinha a mais básica da «instrução», até chumbou um ano só por ser mulher, mas reunia em si a cultura, os saberes e a experiência que a tornaram uma sábia, além de asceta. Tivesse nascido noutra altura e noutro local e teria sido igualmente um exemplo, ter sido em 1939 e em Santa Maria foi praticamente milagre.
Talvez a melhor imagem que tenha é a do seu sorriso: uma espécie de imagem de marca que expressava a sua alegria (ou a não audição de algo). A sua voz que, no início de cada frase, parecia desenhar um princípio de superposição singular. O seu pragmatismo holístico, o encarar a realidade moldando aquilo ao nosso alcance e aceitando o que nos extravasa, é o mote que nos deixa. Um hedonismo minimalista, com prazer sincero: nunca precisou de muito para se satisfazer. Isto não é o mesmo que dizer um conformado com a vida: é a adaptação às circunstâncias. É não deixar ninguém para trás: seja a família ou amigos. É o vigor, mental e físico, de ser árvore que viçosamente cresceu durante 84 anos e que, quando o xilema deixou de circular, foram 3 meses de dúvidas: um deles no hospital, o último fora da cama, com o bem-estar da família, tendo a agonia da partida durado menos de uma semana. Até a morte a minha avó encarou com a força e pacificidade da vida. Sabia o seu tempo.
Uma octogenária que vê num ilhéu de 97 quilómetros quadrados o seu mundo diz «A gente somos como somos» - ela sabe que, na verdade, nós somos o mundo, cada pessoa é um microcosmos. As palas somos nós que as pomos. Estou confiante que existem mais Angelinas no mundo. Mais do que confiante: esperançoso. Esta é a minha e, por isso, sinto-me sortudo.
Do seu legado fica o conhecimento, a tradição, a comida, as histórias. E a memória. Memórias de ser criança junto de si a imitá-la, assassinando uma folha de papel com uma agulha e linha, enquanto se via O Preço Certo, de quando tranquei as portas da carrinha e dela saí com as chaves lá dentro durante uma vindima, dos jantares de caldo de nabos, do seu pão (perfeito e que me arrancou dois dentes de leite)… Se houvesse microscópios que analisassem identidades, parte substancial de mim seria Angelina.
A minha avó era uma ilha. É.
Face ao caótico cenário que nos chega do Atlântico, parece-me pertinente esquematizar em alguns pontos os desenvolvimentos recentes.
Das eleições deste ano na Madeira surgem-nos resultados iguais aos de sempre, mas num cenário novo. Quero com isto dizer que a configuração de forças na assembleia regional da Madeira será em tudo igual ao que anteriormente foi. O resultado de Cafôfo em 2019 foi uma anomalia, não existindo uma verdadeira segunda força. Não obstante, o cenário é novo, porque essa fragmentação surge sem o partido no executivo ter a maioria absoluta.
Uma noite sem vencedores: o estrondoso desempenho da coligação não apaga o histórico das maiorias absolutas, tecendo estas uma enorme sombra; o CDS provou-se uma inutilidade eleitoral para o PSD, sendo, neste momento, um partido fantasma no executivo; o PS voltou ao que era; o JPP não se afirma como alternativa de poder; o CH emerge, mas não conseguirá influenciar a governação; a CDU manteve-se; BE e PAN regressam à assembleia, mas representam uma fatia bastante reduzida do eleitorado.
Desde o primeiro discurso na noite eleitoral ficou evidente o pragmatismo do PAN em assegurar a sua influência. Miguel Albuquerque, melhor do que ninguém, percebeu que essa disponibilidade lhe garante maior estabilidade do que uma IL que se pretende afirmar ideologicamente. Já nos Açores é evidente essa dinâmica, tendo o deputado da representação parlamentar do PAN votado favoravelmente ou abstido na votação de grandes documentos, apesar da maioria já ter os votos necessários – e com menos histeria que CH e IL.
Engraçado é estarmos a comprovar a instabilidade destas forças, CH e IL, com a possibilidade do chumbo do Plano e Orçamento Regionais para 2024, levando a eleições antecipadas. Não será, obviamente, um ato inocente nem idealista, é uma tentativa desesperada destes atores se distanciarem de uma governação fracassada que apoiaram e influenciaram. O desinvestimento público da IL e o vazio aleatório do CH aprofundaram sérios problemas da região. A sede do CDS e PPM em colocar os seus boys nos cargos de nomeação (e em concursos públicos dignos de uma verdadeira meritocracia), valeram uma administração pública tão infestada como o legado do PS.
Recentemente, no "Quando há excesso da população, abate-se", já enunciei graves problemas que este governo não resolveu, ou aprofundou, problemas que toca de fachada, sem uma reforma estrutural que resolve ou melhore substancialmente a situação.
Pessoalmente, pertuba-me, também, muito a ausência de seriedade: o candidato do CH na Madeira a colocar baixa na pré-campanha; a IL na Madeira, depois de abrir a porta a Albuquerque, sendo o "adulto na sala", e sabendo do acordo com o PAN, vem num discurso que grita "agora nem queria"; um CH nos Açores que só berra repetidamente como está constantemente a romper os acordos; palavras de catavento, atitudes interesseiras, além da governação em função de si.
Tudo isto lembra um livrito de sátira política ficcional de Ian McEwan: A Barata.
E por tudo isto preocupemo-nos: estamos a caminhar por cima de um Rifte em efervescência. Um direita que se norteia pelo objetivo único de se manter no poder: sem programa, sem escrúpulos, só desmesura e egoísmo. Na Madeira, Albuquerque presunçosamente dizia que se demitia se não conseguisse a maioria absoluta: para ele, o que lhe interessava era o seu poder absoluto. Nos Açores, podemos ter eleições antecipadas, porque as forças de direita se querem afirmar politicamente isoladas dos seus fracassos. Há centenas de anos que vivemos em cima de um rifte, saibamos lidar com este.
Não sei se rio, ou se choro. Na passada quinta, li no Público uma reportagem sobre as eleições na Madeira – publicada nesse mesmo dia. [1] Os três jornalistas fizeram um grande trabalho de desconstrução de discursos e investigação muito importantes para os eleitores não terem à sua disposição as narrativas partidárias – nenhuma candidatura principal foi poupada. Talvez a única nota que tenha ficado de fora foram as advertências da CNE a Miguel Albuquerque sobre instrumentalizar a sua posição de presidente do governo regional em seu favor – algo que o Público noticiou no mesmo dia dessa reportagem.
Ficamos a saber que o candidato do Chega colocou baixa durante a pré-campanha: impossibilitado, supostamente, de fazer esforços, meteu-se a fazer arruadas ao lado de Ventura – são estas pessoas que falam em «malandros». Mas aquilo que mais me chocou foi uma passagem que inclui o nosso próprio deputado açoriano desse partido – e que aqui reproduzo:
«Quando José Pacheco, deputado regional do Chega nos Açores, apareceu junto da comitiva, Castro [cabeça-de-lista do CH na Madeira] felicitou-o dizendo aquela ser a “união nacional”. Pacheco sorria, sendo imperceptível perceber se eles entendiam o que acabava de ser dito.»
Para o caso de o leitor não estar a ver imediatamente a pertinência da referência e do comentário dos jornalistas, tenha em conta que «União Nacional» é o nome do extinto partido salazarista, partido único do Estado Novo. Temos agentes políticos, potencialmente, a convocar a memória de uma organização fascista. Julgo ser evidente a problemática. Claro que podem dizer que foi só uma expressão infeliz: nesse caso, não deveria Pacheco reagir de forma distinta da de um sorriso? É possível termos na casa da democracia açoriana um deputado que desconhece a História recente do seu país?
Este episódio lembrou-me uma música dos Pet Shop Boys, de 2019, [2] que afirmava, numa tradução livre minha, «Pessoas inteligentes já tiveram o seu dizer / É tempo dos idiotas mostrarem o caminho / Vamos levar este mundo a uma dança alegre / Vamos dar uma oportunidade à estupidez» e continuava com «Esquece o politicamente correto, eu digo W-T-F / Não quero pensar sobre o mundo / Quer falar de mim próprio / Em vez de governar com ponderada sensibilidade / Vamos chocar e estupeficar o mundo com ódio idiota».
Como somos o fruto das nossas circunstâncias, da «sorte», ontem, no meio de uma fraterna aventura para apanhar um autocarro, li um livrinho que me deu uns conceitos capazes de colocar em ordem intuições que já tinha, sendo que os associei a esta questão: como evitar este mal da ameaça da extrema-direita, como cortá-lo pela raiz? Cohen [3] diz-nos que o nosso sistema se baseia no egoísmo e no medo, condições humanas, pelo que o caminho para um melhor sistema é redirecionar para a generosidade – o grande desafio é construir esse mecanismo, algo que o capitalismo fez muito bem com aqueloutras. A cereja é a «amizade social»: «não se pode ser amigo dos milhões de pessoas […] Basta que eu trate todas […] com quem me cruzo com a atitude de reciprocidade […] da amizade.» Cooperação em vez de competição.
Enquanto escrevo estas palavras, os madeirenses estão-se a fazer ouvir nas urnas, não sabendo ainda o desfecho – podia ficar até tarde a aguardar, como já fiz aqui noutros momentos, mas julgo que o meu comentário não é assim tão bom para ter de fazer parte da multidão de comentadores que se vão acotovelar nestes dias.
[1] https://www.publico.pt/2023/09/21/politica/noticia/eleicoes-madeira-regiao-insiste-circular-direita-2064211
[2] https://www.youtube.com/watch?v=P9jEuHbB0GQ&ab_channel=PetShopBoys
[3] Cohen, G.A., Socialismo. Porque não?, Gradiva, 2016
Já há umas semanas que tenho andado à espera de que o Polònia (TV3) voltasse das suas férias para dar seguimento às suas publicações. Trata-se de um programa catalão de televisão que, entretanto, emigrou para o Youtube [1]. O seu conteúdo é muito semelhante ao nosso DDT ou Estado de Graça, apesar de produzir, relativamente, mais musicais. Trata-se de curtas satíricas que retratam figuras públicas, a maior parte da política, centrando-se na forma como lidam com os temas da atualidade.
Cartoons e ilustrações que figuram na comunicação social também são formas humorísticas de olhar a atualidade. Temos muito bons cartoonistas que vivem do seu trabalho, destacando-se mesmo a nível internacional. Um cartoon animado que gosto muito é o Spam cartoon, pequenas curtas que contam com muita gente para serem produzidas. Elas são, aliás, transmitidas na RTP Play. [2]
O Ricardo Araújo Pereira e a sua equipa são provavelmente o exemplo mais mediático da atual sátira política. Mas precisamos de mais. De recuperar o DDT ou o Contra Informação. Aumentar a oferta desses conteúdos.
Falar humoradamente da atualidade é dar informação a pessoas que provavelmente não a teriam. O facto de haver figuras públicas, como apresentados ou humoristas, ou representações de figuras públicas, gera a curiosidade mesmo de quem não pretende inteirar-se propriamente das notícias. É claro que estes conteúdos são caricaturas, mas radicam da verdade. É claro que são enviesados, mas daí a importância de haver mais de uma fonte de conteúdos disponível – tal como sucede com aquele jornalístico.
Aliás, há alguns projetos de jornais satíricos, associados a jornais [3] ou não [4]. Fake news que são divulgadas como tal, não tentando enganar ninguém, antes entreter com a realidade.
Além da questão pedagógica e de tentar levar a informação a mais gente, pelo menos a curiosidade por ela, a sátira tem um papel na consciencialização e mobilização. Estou convencido que a democracia reserva um importante papel para estes espaços: incutir humildade aos líderes, conferir humanidade às figuras públicas. Perceber que os cargos são ocupados por pessoas, que o ideal democrático é ele poder ser alcançado por qualquer pessoa, desde que seja apoiada pelas massas. Perceber que a crítica é fulcral num ambiente plural. Perceber que o sentido de humor é um instrumento quotidiano. Perceber que o riso é uma necessidade.
Pus-me a escrever este texto nem tanto a pensar no panorama nacional, mas sim nos Açores, ou mesmo a um nível local. Apesar de não termos as representações que referi com saudade, há muito trabalho nesse sentido (maioritariamente for da televisão) e até feito por «anónimos». É a olhar para a realidade regional que vejo uma lacuna: tendo uma cena política complexa, uma dinâmica política própria, com imensos atores regionais, fará todo o sentido aplicar o humor nesse contexto. Bem sei que há alguns cartoons, às vezes alguns podcasts, mas não tenho conhecimento de nada mais, muito menos um real investimento nesse sentido. Seria muito relevante a RTP Açores tomar uma ação nesse sentido. Dinamizar os profissionais da cultura na região a criarem uma sátira regular e de qualidade à atualidade regional.
De forma semelhante para o poder local: pelo menos a comunicação social procurar alguns apontamentos humorísticos, tentar mobilizar pessoas para essa criação. Tentarei isso no Pensar Santa Maria.
[1] https://www.youtube.com/@polonia
[2] https://www.rtp.pt/play/p4088/spam-cartoon
[3] https://expresso.pt/inimigo-publico
[4] https://imprensafalsa.com/
A amizade leva-nos a muitos portos, coloca-nos em longas viagens. No final de junho deste ano, um amigo começou-me a falar de formar um movimento. Vinha com o entusiasmo de participar noutros círculos, como coletivos de luta pelo direito à habitação, que têm um importante trabalho na mobilização de indivíduos para dar visibilidade a causas. O seu entusiasmo era justamente de ver ser possível o cidadão anónimo participar quotidianamente na construção da democracia. No entanto ele percebeu que na sua faculdade não há uma cultura de participação – tendo lá estudado antes, sabia exatamente do que falava. Este novo movimento seria, portanto, uma forma de consciencialização. Um coletivo cuja atividade é promover o espírito crítico e a participação cívica, a par de divulgar os movimentos e associações que já existem com muito bom trabalho feito.
Às vezes aquilo que é preciso é só de um empurrão. Tentar expandir horizontes, para compreender o mundo que nos rodeia e o nosso papel nele. Construirmos a nossa comunidade é a nossa liberdade.
Neste momento o Manifesto, este coletivo que foi formado com mais amigos em comum, já é público e tem uma ManiFesta agendada para dia 19 de setembro, pelas 18:00, na «Rotunda da Boavista» [1]. Pretendemos fazer tertúlias, convívios, sessões de cinema, clube do livro,… Tudo atividades que permitam gerar reflexão, abordar temas e explorá-los. Tentar criar um ambiente fraterno onde é possível uma franca partilha de experiências e conhecimento, tal igual como quando estamos entre amigos na cantina a conversar. Ao mesmo tempo, falar do que se pode fazer, dos grupos que já existem a trabalhar nesses temas.
De tanto pensar neste projeto portuense em Santa Maria, em agosto percebi que se podia fazer algo numa lógica semelhante na ilha: o Pensar Santa Maria. Criar um espaço onde pessoas qualificadas falam dos temas das suas áreas de estudo, da forma como as desenvolver na ilha, como desenvolver a ilha através delas e informações úteis para o quotidiano de cada um de nós. Mais do que isso, lançar mensalmente uma extensa recolha de informações e entrevistas a pessoas e entidades sobre determinados temas – a Ágora. Escolher um tópico e explorá-lo exaustivamente, falando com as pessoas que lidam com ele na ilha. O que se quer é gerar uma reflexão estruturada, correta, factual e informada sobre Santa Maria
Pensar Santa Maria pode ser visto como um think tank, sendo independente. No entanto, apesar de haver um esqueleto e alguns jovens, o projeto precisa de ajuda para andar, pelo que deixo aqui a presença digital [2]. Aquilo que mais me fascina neste projeto é o anseio pela universalidade do acesso à informação. Democracia é também garantir que todos têm o máximo de informação, razão pela qual o grande objetivo deve ser a edição impressa enviada gratuitamente para todos os lares marienses.
Estes projetos têm em comum quatro aspetos: quererem aumentar a participação cívica, o debate e ação; serem um grupo informal de jovens e alicerçarem-se digitalmente. O mundo digital potencia os grupos informais, ou seja, sem personalidade jurídica como associações, por permitirem um acesso à partilha de conteúdos gratuita. Trata-se de uma plataforma privilegiada para atingir grandes audiências sem custos.
A minha esperança é estes novos projetos, nas costas do Atlântico, demonstrarem que é possível ter um impacto na nossa comunidade, mesmo que só com o poder da palavra.
[1] https://www.instagram.com/manifesto.porto/
[2] https://linktr.ee/pensarsantamaria
António Ventura é um político com uma forte veia lírica: não contente com a invenção da máquina do tempo, no início de junho, quando disse «uma visão estratégica […] é a capacidade de ir ao futuro ver como está a ocorrer e voltar ao presente», na semana passada decidiu abraçar o pragmatismo afirmando «quando há excesso de população, abate-se». Talvez não pareça algo com tanta força ou impacto, contudo os dezanove gamos florentinos que perderam a vida devem ter uma opinião distinta.
Estou longe do génio retórico de António Ventura, não obstante posso tentar reproduzir a sua fórmula.
Quando o escaravelho japonês e a rugulopterix okamurae se tornam pragas, assobie-se. Quando se tem uma dívida a uma empresa com 49,9% de participação privada, pagam-se juros acima dos legalmente necessários. Quando cheira a bazuca europeia, encha-se os bolsos da clientela. Quando abre vaga nos concursos públicos, contrate-se o boy. Quando um governante detém empresas, adjudique-se. Quando há um Faria e Castro, arranje-se uma Rosa Costa. Quando a mobilidade inter-ilhas é realizada exclusivamente por avião, privatize-se. Quando se quer melhorar a mobilidade, afunde-se as ligações marítimas. Quando a única forma prática de mover dentro de Santa Maria é de carro, conserve-se as estradas esburacadas. Quando uma ilha se queixa de poucos voos, mande-se a camioneta do Q200. Quando se elogia os festivais, corte-se-lhes o apoio. Quando a natureza é a imagem de marca, despreze-se a Rocha dos Bordões. Quando a saúde é parente pobre, ignore-se as dezenas de milhões que a região não transfere desde 2021 às Unidades de Saúde de Ilha. Quando se anuncia pomposamente um concurso internacional, adjudique-se o máximo permitido a uma empresa para cumprir o mesmo propósito. Quando se quer sustentabilidade ambiental, aplaudam-se os cruzeiros na região. Quando se cria um apoio à natalidade, que se exclua 73% das famílias açorianas. Quando se quer sufocar a região, que se opte pelo endividamento zero. Quando se quer aprofundar a autonomia, que se empurre para 2026 um nova Lei das Finanças Regionais. Quando se quer desenvolver a região, cesse-se o investimento público. Quando é preciso, maquilhe-se as contas. Quando a inflação dispara, rejeite-se qualquer controlo de preços. Quando se quer ilhas com mais carros que pessoas, aumente-se o preço dos transportes públicos. Quando se diz muitas vezes que o custo de algo não vai subir, é subi-lo.
Entretanto, com toda a pesquisa que fiz, perdi a vontade de continuar. É com cada má decisão atrás de outra que torna impossível um açoriano ler isto e não ficar maldisposto. Quando vamos ter uma região que se preocupa com as pessoas? Que não coloca os interesses económicos primeiro? Que não coloca a politiquice primeiro? Quando vamos ter uma região que é mais do que uma fachada verde? Queremos ou não a sustentabilidade ambiental? Na altura em que vivemos esta pergunta só tem uma resposta e ela obriga-nos a deixar o greenwashing de lado e tomar medidas a sério. Não é por termos árvores, lagoas e vacas que somos uma região sustentável. É quando a energia é fornecida por fontes renováveis, quando a mobilidade é sustentável, quando a via pública é verde,… Peguemos na máquina do tempo e percebamos que sermos fritos pelo alcatrão, habituarmo-nos a derrocadas e furacões é um assunto sério. Percebamos que as pessoas que as pessoas o que querem é viver a sua vida sem ter de se preocupar com ter um teto, comida em cima da mesa ou respeito. Elas têm de ser realidades quotidianas.
Quem paga são os gamos e os açorianos.
Por vezes, dá-nos para pensar, melhor dizer, cismar. Quando a realidade de desfoca parece entramos em devaneios, sendo os mais espantosos os insights: esquecendo qualquer premissa, temos uma conclusão que consideramos robusta, uma verdade que nos aparece e ilumina. Chateia-me quando me esqueço dessa informação que durante instantes achei a coisa mais genial do mundo. Chateia-me ainda mais não perceber bem como eles funcionam, se seguem um formato lógico de conhecimento latente, se são um berro de um excerto do devaneio consciente, etc. Psicologia e neurociência para quem disso percebe, esta minha introdução foi só para dizer que ontem, salvo erro, tive um desses episódios, sendo que achei interessante explorar a ideia que se me veio.
O sentido de humor é o maior entrave à comunicação (tendo-se por base interlocutores com uma língua comum, claro). Não sou especialista em linguística, psicologia, antropologia ou sociologia, por isso perdoem-me quem o é e achar esta afirmação uma barbaridade.
A comunicação é a forma pela qual se transmite informação, ou pelo menos cria, entre interlocutores, sendo uma presença contínua no quotidiano de quem não vive solitariamente no meio de uma selva. Temo-la por via oral, gestual, escrita, visual,… Pessoas, publicidade, livros, filmes,… Uma vez que o meu ponto está na incompreensão, fará mais sentido pensarmos num grupo de duas ou mais pessoas. Como posso saber à priori se um grupo funcionará bem? A resposta mais óbvia parece-me ser se houve um denominador comum, um tema, em que todos se sentem incluídos. Podemos estar a falar de amigos de uma pessoa, de funcionários de uma mesma empresa, estudantes de um mesmo curso, adeptos de um desporto, por exemplo.
Não obstante, chegará um tema em comum? O facto de estarmos numa mesa onde todos falamos, com prazer e algum conhecimento, de política é suficiente para percebermos o que estamos a dizer uns aos outros? Que se note que não estou a falar de filosofias, como a impossibilidade de colocarmos em palavras o nosso pensamento, mas do outro apreender a intenção e conteúdo que pretendemos que apreenda. Aquilo que me parece é que não: talvez funcione na introdução da interação, mas, mais tarde ou mais cedo, vai haver uma comunicação que se perde no emissário. Uma poderosa aliada da compreensão mútua é a empatia, tendo em conta que o que nos faz estar a gostar mais ou menos de uma conversa é como ela nos faz sentir, sendo que isso depende da forma como vemos e interpretamos emocionalmente o outro. Quanto mais forte for essa harmonia emocional, melhor será a comunicação. Claro que uma pessoa pode nutrir empatia por alguém que não gosta particularmente, mas como há um esforço mental extra, facilmente se entende que há um entrave a uma boa comunicação.
Uma das expressões faciais que se consideram universais é o sorriso, a alegria. É interessante que ao vermos alguém a sorrir, sorrimos. A alegria é-nos tão importante a esse ponto, sendo que é capaz de gerar empatia. Se olharmos para os nossos tempos livres (difíceis no tempo em que o trabalho é o centro da vida), aquilo que fazemos é socializar para sermos felizes. Se examinarmos esses momentos, percebemos que o riso é uma espécie de constante. Piadas, anedotas, bocas, histórias, palhaçadas,… são fontes de riso. Mas sabemos que aquilo a que achamos graça pode ser muito diferente do que o outro acha graça, claro. Então olhemos para os grupos sociais. Parece que há uma seleção natural que faz com que as pessoas com sentidos de humor semelhantes se vão agrupando, surgindo, aliás, as piadas internas.
O sentido de humor é uma espécie de impressão digital na comunicação.
O verão é fértil nas festas populares, em todas as freguesias e municípios temos celebrações religiosas, nomeadamente, missas e procissões. São estes momentos as mais expressivas manifestações da fé católica nas nossas ilhas.
Nestas alturas temos as ruas adornadas, os tapetes de flores nas estradas, e animação à noite. Tanto nós como os turistas regalam os olhos para aproveitar ao máximo o tempo de descontração e alegria.
Mesmo não sendo um fervoroso crente, vejo estes momentos como manifestações culturais que enriquecem a nossa cultura e trazem a comunidade para a rua, num convívio intergeracional. Um evento religioso, uma feira do livro, um festival, um acontecimento desportivo, um teatro,… Tudo formas de dinamizar. Normalmente, os eventos religiosos têm inerente a participação gratuita que é um garante da universalidade de participação (dentro da comunidade religiosa, claro está). Toda a cultura (como a educação) deveria ter esse caráter de acessibilidade, não obstante, não é essa discussão que pretendo explorar.
Na passada terça, dia 15, no feriado da Nossa Senhora da Assunção, assisti à procissão que ocorreu em Vila do Porto. É notória a desmobilização de participantes e, até, de observadores. Olhando em volta, parecia-me claro que larga fatia dos que observavam eram emigrantes ou turistas. Trata-se de algo que tem acontecido progressivamente, sendo transversal a vários eventos. Quer se trate da energia mental sugada por ter um salário ao fim do mês, ou um posicionamento arcaico da Igreja, é uma evidência que deve gerar discussão – no entanto, não me parece que haja menos cristãos, da mesma forma que os abstencionistas têm pensamento político e os ausentes de palestras/tertúlias têm cérebro.
O que me traz aqui hoje é que, mesmo havendo uma desmobilização de participação nas procissões há sempre um segmento assíduo: os políticos. Ocupantes de cargos públicos, autárquicos ou regionais, vestem as melhores roupas para desfilarem na praça pública, tentando mostrar as boas pessoas que são. Este espetáculo acontece em todo o lado, sendo, talvez, o cúmulo açoriano desta evidência o Santo Cristo dos Milagres em Ponta Delgada, com a presença de figuras políticas regionais.
O problema que aqui trago é muito simples: o nosso Estado é laico. Os assuntos públicos não são moldados em função de qualquer religião, da mesma forma que qualquer cidadão tem o perfeito direito de escolher a sua religião, sendo proibida qualquer discriminação. Esta linha entre crença e coisa pública é importantíssima por ser um garante de liberdade e autonomia (do Estado e do indivíduo). Nos parágrafos anteriores afirmei eventos religiosos em vez de menções diretas ao catolicismo, justamente por acreditar na universalidade do que disse.
Alguns dirão que fará sentido os representantes do povo estarem presentes porque a maioria é católica. Este argumento o que faz é atacar pura e diretamente a laicidade. Não obstante, podemos pensar um pouco: não há uma maioria de portugueses a gostar do Tony Carreira, Bárbara Tinoco, Mariza, e, no entanto, não se vê uma enchente de políticos nos concertos? Além desta seletividade há uma outra: a representação é de todos os portugueses, 100%.
Numa outra resposta diz-se que os políticos estão lá como indivíduos, tentado contornar o problema: se isso fosse verdade, essas pessoas iriam onde estão todas as outras, não segmentadas. Além de todos os políticos irem juntos numa zona específica, eles organizam-se por organismo e hierarquia. Que coincidência!
Haja respeito pelas instituições!
Um sinónimo de uma democracia desenvolvida consiste no desenvolvimento do jornalismo. Uma comunicação social forte é a evidência do respeito pela liberdade de expressão, transparência e pluralidade. Não é, portanto, de espantar que reputadas organizações como a Amnistia Internacional, na defesa dos Direitos Humanos, e a Freedom House, na defesa da democracia, incluam nos seus relatórios sempre um parâmetro sobre a comunicação social.
O papel de um jornalista é informar a qualquer pessoa sobre o que o rodeia. O quê? Quem? Onde? Quando? Como? Porquê? São perguntas que devem ser respondidas sobre qualquer matéria: estejamos a falar de um escândalo financeiro ou de uma festa de Natal numa escola primária. Do âmbito nacional ao local, a preocupação dos órgãos de comunicação social é informar com o máximo de rigor.
Podemos adicionar aqui a questão da imparcialidade: a exigência de informação o mais factual possível, sem qualquer omissão invenção ou valoração. Esta questão não é vista de uma forma tão consensual como possa parecer à primeira vista, até porque é extremamente difícil alguém não deixar transparecer um bocado de si no trabalho que se escreve – idealmente, duas pessoas a escrever sobre a mesma coisa, por serem meticulosamente imparciais, deviam escrever o mesmo, algo que, claramente, não acontece. Não obstante, não é por toda esta discussão que quero entrar.
Quero desde logo desafiar o leitor a fazer uma pesquisa pelos nossos órgãos de comunicação social locais, dentro de cada ilha, de âmbito regional e nacional. De preferência, mais do que um de cada âmbito. Aquilo que encontramos são notícias de dois tipos: redigidas pela redação ou comunicados de entidades, aos quais a redação poderá dar uns retoques. Ou seja, jornalismo feito integralmente pela redação ou uma reprodução daquilo que lhe chega – neste último grupo incluem-se as notícias da LUSA. Aquilo que nos apercebemos é que à medida que nos aproximamos do âmbito local, os comunicados ganham força. O trabalho original fica cada vez mais condicionado a eventos que acontecem na comunidade. O jornalismo de investigação, aquele que tem por objeto chegar ao fundo das fontes – que vai além do comunicado, que o tenta verificar – é quase exclusivamente feito só a nível nacional.
Isto tem uma razão muito simples: quanto mais nos aproximamos do local menos dinheiro há, mais pequena é a redação. Assim sendo, a sobrevivência tem de ser através da informação que é fornecida pelos comunicados de imprensa e fontes jornalísticas como a LUSA. Na verdade, o próprio Estado financia a comunicação social, incluindo privada, em grande medida – algo imprescindível para a sua existência. Só nos Açores, o Governo Regional tem orçamentados 840000€ de apoio aos media. [1] Permitam-me uma nota sobre o apoio regional à comunicação social: da pesquisa que fiz, não encontrei as entidades a quem foram atribuídos apoios, informação até 2020 disponível.
Esta carência pelo jornalismo de investigação ao nível local e regional, algo discutido no I Congresso dos Jornalistas dos Açores [2], só acaba por ser colmatada politicamente pelo trabalho partidário. Lembro exemplo do Bloco sobre o Faria e Castro. [3] Mas não chega: precisamos de vozes sobre várias áreas em vários quadrantes, os olhos em abono da transparência.
[1] https://portal.azores.gov.pt/documents/36227/d2ea411f-db8e-260d-db78-08e24e61de3a
Estou desde junho para escrever este artigo. Nem sei bem o que o tem adiado, se bem que o medo de não conseguir ser eloquente deve fazer a sua parte. Temos uma ideia na cabeça, com a nossa linguagem, e colocá-la no papel fá-la perder parte do seu sentido. Qualquer das formas, mais vale tentar.
Outro dia, em junho, dei comigo a pedir uma Francesinha pré-feita de um supermercado para comer pelas 22 apesar de já ter jantado. Já não me lembro o porquê, mas que me deu um desconsolo, deu. A grande questão seria se o desconsolo era satisfeito, se valeria a pena gastar dinheiro num «luxo» desse tipo. Bem, tal como já desvendei, foi. Fiquei consolado.
Mas por pouco tempo: quando acabei a ceia e encontrei a paz, o meu cérebro tornou-se uma planície fértil ao remorso, mas, mais do que isso, à análise de toda a ação. Achei curioso como a única barreira que se me punha era o dinheiro. Eu não me preocupei com a distância do supermercado, o horário, ou até a minha saúde: pensei tão e somente no dinheiro. Estas palavras soam vazias e fúteis, mas imaginemos que estava a falar de leite, de cereais, de fruta. Eu safei-me na lotaria social (na família, no local, na época em que nasci), mas quantos não podem dizer o mesmo? Em Portugal, em 2021, o limiar do risco de pobreza estava nos 6608€ (rendimento anual), sendo que 42,5% da população está abaixo desse indicador. [1]
Se uma pessoa privilegiada (mesmo não abastada) como eu tem como preocupação o preço de algo, como não se sente quem vive com a corda ao pescoço? Dinheiro é uma invenção humana que nos tolda e limita psicologicamente. Contrariamente ao que podemos pensar, quem menos tem, menos vota.[2] Quando a preocupação é colocar comida em cima da mesa, quem vai ocupar um milímetro do seu cérebro a pensar em política? É assim que o sistema se mantém: alimentando a ansiedade de quem mais beneficiaria com uma mudança estrutural.
Grandes revoluções incontornáveis partiram da classe média. Porque é que a nossa classe média não se insurge contra o 1% que arrecadou 66% da riqueza produzida desde 2020 [3]? Para quem não passa fome, o capitalismo até parece um jogo: cada pessoa pode sonhar com acumular o máximo de dinheiro. Por viver nesta expectativa, nesta esperança de que o sistema o beneficie, mantém-no. Claro que é um jogo viciado onde só esporadicamente alguém tem sorte – este tema are muitas portas para discutir, como a relevância, e até existência, do mérito.
Além disso, apesar das nossas capacidades ainda muito por desvendar pela neurociência, nós temos limitações: uma delas é percebermos números com muitas casas. Ora, isto afeta-nos a capacidade de percecionarmos as desigualdades. Quando pensamos num milhão ou num milhar de milhão («billion») sabemos que o segundo é bastante maior que o primeiro. Mas em quanto? Pensemos assim: um milhão de segundos corresponde a 11 dias e meio, enquanto um milhar de milhão de segundos são 32 anos! Por vezes, as palavras são muito mais do que vemos de relance e usamo-las sem pensar no que verdadeiramente representam.
Por fim, gostava de deixar aqui a referência a um comparador de riqueza do World Inequality Database [4]. Ele serve para explorarmos em que posição nos encontramos economicamente relativamente ao panorama geral ao nível do país, região e globo.
Esta terça iniciam-se as Jornadas Mundiais da Juventude, evento católico que contará com a presença do Papa Francisco. As JMJ 2023 têm dado muito que falar desde o «Conseguimos, conseguimos, conseguimos, Portugal, Lisboa. Esperávamos, desejávamos, conseguimos. Vitória.» proferido por Marcelo Rebelo de Sousa em 2019. Segundo número do Expresso [1], publicados no passado domingo, conta-se com a presença de 1,2 milhões de peregrinos na capital portuguesa. De acordo com a mesma fonte, este evento deverá ter um custo de 160 milhões de euros, sendo metade suportado pela Igreja. Ou seja, 50% do financiamento deste evento advém de organismos públicos, a saber: 36 milhões pelo Governo, 35 milhões pela Câmara de Lisboa e 10 milhões pela de Loures.
Este investimento de 80 milhões de euros do dinheiro dos contribuintes será, provavelmente, o ponto mais sensível para a opinião pública, por diversas razões. Desde logo, tivemos a ação de Bordalo II [2], que estendeu um tapete de várias notas de 500€ gigantes, ao longo do palco onde o Papa realizará a missa. Esta ação pacífica, que não danificou qualquer preparativo, pautou pelo apelo simbólico às necessidades que o povo tem e são ignoradas. Olhe-se para o exemplo dos transportes: durante muito tempo tiveram os lisboetas de se aventurar em transportes públicos que eram latas de sardinhas, mas agora, com as JMJ, já haverá um reforço da operação – ou seja, havia meios, não havia interesse de se resolver o problema.
Outro ponto sensível será percebemos que Portugal é um Estado laico: não existe uma religião oficial, toda e qualquer pessoa é livre de expressar a sua fé. Como é possível então organismos públicos colocarem dinheiro num evento religioso? Uns diriam que, segundo os censos de 2021, 80% da população diz-se católica. Outros diriam que, na verdade, não se trata de apoiar um evento da Igreja, mas antes de um investimento que trará retorno económico para o país. A resposta à primeira parece-me muito tortuosa, não consigo encontrar grandes certezas que não tragam consequências perversas. Já a segunda questão, de cariz economicista, aquilo que afirma é não se olhar a meios para atingir os fins, o que, decerto, não fará qualquer sentido ser aplicado a um Estado.
O terceiro ponto consiste nas descobertas recentes sobre o encobrimento de abusos sexuais, como consta no relatório oficial apresentado este ano [3]. Uma problemática com uma grande carga emocional. Faltam muitas respostas, falta justiça ser feita. Como pode o governo ajudar uma instituição com isto em mãos a fazer um festival internacional?
Li outro dia um artigo do cantor de «Para os braços da minha mãe», Pedro Abrunhosa [4]. Ele faz-nos perceber que estas críticas não um ataque ao cristianismo, mas antes a quem o deturpa. Aconselho a leitura aos mais devotos que se ofenderam com Bordalo II.
No passado domingo ocorreram as legislativas espanholas. Estas eleições foram convocadas no final de meio, depois do resultado obtido nas locais (câmaras municipais e comunidades autónomas), tendo-se adiantado o sufrágio que só deveria ter ocorrido no final deste ano. Que se tenha em consideração que, desde 2019, Espanha é governada por uma coligação PSOE-Unidas Podemos, que junta no governo o seu «PS» e uma coligação de esquerda. O governo ao longo dos anos tem sofrido um enorme desgaste pelas discussões internas, pela definição da agenda governativa. O descontentamento do eleitorado tornou-se expressivo no dia 28 de maio deste ano, com pesadas derrotas para o centro-esquerda e esquerda espanholas nas locais.
Com um PP («PSD») a esfregar as mãos, sedento de poder, considerando possível um governo com a extrema-direita, a decisão de antecipar as eleições foi uma surpresa. No entanto, Sánchez já provou ser um tubarão político: desde 2014 que lidera o PSOE, tendo já enfrentado pesadas derrotas e, no entanto, conseguiu permanecer nas suas posições, sobrevivendo a primárias internas e, a partir de 2018, mantendo-se à tona como primeiro-ministro. Claramente algo teria na manga. Uma explicação, que provavelmente será a melhor, é que apesar da votação dos espanhóis nas locais, uma aliança com a extrema-direita não é bem vista. Como no decorrer das locais temos a formação de governos com acordos PP-VOX, as pessoas têm presente essa recusa, algo que Sánchez quis instrumentalizar (aliás, tal como António Costa fez em 2022). O propósito ainda passou melhor pela campanha extremada que o VOX protagonizou e da qual Feijóo não se conseguiu distanciar, nem tendo participar no debate dos «grandes» (PSOE, PP, VOX e Sumar). O maior risco poderia vir dos partidos independentistas, que afastariam a possibilidade de maioria absoluta – se bem que claramente, à partida, já se sabia ser inalcançável. O PSOE precisa de uns parceiros fortes: assim surge o Sumar, uma espécie de sucessão do Unidas Podemos, liderado pela vice-primeira-ministra e ministra do trabalho, Yolanda Diaz – que, aliás, é uma das figuras políticas que gera mais simpatia. Se no início podia não ser evidente, durante a campanha ficou evidente a coordenação entre PSOE e Sumar. A grande fraqueza do Sumar corresponde às suas disputas internas, tendo a coligação sido formalizada no último minuto possível, fruto das conversações com o Podemos.
Os resultados corresponderam à estratégia de Sánchez, que se vê com mais uma oportunidade de formar governo, algo que provavelmente não aconteceria no final do ano por já haver um maior distanciamento PP-VOX. Vemos um cenário bipolarizado, algo que fez esbater a importância parlamentar dos partidos nacionalistas e independentistas. PP acabou com 33% e PSOE com 32%, virtualmente um resultado equivalente. VOX e Sumar acabaram ambos com 12%. Para haver uma maioria são necessários 176 deputados: PP-VOX tiveram 169 e PSOE-Sumar 153. Como não é expectável PP-VOX conseguirem aliados nacionalistas e independentistas, o caminho parece livre para Sánchez e os seus parceiros. O problema é que, tudo somado, fica a faltar uma só peça: o Junts, o partido do Puigdmont, centro-direita independentista catalã. Este partido é fulcral, no entanto já afirmar estar indisponível para apoiar a investidura. Se, pelo menos, não se abstiver, Espanha provavelmente ouvirá falar em eleições de novo em 6 meses.
Destas eleições fica o repto à união das esquerdas e a repulsa à presença de um partido com apoiantes a fazer a saudação nazi no governo. Fica também o riso de Ayuso, pronta a destronar Feijóo.
No outro dia, fui convidado a responder a uma entrevista deste jornal sobre drogas sintéticas. Penso fazer sentido tentar explorar um pouco melhor as ideias enunciadas.
A visibilidade é fundamental para resolver problemas, mas muitas vezes as mudanças são apenas superficiais, sem abordar as raízes do problema. Isso é um grande desafio nos Açores, e além, devido à falta de reforma estrutural. Essa falta de mudança ocorre tanto aqui como no país inteiro, porque exigiria uma transformação nas bases do sistema, enfrentando, efetivamente, as desigualdades impostas por uma elite. Não se trata de alcançar uma igualdade absoluta de circunstâncias, mas de humanizar as desigualdades, garantindo condições de vida satisfatórias para todos e eliminando a exploração no trabalho e na discriminação de identidade. Esse projeto não tem como objetivo dizimar as elites que nos governam, mas sim esvaziar o seu poder. A problemática da droga, por várias vertentes (como económica ou moral), convém a um conjunto de oligarcas. Felizmente, temos acesso ao voto e, se desejarmos, podemos confrontar essas oligarquias e exigir que o poder político implemente essas mudanças. É necessário força e participação para enfrentar inimigos poderosos.
O consumo de drogas é generalizado e afeta diversos grupos demográficos. No caso das drogas sintéticas, devido ao seu custo mais baixo, o grupo mais afetado, como já foi estudado em outros lugares, provavelmente são pessoas com menos recursos económicos que as usam para satisfazer a sua dependência. Ela faz com que ignorem os danos causados por essas drogas, que, na verdade, são misturas com lixívia, combustível, inseticidas, entre outros.
Uruguai e Canadá são exemplos de países que legalizaram as drogas. Apesar de ser uma proposta contraintuitiva, o seu sucesso é evidente. Ao existir uma alternativa legal, as pessoas podem consumir produtos regulamentados e controlados pelo Estado. A redução do estigma em relação aos utilizadores permite eliminar tabus e discutir abertamente o assunto, seja em ambientes hospitalares ou em casa.
Se proibíssemos o álcool e o tabaco, o que aconteceria? Seria melhor termos pessoas com graves problemas devido ao consumo de uma bebida alcoólica que contém lixívia, sem nenhum controlo? Vamos deixar o moralismo de lado e focar em resolver o problema.
É importante lembrar que a legalização das drogas não significa uma promoção do consumo indiscriminado, mas sim uma abordagem realista para lidar com uma questão complexa. Ao legalizar e regular a venda dessas substâncias, é possível estabelecer limites de idade, fornecer educação sobre os riscos e oferecer tratamento e suporte adequados aos consumidores. Além disso, a legalização permite redirecionar recursos das atividades criminosas relacionadas ao tráfico de drogas para programas de prevenção e reabilitação.
No entanto, é importante ressaltar que a legalização por si só não resolve todos os problemas. É necessário um esforço conjunto para combater as causas subjacentes ao consumo de drogas, como a falta de oportunidades, a exclusão social e a falta de acesso a cuidados de saúde adequados. Isso requer investimentos em educação, programas de reintegração social e políticas públicas abrangentes que abordem as questões sociais e económicas que levam ao consumo de drogas.
Para lidar com os problemas existentes e alcançar soluções efetivas, é fundamental ter visibilidade e coragem para enfrentar os interesses estabelecidos.
No dia 26 de julho celebra-se o Dia dos Avós. Hoje apetece-me antecipar essa homenagem falando sobre aquela que me parece ser a sua importância.
Os avós são figuras especiais nas nossas vidas, dotadas de um afeto único que transcende gerações. Eles desempenham um papel crucial na nossa formação, oferecendo amor incondicional, experiência de vida e uma visão de mundo enriquecida pelo passado. Muitas vezes os vemos como heróis, como modelos, mas eles não devem ser vistos como doutrinadores, antes como mananciais de informação.
Os nossos avós são frequentemente associados a um carinho e amor profundos. Eles conseguem distanciar-se do papel policial dos pais e estabelecer uma relação eminentemente acolhedora e descontraída com seus netos. Essa atmosfera calorosa proporciona um ambiente para o desenvolvimento emocional das crianças, fortalecendo os laços familiares, bem como a empatia.
Os avós podem ser vistos como figuras mais austeras, com expectativas em relação aos netos, desejando que sigam seus valores e princípios. Por vezes questionamo-nos se conseguimos vir a satisfazer os nossos avós, afinal, o mundo muda e as verdades de antes não são as de agora. Prefiro considerar, como em geral, que aquilo que alguém espera de nós é o nosso melhor, à nossa forma.
Viver num meio pequeno, semiurbano e rural, como Santa Maria, oferece uma etnografia rica em História e pobre nos materiais. Os avós tornam-se a nossa conexão com o passado, fornecendo relatos de como a vida era antes, especialmente dentro desse ambiente específico. As suas histórias levam-nos a uma viagem no tempo, permitindo-nos compreender melhor as nossas raízes e a evolução do mundo ao nosso redor.
A minha avó sempre me disse que nasci num berço de ouro. A sua experiência de dificuldades encaradas como banalidades, que, entretanto, foram sempre ultrapassadas, normalmente, tecnologicamente, levam-na a ser capaz de reconhecer essa mesma evolução por uma questão de continuidade temporal. Além do amor transmitido, os avós mostram-nos que o mundo está em constante mudança e evolução. Nada pode ser dado como garantido, tanto para o bem quanto para o mal. Sejamos capazes de fazer com essa informação o que melhor satisfizer a nossa consciência.
Aquilo que não devemos esquecer, até por respeito às vivências dos nossos avós, é o privilégio em que grande parte de nós se encontra. Mesmo parte dos menos afortunados de hoje se encontra numa melhor posição do que o mediano de ontem. Obviamente que esta conversa é muito mais complexa, em outras oportunidades já pude falar sobre ela, inclusive de um ponto de vista identitarista.
Uma das coisas mais fascinantes sobre os avós é a perceção de que o tempo histórico humano não é tão distante como imaginamos. A minha avó tem perfeitas memórias de pessoas que viveram a maior parte do seu tempo no século XIX. Claro que o tempo é algo que faz confusão aos nossos cérebros e que o tempo histórico é imenso, mas a História considerada contemporânea não está assim tão distante.
Os avós são uma verdadeira dádiva. A sua presença afetuosa e a sua experiência são oportunidades para se formarem boas memórias. Dos meus avós guardo valores como humildade e empatia. Nunca subestimemos o papel dos avós nas nossas vidas, eles são verdadeiros tesouros que devemos valorizar e honrar.
Quando pensamos na Grécia Antiga, no âmbito da Filosofia, são os nomes de Sócrates, Platão e Aristóteles que nos vêm à cabeça. A verdade é que esse período é muito mais rico, vai muito além das doutrinas destes brilhantes pensadores. Aquelas contemporâneas e procedentes à visão aristotélica são, até, guias sobre como pode um indivíduo viver a sua vida em tempos de crise, incerteza e relatividade.
Aquela que inicialmente mais me impactou foi a escola cética: não sendo uma doutrina, opõe-se a qualquer doutrina. Ou seja, num mundo com tantas verdades, onde cada um tenta reclamar a sua, onde não temos meios infalíveis de conhecer a verdade, passamos pela vida como quem vai contemplando as aparências. Não nos importa o que acontece, nem as respostas, porque tudo pode não passar de um sonho. Somos obrigados a guiar-nos pelas indicações dos sentidos, necessidades do corpo e as tradições e regras sociais para nos conseguirmos orientar nesta coisa que chamamos de realidade. A felicidade é assim atingida por rejeitarmos qualquer verdade. Conta-se que o fundador deste pensamento preferiu atirar-se a um rio a responder às questões que lhe estavam a fazer. Esta escola é muito interessante pela vertente aporética, por serem mestres na arte de encontrar erros na teoria do outro, por conseguirem colocar até os alicerces mais básicos em causa.
A linha que venceu historicamente, pela sua duração, foi o estoicismo. Nesta linha de pensamento, aquilo que nos compete é exercer o caminho que o Cosmos nos reservou. Devemos ser mestres da apatia, sermos indiferentes ao que nos acontece e agir como é suposto pela ordem natural. Conformemo-nos, que somos todos irmãos deste mundo a cumprir as nossas vidas.
No entanto, aquela que quero aqui trazer é uma outra: a escola epicurista. De início não dei muito valor ao que aprendia sobre eles, mas, um dia, enquanto regressava de umas explicações e me preparava para ir jantar na cantina, debaixo de calor e numa subida, ocorreu-me um raciocínio claramente epicurista e, desde aí, que me parece que, afinal, o seu pensamento faz mais sentido do que esperava.
Tal como o estoicismo, e ao contrário do ceticismo, trata-se de uma doutrina, mas com pouco desenvolvimento ao longo do tempo, mantendo-se sempre muito fiel ao seu fundador, Epicuro. O pensador olhava para o mundo e via o sofrimento como um grande mal que inquieta as pessoas. Ele queria atingir a aponia, a ausência de sofrimento. Para ele, isso bastava para lhe conferir a felicidade que os filósofos gregos tanto ambicionavam. Mas então o que é que provoca o sofrimento nas pessoas? Além dos obstáculos quotidianos, há o medo: medo da morte e dos deuses. Esta última questão religiosa talvez agora não nos faça muito sentido, mas realça a mestria do pensamento de Epicuro.
Para afastar esses dois medos, Epicuro elabora uma teoria sobre a natureza. Como conclusões dessa teoria temos que a morte é a dissipação dos átomos da alma, pelo que, sendo esta a responsável pelas sensações, é impossível a um ser sentir a própria morte, nem sequer havendo lugar à existência de vida após a morte. Também remete os deuses para um território entre mundos, ou seja, alheio a nós: eles são perfeitos, não precisam de nós, nem de se divertir connosco. Considero interessante afirmar-se que mais nenhuma questão natural importa, devendo só ser necessário encontrar uma resposta. Quando há mais, nem vale a pena escolher. A preocupação de Epicuro é só afastar estes medos, sendo a Física só um meio.
Então, chegamos ao famoso tetrafármaco, o remédio para vivermos sem medos: não sentimos a morte, os deuses não se importam connosco, é fácil atingir prazer e todo o sofrimento é finito.
Facilmente conseguimos atingir o prazer, satisfazendo as nossas necessidades básicas, mais nada sendo preciso. Há um hedonismo muito moderado aqui presente.
O ideal do ser humano é viver escondido. Mas seria mesmo possível viver assim, sem ambição? Acredito que só falta um elemento da filosofia de Epicuro para responder corretamente: a amizade.
Recentemente tive a oportunidade de participar numa formação da Amnistia Internacional Portugal. No fim de semana que passei em Aveiro, aprendi sobre o funcionamento interno daquela organização histórica, pela voz dos próprios dirigentes. Aquilo que vi, foi um modelo para uma grande parte do associativismo – se ele fosse levado a sério por quem nos governa.
Antes de mais, penso ser necessário expor o que é isto da Amnistia Internacional, para se compreender a razão da sua organização. A Amnistia surgiu no início dos anos 60, pela mão de um advogado britânico, como um movimento que enviava, em massa, cartas a regimes para libertarem presos políticos – corre a história, até suportada no site internacional, que o movimento começou com um texto de opinião desse advogado sobre dois jovens portugueses que foram presos por fazerem um brinde à liberdade. Em pouco tempo, essa maratona de cartas passou a ser feita também por ativistas de outros países, internacionalizando-se esse movimento de amnistia dos prisioneiros de consciência – assim chegamos ao nome Amnistia Internacional. Além desta temática, adotaram também o combate à tortura e à pena de morte. A Amnistia tornou-se um bastião da defesa dos Direitos Humanos, contando com 10 milhões de ativistas, atualmente, e incontáveis casos de sucesso no seu histórico.
A grande força da Amnistia é a sua investigação. A organização é vista como uma entidade imparcial, com especialistas profissionalizados em investigar as denúncias que, de todo o mundo, chegam a dar conta de abusos e problemas. Ainda hoje se mantem a maratona de cartas, escolhendo-se anualmente vários casos globais emblemáticos de indivíduos perseguidos pelo seu pensamento, a par de muitas outras iniciativas. Claro que parte crucial do processo é o financiamento vir de indivíduos e não de grandes empresas, Estados,…
Em cada país, a organização tem uma secção que se rege como associação, segundo as leis desse país. Nós temos a Amnistia Internacional Portugal (amnistia.pt). Tanto a organização internacional como as secções nacionais são estruturadas com a mesma lógica: são governadas por voluntários e geridas por profissionais. Ou seja, as direções são eleitas de entre todos os membros do movimento e têm como função o estabelecimento da estratégia do movimento. É a implementação desse plano estratégico que, sendo uma atividade de gestão, é exercida por profissionais. Os voluntários colocam os objetivos e os profissionais cumprem-nos. O expoente deste sistema é a figura do diretor-executivo: uma personalidade contratada que dá a cara, que serve como porta-voz. É o responsável por toda a atividade, por traçar um caminho para se atingir os objetivos e gerir a equipa.
Ora, a verdade é que isto não é assim tão atípico, muito pelo contrário: as associações, com fundos para isso, contratam os seus próprios profissionais para prosseguirem com a sua atividade. Aquilo que me parece paradigmático é a seriedade com que esta fronteira é estabelecida. Reconhece-se que a governança tem de ser democrática e isenta, mas que esses voluntários têm tempo reduzido, devendo a concretização dos planos ser feita pelos técnicos, que vão atualizando a direção sobre os avanços. Reconhecer que as pessoas têm vida além da associação e que uma associação precisa de pessoas a tempo inteiro, sem comprometer a sua democraticidade.
São precisos recursos financeiros para suportar os custos com recursos humanos, mas não basta abrir os cordões: as próprias direções têm de trabalhar na sua mentalidade e dar liberdade aos funcionários, dentro do necessário.
Claro que este esquema funciona bem em associações com uma veia mais tecnocrática, sem uma marcada vertente ideológica. Mesmo a Amnistia, tendo trabalho político, é uma entidade que só advoga o bom senso.
Na semana passada tentei falar um pouco da questão da parentalidade, tendo em mente a enorme diversidade de famílias que existem. Fiquei na questão que me parece particularmente interessante: o momento em que a parentalidade enquanto exercício quotidiano se esbate, em que o filho tem a sua independência estudando ou trabalhando noutro local. O que acontece quando o filho sai do ninho?
Estou em crer que a preocupação de um pai e de uma mãe que, não só nunca se anula, como se mantém relativamente constante independentemente da idade do filho. Os pais veem-se como uma rede de segurança. A diferença encontra-se na participação dos progenitores na vida dos filhos: em grande parte a preocupação é amortecida pelo acompanhamento diário, pela presença, enquanto quando se sai perde-se essa ligação tão direta.
É um marco significativo tanto para os jovens quanto para os pais, repleto de desafios e emoções contraditórias. Enquanto os filhos anseiam pela liberdade e autossuficiência, os pais sentem uma mistura de orgulho, preocupação e a necessidade de manter sua presença protetora. Nesse momento delicado, a comunicação se torna crucial, embora nem sempre seja fácil alcançar a compreensão mútua.
Os filhos, com o coração cheio de sonhos e expectativas, enfrentam o mundo com entusiasmo e determinação. Procuram conquistar a sua independência, construir as suas vidas e trilhar os seus próprios caminhos. A aventura de morar longe dos pais, assumir responsabilidades e tomar decisões importantes é emocionante, mas também traz consigo uma série de desafios. A falta de experiência e a pressão para se adaptarem a uma nova realidade podem gerar ansiedade e incertezas. No entanto, essa jornada de autodescoberta é fundamental para o crescimento pessoal e a construção de uma identidade sólida.
Por outro lado, os pais enfrentam um turbilhão de emoções contraditórias. Sentem orgulho ao verem seus filhos prontos para enfrentar o mundo, mas também são invadidos pela preocupação e o desejo de protegê-los de qualquer perigo ou dificuldade. A separação física traz consigo um sentimento de perda, pois os pais precisam aprender a lidar com a ausência quotidiana dos seus filhos. No entanto, eles reconhecem a importância de permitir que eles sigam seu próprio caminho, confiando nas bases sólidas que foram transmitidas ao longo dos anos.
Nesse momento de transição, a comunicação entre pais e filhos é essencial, mas nem sempre é fácil. As expectativas podem divergir, e cada parte pode ter visões distintas sobre a melhor forma de enfrentar os desafios. Os filhos podem desejar liberdade absoluta e independência total, enquanto os pais podem manifestar preocupações e sugerir cautela. Essas perspetivas opostas podem gerar tensões e mal-entendidos.
É importante que ambas as partes compreendam as intenções benevolentes umas das outras. Os filhos devem reconhecer que os pais agem com base no amor e na preocupação genuína, enquanto os pais precisam entender que os seus filhos estão numa fase crucial de desenvolvimento pessoal. A empatia, o respeito e a abertura ao diálogo são fundamentais para superar os desafios comunicativos.
Os pais podem encontrar maneiras de manter sua presença na vida dos filhos, mesmo que fisicamente distantes. Podem oferecer apoio emocional, orientação e encorajamento, estando disponíveis para ouvir e compartilhar suas experiências. Ao mesmo tempo, os filhos devem expressar seus sentimentos, expectativas e planos com sinceridade, envolvendo os pais no seu caminho e garantindo que eles se sintam valorizados e parte do processo de transição.
A parentalidade é uma atividade essencial para a nossa comunidade. Naturalmente, temos a família como a unidade básica, a estrutura social mais radical da comunidade, abaixo disso, só indivíduos. É nessa estrutura que se dá a socialização primária, ainda antes de haver um Estado a educar através da escolaridade obrigatória. Grande parte do que somos radica do nosso contexto familiar, quer seja pela ordem genética, quer seja pela vertente cultural de socialização. Não obstante, o exercício da parentalidade, algo tão basilar e quotidiano, é motivo de escorrer palavras pelas secções de auto-ajuda. Os pais têm orgulho da sua forma de educar, consideram-na sempre a melhor possível, levando a que haja tantas formas de educar uma criança como pais no mundo. Fica evidente que teoricamente a parentalidade é um conceito muito bem definido socialmente, mas na prática há uma enorme diversidade e até conflito de posições.
Antes de tentar explorar melhor o papel dos pais, notar que uso esse conceito para falar de quem acompanha quotidianamente o crescimento da criança. São várias as alterações que temos vindo a ver com o objetivo de alargar os vários tipos de família (alterações legais, uma vez que a família tem um reflexo jurídico, já que desde sempre existiram famílias que não se enquadram na definição tradicional). Talvez o primeiro grande passo no alargamento seja a adoção, ou seja, a família não ter de ter uma relação genética. Outros passos são o reconhecimento de famílias monoparentais, mudando os números. Também podemos adicionar aqui a possibilidade de casais homossexuais constituírem família, entre outras circunstâncias. O ponto é que a parentalidade varia não só na forma, como nos agentes, havendo uma tendência progressiva para ir alargando as possibilidades de se constituir família - numa ótica de inclusão e não de substituição.
Então, qual o papel dos pais? Preparar para o mundo. Suportar os filhos até estes conseguirem assegurar a sua independência. O mundo natural parece reger-se assim e nós, com as muitas variações e modificações históricas pela qualidade de vida, parecemos manter. Numa primeira fase, educa-se a criança a comportar-se em sociedade. Na seguinte, serve-se de ninho na aprendizagem sobre o mundo. Depois, são uma bengala no lançamento para o mundo.
Os pais são, portanto, uma figura de referência. Por vezes distanciamo-nos do seu exemplo, noutras aproximamo-nos. Com base nos seus princípios e valores, veem essa dinâmica dos filhos com melhores ou piores olhos. O objetivo será ver o filho tornar-se uma pessoa que age com base nesses valores. De forma geral, e apesar da subjetividade, esse objetivo é de ser decente. De aproveitar as oportunidades que foram dadas com dignidade e respeito. O lugar do filho é fazer o melhor que pode com os recursos que lhe são facultados - recursos como educação, alimentação, alojamento, livros, brinquedos, formação musical, desportiva,... Tendo em mente que não faz sentido insistir em recursos não essenciais que não correspondem ao interesse da criança.
Talvez uma das questões mais prementes seja a comunicação: sobre que temas versam as conversas entre pais e filhos? Com o tempo, chegamos a um ponto em que sabemos as conversas a evitar, não por mal, mas por desinteresse ou evitar conflito. Por uma questão de harmonia, cada família tem os seus próprios rituais.
Isto leva-nos ao momento em que se inicia a independência: onde há uma reformulação na parentalidade. Vários pais adotam estratégias diferentes, sendo o objetivo o de apoiar o filho e manter a sua presença, até os pais serem os que precisam do apoio. Para a semana retomo o raciocínio.
Podia vir aqui falar de muitas coisas. Podia falar do ridículo que é um governo abrir exceções em questões de proteção ambiental afirmando a primazia das tradições culturais – constituindo um perigoso precedente; podia falar na invenção das viagens no tempo que António Ventura anunciou quando disse «capacidade de ir ao futuro ver como está a ocorrer e voltar ao presente»; podia falar de tudo e mais alguma coisa, mas hoje falo da Bárbara Tinoco. Só agora ouvi as músicas que a artista lançou há um mês (do álbum Bichinho) e estou viciado.
Manifesto que já antes deste álbum gostava da sonoridade de Tinoco. O seu ultrarromantismo lírico e melódico seria capaz de que fazer corar Almeida Garrett. No entanto aquilo que pretendo aqui trazer é outra dimensão: o impacto social da música que é ouvida por milhões. Bárbara Tinoco é uma estrela em ascensão que enche arenas e, mesmo ainda estando no início da carreira, decidiu abrir caminho na denúncia de problemáticas sociais na sua música. Os seus versos são uma crónica das suas experiências, tendo afastado receios de mostrar uma realidade politizável. Na música «Linha de Sintra» podemos ouvir «E homem do metro / A tocar-se a olhar pra mim», «Aprendi a rezar / Com medo de ser violada», «Só não tenho fé / Porque amar não é pecado / Acho estranho que seja com isso / Que o Papa está preocupado» e até um ético «Tive um namorado / Em cada canto da linha / Voltava sempre pra casa sozinha». Estes versos expõem uma sociedade que se encosta no conforto do seu patriarcado. Bárbara Tinoco, mantendo a sua identidade musical, fazendo uso do seu talento com as palavras, a sua naturalidade e fluidez, leva aos ouvidos dos fãs este desabafo destemido.
Aquilo que me parece é que Bárbara Tinoco se juntou a uma nova vaga de artistas, que reinventaram a música de intervenção portuguesa. Uma geração que, pelo pop, tendo um grande público, não tem medo de se expressar sobre assuntos que podem ser vistos como tendo uma dimensão política.
Ivandro foi o artista português mais ouvido em Portugal em 2022 no Spotify. Esta ano participou no Festival da Canção com «Povo», uma música onde afirma «Comprar uma casa e construir um lar, / De onde venho o povo ainda sofre / Mas todos sonham encontrar essa paz». Temos um artista dos tops a abordar racismo, colonialismo e pobreza. Isto tem poder. Anteriormente já tivemos Milhanas, com Agir, e Fado Bicha, entre outros, a trazer temas importantíssimos ao Festival. O segundo classificado deste ano, Edmundo, termina a sua música com o verso «As luzes não me deixam ver / Se é uma festa ou uma luta de poder».
Este movimento não começou agora, já tendo, por exemplo, na Capicua uma grande representante: «Eu combato o patriarcado / É esse o meu predicado / E só fica prejudicado / Quem fica do lado errado». Carolina Deslandes tem sido uma voz muito presente nos media para falar de igualdade de género, saúde mental, entre outros assuntos. Sofia Tavares também tem usado da sua exposição, principalmente nas redes sociais, para fazer passar esse tipo de mensagens.
Cada vez mais vemos artistas a permitirem-se expressar na sua música e além dela. Isto não tem de ser visto como mais ou menos ético, mas de certo que é um importantíssimo instrumento na consciencialização social.
Uma boa música não tem de ser vazia de conteúdo que não sejam dimensões amorosas – e mesmo através dessas se podem abordar muitas temáticas sociais.
Em jeito de conclusão, dizer que, talvez, a maior contribuição de Bárbara Tinoco, o maior fruto do seu romantismo, seja ao nível lexical: a introdução do verbo «utopiar».
Outro dia estava a tomar banho e a pensar no conforto que é estar numa banheira a lavar-me. Uma esmagadora maioria de nós já têm esta comodidade, algo que em meados do século passado os meus avós não achavam falta. Temos pessoas, hoje ainda, que gostariam muito de ter uma divisão da casa com acesso à água e onde existisse uma banheira.
O meu foco não é tanto o privilégio, não obstante, penso que é sempre pertinente referi-lo para termos consciência de como a nossa vida é incomparavelmente melhor ao que já foi no passado, mas lembrando que muita gente, na nossa e noutras geografias, espera ainda por sentir grande parte dessas melhorias - que se note que as alterações climáticas constituem, provavelmente, o pior momento na História em que esta questão do progresso deverá ser colocada em causa, ainda neste século.
O que me importa aqui é mesmo a banheira. Ou melhor, a evolução que ela representa. De um alguidar com água aquecida num fogão, uma realidade muito comum a uma geração de distância, passamos a um espaço na casa de banho onde podemos, felizes da vida, molhar tudo o que está em volta com a precisa temperatura que queremos. Tendo uma pequena evolução em mente, o instinto é perguntar: e depois das banheiras? O que vão inventar que melhorará as condições em que nos lavamos, cumprindo a nossa higiene?
O interesse nesta minha pergunta aparece quando me apercebo que não consigo conceber uma melhoria, mas ela provavelmente, existe. Isto aplica-se a tantos mais exemplos, sendo, por exemplo, por esta razão que as atividades humanas tendem à especialização. O futuro reserva-nos um conjunto de "mordomias" que hoje até se nos podem parecer desnecessárias.
E é aqui que me aparece um segundo ponto: "A máquina do tempo" de H. G. Wells. Neste livro inaugural das viagens no tempo, até mais do que a questão de desigualdade, de divisão social, me parece muito interessante a própria forma como a evolução humana é perspectivada ficcionalmente a uma distância de oitocentos mil anos.
Basicamente o argumento será: em algum ponto, os poderosos decidiram reivindicar a si a superfície terrestre, renegando os trabalhadores para o subsolo. Como os da superfície tinham o que precisavam, explorando os do subsolo, e não tinham qualquer contacto com as técnicas como as suas necessidades eram satisfeitas. Isto levou a aqueles que detinham o poder pudessem viver felizes e em harmonia, apesar de terem visto o seu físico a perder força e a sua inteligência a mingar, por não precisarem de nenhuma destas faculdades.
Ou seja, ao mesmo tempo que vivemos numa sociedade que olha com entusiasmo para novos modelos de todo o tipo de equipamentos, fascinada pela tecnologia, há também uma tendência para não conseguirmos interpretar a realidade no seu todo. A facilidade de conseguirmos ter algo parece constituir um bem em si mesmo, sendo desejável, até, nem complicar - no limite, os outros complicam por nós e partilham os frutos.
Em concreto, num mundo com tanta informação é uma urgência a educação providenciar as várias literacias, que sirvam de: ferramenta pela busca de informação fidedigna, bem como para desconstruir qualquer informação que nos aparecer, de forma a se conseguir a informação mais correta possível. Estas literacias relacionam-se, por exemplo, num combate a fake news, mas também à leitura de rótulos nos mantimentos, ou a bases de conhecimento científico.
Mais do que qualquer paternalismo, é dar o poder às pessoas para conseguirem sair das redes de manipulação em que são constantemente imbuídas.
É isto que as banheiras fazem.
Não são raras as vezes em que nos deparamos com situações frustrantes no nosso quotidiano. Ainda há umas semanas estava a tentar ter o reembolso, enquanto estudante deslocado, sobre uma viagem da SATA num balcão dos CTT. Estava eu com toda a confiança a mostrar os documentos normais, quando a funcionária afirma que, por ter alterado os voos, tinha de ter uma declaração especial. Esta alteração ocorreu, porque o avião se atrasou e tive de pernoitar em escala; como não foi decisão minha e a rota se manteve, nem achei ser preciso nada a mais. Logo de seguida, fiquei trinta minutos, praticamente certos, à espera que fosse atendido no call center da SATA para conseguir o que precisava e voltar aos CTT. Ao fim de quinze minutos tinha o tão desejo papel a sair para o meu email – chegaria passado umas horas. O resto da história? Tentei já por três vezes ir aos CTT, mas estavam sempre cheios. Em breve hei de conseguir.
O que me importa retirar desta história é o impulso que tive em dois momentos: a vontade de reclamar com a funcionária e com o funcionário, quando a primeira me disse que não podia receber o reembolso e com o segundo depois de ter estado meia hora à espera de ser atendido (o suficiente para passar em todos os corredores do centro comercial Brasília, na Boavista - Porto). Apesar do forte sentimento, consegui controlar-me: a senhora só estava a seguir um protocolo que nem foi ela que fez e o senhor devia estar aflito com uma série de chamadas sempre a chegar e pouca gente para atender. Ao fim e ao cabo, nenhum daqueles funcionários tem qualquer interesse em dificultar-me a vida, cumprem regras. O meu problema não era com eles, mas com um sistema burocrático que me faz perder horas para conseguir um direito e que promove a exploração, valorizando o lucro acima de qualquer preocupação com os recursos humanos. A frustração com o sistema leva a que se queira descarregar em pessoas – nas erradas.
Muito provavelmente aqueles funcionários nem me queriam estar a aturar, por já estarem há horas a aturar pessoas que vêm com uns quantos problemas, aos quais nem sempre é possível dar resposta. Há dias em que podemos não estar a 100% e temos de ir trabalhar, levando com o que nos aparecer à frente. Referente à mesma viagem, enquanto passava na segurança do aeroporto, um homem lembrou-se de resmungar com os seguranças à minha frente. Era um domingo de tarde, havia duas passadeiras de segurança, mas só uma funcionava e com três ou quatro funcionários. A fila prosseguia lentamente. O homem estava a pegar nos seus pertences mesmo junto da saída da máquina com radiação, apesar da mesa metálica imediatamente no fim da passadeira estar livre. Por isso mesmo, uma funcionária pediu gentilmente para o senhor avançar. Eu apreciei particularmente o gesto, por ser o passageiro imediatamente a seguir. Eis senão quando o homem começa a insinuar que está a ser tratado como « um porco», a apressá-lo quando a culpa era deles por não abrirem outra passadeira. Os ânimos exaltaram-se, tendo-se dissipado quando o senhor saiu. Ora vejamos: aquele número de funcionários era impraticável para ter duas passadeiras, aquelas pessoas estavam na tarde de um domingo de Páscoa enfiadas no aeroporto a trabalhar. Porque carga de água o senhor acha que é tão importante ao ponto de os trabalhadores pensarem «Ah! Vamos fazer de tudo para chateá-lo, porque efetivamente não temos mais nada que fazer».
Estou convencido que a maior parte dos conflitos advêm da incompreensão. Tentemos ter empatia, respirar, e perguntar o porquê de as coisas serem como são. O que precisamos é de política, não de estereótipos e insultos a quem trabalha – até porque nós também trabalhamos.
Ao vivermos a nossa vida deparamo-nos com diversos aspetos que geram discórdia, onde aquela que é a nossa visão não corresponde à visão que outros têm. Nesses momentos cada uma das nossas personalidades acaba por ter respostas diferentes. Mas e se tudo forem factos? Vamos por partes.
Na escola, em Filosofia, aprendemos que existem dois tipos de juízos, isto é, dois tipos de frases declarativas: juízos de facto e juízos de valor. Os de facto são aqueles que podem ser verdadeiros ou falsos, como «Esta mesa é castanha», ou «Os gatos têm bigodes», ou «Está a chover». Por outro lado, juízos de valor não podem ser vistos como verdadeiros ou falsos por dependerem dos princípios, valores, de cada pessoa, como «Esta mesa é mesmo bonita», ou «O Cristianismo é a melhor religião». Desta forma, temos juízos que descrevem a realidade, de facto, e aqueles que a avaliam, de valor. Por esta razão é que só se fala de verdade/falsidade naqueles de facto.
O meio por excelência de lidar com a verdade é por via da ciência. A sua proeminência dá-se por utilizar um método que permite retirar conclusões sofisticadas e rigorosas. Há lugar para uma observação atenta, uma tentativa de interpretação que nos leva a crer numa teoria. Pensamos: se esta teoria estiver certa, o que devemos observar se fizermos uma experiência com estas condições controladas? Com a verificação do previsto e a repetição do procedimento várias vezes e por várias pessoas, chega-se ao conhecimento científico. Isto, de uma forma muito linear e simplista, penso que resume no essencial aquilo que transversalmente é feito.
Quando se pensa em ciência pensamos em dois grandes grupos: as naturais e exatas por um lado e as sociais por outro. Estas últimas muitas vezes colocadas em questão por os resultados terem uma margem de erro maior, dependendo muito da imprevisibilidade humana. O meu primeiro ponto é de que além destas, temos muitas outras, temos todas as especializações que existem. Cada área tem princípios, conhecimentos associados, em constante melhoramento metodológico. Não será um enólogo uma potencial fonte de conhecimento científico? Talvez se torne mais complicado fazer esta análise quando falamos de arte. Vejamos essa questão em específico.
Quando alguém afirma uma opinião sobre uma determinada obra, facilmente podemos afirmar «gostos não se discutem» e avançar com a nossa vida. Afinal, como podem duas pessoas diferentes considerar as mesmas coisas belas? Por outro lado, lembremo-nos que ao longo da História o que não faltou e falta são reconhecidos cientistas com divergências nas respetivas áreas de estudo. Porque relativizamos essa questão? Porque consideramos que a teoria adotada é a que melhor se aproxima à realidade. No caso da arte, a aproximação que nós ambicionaríamos seria ao belo, o que não nos parece propriamente ajudar. Contudo, podemos dar um passo atrás e pensar sobre o que será uma obra de qualidade e nesse caso já podemos discutir a possibilidade dos artistas e de quem estuda a arte de ter uma palavra, sendo especialistas no que concerne às técnicas e até evolução desse campo. Mesmo na arte, conseguimos ter especialistas que avançam com conhecimento científico.
Qual é o nosso problema com o belo? A definição. Então se alguém tentar definir belo, nem que seja com um conjunto de casos particulares, já seremos capazes de perceber, ou melhor, prever, o que essa pessoa considerará belo, apesar da nossa noção ser diferente.
O propósito deste amontoado de palavras é justamente frisar: o importante quando falamos é que significado damos às palavras que usamos.
Um assunto que de vez em quando regressa à agenda mediática corresponde à regionalização: a constituição de zonas no continente com um estatuto político-administrativo, à semelhança das regiões autónomas. Subunidades – como Norte, Centro e Sul – que teriam estruturas eleitas. Muitas vezes se aponta a regionalização como forma de desenvolvimento das comunidades numa ótica de proximidade, no entanto também há quem argumente que esta questão poderá ser resolvida sem serem precisas novas formas de poder: através da descentralização, adoção de medidas que visam uma distribuição do poder central por vários locais. Este tema surgiu-me recentemente pela mão de dois eventos distintos: uma discussão na cantina com um liberal e uma aula com um sociólogo reputado. Como se pode ver, seria impensável não ficar a remoer no assunto.
Desde logo, olhar para o que existe: o mais perto de regionalização que temos são as regiões autónomas e o mais perto de proximidade que temos são as freguesias. Em relação às regiões autónomas, é inegável perceber a evolução positiva que os arquipélagos tiveram por terem estruturas com autoridade política e dotadas de orçamento. Os problemas sem visibilidade não são discutidos, quanto mais resolvidos. Quanto mais distante for o epicentro do poder, mais difícil se torna de ter visibilidade. Claro que a autonomia das regiões se explica por razões geográficas, não obstante é um caso empírico desta realidade no caso português.
Já a questão das freguesias parece-me paradigmática da forma como podemos/devemos olhar para o assunto: as freguesias têm justificação para existirem? À papo-seco seria óbvio afirmar positivamente, contudo olhemos para a forma de funcionamento da freguesia: uma assembleia de freguesia aprova um orçamento que a junta executa. Até aqui, tudo muito semelhante ao funcionamento de tudo o resto, então perguntemos: como se financiam as freguesias? Podemos elencar aqui todas as fontes legais, mas, empiricamente, facilmente observamos que o trabalho de uma Junta fica refém das delegações de competências. A Câmara Municipal estabelece um protocolo com a Junta onde atribui um certo valor para a concretização de certo propósito. Isto leva a que a freguesia se assemelhe mais a um braço da Câmara Municipal onde vamos buscar licenças e declarações. Estruturas burocráticas com ação política limitada (que se note que podemos pensar na política como arte de estabelecer prioridades – onde e quando investir o dinheiro público).
Isto não parece muito positivo. Não seria mais prático elegermos diretamente um presidente da junta que administraria a burocracia e tivesse poder reivindicativo, nomeadamente na Assembleia Municipal? Parece o passo lógico perante esta realidade. Então porque é esta questão existencial tão importante para se falar de regionalização/descentralização?
Desde logo, porque nos faz perceber que as estruturas têm de ter manobra política para poderem funcionar corretamente. Temos de ter sempre em mente as competências de cada nível de organização, bem como a sua forma de financiamento. Garantir que se uma entidade é administrada em função de escrutínio eleitoral, então os eleitos têm de conseguir executar o seu programa (desde que enquadrado nas competências).
Na regionalização é importante não só transferir competências do governo central para as regiões, mas também refletir sobre aqueles de todos os níveis. É necessário que haja uma consistência sem sobreposições ou ambiguidades. No fundo, pensar na regionalização é pensar na radicalização democrática.
Algo importante nas nossas vidas é a vivência em comunidade, queremos sentir-nos incluídos. Aliás, precisamos de nos sentir incluídos. Há uma validação social que, quer queiramos, quer não, desempenha um papel importante na nossa autoestima. Uma peça fundamental deste sistema é, portanto, a amizade. Uma vida sem amigos será, provavelmente, uma vida tendencionalmente infeliz. O contrário não nos é intuitivo, sendo que mesmo a solidão romantizada dos génios da História está associada a uma angústia. Hoje passo por aqui para deixar uma pergunta: o que é a amizade?
Bem, em bom rigor, é um papel em branco onde escrevemos o que quisermos. Há tantas formas de amizade, uma mesma pessoa vê amigos de forma diferente. Ao fim e ao cabo, amizade é o que quisermos que ela seja, sendo que estas darão certo se as interpretações dos dois lados forem semelhantes. De resto, de filósofos a sociólogos, passando por psicólogos, já se fez escorrer muita tinta. Em última instância, podemos adotar uma perspetiva cognitivista e culpar as hormonas.
Aquilo que me parece óbvio é que a amizade tem de passar pela fraternidade, um sentimento de proximidade, que vai além da empatia. Quando nós pensamos em qualquer ser humano, a fraternidade também deve ser evidente, uma vez que é nosso semelhante, ou seja, podemos tentar imaginar o que sente, reconhecer a visão, que é o mesmo que dizer ter empatia, pelo que a amizade tem de ser o aprofundamento dessa perspetiva.
Parece-me que a característica maior seja a lealdade – que se note que esta lealdade não advém de uma hierarquia, não é imposta, é mútua e voluntariamente estabelecida por duas pessoas. Ser leal a alguém é não só olhar para o outro como um igual, mas também valorar o outro. Aceitamos ceder parte da nossa conduta ao outro, o que é o mesmo que dizer que damos parte de nós ao outro e vice-versa.
Claro que as amizades não são todas iguais: as diferenças surgem das diferentes formas e intensidades de lealdade. Diferentes formas na medida em que o contexto em que conhecemos e interagimos com a pessoa faz valorar diferentes traços, sendo o respeito que a ela temos que gera a lealdade. Diferentes intensidades, tendo em conta a confiança gerada.
A mais forte das amizades será aquela que tiver a maior intimidade emocional e confiança máxima. Muito bonito por escrito, mas claramente difícil de medir empiricamente.
O passo depois disto é pensar na questão amorosa: esta máxima amizade será necessariamente um caso de amor? Aquilo que me parece é que amor e amizade são um e um só, na medida em que a intensidade do amor varia tal como a amizade. À partida, o nosso parceiro será com quem temos a maior amizade, no entanto não significa que não possam existir amigos com quem sentimos a mesma intimidade. Parece-me natural questionar se será assim tão descabido falar-se da possibilidade de se ter mais de um parceiro.
Se a nossa sociedade vê com naturalidade a possibilidade de se casar várias vezes ao longo da vida, então reconhece que é possível uma pessoa sentir essa lealdade, com tudo o que acarreta, por várias pessoas. O que impede de isso acontecer simultaneamente? As relações que estabelecemos são dinâmicas, ao longo do tempo vamos criando laços, quebrando outros, aumentando e diminuindo,… Há uma tentativa castradora de tentar conferir estabilidade a um processo que não a tem. Se somos melhores quando estamos com quem nos estimula, imagina-se a felicidade e produtividade que não se está a perder hoje.
No fim de contas, a única coisa que interessa é na minha lápide constar: pessoa ridiculamente chata, mas presente onde e quando era preciso.
Um dos assuntos que nos últimos anos tem dado que discutir e tem feito escorrer tinta na
academia prende-se com a ascensão da extrema-direita. Pelo globo vê-se um conjunto de
personalidades que pela demagogia e mentira têm chegado ao poder, influenciam-no ou
beliscam-no. Trump, em 2016, foi o estrondo que levou o Ocidente, nomeadamente a Europa, a
perceber os perigos a que estaria sujeito: as arrogantes elites políticas centristas e burocráticas
cavaram a sua própria sepultura. Claro que o cenário não é tão pessimista como este início
trágico dita, a verdade é que temos vários exemplos destes oportunistas a serem expulsos do
poder, tendo o povo impedido a sua reeleição. Não obstante, eles ainda não se foram embora. É
de máxima urgência termos em mente o 25 de abril. Mais do que qualquer outra data festiva, é
esta que nos marca enquanto nação que rejeita a opressão e caminha fraternamente rumo a um
Estado justo.
A este ponto será importante perceber o problema associado à extrema-direita. Do ponto de
vista ideológico, aquilo que a carateriza é o seu conservadorismo, sob a forma de um
nacionalismo recheado de valores concretos sobre o que consideram ser a família e uma conduta
ética. Desta forma, facilmente se compreende como os movimentos deste tipo verbalizam
mensagens xenófobas e racistas, bem como colocam o feminismo na mira. Toda e qualquer
liberdade pessoal deve ser passada a pente fino, para estar de acordo com a identidade que
julgam ser a correta. Que se note que os expoentes máximos desta visão do mundo, os fascismos,
não estão temporalmente muito longe de nós: Alemanha Nazi, Itália Fascista e, claro, o Estado
Novo. Mas, se sabemos dos horrores que podem advir daqui, como é possível vermos o
surgimento e ganho de popularidade de líderes de extrema-direita?
Desde logo, estes movimentos ganham tração pela força da demagogia: como não têm qualquer
problema em espalhar o ódio, facilmente se adaptam para passar mensagens «sem papas na
língua» com nas quais as pessoas, frustradas com a política, acreditam. «Eles são todos iguais»,
«Tudo corruptos», «Não fazem nenhum», vociferam elas sobre toda uma classe política
desacreditada. «Isto está no estado que está e ainda vêm para aqui os imigrantes roubar-nos o
emprego» afirmam, depois de já terem captado a atenção dos abstencionistas, de forma a
encontrar um bode expiatório: este passo é importante para estimular o lado emocional, criando
uma unidade contra um certo grupo. Os imigrantes, refugiados, minorias étnicas são as que mais
sofrem com estes discursos que vociferam «subsidiodependência». Obviamente que os dados e
estatísticas são completamente enviesados ou simplesmente falsos. Está aqui uma caraterística
importante dos movimentos que enfrentamos hoje: aproveitam-se da falta de literacia dos
media, da falta de algum pensamento crítico sobre a informação que nos é dada e simplesmente
inventam. Criam mundos onde parece que vamos ser esfaqueados ao virar da esquina, apesar
de sermos dos países mais seguros do mundo. As fake news (notícias falsas) tiveram um aumento
exponencial por esta via.
O que pode a democracia fazer para combater estes movimentos que facilmente podem levar a
guinadas autoritárias? Devemos ser tolerantes com intolerantes? A democracia não devia ser
imparcial?
Em primeiro lugar: a democracia não deve, nem pode, temer vozes dissonantes sobre a sua
própria organização. É obrigação da democracia debater formas de se melhorar: o objetivo é a
sua radicalização, o aprofundamento progressivo dos valores democráticos. As alterações
constitucionais não devem ser temidas, são necessárias. Não obstante, uma democracia deve
punir o discurso de ódio.
Em segundo lugar: a democracia tem obrigação de ter um sistema educativo de qualidade. Dar
as ferramentas para se formarem cidadãos orientados pelos princípios democráticos, livres e
com espírito crítico.
Esta é a herança de abril.
No artigo da semana passada referi cinco casos, em cinco países com democracias desenvolvidas, de situações que não fazem qualquer sentido em 2023 serem discutidas da forma que o são. Ainda por cima, nas instituições democráticas. No final, como que para provocar nem que fossem uns nanossegundos de reflexão, atirei para cima da mesa uma perspetiva sobre o Estado. Hoje vou tentar explicar mais rigorosamente o raciocínio. Desde logo, temos um conjunto de perguntas que nos devem servir de percurso: o que é um Estado? como se origina um Estado? como deve atuar?
Se formos ao dicionário Priberam, temos o Estado como o governo político do povo constituído em nação. Ou seja, uma nação funciona como uma comunidade: um conjunto de pessoas que partilham um território e uma identidade – línguas, tradições,… Quando esta comunidade ganha independência política, quando se autogoverna, temos o Estado. Parece simples: um governo, um povo e um território fazem o Estado. Claro está que podemos colocar muitas questões a essa visão. O que importa historicamente é perceber que o Estado surge numa ofensiva ao poder absoluto, ao feudalismo, utilizando uma lei base a que qualquer cidadão está submetido independentemente da sua condição e estabelecendo um conjunto de instituições que distribuem os poderes (executivo, legislativo e judicial).
Uma questão óbvia será a legitimidade política do Estado: ele foi-nos imposto? temos algo a dizer? porque nos temos de submeter a ele? Em última instância, o Estado não é mais do que um jogo de crianças, onde a imaginação é a protagonista. Pode-se afirmar que o ser humano tem em si uma ambição social, concretiza-se na presença do outro, pelo que só a vida em comunidade o pode satisfazer, tal como Aristóteles famosamente afirma: o ser humano é um animal político. O pensador olha para a Humanidade sua conhecida e nota nas famílias uma unidade básica, que naturalmente se associou formando aldeias e estas, associando-se, em Cidades-Estado. Há aqui uma espécie de evolução natural. Também podemos olhar para outros pensadores como Hobbes que vêm no ser humano um animal egoísta, com uma natureza belicista, aquilo que queremos é satisfazer os nossos interesses, pelo que há um estado natural de conflito. A solução é a criação de um Estado, na medida em que «assinamos» um contrato onde cedemos parte da nossa liberdade e subjugam-nos à legislação, a troco de segurança, de um estado de paz.
Parece-me que outra resposta é capaz de combinar alguns elementos que já mencionei: nós temos necessidades para serem cumpridas. Precisamos de alimentos, abrigos,… é através de uma multiplicação de mãos que conseguimos tornar mais eficiente a supressão dessas necessidades. Praticamente todos os nomes coletivos de animais apontam nessa direção. A dimensão simbólica, a criatividade e atribuição de significado, gerou o desejo de se viver além de sobreviver. Então, à medida que o tempo passa, constatamos a produção de artigos que já não são bens de primeira necessidade, a formação da cultura, a própria criação do dinheiro. Como já éramos muitos, havia mãos disponíveis para além do essencial de outrora. Em pequenos aglomerados não seria difícil distribuir os bens, mas e agora? Quando a desigualdade, pelas mais variadas formas e razões, se foi tornando uma constante. A essência do Estado deve ser assegurar que existe um abastecimento dos bens necessários e distribuí-los. É esta distribuição que, dependendo de como é feita, facilmente leva à exploração (somos obrigados a dar e a aceitar, sem que as nossas necessidades sejam satisfeitas). São muitos os percursos que podemos continuar a partir daqui.
Em 2017 li um livro que me impactou particularmente: Utopia para realistas de Rutger Bregman. Estava eu no Faial a visitar parte da minha família quando o comprei e abri: «Comecemos com uma breve lição de História: No passado, tudo era pior. Ao longo de 99 por cento da História do Mundo, 99 por cento da Humanidade era pobre, faminta, suja, imbecil, doente e repugnante.» Este início, sem dúvida, impactante e recheado de fontes científicas, leva-nos a perceber que há esperança para a resolução dos problemas que identificamos à nossa volta. Claro está que não podemos deixar-nos acomodar, tapando os olhos ou indo para as redes sociais comentar a atualidade e mais o que se aprouver. O que me levou a escrever este artigo foi a leitura de uma notícia sobre os EUA, sendo que aproveitei para fazer uma súmula de outros acontecimentos políticos, completamente tresloucados, que me parecem um ataque completo ao progresso até aqui alcançado – cada um com a sua respetiva fonte. Que se note que cada um destes exemplos ocorre em países que ficam bem classificados no índex da Freedom House [1].
[2] Desde logo temos os EUA, palco já habitual dos atentados ao bom senso, onde no final de fevereiro o NYT noticiou um aumento assustador (68%) do trabalho infantil – em grande parte através da exploração de imigrantes desacompanhados de progenitores. Como se não bastasse vários estados estão a aumentar as horas permitidas de trabalho para trabalhadores jovens e alguns a aumentar o número de áreas em que podem contratá-los. Estas mudanças são feitas através da reversão de regulamentação sobre o trabalho infantil.
[3] Sunak, PM do Reino Unido, apresentou nova legislação sobre imigração para combatê-la. Fê-lo com o slogan «Stop the boats» («Parem os barcos»), numa clara ilustração da dura política que pretendem aplicar. Que se note que o Governo está disposto a sair da Convenção Europeia dos Direitos Humanos, como forma de lhe dar seguimento.
[4] Em França temos um presidente que prefere aumentar a idade de reforma em dois anos, ao invés de aumentar impostos em grandes fortunas – não fosse ele um ex-banqueiro.
[5] No Brasil, no Dia da Mulher, um deputado decidiu divulgar informação falsa no púlpito e adotar um discurso antifeminista e transfóbico. De peruca em punho, Nikolas Ferreira vai ao Congresso dos Deputados afirmar o papel da mulher como mera máquina de reprodução. O país tem assistido ao surgimento, tal como nos Estados Unidos, de leis contra pessoas LGBT+.
[6] Por cá, temos o Chega a avançar uma revisão constitucional que permita a prisão perpétua e a castração química.
Podíamos falar de muita coisa, mas penso que o ponto essencial a questionar será: qual é o papel do Estado? Vejo-o como o escudo sobre toda e qualquer forma de exploração, o garante de liberdade individual. Cabe ao Estado organizar o trabalho de tal forma que permita uma justa redistribuição da riqueza. Para a semana regresso a este raciocínio.
[1] https://freedomhouse.org/explore-the-map?type=fiw&year=2023
[2] https://www.theguardian.com/us-news/2023/feb/11/us-child-labor-laws-violations
[3] https://www.publico.pt/2023/02/05/mundo/noticia/reino-unido-admite-deixar-convencao-europeia-direitos-humanos-2037698
[4] https://www.theguardian.com/world/2023/mar/24/why-macrons-pension-reforms-have-stoked-so-much-anger-in-france-protests
[5] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2023/03/brasil-tem-um-novo-projeto-de-lei-antitrans-por-dia-e-efeito-nikolas-preocupa.shtml
[6] https://www.dn.pt/politica/constituicao-o-que-querem-mudar-os-partidos-em-dez-areas-15586298.html
Será que as coisas são óbvias? Nós, enquanto seres que atribuem significados, complicamos a realidade? Parece haver, por vezes, uma tensão entre o sentido comum e as correntes filosóficas. A mobilização de jargão erudito para descrever a realidade versus as expressões idiomáticas. A descrição das aparências versus o rigor das palavras. A ciência aparece como uma metodologia de chegar perto da verdade (as ciências naturais e exatas parecem-nos exemplo de grande sucesso). Talvez um dos encantos da ciência seja, de vez em quanto, mostrar que o nosso sentido comum nos induz em erro. Sentimo-nos desafiadoramente atacados, como quando percecionamos ilusões de ótica. Que se note que muitas vezes o sentido comum é munido de slogans contraditórios de forma a podermos aplicar conformo nos dá mais jeito. Aquilo que gostava de fazer aqui hoje era justamente tentar provocar aquilo que a aparência no diz sobre a felicidade.
Antes de avançar, na semana passada discutiu-se em contexto de aula a escola cética (fim da Grécia Clássica), que, por acidente, descobriu a tranquilidade como aquilo que nos dá prazer. Já Aristóteles colocava na felicidade aquela que é a finalidade da ação humana (através de uma ética pautada pela moderação). Estas noções de não perturbação e de «no meio é que está a virtude» são perspetivas muito típicas naquela geografia e época. Achei, contudo, curioso o apontamento que o professor fez: a agitação, em detrimento da tranquilidade, é algo que, aos nossos olhos, até tem algum benefício. Com esta observação em mente fiquei a refletir.
O resultado parte de um velho ditado do sentido comum: só quando se perde algo, se dá por falta dela. O meu ponto é que esta frase que nos é tão óbvia em certos casos, se aplica não só pelo valor que damos a algo, mas também a forma como vemos o algo, partindo da nossa mente. A nossa felicidade depende de sabermos que existe infelicidade (e termos, pelo menos, contactado minimamente com ela). Então, é preciso afirmar a infelicidade para se, separando o trigo do joio, perceber onde está a felicidade, valorizando-a. Desta forma, aquilo que percebemos é que a constatação da infelicidade é crucial na busca da felicidade. Essa constatação é, aliás, uma espécie de método.
Seguindo esta raciocínio, é totalmente possível a pessoa mais feliz do mundo ser, ao mesmo tempo, aquela que mais reclama. Penso ser este o ponto mais engraçado e que me levou a fazer aquele primeiro parágrafo tortuoso. Se a pessoa sabe que existe infelicidade, mas em si só constata felicidade, então é feliz. Alguém privilegiado, no sentido de não ter qualquer necessidade por satisfazer, mas não entenda que poderia acontecer o contrário, dificilmente será alguém feliz. Esta questão de privilégio é importante e devia esmiuçá-la um pouco mais, não obstante, penso que o principal passou.
Recuperando o raciocínio, é também possível que quem mais reclame seja a pessoa mais otimista do mundo. Quando alguém identifica que algo está mal tem duas visões: ou o problema vai existir sempre ou é resolvível. Ora, se a pessoa adotar esta segunda visão, temos que para se ser otimista é necessário considerar que para qualquer problema, existe uma solução, se o problema não tivesse sio identificado, nem haveria essa discussão.
Convém, claro, esclarecer o que quero dizer com reclamar: constatar que algo está mal com humildade intelectual. Esta segunda parte é crucial, uma vez que os dogmas funcionam como palas. Vamos abraçar a felicidade da dialética e fechar os comentários ressabiados das redes sociais.
Ora, outro dia voltei a deparar-me com justas críticas à inaptidão, com que saímos da escolaridade obrigatória relativamente à interação com as entidades governamentais, como a utilização do Portal das Finanças ou da Segurança Social. Há um acumular de responsabilidades que nos vão aparecendo progressivamente à medida que vamos ultrapassando as etapas onde parece que somos deixados por nossa conta. Até aqui, tudo bem. O meu problema com as críticas vem quando continuam a sua formulação atacando os conteúdos lecionados: para quê equações? Para quê aprender Pessoa? Enfim, vamos por partes.
Desde logo, há que perceber que o ser humano é um animal social, tendendo para uma vivência em comunidade (quer seja diretamente, quer seja por conveniência). Percebemos que é na união que temos mais frutos, mais acumulação de riqueza, então inventamos a repartição de tarefas e assim se formaram as profissões. O problema é: precisamos de organização, de garantir um mecanismo estável para a sobrevivência dessa comunidade. Então institucionalizamos, legislamos,… Ou seja, criamos entidades abstratas, mas às quais reconhecemos autoridade sobre as suas competências. O aprofundamento democrático e do Estado Social levam inevitavelmente ao aparecimento de burocracia. Podemos argumentar que vivemos em Estados, muitas vezes, excessivamente burocráticos e até se podiam apontar as razões mais ou menos perversas na base disso. O que importa é que é sempre necessário um mínimo de burocracia, sendo que é com a acumulação das responsabilidades que nos deparamos com ela.
Uma consequência desta lógica é a necessidade do cidadão conseguir orientar-se pela informação. Para isso é necessário existirem fontes, como sites (intuitivos) funcionários públicos bem informados, mas também educação de partida sobre o assunto. Na escolaridade obrigatória deve haver a preocupação de se introduzir aos aspetos práticos da vivência comunitária. Desde logo, perceber no que o Estado assenta (Constituição) e como funcionam as instituições. Numa segunda fase, a introdução a responsabilidades transversais, como as relacionadas a impostos, a vínculos laborais, bem como aos serviços públicos. Obviamente que não se pode pedir um ensino de direito, não se pode mencionar todos os casos, mas transmitir as noções base e indicar onde se deve dirigir em última instância para ter uma resposta. Isto facilmente seria feito em meia hora por semana de Cidadania no secundário. Para termos a cereja no topo do bolo: um fomento de um conjunto de literacias no ensino básico em cidadania – esta última parte está no papel, mas parece ficar por concretizar.
Esta literacia do que é ser cidadão, do que é ser estudante, trabalhador, pai, empresário, doente, contribuinte,… é fundamental para garantir que todos temos o melhor usufruto das ferramentas da nossa comunidade.
Voltando à educação. Da mesma forma que é importante saber como nos movimentar no sistema, também é importante ver além do sistema. Não é suposto formatar robôs. Não queremos pessoas que nascem, procriam, pagam impostos e morrem, sem sentirem o mínimo de autorrealização. Então temos de dar ferramentas de pensamento. Uma importantíssima é a da língua. Perceber como falamos. Aumentar vocabulário. Pensamos como falamos, que se tenha isso em mente. A literatura, mais do que capricho nacionalista, é o modo de mostrar como o indivíduo pode dominar a língua. Eu até acho que no 9º ano se devia dar a Alice no País das Maravilhas como leitura em inglês – em vez de serem só micro-textos artificiais. Novas línguas são novas formas de pensar.
Relativamente a outras disciplinas: saber como funciona a combustão evita um incêndio, saber derivar poupa dinheiro,…
Outro dia aprendi uma curiosidade muito engraçada: os primeiros habitantes de Madagáscar, a ilha a este do sul africano, foi primeiro habitada por povos do Índico e não de África, apesar da ilha se encontrar a cerca de 450km deste continente (quase a distância do Corvo a São Miguel). É muito impactante notar que foram pessoas que estavam a mais de 5500km aquelas que realizaram o feito (e com mero recurso a canoas, tendo ocorrido em meados do primeiro milénio). Acontece que eram essas pessoas aquelas que estavam habituadas a dominar as artes marítimas por viverem em arquipélagos com inúmeras ilhas. Os povos de África, com um continente tão grande por explorar, não sentiram necessidade de se aventurarem no mar. Perguntemos então: abdicariam os pioneiros madagascarenses de deter o domínio das suas canos? Seria possível conceberem um mundo onde não pudessem controlar aquelas que eram as suas pontes entre ilhas?
Na espuma destes dias surge uma crise política, mero artifício, um cálculo eleitoral dos autofágicos. Passando atrás do alarido vai o processo de privatização da SATA (um brinde da IL, que obrigou o governo a abrir o processo e agora distancia-se pela não execução do acordo). Aquilo que se pretende é, portanto, tornar a SATA uma companhia aérea da esfera privada (algo dá falado pelo PS e que nestes últimos meses tem ganho forma). O que implica a privatização da SATA? A gestão deixa de ser feita a partir do domínio do executivo açoriano, sendo uma entidade empresarial privada a responsável, respeitando certos preceitos acordados. Existe, portanto, regulação. No entanto, não existe nenhuma obrigação além daquela prevista, pelo que a esmagadora maioria das decisões não têm de ter em conta o interesse público (como um governo deve ter). Que se note que nenhum privado iria querer ser um simples gerente a receber ordens, se investe é para ter a palavra. Outra consequência é o monopólio instalado: em vez de ter só uma empresa pública a operar, temos só uma empresa privada a operar.
Se o problema deste processo a este ponto não é óbvio, coloco-o claramente: é inconcebível que, num arquipélago onde nem existe transporte de passageiros por via marítima ao longo de todo o ano, se venha retirar das pessoas aquele que é o seu meio de transporte. Temos mar que nos separa e querem privatizar as canoas que detemos. «Ah, mas o sistema atual não funciona, até porque quando é público tudo funciona mal». O problema não está em quem é o domínio, mas em como é gerido. As decisões de um setor estratégico devem ser tomadas por uma entidade mandatada pela população e é sua responsabilidade adequar o serviço às necessidades que existem. «E se essas escolhas derem prejuízo?». Quando há boas decisões, tomadas por pessaos competentes, que foram feitas para as pessoas, aplicadas num setor tão fundamental como a mobilidade é para os açorianos, o prejuízo é um investimento no bem-estar. Algum humano seria capaz de dizer que a saúde deve ser um negócio e não a salvaguarda do bem-estar? Alguém seria capaz de afirmar que a educação que uma criança deve ter depende da carteira dos pais?
Já nos tiraram o navio no verão, não podemos deixar que nos tirem o poder sobre a nossa própria mobilidade alienando a SATA.
Como se não bastasse esta discussão fundamental, temos ainda uma incerteza: o que acontece à dívida de 300 000 000€ que a Azores Airlines tem em relação à SATA. Um presente dos contribuintes?
Não consigo acabar este artigo sem a referência à última estrofe de um poema muito conhecido de Saramago, publicado num dos seus cadernos: «E, já agora, privatize-se também / a puta que os pariu a todos.»
No passado domingo, quando já era quase segunda, começou a cerimónia da Academia que premeia os melhores desenvolvimentos cinematográficos do ano. Pela passadeira vermelha passam aqueles que tomam por missão de vida fazer cultura, oferecendo-nos momentos de lazer, mas também aprendizagem e reflexão. Da noite fica o desgosto daquele que foi a primeira indicação portuguesa a um Óscar não se ter convertido num vencedor – se continuarmos a ter esse mesmo desgosto nos próximos anos, estaremos nós muito bem.
Por cá, o plenário da semana passada constituiu um longo filme, cuja sequela está por vir, mas não sei se é guardada com ansiedade. Dado o drama em que os Açores estão mergulhados desde 2020, parece-me fazer sentir atribuir alguns Óscares.
Desde logo, um belo Óscar de maquilhagem para a Iniciativa Liberal que, a um ano e meio de eleições, percebe na alhada que se enfiou e se tenta distanciar. Uma verdadeira operação de cosmética. Sabemos que o Governo Regional está em maus lençóis quando a IL rompe um acordo com ele, mesmo apesar de duas das suas principais reivindicações estarem a ser cumpridas: endividamento 0 e privatização da SATA. Com sorte, o Governo ganha juízo e deixa cair ambas.
Que se note que a IL já se prepara para um novo Óscar: o da melhor Fotografia. Se é verdade que eles agora se estão a tentar por apresentáveis, nos próximos tempos andarão, ilha a ilha, a garantir que ficam bem na fotografia. Nunca desdenhar um falso sorriso amarelo: a IL em 2020 fez História com uma demonstração matemática, aplicada à demografia: é possível eleger concorrendo apenas em São Miguel e Terceira – é normal a confiança, até se ouve o tilintar das garrafas de champanhe a serem armazenadas. Deverão apostar com mais força na Terceira para tentar eleger sugando o CDS, ou pelo menos garantir a compensação caso elejam em São Miguel, e a concorrer a todos os círculos para ter lugar nos debates frente-a-frente. O melhor de tudo? A IL não pode apresentar uma moção de censura por ser uma representação e não grupo parlamentar. Vai se a ver e, no final disto tudo, são os paladinos da estabilidade. Ou será que são uma real ameaça à sobrevivência de Bolieiro?
O Óscar de melhor ator secundário vai diretamente para Carlos Furtado. Alguém tinha de ser o primeiro a dar o grito, mas o segundo grito ser logo a seguir coloca em causa se este último existiria sem o primeiro. Claro que dizem que sim, até pelo historial de críticas, mas parece que Furtado estava a desejar mesmo uma companhia que o impedisse de ficar sozinho a ameaçar uma estabilidade que, a existir, corresponde a um elefante em cima de uma bola. Mas não nos enganemos: quando o governo pode cair por um deputado, todo o ator secundário pode virar principal.
O Óscar de melhor argumento vai claramente para o Chega. Pacheco e Ventura eram claros candidatos ao de melhores atores pela forma como dizem o que dizem sem se desmanchar a rir na cara das pessoas, mas, a este ponto, as suas atuações estão completamente esgotadas. Então vem a força política que mais vezes rompeu o acordo e voltou a cozê-lo por sessão legislativa, agora acusar outros de instabilidade e conspiração? O número de ziguezagues deste enredo já atingiu o limite: a partir daqui é mesmo desligar a televisão e voltar ao mundo real, dos reais problemas.
Por fim, um Óscar de melhor guarda-roupa para Bolieiro: no Dia da Mulher vestiu a sua melhor personagem ativista para afirmar, com todo o orgulho, que é tão feminista que até concede a uma mulher a magnífica oportunidade de ser secretária regional. A cada dia, Bolieiro arranja forma de demonstrar a sua falta de noção.
Mais uma vez me vejo a recorrer à minha experiência do dia-a-dia. Há sempre o receio do leitor não se rever nessa vivência, mas penso ser um risco baixo. Escrevo este artigo num domingo. Demitiu-se o secretário regional da saúde e, entretanto, já preencheram a vaga, mas isso não me motiva a escrever. Aliás, o que me motiva a escrever as palavras que se segue é justamente o nada, a ausência de coisa. Ora vejamos. No dia anterior o Festival da Canção acabou pouco depois da meia-noite e ainda me pus a acabar de ver um filme. Presumivelmente acordaria mais tarde, mais do que num dia de aulas, de certeza. Acontece que só acordei propriamente já passavam das treze (são raríssimas as ocasiões em que isso aconteceu). Sendo domingo e como estava a gostar demasiado da minha cama, continuo enroscado ainda um bom bocado, até considerar boa ideia improvisar um almoço. Como, evidentemente, na cama e por lá fico durante grande parte da tarde. Esse tempo foi passado, essencialmente, em redes sociais a receber informação. Acabei por fazer algumas limpezas superficiais e voltar para o conforto da manta. Foi só depois de ter desencantado jantar que tive uma reunião de umas poucas horas e acabei as limpezas. Entretanto aqui estou. Desinteressante, hein?
Esta dia pachorrento, na verdade, será visto como o dia ideal de alguém: um tempo de descanso, onde se valoriza o calor e conforto como forma de recarregar baterias, algo ainda melhor na companhia de alguém para fazer conchinha. Se pegarmos em qualquer trabalhador, principalmente que não esteja em teletrabalho, provavelmente adorará um dia destes. Se pegarmos em qualquer pessoa que luta diariamente para sobreviver, este dia é um luxo de valor incalculável, um Euromilhões. No entanto, chego ao final deste dia vazio e não estou satisfeito. Sou ingrato pelo meu privilégio de poder ter um dia destes? Como estudante, não terei eu também um grande desgaste de energia ao longo da semana? Não seria normal ficar satisfeito com a possibilidade de ficar quieto?
Bem, a verdade é que algo me parece sussurrar que devia ter feito algo: estudar mais, limpar mais, adiantar artigos, ler, ver filmes,… o mínimo que pudesse ser chamado produtivo, fosse estudo, doméstico ou cultural. Encher o tempo, basicamente. O que não me deixou aproveitar o descanso foi esta efervescência contemporânea que nos leva a achar necessário estar sempre a fazer algo. Descanso é visto como preguiça. A verdade é que sem ele damos em malucos, mais, damos em zombies que vivem como animais máquina.
Enquanto escrevo estas palavras à luz do bom senso, sei que há em mim ponta de preguiça. Vejo o conforto da minha cama e pergunto-me como pode um jovem de 21 anos querer tanto estar sempre nela enfiado. Já anteriormente abordei esta assunto. Nós temos um problema enquanto sociedade, esgotamos as pessoas. Não sou só eu. E tenho sorte de ser este o meu problema e não de me ter calhado a fome. Contudo suspeito que este sintoma seja também preocupante de um sistema doente. Um sistema que nos faz ver o buraco que há em nós e nos atira à exploração como forma de o preencher.
O sentimento de vazio que há em nós até pode ser preenchido em certa parte pelo trabalho, mas pela sua utilidade. Por o nosso esforço numa fatia razoável de tempo ter sido investido numa riqueza comum, sentimo-nos parte de um organismo maior e há uma realização pessoal. As outras faces da realização veem com o tempo de qualidade: família, cultura, lazer, projetos pessoais,…
Chegou ao fim uma das épocas do ano mais apreciadas pelos açorianos: o carnaval. Como se não bastasse o Entrudo, faz-se questão de ir criando expectativas com as festas anteriores, como o dia das amigas, ora não fosse o melhor da festa esperar por ela. Por todas as ilhas encontramos as suas especificidades, umas que valorizam mais, outras menos. Talvez as celebrações mais icónicas sejam as da ilha mãe deste jornal. Não obstante, abordarei a questão a partir da minha ilha, Santa Maria, para evitar cometer erros por ignorância.
Carnaval que é Carnaval em Santa Maria tem danças. São elas das Casas de Povo, entidades,… o que importa é que temos um grupo de pessoas vestidas tematicamente que ensaiam uma coreografia e canta acompanhados de música (por vezes, ao vivo). Por vezes as músicas são covers, outras originais, mas a letra é sempre invenção do grupo da dança. É uma letra satírica, que alude sempre à famosa mensagem do «é Carnaval, ninguém leva a mal», nem que seja no fim, na despedida. Há grupos que optam por já passar certas mensagens através da música, outros preferem fixar um refrão que vai sendo interrompido sempre que alguém da dança avança para declarar, normalmente, uma quadra. Um curiosidade interessante é serem justamente as quadras, através de uma rima cruzada, as mais habituais para se contruírem o portefólio humorístico. Desde parágrafo se nota que as danças são semelhantes na sua estrutura, diferindo na temática e alguns aspetos práticos. Claro que no que concerne ao material satírico não é raro algumas sobreposições, mas já lá vamos.
Além das danças, costuma haver algumas «brincadeiras», como são chamadas. Trata-se de peças de teatro cómicas concebidas no seio de um grupo de amigos e que acabam por ver a luz do dia. Muitas vezes são utilizados assessórios que exigiram muito tempo e dedicação (as danças, por vezes, também adotam isso, como enfeitar carros). Uma das brincadeiras deste ano tinha uma nave espacial que devia medir pelo menos três metros, por exemplo. Além de outros acessórios mais modestos, mas também trabalhosos.
Existe efetivamente um valor cultural e de entretenimento associado ao Carnaval, que se torna, por um lado, no reflexo artístico do senso comum e, por outro lado, uma altura em que as pessoas parecem ter o direito a rir. É um clima de alegria, de um espírito coletivo, quando mais não seja, pela compreensão transversal das piadas e anedotas que foram sendo ditas e feitas.
Existe, aliás, um outro aspeto que me fascina particularmente no Carnaval: à noite deitarmo-nos e ficarmos a remoer no que foi dito, tentando perceber a fronteira entre a sátira e a realidade. Há um espírito crítico e reflexivo que surge nesta altura e se esconde no resto do ano. Apesar de que com gargalhadas, coloca-se em praça pública os principais anseios de um povo. Parece-me uma imagem realmente poderosa.
Cabe, portanto, a quem governa perceber duas coisas: é uma honra ser mencionado e é imperioso atuar sobre o assunto. Para alguém publicamente estar à vontade para mencionar x ou y, mesmo que nesse contexto, é preciso considerar-se próximo desse x ou y, e, para, pelo menos, a maioria da população entender a referência, tem de ser considerado alguém com importância. Por outro lado, é importante sabermos rir de nós, percebermos onde provavelmente estamos certos e errados, estando sempre abertos para ouvir quem está a ser representado. O Carnaval é a altura ideal.
É mesmo real, a rir e a brincar se pode dizer a verdade.
Às vezes somos confrontados com decisões sobre a permanência num determinado caminho. Temos de olhar para o que foi feito, relembrar o objetivo, e avançar pelo mais adequado. Recentemente vi-me a ter de tomar reavaliar o meu percurso. Talvez por vivermos numa sociedade e termos de ter uma utilidade, é impensável hoje não começarmos a pensar minimamente a longo prazo, se estudar, o que estudar, onde trabalhar,… Esse longo prazo, apesar de bem-intencionado, é, aliás, o motivo de parte do aumento relativo a depressões e ansiedade. Não obstante, hoje a história que quero contar é outra: a de que um jovem teve de colocar a esperança em stand by.
Concretizando aquilo que escrevo: em janeiro decidi deixar a presidência da Associação Juvenil de Santa Maria e a coordenação do Bloco de Esquerda em Santa Maria. À maioria dos leitores não importarão muito estas questões, por isso aquilo que me parece pertinente é expor as razões gerais que me levaram a tomar essas decisões (com a neutralidade e humildade possíveis).
Desde logo, é necessário perceber que a esmagadora maioria das pessoas com um papel político ou associativo fazem-nos sem qualquer rendimento associado. Nunca, em qualquer das atividade que desempenhei ganhei qualquer coisa sem ser trabalho. Aliás, por vezes até se chegou a gastar para se ir limando algumas pontas. É, portanto, muito injusto afirmar que as pessoas que abdicam do seu tempo pessoal para esse tipo de trabalho comunitário o fazem por interesses e benefícios. Quaisquer receitas que se arrecadem são esticadas ao máximo para os seus propósitos, sendo impensável (e bastante fácil de notar) qualquer desvio de fundos. Sobre o caso político particularmente, há um desgaste pessoal de imagem pro bono, muito mais evidente que alguns casos associativos, pelo que a afirmação «todos os políticos são iguais» é igualmente repugnante.
O facto de vivermos na sociedade que vivemos, com já várias vezes descrevi, leva a que poucos tenham disponibilidade temporal e mental para dar um passo em frente. Há ciclo de desinteresse e impossibilidade que coloca estas atividades numa espiral decadente. Menos investimento, maiores constrangimentos, menos visibilidade, menos interesse, menos participação,… Esta questão aparece com maior evidência no associativismo, mas na política vê-se claramente um desligamento por verdades fabricadas e falta de esperança sobre o cenário político. Vai-se a ver e, no final do dia, ninguém se quer chatear nem dar a cara. Então as pessoas que avançam, além dos grandes constrangimentos que têm, ainda têm a sobrecarga de uma reduzida equipa.
Como se esta conjunção não fosse suficiente, há uma cultura de escárnio de dirigentes associativos e políticos por parte de uma fração das pessoas que, mesmo sendo minoritária, torna-se ruidosa no meio do silêncio dos restantes. As pessoas nunca estão satisfeitas, assim o exige a essência humano (e isto também vale para quem está ao leme). Isso é saudável: levam-nos à utopia, à procura pela perfeição que nos leva à superação, a almejarmos conseguir fazer melhor. Agora, há uma clara linha que separa essa ambição saudável de uma crítica destrutiva, uma conversa de café que serve somente para mentes tacanhas justificarem a sua inação. Dizia Platão: o maior castigo é ser governado por quem é pior do que nós, se não quisermos governar nós mesmos.
Se afastarmos quem sacrifica o seu tempo, quem ficará? Que futuro? Que comunidade? Quem fica, por mais quanto tempo? Quem saiu, voltará? Eu retomarei mal a minha esperança reapareça, o que provavelmente vai acontecer com a consciencialização da minha geração.
Há algum tempo estava eu na cama, de noite, e, naqueles acessos filosóficos próprios da madrugada, interrogava-me sobre como seria correto realizar o debate intergeracional. Rapidamente a questão evoluiu para as fundações de um sistema político ideal. Cheguei àquilo que intuitivamente chamei atomização demográfica das estruturas de poder. Bem, presumo que este não tenha sido o parágrafo mais simpático que escrevi, não obstante, penso que fará sentido expor o raciocínio, como exercício de reflexão.
Desde logo, como o pensamento humano não é o mais lógico, vou já moldar o raciocínio, como me parece mais correto e percetível.
Desde logo, a questão de abertura: é frutífero o debate intergeracional? O meu primeiro instinto é concordar. Parece-me que um movimento hegemónico, que aborda as lutas e agendas de uma forma holista, é o que um movimento político democrático bem-sucedido representa. Agora, isto poderá ser uma utopia. Consideremos o seguinte: é 2023 e eu tenho 21 anos, sendo que o meu pai tem 51. Os nossos interesses são semelhantes? É 1980 e a Maria tem 21 anos. Ela e eu temos a mesma agenda? É 2050 e eu tenho 48 anos. Esse eu do futuro tem a mesma agenda do eu do presente? Bem, aquilo que acontece é perceber que as divisões geracionais que existem são perenes, uma vez que os jovens vão envelhecendo e alterando a sua agenda. Os nossos interesses são pontos uma linha do tempo. Existe, claro, uma incompreensão por parte do outro sobre os interesses de cada um, pelo simples facto de não viver a realidade da mesma forma. Em vez de idade podíamos falar de género ou religião. Estas colisões de interesses e identidades são grandes entraves para o debate – mas também são o que torna a realidade rica e interessante.
Em última instância, chegamos à conclusão de que o poder tem de ser reproduzido para cada um dos grupos. Um governo de jovens para jovens ou de mulheres para mulheres ou de católicos para católicos, por exemplo. Era como se cada um desses grupos tivesse um «país». Na verdade, viver no mesmo espaço seria um caos burocrático – questiono-me até que ponto o sistema atual não é mais próximo do que afirmo, do que aquilo que penso. Não obstante, se as divisões demográficas forem por idades, temos o problema de o envelhecimento existir. Se for por género, precisamos de passaportes para garantir a continuidade da espécie. Há outra problema: quantos predicados devem ser tidos em cota: seria governo de jovens ou governo de mulheres ou governo de jovens e mulheres, por exemplo?
Esta visão é, obviamente, uma caricatura. Se a levarmos minimamente a sério, não podemos falar pela rama como fiz. Qualquer das formas, por estarmos a falar de dividir o exercício de poder sobre um grupo de pessoas, baseando na identidade de segmentos da população, o meu cérebro decidiu chamar atomização demográfica das estruturas de poder. O interessante é perceber que esta visão pode descrever um outro regime político, não tanto por partir a população de uma forma que não fazemos, mas porque vão ter de existir relações entre territórios de índole muito mais próxima, do que a fria diplomacia em que o nosso globo está.
Há algo que aqui ainda não abordei, mas que orienta a ação humana: os valores. Apesar de haver um fosse geracional, mais conceptual que material, há uma ligação de valores histórica. Será que podemos falar de grandes alterações de paradigma que colocam até essa ligação em causa? Talvez, mas não tem de ser necessariamente o momento presente. Parece-me que o que importa são duas coisas: garantir o respeito mútuo, aceitando o progressismo da juventude e a experiência dos que a têm.
Anteriormente, nos artigos de 10 e 17 de janeiro, debrucei-me sobre a questão – em duas perspetivas distintas -, no entanto, parece-me que ainda existem mais pontos a discutir, mesmo sendo eles, à primeira vista, gerais e não uma temática exclusivamente açoriana. Digo à primeira vista, porque facilmente podia andar a fazer associações, mas não é esse o meu ponto.
O que ficou por abordar? A questão central: o método utilizado para o acesso ao ensino superior. Como poderá saber o leitor, a candidatura gira em torno de notas: a média do secundário e as classificações dos exames nacionais. Cada curso estabelece a relação e os exames que são necessários: os exames podem valer 60%, 50%, 40%,… e podemos precisar de só Física e Química ou só Matemática, ou os dois juntos, ou três até! Quando os estudantes ordenam as suas opções vão aparecendo as notas de candidatura a cada curso, segundo essas condições (a plataforma escolhe os exames candidatos conforme a combinação que confere a melhor nota).
Desde logo, podemos perguntarmo-nos se basear a entrada no simples cálculo matemático é justo. Podemos olhar para outros países, como os Estudados Unidos são famosos por, e observar um método de seleção mais personalizado com cartas de motivação e recomendação, juntamente com um currículo. Podemos perguntarmo-nos se esse método não leca a que os jovens se desdobrem em atividades extracurriculares que não querem verdadeiramente fazer, para tentar entrar na faculdade, ou seja, perceber até que ponto querermos uma aproximação mais genuína de cada jovem, pode levar a uma perversidade na sua identidade e obstaculizar a sua individualidade. Claramente percebemos que é uma questão muito complexa. Aquilo que deve ser evidente é que a educação é crucial para qualquer sociedade, devendo ser um direito: quem quer estudar, deve conseguir fazer independentemente de qualquer condição pessoal – sim, eliminação das propinas, alojamento acessível e numeroso, anulação de emolumentos básicos,… entram aqui.
Resta-nos o sistema que temos. Aquilo que o Ministério da Ciência e Ensino Superior pretende é que os exames tenham um peso mínimo mais elevado, 50% salvo erro. Esta lógica faz sentido? Sempre vi os exames nacionais como uma responsabilidade das universidades atirada para o ensino público obrigatório: é óbvio que as instituições de ensino têm de ter critérios para definir quem fica com as vagas, pelo que cada uma podia fazer, por exemplo, uma prova para ordenar os estudantes. Não é uma realidade alheia à realidade. Não obstante, esta realidade que temos, de acordo com o sistema que temos, não me parece desadequada.
É claro que tem de ser possível averiguar as capacidades de uma pessoa para a área a que se candidata. Como o critério deve ser universal, é preciso partir de um ponto comum dos estudantes: aquilo que foi abordado no ensino obrigatório. Os exames nacionais serem feitos nas escolas é uma boa simbiose por serem garante que as provas se adequam às metas nacionais das disciplinas, igualdade de oportunidades para o acesso, e a escola pública fica com um instrumento de reflexão sobre o sucesso dos alunos nas áreas. Claro que a igualdade de oportunidades nunca é perfeita, por serem professores diferentes, não haver as mesmas condições em todas as escolas, além dos fatores pessoais. Também se acresce ao facto dos exames serem momentos isolados e de grande tensão, pelo que não revelam as reais capacidades.
Se a questão específica é importante, a geral também: convém que todo o desempenho seja valorizado, apesar de ser justificado o papel crucial dos exames em relação às especialidades.
Apontar falhas tanto pode ser fácil como difícil. Idealmente, elas seriam acompanhadas de sugestões de resolução, não obstante, qualquer apontamento de falha colocado no tom certo serve para lhe dar visibilidade, abrindo caminho à resolução. Nada está livre de falhas. O nosso sistema político, a democracia, muito menos, sendo, no entanto, vista, famosamente, como o pior dos regimes à exceção de todos os outros. Debate é preciso sobre como limar arestas a um poder que é dado ao povo. Aqui deixo algumas questões que não me parecem particularmente abordadas e que considero interessantes.
Os temas do espaço público são uma combinação de agendas: pública, política e dos media. Ou seja, as questões prementes para as pessoas, políticos e comunicação social. Estas agendas influenciam-se, disputando um domínio do clima de opinião.
A questão que coloco é: podemos chamar democracia a um sistema onde a agenda pública pode ser subterrada por outras agendas? Ao fim e ao cabo, temos o ponto sobre a legitimidade de uma maioria: pode uma maioria submeter uma minoria a algo? Esta última pergunta já tem uma conotação mais ética; apesar de não conseguir ver a resposta claramente, parece-me que a questão de valores universais, como os direitos humanos, tem de ser chamada. Sobre a primeira questão que coloquei: talvez num falte aqui uma agenda, a dos especialistas. Para nos mantermos numa democracia, e não numa tecnocracia, teremos de fazer aqui algum contorcionismo. Talvez olharmos para nós próprios como um todo: racionabilidade e sensibilidade.
Depois do ataque ao alicerce etimológico, foco-me em como a democracia se defende das suas ameaças. Parte da proteção é feita pela aplicação da legislação, no entanto, pode haver ma corrosão ideológica. Muito trabalho de consciencialização sobre temas atuais e pertinentes, desde direitos humanos a alterações climáticas, é feito por entidades não governamentais: associações e coletivos. Pessoas que dão do seu tempo pro bono. Até que ponto é que o ativismo não devia ser profissionalizado? Assalariado? O princípio de se pagar a alguém para fazer algo é formar um compromisso com um trabalho e eliminar agendas que possam miná-lo.
Numa linha de raciocínio relacionada, muitas associações atualmente desempenham um papel que podia ser garantido por entidade públicas. Em vez das associações se verem gregas para contratar pessoal por não conseguirem criar condições dignas de emprego, ao ponto de poder ser uma oportunidade profissional, porque não termos mais funcionários públicos? As únicas associações que não faria sentido serem estatais são aquelas com cariz ideológico.
Retomando a democracia. É possível pensar noutro sistema? Penso ser extremamente difícil, já temos uma carga afetiva associada. Já temos ideias e conceitos definidos e valorados. Um novo sistema de raiz teria de ser obtido sem esse ruído, mas é impossível nós desfazermo-nos de informação como bem queremos e as crianças mão crescem sozinhas. Mesmo que pudéssemos ter um experimento onde temos várias colónias isoladas de humanos sem experiências prévias, veríamos regimes muito distintos a serem feitos ao longo do tempo.
A melhor forma de pensar num novo sistema deverá ser pelo estudo de todas as sociedades que já existiram e existem. Perceber elementos comuns e extraordinários, tentar conjuga-los – provavelmente com modelos estatísticos e métodos computacionais.
Como uma última provocação: não seria suposto abraçarmos o animal que há em nós e construir algo fisicamente orgânico?
Tenho muitos temas na linha para serem concretizados em artigos, mas há sempre qualquer coisa que altera os planos. Hoje culpo as conversas que ouço aqui e ali, pela mudança temática. Penso ser muito pertinente falar de um conceito importante em Psicologia: profecia autorrealizada.
Segundo este efeito, a profecia autorrealizada, o sujeito tem uma determinada crença, que pode ser falsa, sobre outra pessoa. Como ele está convencido que aquilo está certo, ele vai agir partindo desse princípio. A outra pessoa terá a sua ação condicionada pela forma como o sujeito lhe dirige, pelo que a sua resposta pode ir de encontro às expectativas geradas. Ora, neste caso, o sujeito confirma a sua crença como verdadeira, apesar de ser falsa. Confuso, certo? Na verdade, é bastante simples e um exemplo concreto ajuda. Essencialmente, a profecia autorrealizada é a nossa busca por confirmar aquilo em que acreditamos, fechando os olhos para tudo aquilo que nos contrarie.
Um exemplo interessante é pensarmos numa sala de aula dividida em dois grupos aleatoriamente constituídos: A e B. A essa turma é atribuído um professor completamente alheio. Ora, alguém com o mínimo de confiança afirma ao docente que os alunos A terão bons resultados, apesar de não apresentar qualquer justificação. Portanto, o professor não sabe nada sobre os alunos, mas tem aquela ideia mental sobre A. No final do ano averigua-se que o grupo A conseguiu melhores resultados, mas nós sabemos que não havia qualquer razão para isso, uma vez que os grupos foram aleatórios. Coincidência? Podemos não estar cientes disso, mas muitas coisas se passam na nossa cabeça e como o mundo tem muita informação, nós socorremo-nos inconscientemente de atalhos. Esta ideia da nossa crença influenciar efetivamente a realidade para confirmarmos a crença é conhecido também como efeito Pigmalião.
Não obstante, podemos abordar a profecia de uma forma mais passiva. Se eu meter na minha cabeça que o meu parceiro me anda a trair, vou tentar provar isso. A minha atenção só vai ser colocada em possíveis pistas, mesmo que forçadas. Eu posso estar completamente errado, mas o meu cérebro fabrica uma narrativa. Nós vemos aquilo que queremos ver (não necessariamente por ser aquilo que queremos, mas o que traz consistência mental). Isto tem um enorme impacto em preconceitos. Se eu me convenço que os imigrantes africanos são violentos, vou tentar prová-lo. Se surgir a notícia de um esfaqueamento por alguém dessa etnia digo «pois claro!», mas ignoro todas as notícias de eventos violentos que não envolveram esse grupo. Vai-se a ver e só cerca de 7% dos prisioneiros em Portugal são imigrantes africanos (e 15% imigrantes).
Há aqui um efeito brutal político que se espelha na discriminação e isolamento de grupos sociais, mas também na criação de climas de opinião. A profecia autorrealizada também se aplica à consideração que todos os políticos são corruptos, de que são todos igualmente maus. Estas profecias minam a nossa democracia com base na abstenção.
Preocupa-me que este efeito se aplique especialmente pela negativa, levando a que se deturpe as ações de partidos e políticos, e incentive a conversa de café do bota-abaixo. Rótulos injustificados são atirados a cuspo.
Numa dimensão pessoa, a profecia tem um impacto enorme na autoestima: "É impossível não acabarmos sendo da forma que os outros acreditam que somos.” (Gabriel García Márquez).
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E continuamos com a discussão sobre o contingente. Apesar de já a ter abordado na semana passada, penso ser pertinente retomar o fio e tentar uma abordagem diferente, de forma a contribuir para a reflexão.
Existem atualmente 5 contingentes especiais, totalizando 20,5% das vagas da 1ª fase: candidatos oriundos dos Açores, da Madeira, emigrantes portugueses, militares e com deficiência. Estes mecanismos pretendem, portanto, ativar uma discriminação positiva para certos grupos demográficos. Obviamente que a cada um corresponde uma justificação. Como temos valores associados, há duas questões: faz sentido existir e qual a medida justa?
Uma vez que a proposta em cima da mesa reduz o contingente, ao invés de o eliminar, entende-se que quem nos governa considera que o contingente continua a fazer sentido. A questão está na medida em utilizar, pelo que se considera pertinente reduzir o contingente açoriano, tal como o madeirense, dos atuais 3,5% para 2%. É interessante notar que o coro de críticas que se fez sentir, nomeadamente de políticos, exigia explicações, sem elencar contra-argumentos propriamente ditos.
Esta percentagem deve ser vista e refletir o quê? Deverão as vagas disponíveis serem proporcionais à população das ilhas? Nesse caso, o valor deveria ser 2,3% [INE] - muito mais perto do proposto do que o que existia. O valor deve assegurar uma vaga por curso? Duas? Tendo em conta que, em média, existem 40 vagas por curso [DGES], esses valores seriam, respetivamente, 2,5% e 5%. Dever-se-ia trazer ao barulho algum outro indicador? Eu diria, na minha opinião que vale o que vale, que 2,5% seria um valor justo à luz dos dados que apresentei.
Quanto à primeira questão: o contingente justifica-se. Os Açores, tal como acontece com a Madeira, não possuem as possibilidades de terem uma variedade de cursos, como no continente se pode ter. Aquilo que o contingente garante é que em cada curso pode haver, pelo menos, um açoriano. Isto é importante, porque permite à região formar alguém numa área que não possui, sendo uma mais-valia para o desenvolvimento do arquipélago. Trata-se de uma questão de coesão territorial, sendo que há regras: os estudantes açorianos devem dar primazia à academia açoriana e qualquer estudante continental pode acionar a preferência regional para a sua zona de residência. Há mecanismos para garantir a maior justiça possível no processo.
Então porque é que o assunto se torna tão polémico? Há uma razão natural: é visto como uma restrição de liberdade. Os açorianos sentem os calos apertados, os continentais sentem-se discriminados. Um processo psicológico, portanto, sendo associado à identidade a aprofundado pela autonomia institucional. Outro ponto importantíssimo é que quando falamos de acesso ao ensino superior em Portugal, falamos de notas. É contraintuitivo separarmos os assuntos na nossa cabeça e então acabamos a falar de injustiça numa construção que não existe (apesar de podermos traçar relações, claro, tal como fiz no artigo da semana passada). O último aspeto que identifico é a existência de problemas para os estudantes açorianos, e não só, muito mais evidentes no quotidiano: o alojamento e as viagens.
Falarmos de contingentes, quando, infelizmente, ainda nem todos os estudantes conseguem reunir os meios financeiros para estudarem parece ridículo, apesar de serem assuntos separados. É urgente termos mais residências universitárias. Os açorianos já contam com algum apoio nas viagens, tendo um teto de 99€, mas há colegas continentais a também precisarem de uma mão neste assunto.
Com as notícias sobre a alteração ao acesso ao ensino superior convém perceber do que estamos a falar e do que precisamos efetivamente. Desde logo convém ter em mente que os açorianos têm uma discriminação positiva através de uma «quota».
Como tem funcionado o acesso: os alunos chegam ao final do 12 e submetem numa plataforma digital um código que contém a informação da média do secundário e dos resultados de cada exame nacional que realizou. O estudante coloca por ordem até seis opções de cursos que pretende frequentar. Tendo em conta o peso relativo exames/média que cada curso pede, para cada opção existe uma nota associada. Os estudantes vão sendo ordenados tendo em conta esses valores sendo distribuídos pelas vagas dos cursos. Há aqui um passo intermédio que é pertinente abordar: enquanto está a fazer a candidatura, o aluno pode usar a preferência regional e contingentes. Quando o candidato pretende ficar na sua área de residência, pode ativar a preferência regional, colocando obrigatoriamente em primeiros lugares as opções nessa área. Para certas categorias demográficas existem umas «quotas»: os contingentes. É aqui que se vai basear a nossa discussão. Cada curso dispõe de uma percentagem de vagas para estudantes açorianos (tal como um x para madeirenses, y para militares e z para pessoas portadoras de deficiência). Assim sendo, um estudante açoriano pode optar por concorrer com contingente e, nesse caso, irá concorrer só com açorianos para ter aquelas n vagas – há regras: se o curso em questão existir na Universidade dos Açores, esta opção tem de estar em primeiro lugar.
Ora, com o anúncio de algumas alterações ao acesso ao ensino superior, tem-se em mira diminuir a percentagem de vagas do contingente açoriano, passando de 3,5% para 2%. Fará isto sentido? Fará sentido, desde logo, o contingente?
O contingente é um mecanismo para garantir a presença de um grupo demográfico no curso. Se a um curso, pelo menos, um açoriano se candidata e usa o contingente, então esse curso receberá, pelo menos, um açoriano. Há, claramente, uma discriminação positiva. Temos de ter em mente que a Academia açoriana não consegue oferecer toda a variedade de cursos que existem e podem ser encontrados no continente. Pelo princípio da coesão territorial fará sentido a existência deste contingente. Mas pergunto-me se o foco deste raciocínio não estará mal colocado. O problema dos estudantes açorianos para frequentarem o ensino superior no continente está em conseguir ser colocado ou nos custos extra? O problema são as notas ou as despesas de alojamento e viagens?
O contingente terá sido criado num contexto muito diferente do nosso. Temos um sistema regional de ensino, mas submetido aos objetivos programáticos nacionais. Qualquer aluno açoriano está, hoje, em pé de igualdade com alguém que fez o seu ensino no continente. Não existe uma desigualdade de oportunidades como já houve. Continuar a afirmar a necessidade de os açorianos precisarem de um empurrão nas notas é alimentar um estigma.
Hoje é habitual ver nestes contingentes alunos com notas inferiores ao último colocado do geral. Não porque os açorianos não conseguem melhor, mas porque se trata de um número muito reduzido de candidatos. Não quero com isto dizer que alunos com notas mais baixas não possam ter sucesso (atribuir mais peso aos exames nacionais demonstrarão alguma razão nisto, visto o seu caráter mais específico).
Os açorianos não estão em situação de desigualdade, pessoas com carências económicas sim.
Hoje faço aquilo que condeno: falo sobre aquilo que não sei. Baseio qualquer crença que se possa aqui constatar em mera especulação. No entanto, não o faço por mero exercício estético (disso muito pouco tem), faço-o para passar duas mensagens.
Outro dia uma amiga veio pedir a minha opinião sobre um sonho que teve. Fez-me lembrar um sonho que eu próprio tive e me gerou alguma confusão. Claro que um pedido dos outros gera maior ação da nossa parte que um pedido de nós próprios. Pus-me a pensar: como é que uma situação hostil de dia se reverte num diálogo pacífico no sonho?
Ao pensar sobre este tema dos sonhos, pareceu-me que a dimensão relativa é mais importante que a absoluta. Enquanto estamos acordados a viver as nossas vidas estamos a levar constantemente com estímulos e sensações. Pensamos e sentidos, sendo isto também armazenado como informação. A estas etapas chamo de absoluto. A relatividade advém de relacionarmos as informações entre si temporalmente. Isto faz sentido na medida em que enquanto dormimos podemos considerar que é a subconsciência (aquilo que está por detrás da nossa consciência e da qual temos reduzido acesso acordados) aquela que coordena os sonhos (claro que tudo isto é cientificamente discutível). A subconsciência é a derivada da consciência, tal como a aceleração é da velocidade.
No famoso livro «Dragões de Éden» de Carl Sagan temos um percurso sobre a inteligência humana: desde a evolução do cérebro até os anos 70 até por onde o futuro passará. É muito batida a evolução do cérebro dos diversos seres a partir de um tronco comum. Quase que podíamos ver esta questão por blocos. Um conjunto de seres desenvolve o seu cérebro a ponto de ter o bloco A. Outro conjunto desenvolve o A e ainda acrescenta o bloco B e um terceiro grupo desenvolve primeiro o A, depois o B e ainda acrescenta um C. Este último grupo é dito aquele mais evoluído, não obstante, contém elementos presentes nos seres menos desenvolvidos, aquilo que acontece é «adicionar inteligência». Aquilo a que chamamos o Bloco A consiste no complexo R (esta teoria proposta por Paul MacLean). Esta base presente nos seres com cérebros é responsável por instintos de sobrevivência. Se tivesse de adivinhar, diria que estes instintos à noite se manifestam nas situações de perigo ou necessidades que muitas vezes sozinhos. Diria também que é a complicada relação destes instintos que nos são tão intrínsecos e a linguagem natural com que os nossos cérebros desenvolvidos utilizam que produzem uma disputa de dois modos de ação e resulta em sonhos sobrenaturais e fantasiosos.
O meu objetivo não é só fazer o leitor refletir sobre os seus sonhos e conhecer-se melhor. É nesta teia de palavras perceber que falámos de psicologia, biologia, neurociência, física, matemática… Não é possível compreendermos uma realidade à luz de uma única área do saber. É importantíssimo investir na investigação de especialidade, tal como em projetivos cooperativos de vários campos. É aí que vai residir o nosso futuro.
Não só me parece que para conhecermos um objeto temos de o ver sob várias áreas, como também parece que é dessa teia de conhecimentos que devemos olhar para o nosso comportamento. As leias naturais orientação pelo princípio da ação, mínima, do menor esforço. O objetivo é haver estabilidade. Porque não termos uma ética baseada nas leis da física, por exemplo? O desafio está em percebermos a realidade como uma união de conhecimento e percebermos como nos enquadramos nela.
Não obstante aos festejos, estes últimos dias, tal como os que se seguem, foram passados a olhar para a época de exames que se avizinha. Naturalmente que a maioria do meu pensamento acaba por ser formatado pela quantidade de informação que estou assimilar. Enquanto via Psicologia Social ocorreu-me uma possível explicação para o ódio (e além disso), que me parece plausível olhando para Filosofia Antiga e Filosofia do Conhecimento. Bem sei que assim colocado, este texto não parece muito apelativo, mas pode ter umas conclusões giras para pensar, ou, pelo menos, pode ser encarado como mero exercício refletivo de início de ano – a quem escolher esta última via, aconselho a tentar encontrar falácias, quer formais, quer informais.
Nós, pessoas, queremos respostas: somos curiosos por natureza. Quando aprendemos algo contraintuitivo, o nosso cérebro rejubila. Como é que seres tais têm, muitas vezes, tamanhas dificuldades em estudar? Como é que tanta gente afirma não gostar da escola? Podia-se afirmar que é uma questão de gosto temático, de dizer que gostamos de aprender sobre aquilo que gostamos. Decerto que esta deve ser uma condição a ter em conta, mas nós conseguimos encontrar coisas interessantes em praticamente tudo. O ensino obrigatório é uma coleção de informação sobre muitas áreas, sendo um conhecimento eminentemente superficial. Aquilo que me parece ser a primeira chave para esta questão é o nosso comportamento perante algo que não entendemos: desligamos. Até nos podemos esforçar um pouco para perceber, mas a nossa tendência é fugir. Isto faz sentido: nós, tal como ditam as leis da Física, queremos estabilidade, sendo que ter algo que faz despender muita energia (ainda por cima sem uma motivação musculada), é um atentado a esse desejo. Temos uma tendência natural a largar o que não percebemos.
Por uns momentos naquilo que melhor compreendemos: aquilo em tocamos. As realidades materiais são por nós facilmente assimiláveis. Uma lista de instruções, como plantar algo, fazer operações aritméticas com rochas, funcionamento de órgãos através da sua manipulação,… Na escola aquilo que acontece muitas vezes é abordarmos temas (importantes, não digo o contrário) que são essencialmente abstratas. Ora, nós evoluímos de forma a assimilar o abstrato na medida do raciocínio, mas esta manipulação requer muita energia quando não temos conceito e imagens bem definidas em mente. Todos os campos do conhecimento evoluem naturalmente para esta abstração, complicam-se à medida que o nosso edifício do conhecimento cresce. Sobre o ensino, o importante é manter todo o conhecimento que é possível de o fazer, mais material possível, mais perto do nosso quotidiano.
Esta questão da abstração adiciona novas hipóteses às discussões. Nestas últimas décadas temos literatura muitíssimo desenvolvida sobre estudos feministas, queer, raciais,… Naturalmente, a estranheza que falei se pode manifestar. Se também tivermos em mente que não perceber algo nos constrange e odiamos ser confrontados com os nossos limites, temo aqui a semente de um sentimento negativo, sedento de uma associação.
Quando pegamos nestes últimos ingredientes e adicionamos o nosso sentido de superioridade latente, temos uma teoria para a origem das nossas aversões (muito incompleta, não incluindo se quer as questões sociais e culturais).
Assim se pode explicar como alguém discriminado, pode ser também discriminador, bem como o alento populista das teorias da conspiração. Paciência e persistência são as chaves.
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Tenho 20 anos, daqui a um mês passo a 21, o que sei eu? Às vezes olho para trás e fico a pensar como é que um fedelho de 14 anos se lembra de ir ter com o Secretário Regional da Educação e Cultura para expor a sua perspetiva em relação à escola e ao ensino. Será que essa criatura em início de adolescência tem algo pertinente a dizer? Fez algum sentido essa pessoa ser cabeça de lista de uma ilha à Assembleia Regional e à Câmara Municipal com 18 e 19 anos, respetivamente? Esta é a forma particular da questão: será que cada um de nós tem mesmo algo a dizer?
Bem, eu acredito que sim. Não o respondo movido por vaidade, por ter estas letras imprensas num jornal. Eu acredito que cada um de nós tem uma voz e que deve fazer-se ouvir pelos mecanismos que mais fazem sentido, de acordo com as circunstâncias. Acho que a conversa de café faz sentido, em termos gerais, tudo aquilo que gera reflexão tem potencial para ser profícuo. O que é preciso é ter argumentos minimamente assentes para defender as teses e não simplesmente disseminar teorias da conspiração ou encontrar bodes expiatórios. Agora, se temos uma opinião fundamentada (desde que não tentemos ensinar a missa ao Papa), expô-la nas conversas do dia a dia parece a coisa mais óbvia do mundo e está casada com a liberdade.
Isto leva-me para aquilo que move na escrita deste artigo: o assumir das posições. Se temos uma opinião e a estamos a colocar em cima da mesa, então devemos assumi-la. Não ficar completamente agarrado e inflexível, mas não tentar omitir aquele que se acha ser objetável. A reflexão é um percurso dialético, faz-se com duas vozes que se vão colocando perguntas na esperança de encontrar uma resposta final. Uma opinião é uma espécie de função: um mecanismo que tem uma determinada forma, tem uma determinada ação, onde colocamos algo e nos sai uma conclusão. Uma espécie de se algo, então aquilo. Colocamos factos para retirar factos. É natural termos de ajustar a máquina.
A minha experiência de vida é tão reduzida e eu consigo olhar para trás e perceber que disse e acreditei em coisas muito estúpidas. Num tempo de vida humano, a constância da mudança é ainda mais gritante. Mark Twain, pelo menos na minha cabeça, está muito ligado a esta noção de mudança de opinião. Muitas foram as pessoas ao longo do tempo que afirmaram que só os acéfalos não mudam a sua opinião. Estamos sempre à procura da verdade, resta-nos assumir uma humildade intelectual que nos permita manter uma mente aberta. Não há vergonha em mudar. Em Física Térmica aprendi que em sistemas reversíveis (que podem ser revertidos) temos mudanças infinitesimais de fases. Quer isto dizer que o sistema vai mudando de uma forma muito consistente. Pensemos nos recipientes onde fazemos gelo: se os deixarmos com gelo em cima de uma mesa, lentamente, em cada parcela vai aparecendo água e, se os voltarmos a colocar no congelador, lentamente, vai-se formando gelo. É curioso que também aprendemos que a entropia aumenta, metaforicamente falando, podemos dizer que há medida que o tempo avança aumenta o caos, a quantidade de informação. Interessante, não?
Que se note que isto tudo veio do facto de uma peça no Telejornal do dia de Natal ter dito «estrutura» ao invés de «empresa privada de defesa» sobre a operação da Edisoft na base da ESA em Santa Maria (Edisoft integra o Thales, que lucra com a guerra, e é de onde veio o atual presidente da PT Space) – talvez inconscientemente. Que se assumam os interesses em cima da mesa e se valorize a reflexão: eu apoio a ciência como um setor estratégico público, e vocês?
«Cultura é o sistema de ideias vivas que cada época possui. Melhor: o sistema de ideias das quais o tempo vive» (Ortega e Gasset). A cultura é um termo de uma abrangência imensa, estica-se desde a herança que temos de quem nos precedeu, às formas de produzir arte com que nos deliciamos, mas também é um conjunto de protocolos. Aplicamos esta palavra de muitas formas e todas elas comunicam entre si: esta noção de revelar o génio humano. Cultura vem do latim colere, que significa cuidar, crescer, cultivar,… Artefactos, normas morais, danças, músicas, filmes, séries, os géneros e toda a diversidade com que se diversificam, são o testemunho de que o Homem é capaz de criar o seu próprio mundo. É nesta cultivação que se tem de apostar quando temos por objetivo formar uma sociedade voltada para a proeminência do pensamento.
Disciplinas com História, Filosofia, Psicologia,… levam-nos a visitar tempos e espaços com pessoas que norteavam a vida de formas muito diferentes entre si, justamente por terem uma cultura diferente. É importante percebermos que cultura moral, comportamental, está claramente ligada à cultura artística. Um filme pode fazer tanto ou mais trabalho político que um discurso do José Bolieiro. Se as disciplinas que elenquei são testemunhos daquilo que foi produzido, foquemo-nos numa que é produtora: Português. Mesmo ignorando a questão de ser uma língua e esta desde logo condicionar brutalmente a cultura, a verdade é que é na componente da Educação Literária que o jovem tem a possibilidade de exercitar o seu pensamento, mesmo sobre as palavras que outros escreveram! Por momentos pensemos num poema de Fernando Pessoa: nós podemos analisá-lo de várias formas, com vários sentidos, tanto quanta a nossa imaginação e argumentação poderem. Muitas vezes encara-se esta componente como memorização quando ela devia conter em si tudo, menos barreiras.
Porquê esta verborreia cultural? A 29 de novembro a DRC publicou um vídeo, fazendo um paralelo à «Casa de Papel», em que tentava incentivar os açorianos a visitarem os seus museus. O vídeo é magnífico, não haja dúvidas, mas é preciso mais: é preciso investimento. É triste 2023 ser o ano em que o orçamento regional para a cultura é o mais baixo da sua história democrática (um corte de 27,3% em relação ao ano passado).
Não quero, contudo, desvalorizar o trabalho dos funcionários de museus, centros, teatros, arquivos,… sob esta tutela: tem sido feito um esforço muito meritório. Faltam duas coisas: diálogo e chegar às ilhas mais periféricas.
Temos vários espaços de produção e mostra cultural públicos, a esmagadora maioria a trabalhar perfeitamente, que podiam comunicar entre si para enriquecer os seus planos de atividades. Da mesma forma, deve haver um esforço público no sentido de abordar agentes culturais independentes e dar-lhes condições de chegar mais longe. São Miguel, Terceira, Faial e Pico, assim que me lembre de exemplos concretos, têm entidades já muito bem estabelecidas, parte delas marcadamente irreverentes, que, além da óbvia questão financeira, devem merecer uma atenção maior. Vamos valorizar o nosso património infraestrutural, material e humano entrelaçando-o!
Não obstante, este trabalho deve ser levado até às ilhas mais pequenas. Deve haver pelo menos uma valência que permita exposições, cinema, teatro, concertos,… com qualidade em cada ilha e deve ser usado o esforço da teia mencionada para lhes dar uso e incentivar às dinâmicas locais.
Ter sempre em atenção que as mentalidades não mudam da noite para o dia.
Há já algumas semanas que tenho dado explicações de várias disciplinas, entre elas o inglês. Como decerto sabem, esta língua é ensinada nas escolas portuguesas praticamente desde o momento em que lá pomos as crianças. Durante o tempo em que estava a aprender inglês não gostava particularmente de o fazer, não percebia a importância daquilo que fazia. Com o passar do tempo no ensino obrigatório a justificação que melhor encontrei era de que esta língua permitia uma base comum de comunicação com pessoas de outros países, sendo particularmente importante em áreas como a ciência. Hoje, olhando para aquilo que me rodeia, para o curso de filosofia onde estou, para as explicações que dou, percebo que a linguagem propriamente dita tem um valor incalculável.
Porque devemos então aprender línguas estrangeiras? Pelo mesmo motivo que devemos saber dominar a nossa. A língua, mais do que aquilo que usamos para comunicar, é a nossa forma de pensar. A língua controla-nos. Na licenciatura anterior em que estive tive um professor horrível mas, e odeio dar-lhe razão, numa coisa estava certo: um aluno de física que não é capaz de atribuir designações aquilo que está a fazer, fórmulas ou métodos, pensa mal mesmo que o resultado esteja certo (O conteúdo foi este, embora dito de uma forma mais rude). Neste caso a verdade é que esta atribuição de substantivos permite a criação de esquemas mentais que se relacionam entre si e de onde logicamente se obtém uma resposta.
No livro, muitas vezes utilizado pelos liberais para atacar correntes de esquerda, o 1984, George Orwell constrói um conceito que me ajudou a perceber esta importância da linguagem: a novilíngua. O argumento é simples, o estado autoritário cria uma nova língua, mais simples por sinal, que é tão básica que constrange o pensamento de quem a usa. Em meu nome dou um exemplo: no português, tal como nas outras ramificações latinas, nós conjugamos os verbos em vários tempos e modos. Tanto é normal ouvirmos a frase “Eu comi uma maçã”, como “Eu como uma maçã” ou também como “Vou comer uma maçã”. Ora, já se eu disser “Eu comer maçã”, estamos diante uma frase dolorosa para os nossos ouvidos. Pois imaginemos que nesta nova língua não conjugávamos os verbos e portanto estaríamos diante deste caso. Eu poderia muito bem utilizá-lo e, a ideia que passa, é que eu realmente tenho uma relação entre o ato de comer e uma maçã mas nunca saberei como é que essa relação se processa, como acontece nos casos em português que citei antes. Esta é uma simplificação da linguagem que nos elimina a noção de tempo. Este último exemplo relaciona-se com as regras da língua, a sintaxe. No entanto também podemos ver uma nova língua no prisma dos significados, ou seja, da semântica. Neste campo, ironia das ironias, são os liberais aqueles que nos dão os melhores exemplos: Recentemente temos vindo a assistir à utilização do vocábulo “colaborador” em vez de “trabalhador”. Esta mudança, aparentemente inofensiva, prejudica na verdade o trabalhador porque lhe retira a noção mais básica daquilo que um trabalhador faz: o trabalho. Estas mudanças não são ao calhas porque a partir do momento em que nós nos esquecemos que existe uma diversidade de profissões que tem objetivos fundamentais, com competências estruturadas, com direitos assentes, mais fácil é tratarmos essas pessoas como mera mercadoria.
As línguas estrangeiras permitem saborear a realidade de formas únicas e impossíveis na nossa. Pensarmos livremente.
Na sexta-feira passada fui a uma loja comprar um relógio. Ao meu lado estava uma senhora idosa que olho para a funcionária e exclamou: estou cansada! Logo a seguir acrescentou: mas alguns novos também já nascem cansados! Claramente tinha de responder, virei-me a concordar: eu posso testemunhar! Ficámos, então, a falar dos seus netos, um dos quais está a estudar na mesma faculdade que eu tinha e nesse mesmo dia teve uma frequência. O problema? Nem a senhora, nem eu estávamos a gozar. Este é um mundo que, mais do que ser ele próprio exaustivo, foi feito para nos esgotar.
Em casa, já depois desse episódio, fiquei a pensar no assunto e relacionei-o com aquilo que senti a minha semana toda: uma preguiça imensa. Digo preguiça e não cansaço, porque, por algum motivo, faltava motivação. Estou a fazer aquilo que gosto, estudar, sendo um trabalho muito especial, porque é flexível e com responsabilidades muito mais abstratas, apesar de existentes, do que a de um trabalhador. É por esta flexibilidade, aliada ao poderio da juventude, que estes anos são considerados os melhores das nossas vidas. Então como é que nos melhore anos das nossas vidas nos sentamos no sofá, pomo-nos a lamentar e a tentar entrar numa realidade paralela através de livros, séries e filmes, esquecendo a nossa própria existência (salvaguardando, talvez, somente as emoções)? Em primeiro lugar, o nosso privilégio. Tivéssemos nascido noutro local e nem sonharíamos com esta possibilidade. Mas isto é claramente um cansaço para com a nossa vida que é extremamente preocupante. Em jovens entre 15 e 34 anos, o suicídio é a segunda causa de morte, tanto em Portugal, como na Europa. Em média, a cada dia que passa 3 pessoas decidem por termo à sua vida em Portugal. Estes são dados que a Ordem dos Psicólogos lançou em 2021 e que são o expoente máximo daquilo que vos trago.
De onde vem este cansaço e como será possível nascer assim? Vivemos num mundo que pega nas pessoas e os mergulha em trabalho. Mergulha em publicidade. Mergulha em valores autodestrutivos, como a competitividade. O nosso sistema tem como propósito produzir riqueza para a acumular e não para distribuir. Agora, desde que nascemos, colocam-nos na cabeça a necessidade de nos vendermos das mais variadas formas se quisermos alimentar a nossa família.
Mais do que tudo, sentimos a necessidade de vender o nosso tempo. Horas extraordinárias se não forem feitas é porque os trabalhadores são preguiçosos. Mesmo nos casos mais flagrantes a comunidade mostra-se o pior dos inimigos quando olha de lados os médicos do SNS, quando muitas vezes estes quase que abdicam da sua vida privada para manter um direito humano funcional. A forma como nos enterraram estas noções fazem-nos olhar de lado para aqueles que são nossos irmãos. Somos educados a duvidar de toda a gente, porque todos são potenciais concorrentes, neste sistema onde a competitividade, uma suposta meritocracia, impera. A produtividade tornou-se um mantra e um perseguidor.
E mesmo quando temos algum tempo para nós, aquilo que nos ensinam é para arranjarmos um passatempo. Leitores e leitoras, a língua importa: dizermos passatempos e não aproveita-tempos ou hora-de-prazer não será por acaso. Algo está muito errado quando sortudos seres dotados de vida como nós, querem simplesmente deixar o tempo correr, sem o aproveitar.
Tendo abordado questões relacionadas com suicídio considero importante aqui deixar o conselho que se condira mais importante: pedir ajuda. Linhas como o 112 ou 808 24 24 24 (linha do SNS) dão apoio. Todas as vidas são preciosas.
Podem-me desde já chamar de dramático, aceito-o completamente, mas isso não significa que o drama não se concretize. Infelizmente, cada vez se olha para o mundo e se nota indícios de um retrocesso, apesar de estarmos no melhor ponto da História, até agora, em relação à esmagadora maioria dos parâmetros. Hoje venho falar-vos da eleição para uma Associação de Estudantes. Sim, a minha enunciação do inferno na Terra vem de uma eleição para uma Associação de Estudantes.
Cena do crime: Porto, 2022. Fui aluno de Física durante dois anos, tendo andado na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP) durante esse período e cultivado a esmagadora maioria das amizades que tenho. Apesar de estar na faculdade que com a FCUP partilha a estrada, a FLUP, ainda continuo com muita informação sobre o que vem acontecendo nessa minha antiga faculdade. Ora, como é habitual, nesta altura do ano temos as eleições para as associações de estudantes, sendo que na FCUP normalmente temos listas únicas (tal como acaba por se alastrar para eleições de órgãos da faculdade onde se elege estudantes). No entanto, este ano deu-se o caso de haver duas listas candidatas, o que não acontecia há cerca de 4 anos. Ou seja, uma lista de continuidade, mantendo pessoas que já estavam na atual e a orientação programática, e uma de estudantes que decidiram criar uma alternativa.
Desde logo se teve uma grande mudança a dinâmica de campanha, havendo uma maior notoriedade do processo eleitoral. A lista de «oposição» sabia desde logo que tinha um trabalho de afirmação a fazer, apostando em posts informativos, pelo menos um abaixo-assinado sobre assuntos que dizem respeito ao quotidiano dos estudantes, marcando presença durante certos intervalos nos vários departamentos,… A lista de continuidade ficou presa à sua lógica de apresentar pessoas e tirar fotografias com uma moldura física, numa lógica de campanha de lista única. Ambas tinham evidentemente um plano eleitoral. A principal reivindicação da lista oponente em relação à continuidade era a Associação ter um papel mais ativo na representação e defesa dos estudantes, tomando posições sobre propinas, habitação, estudantes internacionais,… Sobre estes temas tinham uma visão específica e não uma frase genérica.
Aquele que foi o ponto catastrófico para a minha esperança no mundo ocorreu no debate: o candidato a presidente da lista de continuidade, confrontado com a posição feminista da lista oponente, afirma que é «tanto afeminista como amachista». A situação chegou-me por um tweet do elemento da lista contrária, mas há cerca de 50 testemunhas e a situação já foi mais que confirmada. Esta afirmação dele foi já em jeito de desculpa por antes se ter dito não feminista.
Há aqui dois grandes problemas: por um lado, a ignorância sobre um tema que supostamente se dá nas escolas; por outro, a tentativa de ter uma neutralidade extrema.
Feminismo é a busca pela igualdade de direitos entre todas as pessoas. Ponto.
A neutralidade é diferente de parcialidade. Estamos a falar de um direito humano, a igualdade de género, reconhecido na nossa Constituição e mesmo nos estatutos da AEFCUP. As listas não tinham de falar de feminismo, mas se falaram, não há desculpa para não se afirmarem como tal. Como é que esta lista reagiria num caso de discriminação?
Isto é a raiz. As pessoas que vão ser os mestres e doutores de amanhã, preferem a via da negligência. Hoje são afeministas. Amanhã aestudantes, depois aAssociação de estudantes. Quando notarmos, somos uma aSociedade.
Nota prévia: no artigo da semana passada há uma gralha, tal como o leitor decerto notou. A democracia dos gregos antigos era uma democracia direta e não representativa.
Do último artigo inferimos: a pluralidade é uma força que promove o debate e nos leva a ter em consideração diferentes caminhos de ação, sendo um pilar que é necessário aprofundar em qualquer democracia. Também percebemos que esta dimensão nas democracias representativas, como a nossa, se faz através do voto, que resulta numa assembleia com vários partidos políticos – garantes de várias correntes de opinião. O sistema é o mais proporcional possível utilizando-se, por exemplo, o índice de Gallagher para averiguar a diferença entre representação do voto popular e dos mandatos eleitos, sendo que vários países fizeram reformas no sistema de forma a se obter um resultado inferior a 5 (como a Canadá). O círculo de compensação açoriano tem esta função. Em 2020, o índice de Gallagher foi de 4.74.
Esta proporcionalidade numa assembleia importa para o trabalho legislativo, chegar a consensos sobre matérias, mas também ao executivo, para haver um apoio parlamentar à sua atuação. O ponto crucial é que a existência de vários partidos não se justifica só numa assembleia, mas também no governo. Como disse: a menos que um partido tenha 100% dos votos, ele não está de acordo com grande parte da população. Na europa é extremamente comum haver coligações quer pré, quer pós-eleitorais, sendo o exercício de governação também um local de constante debate interno. Que se desengane o mais entranhado português: este debate não é propriamente gerador de instabilidade é, isso sim, a garantia de que há um diálogo entre correntes políticas diferentes que representam segmentos da população e no seu todo representam a maioria que foi declarada em voto.
Foquemo-nos nos Açores: o voto popular está francamente bem representado na assembleia, sendo que estamos longe de ter uma realidade bipartidária, apesar de termos claramente dois partidos que são os maiores da nossa democracia, sendo um centrão que detém sempre a esmagadora maioria do voto. Mesmo que em ilhas pequenas não consigamos eleger alguém do partido em que votámos, esse voto continua a valer e tem o seu reflexo no círculo de compensação. Em 2020, só cerca de 3% das pessoas votaram num partido que não foi eleito. Temos atualmente 8 formações políticas na assembleia.
As açorianas e os açorianos podem votar em quem melhor se reveem para a sua assembleia regional. Quem apela a um voto estratégico, um voto «útil», não conhece a realidade eleitoral açoriana.
É preciso termos mais pessoas a dar mais força a partidos que não ao PSD ou PS. A atual coligação é um exemplo, tal como foi a Geringonça, de como é possível termos soluções plurais. O problema da formação deste governo nos Açores é estar dependente da extrema-direita, algo que em vários países europeus foi sempre evitado, criando-se cordões sanitário.
Infelizmente, esta maioria de direita não tem conseguido responder às problemática açorianas. Continuamos uma região na cauda do país e da europa. Mas que se desengane quem lê estas palavras: a solução não é um voto útil no PS e voltar à estagnação em que estávamos. A solução está em votar forças à esquerda que obriguem ao PS formar um governo plural e progressista. Precisamos de forças externas, partidos políticos, à esquerda do PS com mais força para mover esta montanha para a esquerda. Tudo depende do teu boletim de voto.
Na Grécia Antiga, temos a tentativa de implementação de um novo regime: a democracia. Hote, ao imaginarmos aqueles tempos, temos uma visão extremamente romantizada de toda a situação. Muitos problemas que enfrentamos, como a abstenção, não são nenhuma novidade histórica (sendo importante ter em mente o regime grego assemelhava-me mais a uma democracia representativa, onde nas assembleias cada pessoa podia participar, sendo escolhidas por sorteio centenas de pessoas que ficam encarregues das tarefas administrativas).
Para quê trazer isto para aqui? Acho extremamente curioso como muito autores em vez de usarem democracia, usaram isegoria. Para os gregos, a sua liberdade era a participação política, era a possibilidade de se expressarem sobre o rumo da sua cidade, da sua pólis. A isegoria, o direito de igualdade no acesso à palavra, era, portanto, a essência da democracia. Isonomia e isocracia eram outras caraterísticas importantes: igualdade perante a lei e igualdade no acesso ao poder. Que se note que, como a pólis era vista como o garante da liberdade que falámos, os cidadãos sentiam a necessidade, um dever, de trabalhar em prol da comunidade – um sentimento que por estes dias nos parece faltar (sendo a consequência de um sistema falido e não um problema pessoal que assola os portugueses como uma epidemia).
Todos estes valores constam da nossa democracia, apesar das diferenças institucionais. A pluralidade é, assim, uma caraterística do debate na praça pública. Uma democracia representativa que o seja verdadeiramente tem de ter uma lei eleitoral que consiga assegurar essas diferenças de opiniões nos órgãos institucionais em proporção com o seu apoio na sociedade em geral. Aqui se nota que se alguém se abstém já está a furar o esquema, a menos que essa pessoa não tenha rigorosa opinião nenhuma (o que duvido ser possível).
Em Portugal, a opção que se toma é a votação com um impacto proporcional na eleição de mandatos para cada formação política, sendo que, num esforço de aumentar a proximidade às populações, o território português seja dividido em círculos eleitorais, sendo dentro de cada um que essa mesma operação de distribuição proporcional ocorre. Um voto nos Açores, só tem repercussão na distribuição de mandatos, que correspondem justamente a essa região. Um eleitor que vota na Terceira não tem maneira de influenciar as eleições legislativas em Lisboa, por exemplo.
Temos a assembleia. Agora é tempo de termos o poder executivo. Quer o governo da república, quer os governos regionais são indigitados quer pelo Presidente da República, quer pelo representante da República, em função da dinâmica que força que temos na assembleia. Toma posse, o partido ou coligação que conseguir assegurar estabilidade, ou seja, tenha uma maioria.
Portanto, a discussão de diferentes pontos de vista é vital para a democracia, sendo que através do voto as instituições têm as representações proporcionais dessas perspetivas. É da força de cada uma dessas posições que se chega a um governo.
Esta volta ao bilhar grande foi dada para refletirmos sobre aquilo que entendemos sobre os partidos nos governos: eles resultam de uma proporcionalidade de opiniões. A menos que um partido no governo tenha 100% dos votos, ele não representa todos os eleitores. É muito legítimo termos outros partidos, quer no governo, quer em apoio parlamentar, que influenciem a governação. Melhor. É necessário que esses partidos existam. Uma diversidade não só na oposição como no governo. Isto é o quotidiano europeu.
O que não faltam estes dias são letras nos ecrãs e tinta nos jornais sobre as eleições presidenciais brasileiras. Normalmente, tento fazer deste espaço uma bolsa de oxigénio para fugir às sensações do momento, voltando a elas depois, mas hoje será diferente. Escrevo estas palavras na madrugada de segunda, ainda sem ter havido uma reação do atual presidente Bolsonaro.
Lula ganhou. 50,90% contra 40,10%. Foi uma vitória renhida. Aliás, alem do grande interesse político, esta eleição trouxe ao de cima marcos para a História do Brasil democrático: a corrida presidencial mais renhia, a 2ª volta com mais votantes que a primeira, a não reeleição de um incumbente, a eleição de um ex-presidente e o terceiro mandato presidencial de um político brasileiro. A tradição do vencedor ser o vencedor em Minas Gerais continua intacta. O mapa mantém-se, um Nordeste trabalhista e um Sul conservador.
Estes marcos são testemunhos de umas eleições em que muito esteve em jogo: o futuro de uma das maiores democracias mundiais. O exemplo dado em 2017, uma deriva em busca de ideais autoritários para conferir estabilidade a um país desiludido e desunido, seria continuado? Trump foi empurrado, Bolsonaro também. Le Pen continua a não chegar ao poder, mas Meloni conseguiu e os «Democratas Suecos» têm um governo na sua mão. Vivemos num tempo conflituoso. Parece que a memória traumatizante do ódio do século passado se foi e estamos dispostos a aceitar a normalização da extrema-direita. Se é verdade que se tem conseguido retirar protofascistas do poder, também é verdade que alguns já lá chegaram antes e continuam a chegar como agora disse. A existência de algum é um a mais e o tempo que esteve no poder, foi tempo a mais.
Vivemos em tempos politicamente conturbados por estas incursões da retórica autoritária, mas não nos enganemos: esta agitação é uma consequência das crises que enfrentamos. Quando todos os dias nos entra pelos olhos a instabilidade aquilo que mais queremos é justamente a estabilidade. Historicamente está mais que visto: sempre que se sente instabilidade, os adeptos de políticas autoritárias crescem. Por isso mesmo, não admira que haja quem tente fazer engenharia social para inventar crises onde não existem. Quantas vezes não ouvimos uns certos políticos da nossa praça afirmarem que Portugal é um país inseguro, quando somos um dos mais seguros do mundo? Há que ter cuidado e estar atentos a estes movimentos que depressa passam das palavras às imagens e, dominando uma comunicação social sensacionalista, somos levados a crer que algo que não é, é.
Não obstante ao alerta que fiz, a verdade é que nos encontramos já mergulhados em crises que nada têm de artificiais. É necessário haver a humildade de se formar frentes democráticas quando tal se justifique, como pautar por não ceder um milímetro de terreno a quem nos quer retirar a liberdade. Quando, para tentar aumentar a vantagem sobre o adversário, adotamos posições dele, então ele pode ficar de fora, mas a sua mensagem ganha. Lula ao ter dito ser pessoalmente contra o aborto, abdicou da defesa dos direitos humanos, que já há mais de 30 anos defendeu honravelmente.
Lula enfrenta um parlamento e um país divididos. Terá de chegar a compromissos que provavelmente ficaram àquem do que deveria ser feito. Não obstante, antes a governação ao centro que se avizinha a uma agenda antidemocrática progressiva.
Permitam-me só acabar com esta nota: tudo no mundo influencia tudo. Portugal também tinha muito em jogo nestas eleições. E ganhou.
Ainda outro dia ouvi uma frase que me ficou a marinar no cérebro: a ciência morreu. A ciência morreu? Como? Não está em cada criança o sonho de ser cientista? Não estamos nós rodeados de tecnologia e cada vez a superar-nos sobre aquilo que é feito a uma velocidade vertiginosa? Bem, a verdade é que se a ciência não morreu, para lá caminha. Ainda nesta semana, no Público, revisitei esta discussão ao ler um trabalho de auscultação [https://www.publico.pt/2023167].
Quando pensamos na ciência, vem-nos à mente questões que tentam inferir o funcionamento do mundo que nos rodeia e até de nós mesmos. Pensamos em áreas do saber como matemática, biologia, física, história, sociologia, psicologia,… O Universo é dividido em especializações que comunicam entre si. A ciência é a aplicação de um método sobre aquilo que queremos investigar. No fim do dia, concluímos algo (nem que seja que a nossa hipótese está errada). Isto tudo parece tão linear, como é possível estar a morrer?
Bem, a ciência é motivada pelo amor ao conhecimento, à vontade constante de aprender e, com base nisso, poder melhorar a nossa qualidade de vida muitas vezes. É inegável o impacto que a tecnologia, herdeira da ciência, tem no nosso bem-estar. O ponto é que isto sai caro. Precisamos de pessoas, precisamos de equipamentos,… Uma parte considerável da investigação em Portugal é feita por docentes universitários, ou seja, através de uma sobrecarga de quem ensina. É praticamente impossível ser simplesmente investigador no nosso país, porque não existe um financiamento sério e consistente para a ciência. Só cerca de 8% das candidaturas apresentadas à Fundação da Ciência e Tecnologia foram aceites.
Nos nossos dias, quem pretende investigar quase que é obrigado a ir para uma empresa, onde fica refém de interesses económicos. Foram incontáveis as vezes na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto que eu ouvi as mais variadas pessoas a engendrarem o mesmo plano de ação. Os professores apoiam, porque sabem que o mundo académico é muito limitado e o financiamento público à investigação é uma lotaria.
É por isto mesmo que a ciência morreu: o dinheiro público e privado não são a mesma coisa. Um rege-se por aquilo que é mais útil para as pessoas, o outro é a aposta de uma elite no seu enriquecimento. O domínio do capital privado na ciência destrói as pontes de cooperação tradicionais no meio académico, trazendo a urgência de ser o primeiro a atingir as metas, para se atingir o lucro. A investigação norteia-se por ele e não pelo acumular coerente de conhecimento. Estamos a desperdiçar mentes brilhantes a resolver questões que nos parecem úteis agora, como melhorar os nossos equipamentos digitais, mas ignoramos que elas podiam ser um investimento a longo prazo, que nos desse a chave para revoluções tecnológicas. Falo em tecnologia por ser, provavelmente, a forma mais intuitiva de ver esta situação para quem não se encontra no meio científico.
É desolador ver que a ciência, o modelo da utopia, onde a cooperação e fraternidade imperam pelo bem comum, se transformar cada vez mais num simples meio utilizado como convém, quando convém, onde convém, durante convém para alguns obterem lucro.
No entanto, tem de haver sempre esperança. A pandemia demonstrou o domínio que operadores privados têm sobre a nossa saúde, demonstrou a importância da cooperação. Num período ainda maior, as alterações climáticas têm demonstrado o mesmo. Que haja bom senso na cabeça de quem nos comanda e se valoriza quem de direito.
Existe uma área do conhecimento que se chama lógica. Ela permite-nos estudar os argumentos de um discurso, percebendo se ele faz sentido, ou não. A lógica é, portanto, o pior pesadelo daquelas pessoas que abusam das palavras para nos tentar enganar ou passar ideias falaciosas.
Permitam-me tentar trazer aqui alguns aspetos básicos da lógica.
Desde logo, tenhamos em mente que um argumento é composto por premissas e uma conclusão. As premissas são frases declarativas, que, encadeadas, justificam a conclusão a que se chega. A própria conclusão é uma frase. Como é intuitivo, a todas as frases declarativas podemos atribuir a verdade ou falsidade. A relva é verde é verdadeiro, as baleias são pássaros é falso, por exemplo. Assim sendo, é possível avaliar cada premissa e a sua conclusão quanto à sua verdade.
Perfeito, então se todas as premissas forem verdadeiras temos uma conclusão verdadeira, certo? Errado. Eu posso dizer que todos os pássaros são mortais e que o Manuel é mortal, mas isso não significa que o Manuel é um pássaro (pode ser qualquer ser vivo). Para um argumento ser correto, ou seja, ser um bom argumento cuja conclusão é inquestionável, não só precisa de ter as premissas todas como verdadeiras, como necessita de ser válido.
Ora, existe um critério que afirma que a verdade da conclusão nunca pode ser pior do que a das premissas. Isto significa que se tivermos diante de nós um argumento com as premissas todas verdadeiras, mas conclusão falsa, ele é indubitavelmente inválido. Todas as outras combinações nada nos dizem sobre validade. É guiado por esta noção que nos podemos orientar, mas a este ponto já percebemos que é necessário um pouco de esforço para examinar um argumento. Provavelmente teremos de o escrever.
A validade não é intuitiva, porque ela só se ocupa com a forma do argumento e não o conteúdo. Um argumento também não é correto só por ser válido. Só a verdade das premissas conjugadas com a validade nos dá um argumento correto.
Olhando para o nosso argumento temos de pensar: se eu assumir que as premissas são todas verdadeiras (mesmo que sejam falsas, vamos fingir), será que a conclusão que eu retiro pode ser falsa? Se conseguirmos pensar numa realidade em que isso aconteça, então é inválido. Ainda no argumento visto há umas linhas, percebemos que o Manuel podia ser cão, tornando a conclusão falsa, apesar da verdade das premissas. A este método chamamos contra-exemplo.
Outra forma de ação é o contra-argumento. A ideia é simples: vamos pegar no esquema do argumento e trocar os sujeitos e os predicados para algo que efetivamente nos vai parecer ridículo. Por exemplo, vou arranjar um contra-argumento para o exemplo do Manuel: Todos os açorianos comem Mulatas; a Joana come Mulatas; logo a Joana é açoriana. Como muito bem sabemos, há muitos continentais que adoram comer as nossas Mulatas e não é por isso que se tornam açorianos.
Às vezes é mais fácil de pensar nestes argumentos como conjuntos. Esta premissa cria este conjunto, esta premissa cria este conjunto, e depois vemos se se intersetam, comparamos com onde a conclusão fica,…
Outro aspeto, provavelmente mais intuitivo de avaliar o discurso é através da identificação de falácias. Há algumas formais, mas as mais conhecidas pelo público e aquelas que mais facilmente conseguem ser identificadas são as informais. A ad hominem, por exemplo, é a mais famosa, sendo ao argumento um ataque ao orador e não às suas ideias. Uma abordagem a este tema poderá ficar para um outro artigo.
No passado domingo decorreram as eleições no Brasil. Como quero olhar melhor para os resultados e tenho de escrever este artigo até ao final desse dia, vou deixar para uma próxima oportunidade essa discussão.
Hoje falo de preguiça.
É muito fácil sentarmo-nos no sofá e simplesmente não querer fazer mais nada. Acordamos e só querermos ficar no calor da cama. Mas será isso natural? Sendo nós um milagre cósmico, um fruto de probabilidades quase nulas, não deveríamos estar felizes por estar vivos? Eu não tenho dúvidas de que a esmagadora maioria de nós se sentiria jubilante por poder celebrar a vida. O que nos prende?
Antes de prosseguir com a resposta, que se note que esta figura expressiva do sofá aplica-se à nossa realidade, ainda assim com exceções, mas está longe de poder ser literalmente aplicada a uma fatia enorme da população. Todos os problemas de que podemos aqui dizer que nos afligem são uma fração daqueles que afligem pessoas que vivem naquilo que gostamos de chamar terceiro mundo para nos sentirmos melhor. Também não nos podemos esquecer que dentro de Portugal há um «terceiro mundo». Perceber que há sempre caminho para melhorar, que cada um de nós tem os seus privilégios e azares de nascimento, que todas as lutas enquanto temáticas e obstáculos do quotidiano são transversais no globo, com as suas respetivas especificidades, é importantíssimo para qualquer debate. Termos consciência de onde partimos, de que somos todos muito parecidos uns com os outros e só procuramos a felicidade.
Posto isto, de onde vem esta preguiça? Noutras palavras: de onde vem este cansaço? De onde vem aquilo a que os ressabiados ou exploradores são capazes de qualificar como «não ter vontade de trabalhar»?
De um sistema que se baseia na desigualdade: a busca pela acumulação de riqueza onde, para um ganhar, outro tem de perder. Que se note que acumular riqueza não tem de ser ficar milionário, pode ser simplesmente garantir a sobrevivência de uma família. Somos posto em competição direta entre nós, ao invés de uma cooperação que nos permita viver bem e em harmonia numa comunidade unida.
E para quê? Salário mínimo? Tenho um amigo que diz: para salário mínimo, mínimo esforço. Não terá ele razão até certa parte? É fácil os empregadores queixarem-se da produtividade, mas explorar os trabalhadores, levando-os aos seus limites a troco de remunerações precárias não conduzirá a um esgotamento que inviabiliza a produtividade que tanto ambicionam? Percebo as carências e necessidades de muitos empresários, mas elas não podem servir de justificação para manter um sistema que humilha quem trabalha.
É interessante notar que este cansaço não se aplica só a trabalhadores. É a criança que vem da escola sobrecarregada de trabalhos para casa, é o estudante universitário com o peso de uma carreira de sucesso aos seus ombros, é o pensionista que conta os tostões,… Todas as pessoas sentem uma pressão sobre si em muito superior à pressão atmosférica. Qual a gravidade que nos prende a este sistema?
Vivemos num estado que nos permite mostrar descontentamento e escolher as nossas lideranças. Sejamos capazes de mostrar que exigimos um sistema melhor. Todos temos os nossos problemas, mas se cada um apoiar o outro, de forma mútua, então a nossa voz individual ganha mais força. Uma mão lava a outra. É nesse movimento transversal de fraternidade, onde as lutas se unem que conseguiremos viver fora deste cansaço, que só beneficia quem nos quer quietos num canto quando estamos no nosso tempo livre.
Que se subverta a expressão popular e se afirme: nas urnas dos outros se vêm as nossas! Se o interesse pela política nacional anda pelas ruas da amargura, aquele pelo que se passa nos outros países, ainda pior. No passado domingo realizaram-se eleições em Itália. Mas porque carga de água nos interessam as eleições noutro país?
Desde logo, a Itália, neste caso, integra a União Europeia, elegendo deputados para o Parlamento Europeu, sugerindo um comissário europeu e, claro, tendo assento no Conselho Europeu. A orientação política do próximo primeiro-ministro italiano poderá ter uma influência de não subestimar nas medidas europeias, sendo os portugueses igualmente afetados. Ainda por cima em tempos de sucessivas crises, não nos podemos dar ao luxo de fazer de moucos.
Por outro lado, não deixa de ser interessante olhar para outros países como casos de estudo daquilo que pode acontecer nas nossas casas. Que assuntos despertam mais interesse? Que movimentos políticos ganham tração? Está um discurso populista vazio a ser bem-sucedido? Qual é o impacto que a campanha e os meios em que é feita têm nos resultados eleitorais?
No momento em que escrevo este artigo é praticamente certo que a coligação de direita italiana governará a Itália. Pior. O partido mais votado é o Irmãos de Itália, liderado por Giorgina Meloni, sendo a sua dirigente aquela escolhida pela plataforma eleitoral para primeira-ministra. Espera-se que este seja o governo mais à direita desde Mussolini, sendo o partido herdeiro da tradição fascista.
Não é de ignorar o facto de vermos uma abstenção a subir 10%, tornando estas eleições naquelas menos participadas. As pessoas, ocupadas em consegui viver as próprias vidas, garantindo o sustento para as suas famílias apesar das crises, não vêm na política uma forma de melhorar o seu quotidiano e simplesmente decidem ignorar o seu contributo democrático. Com um eleitorado desmobilizado, mais fácil é ganhar as eleições galvanizando um setor da população. Os italianos já demonstraram ser politicamente voláteis, ficando mais uma vez à mostra a facilidade com que confiam em políticos populistas com um discurso vazio.
O sistema eleitoral italiano vive em duas dimensões: a eleição por círculos uninominais e a eleição proporcional. Em ambas, as coligações saem valorizadas. Infelizmente, nem com as demonstrações de apoio à coligação italiana ou ao Irmãos de Itália, os liberais de Calenda ou os populistas de Conte foram capazes de se aliar à coligação de centro-esquerda. Com uma alternativa antifascista fragmentada e em disputa, a mobilização do seu possível eleitorado acabou por ficar a meio gás.
Que estas eleições sirvam de lição, mais uma vez, que, por vezes, é necessário fazer um esforço conjunto, mesmo que inclua engolir sapos, para termos um futuro mais digno. Não nos esqueçamos que Itália é um palco da crise dos refugiados. Não é por um partido ter uma mulher à sua frente, que não é fascista: os Direitos Humanos não estão assegurados. Estamos a falar de assuntos essenciais.
Ao mesmo tempo que vemos as implicações europeias destas eleições, tenhamos consciência das eleições a retirar: é preciso uma mobilização máxima nas urnas e um sentido de unidade para enfrentar aqueles que se aproveitam do sofrimento alheio para a sua agenda pessoal. Que se note que os mais desfavorecidos, por norma, acabam por não votar, estão preocupados em sobreviver, temos de chegar também a eles, enquanto garantimos o bem-estar da classe média.
Num mundo tão grande, com tanta gente, temos uma infinidade de coisas a melhorar. São milhares de milhões de vidas, de quotidianos diferentes, cada um com os seus problemas. São lutas individuais que temos de ter em conta. Quando percebermos que é possível entreajudarmo-nos, todas as lutas serão mais fáceis. Mas quais são as coisas que cada um valora?
Uso coisas da forma mais geral possível. Podemos falar de bens materiais: aquele pano bordado pela nossa avó, aquela santa em cima da cabeceira, uma aliança no dedo, uma nota de dinheiro. A literalmente todo o objeto podemos atribuir valor, sendo essa uma caraterística humana: uma dimensão simbólica capaz de associar ideias a algo físico. Como tentei mostrar na enumeração, essa valoração pode ter uma natureza sentimental, tal como pode ser uma convenção como o dinheiro que usamos, sendo, portanto, o nosso quotidiano uma série de simbolismos. Se fossemos visitados por extraterrestres provavelmente a esmagadora maioria destas coisas passariam despercebidas.
Podes adicionar a esta conversa a valoração dos atos: os beijos, os abraços, o ceder a passagem, o vestir um casaco de alguém, um punho fechado no ar. Existem convenções como as saudações, mas também ações que se têm com um determinado objetivo. Não tenho qualquer autoridade na matéria, mas parece-me que quanto mais pequenos são os atos e subconscientemente os fazemos, os tornamos mais puros em intenções.
As coisas mais insignificantes têm sentido para alguém, nem que seja uma pessoa. Isso tem tanto de bom como de mau. Tanto podemos fazer alguém se sentir bem, como mal. Muitas vezes as relações interpessoais baseiam-se em valorar algo: seja um gosto em comum ou uma forma de agir. Sejamos românticos por umas linhas e pensamos na linguagem do amor: podemos expressá-lo passando tempo de qualidade, dando ofertas, através do toque, da entreajuda ou de palavras afetuosas. Uns de nós valoramos mais algumas destas coisas que outras e isso depois tem impacto numa relação: se duas pessoas tiverem linguagens distintas, terão de fazer um esforço de comunicação muito maior. Claro está que podemos aplicar a qualquer relação interpessoal, aplicando outros níveis de intensidade e expectativas.
De que interessa esta conversa da valoração das coisas? Trata-se de estabelecer prioridades e a política é a arte de estabelecer prioridades. Nós valoramos causas. Temáticas. Problemas. Temos de perceber aquilo que valoramos para perceber quem somos e para o onde queremos ir. Temos de perceber que a valoração é relativista, sendo altamente individual, em muito influenciada pela cultura. Não podemos esperar que sejamos todos iguais, e ainda bem que assim não o é: temos a oportunidade de enriquecer o nosso debate com várias perspetivas e aceder a problemáticas que ficam escondidas em minorias, mas também em maiorias enfraquecidas.
Parece-me interessante notar que esta caraterística de valorar as coisas é maior quanto mais novos somos, vive-se tudo mais intensamente. Desde um desgosto amoroso a sair à rua para festejar o 25 de abril, tudo é mais vivo, provavelmente motivado por uma sede de viver própria de quem quer experimentar o máximo que pode enquanto pode. É fácil de motivar os jovens para fazer algo. O movimento ambientalista demonstrou que os meios de manifestação fora do sistema (e.g. fora de partidos políticos) podem ser fortes. Temos de canalizar isso para as nossas instituições democráticas.
Mas primeiro, temos de saber o que valoramos na nossa vida e respeitar as valorações dos outros.
Todos já ouvimos o ditado: nem tudo o que parece, é. Não é por se esculpir uma maçã em forma de gato, que se está diante de um gato. Não é por termos alguém a sorrir atrás de um balcão, que temos um trabalhador feliz.
Nós somos seres sociais e de hábitos. Orientamo-nos por uma rede que conhecemos bem e num quotidiano bem definido. Como temos um objetivo muito bem definido desde nascença, a estabilidade, preocupamo-nos com tudo o que possa afetar isso e acabamos por olhar de uma forma leviana para o que realmente nos rodeia.
Paremos, olhemos e questionemos:
Como valoramos o que nos rodeia? Conseguimos colocar números nas coisas? O sistema em que vivemos diz-nos que quase tudo se pode converter em números seguidos de euros, libras, dólares, etc. Tendemos a considerar que quanto mais dinheiro damos por algo, melhor servidos estamos e, como tal, vivemos com o objetivo de obter estabilidade financeira na esperança de levar uma vida desafogada. Aqui, desde logo, temos duas questões a explorar: as coisas e o trabalho.
Vejamos a primeira perspetiva. Valerá a pena o esforço tentar obter os bens de maior valor? Será isso uma marca de sucesso? (O sucesso é, tal como o idealizamos, algo assim tão importante?) Não serão os objetos mais caros uma tentativa frustrada de nos sentirmos especiais, uma vez que possuímos algo menos comum? O dinheiro é, portanto, uma forma de quantizarmos a nossa singularidade?
Isto leva-nos à segunda questão, a do trabalho. A nossa singularidade aumenta quanto mais dinheiro temos (se às questões anteriores respondermos afirmativamente). Logo, podemos concluir que se é através do trabalho que recebemos dinheiro, quanto maior for o salário, mais relevante será o trabalho. Isto é verdade? Comparemos então um banqueiro com um indivíduo que recolhe o lixo. Como, nitidamente, o banqueiro ganha mais, pela nossa lógica, é evidente que é mais importante que o funcionário do lixo. Vamos ao «story time» de hoje:
Em 1968 quem recolhia o lixo na cidade de Nova Iorque decidiu entrar em greve. Em 1970, na Irlanda, os banqueiros decidiram fazer greve. A primeira greve levou a um estado de emergência na cidade e acabou ao fim de nove dias (de forma bem-sucedida para os funcionários). A segunda greve durou seis meses e ainda assim o crescimento da economia manteve-se estável. As pessoas com menor salário foram as que provaram a sua importância.
Vivemos num sistema que privilegia empregos que se resumem a transferir riqueza em vez de a criar. Quantos gestores financeiros e corretores de ações precisamos? Quantas mentes brilhantes são empurradas para trabalhos com menor relevância comunitária só porque podem ter maior benefício económico? Existem muitas pessoas que consideram o seu trabalho dispensável e isto tem de motivar preocupação. Não estaremos nós a desperdiçar recursos humanos que poderiam ser melhor distribuídos e serem mais úteis? Estou convencido que sim, mas para fazermos isso temos de abolir este sistema do lucro em que vivemos.
Pretendemos viver num mundo onde desprezamos os trabalhadores essenciais e romantizamos os acumuladores de riqueza? Queremos mesmo ser escravos de cifrões e abdicar de aproveitarmos a nossa vida? Este é um problema político.
Que se desengane o leitor: eu não tenho todas as respostas. O que precisamos é de reflexão. O nosso futuro político depende disto. O nosso sistema tem de ser melhorado: mãos à obra.
António Variações deixou um esplêndido legado musical que todos sabemos reconhecer. Entre o reportório encontra-se Muda de vida, uma música que nos apela a refletir sobre se estamos bem onde estamos, sobre a necessidade de mudança. É uma ode ao otimismo e, apesar de a podermos acusar de ingenuidade, é uma excelente forma de ver a vida.
Por vezes é preciso fazer decisões que contrariam o que antes se fez ou defendia. Sobre as posições, Mark Twain dizia que só os estúpidos não mudam de opiniões ao longo da vida; sobre atitudes, o Variações diz que a vida não tem de ser um castigo. Não deixa de ser frustrante olhar para trás e ver que o tempo foi investido nalgo posteriormente abandonado, provavelmente forças e energias foram movidas. Não obstante, faz parte do processo de crescimento e autodescoberta essa mudança, é a forma de sabermos o que melhor que encaixa para nós, a forma como podemos ser mais úteis para a sociedade. Se chegarmos ao fim e pudermos dizer que estamos felizes, então já falou a pena. Temos de aproveitar o facto de estarmos em Portugal e na Europa. Apesar das desigualdades também aqui se sentirem, de muita gente ter direitos básicos ameaçados, temos uma faixa considerável da nossa população cujos problemas não são se quer comparáveis àqueles que afetam o designado terceiro mundo.
Recentemente eu próprio passei por um processo que evoca esta mudança: a alteração de licenciatura. No semestre passado, do meu segundo ano de Física, tive um aproveitamento académico precário, pela primeira vez reprovei a cadeiras. Foi este insucesso que me fez meditar sobre aquilo que estava a fazer. Aí me apercebi que, apesar de gostar das temáticas e simpatizar com ter um papel a dizer que estava diplomado em Física, a verdade é que isso podia não ser suficiente. E não é. Como estava a conseguir ter aprovação, apesar de todo os sobre esforço e o que de negativo podia advir, simplesmente engolia e continuava. Uma espécie de lei de inércia: é preciso aplicar uma força externa para mudar o movimento.
Ao pensar sobre o assunto acabei por resolver, no último dia possível, tomar a decisão de me candidatar ao concurso nacional de acesso ao ensino superior, já que era o meu último ano em que podia usar os exames que fiz no 12. Agora, para quem realizou os exames a partir de 2022, inclusive, tem uma validade de 4 anos. Fiz todo o processo nesse dia e submeti.
Daquilo que andei a cogitar, cheguei à conclusão que Filosofia seria a melhor opção. Era o curso que considerava de sonho, mas que não fui porque ou achava que não tinha saída, ou que era menos prestigioso, por algum motivo, que Física. Neste momento, tenho os dois argumentos desmontados e, por isso, sinto-me seguro da decisão. A necessidade de olharmos para o ensino superior exclusivamente como um trampolim para termos estabilidade financeira, tornando a nossa busca limitada àquilo que consideramos que facilita a nossa entrada no mercado de trabalho, pode sair-nos cara.
Evidentemente que nem todos nós nos podemos por a saltitar de cursos, existem encargos financeiros, são mais anos de estudo. Temos de ter isto em conta. Mas um esforço maior agora, para termos uma carreira laboral que nos sejas mais satisfatória pode compensar e muito. No meio de toda estas minhas questões, percebi que muitos amigos meus, ou amigos de amigos, acabaram por mudar de curso ou demorar mais tempo a acabar um. É normal não termos uma trajetória no ensino superior linear.
Felizmente, vivemos num mundo que, nem que seja no papel, reconheceu a importância de definir direitos humanos. Deste esforço internacional, no artigo 26º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, resultou o reforço da importância de dois pontos. Permitam-me que os cite: Toda a pessoa tem direito à educação. A educação deve ser gratuita, pelo menos a correspondente ao ensino elementar fundamental. O ensino elementar é obrigatório. O ensino técnico e profissional deve ser generalizado; o acesso aos estudos superiores deve estar aberto a todos em plena igualdade, em função do seu mérito; A educação deve visar à plena expansão da personalidade humana e ao reforço dos direitos do homem e das liberdades fundamentais e deve favorecer a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e todos os grupos raciais ou religiosos, bem como o desenvolvimento das atividades das Nações Unidas para a manutenção da paz.
A Constituição da República Portuguesa, tal como a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, asseguram as mesmas noções expressas pelas Nações Unidas de forma muito semelhante. Há uma necessidade de libertar informação para o público, de forma a formar mentes ricas e com espírito crítico. Esse consumo de informação faz-se através de inúmeros meios, não sendo só do domínio da educação formal, da escola. Os livros ou produções de multimédia são excelentes fontes que têm de ser bem conjugadas com os direitos de autor (sendo que devemos ter como objetivo a cultura acessível a todos). A investigação científica é outro fator importantíssimo de se ter em conta e que, infelizmente, se encontra dispersa ou necessita de pagamento para ser acedida.
É preciso valorizar projetos como edições do Arquivo dos Açores que se encontram digitalizadas e acessíveis (https://biblioteca.uac.pt/pt-pt/recursos-arquivo-acores), sendo que ainda falta fazer o mesmo para os tomos mais recentes. Apostar em tornar os documentos públicos. Apoiar institutos açorianos de investigação como o Gaspar Frutuoso, ou o IVAR de forma a tornarem acessível a sua produção científica.
Tendo em conta a riqueza que se encontra na memória coletiva e individual dos açorianos, de termos vários autores açorianos a publicar as suas memórias, mas também relatos com valor histórico. Seria de interesse público agregar toda essa informação numa plataforma digital, de acesso gratuito e universal.
Aproveitar essa plataforma digital para relacionar os documentos do arquivo, produção científica e imprensa, com critérios temporais, seria uma mais-valia para os Açores.
Os Açores promoverem a acumulação de conhecimento sobre si, de açorianos para açorianos, facilita em muito o acesso aos dados, a valorização e fixação de especialistas,… Há um ano e pouco, fui introduzido a um novo conceito: Nissologia. Trata-se do estudo das ilhas, um campo multifacetado que aborda assuntos muito díspares para caraterizar massas territoriais que podem possuir caraterísticas tão distintas como um arquipélago (se olhássemos de relance para as Flores e para a Graciosa, quase não diríamos que pertencem ao mesmo).
É preciso estarmos informados para podermos tomar as melhores decisões, trata-se de algo lógico e do pensamento comum. Mais do que moderação, aquilo que precisamos é de ponderação. Desta forma, é fulcral haver fontes rigorosas de conhecimento acessíveis a todos. Temos de ter em mente a importância de libertarmos a cultura e investigação para o domínio público.
Com o passar do tempo, a par de avanços científicos e tecnológicos, assistimos ao surgimento de novas profissões, novas condições de trabalho. A exponencial digitalização do quotidiano já permite a trabalhadores desempenharem as suas competências a partir da sua casa. A pandemia foi o empurrão que faltava para popularizar esta forma de trabalho. Na verdade, nem tem de ser a partir de casa. Pode ser de qualquer lado, desde que haja acesso à internet. Assim surgem os nómadas digitais: um conjunto de pessoas que só precisa de WiFi e computador para trabalhar, sendo, regra geral, bem remunerados.
Os nómadas digitais são pessoas que escolhem ir variando de sítio, como melhor lhes convém. Porque não trabalhar num sítio com uma praia à frente? Não se trata de turismo, mas está lá perto. Cada vez mais destino se preparam e promovem como locais que podem acolher com condições estes trabalhadores. A Madeira, por exemplo, já dispõe de infraestrutura que permite espaços com excelentes acessibilidades digitais, para onde as pessoas podem escolher trabalhar enquanto se encontram na ilha. Este projeto madeirense, que conta com o apoio do Governo Regional, conta com estadias que variam entre um e seis meses.
Para conseguirmos ser um polo agregador desses trabalhadores podemos estabelecer uma rede de cooperação entre alojamentos, restaurantes, agentes turísticos, locais de partilha de espaços de trabalho,… Toda uma panóplia de pacotes já podem ser pré-feitos. Desta forma, existe uma dinâmica na economia local além da sazonalidade que marca grande parte do turismo nos Açores, bem como há o estímulo de uma atividade cultural mais intensa e continuada.
Enquanto investigava para escrever este artigo, descobri que a autarquia da Ribeira Grande lançou estes dias um espaço online a promover o município neste contexto (https://www.digitalnomadsrg.pt/). Segundo me apercebi, apesar de ainda faltar informação sobre que restaurantes e alojamentos, a ideia é estes oferecerem descontos. Esta plataforma serve como promoção do destino e ferramenta de comunicação para auxiliar no estabelecimento dos nómadas.
Também o Governo Regional se pronunciou sobre o assunto em junho de 2021, tendo a, então, Secretária Regional Susete Amaro dado a conhecer a intenção de celebração de um protocolo entre a Região e a Madeira. Em maio deste ano, o PS avançou com uma proposta na Assembleia Regional, depois de quase um ano sem resultados visíveis.
Consigo imaginar este projeto também como uma forma de reabilitação de infraestrutura, como a Estação LORAN em Santa Maria: um conjunto de edifícios muito degradados com valor histórico e localizados numa zona mais isolada e turisticamente apetecível para quem busca um ambiente mais rural.
Não obstante a toda a vertente cor-de-rosa do projeto, convém também abordar a questão do próprio teletrabalho, ressalvando a necessidade de uma legislação clara, que permita regular a fronteira entre o trabalho e o prazer, de forma a não cair da exploração abusiva do trabalhador. Sobre esta matéria, Portugal foi um país pioneiro em 2021, aprovando a proposta que garante o «direito ao descanso», ou seja, impede o empregador de contactar fora do horário de trabalho sem motivo maior. Esta alteração consta no Código de Trabalho que até essa altura não previa a realização do teletrabalho. Houve um cuidado para garantir a privacidade ou os direitos sindicais, mas ainda faltam alguns passos, como garantir o subsídio de refeição.
No passado dia 4 de agosto, Mário Ferreira tornou-se o primeiro português no espaço. A bordo da Blue Origin realizou uma viagem de quase 11 minutos, dos quais 3 foram passados em gravidade zero. Mário Ferreira é, portanto, um herói nacional. Só que não.
Desde o final dos anos noventa que o turismo espacial deixou de ser só um sonho da ficção científico e saltou das páginas dos livros para a nossa realidade. Em 2001, Dennis Tito tornou-se o primeiro turista espacial, desembolsando 20 milhões de dólares. Desde esse momento o número de empresas que apareceram a apresentarem pacotes para viagens ao espaço aumentou extraordinariamente. Mário Ferreira pagou mais de 200 mil euros, um valor 100 vezes mais barato do que o primeiro voo, mas ainda assim muito distante das possibilidades da esmagadora maioria das pessoas.
Muito se fala na democratização do espaço. Do sonho que é todos nós podermos aceder a informação de satélites, de lançarmos os nossos equipamentos, de existir turismo espacial, até mesmo de podermos explorar novos mundos. Olhar para recursos geológicos raros na Terra e lançar instrumentos que os explorem e tragam de fora é um objetivo traçado, por exemplo. Estamos a falar de olhar para o espaço como local pronto a ser explorado, sendo esta uma nova corrida ao espaço que, ao invés de opor nações, opõem indivíduos. É uma competição entre mim e o meu vizinho. É eu conseguir ter um hectare da Lua.
Esta é uma visão totalmente oposta àquilo que devemos esperar sobre o desenvolvimento da exploração espacial: um esforço internacional científico em prol de uma exploração sustentável, num cenário onde o espaço sideral é encardo como um meio de desenvolvimento da espécie humana e não como um local de transações económicas onde se delimitam fronteiras e se açambarcam recursos que a todos nos fazem falta.
Temos de olhar para o espaço como uma forma de todos nos entendermos, independentemente da religião ou nacionalidade. Juntos, num esforço de sobrevivência coletiva e progresso. Temos na ESA o esforço de uma sinergia de quase três dezenas de nações. Que se juntam a sinergias internacionais que juntam, por exemplo, a NASA. Trata-se da Terra, como um todo, a tentar explorar o que está pra além de nós, sem barreiras. Onde somos todos nós a liderar uma expedição científica, onde somos todos nós a delinear o futuro da espécie humana.
A democratização do espaço tal como ela hoje é discutida não passa de um disfarce neoliberal sobre a forma como vemos a expensão espacial. Trata-se da replicação do homem sobre o homem que experienciamos na Terra, para o Espaço. Cabe, portanto, a nós, ao povo, mostrar que queremos uma sociedade onde a equidade é valorizada, onde afirmamos que não existem fronteiras no espaço, que o devemos usar como um bem coletivo, como um esforço internacional.
Mário Ferreira é o exemplo de como alguém que sem qualquer propósito científico ou técnico, simplesmente por ter dinheiro, consegue aquilo que pretende. Chamam-lhe de democratização, mas só é democrático para quem tem dinheiro. Esta noção replica-se um pouco por cada área do nosso quotidiano. Temos de abrir os olhos e perceber que há um melhor futuro do que aquele que nos parece. Esta noção só nos leva a uma conclusão: taxem os mais ricos!
Se é para os Açores terem um papel no futuro da exploração espacial, que saibam escolher estar do lado das pessoas.
Às vezes a realidade é capaz de superar a ficção e o que parece impossível, acontece. Há uns dias descobri que existem pessoas que realmente leem os meus textos de opinião e, pasme-se, gostam minimamente. Estava eu a ver a cascata do Aveiro, na Maia, em Santa Maria e aproximou-se um emigrante da nossa família. Entre as típicas conversas sobre parentescos, o senhor Manuel pergunta se eram relacionados com o Pedro Amaral. Como ele disse que lia estes textos, logo lhe pedi desculpa pelo dinheiro que tinha gastado, mas ele não parecia particularmente arrependido. Ficámos a falar um pouco e então aquele homem que soma 72 verões expôs a sua visão sobre o aproveitamento turístico dos Açores.
O caso é muito simples: nós acabamos por ficarmos a agarrados a certos bastiões, tipos populares de turismo, como o balnear ou o de natureza. Olhamos para as nossas ilhas e vemos algo que facilmente toda a gente vês, as nossas praias, por exemplo, as nossas piscinas, as nossas possas. Esta é a nossa riqueza. Olhando um pouco mais atentamente vemos os trilhos, desvendamos caminhos por entre a nossa natureza, mostrando a fauna e flora açorianas. Essa também é a nossa riqueza. Mas também temos as jamantas, os priolos,… São também a nossa riqueza. São níveis que damos em direção a uma maior singularidade dos Açores. O ponto que este emigrante defendia, era a necessidade de olharmos para as nossas ilhas, percebermos o que é único aqui e tentar promover de forma sustentável, oferecendo bons motivos para nos visitarem ao invés de outros locais. Este é um conceito que evidentemente parece óbvio, no entanto às vezes permanecemos naquilo que se considera estável, no que consideramos garantido e confortável. Sabemos que praia vende, por exemplo. Um cozido das Furnas já podia parecer uma ideia duvidosa, se não soubéssemos o que sabemos hoje sobre o seu sucesso.
Ao fim e ao cabo, esta noção de busca pelas nossas riquezas, daquelas que nos ligam a outros pontos geográficos, àquelas que nos distinguem singularmente, é algo que deve ser transversal a qualquer área e não só à vertente turística. A nossa comunidade depende de recursos geológicos e biológicos, desde a construção à comida, com incursões na medicina e no entretenimento. Percebermos com o que contamos é de extrema importância para nós próprios. Podermos pegar na nossa matérias-primas e trabalhá-las constitui um trunfo que nos confere um elevado poder sobre o nosso conhecimento, inovação e desafogo económico. Nós temos uma autonomia político-administrativa que nos dá uma margem de manobra assinalável sobre a forma como podemos gerir aquilo com que nos deparamos no nosso território.
A este último parágrafo podíamos abrir uma exceção que não é mero pormenor, o nosso mar. Continua a ser necessária uma revisão à Lei do Mar que dê o poder inequívoco sobre este temas aos Açores.
Grande parte deste trabalho de descobrirmos aquilo que a nossa terra nos reserva, sejam algas, sejam tubarões-baleia, corresponde a um árduo labor científico. É importantíssimo termos uma academia açoriana enrobustecida para dar esta resposta. Muitos desafios se adensam por sermos um arquipélago, sendo o capital um recurso limitado. Contudo, este é um esforço que dará frutos mais tarde. O nosso poder executivo deve ter um papel preponderante em criar sinergias neste sentido.
Se queremos que os Açores sejam o paraíso sustentável e rico que todos ambicionamos, é preciso sermos ousados e desvendar os segredos aqui escondidos.
Numa democracia representativa, onde temos eleições para uma assembleia que garante o poder legislativo e de onde sai um governo que assegura o poder executivo, é normal temos quem apoie os governantes e quem lhes faça oposição. À oposição compete opinar sobre os documentos que vão a votação e apresentar alternativas construtivas que vão de encontro à sua própria agenda programática, mas também questionar as decisões que foram tomadas, servindo como fiscalização à atividade governativa.
Quando falamos de fiscalização, abordamos questões como as políticas que estão a ser seguidas, as consequências de delas resultam, quem beneficia e/ou é prejudicado, se existem interesses particulares à mistura, a competência das nomeações,…
Há um mês, no dia 30 de junho, o Bloco de Esquerda Açores assumiu o seu papel na oposição e denunciou as ligações do Subsecretário Regional da Presidência, Pedro Faria e Castro, à empresa de segurança da qual foi sócio e que tem realizado contratos com entidades públicas, o Governo Regional, mas também Câmaras Municipais alaranjadas. Esta denuncia foi acompanhada por toda a documentação comprovativa, tendo a comunicação social validade os factos. Aqui transcrevo as informações tal elas foram comunicadas pelo BE:
Pedro Faria e Castro deteve uma quota relevante na empresa TRUST Lda. até maio de 2022 e durante o período em que desempenhou funções de Subsecretário Regional.
A empresa Trust Lda. foi, durante esse período, selecionada para prestação de serviços por diversas entidades públicas através de vários contratos por ajuste direto no valor global de 460 mil euros, incluindo 6 contratos diretamente com departamentos do Governo Regional no valor de 304 mil euros, o que representa 55% dos contratos públicos firmados pela empresa desde que o Subsecretário Regional tomou posse como membro do governo até ter vendido a sua quota na empresa.
A situação em questão é efetivamente legal, contudo a matéria da legalidade, sendo importante, não é a mais relevante neste caso, mas sim a falta de ética e o conflito de interesses.
Que se note que na mesma altura em que tomou posse como membro do governo, que renunciou à gerência da empresa e que terá suspendido direitos societários, o Sr. Subsecretário Regional da Presidência aumentou a sua quota de capital na empresa Trust Lda. de 60 para 83 mil euros, quota essa que viria a alienar em maio de 2022.
A alienação da quota foi, portanto, completamente tardia. Desta forma, tudo aquilo que Faria e Castro afirmou sobre o caso não atenua as questões de princípio envolvidas. Durante praticamente dois anos houve um claro conflito de interesses.
Em relação a esta situação, quem tanto prometeu uma mudança no cenário de tráfico de influências, quem afirmou que queria acabar com a clientela, quem até queria reduzir os cargos políticos, quem advogava transparência, o atual Presidente do Governo Regional, decide fechar os olhos e manter a confiança no Subsecretário. Nada de novo, nem de especialmente surpreendente, atendendo ao facto de ao longo do tempo ter provado que essas promessas não passavam de palavras vãs. Nem o CH pediu qualquer demissão ao governo que suporta.
Um estudo recente nos Estados Unidos da América afirma que 42,4% dos norte-americanos prefere um líder forte, do que uma democracia. Nos EUA. Como se chega a este ponto? Com situações como estas que só quebram ainda mais a confiança das pessoas. Que se valorize a transparência e por uma posição atenta e interventiva.
Quando se abordam as questões ideológicas, a geografia da nossa identidade política, somos confrontados com referenciais baseados em certas dimensões, sendo que a bússola mais comum se baseia nos eixos económico e social. Olhando para o nosso quotidiano, a vertente económica parece ganhar uma clara vantagem em termos de importância. Ora, isto não é mais do que o reflexo de crescermos já num sistema bem definido.
O facto de nos ser dito desde a nossa infância que precisamos de um bom emprego para ter dinheiro e ter uma vida estável é sintomático do papel central que a moeda ocupa na nossa sociedade. O esforço que empenhamos, primeiro nos estudos e depois no trabalho, é para recebermos papel e metal. Queremos poder pagar a renda, a comida, as despesas de saúde e educação, queremos estabilidade para a nossa família. O conceito de economia torna-se sagrado. É, portanto, natural que olhemos para a política e se categorize o pensamento em função da perspetiva com que aborda a economia.
Não quer isto dizer, no entanto, que o eixo social não interesse. Se ao falarmos de economia, estamos a falar de bem-estar, também é certo que o abordamos por via das liberdades individuais. No nosso quotidiano é evidente a existência de uma componente ideológica social muito forte. Desde logo temos a igualdade de oportunidades minada por preconceitos que levam a discriminações. A desigualdade de género ainda é um fenómeno bastante evidente, resultado de uma sociedade que tem em si enraizada a imagem de uma mulher recatada. Em Portugal, as mulheres ganham, em média, cerca de menos 11% que os homens, segundo dados de 2020. Mais de metade da população portuguesa são mulheres. Se olharmos para a Pordata, vemos que desde que eles têm dados, 1960, que este facto mantém a sua verdade. Num país constituído maioritariamente por mulheres, estas ainda são discriminadas. Mas não só. Num país maioritariamente constituído por mulheres, a violência doméstica faz dezenas de vítimas mortais todos os anos, resultando em horríveis feminicídios.
Os assuntos sociais são do nosso dia-a-dia e não dizem respeito só às minorias. A vertente social da ideologia política assegura as liberdades individuais, bem como os direitos. É ela que indica a nossa perspetiva sobre a igualdade dessas liberdades, sobre a moralidade de atos como o aborto ou relações entre pessoas do mesmo sexo. Estas temáticas ora dizem respeito a maiorias, ora a minorias. Todos nós estamos nelas inseridos. As questões da nossa privacidade, muito por via da segurança e defesa, estão intimamente relacionadas com esta vertente.
Na última semana temos assistido a um conjunto de artigos a marcar a agenda mediática portuguesa sobre as questões trans. Mais do que denunciar a transfobia, aquilo que quero alertar é para o caráter despersonalizante de como eles foram escritos. Falou-se de ideologias e causas como se elas não representassem pessoas. Agitam-se bandeiras sobre ideologia de género, como se não falássemos de pessoas de carne e osso que todos os dias veem a sua existência dificultada por uma sociedade que ainda não as conseguiu incluir dignamente.
É possível falarmos de aborto olhando simplesmente para um útero, sem pensar sequer na pessoa que o porta? É completamente desumano. Esta estratégia de pegarmos nas dores dos outros e trabalhá-las como melhor apraz a nossa agenda, ignorando por completo o sofrimento de pessoas reais é absolutamente repugnável e só merece o nosso desprezo.
Haja empatia!
Andamos nós pela nossa vida normalmente e a ignorar as crises que nos rodeiam. Crise climática? Crise social? O que é isso? Atravessamo-las há bastante tempo, com tantos avisos, tantas consequências visíveis e ainda mais consequências negativas por vir. Acabamos por ignorá-las, porque, em geral, somos privilegiados. Não vemos a pobreza logo ao lado da nossa porta. Não estamos propriamente a viver numa estufa. Mas quando falamos de covid, de guerra ou de sismos, aí sim já percebemos que existem consequências.
A pandemia fez-nos perceber que existem inimigos invisíveis. O mundo parou por algo que nós não conseguimos ver, mas vimos as nossas pessoas queridas a desaparecerem. Mais de vinte mil pessoas perderam a vida só em Portugal, mais de seis milhões no mundo. O vírus era inegável e as ações tiveram de ser tomadas. Alterou-se o quotidiano radicalmente para fazer frente a essa ameaça. Fomos capazes de mudar a forma como trabalhamos, como passamos o nosso tempo e, mais importante, fomos capazes de nos entreajudarmos nessa adaptação. Fomos capazes de ter um olhar empático. Quem não se comoveu com gestos simbólicos como aquele senhor a descer sozinho a Avenida da Liberdade no dia 25 de abril de 2020? Demonstra a nossa predisposição para nos solidarizarmos com o momento, para termos consciência da nossa própria vulnerabilidade.
Quando a pandemia parecia dar tréguas aparece uma mobilização bélica às portas da Europa. Parece o Universo a não querer dar-nos descanso. Mas a verdade é que não está na Ucrânia a única guerra neste mundo. Nós valorizamo-la porque está ao nosso lado. Porque crescemos a ouvir falar nas grandes potências mundiais. Rússia é um nome sonante e a Ucrânia é já aqui. Na prática, em que é que esta guerra nos afetou diretamente enquanto indivíduos? Agora aquilo que sentimos são os preços a subir. No entanto, a onda de solidariedade gerada para com os ucranianos foi esmagadora. E ainda bem. Reconhecemos que existem pessoas como nós fora da nossa comunidade e elas importam tanto como nós. Mas e então os sírios, por exemplo? Índia, Afeganistão, Paquistão, Egipto, Azerbaijão, Mianmar, Tailândia, Filipinas, Indonésia, Iémen, Nigéria, Burkina, Somália, Níger, Colômbia, são outros exemplos. Também são pessoas que estão a sofrer. Simplesmente elas não entram tão frequentemente no nosso telejornal.
Imaginemos que as partículas do ar fossem muito maiores, que as conseguíssemos ver. Vermos a cor do dióxido de carbono a aumentar. Vermos partículas a sufocar pessoas. Aí, sim, talvez, as alterações climáticas seriam algo crítico para nós. Ou então se fossemos morar para zonas afetadas. Se a nossa casa tivesse sido arrastada pelas águas, ou se tivesse sido engolida por movimentos de vertente. Os efeitos já existem, simplesmente ainda não chegaram a nós a toda a força. No entanto, não será sempre assim, teremos um litoral submerso, seca,…
São estes episódios que vivemos de entre ajuda e mudança que mostram que é possível nos unirmos e fazermos frente aos nossos obstáculos coletivos. Da mesma forma como lidamos com estas crises que nos entram pela casa dentro, que nos tocam enquanto indivíduos ou nas nossas emoções, da mesma forma como queremos que tudo corra bem em São Jorge, como queremos que os ucranianos tenham dignidade, precisamos de nos unir e exigir a resolução de problemáticas que requerem ações consideráveis. Temos de nos mobilizar contra as alterações climáticas. Contra a pobreza. Contra a exclusão. Juntos.
Se olharmos à nossa volta, percebemos que existe muito trabalho, muito empenho, muito esforço, empregue sem retorno financeiro ou uma compensação mínima. Muita gente despende do seu tempo para a comunidade, seja em entretenimento, voluntariado, ação cultural ou desportiva, defesa de causas, etc. Para isto é preciso realmente força de vontade.
Estamos sempre a reclamar dos jovens não se chegarem à frente para assumirem as rédeas ou, pelo menos, parte em movimentos ou entidades. Dizemos que eles não se importam com as tradições ou a comunidade. E este fenómeno pode ser generalizado, quando vemos essencialmente assembleias gerais das mais variadas entidades praticamente vazias. Poucas são as pessoas, em geral, que efetivamente avançam para algo.
Tendo este cenário em mente, é fácil pensar em como incentivos são possivelmente algo necessário a implementar e não falamos propriamente de implicações pessoais: as pessoas são egoístas, mas não assim tanto. Se houver condições decentes para termos os movimentos oleados, todas as tarefas ficam mais fáceis. Se os órgãos executivos apoiarem financeiramente, logisticamente, burocraticamente as associações, clubes, IPSSs,… devidamente, teremos um trabalho muito facilitado no que toca a desenvolver as competências a que se propuseram e, como tal, permitirá gerar uma fluidez na ação, trazendo e entusiasmando cada vez mais pessoas. Claro que um esforço estatal destes implica sempre um cuidado rigoroso na fiscalização para evitar benefícios pessoais e garantir justiça na distribuição das ajudas.
Não obstante, a verdade é que muita desta gente acaba não só por trabalhar de graça, como ainda cede o seu tempo. Por isso, faz sentido haver pequenos benefícios pessoais, algo que assegure a possibilidade das pessoas poderem conciliar as suas responsabilidades e competências laborais com o trabalho desenvolvido em regime de voluntariado. É assim que surgem, por exemplo, as épocas especiais.
Infelizmente, por vezes, vemos as pessoas em geral a denegrirem estas pequenas ajudas, associando-as a privilégios. E se é compreensível o argumento de que alguns beneficiários se aproveitam das artimanhas legais, a verdade é que a maioria parte dessas pessoas trabalha em prol da comunidade e é por isso que os tem. Existem estatutos como de dirigente associativo ou estudante-atleta justamente para garantir que a tal conciliação consiga tomar lugar de forma suave, atendendo às caraterísticas específicas da área em questão.
Um caso que escapa ao voluntariado, mas cujos benefícios são semelhantes, corresponde ao trabalho em part-time enquanto se estuda. Foi criado o estatuto de trabalhador-estudante, justamente para garantir que pessoas que necessitam de trabalhar para pagar os seus estudos que o possam fazer sem serem prejudicados pelo tempo alocado ao trabalho.
É, portanto, uma grande falha moral criticar quem realmente tenta fazer algo, quem escontra força de vontade de se chegar em frente. Trata-se, aliás, de uma invejo injustificada, uma vez que é completamente possível qualquer pessoa ter acesso a esse tipo de estatutos: basta fazer algo. Obviamente que numa sociedade como a nossa que as pessoas são sugadas pelo trabalho, pouco tempo resta para outras atividades, mas, regra geral, são as mais desocupadas que atiram mais postas de pescada.
Que se valorize a força de vontade, a cooperação e a fraternidade, em vez de soundbites ocos. Infelizmente, o nosso sistema tal como está, promove a conversa de tasca.
Hoje trago aqui, de novo, a visão de um universitário: de um estudante mariense deslocado no Porto no seu segundo ano de Física. Na semana passada, perto esteve a possibilidade de regressar aos Açores antes da época de recurso, por sentir que de pouco valeria tentar.
No ensino superior temos os cursos constituídos por cadeiras, tal como no ensino obrigatório, sendo que estas disciplinas, chamadas unidades curriculares, assumem diversas formas: podem ser tidas em salas de aula, em laboratórios, em salas de informática, em plataformas onlines,… Sendo que cada unidade curricular pode estar subdividida em modalidades como aulas teóricas e teórico-práticas ou laboratoriais. Tudo isto decorre das especificidades do tema abordado em cada uma. No curso de Física, por exemplo, grande parte das cadeiras têm um caráter mais teórico, então cada uma está divida em aulas para dar matéria e aulas para fazer exercícios. Desde já, por toda esta diversidade nas questões pedagógicas, podemos inferir como o ensino superior se configura mais complexo do que o elementar (o que nada tem de revelar sobre a sua qualidade necessariamente).
Obviamente que no meio de toda esta diversidade em termos de lecionação de aulas, temos todo um mundo de métodos de avaliação. Os docentes têm a possibilidade elementar de só realizar um exame, justamente na época de exames que decorre no final de cada semestre, como pode optar por indo fazer testes, chamadas frequências, ou trabalhos, ou fichas no final de cada aula, ou relatórios,… Eu tive uma cadeira de laboratórios cuja avaliação dependia de: relatórios semanais, havendo um com maior peso, um relatório específico e uma atividade individual em laboratório. Isto só para uma cadeira. Desta forma, temos avaliação ao longo do semestre e/ou na época de exames. Se envolver a primeira opção, chamamo-la de contínua.
Tal como no ensino obrigatório a avaliação é o centro do sistema, configurando um forte fator de pressão sobre os estudantes. Somos confrontados com uma quantidade gigantesca de informação e, de algum modo, temos de conseguir memorizar ou manobrar. Diz o ditado que quem corre por gosto não cansa, mas a verdade é que entrei no meu curso por adorar Física e, no entanto, o cansaço faz-se mostrar. A minha experiência é comum a muitos outros. Não perdemos propriamente o gosto aos temas, no entanto temos de os esmiuçar de tal forma para termos um número numa pauta que acabamos desmotivados. Somos robôs a debitar informação.
Em regra, o ensino superior é sempre mais complicado e é um choque principalmente quando não temos métodos de estudo. Mesmo quem entra com notas bastante aceitáveis na universidade, acaba a batalhar por um 10. Nada é impossível e obviamente que com esforço e dedicação conseguimos atingir os nossos objetivos. Contudo, é impossível contornar o transtorno e frustração que esse embate nos traz.
Daquilo que tenho conhecimentos, nos cursos de matemática e de física existe uma quantidade preocupante de pessoas que acaba por sentir sintomas de ansiedade e depressão. Eu próprio já senti necessidade de recorrer aos serviços do gabinete psicológico da faculdade. Existem taxas de reprovação e de desistências elevadas.
Muitas vezes, com o objetivo de preservar a sanidade, opta-se por acrescentar um ano ao curso, de forma a aliviar o trabalho por semestre. É bom termos a noção de que de nada serve termos um diploma se estivermos completamente esgotados. O tempo não volta atrás.
Constantemente nos dizemos que somos todos diferentes, tal como dizemos que somos todos iguais. Somos diferentes pela personalidade, pela genética, e iguais na conação, nas nossas necessidades e lugar numa comunidade. Como a única realidade que conhecemos é a nossa, aquela em que somos o seu centro, tendemos a avaliar tudo o resto através do nosso umbigo.
Esta perspetiva autocentrada é, portanto, algo natural já que não nos é possível mudar de posição, quer corpo, personalidade, ou vida para experienciar a realidade de forma diferente. Resta a capacidade de nos tentarmos compreender, através da empatia. Não temos a obrigação de ajudar toda a gente, mas podemos ser sensíveis ao ponto de não fazer pior. Não temos de tomar as dores dos outros, mas pelo menos reconhecê-las. Todos procuramos a felicidade e, independentemente de qualquer circunstância ou personalidade, todos temos os nossos problemas.
Cada pessoa que vemos na rua sente tal como nós, vive tal como nós. É confrontada diariamente com expectativas, com obstáculos. Eles não nos doem, porque não são nossos, mas, da mesma forma que os nossos nos magoam, magoam outros. Nunca sabemos o que alguém está a passar. É fácil pensarmos como em determinados momentos somos a pessoa mais infeliz do mundo: mesmo que pela negativa, esta é uma valorização pessoal que surge justamente por vermos em nós o centro do universo.
Obviamente que nem sempre a empatia existe. Desvalorizamos a fraternidade. E quando damos por nós, estamos sozinhos nas nossas lutas. Sim, causas políticas estão aqui incluídas.
Ainda há uns dias aquilo que parece impensável aconteceu: o Supremo Tribunal dos Estados Unidos da América anulou a decisão do Roe vs Wade, um caso jurídico de 1973 que assegurava o direito ao aborto, segundo a vontade da grávida. Quando por todo o globo aquilo que se veem são passos para maximizar a liberdade e assegurar os direitos das mulheres, que são direitos humanos, temos a suporta terra da liberdade, o suposto farol da democracia, a recuar meio século.
O Supremo Tribunal é composto por nove juízes, sendo que só três são mulheres. Trata-se de um terço. Só uma mulher votou favoravelmente à revogação do direito ao aborto. Existe um peso de homens conservadores que torna qualquer atentado ao progresso possível: o casamento homossexual ou a contraceção virão a seguir como um dos juízes deu a entender? Isto acontece justamente porque estas pessoas claramente têm uma falta de empatia estrondosa, são movidos por uma agenda opressora, que, ou por medo do progresso ou por necessidade de dominação, parece estar cada vez mais acentuada e radicalizada após quatro anos de Trump.
É grave percebermos que há mulheres norte-americanos hoje com menos direitos do que as suas avós. É assustador percebermos que nada está garantido. Se hoje fechamos os olhos, porque não temos útero, quando acordamos amanhã é à nossa porta que estão, há de chegar a nossa vez, mais cedo ou mais tarde.
Existe uma defesa pelos direitos humanos, pela democracia, que tem de ser feita todos os dias. Cabe a todos nós tomar uma posição, quer seja institucional (cuja unidade básica é o voto), quer nas ruas, nas petições. Não podemos desprezar os problemas dos outros por não os termos, quanto mais não seja, porque também temos os nossos e vamos precisar de ajuda.
No nosso dia a dia somos confrontados com todo um conjunto de preconceitos e tabus, enquanto vemos ou pensamos, nem que seja inconscientemente. Para o bem e para o mal temos uma matéria cultural em nós que faz parte da nossa identidade, sendo o reflexo da sociedade em que estamos inseridos. Ou seja, se vivermos numa sociedade estruturalmente racista e machista, notaremos em nós traços discriminatórios, nem que seja numa análise mais crítica e rigorosa, como na forma como simpatizamos com desconhecidos. E sim: um gay é também um homofóbico em desconstrução, por exemplo.
Desta forma, temos na nossa cabeça uma programação que nos faz evitar temas para fugir do desconforto. Uma temática que sofre extremamente com tabus é toda aquela envolta na sexualidade. Falarmos à luz do dia sobre sexo é tão desconfortável como ir comprar preservativos. Isto é obviamente um problema: contraceção, orientação sexual, identidade de género, saúde menstrual, doenças sexualmente transmissíveis, abusos sexuais, regulamentação da prostituição; são tudo temas empurrados para debaixo do tapete, não havendo qualquer visibilidade.
Torna-se, pois, complicado legislar sobre estas matérias, tendo em conta o receio da opinião pública, sendo evitados para evitar polémicas. Felizmente há várias forças políticas com menos correntes no pensamento e receios eleitorais que foram capazes de abrir caminho para hoje termos regulamentação sobre assuntos que nos dizem respeito a todos.
Além destes assuntos tão sérios como são as questões de saúde ou matérias criminais, como os abusos sexuais, existe um lado igualmente importante que está a ser igualmente evitado: o simples prazer.
Mesmo quando não o queremos ver ou pensar: nós somos animais. Olhar para um gato ou um humano tem muito de semelhante no seu comportamento: desde os seus tiques, às suas necessidades. Um olhar curioso, um sobressalto assustado, uma postura traquina, um bocejo, a fome, a carência, o instinto materno, a necessidade de dominação. E claro: a necessidade sexual. Os animais são até mais puros no que a isso concerne, já que a nossa vantagem evolutiva está essencialmente na possibilidade de pensarmos racionalmente de forma complexa, sendo que esta vantagem faz com que peguemos em tudo aquilo que nos dá prazer e amplifique de forma que da necessidade de por comida na boca, acabamos a falar de estrelas Michelin e que da nossa necessidade de reproduzir a espécie acabamos a falar de dildos.
E esses prazeres fazem-nos sentir bem. Melhoram o nosso estado de espírito, estreitam relações. A vantagem de vivermos em comunidade é a possibilidade de viver em vez da simples sobrevivência. Foi a exploração do homem pelo homem, que nos levou a esquecer que o trabalho é uma forma de cada um ser útil à comunidade, havendo uma cedência de tempo e esforço de cada indivíduo para o coletivo ter os bens e riqueza necessários para satisfazer as necessidades de todos.
Vivemos numa sociedade que satura de trabalho, muitas vezes trabalho que transfere riqueza em vez de criar, constituindo um desperdício de recursos, que só permite aumentar fossos entre pessoas. Essa saturação não nos permite aproveitar os prazeres da vida, remetendo o trabalhador a um estatuto de máquina, com a preocupação constante de ter comida na mesa para a família. Precisamos de prazer na nossa vida. Precisamos de tempo para falarmos de pénis e vaginas. É urgente ser feliz.
Chegou junho e, como tal, o mês do orgulho LGBT+. Aproveito este espaço ara republicar um texto que me parece tão pertinente agora como antes. Este mês foi instituído como forma de promover a visibilidade da defesa da igualdade de direitos para toda e qualquer pessoa independentemente da sua orientação sexual e da sua identidade de género. Nesta altura há que saber topar o oportunismo.
Esta é uma altura do ano que serve para consciencializar e sensibilizar para a diferença e mostrar aos diferentes que existe um espaço para eles. Até porque, no fundo, acabamos por ser todos iguais. Pelo menos todos ambicionamos o mesmo: a aceitação.
Ser LGBT+ nas ilhas não é tipicamente fácil. Existem dois problemas principais: os estereótipos que se vão perpetuando e a imprevisibilidade. Por um lado, crescemos em escolas onde é normal ouvir crianças a chamar a outras de «gay» com um intuito pejorativo e, por outra, a existência de poucos exemplos de pessoas comuns abertamente LGBT+ que possam demonstrar ser possível viver a vida verdadeiramente e em segurança.
Vivemos em meios pequenos, por isso mesmo ser marginalizado é fácil. Ser olhado de lado é algo com que se pode contar, até pelo conservadorismo que ainda existe. Quer isto dizer que os Açores são homofóbicos? Não necessariamente. Só ainda não existiram pessoas LGBT+s suficientes a serem-no abertamente de forma a perceber-se a reação e a criarem-se modelos que permitam mostrar aos jovens LGBT+s que aqui podem ter um futuro e aos menos jovens LGBT+s que, finalmente, se podem sentir completos nas suas ilhas. Quero com isto afirmar que todos os LGBT+s das ilhas devem pegar num megafone e irem para as ruas? Nada disso. Cada um vive como quer. Ninguém deve sentir-se obrigado a expôr-se, mas também ninguém se deve sentir obrigado a esconder-se. O objetivo é simples: a reação a casais homossexuais ser a mesma dos casais heterossexuais, o direito à indiferença. A possibilidade de ser demonstrado afeto em público. Mas é necessário alguns darem esse passo para desbravarem caminho.
Foi com esse espírito que, no aniversário da revolta de Stonewall de há dois anos, fiz eu próprio a minha saída do armário. Nós existimos e não somos poucos. Simplesmente estamos contidos nos nossos círculos pessoais mais íntimos por não sabermos se a nossa comunidade nos aceita. Como alguém politicamente ativo sinto-me com a missão de tomar uma posição e afirmar que efetivamente existe um lugar para nós que é, justamente o lugar de qualquer outro.
Ainda existe muito por fazer, principalmente em termos de mentalidades e, por isso mesmo, têm lugar as marchas. Que se note que a agenda mediática e política não é marcada por um só assunto: é possível trabalhar sobre várias temáticas ao mesmo tempo. Não queremos ter destaque e ter mais direitos que alguém, mas antes afirmar que existimos. É muito fácil afirmar-se que não existe homofobia num local, mas se nesse local não existirem pessoas abertamente LGBT+ como se pode inferir isso? Com que base? As marchas servem para consciencializar pessoas não-LGBT+, mas têm a importante missão de dizer a pessoas LGBT+ que não estão sozinhas.
Trabalhemos para construir um mundo onde ninguém tem de afirmar a sua sexualidade, mas simplesmente vivê-la. Onde é tão normal e fácil ser LGBT+ como é ser heterossexual e cisgénero. Não estarão todos os problemas da humanidade resolvidos, mas sempre podemos riscar um. E é tão atingível essa realidade mais colorida, unida e feliz: basta todos querermos.
Olhamos para o nosso quotidiano e facilmente identificamos uma onda de descontentamento e desvalorização. Ao nosso redor impera darmos por garantidas pessoas, objetos, regalias, facilmente vemos críticas negativas a ações, tomadas de posição, decisões de qualquer índole. As redes sociais são a demonstração de como é fácil depreciar.
Numa comunidade é preciso termos consciência do que está mal, mas também do que está bem. Corrigir o mal, melhorar o bem sempre que possível. Apontar o que se tem de corrigir, mas saudar os bons paradigmas. O reforço positivo é importante, trata-se de um feedback que pode ajudar a perceber a melhor forma de se fazer algo, como também se traduz numa motivação extra para se fazer esse algo, principalmente se o sujeito nada tinha a ganhar ao fazê-lo.
Não percebo de onde vem a nossa dificuldade em expressar elogios. Talvez inseguranças pessoais? Achar que elogiar algo externo é um rebaixamento pessoal não faz sentido. A verdade é que das elogias é mais desconfortável do que fazer críticas. Parece existir uma competição interiorizada, o que não é estranho já que a nossa sociedade está orientada para ela. Na escola olha-se às, nos empregos olha-se aos salários, tenta-se continuamente seriar e medir pessoas. Então, no meio disto, acabamos por nos sentir vulneráveis com reconhecer o sucesso de alguém.
Focados nesta temática podemos falar de muitas áreas: valorizar quem nos rodeia, elogiar o trabalho, as ações, as ideias, as conquistas, as ações e decisões tomadas.
É provavelmente no mundo da política que mais facilmente assistimos ao fenómeno da crítica, seja ela construtiva ou não (infelizmente na maioria das vezes parece imperar a crítica vazia e desnorteada). Facilmente colocamos na borda do prato as decisões que nos parecem descabidas, sendo muito menos provável vermos alguém a apoiar as medidas sem ser por clubismo. Elogiarmos boas decisões pode levar a que os nossos políticos percebem que existe apoio e vontade popular numa dada direção.
Não obstante, acho muito mais interessante olhar para esta ideia num contexto íntimo, nas nossas relações interpessoais. Numa conversa parece ser mais fácil criticar terceiros do que elogiá-los, lá está. Mas além disso há outra questão muito importante: valorizar quem está ao nosso lado. Será que aqueles que nos aturam, que demonstram interesse, que se preocupam e estão indubitavelmente presentes sabem que são por nós valorizados? Será que nós os valorizamos? Será que a lealdade, a empatia, a cedência e o compromisso são valores importantes?
Estou certo de que as pessoas são o pilar da nossa felicidade, que tudo gira em torno das relações interpessoais, quanto mais não seja porque enquanto comunidade dependemos uns dos outros, mas também porque queremos naturalmente a integração e aprovação. Por isso mesmo, é de extrema importância sermos capazes de filtrar as relações que nos são desvantajosas, mas também de agradecermos e retribuirmos a quem nos faz bem.
Palavras são simples de usar e podem fazer toda a diferença. No mínimo é um sorriso, no máximo é o estreitar de relações para uma causa comum. Ninguém muda o mundo sozinho, há que saber entrelaçar as mãos.
Temos de erguer a cabeça e encarar a realidade tal como ela é, nos seus tons quentes e frios, olhando para os seus altos e baixos. Haja ânimo!
Às vezes, uma pessoa nem imagina o que vai acontecer a seguir. Fomos mergulhados numa pandemia à lá ficção científica e agora temos uma guerra às portas da Europa que já se prolonga por meses. A História humana tem vários exemplos de períodos semelhantes, sendo que no século passado podemos encontrar aqueles que ainda estão na memória coletiva, apesar de se terem esbatido. Tivemos a peste espanhola e as guerras mundiais. Quando estamos neste mundo e vivemos em tempos tão decisivos, é preciso realmente ter esperança.
Que não se engane o leitor, esperança não é ficar sentado a rezar, é manter os objetivos debaixo do olho e motivar para os atingir.
Não é por estarmos no meio de algo que nos pareça confuso, complicado, fantástico ou sobrecarregados pela realidade, que não exista uma saída ao fundo do túnel. E uma que nos deixe melhor do que quando começámos. Não é por temos problemas que o tempo para, podemos olhar para o passado e traçar paralelismos, perceber o que pode eventualmente funcionar. Sendo que as crises exigem adaptações, mudança, é nelas que existe a necessidade de reformas estruturais. As crises são oportunidade de endireitar o sistema, pelo que devemos ser capazes de perceber quais as lições e as mudanças a conservar e explorar.
A pandemia trouxe um esforço acrescido na digitalização dos serviços, na facilitação do seu acesso através de um clique. Esta mudança, que era já uma tendência, foi estimulada como nunca o fora. Termos aulas à distância permitiu perceber que é possível diminuir as resmas de papel que se entregam aos alunos, incentivou à busca de novas ferramentas e novos métodos de ensino. Claro que também deixou um grande impacto negativo pedagogicamente falando, por isso é necessário separar o trigo do joio. Temos centenas de aulas gravadas pela televisão pública, por exemplo.
Mesmo procedimentos, como o pagamento das compras, agilizou-se com tecnologia contactless. Hoje saímos de casa só com o telemóvel e podemos fazer praticamente tudo aquilo que queremos.
Num momento de cedências e sacrifícios, mostrámos empatia e união, conseguindo passar através de uma pandemia sem paralelo em termos de dimensões. A nossa vida mudou.
Com uma guerra às portas da Europa e que nos faz pensar nas Guerras Mundiais, fomos capazes de demonstrar solidariedade. Existem tantos conflitos no mundo, tanta gente a sofrer, mas como não estão propriamente no nosso campo de visão, tendemos arrogantemente a ignorá-los. Não obstante, estes acontecimentos podem bem ser um ponto de partida para a reconfiguração de acordos internacionais. Uma nova União Europeia pode sair daqui, por exemplo. Esperemos que seja uma mais unida e democrática, comprometida com a segurança e bem-estar dos europeus. Este é também um teste para as Nações Unidades. Guterres é o homem do leme que vê um dos membros do Conselho de Segurança a invadir um país.
Olhamos para as redes sociais e vemos poderosos veículos de comunicação, que servem de megafones para inúmeras causas. Também olhamos para elas e vemos desinformação e manipulação. Um dos desafios da educação de hoje constitui dar ferramentas para se averiguar a veracidade da informação que se obtém. Estarmos bem-informados, pensarmos pela nossa cabeça e fazer aquilo que consideramos correto.
Temos nas nossas mãos um mundo complicado, crises que nos impactam. Precisamos de mudar estruturalmente, de forma ponderada e participativa. O envolvimento na comunidade é um estímulo à motivação coletiva e o motor da esperança.
Em 2015 a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução com 17 objetivos para serem atingidos em 2030.
Para que serve um artigo-aula? Para expor algo tão bonito como a concordância internacional para tornar o nosso mundo um lugar melhor. Existe um guião para o desenvolvimento sustentável e é preciso lembrá-lo para que os nossos governantes olhem para ele e façam o melhor para o seguir.
De seguida elenco os vários objetivos, tendo sempre em mente que eles se desdobram em indicadores, por exemplo, um indicador do “Trabalho decente e crescimento económico” é “Sustentar o crescimento económico per capita de acordo com as circunstâncias nacionais e, em particular, um crescimento anual de pelo menos 7% do produto interno bruto [PIB] nos países menos desenvolvidos”.
1 - Erradicação da pobreza: acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares.
2 - Fome zero e agricultura sustentável: acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar, melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável.
3 - Saúde e bem-estar: assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades.
4 - Educação de qualidade: assegurar a educação inclusiva, equitativa e de qualidade e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos.
5 - Igualdade de género: alcançar a igualdade de género e empoderar todas as mulheres e meninas.
6 - Água limpa e saneamento: garantir disponibilidade e utilização sustentável da água e saneamento para todos.
7 - Energia limpa e acessível: garantir acesso à energia barata, confiável, sustentável e renovável para todos.
8 - Trabalho decente e crescimento económico: promover o crescimento económico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todos.
9 - Inovação infraestrutura: construir infraestrutura resiliente, promover a industrialização inclusiva e sustentável e fomentar a inovação.
10 - Redução das desigualdades: reduzir as desigualdades dentro dos países e entre eles.
11 - Cidades e comunidades sustentáveis: tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis.
12 - Consumo e produção responsáveis: assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis.
13 - Ação contra a mudança global do clima: tomar medidas urgentes para combater a mudança climática e seus impactos.
14 - Vida na água: conservação e uso sustentável dos oceanos, dos mares e dos recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável.
15 - Vida terrestre: proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, deter e reverter a degradação da Terra e deter a perda da biodiversidade.
16 - Paz, justiça e instituições eficazes: promover sociedades pacíficas e inclusivas a par do desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis.
17 - Parcerias e meios de implementação: fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável.
Existe um site onde se pode averiguar a evolução destes indicadores: https://sdg-tracker.org/, sendo que o site do relatório da ONU de 2021 também possui variadas estatísticas: https://unstats.un.org/sdgs/report/2021/.
Para saber mais sobre o assunto, pode vir aqui: https://ods.imvf.org/.
Vivemos numa cultura de expectativas. Elas são criadas pela nossa comunidade, sendo, de algum modo, interiorizadas e tornadas nosso património.
Vimos ao mundo e já temos um caminho idealizado: crescer, estudar, trabalhar, reformar. Tendo em conta que estamos inseridos numa comunidade, faz sentido que desde o início haja um local onde nos podemos inserir, ocupar o nosso espaço. Se queremos viver num coletivo, temos de fazer cedências e criar regras. Não obstante, essas expectativas devem refletir uma sociedade justa e que respeita a individualidade.
Atualmente, vivemos num sistema que continua a ser tóxico, uma vez que coloca entraves à tal justiça e individualidade. Felizmente, a tendência com o tempo é, regra geral, a melhoria, no entanto os retrocessos não são impossíveis e a velocidade da mudança depende de nós.
Olhamos para qualquer fase das nossas vidas e apercebemo-nos que a competição assume um papel central. Na escola ordenam-se pessoas e atribuem-se números o que nos faz, desde logo, habituar à ideia de seriação e meritocracia. Temos os olhos postos em nós para perceber o que fazer depois: enveredar no mundo do trabalho, onde se move pela chantagem do dinheiro, ou continuar os estudos, o que, por norma, é visto como mais prestigiante, adiando a entrada no mercado de trabalho, mas potencialmente aumentando o número que corresponde ao valor monetário do indivíduo.
Somos educados como meretrizes de números, que devem fazer sempre o melhor, não porque é o melhor para a comunidade, mas para receber o máximo possível. A cultura da ânsia pelo dinheiro é claramente justificada: no sistema em que vivemos é impossível viver dignamente sem o ter. Queremos o melhor possível para nós e para os nossos, nem que para isso tenhamos de passar uma vida num trabalho que não faz sentido. Há um equilíbrio entre trabalho e lazer que tem de ser melhor definido, tal como aquele entre um trabalho útil e um desnecessário.
Temos de ser capazes de educar para um desenvolvimento pessoal, onde cada um se permita ser, conhecer o que o rodeia e que valorize o esforço para o bem comum. Temos de deixar cair certas expectativas e preconceitos que só levam os jovens perderem-se do seu rumo: a universidade não tem de ser o caminho, não é preciso ganhar o máximo para ser feliz, querer trabalhar menos não é ser malandro, o salário ao final do mês não justifica tudo, as vidas não são perfeitas.
Quando formos capazes desta utopia teremos pessoas mais felizes e, por consequência, com uma maior disposição para trabalhar melhor.
Estas questões de expectativas agravam-se hoje em dia com o mundo digital. Por um lado, sentimos a pressão das redes sociais, por outro lado estamos ligados mais ligados ao trabalho. A possibilidade de termos um vislumbre das vidas alheias faz-nos questionar sobre as nossas, sendo as redes sociais um antro de fachadas, onde se instala uma competição de felicidade fingida. A facilidade de sermos contactados pelo trabalho, principalmente depois da normalização do teletrabalho, torna a fronteira com a vida pessoal mais ténue.
Precisamos de novas expectativas para a nossa sociedade, de nos valorizar pessoalmente e de deixar de nos medir pelos números ou pelos vizinhos.
Há dias que não se faz ideia sobre o que se pode escrever. Há sempre o medo de ficarem para aqui palavras soltas sem jeito. Há a responsabilidade de trazer temas pertinentes e que acrescentem algo. Pessoalmente, acabo a pensar no meu dia e no que penso que pode ter valor. Penso nas atividades, nas conversas. Hoje fiquei a pensar sobre o valor das coisas.
Uso coisas da forma mais geral possível. Podemos falar de bens materiais: aquele pano bordado pela nossa avó, aquela santa em cima da cabeceira, uma aliança no dedo, uma nota de dinheiro. A literalmente todo o objeto podemos atribuir valor, sendo essa uma caraterística humana: uma dimensão simbólica capaz de associar ideias a algo físico. Como tentei mostrar na enumeração, essa valoração pode ter uma natureza sentimental, tal como pode ser uma convenção como o dinheiro que usamos, sendo, portanto, o nosso quotidiano uma série de simbolismos. Se fossemos visitados por extraterrestres provavelmente a esmagadora maioria destas coisas passariam despercebidas.
Podes adicionar a esta conversa a valoração dos atos: os beijos, os abraços, o ceder a passagem, o vestir um casaco de alguém, um punho fechado no ar. Existem convenções como as saudações, mas também ações que se têm com um determinado objetivo. Não tenho qualquer autoridade na matéria, mas parece-me que quanto mais pequenos são os atos e subconscientemente os fazemos, os tornamos mais puros em intenções.
As coisas mais insignificantes têm sentido para alguém, nem que seja uma pessoa. Isso tem tanto de bom como de mau. Tanto podemos fazer alguém se sentir bem, como mal. Muitas vezes as relações interpessoais baseiam-se em valorar algo: seja um gosto em comum ou uma forma de agir. Sejamos românticos por umas linhas e pensamos na linguagem do amor: podemos expressá-lo passando tempo de qualidade, dando ofertas, através do toque, da entreajuda ou de palavras afetuosas. Uns de nós valoramos mais algumas destas coisas que outras e isso depois tem impacto numa relação: se duas pessoas tiverem linguagens distintas, terão de fazer um esforço de comunicação muito maior. Claro está que podemos aplicar a qualquer relação interpessoal, aplicando outros níveis de intensidade e expectativas.
De que interessa esta conversa da valoração das coisas? Trata-se de estabelecer prioridades e a política é a arte de estabelecer prioridades. Nós valoramos causas. Temáticas. Problemas. Temos de perceber aquilo que valoramos para perceber quem somos e para o que queremos ir. Temos de perceber que a valoração é relativista, sendo altamente individual, em muito influenciada pela cultura. Não podemos esperar que sejamos todos iguais, e ainda bem que assim não o é: temos a oportunidade de enriquecer o nosso debate com várias perspetivas e aceder a problemáticas que ficam escondidas em minorias, mas também em maiorias enfraquecidas.
Parece-me interessante notar que esta caraterística de valorar as coisas é maior quanto mais novos somos, vive-se tudo mais intensamente. Desde um desgosto amoroso a sair à rua para festejar o 25 de abril, tudo é mais vivo, provavelmente motivado por uma sede de viver própria de quem quer experimentar o máximo que pode enquanto pode. É fácil de motivar os jovens para fazer algo. O movimento ambientalista demonstrou que os meios de manifestação fora do sistema (e.g. fora de partidos políticos) podem ser fortes. Temos de canalizar isso para as nossas instituições democráticas.
Mas primeiro, temos de saber o que valoramos na nossa vida.
Ao longo dos tempos vão sendo desenvolvidas tradições e hábitos que enriquecem as culturas. Os Açores não são, claro está, uma exceção: umas mais antigas, outras mais recentes, temos os nossos próprios costumes.
No passado domingo, dia 1 de maio, celebrou-se o Dia do Trabalhador, mas também o dia dos maios. A origem desta tradição não é necessariamente linear, estando ligada a lendas, mitologia e o mundo rural. Enganar o rei Herodes e assinalar o fim do tempo frio são hipóteses. Por todo o país se encontram vestígios desta tradição, se bem que no Algarve temos os típicos bonecos às portas das casas. Devem ter sido justamente os algarvios a trazer essa prática para os Açores. Neste dia, podemos apreciar os bonecos à escala humana acompanhados por quadras satíricas.
Não obstante ao quão bem soa esta imagem de criação artística, mas também de entretenimento e fraternidade na sua construção entre família e amigos, a verdade é que cada vez menos se vêm maios pelas ruas açorianas. Eu próprio, que só tenho 20 anos, lembro-me de em criança percorrer de carro as ruas marienses para apreciar os bonecos e o trabalho que está por trás, lembro-me de o passeio durar a tarde toda e ainda assim faltarem maios. A cada ano que passou, menos pessoas faziam os maios.
São várias as entidades que ao longo do tempo têm vindo a promover concursos para incentivar a continuidade desta tradição: Câmaras Municipais, como a da Lagoa, mas também entidades governamentais, como a Associação Juvenil, a AJISM, em Santa Maria.
Justamente pela experiência na AJISM, acompanhei de perto esta atividade em terras marienses. Só se inscreveram para concurso quatro pessoas. Quatro. Sendo que foram poucos mais aqueles que se deram ao trabalho de fazerem o maio sem se inscreverem. Santa Maria parece estar a atingir um mínimo nesta tradição.
Como sempre atualmente, podemos tentar culpar o covid. Tínhamos uma tradição já em decréscimo de adesão e com dois anos na ausência de incentivos, houve uma desmoralização. Estamos na fase de desconfinamento e se existe momento onde as pessoas deveriam estar sedentas de vida seria agora. Cada vez mais podemos fazer a nosso quotidiano segundo os padrões pré-pandemia. E, no entanto, aquilo que parece é haver uma certa inércia. Não obstante, este fenómeno ocorre em domínios já anteriormente em declínio, sendo que eventos como a Corrida 25 de abril (em Santa Maria) e, presumivelmente, as sopas de império conseguem manter e até aumentar, a sua participação.
Ou seja, há uma sede pelo convívio comunitário, como seria de esperar tendo em conta as medidas de proteção individual tomadas. No entanto, tudo aquilo que implique trabalho acaba posto de parte. Mais uma vez temos aqui o estrangulamento de uma atividade que enriquece a nossa vivência, porque temos uma vida orientada pela carreira profissional: se é isso que ocupa a nossa mente a maior parte do tempo, então é normal que no restante, se existir, se queira descansar. Num sistema capitalista como o nosso a questão profissional advém da necessidade de amontoar dinheiro para sobreviver e viver. Quando vemos o preço de tudo à nossa volta a aumentar, torna-se difícil pensar em mais algo do que, no mínimo, manter o padrão de vida.
Temos de conseguir enquanto comunidade equilibrar o trabalho com o entretenimento, de forma a vivermos numa sociedade funcional, mas também culta e rica. Quero voltar a passear numa Santa Maria cheia de maios, com as suas quadras afiadas.
Ontem celebrámos o 25 de abril e, portanto, torna-se impossível não mandar nenhum bitaite sobre isso. Trata-se de uma data incontornável no nosso país e, portanto, feriado nacional, no entanto, como qualquer feriado, acaba por ver o seu significado subterrado pela alegria de mais um dia de descanso.
Todos nós somos o produto de abril, na medida em que não nos sentimos limitados na nossa ação. Vivemos em liberdade. Apesar de estarmos sujeitos à legislação e ao julgamento público, a verdade é que existe uma indiscutível margem de manobra para sermos fiéis a nós próprios e fazermos o que entendemos.
As comemorações têm consistido essencialmente nos habituais e indispensáveis discursos na Assembleia da República, bem como na marcha que enche a artéria de Lisboa. Um pouco por todo o país se tenta assinalar a data com diferentes estratégias: exposições, concertos, competições, eventos desportivos,… Em alguns municípios temos os eleitos locais a terem igualmente tempo de antena, o que faz todo o sentido. Deve haver um esforço para conseguir conciliar a memória, a política e o entretenimento. 25 de abril deve ser um dia marcante do calendário.
São 48 anos desde 25 de abril de 1974. Quanto mais tempo passa, menor é a memória sobre os eventos, sobre a vida pré-revolução. Quanto mais tempo passa, mais fácil é tomar a liberdade e a democracia como garantidas. Quanto mais tempo passa, novas gerações surgem a ouvir falar de um passado cada vez mais distante. Esse afastamento deve preocupar-nos, principalmente quando vemos movimentos extremistas conservados a surgirem em força no panorama político internacional, mas também nacional. Que se note que segundo estudos realizados, existe uma boa percentagem de jovens a dar força a este tipo de partidos de extrema-direita. Como a segunda guerra mundial está longe da Europa e o Estado Novo de nós, tendemos a esquecer as atrocidades vividas. Longe da vista, longe do coração. É, pois, imperativo, assinalarmos o 25 de abril de forma mais completa possível: tornando-o um dia aprazível, mas também de memória e educação.
É a nossa democracia quem agradece, é o garante de que os nossos netos poderão viver numa sociedade plural e justa.
Disciplinas como História e Filosofia ajudam-nos a perceber que existem realidades e perspetivas muito diferentes daquelas em que vivemos e pensamos, revela-nos a possibilidade de uma vida pior ou melhor. É uma missão da educação a preservação da democracia, que se faz não só através da pedagogia direta das aulas, mas também da proatividade dentro da comunidade, através das instituições, da participação nos processos eleitorais, sejam eles quais forem, uma vez que se regem pelo mesmo espírito democrático.
Não obstante, é tarefa também e cada um de nós preservar este património comum que é a liberdade. Cabe-nos ser parte ativa na nossa democracia, sendo que para isso temos, no mínimo, de fazer algo tão simples como votar. Votar é, aliás, uma justa homenagem a todos aqueles que lutaram por esse direito. Aquilo que não ajuda é um discurso pessimista sobre o mundo político, sejam políticos, partidos ou instituições. O que queremos passar entre gerações é o amor à democracia e não o ódio à política.
É urgente valorizar o dia 25 de abril, esperemos que as comemorações dos 50 anos tragam um renovado espírito de celebração e incentivem a uma maior mobilização.
Com as tréguas que a covid nos vai dando, torna-se possível ir retomando algumas atividades adiadas por anos. Na minha família temos a tradição de sair de Santa Maria pelo menos uma vez por ano para servirmos de turistas. Decidiu-se que este era o ano de sairmos, já que a última vez que o fizemos foi em 2019.
Assim sendo, aproveitámos a semana das férias da Páscoa para passar quatro dias em Madrid, um em Toledo e mais três em Peredo de Bemposta para visitar a minha madrinha. Como curiosidade fica o meu encontro com um terceirense em plena noite madrilena, que foi passada a ver uma procissão da Semana Santa. Há açorianos em todo o lado e o mundo, em alguns aspetos, é efetivamente pequeno.
No entanto, aquilo que pretendo aqui trazer fica do nosso lado da fronteira, no nosso interior continental. Estes três dias em Peredo de Bemposta fizeram-me recordar e conhecer a realidade vivida nesta aldeia de Trás-os-Montes, mas que se repete nos locais fora do litoral urbano.
De curva e contracurva parte-se do Porto, vai-se a Vila Real, Vila Flor e Mogadouro, sempre com o Douro à espreita. Aquilo que se vê pela janela é um mar de verde. Oliveiras e amendoeiras nos campos com imensos matos em redor. Existem as cidades, as vilas, as aldeias e os lugares. Quanto mais pequeno é a localidade, mais parece uma ilha. Não foi difícil ver no autocarro um navio a atravessar o oceano verde no meio de um arquipélago. Esta analogia só não parece mais natural, porque um certo senhor decidiu nem nos deixar a ver navios (agora deve ir de vela, vamos ver o que muda).
À medida que se avança, veem-se ruínas de obras que nem foram completadas, promessas adiadas, edifícios de entidades cuja função seria descentralizar competências e melhor defender os interesses do interior, mas que parecem existir para satisfazer as máquinas partidárias. Não nos é familiar?
Nesse arquipélago conhecem-se pessoas que se levantam às seis da manhã para trabalharem nas suas terras, apesar de passarem a semana a desempenhar outras funções liberais. Pessoas sem medo de meter as mãos na massa, com um sentido de união que as faz sorrir todos os dias aos seus vizinhos. A união que permite as atividades culturais, que serve de desenrasque quotidiano sempre que é preciso, que as faz defender causas comuns. Cada pessoa sabe que faz parte da comunidade. Pessoas honestas e genuínas. Não faz lembrar as gentes açorianas?
Quando são precisos cuidados de saúde mais especializados, é necessária uma aventura no mar verde. Quando alguém quer ir para o ensino superior: lá navega para outra margem.
Toda a gente elogia as suas paisagens, mas os seus problemas são empurrados para debaixo do tapete. Já parece mais semelhante?
A tão esperada regionalização é a oportunidade de haver meios descentralizados capazes de atender às necessidades específicas de cada região. Trata-se de um passo que já foi dado nas regiões autónomas logo em 1976.
Como açorianos, devemos estender a mão aos nossos irmãos que estão no mar verde, que enfrentam problemas tão semelhantes aos nossos e que anseiam a autonomia que nós já conquistámos. A ação política deve ser baseada na empatia e na hegemonia, somos uma massa plural que ambiciona um futuro melhor para todos.
No dia 12 de abril de 1961, Yuri Gagarin tornou-se o primeiro humano a chegar ao espaço, marcando um importante ponto a favor da União Soviética, na altura. Tendo por base este facto, a ONU decidiu declarar o dia 12 de abril como o Dia Internacional dos Voos Espaciais Tripulados. No Açores cada vez mais temos falado no setor aeroespacial e de como o nosso arquipélago se pode posicionar no futuro da exploração, mas é necessário também vermos como entendemos que esta atividade deve ser feita.
Quando pensamos em exploração espacial aquilo que nos vem à cabeça logo é a NASA. O seu orçamento facilmente se misturava com onda defesa, até porque historicamente a corrida ao espaço mais não foi do que uma competição pela supremacia do uso da órbita, sendo, aliás, a espionagem uma constante neste tema. A exploração espacial tem, portanto, vindo a ser vista numa perspectiva bélica. Não nos iludamos: isso também se vê nos Açores. Quem está a explorar as valências da ESA em Santa Maria é a Edisoft, uma empresa do grupo Thales cujo propósito é justamente de defesa. Por isso reafirmo: não basta discutirmos questões específicas sobre o setor, é necessário acordar uma visão sobre o assunto.
Pessoalmente, acho que a exploração deve ser desprovida de qualquer propósito militar. Aquele que queremos é o avanço científico e o desenvolvimento tecnológico. Enquanto andarmos a apoiar ambições imperialistas ou uma individualização da investigação, então não chegamos a lado nenhum.
O espaço não deve ter fronteiras. Se há algo de que a ciência é composta é de cooperação. Redes de investigadores, diálogos, conferências, etc. Não interessa de onde és, vamos falar e tentar arranjar soluções para os nossos problemas. Ao colocarmos a defesa ao barulho, implicitamente estão a ser delineadas fronteiras sobre algo que é tão puro e intocado pela ganância humana.
A Agência Espacial Europeia vem de certa forma dar um empurrão a uma visão internacional, com foco na cooperação, em relação à exploração espacial. Como individualmente os países europeus não suportavam uma agência espacial impactante, decidiram juntar-se e formar uma.
O seu nome não é tão imponente, por enquanto, como o da NASA, mas cada vez mais tem se conseguido fazer notar.
Parcerias como o ESO, o observatório europeu do sul, que possui uma extensa rede de radiotelescópios no Chile e que é o destino de muitos investigadores na área, demonstram o sucesso que é quando os estados investem colectivamente na investigação pura e dura.
Depois existe outra questão que se soma: o aparecimento dos privados, levando as fronteiras as muros ínfimos numa lógica de competitividade que não deve reger o desenvolvimento científico. Estes privados são muitas vezes glorificados, no entanto a verdade é relativamente desapontante: apesar de usarem recursos seus, grande parte do seu financiamento é estatal. A introdução de jogadores privados no espaço é mais uma jogada de propanganda capitalista do que o verdadeiro progresso.
Que se note que a ONU possui um gabinete para os assuntos do espaço sideral. Existem acordos internacionais sobre o assunto. Os Açores têm de saber que posição querem defender.
Precisamos de perceber que a exploração espacial deixou de ser ficção científica e temos a obrigação de não repetir no espaço os erros que fizemos na Terra.
Andamos nós pela nossa vida normalmente e a ignorar as crises que nos rodeiam. Crise climática? Crise social? O que é isso? Atravessamo-las há bastante tempo, com tantos avisos, tantas consequências visíveis e ainda mais consequências negativas por vir. Acabamos por ignorá-las, porque, em geral, somos privilegiados. Não vemos a pobreza logo ao lado da nossa porta. Não estamos propriamente a viver numa estufa. Mas quando falamos de covid, de guerra ou de sismos, aí sim já percebemos que existem consequências.
A pandemia fez-nos perceber que existem inimigos invisíveis. O mundo parou por algo que nós não conseguimos ver, mas vimos as nossas pessoas queridas a desaparecerem. Mais de vinte mil pessoas perderam a vida só em Portugal, mais de seis milhões no mundo. O vírus era inegável e as ações tiveram de ser tomadas. Alterou-se o quotidiano radicalmente para fazer frente a essa ameaça. Fomos capazes de mudar a forma como trabalhamos, como passamos o nosso tempo e, mais importante, fomos capazes de nos entreajudarmos nessa adaptação. Fomos capazes de ter um olhar empático. Quem não se comoveu com gestos simbólicos como aquele senhor a descer sozinho a Avenida da Liberdade no dia 25 de abril de 2020? Demonstra a nossa predisposição para nos solidarizarmos com o momento, para termos consciência da nossa própria vulnerabilidade.
Quando a pandemia parecia das tréguas aparece uma mobilização bélica às portas da Europa. Parece o Universo a não querer dar-nos descanso. Mas a verdade é que não está na Ucrânia a única guerra neste mundo. Nós valorizamo-la porque está ao nosso lado. Porque crescemos a ouvir falar nas grandes potências mundiais. Rússia é um nome sonante e a Ucrânia é já aqui. Na prática, em que é que esta guerra nos afetou diretamente enquanto indivíduos? Agora aquilo que sentimos são os preços a subir. No entanto, a onda de solidariedade gerada para com os ucranianos foi esmagadora. E ainda bem. Reconhecemos que existem pessoas como nós fora da nossa comunidade e elas importam tanto como nós. Mas e então os sírios, por exemplo? Índia, Afeganistão, Paquistão, Egipto, Azerbaijão, Mianmar, Tailândia, Filipinas, Indonésia, Iémen, Nigéria, Burkina, Somália, Níger, Colômbia, são outros exemplos. Também são pessoas que estão a sofrer. Simplesmente elas não entram tão frequentemente no nosso telejornal.
Imaginemos que as partículas do ar fossem muito maiores, que as conseguíssemos ver. Vermos a cor do dióxido de carbono a aumentar. Vermos partículas a sufocar pessoas. Aí, sim, talvez, as alterações climáticas seriam algo crítico para nós. Ou então se fossemos morar para zonas afetadas. Se a nossa casa tivesse sido arrastada pelas águas, ou se tivesse sido engolida por movimentos de vertente. Os efeitos já existem, simplesmente ainda não chegaram a nós a toda a força. No entanto, não será sempre assim, teremos um litoral submerso, seca,…
São estes episódios que vivemos de entre ajuda e mudança que mostram que é possível nos unirmos e fazermos frente aos nossos obstáculos coletivos. Da mesma forma como lidamos com estas crises que nos entram pela casa dentro, que nos tocam enquanto indivíduos ou nas nossas emoções, da mesma forma como queremos que tudo corra bem em São Jorge, como queremos que os ucranianos tenham dignidade, precisamos de nos unir e exigir a resolução de problemáticas que requerem ações consideráveis. Temos de nos mobilizar contra as alterações climáticas. Contra a pobreza. Contra a exclusão. Juntos.
Na semana passada escrevi sobre a importância que estruturas como as Associações de Estudantes têm para o ensino dos valores democráticos e da vivência em comunidade. Hoje quero trazer a proposta de um novo órgão escolar que descrevi superficialmente anteriormente.
Em 2017 o Conselho Executivo da EBS Santa Maria avançou com a criação de uma Assembleia de Delegados e Subdelegados do Terceiro Ciclo e Secundário. Estava eu no décimo e a tentar descodificar o que ia sair dali. Trata-se de uma estrutura presente em cada vez mais escolas a título informal. É um conceito tão simples quanto o de juntar os representantes de turma que foram eleitos e falar-se sobre os assuntos da escola. Essa assembleia tem, portanto, o dobro do número de turmas que existem nos ciclos representados, sendo que no nosso caso decidimos também incluir os membros da direção da Associação de Estudantes.
Na primeiro reunião que se fez, decidiu-se sobre o funcionamento da Assembleia. A ideia era os alunos poderem refletir, sugerir e criticar os mais variados aspetos relacionados com o meio escolar, sendo que podiam contar com a resposta de um representante do Conselho Executivo, havendo assim uma ligação direta entre alunos e a liderança.
Eu acho que a Assembleia é muito mais do que mostrar que temos uma palavra, que perguntar é desejável, que quem está à frente das entidades não é imune a respostas. A Assembleia também deve servir para se valorizar a própria palavra. Quase mais do que a interação aluno-executivo, o debate aluno-aluno assume uma importância enorme, por mostrar que é através da pluralidade de visões que o debate acontece e cada um de nós é útil para esse debate, a partir do momento que temos uma perspetiva justificada. A presença de uma autoridade pode, até, inibir essa interação, até porque os alunos se sentem constrangidos a expor o seu raciocínio, ao contrário do que acontece entre pares.
Justamente com isso em mente tentei fazer com que a Assembleia fosse um local de reunião dos alunos, com um momento em que o representante do Executivo está presente, mas também com um momento onde só estão os alunos, devidamente moderados pela mesa eleita na primeira reunião. Existe aqui uma noção de independência, onde os alunos percebem as regras democráticas e as respeitam: a eleição da mesa, o debate, a votação, a perspetiva construtiva, o contacto com as autoridades,… É uma verdadeira lição da democracia.
Permitam-me partilhar um episódio que presenciei. Numa reunião um conjunto de alunos decidiu sugerir ao Executivo o afastamento de um cinzeiro de uma das entradas da escola. Algo tão simples quanto isto. Alguns dias depois o cinzeiro foi efetivamente movido. Esses e outros alunos ficaram tanto de surpreendidos como de motivados ao verem que a sua sugestão não foi ignorada. Esses jovens perceberam que vivem numa comunidade onde todos estamos interligados e todos importamos.
A minha opinião é, aliás, de que a Assembleia de Delegados e Subdelegados deve ser um órgão escolar com as competências de emissão de pareceres obrigatórios sobre documentos orientadores, como plano de atividades, além da discussão de ideias e interação com o Executivo. Trata-se de valorizar o papel dos estudantes na sua comunidade escolar, integrando-os naquela que é a realidade administrativa e familiarizando-os com o funcionamento da nossa bela democracia.
Na semana passada escrevi sobre a importância que estruturas como as Associações de Estudantes têm para o ensino dos valores democráticos e da vivência em comunidade. Hoje quero trazer a proposta de um novo órgão escolar que descrevi superficialmente anteriormente.
Em 2017 o Conselho Executivo da EBS Santa Maria avançou com a criação de uma Assembleia de Delegados e Subdelegados do Terceiro Ciclo e Secundário. Estava eu no décimo e a tentar descodificar o que ia sair dali. Trata-se de uma estrutura presente em cada vez mais escolas a título informal. É um conceito tão simples quanto o de juntar os representantes de turma que foram eleitos e falar-se sobre os assuntos da escola. Essa assembleia tem, portanto, o dobro do número de turmas que existem nos ciclos representados, sendo que no nosso caso decidimos também incluir os membros da direção da Associação de Estudantes.
Na primeiro reunião que se fez, decidiu-se sobre o funcionamento da Assembleia. A ideia era os alunos poderem refletir, sugerir e criticar os mais variados aspetos relacionados com o meio escolar, sendo que podiam contar com a resposta de um representante do Conselho Executivo, havendo assim uma ligação direta entre alunos e a liderança.
Eu acho que a Assembleia é muito mais do que mostrar que temos uma palavra, que perguntar é desejável, que quem está à frente das entidades não é imune a respostas. A Assembleia também deve servir para se valorizar a própria palavra. Quase mais do que a interação aluno-executivo, o debate aluno-aluno assume uma importância enorme, por mostrar que é através da pluralidade de visões que o debate acontece e cada um de nós é útil para esse debate, a partir do momento que temos uma perspetiva justificada. A presença de uma autoridade pode, até, inibir essa interação, até porque os alunos se sentem constrangidos a expor o seu raciocínio, ao contrário do que acontece entre pares.
Justamente com isso em mente tentei fazer com que a Assembleia fosse um local de reunião dos alunos, com um momento em que o representante do Executivo está presente, mas também com um momento onde só estão os alunos, devidamente moderados pela mesa eleita na primeira reunião. Existe aqui uma noção de independência, onde os alunos percebem as regras democráticas e as respeitam: a eleição da mesa, o debate, a votação, a perspetiva construtiva, o contacto com as autoridades,… É uma verdadeira lição da democracia.
Permitam-me partilhar um episódio que presenciei. Numa reunião um conjunto de alunos decidiu sugerir ao Executivo o afastamento de um cinzeiro de uma das entradas da escola. Algo tão simples quanto isto. Alguns dias depois o cinzeiro foi efetivamente movido. Esses e outros alunos ficaram tanto de surpreendidos como de motivados ao verem que a sua sugestão não foi ignorada. Esses jovens perceberam que vivem numa comunidade onde todos estamos interligados e todos importamos.
A minha opinião é, aliás, de que a Assembleia de Delegados e Subdelegados deve ser um órgão escolar com as competências de emissão de pareceres obrigatórios sobre documentos orientadores, como plano de atividades, além da discussão de ideias e interação com o Executivo. Trata-se de valorizar o papel dos estudantes na sua comunidade escolar, integrando-os naquela que é a realidade administrativa e familiarizando-os com o funcionamento da nossa bela democracia.
Depois de um ano e meio sem Associação de Estudantes a Escola Básica e Secundária de Santa Maria voltou a contar com um conjunto de alunos empenhados em reativá-la. Depois de ter ficado 4 anos à frente desse grupo informal, é uma alegria poder ver uma nova energia a tomar conta do assunto.
No domingo passado contactou-me a nova presidente eleita, cheia de vontade de perceber como podia usar de melhor forma o espaço que agora tinha. Queria saber o que tínhamos deixado por fazer. Feliz e contente lhe enumerei por alto o trabalho desenvolvido. As tertúlias, as visitas, as atividades, os eventos, o ativismo,… Uma passagem pelas cronologias no antigo blog revelam centenas de pontos com toda a atividade que a Associação dinamizou.
Numa ilha pequena, onde só existe uma escola, a importância da comunidade escolar, nomeadamente da sua dinamização, é importantíssima. A escola é uma microcomunidade, nela encontramos uma miniatura de tudo o que existe na nossa comunidade. É, portanto, importantíssimo conseguirmos já estimular a proatividade, o espírito crítico, a atitude democrática, o respeito, se queremos que o futuro da nossa comunidade passe justamente por esses valores.
Vivendo num contexto pequeno (provavelmente só Ponta Delgada poderia ser daqui excluída) temos de conseguir valorizar o derrube de muros, de vedações entre a escola e a comunidade envolvente. Muitos dos jovens que não gostam da escola é por não perceberem o sentido que tem passarem 12 anos a aprenderem coisas que às vezes parecem tão aleatórias ou abstratas. A escola tem a função vital de garantir um melhor futuro do que o presente e para isso precisa de mostrar que tem um claro propósito de dar ferramentas às novas gerações e de preparação para uma vida em sociedade com direitos, deveres, alegrias, tristezas. Tem a importância de não ignorar assuntos como a saúde mental ou a educação sexual.
E quando isto parece falhar, nada melhor do que ter uma Associação de Estudantes que dá o seu máximo para preencher as lacunas e ajudar no possível a melhorar o que pode ser melhorado (que é sempre tudo). A Associação tem a particularidade de não somenos importância de ser a única entidade de alunos para alunos. Se queremos incentivar a uma cultura democrática, então as AEs são cruciais. E que se note que falo em Associações e não em comissões de festas.
A representação em órgãos como a Assembleia de Escola ou o Conselho Pedagógico também são obviamente importantíssimos, envolvendo os estudantes nos assuntos letivos e de administração escolar. No entanto, infelizmente, este trabalho acaba por ser invisível, não passando das paredes das salas de reuniões, sendo que facilmente os alunos se sentem intimidados por não estarem rodeados dos seus pares.
Aproveito para introduzir uma estrutura que existe em cada vez mais escolas e penso que pode ser muito melhor aproveitada: a assembleia de delegados e subdeledados. Cada turma elege um delegado e um subdelegado, sendo que estes têm assento numa assembleia com os seus pares, formando um órgão bastante plural que podia muito bem ter um caráter formal. Por um lado, temos a Associações, de alunos para alunos, onde democraticamente se exerce uma função executiva, por outro lado temos uma assembleia, de alunos para alunos, onde democraticamente se discutem os assuntos e se emitem pareceres.
Que se incentive à mobilização da nossa juventude! Boa sorte à nova Associação!
Novos tempos trazem novos problemas. Ultimamente tenho pensado na forma como me relaciono com o telemóvel, ou mais concretamente, com as mensagens que recebo.
Sempre que tenho uma notificação de mensagem sinto uma necessidade em responder o mais rápido possível, mesmo se estiver ocupado. Sendo essa vontade tanto maior quanto mais próxima for a pessoa.
Presumo que sejam os jovens a sentir maioritariamente essa necessidade de ligação, justamente por termos sido nós já criados numa altura onde o mundo digital parece tanto ao mais real que a realidade.
Por vezes não sei se a necessidade de resposta é uma necessidade pessoal de atenção ou uma reação circunstancial, saber
Isto está obviamente relacionado com o facto de estarmos contactáveis 24 horas por dia. Um dos problemas do teletrabalho é justamente a quebra da barreira do horário, daí a importância da legislação sobre o direito do trabalhador não responder fora do horário laboral. É o direito a desligar. Esta questão cuja vertente laboral tem mais destaque, tem relevância também nos assuntos pessoais. Qual é o nosso espaço pessoal? O que é? Como podemos passar tempo sozinhos?
É legítimo estarmos online e não respondermos a mensagens que nos estão a ser mandadas? Ou estarmos a falar com mais de uma pessoa, deixando intervalos maiores de resposta?
No meio destas questões temos sempre dois lados: o nosso e o dos nossos interlocutores. A forma como falam connosco também nos afeta. Existe, portanto, uma gestão emocional associada a uma atividade tão simples e aparentemente inocente como trocar mensagens.
Podemos assumir uma postura mais ou menos óbvia de agir da forma mais natural possível: responder quando nos fizer sentido, enviar quando nos fizer sentido, etc. Mas desta forma podemos acabar por fazer aquilo não queremos que façam connosco. À partida quando enviamos uma mensagem é para obter uma resposta.
Não obstante, uma boa solução para quando não temos disponibilidade é simplesmente enviar um "respondo depois".
As pessoas claramente não são seres automatizados e robotizados. Nós sentimos e sentimos de forma diferente em cada dia. Não temos necessariamente a mesma resposta para o mesmo estímulo, é tudo sempre relativo e contextualizado. Por vezes, veja-se só, nem nós sabemos como nos sentimos ou porque nos sentimos como nos sentimos. Percebermos essa nossa vulnerabilidade e reconhece-la nos outros permite-nos inferir que as ações têm sempre consequências. Estamos constantemente a fazer escolhas e a tentar distribuir da melhor forma o conforto.
O facto de haver um mundo digital que nos interliga leva a que as relações sociais estejam sempre presentes e tragam estas escolhas para um plano constante no tempo. Existe uma espécie de ansiedade digital. Lidar com as pessoas, as suas particularidades, necessidades e personalidades, em articulação com a nossa é sempre um desafio, agora ainda o é mais.
A velha questão de nos por as nós ou os outros em primeiro plano é uma questão sempre presente, mais um equilíbrio que temos de atingir. Claramente que o problema com que comecei o texto está aqui representado.
Esta não é uma questão simples e eu falo como uma pessoa que por vezes não sabe como lidar com o equilíbrio entre o mundo digital e real, estas não são as melhores palavras, nem a melhor abordagem da questão, mas este é um assunto que acaba por vezes por ficar ignorado.
Não sei se quem acaba de ler o artigo fica com alguma ideia definida, isto acabou por ser um devaneio por escrito sobre algo que não considero um assunto menor.
No passado sábado, dia 5, decorreu a primeira semifinal do Festival da Canção 2022. Tratou-se da primeira etapa rumo à final que se realiza dia 12 e de um sairá a quem irá representar Portugal na Eurovisão.
Cada vez mais assistimos a um Festival aberto a novas caras, tanto a comporem como a interpretarem, levando a que este seja um momento privilegiado para assistir a novos talentos e a artistas com alguma carreira feita, mas ainda sem um reconhecimento generalizado.
Nesta primeira semifinal concorreu um grupo que se inclui nesta última categoria de artistas que mencionei: Fado Bicha. Trata-se de uma dupla que usa a sonoridade do fado para expressar o seu ativismo. São um ícone LGBT, com uma preocupação com temas que vão muito além da orientação sexual ou identidade de género.
Apresentaram uma música com uma melodia que muito bem representa Portugal, fado, mas também um folk que facilmente chega a quem é do interior e, claro, das ilhas. Podiam muito bem apresentar uma obra justamente sobre questões LGBT, no entanto optaram por versar sobre aquele que é o nosso património comum: uma massa de gente honesta, pessoas trabalhadoras, pessoas de zonas rurais. Falam de uma revolução tão necessária e de como, mesmo passados tantos anos, ainda temos uma passado colonial às costas, com consequências tão atuais como o racismo estrutural.
É preciso coragem para subir a um palco da dimensão do Festival e falar de colonialismo, falar do povo que fica esquecido nos manuais de História e, a somar a tudo isto, apresentar-se numa clara afronta ao convencional sobre a expressão de género.
Gostos certamente não se discutem, mas esta atuação tinha um grande potencial para fazer um brilharete no palco Europeu.
Fado Bicha não passou à final, não chegará à Eurovisão. Não obstante, aqui fica a letra da Lila Tiago que tem tudo para nos fazer refletir:
Era o povo pequenino, pés descalços na geada
Era o povo pequenino, na cartilha da pancada
Era o povo pequenino, já puxava pela enxada
Era o povo pequenino, a chorar na tabuada
Morder os dentes, lamber os beiços
Molhar pão velho na caldeirada
Ai, povo pequenino
Pés na lama do destino
Ai, povo pequenino
Pés na lama do destino
Não te pesa o coração
Com o chumbo da lição
Não te pesa
Ai, povo pequenino
Tão humilde e cabotino
Ai, povo pequenino
Tão humilde, tão escarninho
Não te dói no coração
O estilhaço do canhão
Não te pesa
No mar, a boiar, são cravos
No fundo, há feitos escravos
Ai, quanto do teu sal
Ó, povo pequenino
Pobre povo pequenino
Ó, povo pequenino
Pobre povo pequenino
Não te pesa o coração
Tanto medo da canção
Tanto amor
Ao bastão
Várias vezes foram aquelas em que ouvi a minha avó dizer que nasci num berço de ouro. Nada mais certo. Efetivamente aquilo que me rodeia são privilégios. Reconhecermos que somos beneficiados pelo sistema, não quer dizer que não o possamos contestar. Tal como não faz sentido analisarmos aquilo que nos rodeia, sem termos consciência de onde estamos.
Vivemos nos Açores. Infelizmente, são uma região com das mais altas taxas de pobreza. Não obstante, grande parte dos açorianos nunca se teve de propriamente preocupar com a possibilidade de passar fome. Temos um sistema de saúde onde qualquer pessoa pode ser atendida e intervencionada sem custos, bem como um ensino público universal. Nem tudo está bem, mas comparados com muitos pontos do nosso globo, estamos claramente em vantagem.
Tanto temos ouvido falar das notícias que nos chegam da Ucrânia, de um cenário de guerra inconcebível no século vinte e um. Desde a Segunda Guerra Mundial que a europa não tinha junto a si uma ameaça militar desta ordem. Que se note quem em muitos sítios ao redor do globo existem inúmeras guerras, no entanto, nós, europeus, tendemos a ignorá-las muitas vezes porque estão longe da nossa vista. Ver as imagens devastadoras de pessoas a terem de abandonar as suas casas, umas quantas destruídas mesmo, faz-nos valorizar a segurança que temos. Portugal é considerado um dos países mais pacíficos do mundo (apesar de haver quem tente passar a ideia contrária para extremar o campo político). Somos, enquanto país, privilegiados por isso. O mínimo que o Estado pode fazer é reafirmar as vezes que forem precisas a disponibilidade para receber refugiados.
Assumirmos o privilégio (tal como as limitações) é ter a capacidade de analisar a situação, sendo o primeiro passo para depois podermos tomar uma ação no sentido de harmonizar a nossa sociedade. E que se note que mais do que nunca, a nossa sociedade inclui cada pessoa à superfície da Terra. Temos formas de comunicação que nos permitem transmitir mensagens de forma instantânea para qualquer parte. As concentrações que existem em nome da paz são, por isso, um excelente exemplo de solidariedade. Em grande parte simbólico, sim, mas com uma mensagem muito forte.
Olharmos para Ucrânia e percebermos a paz em que vivemos não é para nos autopromovermos, mas sim para termos consciência da nossa riqueza e podermos tomar uma atitude para, agora que a valorizamos, podermos cuidar dela dentro das nossas fronteiras e fazer o possível ara que ela existe em todo o lado.
O mesmo argumento sucede em outras áreas. Quem vive economicamente desafogado deve ter consciência disso e defender os mais desfavorecidos, não com a inércia da caridade, mas através dos meios para influenciar as decisões políticas. Que se note que aqueles que menos têm são muitas vezes os mais explorados, ficando o seu pensamento limitado à sobrevivência diária. Parece paradoxal o facto de que muita gente marginalizada pelo sistema se abstenha nas eleições. É sintomático disto mesmo: quem mais tem a ganhar em mudar o sistema, é também quem mais impotência sente que tem. Temos de sair da nossa bolha e mostrar que as injustiças devem ser combatidas, que todos temos um lugar digno.
Nós vivemos todos numa comunidade, somos uma teia. A fraternidade e a solidariedade devem ser valores basilares. Fazermos o máximo possível para melhorar a vida de todos, incluindo a nossa.
Estamos cada vez mais próximos do Carnaval. Ao pensarmos nas danças e nos teatros, temos provavelmente um dos expoentes culturais açorianos, que faz o povo abraçar as manifestações culturais. Existem, claro, outros momentos, mas aproveita este para trazer à baila um tema muito importante: o consumo de cultura. Foi publicado um estudo encomendado pela Fundação Calouste Gulbenkian sobre as práticas culturais dos portugueses, tendo sido o período da recolha de dados no último trimestre de 2020, num universo de 2000 entrevistas.
Desde logo, nota-se que 61% dos inquiridos afirmou não ter lido um único livro em 2020, sendo que a leitura digital corresponde a uma fração diminuta da amostra.
Algo transversal às várias formas de consumo de cultura é o facto de se alguém tiver mais rendimentos e um maior grau académico, então a probabilidade de estar mais propenso a essas atividades é maior. Isto revela-nos desde logo o facto de que existe uma barreira económica que afasta uma faixa de portugueses das atividades culturais.
No entanto o custo por si só não constitui um problema. Ele está também presente na diminuta disponibilidade mental que a maioria dos portugueses tem para, findo o dia de trabalho, se dedicar a uma atividade cultural. Depois de se estar a trabalhar horas e horas, provavelmente, mais as tarefas domésticas, a exaustão toma o controlo. Imagine-se o exemplo de uma série: a pessoa tem os vários episódios acessíveis, por exemplo, em plataformas como a RTP Play, não teve custos além da internet, no entanto o que acontece muitas vezes é que aquela série acaba adiada, justamente porque a pessoa quer simplesmente descansar, contrair, algo extremamente leve.
Nos Açores existe ainda outra dificuldade: a dispersão geográfica com um mar a separar os rochedos. Quando falamos de atividades como teatros, dança,… sabemos que eles acabam por ser mais raros quanto mais pequena é a ilha. Eventualmente surgem esforços locais para dinamização artística, mas sem um hábito de consumo torna-se difícil essa implantação de grupos amadores. São necessários um investimento e uma vontade política que permitam valorizar a cultura.
Mas lá está: podemos andar aqui a inventar apoios, espetáculos, incentivos, divulgações,… mas se as pessoas continuarem a viver para trabalhar, se uma parte considerável das pessoas vive norteada pela necessidade de contar os tostões e chegar ao fim do mês com as dívidas controladas, então pouca será a disponibilidade para abarcar em atividades culturais que servem de entretimento. Muito menos se terá sucesso na formação de grupos amadores da prática artística.
No meio desta discussão não podemos duvidar da importância da cultura. De como isso justifica que este setor seja ele próprio uma fonte de empregabilidade, sendo esta muitas vezes precária. Temos de valorizar quem faz cultura, o amadorismo é uma prática importante, mas não nos podemos esquecer dos profissionais.
Permitam-me terminar com a RTP Play. Podem aceder através desta hiperligação: rtp.pt/play. Trata-se de um espaço onde se podem encontrar filmes, séries, noticiários, podcasts, teatros, entrevistas, documentários,… Material produzido pela RTP ou emitido e com direitos para temporariamente estar disponível online, nesse serviço que se chama streaming. Existem conteúdos de grande qualidade produzidos em Portugal e a RTP Play é, portanto, um serviço público, a custo zero, de grande interesse em ser explorado.
Nestes últimos dias ouvimos falar sobre as questões do abandono escolar. Permitam-me deslocar um pouco o assunto e olhar para o ensino superior.
De acordo com os dados da Pordata, em 2020 13,1% dos açorianos tinham frequentado o ensino superior. Trata-se de um aumento na ordem dos 10% desde 1998, no entanto, este crescimento não faz com que os Açores deixem de ser a região do país com a percentagem mais baixa.
Ao olharmos para a Madeira percebemos que se trata da segunda região com o indicador mais baixo, levando a crer que aquilo que existe é também o não retorno dos jovens que saem das regiões autónomas para estudar.
Esta necessidade de conseguirmos fixar pessoas qualificadas tem de ir muito além da forma como se encara à primeira vista o problema: empreendedorismo ou estágios. Os dois levam à instabilidade. Mas além disso falta ver mais: ver além do emprego. Nós não vivemos para trabalhar. O trabalho é a forma de darmos algo à comunidade com o objetivo de usufruir dos frutos do trabalho de todos. Aquilo que queremos, estudantes açorianos no ensino superior, é trabalhar na nossa área, claro, mas também ter condições para viver bem: cuidados de saúde enrobustecidos, educação de qualidade, cultura diversificada e acessível, bons espaços públicos, boas vias de comunicação,… Até a inclusão social, o esforço de combate ao ódio de um local, assume especial relevância. E não estamos só a falar de fixar uma pessoa. Estamos a falar de constituir famílias.
Existe um potencial tremendo nos Açores em relação a diversas áreas de estudo, diversos setores económicos. É triste ver que os sucessivos Governos Regionais acabaram por fechar os olhos a tantas oportunidades, sendo o setor aeroespacial um exemplo de uma exceção que coloca os Açores no mapa, já com unidades de investigação a serem elogiadas. É possível criar emprego, é preciso é haver vontade política de cortar nas benesses dadas aos amigos e fazer verdadeiramente uma questão sobre o papel dos Açores.
Estando a questão do emprego arrumada, temos também a necessidade de ter serviços públicos de qualidade. A política faz-se de prioridades, e o bem-estar dos açorianos deve nortear o nosso Governo Regional.
A passagem pelo ensino superior é, provavelmente, na maioria dos casos esgotante e stressante. É um mundo novo, com injustiças, muito trabalho, muito esforço. Existem muitas incertezas e aquilo que queremos é alguma estabilidade. Nós queremos voltar para os Açores, mas para isso é preciso que haja real desenvolvimento.
Mas que se note que a baixa taxa de pessoas com ensino superior não se prende só com a questão do não retorno: estudar fora é caro. Felizmente existem vários apoios sociais, mas cada vez mais a habitação acaba por encarecer. Não há residências para todos. Não são poucos os que não conseguem continuar a estudar porque a família não consegue suportar esses custos.
Felizmente existem alguns esforços extra para melhorarem a situação, como bolsas, no entanto aquilo que precisamos são de respostas duradouras, como no caso da habitação. E o que precisos é também de discutir o papel das propinas, quando aquilo que queremos é uma sociedade onde a educação deve ser acessível a todos.
Já o disse antes e volto a reforçar: existe a necessidade de rejuvenescer os nossos quadros políticos açorianos. As legislativas de 30 de janeiro também o demonstram.
A nossa região é propensa à bipolarização proporcionalmente à proximidade das instituições eleitas aos cidadãos. Ou seja, uma maior dispersão de votos em europeias, por exemplo, e uma concentração em dois polos nas autárquicas. Nas regionais tende a existir a bipolarização, sendo as legislativas um estando intermédio, que vai mudando ao saber dos contextos nacional e regionais.
Não haja dúvidas do voto útil no PS e como isso levou a uma bipolarização também nos Açores. Que se note que não houve propriamente um voto útil à direita no PSD, como o PS beneficiou, aliás, CH e IL prosperaram no terreno, no entanto como se trata do segundo partido mais votado, a perceção de bipolarização mantém-se. Nos Açores este último aspeto ainda é mais perturbador, já que o PSD se candidatou coligado, senda esta análoga à que se encontra a governar os Açores.
Segundo os dados das sondagens, existem uma maior predisposição por parte dos jovens para votar em terceiros partidos, sendo o BE e a IL beneficiados por esse fator. Bipolarização provavelmente significa que existe uma grande abstenção jovem. Parece-me claro que se tratou da realidade. Várias são as razões que podem levar os jovens a não votar, mas algumas parecem-me cruciais.
A primeira é efetivamente não saberem como: muitos jovens açorianos são estudantes deslocados e apesar de termos acesso a um voto antecipado em mobilidade exemplar, a verdade é que essa informação ainda não está devidamente implantada. Cabe a cada um de nós, cidadãos, divulgá-la, até porque beneficia qualquer pessoa, uma vez que é de acesso universal.
No entanto a razão que me parece mais interessante de trazer aqui é a não identificação dos jovens com as candidaturas. Quando olhamos para as listas do PS e da AD (PSD/CDS/PPM), aquilo que vemos foi uma aposta em dinossauros, ficando fora de lugar elegível qualquer candidato que pudesse significar renovação. Isto acontece pelo cenário político regional atual (a terceira volta das regionais), mas também porque não temos quadros políticos açorianos jovens. Nem mesmo a JS ou a JSD conseguem esse feito, note-se a idade dos deputados que elegeram (e nem sempre foram eleitos).
Será que não há jovens competentes para poderem ganhar relevo? Custa-me a crer. Que se note que o que pretendo não é impor um limite de idade na política, mas sim tentar ir incluindo novas caras com novas ideias. Uma harmonia entre a experiência e a inovação, a ambição, a inquietação.
Provavelmente quando tivermos exemplos de jovens na política, seja possível que mais se interessem e façam o básico: votar. Agora, que se note que existem muitos jovens militantes, o problema é que muitas vezes acabaram lá por razões que não a identificação ideológica e deparamo-nos com o clubismo, que dá lugar à politiquice.
Nos Açores, temos muita politiquice que afasta não só os jovens, mas todos aqueles que querem ver os seus problemas resolvidos, mas não têm paciência para separar o trigo do joio. Temos de ser capazes de deixar novas pessoas poderem contribuir para o desenvolvimento da nossa região, precisamos de rejuvenescer os Açores.
Chegou-se ao final da noite eleitoral do passado domingo com uma maioria absoluta do PS, contrariando as sondagens que se foram dando a conhecer. A estratégia de António Costa foi arriscada, mas resultou: forçou eleições apresentando um orçamento precário, culpou os seus antigos parceiros pela instabilidade e pediu uma maioria inequívoca para conseguir tratar como bem lhe apetece dos fundos europeus.
A nível nacional assistimos a um enorme voto útil à esquerda, levando a que o PS engolisse o BE e a CDU, sendo que, aliás, estas duas forças perdem no total 20 deputados, entre eles rostos com grande visibilidade e importância, bem como o próprio PEV (está integrado na CDU a par do PCP). A narrativa de António Costa vingou, sendo que as sondagens mais recentes a demonstrar a possibilidade do regresso da direita ao poder, podem ter feito os eleitores apostarem no PS. BE e CDU precisam de parar para pensar e reorganizar.
À direita temos CH e IL claramente reforçados, beneficiando do desaparecimento do CDS, mas também pelo próprio sistema eleitoral. Como o CH ficou em terceiro em 14 círculos, foi o partido mais próximo de eleger por círculos de dimensão mais reduzida do que Porto e Lisboa. Aliás, é curioso notar algumas consequências do nosso sistema: o BE teve um melhor desempenho que a CDU a nível nacional, mas elege menos um deputado; o CDS teve um melhor desempenho que o Livre ou o PAN e ficará fora da assembleia.
Como temos uma maioria absoluta, nenhum partido da oposição terá especial peso, pelo que o medo de termos um CH a influenciar a governação está afastado. Pode ser que com mais deputados se consiga notar de forma mais evidente o culto do chefe, a demagogia e a falta de visão para o país do partido que incita ao ódio. Nós, açorianos, mais do que ninguém, sabemos que não podemos contar com a seriedade daquela bancada.
Aliás, olhemos para os Açores. Em quase tudo assistimos a um cenário muito semelhante ao nacional, pelo que as leituras regionais não parecem ser as mais adequadas. Não obstante, não julgo serem descartáveis. É interessante de notar que a AD não foi capaz de segurar os votos que PSD, CDS e PPM tiveram, isoladamente, em 2019. Só existiram 3 ilhas (e concelhos) onde o CH não foi a terceira força: Santa Maria, Faial e Corvo; Bloco de Esquerda nos dois primeiros e CDU no último. Que se note que a nível nacional o BE só se manteve como terceira força em 10 concelhos. Também nos Açores o CH e a IL parecem ter vindo para assentar, no entanto que se note que a nível nacional, estes partidos tiveram um crescimento significativo, mas que não chegou ao objetivo de Ventura dos 15%, nem tendo conseguido igualar os resultados do BE em 2009, 2015 ou 2019. O CH ganhou hoje uma representação em número igual à que a CDU tem atualmente.
É também interessante notar que a nova Assembleia da República tem menos mulheres e é menos diversa. Além disso, assistimos ao desaparecimento de duas forças políticas: PEV e CDS.
Esperemos que haja juízo e bom senso por parte do PS, se antes podiam empurrar os problemas para BE e PCP, agora a responsabilidade é inteiramente sua. Que a oposição saiba fazer o seu papel de fiscalizadora do governo, porque vamos precisar.
Porque votamos num partido e não noutro? É realmente uma questão de grande importância que encerra em si o futuro da nossa democracia.
Quando votamos, fazê-lo de acordo com uma estratégia. O voto útil é provavelmente aquele que mais ouvimos falar e que corresponde ao desejo dos maiores partidos, ganhando mais projeção, até por se alicerçar na ideia de arco da governação, só entra no governo um conjunto muito restrito de partidos.
Interessa aos partidos desse arco da governação que achemos que só eles podem governar, que é praticamente impossível uma grande variação do sentido de voto entre eleições. Esta estratégia é intensificada em círculos eleitorais com menor representação na Assembleia da República, uma vez que, pelo Método de Hondt, se torna mais difícil a eleição de forças com menor expressão.
É, portanto, uma possível preocupação nossa o impacto que o voto tem no sentido de eleger deputados. No entanto, estrategicamente, nesses mesmos círculos pequenos, podemos decidir votar em forças que estatisticamente provavelmente não elegerão. Por estratégia porque o terceiro lugar importa. No Açores importa ainda mais porque temos uma democracia regional com atores políticos análogos aos nacionais e, portanto, vai haver uma leitura do resultado transposta para a nossa realidade. Por vezes, é importante não nos focarmos somente nos eleitos, mas garantir que as forças seguintes saem reforçadas de acordo com as nossas expectativas e não fiquem entregues à sorte.
No caso de partidos realmente pequenos o seu voto em círculos com poucos eleitos conta, por exemplo, para terem acesso a financiamento. Existe uma dimensão prática que não deve ser descartada, além da simbólica.
É claro que em grandes círculos a eleição de mais forças é possível e provável. Nesses casos é possível votarmos mais tranquilamente de acordo com o nosso coração, porque o voto útil não terá um impacto extraordinário, apesar de obviamente definir a partidarização do nosso cenário político. Nestes círculos votar em partidos médios, vá (só para distinguir daqueles que não passam de 1% ou 2%), é também uma decisão estratégica que pode muito bem definir se é o partido C ou D a eleger. Círculos como Leiria ou Faro têm uma dimensão propícia a que só um partido que não PS ou PSD eleja. Há uma perspetiva semelhante ao voto útil em escolher qual deles irá. Obviamente que passando para círculos cada vez com dimensão maior teremos as mesmas questões relacionadas com partidos cada vez com menor percentagem. Ou seja, justifica-se um voto de acordo com as crenças pessoais, porque muito provavelmente elas se irão encaixar num dos partidos que provavelmente consegue eleger.
Como nota final dar conta que 315 785 portugueses se inscreveram para o voto antecipado em mobilidade que descrevi na semana passada. Trata-se de um número muito inferior ao milhão e duzentos mil projetado pelo Governo, mas ainda superior ao das presidenciais, que revela um maior cuidado no interesse do voto (em comparação a 2019) e, portanto, se pode traduzir numa baixa da abstenção. Este último fator, a abstenção, será realmente um decisor importantíssimo, uma vez que o voto presencial de confinados pode ter um efeito não previsto.
No final do dia, aquilo que importa é que cada pessoa tem acesso a um voto que é por si escolhido, sendo absolutamente secreto. Cada um de nós tem a responsabilidade de votar para manter a democracia viva, funcional e plural.
Pelos mais variados motivos, são muitos os portugueses que não se encontram disponíveis para votar no dia da eleição, 30 de janeiro, neste caso. Grande parte por não se encontrar no local onde está recenseado. Da necessidade de colmatar esta falha surge o voto antecipado em mobilidade. Não é novidade nenhuma. Já foi usado nas legislativas, regionais e europeias. No entanto, a desinformação por vezes persiste.
O que é o voto antecipado em mobilidade? É a oportunidade de qualquer eleitor poder votar num local à sua escolha no domingo da semana anterior às eleições, dia 23, deste caso. Sem qualquer condição ou requisito. Toda a gente, em todo o território.
Desde dia 16 e até dia 20 é possível fazer o pedido em votoantecipado.mai.gov.pt. Trata-se do simples preenchimento de um formulário online. Nada mais fácil. Nesse formulário é indicado em que concelho se pretende votar. Que se note que se pode votar antecipadamente no concelho de recenseamento. É também necessário perceber que se se faltar no dia 23 é ainda possível votar no dia 30, mas só no concelho onde está recenseado.
Uma questão que muitas vezes se levanta e que, infelizmente, Rui Rio e André Ventura exemplificaram, é se o facto de se votar num concelho de outro círculo eleitoral, se o voto passa a contar para o círculo onde se volta. Não. Um estudante deslocado açoriano que vote no Porto terá o privilégio de dizer que o seu voto andou de avião. Aliás, os primeiros votos a serem inseridos nas urnas no dia 30 são justamente aqueles que foram à distância. Existe todo um conjunto de cuidados a serem tidos para preservar o anonimato do voto. Ou seja, quem está na mesa de voto sabe quem votou, mas não sabe a que boletim corresponde.
Se é estudante deslocado, se está a viajar, se está a noutro local em trabalho, … Se não consegue votar no dia 30 no seu concelho de recenseamento ou simplesmente preferir votar a 23, faça a inscrição no voto antecipado em mobilidade. Não perde direito nenhum e pode votar onde lhe der mais jeito, seja no concelho de residência, ou não.
Permitam-me concluir dando algumas informações sobre o sistema eleitoral.
Como foi mencionado o que existem são círculos eleitorais: Açores, Lisboa, Porto, Braga, Aveiro, Europa, Fora Europa,… Tendo em conta a população, cada círculo elege um conjunto de deputados. Os Açores, por exemplo, elegem 5. No total são eleitas 230 pessoas que constituem a Assembleia da República. Tendo em conta a composição partidária da assembleia e das possibilidades de acordos se não houver maioria absoluta, o Presidente da República indigita um Primeiro-Ministro.
Ou seja, nós temos um boletim de voto que serve para eleger os nossos representantes na Assembleia da República pelo círculo onde votamos. Sendo que estes deputados são escolhidos de acordo com um método de proporcionalidade denominado Método de Hondt. Basicamente pega-se nos votos de cada partido e vai-se dividindo por números naturais. Depois vê-se quais são as maiores razões, sendo estas em igual número ao de deputados a eleger.
Como nota final: existem outras formas de voto antecipado especialmente concebidas para certas situações como para presos ou doentes internados. Tendo em conta que o voto antecipado em mobilidade que descrevi serve para a esmagadora maioria das pessoas, decidi dar-lhe destaque.
Não há desculpas para não votar. Vote.
Há quem diga que Maquiavel escreveu O Príncipe não só como um manual de instruções para um governante, mas também como a forma de dar às massas o conhecimento das formas como são moldadas. Acho que é interessante deixar aqui este apontamento de ciência política, que nos permite olhar com outros olhos para a realidade.
Desde logo, percebamos que Nicolau Maquiavel viveu num contexto politicamente conturbado, cheio de instabilidade, com ameaças militares e de revoltas à espreita, em Florença entre os séculos XV e XVI.
Segundo Maquiavel, que era político, um bom governante tinha de ter duas caraterísticas «fortuna» e «virtú». A primeira é a sorte: podemos ser muito bons, mas se estivermos no local errado, à hora errada, pouco conseguimos atingir. A segunda pretende-se com a virtude: um governante deve ser astuto e perspicaz.
É esta virtude que é a peça controversa na perspetiva de Maquiavel e que originou o adjetivo maquiavélico. Segundo ele, os fins justificam os meios. Nunca utilizou esta frase, mas reflete muito bem o seu pensamento. Basicamente aquilo que se afirma é que existe uma clara separação entre política e ética. A partir do momento em que para o bem comum é preciso cometer atrocidades e atitudes duvidosas, então que seja. Na altura não havia o conceito de Direitos Humanos, como o leitor pode imaginar. Se o governante tivesse de decidir entre ser amado ou temido, deve escolher esta última por implicar manter a ordem.
Mas então o que é que Maquiavel afirma que os governantes podem fazer? Essencialmente, tudo, porque estão acima de toda e qualquer lei. No entanto, existem várias técnicas que podem muito bem ser adaptadas pelos nossos políticos e até empresários, basicamente por quem está em cargos de liderança, mesmo que regulamentados.
Desde logo, afirma-se que quando o governante pratica o bem deve fazê-lo de forma prolongada, enquanto se tiver de fazer mal, deve fazê-lo de uma vez só. Trata-se de um jogo com a memória coletiva. O governante pode omitir informação, distorcê-la, manter o povo na ignorância. Pode voltar com a sua palavra atrás. Criar problemas para depois se apresentar como salvador. Fazer com que as pessoas considerem que são sempre culpadas pelos seus problemas.
No entanto, é interessante notar que Maquiavel considera que o povo é o elemento mais importante, já que sem ele não havia estado. São os tumultos populares os que destinam as mudanças de estado. O povo é a unidade mais leal ao governante. Se um político tem de escolher entre ter o apoio do povo ou dos poderosos, deve escolher o primeiro, porque os segundos só olham aos seus interesses próprios. Se é preciso confiar as tarefas militares em alguém, deve ser no povo e não nos mercenários, exatamente pelo mesmo motivo. Por isso mesmo, há uma necessidade de tentar satisfazer as massas e não só oprimir. Medidas populares como a distribuição de riqueza, duplamente vantajosa por diminuir o poder dos poderosos e satisfazer as massas.
Esta noção tanto gera ódio como amor. Já vários são os exemplos destas várias estratégias na nossa vida política. É preciso termos os nossos olhos abertos para conseguirmos interpretar a realidade e não nos deixarmos necessariamente enganar ou iludir. Confiemos nas lideranças, mas saibamos manter um espírito crítico.
No meio do Atlântico Norte, entre os meridianos 25 e 31 e os paralelos 36 e 43, existem 8 ilhas e Pico, com mais alguns calhaus. Esta terra imaginária, habitada pelos mais diversos animais, tem um nome: Milhafrolândia.
É um começo de artigo algo insólito, reconheço, mas permitam-me esta experiência de escrita, que ninguém pretende ofender, só olhar para a realidade de uma forma mais leve.
Regressemos à Milhafrolândia. Sendo uma região insular, dotada de caraterísticas e necessidades muito próprias, ficou decidido que tinham direito à autonomia e à constituição de órgãos regionais com poderes legislativos e executivos. Trata-se de algo realmente importante para os milhafrolandeses, porque lhes permite melhor gerir o seu território democraticamente. Infelizmente, por vezes, existem macacadas.
Apresentemos alguns dos nossos amigos animais com base na descrição das eleições que eles fizeram em 2020. Os milhafres tinham a mania de que mandavam em tudo, até porque as suas penas cobriam a maioria da assembleia há 24 anos, depois de terem retirado o poder às gaivotas. Depois de tanto tempo no poleiro, criaram-se vícios e o progresso em geral parecia estar estagnado. Eram precisos novos voos, mas os milhafres não percebiam isso.
Os milhafrolandeses cansaram-se e dividiram o voto, esgravatando essas eleições nos anais da História. Os milhafres ganharam, mas a sua plumagem já não chegou para uma maioria. Por outro lado, as gaivotas conseguiram aumentar o número de espécimes na assembleia. No entanto, não havia nenhuma gaiola com maioria. Era preciso olhar para os passarinhos que por lá andavam. As gaivotas foram falar com as garças-reais e com os melros conservadores. Entendendo-se entre si, decidiram tentar convencer os canários azulados e os estorninhos e, assim, conseguiram a tão desejada maioria. Na assembleia estavam ainda os pintassilgos vermelhos e um verdilhão que até achava piada ao galinheiro que se formou.
Um governo de coligação foi formado. Houve muitas bicadas dentro de cada gaiola, mas aquilo foi-se aguentando. Os milhafres não estavam habituados ao novo habitat político, mas lá tiveram de se resignar. Os pintassilgos já estavam habituados a estar na oposição, por isso estava tudo bem, o problema deles era verem aquelas aves todas satisfeitas a abraçar os estorninhos e os seus cantos mirabolantes.
O tempo foi passando e as gaiolas da coligação aparentavam estarem muito satisfeitas juntas, até decidiram concorrer juntas a vários ninhos locais. Correu-lhes relativamente bem. E agora querem voar até à Assembleia da República em coligação, de novo. Eles querem fazer lembrar uma gaivota antiga que foi um grande exemplo para a sua gaiola, mas todos sabemos que essa gaivota nunca teria aprovado um acordo com estorninhos.
No meio disto tudo, já houve polémica na alocação dos grãos europeus e desconfianças dentro do próprio governo e com as gaiolas que o apoiam. Parece que este galinheiro não vai chegar ao fim e quase se despenhou quando foi preciso aprovar o orçamento para este ano. Vamos ver.
Isto é tão mau, tão mau que só pode ser ficção. Mas, por vezes, a realidade pode superar a ficção. Por uma questão de tentar viver um pouco mais em paz com este mundo, acho que sempre que me reportar à atualidade política, vou fazê-lo por intermédio da Milhafrolândia.
Chegámos à reta final de 2021.
Um ano de contextos difíceis com desafios que muitos preferíamos nem ter ouvido falar. Temos várias crises para lidar. É preciso arrumar a casa.
Se queremos uma comunidade fraterna e forte, precisamos de enrobustecer a democracia. Por um lado, valorizar os movimentos sociais e associações, por outro, assegurar a sanidade das instituições, por vida do acesso à informação e da escolha dos decisores políticos. Se estas crises nos afetam a todos, então todos temos um papel a desempenhar.
O poder político tem de compreender que é necessário haver uma convergência de interesses, uma aproximação interseccional e intergeracional das problemáticas. À partida, essa diversidade deverá ser também visível nos locais de decisão. É o povo quem mais ordena, não as elites.
Nos Açores continuamos a assistir à sobreposição de interesses pessoais e partidários, àqueles que são os interesses das açorianas e açorianos. É óbvio que os governos têm uma linha ideológica, não é isso que critico, mas sim a politiquice envolvente. Na nossa região temos, por exemplo, o cargo de diretor regional. Trata-se de um papel muito semelhante, em termos comparativos, ao do secretário de estado no Governo da República. Qual é o problema? O secretário de estado é chamado a audições nas comissões parlamentares, enquanto que o diretor regional, apesar de ser nomeado politicamente, não é alvo dessa escrutinação. Ou se assume o cargo como tendo um cariz político ou técnico, não faz sentido estar entre os dois.
Temos a pandemia para lidar, com variantes que nos empurram o horizonte de um balão de oxigénio para cada vez mais longe, levando a um grande rombo em muitas famílias, com uma enorme incerteza sobre o seu futuro. Temos uma crise social que se agonizou com o risco de pobreza causado pelo contexto pandémico, mas também pelo conflito que se assiste entre a afirmação e aceitação da diferença e a rejeição da mudança. Temos uma crise climática que traz consigo catástrofes naturais que ceifam a vida de demasiadas pessoas. Ela está a bater-nos à porta. Não nos esqueçamos que somos uns ilhéus no meio do Atlântico Norte, somos especialmente vulneráveis.
2022 é o ano de resolvermos fazer frente a estas questões. Não apoiar mudanças de cosmética, mas sim alterações estruturais. Não vivemos num tempo de manutenção, mas de grandes convulsões que precisam de respostas. Temos de permanecer unidos. Respeitar a democracia. Temos de ter em mente que a melhor resposta não é necessariamente o caminho da moderação, o que interessa é a ponderação.
Um momento muito importante está já marcado para o início do ano: as legislativas a 30 de janeiro. Que ofereçamos uma prenda à democracia e nos mobilizemos para votar. Tenhamos como resolução de ano novo participar no que podemos para termos a comunidade com que sonhamos.
Permitam-me aproveitar estas linhas para agradecer ao Diário Insular que me brindou com este espaço que ocupo desde abril deste ano. É, sem dúvida, um motivo de alegria neste ano que agora finda. Espero que em 2022 consiga trazer pertinência e uma perspetiva que reflita o comum do pensamento da minha geração. Todos os comentários e sugestões são bem-vindos.
Na sexta-feira passada regressei aos Açores, pernoitando em São Miguel, chegando a Santa Maria no sábado. Eu, como tantos outros estudantes deslocados.
Ao ver as ilhas de avião vem aquela sensação especial: um regresso ao lar, ao conforto, àquilo que sempre conhecemos. Parte de nós vem numa missão de retiro para tentar passar aos exames que se avizinham, outros já vêm de férias.
Todos temos os Açores no coração, seja pela terra, seja pela família. Os momentos felizes que guardamos. No entanto, a pergunta que se impõe é se para cá voltamos para trabalhar. Era nisso que pensava enquanto o Q400 se aproximava de Santa Maria pelo sul, proporcionando uma vista que, não sendo rara, não é recorrente. Ver a sua zona plana cheia de casas, a Vila, acompanhada por uma pista que é testemunho de outros tempos, com os montes a encerrar uma realidade de esquecimento. São vários os raciocínios que nos podem ocorrer.
É óbvio que quero voltar para cá trabalhar. Mas haverá emprego? Existir existe, mas muitas vezes trata-se de soluções precárias. Quando falamos de pessoas qualificadas, esta situação agrava-se. Já para não falar de programas de estágios para os mais jovens, só os empurra para um futuro incerto, sem garantias em termos de direitos laborais. Os jovens não querem voltar as Açores sem condições de emprego digno.
Os Açores não podem viver como exportadores das suas gentes: é urgente conseguir meios para, pelo menos, dar oportunidade aos seus, e outros, jovens de voltar. A solução, em termos de empregabilidade, passo por se apostar em ramos emergentes, como os tecnológicos. Investimentos públicos não para criarem sinecuras, mas com o intuito de fortalecer a região, promovendo o emprego digno. Que se use a autonomia para reforçar a participação pública nos setores presentes no quotidiano dos açorianos, de forma a conseguir controlá-los.
Mas que não se julgue que o emprego é condição suficiente. É preciso que condições ao nível de saúde e educação, por exemplo, sejam asseguradas. Ninguém quer ir para um sítio se souber que é necessário andar de ilha para ilha para conseguir uma consulta, principalmente, com listas de espera enormes. Ninguém quer ir para uma ilha onde os seus filhos estarão numa escola sem grandes condições infraestruturais, porque sabe que a atividade letiva pode estar comprometida. Estes dois exemplos são básicos. Depois existe a questão de cuidados comunitários, como aos idosos, principalmente estando nós a viver numa região que também está a envelhecer. Acresce o fator cultural. A vida é mais do que o trabalho. É necessário haver condições para o lazer e o entretenimento, uma programação capaz de abarcar o ano todo e não se cingir a uma sazonalidade turística. Felizmente já há muitos esforços neste sentido, mas precisam do apoio da tutela.
Existe também a dimensão das mentalidades, da perspetiva sobre os valores da nossa comunidade. Apesar de tudo, os Açores ainda estão mergulhados no conservadorismo, que se perpetua atrás de comunidades pequenas, onde a diferença ou é ostracizada ou é escondida. Temos de dar relevância às questões da inclusão e não discriminação.
Nós queremos voltar aos Açores, nós queremos dar continuidade a esta terra, mas precisamos que nos deem condições. Se se acharem incapazes de o fazer, deixem-nos tentar. Coloquem mais jovens ao leme, ouçam-nos.
Sabemos que vivemos numa sociedade disfuncional quando fazemos algo porque nos vai ser vantajoso e não porque é algo que deve ser feito ou queremos fazer.
Desde cedo que se ouve falar em currículos. Em como temos de resumir as nossas capacidades numas páginas para os empregadores poderem selecionar o melhor candidato. Até aqui tudo bem, mas a verdade é que esta ideia é por vezes levada longe de mais. Eu próprio cresci a achar que os nossos passatempos, como tocar piano ou praticar algum desporto, deviam ser incluídos nessas súmulas e seria isso a diferenciar os candidatos, qualquer que fosse o emprego em conta.
Mais tarde, por dentro das discussões que se iam tendo nos órgãos escolares, percebi que esse destaque dado aos currículos era algo a manter e a estimular. Nessa altura já percebia um pouco mais do assunto. É notório o esforço feito para os alunos se envolverem em atividades extracurriculares, principalmente quando elas estimulam o desenvolvimento pessoal e social. Mas de que serve fazer com que os alunos realizem essas atividades, quando a maioria verá nelas uma forma de subir notas ou um sacrifício necessário? Não existe desenvolvimento nesses casos.
Agora que estou num meio universitário vejo com muita mais clareza um dos grandes problemas que esta perspetiva de acumular tópicos no currículo de forma a impressionar futuros empregadores: só se olha para o próprio umbigo, desvirtuando-se o que é feito.
Pensemos no associativismo estudantil, na representação dos alunos em órgãos institucionais e cargos desta natureza. Uma parte das pessoas que desempenha essas posições, fá-lo pelo ornamento do seu CV. O que acontece? Associações reagem, são inerciais, e as representações estudantis são meramente corpo presente. Ah, mas e então quem elege essas pessoas não vê isso? Bem, se há algo que uma sociedade capitalista ensina é a competição. Quando se quer algo, por vezes, faz-se o que está ao alcance para se atingir o objetivo, mesmo que isso implique perder alguns princípios. Essa é a parte assustadora da competição, estarmos dispostos a atropelar os outros para proveito próprio.
Está mais do que visto que esta conversa toda veio justamente ter à discussão da perspetiva individualista que nos querem incutir. Até porque esta é uma questão central à qual temos de dar resposta. Não me revejo num modelo onde nos temos de vender o melhor possível para nos encaixarmos num canto a tentar obter aquilo que nos é dito ser a estabilidade. Precisamos de uma comunidade onde todos temos uma posição útil para os objetivos comuns, uma comunidade onde cada um é valorizado pelas suas capacidades e recompensado devidamente pelo seu trabalho.
Num mundo com tantas oportunidades não faz sentido afirmar como positivo tentarmos chegar a todas, mas sim percebermos quais são aquelas que mais nos satisfazem e somos melhores.
Vamos falar de currículos. Vamos falar de nos conhecermos e às nossas capacidades. Vamos falar de autossuperação. Mas falemos acima de tudo de valores e princípios. Da raiz, da motivação.
Podemos fazer as coisas porque queremos? Podemos viver de acordo com as nossas expectativas e não as de uma sociedade que nos quer transformar em fantoches?
Parece que o Orçamento e Plano regionais para 2022 foram aprovados. Parece que afinal a crise política foi claramente exagerada. Parece que está tudo bem. Parece, mas nem tudo o que parece é.
O malabarismo que manteve este governo de pé é irrepetível. As tensões entre os parceiros parlamentares e a coligação estão mais do que visíveis, bem como o confronto entre o deputado independente e o CH.
Uma bela operação de charme é esta anunciada Aliança democrática. A coligação PSD, CDS e PPM tenta manter as aparências de uma família feliz, com a sua casa arrumada. Uma ação de marketing que pretende fazer recordar o tempo de Sá Carneiro. Estes três partidos até podem estar em uníssono na cena regional, mas não conseguem esconder o óbvio.
Quer seja por uma moção de censura ou pelo chumbo do orçamento e plano para 2023, este governo está condenado. Este próximo ano já será em tom de campanha eleitoral. Só não vamos às urnas agora, porque os ventos não dão grandes certezas a uma vitória da coligação. Nada que uma renovação governamental não resolva.
Esta renovação é, aliás, o primeiro passo a ser tomado. Num misto de cedência à IL e de limpar o Governo de figuras polémicas e secretários sem sucesso político (que até podem ser muito competentes em termos técnicos, mas que até agora só trouxeram desgostos), temos a possibilidade dos açorianos começarem a retomar a credibilidade neste governo. Com Bastos e Silva e Mota Borges fora, o ar até parece ficar mais respirável, mas não nos esqueçamos que os problemas não se resumem às pessoas: de nada serve colocar fantoches para continuar os mesmos vícios e o mesmo desnorte.
Teremos nas legislativas nacionais o reflexo da visão dos açorianos sobre o assunto, já que os resultados do círculo dos Açores deverão ser uma sondagem em termos relativos daquilo que se pode esperar de umas regionais. Obviamente que o PS tinha de cair na tentação de dar aos açorianos uma lista do sistema. Uma coligação a querer varrer o pó para debaixo de um tapete e um PS a expor os seus maiores vícios. Ou temos um voto útil em massa ou podemos ter uma surpresa eleitoral.
Não acredito que o CH tenha muito a ganhar nos Açores. Os açorianos já sabem, melhor do que ninguém, que se trata de um partido de oportunistas. No entanto, toda a encenação de novembro pode ter lavado um pouco a cara ao espetáculo.
Já a IL parece-me partir de um ponto mais interessante. Levou a sua avante com estrondo e estilo.
É extremamente improvável que um partido que não o PS ou a Aliança democrática elejam, no entanto estas flutuações nos «partidos pequenos» serão importantes para definir a dinâmica de uma assembleia regional onde o voto de cada deputado conta mais do que alguma vez contou.
Como me apetece fazer umas previsões, vou arriscar nas seguintes afirmações: quem sentir que votar na Aliança não acrescenta nada, dará o seu voto à Iniciativa Liberal; o CH pode muito bem ficar atrás da IL, sendo que o seu resultado vai depender muito mais da dinâmica nacional, do que da candidatura açoriana em si; à esquerda opta-se por novidades, sendo que a CDU não deverá conseguir sair do fundo e o Bloco deverá descer por força do panorama nacional. Quanto ao vencedor, ainda não consegui chegar a uma conclusão, até porque ainda falta conhecer o escolhido do PSD para enfrentar esta importante prova de vida.
Não me apetece falar da política regional neste momento, quando os ânimos acalmarem volto a ela.
Vou, então, expor aqui uma discussão que já tenho tido há umas semanas com o meu grupo de amigos. Estava na cantina com um e começámos a pensar na relação que existem entre os indivíduos e as conversas que costumam ter.
Concluímos que, obviamente, os assuntos estão relacionados com os gostos pessoais, e variam muito de pessoa para pessoa, mas que existem temas mais gerais que são predominantes. Esses temas têm justamente uma ligação direta com a cultura. Por consequência, esses temas baseiam-se muitas vezes em estereótipos: os homens falam de futebol, as mulheres de estética. Vale a pena parar aqui para afirmar que o problema dos estereótipos não é a sua pura existência, mas sim o cortar de asas que por norma impõem.
Para descrever esses assuntos usámos «normais». Ao início achávamos que as pessoas eram «normais» e por consequência, as conversas focavam-se nesses tópicos. No entanto, chegou-se à conclusão de que individualmente ninguém é «normal», até porque temos todos caraterísticas distintas. O que cada um tem é um potencial normal. Ou seja, certos traços de personalidade podem mais facilmente gerar os tópicos de conversa «normais». O que existe, portanto, são grupos «normais».
Percebemos que tópicos, como futebol, facilmente entram em conversas com homens, brancos, héteros e cis. Antes de mais: não, eu gosto muito deste grupo social, não o quero extinguir. Este é um exercício de amadorismo psicológico. Nesta linha de pensamento, estas caraterísticas são catalisadoras para o «potencial normal».
Qual é o interesse disto tudo? Bem, há vários. Desde logo, uma amiga encontrou um corolário importante: por norma, quem tem um «potencial normal» elevado não pensa que ele existe. Quer isto dizer que, por consequência, na maioria, são pessoas com baixo potencial a notar esta tendência. Faz sentido, justamente por não se enquadrarem nas conversas «normais», sentem a marginalização.
Óbvio que toda esta conversa parece demasiada forçada. Ao fim e ao cabo, estamos inseridos em vários grupos, sejam de amizade, trabalho, … Onde temos conversas de diferentes ordens. Dadas as nossas especificidades acabamos sempre por nos sentir deslocados mais cedo ou mais tarde.
Aqui a questão é perceber a tendência para onde flui um grupo não especializado num tópico. Neste ponto percebemos a importância dos temas «normais»: eles definem espaços de fala. Quem não se enquadra ou se ofusca, ou fica de fora. Chegamos a uma parte importantíssima: reconhecer que existem grupos privilegiados por inerência.
Percebemos que as nossas caraterísticas biológicas definem o nosso espaço de fala, justamente porque a nossa cultura assim está assente. Ou seja, a existência de temas «normais» de conversa não é uma problemática, longe disso, a questão acaba por ser quais são esses tópicos, ou quão diversos podem ser. Será que a esmagadora maioria das pessoas conseguem sentir-se representadas?
Também existe a possibilidade de isto não fazer o mínimo sentido ou de estar extremamente confuso. Qualquer que seja o cenário, a verdade é que pus o leitor a pensar sobre a forma como a nossa sociedade está construída e ao mesmo tempo consegui distraí-lo dos nossos dramas políticos. De nada.
Dando bom uso ao princípio da continuidade territorial, os Açores quiseram juntar-se à festa de ter uma crise política. Costa assinou sentença do seu governo, quando recusou acordos em 2019. Bolieiro nunca deveria ter aceitado os acordos que fez, cedendo a uma sede de poder.
Apesar de não podermos afirmar que se previa longa vida ao Governo Regional, a verdade é que a sua possível queda neste momento está relacionada com a crise a nível nacional.
A partir do momento que a coligação aceitou depender da IL e do CH, tornou-se um alvo fácil dos seus caprichos. No caso do CH, temos uma novela regional que deu bons meses de entretenimento (para não dizer preocupação), que demonstra o que a sensação de poder faz a quem o usa para defender interesses pessoais e partidários. O PSD legitimou a governação com a extrema-direita, depois de muitas cambalhotas.
Com as legislativas nacionais antecipadas a chegar os partidos agitam-se da forma que podem. O CH, sedento por poder, continua a tentar criar dramas para ter atenção. Uma forma de manipulação é, claro, usar o fantoche açoriano. Chantagear um PSD nacional com a queda de um governo do PSD Açores. É óbvio que o CH Açores não quer isso. Depois de um ano tão intenso, precisa de recuperar a credibilidade que tinha. Por isso mesmo dá jeito a José Pacheco dar a entender que a autonomia existe, afastando justamente essa ideia de fantoche e, por consequência, aprovando este orçamento.
Claro que o CH não podia aprovar os documentos sem mais nem menos. Faz as suas habituais e boçais reivindicações de prejudicar ainda mais aqueles que são marginalizados pelo sistema. Aproveitam uma brecha na classe média descontente e atacam os mais desfavorecidos e indefesos.
Mas não nos esqueçamos que a IL também ainda não fechou o seu voto. O GR já demonstrou, nesta proposta, uma aproximação às reivindicações dos liberais, apesar de nãos os satisfazer por completo. A acrescentar, pelos vistos, Carlos Furtado pode chumbar o orçamento se o Governo aceitar uma proposta do CH – e se basta somente mais um voto contra isto pode ser fatal.
Permitam-me deixar aqui esta informação que desconhecia, mas que pode ser útil para vermos em que situação estamos: um empate na Assembleia Regional leva a nova votação, sendo que se o empate persistir a proposta é rejeitada.
Neste momento existem 28 votos contra e 26 a favor. Nuno Barata, José Pacheco e Carlos Furtado são os fiéis da balança. Basta um votar contra que os documentos são chumbados. Basta um se abster que há empate. A situação não está bonita.
E onde está o Presidente da República? Não nos podemos esquecer que Marcelo Rebelo de Sousa é presidente de todos os portugueses, onde se incluem os açorianos. É ele quem tem o poder de dissolver a Assembleia Regional. Não houve qualquer problema em fazer chantagem com a esquerda parlamentar sobre a aprovação do Orçamento de Estado, mas sobre os Açores o que diz é que está confiante na passagem dos documentos. Portanto, se se tratar de um governo de direita, mesmo com os acordos de apoio parlamentar rasgados, a estabilidade é algo que surge naturalmente.
Marcelo é um estratego com uma visão privilegiada. De vez em quando decide parar de arbitrar para dar uns toques na bola. Açorianos, isto não está bonito, mas, mais cedo ou mais tarde, somos nós quem dita como isto se vai resolver.
Vivemos num mundo recheado de crises. Se é verdade que a emoção não falta, é-o igualmente que seria simpático termos um momento de relaxe. Infelizmente não o temos, há muito a fazer, há um fosso de desigualdades.
A pobreza é uma problemática global e que facilmente se constata nos Açores. Paradoxalmente, é possível inferir uma acumulação de riqueza extraordinária. Algo de muito errado se passa.
A realidade de haver pessoas a pedir esmolas já não é estranha nos Açores. Trata-se do cúmulo da visibilidade da pobreza. Ninguém devia sequer passar pela necessidade de o fazer e é necessário ficar bem patente que a caridade não é a solução.
É óbvio que não posso chegar junto de uma pessoa sem-abrigo e dizer que não a vou ajudar por achar que uma ação individual não combate um problema que é tão profundo. Quem tenta sobreviver dificilmente se dá ao luxo de filosofar. A verdade é que toda a noção de caridade, muito encorajada pela visão cristã, incluindo as instituições a si associadas, o que faz é atirar para o cidadão comum a obrigação de «ajudar o próximo». Por muito romântica que esta ideia seja, a verdade é que acarreta um lado dramático: a manutenção da pobreza. Ela não desaparece, vai sendo amortizada aqui ou ali, atuando à posteriori.
Aquilo que precisamos é de vontade política. É de termos recursos que o poder executivo possa utilizar para conferir dignidade humana a todos os cidadãos. Cabe ao Estado incluir todas as pessoas no seu funcionamento, sem ostracizar nem marginalizar grupos sociais. Se queremos acabar com a pobreza, o que temos de fazer é exigir uma resposta firme por parte do poder político. Toda a lógica dos impostos serve para alimentar um Estado que se quer saudável, e nenhum se pode considerar são, quando existem pessoas a viver sem condições.
Que se note que a pobreza é um problema complexo, com raízes na sociedade capitalista em que estamos inseridos. A pobreza não é nada mais, nada menos do que a falta de dinheiro. O que acontece é que este sistema permite que haja pessoas a bater no fundo e a perder a dignidade. Um sistema que explora, vive do desespero. Ninguém escolhe ser pobre, nem ninguém escolhe continuar a ser pobre.
O ser humano é, claro está, um bicho complexo. O facto de não conseguir ter o suficiente para pagar uma renda ou, até, se alimentar faz com que surjam muitos mais problemas. Perder tudo e/ou estar sempre a fazer contas leva a uma tensão e stress contantes. Problemas psicológicos podem aparecer, como a depressão. A tomada de decisões é afetada. Existe um estudo muito famoso que relaciona, mesmo, a pobreza com a perda de inteligência (https://scholar.harvard.edu/files/sendhil/files/976.full_.pdf). Trata-se de uma conclusão importantíssima: demonstra que continuar pobre não é uma escolha e que o mais provável é não se conseguir sair da pobreza sozinho.
Infelizmente, quem passa os dias a tentar sobreviver, não vai olhar a meios para o fazer, mesmo que isso inclua violar as regras do Estado que lhe virou as costas. Eu não sou autoridade nesta matéria, mas trata-se de um assunto demasiado importante para não ser falado.
Quando pensei sobre este tema estava na via pública, a testemunhar alguns exemplos de pessoas em dificuldades. Dei por mim algo emotivo, não porque veja em mim a reencarnação da Madre Teresa de Calcutá, mas porque me apercebi que as circunstâncias da existência me podiam empurrar para essa situação. Neste sistema, a esmagadora maioria não está imune.
Estou farto do Orçamento. Estou farto da crise política. Estou farto. Como não me apetece ler mais opiniões sobre o assunto, não me vou voltar a enfiar no assunto. Acabei de escrever isto e pensei: mas sabemos do que estamos a falar?
Convenhamos: muita gente ou não tem o interesse ou não tem o tempo (infelizmente algo demasiado comum na nossa sociedade) para saber como funciona, com algum detalhe, a nossa democracia. De que serve andar-se a fazer considerações sobre o Orçamento de Estado se parte das pessoas não sabe bem o que é que se enquadra nele?
Estas palavras não correspondem, provavelmente, à situação de que lê este artigo, mas penso ser importante referi-lo. Formalmente nunca ninguém nos disse o que é um Orçamento de Estado. Muitas pessoas votarão no dia 30 de janeiro sem ter esse conhecimento. No entanto, até lá têm de engolir as notícias que lhes apresentaram sobre o assunto, várias vezes acompanhadas por análises onde as culpas são empurradas. O pior mal? Uma pessoa sem informação é alguém indefeso.
As grandes máquinas de propaganda partidárias encarregar-se-ão de fazer passar a sua mensagem, mesmo que não corresponda à verdade. As postas de pescada são atiradas para ver se colam.
Estamos diante de um contexto inédito na nossa democracia. Existem muitas variáveis para analisar, se quisermos fazer um estudo totalmente independente e isento. Como a esmagadora maioria dos portugueses não é paga para comentar política, cada um ficará confinado ao tempo que teve disponível para pensar sobre o assunto. A multiplicidade de perspetivas sobre o sucedido só se vai intensificar durante o mês de janeiro, não podemos contar com grande clarificação (talvez a divulgação de certos detalhes).
E aqui volto ao mesmo: cada um de nós tem de fazer a sua análise, mas não a podemos basear no ar. Temos de saber do que falamos. De que serve o PS dizer que o Bloco tinha propostas que não se enquadravam no Orçamento se não sabemos se isso é verdade? De que serves os partidos à esquerda afirmarem que havia alternativas à dissolução da Assembleia da República se não sei se é verdade?
Claro está que não podemos na escolaridade obrigatória andar a falar de tudo e mais alguma coisa. Não acho que deva existir um acréscimo de carga horária para se abordar estes assuntos. Acho que se deve perder o medo (talvez até preconceito) de os abordar. Já antes o disse e repito: em Cidadania existe uma parte do programa para falar no assunto.
Perceber em traços gerais como funciona o nosso Estado, como são organizadas as eleições, quais as competências de cada órgão e qual o papel que cada um de nós pode ter é essencial. Saber que existe um documento legal base para a nossa sociedade: a Constituição. Acima de tudo: saber onde encontrar a informação.
Deixo aqui uns sites que me parecem interessantes:
Comissão nacional de eleições: https://www.cne.pt/
Assembleia da República: https://www.parlamento.pt/
Um esforço no sentido da literacia política: https://www.os230.pt/democracia-101/
A nossa Constituição (neste site pode encontrar toda a legislação, basta pesquisar): https://dre.pt/dre/legislacao-consolidada/decreto-aprovacao-constituicao/1976-34520775
Num mundo onde é impossível saber tudo, que saibamos o básico e tenhamos os instrumentos para pesquisar mais a fundo, se for necessário. Ninguém se deve contentar com as postas de pescada que os outros deitam, pensemos por nós próprios. Sejamos nós próprios nas urnas.
Este último mês de outubro saciou a sede dos portugueses por drama, tendo a nossa cena política sido substituída pela 7ª temporada de House of Cards.
Marcelo queria estabilidade e Costa queria convergência à esquerda, foi assim que a novela começou. Por esta bela atuação, ambos merecem um Óscar.
O nosso Presidente da República, sob o mote da estabilidade, decidiu condicionar a Assembleia da República, através da chantagem de eleições antecipadas, caso a proposta de Orçamento de Estado fosse chumbada. Marcelo sabe que existem outras soluções, que é possível o Governo apresentar novo documento, por exemplo.
O nosso Primeiro-Ministro passa o ano inteiro colado à direita para as várias votações na Assembleia da República, mas quando chega a altura do Orçamento de Estado decide olhar para a esquerda como parceira, para depois poder afirmar que Portugal tem um governo à esquerda.
A crise política em que estamos foi, portanto, fabricada pela astúcia de Marcelo e pela arrogância de Costa.
Se o orçamento fosse aprovado, Marcelo reivindicaria a tal estabilidade que tenta ser a sua imagem de marca, se fosse reprovado convocava eleições, onde o seu partido, PSD, podia recuperar algum ânimo depois das autárquicas, tendo em contas algumas vitórias simbólicas, como a de Lisboa, que podem indicar algum desgaste da máquina política do PS (principalmente por se tratar de centros urbanos).
António Costa apresentou um Orçamento insuficiente para fazer face à crise pandémica, social, económica e climática que enfrentamos. Como já disse antes: este é o único momento em que o governo decide encerrar o diálogo com os parlamentares de direita e pedir a aprovação à esquerda. BE e PCP são, portanto, os agentes mais importantes para a aprovação do orçamento. O Bloco já havia votado contra o último orçamento, mas acabou aprovado com as abstenções do PCP, PEV, PAN e deputadas não-inscritas.
Posto o documento em cima da mesa, começas as negociações. O Bloco, num esforço para evitar uma crise, reduz as suas reivindicações a 9 pontos essenciais nas áreas da saúde e direitos laborais. Parte dessas reivindicações eram sobre a lei laboral e não matéria do orçamento, mas como o PS governa com a direita no resto do ano, esta foi a oportunidade de o Bloco fazer o PS e o governo resgatarem os direitos pré-troika. O Governo recusou todas, fazendo para algumas contrapropostas muito insuficientes. O mesmo se acabou por passar com o PCP, com a agravante de que parte das propostas que o fizeram abster para 2021 acabaram por não ter sido executadas, tendo o governo traído a sua confiança.
Estamos, portanto, diante de um cenário em que os partidos à esquerda abdicaram do seu programa eleitoral, reivindicando medidas elementares, com pouco impacto orçamental e que, ao fim e ao cabo, simplesmente colocavam os direitos laborais tal como eles já estiveram (e que foram, aliás, reivindicações do PS enquanto era oposição a Passos Coelho). Ou seja: este orçamento não foi aprovado porque o PS não o quis. Isto levanta a questão: foi António Costa ingénuo a abusar da confiança da esquerda, ou na verdade queria eleições antecipadas para tentar uma maioria absoluta?
Que se note, por fim, que em 2019 o Bloco quis ter um acordo escrito com o PS para garantir estabilidade durante os quatro anos da legislatura. O PS recusou. A Geringonça já morreu em 2019 e quem a matou foi o PS de António Costa.
Todos nós somos diferentes, é certo, mas existem modos de agir semelhantes. Correndo o risco de cair num falso dilema, afirmo que temos essencialmente dois tipos de pessoas: quem vê o mundo como um conjunto de colisões e quem o vê como uma teia.
Na verdade, ambas me parecem legítimas, no entanto, uma afigura-se como a escolha mais sustentável para a nossa comunidade.
Quando falo em conjunto de colisões, é como se cada indivíduo vivesse em bolhas separadas que, por forças externas, acabam a colidir umas com as outras e a provocar relações. Isto acarreta uma grande consequência: cada pessoa é completamente independente de quem não conhece, «ninguém deve nada a ninguém».
Por outro lado, podemos ter a perspetiva de uma comunidade enquanto teia. Mesmo que não nos conheçamos, de alguma forma estamos relacionados com alguém, nem que seja pelo simples facto de fazer parte da mesma comunidade. Em termos científicos esta ideia está bem patente na genética: temos uma relação enquanto espécie. Ainda na ciência podemos falar no facto de sermos constituídos por unidades fundamentais da matéria que se encontram em todo o lado. Assim sendo o que nos distingue de uma rocha? De forma superficial, a resposta parece ser o mero acaso.
É justamente porque somos um acaso, que devemos ter em mente o papel da empatia. Não só com outras pessoas, mas também com que nos rodeia.
Uma visão individualista faz-nos esquecer que o outro é alguém como nós: dotado de pensamento e emoções. Aquelas regras do «não faças aos outros o que não queres que façam a ti» é o resultado de termos consciência disso. Ações tão básicas como agradecer um gesto de boa educação acaba por ser colocado em segundo grau. É claro que podemos delinear aqui um espectro no individualismo, mais uma vez, não quero incorrer no falso dilema.
Mas a verdade é que me parece que, atualmente, aceitar um panfleto, por exemplo, é quase uma ação de cariz político. Quem de entre os leitores já andou a distribuir flyers, ou recolher assinaturas? Dos que o fizeram, quais os que ignoram quando alguém na rua os abordam nesse contexto? É a empatia por experiência própria.
Estamos no meio de um tsunami: entre a crise climática, social, económica e pandémica. E estas são as que me lembro por saber que me afetam pessoalmente. Nós não as vamos ultrapassar sem cooperação. Não temos de concordar com todos, nem temos de ser todos iguais: temos de reconhecer que estamos no mesmo barco. Temos de reconhecer que existe um futuro possível onde cada ser humano pode viver com dignidade e em harmonia entre si e com o meio ambiente.
A parte boa de vivermos em democracia é não termos de esperar que os governantes tomem a ação. Somos nós quem os escolhe. Somos nós quem dita qual o rumo a tomar. E mesmo quando quem prometeu fazer algo não o faz, temos meios de pressão. Nunca tivemos um grau de comunicação interpessoal tão elevado. Com organização chegamos lá. O mote do «pensar global, agir local» pode ser uma bola de neve.
Mas esse movimento não chega longe se não virmos a nossa comunidade como uma teia. Se seguirmos em frente sem olhar para quem nos rodeia, só nos estamos a sabotar e às gerações futuras.
Protagonizar duas campanhas eleitorais não é muito, mas já dá para perceber a dinâmica dos comentários que se geram. Durante todo o ano temos espaços de comentário, aliás, mas é na altura das eleições que se tornam mais evidentes, principalmente a nível local. E mais evidente se torna a invisibilidade que tentam conferir às campanhas que não são dos dois partidos do centrão. Mais uma vez, uma realidade muito visível a nível local, fora de grandes centros urbanos.
Posso dar o meu exemplo concreto: fui candidato do Bloco em 2020 e 2021. Em Santa Maria o comentário acontece por via da nossa rádio, o ASAS, onde existem dois indivíduos com capital político, um no PS e outro no PSD. Conseguiram fazer a proeza de nas regionais só mencionarem a candidatura do BE no comentário do rescaldo eleitoral. Mesmo assim preferiram rotulá-la sem a explorar – apesar de ter sido um resultado histórico, não só para o partido, mas também para todas as candidaturas que não as do arco da governação.
Nas autárquicas aconteceu quase o mesmo, apesar de haver alguma melhoria, com a exceção de que, pelo menos até agora, não foi feito nenhum episódio de rescaldo. Ou seja, a única referência às candidaturas do BE e da CDU foi feito como forma de criticar os moldes do debate da RTP Açores, pelo que nem sequer foram exploradas. Antes disso abordou-se ao leve o programa destes partidos, mas com um propósito claro de crítica. Entenderia facilmente tratar-se de uma questão de clubismo, mas as análises feitas ao PS e PSD, por ambos os comentadores, são feitas de forma equilibrada. No entanto, o nosso jornal local decidiu permitir um artigo de opinião que aborda todas as candidaturas com a tal postura equilibrada, o que é realmente de realçar como bom exemplo.
Isto leva-me a crer da existência de 3 pontos sobre quem faz o comentário político local: o interesse em manter o centrão; a formatação da opinião pública e a sobrevalorização da experiência.
O que realmente importa é preservar os interesses instalados. Pode haver mudanças nas clientelas, dependendo de quem ganha, mas mudar o sistema é impensável.
Existe uma clara diferença entre aquilo que se diz na rua e o que os comentadores decidem levar para o seu comentário. Têm todo o direito de dizerem o que entenderem sobre o que entenderem, mas se baseiam os seus argumentos muitas vezes na opinião pública, convém ser um pouco mais rigorosos. É impensável, por exemplo, que num sítio onde existe um candidato, ainda por cima com 18 anos, que tem uma reação em termos regionais e os comentadores locais simplesmente ignoraram.
É óbvio que é impossível mudar mentalidades a ouvir alguém embrenhado no sistema. A comunicação social deve ser capaz de ver além dos dinossauros políticos, de forma a conseguir ter um espaço de comentário mais plural e real.
Presumo que as caraterísticas que aqui vejo possam ser transversais ao resto das realidades e por isso o relato em termos gerais. Este é meramente um alerta de que, a nível local, temos de ter em atenção a existência de uma tentativa de formatação da opinião pública e que aos órgãos de comunicação social cabe a responsabilidade de a moderarem e adequarem ao princípio da pluralidade.
Não, caro leitor, não enlouqueci. Até os mudos têm voz, até os mudos têm uma presença democrática. As eleições podem ter acontecido há duas semanas, mas a democracia não parou. Não é só em atos eleitorais que todos nos fazemos ouvir, é em todos os dias do ano. É por isso que nos podemos orgulhar de afirmar que ainda vivemos num estado democrático.
Nada satisfaz mais os interesses instalados do que a ilusão de que nós, cidadãos comuns, não temos qualquer poder além do voto (e nesse caso, nada os satisfaz mais do que a abstenção). História e Filosofia são importantes, uma no básico ou no secundário, para demonstrar as ferramentas que temos, se bem que de forma indireta. Em Cidadania existe o domínio das «Instituições e Participação Democrática», mas será que é devidamente lecionado? Por agora temos voz, mas se ninguém nos disser que temos os instrumentos, num futuro o que hoje chamamos de democracia pode desabar.
Como podemos acusar os jovens de desinteresse se nem lhes é sequer ensinado como votar? Que legitimidade há? Os poderes instalados agradecem.
Quais são, então, essas ferramentas? Existem algumas óbvias (como o voto ou a própria participação em órgãos de soberania), mas mesmo no nosso quotidiano temos acesso a toda uma gama de instrumentos que acabamos por não usar na sua plenitude. A Internet é, provavelmente, o maior exemplo. Através da presença online é possível contactar com entidades, instituições, órgão, etc competentes nas mais variadas áreas para propor sugestões, deixar críticas e questionar. É possível criar e subscrever petições. É possível aceder a um conjunto de informação enciclopédica, onde se inclui a organização das entidades e as suas regras. Com persistência na pesquisa e filtros de rigor, é possível encontrar resposta para quase qualquer questão.
O associativismo e o voluntariado são outros instrumentos poderosos. Só por si são-no porque sendo pilares da comunidade precisam de atenção (e a participação tornam-nos mais visíveis). Por outro lado, qualquer que seja a área ou causa, tem sempre uma competência política associada. São formas, portante, de pressionar e alertar os agentes políticos para esses temas. Os próprios sindicatos são, claro, outro exemplo, com uma índole claramente reivindicativa.
Atitudes como manifestações e greves são outra forma evidente de ter uma ação democrática. São o expoente da ideia de que sem visibilidade os problemas não são resolvidos.
É necessário ter em atenção que os órgãos políticos permitem público e, alguns até, participação. As assembleias municipais e de freguesia, por exemplo, têm um período de auscultação ao público previsto no período antes da ordem do dia. Algumas reuniões da Câmara Municipal podem ter esse espaço. Mais uma vez: o contacte de entidades executivas pode ser importante: seja a Junta, a Câmara, uma Direção, uma Secretaria, um Ministério,…
Tudo o que fazemos é política, temos de parar de achar que se trata de algo alheio, algo sujo. Se recusarmos o nosso poder é que se torna sujo, porque fica nas mãos de uns poucos, que guerreiam por interesses próprios.
Por um lado temos de assumir a nossa postura de cidadãos e por outro temos de deixar cair os preconceitos sobre os candidatos e titulares de cargos públicos: nós podemos ser um deles.
Este é o momento em que começo a fazer as malas para voltar ao Porto: agarrar de novo a vida de estudante universitário. Devo fazer parte das últimas fornadas a regressar ao ensino superior, já que para muitos estudantes o ano letivo já começou em setembro. Volta a distância e alguns obstáculos, mas em setembro tivemos a degustação de um grande entrave: a impossibilidade de votar.
A casmurrice de continuar com um voto antecipado antiquado e burocrático, mesmo depois do sucesso das regionais e presidenciais, aliado ao calendário destas eleições impossibilitaram muitos estudantes deslocados de votar.
Antes de mais, contexto: para um estudante deslocado votar (se não estivesse no concelho de recenseamento no dia 26) precisava de fazer um requerimento até dia 6 de setembro e depois votava entre 13 e 16 no concelho onde estuda. Existem dois problemas aqui: no dia 6 as universidades, por norma, nem inscrições abriram, por isso não é possível ter uma certidão para comprovar a frequência. Algumas Câmaras Municipais estavam a recursar os certificados do ano anterior e, por isso, tanto eu como um amigo da Praia da Vitória andámos a chatear a CNE com a situação. Algum tempo depois surgiu a solução: aumentar a burocracia para além do certificado do ano passado haver uma declaração de honra.
O outro problema é que muitos estudantes dia 26 não estão no seu concelho, mas entre 13 e 16 estão, ou seja, não podem votar. Este é um problema que no continente, dependendo da localidade, pode ser atenuado pela oferta de transportes terrestres, mas para quem vive nas ilhas torna-se difícil estar a suportar custos de uma centena de euros para ir votar.
Depois existe a questão de quem entrou pela primeira vez no ensino superior. Com a incerteza relativa ao local onde ficarão, e que só foi publicado o fim de semana das eleições, torna-se obviamente impossível até dia 6 de setembro comunicar o concelho de estudo e, muito menos, lá estar entre 13 e 16.
Apesar de todas estas limitações, tivemos a ideia de em Santa Maria propor uma facilitação no processo de requerimento: a possibilidade de o fazer através de um formulário online. Não elimina a burocracia, mas tendo em conta a margem de manobra legal, evitaria a pessoa ter de escrever um email ou carta, só tendo de colocar os dados e anexar os documentos necessários. Antes de fazer a proposta publicamente informei-me junto das entidades competentes. Falei com uma jurista do SGMAI que prontamente me disse tal ser possível. Infelizmente logo de seguida me liga a informar que, afinal, o superior hierárquico não aprova. Apesar da legislação ter abertura para isso, a própria tutela insiste em complicar a vida a quem quer votar.
Toda esta situação poderia eventualmente ser atenuada com a adoção do método de voto em mobilidade antecipado, como nas regionais e presidenciais, sendo que haveria a permissão de uma segunda impressão dos boletins para suprimir as necessidades dessas mesas de voto. Aparentemente, a logística tão complicada que Cabrita alegou, poderia ser contornada se houvesse vontade.
Há jovens a querer votar e a serem impedidos. Há jovens a chatear a CNE e SGMAI com questões e propostas. Havia a possibilidade de se reduzir a abstenção, tal como aconteceu nas regionais de forma transversal. Faltou vontade e não foi a dos jovens, como se quer fazer crer.
Escrevo estas linhas no avançar da noite que sucedeu ao longo dia difícil de 26. Em Vila do Porto tivemos o nosso segundo melhor resultado, mas perdemos a nossa representação municipal por uma margem de 26 votos.
É duro sermos os protagonistas de uma candidatura que viu as suas expectativas defraudadas, não só por razões pessoais, mas também porque foram meses de um esforço coletivo. Uma candidatura faz-se com uma equipa dedicada e com muita motivação. Uma derrota é a desmobilização desse movimento.
Fizemos o melhor que podíamos de acordo com o contexto, demos o melhor de nós. Estamos de consciência tranquila. Não só pela campanha como pelos 4 anos em que o Paulo Sanona representou o Bloco de Esquerda na Assembleia Municipal de Vila do Porto.
O que custa nesta perda é justamente sentir que os marienses não valorizaram o esforço titânico de um deputado próximo das pessoas, a fazer as questões pertinentes, a levantar os temas importantes, a desdobrar-se em comissões e, além de tudo isso, a ser uma oposição construtiva. Estes 4 anos falam por si e demonstram o quão injusta uma eleição pode ser.
Os marienses, tal como muitos açorianos, foram norteados pelo voto útil. Preferiram o marasmo à mudança. Decidiram desvalorizar uma alternativa que crescia e inquietava os instalados, para premiarem aqueles que até podem deixar o município melhor, mas não têm a coragem e ousadia para o desenvolver verdadeiramente.
São mais quatro nos de politiquices, de algumas marionetas. A política mariense que nas regionais de 2020 era promissora em inquietação provou-se sol de pouca dura. Havia a oportunidade de dar poder à mudança e descartou-se essa opção.
Falando na juventude. É também nossa culpa, dos jovens, esta estagnação. Deixámos as gerações que nos meteram neste buraco escolher sozinhas um futuro que é nosso. Não posso deixar de afirmar que também havia muitos jovens que queriam votar, mas que as restrições do voto antecipado impediram de o fazer.
Houve um claro preconceito relacionado com a minha idade enquanto candidato, não o podemos negar. Pode ter sido um fator, em menor escala, desmobilizar. Criticamos os jovens por não se envolverem, mas quando avançam dão-lhes umas pancadas nas costas e pedem-lhes para esperar uns anos.
A saída do Bloco dos órgãos autárquicos de Santa Maria é um duro golpe para mim, para o Sanona, para quem esteve do nosso lado, mas acima de tudo, para a política mariense.
Mas se o destino do Bloco mariense parece fatídico, que se desengane quem lê este desabafo. Nós sempre soubemos que escolhemos o caminho difícil, conhecemos os riscos. Este é momento de parar e pensar. Não nos declaramos mortos. Muito pelo contrário. Nunca tivemos uma campanha tão viva e apoiada.
Pessoalmente, posso estar a questionar-me se afinal Santa Maria era a ilha que pensava ser, se os marienses realmente reconhecem o meu valor e trabalho, mas uma coisa é certa: este movimento ainda tem muito para dar. Porque o amor à ilha é maior do que um fracasso. Porque a falta de ação desta geração não pode hipotecar o futuro dos nossos filhos e netos. De nós, jovens, filhos e netos, que ainda neste século temos de lidar com crises profundas e degenerativas.
Marienses, nós não merecíamos isto.
O artigo que se segue é uma adaptação de um de mesmo nome por mim publicado em janeiro de 2019 [https://tinyurl.com/8ks4kppr].
Não deixa de ser paradoxal e enigmático o facto de olharmos para o pensamento próprio como o salvador da Humanidade, no entanto, na altura própria para o desenvolvermos, é obstaculizado. Poderão, e com toda a razão, argumentar que na nossa escola estão a ser dados os conhecimentos e mecanismos para tal construção que é autónoma. Não duvido. O mal está em tudo o que é dito, mas não praticado. «Faz o que eu digo e não faças o que eu faço» é expressão que não pode assentar em nenhuma instituição de ensino. Os valores fundamentais para uma sociedade melhor são constantemente cilindrados.
Onde está a liberdade, solidariedade e fraternidade de um sistema tão ortodoxo? Os que já se esqueceram de como era ser jovem vão discordar. Já passaram, às tantas, já nem querem saber. E nem querem saber os próprios pais, não porque não se preocupam com os filhos e o seu futuro, mas porque também foram vítimas desta deturpação de valores. Como pode o sistema ser ortodoxo se existem tantos caminhos, modelos, programas, projetos diferentes nas nossas escolas? Muito simples: baseiam-se todos no mesmo – burocracia. A burocracia é um dos piores males que nos afetam: é ela quem monta a avaliação, é ela quem desvia a atenção do professor do aluno para as atas, é ela quem faz esbarrar pensadores livres numa parede com um buraco minúsculo.
Desvendemos o pior lado da burocracia: a avaliação. Um processo esgotante, entediante, injusto e desnecessário. Tanto papel e recurso intelectual é movido por uma folha que testa a memória de um indivíduo. Para quê?
Numa sociedade onde a informação está cada vez mais disponível (e vulnerável) não será mais adequado uma preocupação em orientar os alunos para a busca e tratamento da informação pretendida através de um processo consciente e racional na ambição pelo rigor? O conhecimento já existe, é impraticável um indivíduo retê-lo na sua totalidade, logo a competência essencial é selecioná-lo.
A memorização de informação é importante, mas não pode ser tudo.
Devemos memorizar sorridentes e contentes com a curiosidade de uma criança a informação que nos é ditada, porque no fim temos de preencher um papel com ela. Porque no fim temos de ter a melhor nota. Porque no fim temos de entrar para a melhor universidade. Porque no fim temos de ter o melhor emprego. Porque no fim temos de morrer felizes com o esgotamento que sempre acatámos.
Somos jovens, a idade da honestidade, sinceridade, do dinamismo intelectual e de um desejo radical de conseguir sempre fazer melhor. Não é a restringir os nossos interesses e tempo que nos vão fazer estarmos felizes a aprender. Esta realidade assusta-me. Os jovens não estão felizes a aprender. Não estamos. Todos os progressos foram feitos pela aprendizagem, aplicação e reciclagem de ideias. Ao retirarmos a vontade de aprender de seres humanos o resultado só pode ser o suicídio societário. O marasmo. A decadência.
Então, o que é aprender? É guardarmos em nós parte do espírito inocente da criança: a curiosidade. A curiosidade é caraterística nata de qualquer indivíduo. A escola tem é de a estimular. Quando é imposto um número sem fim de conteúdos – que são apresentados com fim único a avaliação e não o desenvolvimento pessoal – o processo deixa de ser pessoal e perde-se.
E as pessoas? Normalmente, quando se fala em preservar o património, só nos ocorre o imóvel. Faz sentido, afinal, de forma óbvia, é aquele que perdura ao longo do tempo. No entanto, como os leitores já perceberam, penso que existe toda uma riqueza por explorar: as pessoas.
O património imóvel existe porque alguém o construiu. Desde quem trabalhou as rochas nas pedreiras, a quem mandou executar a obra, houve pessoas envolvidas. Importa percebê-las, como viviam, quais os receios, qual o entretenimento, quais os ritos,… Claramente que as pessoas são um produto da cultura, mas também a produzem e, portanto, cada geração é única. Temos de saber usar esta informação.
Podemos não ser iguais a quem nos antecedeu, mas podemos aprender com eles. Perceber onde podem ter errado e quais os seus pontos positivos. Até aqui o que afirmo é algo que me parece bastante consensual: trata-se do propósito prático da História.
Por esta razão penso ser tão importante esforçarmo-nos por investigar sobre as pessoas, no geral e individualmente, quando necessário. Percebermos como pensavam. Biografarmos personalidades marcantes. Temos esta vantagem enorme de poder escrever. Somos capazes de produzir conhecimento que pode durar milhares de anos. Usemos esse poder da escrita.
Por isso mesmo acho que temos de apoiar e colaborar com quem se dedica, muitas vezes por sua exclusiva iniciativa, sem retorno, em descobrir e relatar histórias que fazem parte do nosso ADN enquanto conterrâneos. Construir locais, digitais, de preferência, que sirvam de arquivos para esse trabalho de investigação. Fóruns eficientes para se discutir conhecimento. Alargar a análises sobre contextos ou outros objetos de estudo como o tal património imóvel. Ao fim e ao cabo, uma Wikipedia, mas a nossa Wikipedia, com recursos para assegurar a qualidade do que é publicado.
Quantos não são, até, os estudos académicos, maioritariamente teses, que ficam na gaveta e que poderiam ser extremamente importantes para conhecermos a nossa ilha? Há uns meses aprendi a palavra nissologia: enquanto insulares temos de nos estudar a nós próprios, para não ficarmos dependentes somente daquilo que o centralismo dita.
Que fique aqui a nota de que o olhar para a História não deve servir para passar paninhos quentes, nem para estimular egos. Ao se olhar para o passado temos de perceber que aquelas pessoas também tinham falhas. Que houve erros.
Existe algo tão interessante, mas que não me havia passado na cabeça até recentemente: nós temos a possibilidade de ter testemunhos hoje que remontam há mais de 100 anos. A minha avó, por exemplo, com 82 anos, tem memória de pessoas que nasceram no século XIX. Se batermos nas portas certas, podemos ter fontes de informação de valor inestimável. Qualquer cidadão pode ter na sua memória informação importante. Não é preciso ser uma pessoa conceituada, com estudos ou popular. E é justamente aí que está a beleza disto: todos fazemos parte deste mundo, todos temos a nossa importância.
Admito que este artigo saiu algo confuso, trata-se de um tema que tenho de explorar melhor. No meio disto tudo o que importa? Valorizar as pessoas. As que já viveram e as que vivem.
Em 1995, Mário Viegas afirmou: faltam vozes apaixonadas na política. Não podia estar mais de acordo. Sem motivação não vamos a lado nenhum.
Mas não pode ser uma motivação qualquer: não podemos aqui incluir interesses pessoais ou partidários. A paixão é pela coisa pública, pela defesa das pessoas, pelo progresso da comunidade, pelo arregaçar das mangas e, obviamente, pelo meio de trabalho. A milhas conseguimos compreender a postura de quem nos quer representar.
Permitam-me fazer uma nota pessoal: desde que cheguei à conclusão que podia ser um agente político ativo, quer pela personalidade, pelo partido e pelo gosto, sempre me vi num papel legislativo. Não me imaginava, portanto, numa Câmara. Algo mudou, claramente. Ao aprofundar o tema e perceber o alcance do poder local, vislumbrei toda uma gama de possibilidade que penso ter condições para colocar em prática. Não me foi, portanto, difícil aceitar o convite do Bloco. Esta reflexão leva-me a perceber que esta motivação, a paixão, é dinâmica e, como tal, pode mudar – sendo, provavelmente, também uma variável.
Como estamos, então, em termos de paixão pela política nos Açores? Podemos restringir essa questão para o poder local e olhar para os debates transmitidos na RTP Açores. Nesses painéis conseguimos ter toda uma gama de motivação.
Temos aqueles que verdadeiramente ambicionam o cargo a que se candidatam, fazem a pesquisa, falam apaixonadamente e quase conseguimos ver o que estão a dizer.
Existem os que ou não evidenciam o entusiasmo, ou não se sentem totalmente confortáveis com o papel a desempenhar, mas que possuem uma competência inquestionável.
Depois há quem tenha sido a última opção ou a única e que com mais ou menos competência, acabam por estar a marcar presença. Pode realmente haver uma vontade, no entanto dificilmente chega a quem vê e ouve.
Ainda existem, claro, aqueles que estão a fazer um frete. São pessoas motivadas só por interesses partidários, que claramente foram empurradas ou para cobrir um buraco ou para tentar resgatar uma Câmara. Não duvido da competência de algumas dessas pessoas, mas um individuo sem motivação própria para ocupar um cargo, será que fará o melhor trabalho?
Precisamos de paixão genuína na política, caso contrário entramos na tecnocracia e na insípida administração. Somos pessoas, humanos, as nossas ações políticas não podem ser tomadas só com a razão, quando temos um coração. É necessário um equilíbrio. Isto leva-nos justamente à palavra essencial: empatia.
Só quem tem paixão, emana entusiasmo, é capaz de ter empatia. Estar disposto a ouvir o outro. Costuma-se dizer que quem corre por gosto não cansa. Ora aí está. Se estivermos totalmente motivados para algo, então conseguiremos estar abertos para darmos o melhor de nós, com humildade e persistência.
Agora, por vezes precisamos que a paixão se sobreponha ligeiramente à razão: precisamos de tomar riscos. Por vezes, neles residem possíveis grandes conquistas. É óbvio que quando falamos em riscos, também falamos de possíveis fracassos. Um fracasso na política pode significar uma derrota eleitoral. Não admira que o centrão odeie arriscar.
Nestas autárquicas, em vários concelhos açorianos, sinto que veremos a paixão valorizada. Mesmo que seja uma minoria, estou certo que um dia chegaremos ao cenário em que no panorama político tenhamos uma esmagadora onda de entusiasmo.
Várias vezes se disse que estas autárquicas estão a ser consideradas uma segunda volta das regionais do ano passado. A realidade é justamente essa.
A direita açoriana, depois das regionais, qual manta de retalhos, desesperada, coseu-se à força para formar governo, legitimando, até, a extrema-direita. É exatamente por saberem que essa solução é forçada que tentam justificá-la a todo o custo. É por isso mesmo que os partidos da coligação se uniram para enfrentar estas autárquicas.
Em 2021 temos 8 coligações PPD/PSD.CDS-PP.PPM a concorrer às Câmara Municipais açorianas. Sendo que onde o PPD/PSD concorre isolado, nem CDS-PP, nem PPM apresentam candidatos. Existem, até, apoios informais, incluindo indicação de representantes do PPM e CDS-PP nas listas do PPD/PSD, onde estes não concorrem em coligação. Em 2017 houve 1 coligação deste tipo e não continha o PPM. Trata-se de uma grande mudança.
Que não se julgue que esta mudança vem porque agora estes partidos comunicam entre si. A minha estranheza é justamente porque estas coligações são extremamente frequentes de norte a sul do país, só os Açores é que pareciam destoar. Até nas legislativas de 2015, em todos os distritos continentais foi acolhida a PàF, nos Açores não. O PPD/PSD concorreu isolado, sendo um dos adversários, até, uma coligação: CDS-PP.PPM.
Portanto, não nos podemos iludir: o fenómeno de coligações formais e informais que estamos a ver agora não é inocente. É uma estratégia para validar a constituição do atual executivo.
Que se note que nada tenho contra o facto de sermos governados pela coligação no poder: o meu problema está no processo que levou a essa solução e à inclusão do CHEGA, partido abertamente promotor de ódio, nos acordos.
Quer queiramos, quer não, estas autárquicas vão ser analisadas como sendo a segunda volta das regionais 2020. Se faz sentido? Nem um pouco. Trata-se de realidades completamente diferentes. Os objetos destas duas eleições têm competências distintas, apesar de haver alguma sobreposição. A própria forma do voto é diferente: agora somos confrontados com três boletins de voto (Câmara Municipal, Assembleia Municipal e Assembleias de Freguesia) ao invés de um das regionais (Assembleia Legislativa Regional).
Não obstante, estou curioso para ver os resultados desta manta de retalhos: será que vai funcionar? As pessoas já provaram que fazem uma clara distinção entre os vários órgãos. O fator candidato conta muito por via da proximidade. Será que a direita unida vale mais do que a direita dividida? Será que as pessoas irão penalizar ou beneficiar em função da jogada da coligação, com claros interesses partidários?
No dia 26 de setembro saberemos se o plano funcionou. Se os dramas locais do vai ou não haver coligação compensaram. Em Santa Maria várias pessoas de valor do PPD/PSD demitiram-se dos órgãos que ocupavam e recusaram-se a recandidatar. Foi um duro golpe para quem via a necessidade de rejuvenescer e revitalizar o partido. Escorreram as publicações do PPM a afirmar a sua independência e, no final de contas, acabam a integrar informalmente as listas. Avanços e recuos foram dados com perdas pelo caminho.
Que 26 de setembro nos esclareça sobre como os açorianos e as açorianas veem o oportunismo: votando em quem verdadeiramente acreditam, sem cair na necessidade de legitimar algo que nem está em discussão.
Vivemos numa sociedade apressada. Mesmo em Santa Maria, um quase-paraíso, se nota uma ansiedade. Temos de, enquanto comunidade, perceber se é mesmo este o caminho que queremos.
Vivemos para trabalhar. Todos os nossos horários giram em volta disso. Não me interpretem mal, se queremos viver em comunidade existe a necessidade de todos contribuirmos como podemos e, por isso mesmo, existe o trabalho. No entanto, nós não fomos capazes de gerir o trabalho da melhor forma, a impor uma regulação que permita às pessoas respirar.
O facto de ocuparmos a nossa cabeça prioritariamente com o trabalho leva a que acabemos por não saber viver, quer isto dizer, gerir o tempo dito livre que temos. É óbvio que não acontece com toda a gente, mas esta má gestão, por causa de uma necessidade imediata de autossatisfação leva aos vícios, sendo o alcoolismo, provavelmente, o seu expoente maior no nosso país, região e ilha. Não só estamos a falar de autodestruição, como também da potenciação de outros flagelos sociais como a violência doméstica.
Com o progresso tecnológico isto é ainda mais gritante, porque as fronteiras do nosso trabalho parece que se esvaneceram. Levamos para casa as preocupações e até algumas tarefas, mesmo já tendo trabalhado as horas diárias estipuladas. Existe a possibilidade de uma comunicação permanente. É necessário o direito a desligar. A ter um descanso que o seja efetivamente.
Não é de estranhar que a saúde mental seja um tema tão importante na atualidade: esta ansiedade faz-nos mal.
Por isso mesmo precisamos de trazer para cima da mesa a discussão de 4 dias de trabalho, da redução de horas de trabalho diárias, implementar o direito ao descanso, etc. Só assim conseguimos regular e proteger as pessoas.
A Utopia, de Thomas Moore, apresenta-nos uma ilha onde os cidadãos trabalham 3 horas de manhã e 3 horas à tarde, sendo o resto do tempo dedicado ao que bem entenderem. A cultura, o entretenimento, o desporto, são alguns exemplos de áreas às quais as pessoas escolhiam dedicar-se. Cuidarem de si, serem felizes. Esta é, aliás, uma estratégia aplicada por várias empresas, justamente por saberem que um trabalhador contente é um trabalhador produtivo.
Em Portugal subsiste o a ideia de que são necessários dias longos para trabalhar e quem disser o contrário é porque é malandro. Não faz sentido. Este é um sintoma deste sistema capitalista. Somos meras peças usadas para uma elite obter lucro, a ela não interessa o nosso estado psicológico e até físico.
Agora, até pelo que disse antes, é necessário encaminharmos as pessoas para um preenchimento saudável dos seus tempos livres. O voluntariado e as associações são uma peça fundamental aqui. Atualmente, é com sacrifício e persistência que muitas continuam em funcionamento. É preciso conseguir esticar muito o tempo. E há muita gente que nem o pode fazer.
Se queremos uma comunidade que funcione com base na fraternidade, que promova o convívio, onde a cultura é valorizada, a prática desportiva estimulada e na qual se vivi e não se sobrevive, então é necessário repensar o trabalho. Deixar de o ver como sendo a criação de riqueza para ser um contributo para a comunidade. É preciso aprender a viver.
Na semana passada fomos brindados com uma verdadeira surpresa por parte do nosso Governo Regional: o fim da ligação marítima sazonal de transporte de passageiros e veículos entre os grupos do arquipélago, bem como entre as ilhas do oriental.
Como mariense, naturalmente, fiquei indignado com esta resolução. Não se trata de casmurrice, bairrismo ou resistência à mudança: trata-se de defender um serviço fundamental. Nesta altura a discussão não devia ser sobre haver navio, mas sim sobre ser um serviço permanente.
Ao falarmos neste transporte sazonal, não nos referimos só a passageiros, mas também ao transporte de viaturas, que permitem, até, o escoamento de produtos.
O aumento das ligações aéreas é uma vantagem inegável para o acesso às ilhas, no entanto não substitui o transporte marítimo. Existe toda uma logística que, através do navio, se torna muito mais acessível financeiramente e praticamente. Não sou eu que o digo. São as nossas associações, são os nossos produtores. Se queremos defender a nossa cultura, o nosso desporto, o nosso entretenimento, as nossas culturas, os nossos produtos, então temos de nos colocar do lado de quem o faz.
É também por isso mesmo que esta resolução é um erro: não contou com a audição, pelo menos divulgada, aos principais visados. As entidades foram apanhadas de surpresa.
Que ninguém diga que pelo facto de em 2020 e 2021 não ter havido navio, nos próximos anos também pode não haver. Atravessamos uma pandemia. Prevê-se que no próximo verão as restrições já estejam levantadas. Obviamente que teve de haver uma adaptação, entrando aqui também o reforço da SATA, mas esta é uma situação excecional.
Podem perguntar: e esse transporte funcionava bem, servia da melhor forma os interesses dos marienses? Não, havia muita margem para melhorar, no entanto não é por algo poder estar mal, que se vai acabar. Temos é de melhorar.
Feito o choque, veio o Governo Regional afirmar que afinal até pode haver alternativa: «quer recorrendo a operadores privados, quer através da utilização dos recursos próprios da Região». Ou seja, é provável que haja investimento privado ao barulho.
Nós vivemos num arquipélago, é mais do que evidente que o transporte marítimo é um setor estratégico e deve ser público. É preciso parar de pensar que tudo tem de dar lucro. Setores estratégicos são para servir as pessoas!
Deste episódio espera-se 3 pontos:
1) Haja um serviço público de transporte marítimo (e estudar a hipótese de ser anual).
2) Que o Governo regional perceba que deve ouvir os parceiros sociais e quem é afetado pelas suas propostas, conferindo transparência, solidez e democraticidade às suas resoluções.
3) Que todo este assunto não seja na verdade um bluff, mero show off, para, numa complexa artimanha política, se tentar angariar mais votos.
Pode o leitor estranhar que eu ande para aqui a dizer que o próprio Governo Regional queria gerar esta polémica. Pensemos: as ilhas diretamente afetadas pela inexistência das rotas que havia em anos anteriores são as Flores, o Faial, a Terceira, São Miguel e Santa Maria. Três destas ilhas tem Câmara exclusivamente socialistas e numa delas esse número é metade (São Miguel). Não me admirava que esta fosse uma jogada para, nas vésperas das eleições autárquicas, vir o Governo armado em salvador – de uma crise que ele próprio gerou.
No final disto tudo, o que realmente importa é que haja um serviço público de transportes marítimos, que possa responder às reais necessidades das nossas.
Mais uma vez, a realidade que melhor conheço é a de Santa Maria, mas penso que se trata de algo transversal: as associações são entidades de extrema importância para a comunidade.
Existem várias formas de atuar para melhorar uma comunidade: através das entidades governamentais, das organizações não governamentais (como as associações) e com ações individuais. Apesar destas últimas serem importantes é quando unimos esforços que conseguimos aumentar a probabilidade de atingir com sucesso objetivos mais substanciais. Entidades governamentais fortes são importantes para assegurarem serviços públicos de qualidade e as associações permitem a defesa de causas, uma atuação especializada por pessoas independentes e realizar ações localizadas.
As associações são, portanto, uma ferramenta para a construção da democracia. Indivíduos sem qualquer interesse pessoal ou económico abdicam de parte da sua vida pessoal para o projeto. Esta descrição tem tanto de romântica, como de causa para muita gente recusar participar. Acabamos por muitas vezes ter sempre as mesmas pessoas a suportarem as associações. Isto não é só desgastante para elas, como leva a que a associação não consiga rejuvenescer, com um novo ciclo, com novas ideias. Uma falta de pessoas implica a possível extinção dessa associação – e existem muitas com provas dadas que se encontram à beira deste desfecho.
Já me adiantei um pouco. Afinal, qual é o papel em concreto da associação? Existem muitas áreas de intervenção que podem ser tomadas. Desde eventos culturais, atividades desportivas, preservação de espaços, defesa de causas, formações, entre tantas outras ações, as associações são entidades independentes dotadas de autonomia para desenvolverem a sua atividade. Qualquer um se pode juntar, qualquer um pode contribuir. Existe, como tal, a possibilidade de se atuar no terreno, com um grande contacto com as pessoas e de forma bastante aberta, tendo em conta a universalidade da possibilidade de ser associado. Desta forma, estas entidades obrigatoriamente têm de ser tidas em conta, pelo menos, na auscultação sobre processos que digam respeito à sua área de trabalho.
Além desta importância para deliberações, o poder político deve olhar para as associações como parceiras. Existe muito trabalho bem feito, provas dadas de excelência e qualidade. No entanto, obviamente, as entidades sem fins lucrativos precisam de apoio para se desenvolverem. Tem de haver abertura para de financiar e ajudar no possível estas entidades. É óbvio que com critérios, com provas, mas tem de haver confiança para o fazer.
Termos o poder executivo a delegar, de certa forma, responsabilidades às associações, não é afirmar a sua incompetência, mas antes dar o poder às pessoas. Reconhecer e valorizar o trabalho de quem dá tanto e bem à sua terra sem nada pedir em troca.
Que se engane quem pensa que pretendo afirmar aqui que só o poder político tem responsabilidades em manter as associações a funcionar. Retomando o dito antes: só com uma mobilização nestes projetos é possível termos debate interno, novas ideias, voluntários e, claro, a continuidade. As associações são um instrumento de democracia direta, participativa, não as desvalorizemos e saibamos reconhecer o trabalho dos que as mantêm vivas.
Há umas semanas escrevi sobre a importância do conflito no debate político. Na altura não percebi a consequência óbvia que isso trazia: é necessária militância.
Por diversas vezes disse que o importante não era necessariamente trazer aderentes para o partido, mas sim chamar independentes para se juntarem à discussão. Não entro em rutura com esta afirmação, mas reconheço que deve ser melhorada. Penso que sempre que disse esta frase foi por ter medo de que as pessoas fugissem por não quererem rótulos. Isto diz mais sobre o contexto do que sobre mim, infelizmente. Está na altura de deitarmos por terra as amarras do julgamento popular, que é cultural, e orgulharmo-nos de fazer política, de querermos o melhor paras as nossas terras. Que caiam os estereótipos do que é ser político, porque hoje sabemos que todos o podemos ser!
Vivemos numa democracia representativa que funciona através de métodos de proporcionalidade, pelo que os partidos políticos assumem a vital relevância de servirem de meios de representação. É neles que é suposto debater e contruir rumos, diferenciando a visão dos diferentes projetos.
Assim sendo, é necessário que haja pessoas dentro desses partidos para que a alternativa se afigure. Ou seja: pessoas com visões próximas juntam-se e formam os partidos, os eleitores, individualmente, decidem qual o projeto que consideram melhor e daqui sai a representação que temos nos órgãos eleitos.
Nunca esquecer que a democracia também deve existir dentro dos partidos. As pessoas que compõem o projeto têm o direito de decidir quem comanda o projeto. É por isso que as direções partidárias têm credibilidade nas escolhas dos candidatos às eleições. Essas mesmas direções foram o resultado de escolhas internas que são acompanhadas por um programa. É justamente por essa razão que, neste contexto, as primárias não são necessariamente uma solução. Compete a quem, a nível local, regional ou nacional, foi mandatado o dever de agir e fazer valer o programa com o qual foi eleito, disso fazendo parte a escolha das pessoas para as listas. É óbvio que a lista como um todo deve ser aprovada por todos os aderentes da zona respetiva, mas a sua proposta parte da direção.
Claro é que só quem é filiado num partido tem o direto de eleger e ser eleito dentre dele, pelo que daqui se infere a importância da adesão.
Não quero com isto afirmar que os independentes estão mal (e com independentes refiro-me não a pessoas alheadas da política, mas sim a cidadãos politicamente ativos, mas sem filiação partidária). É necessário pessoas com algum distanciamento para trazerem uma visão diferente e uma perspetiva de quem está de fora. Todas as opiniões contam.
A este ponto penso que é importante clarificar algo: fazer política é este envolvimento e debate, mas não se resume a isso. A maior parte das pessoas que estão num partido não querem necessariamente estar nos seus órgãos. Existem muitos aderentes cujo trabalho é de formiga, no sentido em que é praticamente anónimo e importante: falar com pessoas, ajudar a organizar eventos, passar mensagens para a sociedade em geral,…
No final de contas, o que interessa acima de tudo é a militância: envolvermo-nos naquilo em que acreditamos. No entanto, não descuremos o papel da adesão: só com pessoas nos partidos podemos assegurar uma democracia verdadeiramente representativa, onde existem reais alternativas.
Anteriormente, já falei sobre os estudantes deslocados, mas não aprofundei aquela que foi a experiência de passar um ano em pandemia, que afetou, aliás, todos os estudantes. Vou tentar fazer isso agora. Como só sou uma pessoa, só tenho uma perspetiva, que é de alguém que acabou agora o 1º ano da Licenciatura em Física na Faculdade de Ciências na Universidade do Porto, mas penso que muitos aspetos são transversais.
O ano letivo 2020/2021 foi o primeiro realizado inteiramente em tempos de pandemia. Desse facto resultam vários obstáculos que em muito podem ter comprometido o sucesso académico.
Desde logo as aulas foram lecionadas num regime misto, ou seja, aquelas que são de natureza teórica foram tidas à distância e as restantes, teórico-práticas ou práticas, foram presenciais. Isto levou a que muita gente não conseguisse acompanhar a componente teórica. Penso que foi especialmente dramático para quem entrou pela primeira vez no ensino superior, uma vez que não estando habituados a métodos de estudo mais intenso, isso levou a que ficássemos perdidos e desorientados.
O meu primeiro semestre foi salvo porque, apesar da concentração escassear nas teóricas, nas presenciais era possível trabalhar os conteúdos e colocar as dúvidas de forma fluída.
Mesmo tendo obtido sucesso no primeiro semestre, a realidade do segundo não se apresentou fácil. Além de ainda não ter afinado o método de estudo, apareceram cadeiras mais trabalhosas, que requereram muito do tempo disponível. Bem podem dizer que uma boa gestão do tempo seria a salvação. E efetivamente é, no entanto logo no início desse semestre fomos confinados e mandados para as nossas casas. De fevereiro a abril todas as aulas que tive, independentemente da sua natureza, foram à distância.
Se nas teóricas já não me conseguia concentrar, muito pior foi naquelas que são planeadas para serem dadas presencialmente. O meu primeiro semestre foi salvo por algo que só existiu no último mês do segundo. Basicamente, isto fez com que a pouca motivação e esforço que se herdou do primeiro semestre fosse desaproveitado por uma ainda maior desorientação.
Não quer isto dizer que não existem estudantes que retiraram vantagens do ensino à distância, mas a minha experiência e de muitos que me rodeiam, afirma o contrário. Temos de saber preservar as partes boas de uma comunicação facilitada, mas reconhecendo o desgaste psicológico que acarreta.
Além da vertente académica, temos de ter em atenção que a pandemia significou uma mobilidade muito restrita. Eu saía do quarto para ir à faculdade, à cantina e às compras, essencialmente. Os momentos de convívio sempre controlados. Todos nós fizemos sacrifícios e abdicámos de coisas que gostávamos, sendo que os estudantes não foram exceção. Mais uma vez, penso que isto foi mais intenso para alunos do 1º ano: caímos de para-quedas e sem a possibilidade de nos integrarmos, podendo ter levado a que houvesse um sentimento de solidão.
É certo que sabemos que no ensino superior nos temos de desenrascar por nós próprios, mas este ano fizemos mais que isso. Todos os estudantes, em especial do 1º ano, que tenham chegado ao fim de 2020/2021 e decidido continuar no ensino superior já estão de parabéns.
Há uns dias aprendi uma palavra nova: agonística. Trata-se duma noção de conflito relacionada com a existência de adversários. Adversários e não inimigos. Uma diferença muito importante, afirmando a legitimidade da existência das pessoas do outro lado da barricada.
Em democracia, esta noção é de extrema importância. Temos de reconhecer no outro a possibilidade de uma divergência de opinião. Um movimento democrático que se preze valoriza a sua pluralidade. Um sistema democrático baseia-se na igualdade e na liberdade. Muito podíamos dizer a partir daqui, no entanto vou tentar focar-me na questão conflitiva.
Só quando temos duas perspetivas diferentes podemos fazer uma opção e selecionar a melhor alternativa. Uma democracia representativa, assente em partidos políticos, tem como pressuposto a existência de vários projetos distintos para comunidade, sendo que é da discussão entre eles que se afirmam as suas diferenças. O que acontece atualmente é que vivemos numa democracia desvirtuada, em parte, desse conflito, da agonística.
A Assembleia Regional, tal como a Assembleia da República, tem sido, ao longo da História, marcada por uma supremacia do centrão. O tempo fez com que PS e PSD se tornassem quase indistinguíveis, formando uma supermaioria de centro e levando a que a democracia se tornasse numa sucessão de processos eleitorais com uma perspetiva tecnocrata ao comando.
É natural que vendo um cenário onde não existe um verdadeiro debate de vias de ação, mas sim um artifício de ofensas partidárias, as pessoas se afastem da política. É necessário reverter esse processo de jogo ao centro e voltar a trazer à política verdadeiras alternativas. Elas já existem, sim, mas precisamos da confiança dos eleitores, novamente.
As pessoas são entidades individuais únicas, encerrando em si toda uma diversidade de ser e estar. Elas estão longe de ser representadas pelo centro. Não precisamos de ser neutros, precisamos de progredir. A moderação não é necessariamente o caminho, mas sim a ponderação.
Um caminho a ser tomado é, por exemplo, a via à esquerda. No entanto, se queremos um verdadeiro envolvimento popular temos de contruir essa alternativa junto das pessoas.
Existem vários movimentos e lutas que são políticas e despartidarizadas. Falamos de feminismo, LGBT+, antirracismo, mas também da cultura, ciência, porque em todas as áreas há, na verdade, uma dimensão política. Temos de conseguir chegar a essas pessoas e trazê-las para o campo político.
Só com um movimento transversal é possível criar não só uma alternativa, mas aquela que melhor se ajusta à vida das pessoas tendo em conta as suas especificidades. Muitas vezes é afirmado que movimentos de esquerda reduzem a pluralidade. A realidade é outra: um movimento verdadeiramente de esquerda valoriza a diferença, justamente por ser uma soma de partes com um objetivo comum.
Quando conseguirmos construir esta dinâmica política, teremos conseguido trazer a agonística ao de cima, porque além de haver uma verdadeira alternativa diferenciadora existe um envolvimento popular que aproximou os eleitores dos seus direitos de cidadania e permitiu que uma nova esperança no aprofundamento da democracia fosse possível. Funcionamos por reações em cadeia. Um contacto presencial boca a boca, mas também num registo digital de partilha. Está ao nosso alcance a construção de uma verdadeira democracia.
Existe algum sistema que aceita, e até promova, dizer-se uma coisa e fazer-se outra? Pois, parece que é o nosso dia a dia. Permitam-me pegar no exemplo do Mês do Orgulho.
Como já antes abordei, o Mês do Orgulho é um importante período de visibilidade. Por isso mesmo se realizam uma série de atividades e eventos, como são exemplos as marchas. É, portanto, de salutar que várias entidades, muitas delas privadas, se juntem à causa nesse esforço comum de tornar a nossa sociedade mais inclusiva. Onde está o problema, então?
Desde logo temos de ter noção que o movimento pela igualdade de direitos ara pessoas LGBT+ teve uma maior alavancagem nos anos 60. Na manhã do dia 28 de junho de 1969 aquela que seria uma uma rusga policial corriqueira a um bar gay acabou por ser um ponto de viragem na História dos direitos humanos: os clientes, atingindo o ponto de ebulição, revoltaram-se contra o abuso policial e a multidão que se amontoava junto do Stonewall Inn acabou por se envolver nos confrontos. Uma série de incidentes levaram a que aquela rusga fugisse ao controlo da polícia, tendo resultado em tumultos que duraram dias.
A revolta de Stonewall, como ficou para a História, expandiu a revolução sexual, adicionando-lhe o movimento da Libertação Gay. Até então o movimento LGBT, tímido, defendia um ativismo gradual e pedagógico - no entanto, sem resultados observáveis. A libertação veio trazer o modo de vida do «como se»: os indivíduos agem da forma como iriam agir se vivessem num mundo onde as suas causas saíram vitoriosas. Nesta caso, tratou-se de se ser abertamente LGBT, quer isto dizer, agir como se não houvesse problema em duas pessoas do mesmo sexo demonstrarem gestos de carinho em público, como beijarem-se ou darem as mãos, saírem do armário para a sua família e amigos, viverem com o parceiro, etc. Basicamente, pessoas LGBT passaram a fazer, publicamente, o mesmo que os casais heterossexuais. Apesar de hoje conseguirmos imaginar isso a acontecer, a verdade dos anos 70 era muito diferente.
É óbvio que o apoio escasseava. Foi só mais tarde, quando direitos começaram a ser conquistados, que as empresas viram uma possibilidade de fazer negócio: tornar o Orgulho numa marca. Foi com este amor ao lucro que vimos e vemos muitas empresas, grandes e pequenas, a fazer doações, vender artigos e assumir como suas as cores da bandeira LGBT+.
Como se já não fosse suficiente este aproveitamento oportunista, ainda existe a tal questão da hipocrisia: as empresas só tomam atitudes a favor da comunidade LGBT+ onde lhes dá jeito e quando lhes dá jeito.
Por um lado, várias empresas adotam a causa no dia 1 de junho e logo a deixam no dia 1 de julho, sendo que esse tipo de marketing só se dá em países que reconhecem os direitos LGBT+. As marcas não se atrevem a tomar esse tipo de atitudes onde sabem que domina um poder conservador. A acrescentar, temos várias das grandes empresas, que aparentam defender as causas, a fazer doações para políticos abertamente homofóbicos e transfóbicos, como é o caso da AT&T.
Queremos mesmo viver num sistema desprovido de empatia e sensibilidade? Precisamos de valorizar as pessoas e não o dinheiro. Não sejamos cegos ao ponto de dar mais valor a um papel do que a uma vida.
Na passada quarta-feira chegou ao fim o mês de junho e, como tal, o mês do orgulho LGBT+. Este mês foi instituído como forma de promover a visibilidade da defesa da igualdade de direitos para toda e qualquer pessoa independentemente da sua orientação sexual e da sua identidade de género.
Esta é uma altura do ano que serve para consciencializar e sensibilizar para a diferença e mostrar aos diferentes que existe um espaço para eles. Até porque, no fundo, acabamos por ser todos iguais. Pelo menos todos ambicionamos o mesmo: a aceitação.
Ser LGBT+ nas ilhas não é tipicamente fácil. Existem dois problemas principais: os estereótipos que se vão perpetuando e a imprevisibilidade. Por um lado, crescemos em escolas onde é normal ouvir crianças a chamar a outras de «gay» com um intuito pejorativo e, por outra, a existência de poucos exemplos de pessoas comuns abertamente LGBT+ que possam demonstrar ser possível viver a vida verdadeiramente e em segurança.
Vivemos em meios pequenos, por isso mesmo ser marginalizado é fácil. Ser olhado de lado é algo com que se pode contar, até pelo conservadorismo que ainda existe. Quer isto dizer que os Açores são homofóbicos? Não necessariamente. Só ainda não existiram pessoas LGBT+s suficientes a serem-no abertamente de forma a perceber-se a reação e a criarem-se modelos que permitam mostrar aos jovens LGBT+s que aqui podem ter um futuro e aos menos jovens LGBT+s que, finalmente, se podem sentir completos nas suas ilhas. Quero com isto afirmar que todos os LGBT+s das ilhas devem pegar num megafone e irem para as ruas? Nada disso. Cada um vive como quer. Ninguém deve sentir-se obrigado a expôr-se, mas também ninguém se deve sentir obrigado a esconder-se. O objetivo é simples: a reação a casais homossexuais ser a mesma dos casais heterossexuais, o direito à indiferença. A possibilidade de ser demonstrado afeto em público. Mas é necessário alguns darem esse passo para desbravarem caminho.
Foi com esse espírito que, no aniversário da revolta de Stonewall do ano passado, fiz eu próprio a minha saída do armário. Nós existimos e não somos poucos. Simplesmente estamos contidos nos nossos círculos pessoais mais íntimos por não sabermos se a nossa comunidade nos aceita. Como alguém politicamente ativo sinto-me com a missão de tomar uma posição e afirmar que efetivamente existe um lugar para nós que é, justamente o lugar de qualquer outro.
Ainda existe muito por fazer, principalmente em termos de mentalidades e, por isso mesmo, têm lugar as marchas. Que se note que a agenda mediática e política não é marcada por um só assunto: é possível trabalhar sobre várias temáticas ao mesmo tempo. Não queremos ter destaque e ter mais direitos que alguém, mas antes afirmar que existimos. É muito fácil afirmar-se que não existe homofobia num local, mas se nesse local não existirem pessoas abertamente LGBT+ como se pode inferir isso? Com que base? As marchas servem para consciencializar pessoas não-LGBT+, mas têm a importante missão de dizer a pessoas LGBT+ que não estão sozinhas.
Trabalhemos para construir um mundo onde ninguém tem de afirmar a sua sexualidade, mas simplesmente vivê-la. Onde é tão normal e fácil ser LGBT+ como é ser heterossexual e cisgénero. Não estarão todos os problemas da humanidade resolvidos, mas sempre podemos riscar um. E é tão atingível essa realidade mais colorida, unida e feliz: basta todos querermos.
Estamos no final de junho. Apesar das autárquicas não estarem marcadas, já se começa a sentir a pressão de ir elaborando os programas eleitorais e construir as listas de candidatos. Está, portanto, na altura de nós, cidadãos filiados e independentes, pessoas de qualquer ideologia, nos chegarmos à frente.
É fácil irmos para os cafés falarmos mal do que se passa. É fácil protestarmos com os nossos botões. No entanto vivemos numa democracia representativa, onde existem assembleias constituídas para se refletir sobre os assuntos, apresentar várias perspetivas e tomar decisões em relação às suas soluções. Pessoas são livremente e universalmente eleitas para esses órgãos. Menosprezar este poder é um insulto ao 25 de abril e uma desconsideração perante todos os que sofreram para o obter.
Votar é o mínimo que qualquer cidadão que se preze deve fazer, no entanto permitam-me ir mais longe e retomar a linha inicial de pensamento: a participação ativa nas candidaturas.
Olhar para os políticos locais e criticá-los por inação ou alheação deve ser acompanhado por uma vontade de fazer melhor e avançar. Em cada lista só há um cabeça-de-lista, mas existem mais candidatos e os lugares a preencher são de número superior a um. Que se arregace mangas e se arranje a ousadia.
Que se note que não pretendo aqui afirmar que as pessoas não devem dar as suas opiniões, muito pelo contrário. Concordo muitas vezes com o que é dito. Por isso mesmo é frustrante ver que há ideias que são generalizadas, mas que não ganham força, porque esses alguéns não querem dar força ao movimento. Grandes desafios mais facilmente são ultrapassados com uma grande equipa.
É também angustiante ver que os movimentos demagógicos e de extrema-direita conseguem angariar pessoas com mais facilidade do que aqueles com ideias sensatas. Isto tudo junto leva-me a crer que estamos, enquanto comunidade, a dar as coisas por garantidas. Não podemos. Da mesma forma que a democracia vem, vai-se.
Deixem-me colocar aqui um poema de Miguel Torga, intitulado Dies Irae:
«Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.
Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.
Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.
Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!»
Se não queremos ser nós o sujeito poético destas quadras, tomemos uma ação! Quem tiver o mínimo de disponibilidade: nas autárquicas existem candidaturas de partidos políticos, de coligações e de grupos de cidadãos independentes, tentem se informar do que cada um defende e juntar-se ao processo. Estas eleições são esgotantes pelo elevado número de pessoas que movem e, principalmente para partidos mais pequenos, isso é um peso que em muito sobrecarrega as candidaturas. Até pode existir alguém para cabeça-de-lista, mas se mais ninguém quiser integrar a lista, então essa candidatura já era. A bem da pluralidade e da democracia: ganhe ousadia e aja!
Os problemas dos estudantes deslocados são intuitivos se despendermos algum tempo a raciocinar, mas nada como ser um estudante deslocado para os enunciar.
Qualquer jovem que saia da sua ilha para estudar, quer seja para um polo da Universidade dos Açores, quer seja para fora da região, enfrenta um obstáculo particularmente relevante: a habitação. Trata-se de algo básico, mas que acarreta uma grande despesa. Daquela que é a realidade que conheço, no Porto, pago por um quarto o mesmo que alguém paga por um apartamento T2 em Santa Maria. As residências universitárias são a salvação de muitos estudantes. É preciso não esquecer que ainda neste tema temos os custos associados a água, luz e gás. Aquele que é o Prémio de Mérito de Ingresso no Ensino Superior do GRA acaba por ser uma ajuda de custos para esgotar nos primeiros meses nestas despesas.
À habitação acrescem as despesas com a alimentação, que acabam por sair mais caro às famílias, e com o material pedagógico. Tendo em conta a nossa condição insular, ainda existe aqui um custo associado às viagens aéreas, onde, felizmente, já existe um tarifário próprio para estudantes. Não nos podemos esquecer ainda das propinas que tardam em voltar a ser abolidas.
Com esta descrição o que quero dizer é simples: não é barato ter um jovem a estudar. Que se note que diz isto um privilegiado que não tem de ser trabalhador-estudante. Quantos são os jovens açorianos que poderão não ir para o ensino superior porque não têm condições financeiras? Permitam-me aproveitar o fim deste parágrafo para demonstrar o meu respeito por aquelas famílias que fazem um grande esforço para darem o melhor futuro possível aos seus filhos.
Esta dimensão financeira é aquela que mais sobressai, no entanto existe uma abordagem social que deve ser tida em conta e que com a Covid se tornou mais premente.
Os jovens açorianos, até pelo que já foi dito, não têm a possibilidade de voltar a casa com frequência, sendo que, na maioria dos casos, voltam durante as férias. Desta forma, ficam sozinhos, sem o conforto de casa durante meses num local desconhecido. Este novo contexto pode ser violento. É claro que a longo prazo podemos ver vantagens nesta independência quase forçada, mas a verdade é que os primeiros tempos podem custar.
Para colmatar este isolamento, a solução pode passar pelo estabelecimento de amizades. Esta é uma estratégia sempre vencedora, independentemente do paradigma, no entanto não nos esqueçamos que a maioria dos estudantes consegue ir para casa aos fins-de-semana, enquanto os açorianos continuam deslocados. Esta realidade é ainda pior com a Covid, porque faz com que as saídas, de estudo ou lazer, sejam mais raras e impossibilita que haja uma verdadeira integração no meio académico, formando-se pequenas bolhas de estudantes que acabam por não ter a oportunidade de se conhecer entre si.
A estas questões, por via da Covid, acresce um ano pedagógico atípico que submeteu todos os estudantes a uma necessidade de se adaptarem. Em especial durante os confinamentos, foram escassos os conteúdos que foram verdadeiramente aprendidos. Falo por experiência própria. O ensino online tem vantagens, mas promove uma muito maior desconcentração. Temos de saber usar as ferramentas digitais, mas com um ambiente físico associado.
Depois de uma intensa época de exames estamos, estudantes açorianos, a regressar a casa para recarregar baterias e tentar sarar a nossa saúde mental.
Há quase um mês lancei a minha candidatura à Câmara Municipal de Vila do Porto. Desde aí, muitas têm sido as reações. Naturalmente, umas pela positiva e outras nem tanto.
O ponto mais notado pela negativa tem sido a idade: a falta de experiência e o receio da falta de preparação pessoal, parecem ser as maiores preocupações. Vou tentar abordar estas duas.
Desde logo, que se note que existe uma clara contradição entre aquilo que se ouve sobre a participação política dos jovens. Quem já disse «os jovens estão desinteressados», também é capaz de dizer «os jovens não estão preparados», quando confrontado com uma candidatura jovem. Afinal, queremos ou não jovens candidatos? Estou certo de que quem usa esta retórica é quem faz parte dos instalados que estão bem com a atual situação, não querendo ver nenhuma alteração a ser feita. Estes receios não são para zelar pelo bem comum, mas sim para salvaguardar as suas posições pessoais.
Termos jovens candidatos é uma lufada de ar fresco quer pelas ideias novas, quer pelas novas formas de transmiti-las. A energia, dinâmica, ousadia e inquietação da juventude são, naturalmente, fonte de receio para os instalados. No entanto, e que se desengane o leitor, não defendo de forma alguma que tudo o que é dito pelos jovens é correto, nem que a experiência deva ser desvalorizada. Digo antes que os jovens, como qualquer outra faixa etária, não possuem uma ideologia comum, mas sim uma atitude, em geral, transversal. Afirmo antes que precisamos de encontrar um equilíbrio entre a ousadia e a experiência, para que consigamos avançar.
Por outro lado, temos a questão pessoal. Pessoalmente, como já protagonizei outra candidatura, sinto-me capaz de aguentar mais uma. Mas mesmo que fosse a minha primeira, como já foi a outra, só a ousadia e determinação para se chegar à frente, mesmo sabendo do cenário de bipolaridade que falei anteriormente, já demonstra a capacidade para enfrentar toda uma campanha desgastante e um processo burocrático que é capaz de colocar nervos à prova. Ninguém dá este passo sem pensar duas vezes. Quanto mais não seja para equacionar aquilo que se pode perder. Poderão existir represálias? Não são poucas as vezes que esta justificação surge.
No entanto, a esperança existe sempre. O apoio também é forte. Apoio quer daqueles que se reveem no nosso projeto, quer daqueles que ficam felizes por ver que a pluralidade democrática está bem assegurada por alternativas credíveis e consistentes.
Não nos podemos esquecer para que serve uma campanha. Não estamos aqui para dividir lugares em cargos públicos, mas sim apresentar propostas e uma visão que depois é avaliada pelos eleitores. Uma candidatura política é, antes de tudo, um conjunto de causas e visões.
Dizer-se mais merecedor do voto por ser do partido x ou y, não faz sentido nenhum, mesmo sendo esse o partido do executivo ou de algum que já lá esteve. A democracia faz-se com as urnas a começarem vazias, para que todos os eleitores possam escolher a melhor solução entre todas as alternativas.
A mim, como a qualquer outro candidato, cabe a responsabilidade de expor a linha programática e aos eleitores cabe a decisão de escolher qual o projeto que merece a sua confiança.
Hoje mais do que nunca, quando olhamos à nossa volta, apercebemo-nos da nossa diversidade. Vivemos num mundo interligado, onde pessoas de diferentes origens e contextos se cruzam, onde ideias são capazes de atravessar o globo.
Este facto traz-nos a alegria de celebrar a pluralidade e a diferença, mas não nos esqueçamos do reverso da moeda: em momentos de mudança existe sempre uma resistência proporcional. Se é mais fácil conhecermos pessoas e comunicar, também o é espalhar o ódio.
Na luta pelo progresso social, onde se engloba a igualdade de género, a defesa das pessoas LGBT, o combate ao racismo e xenofobia, a liberdade religiosa ou a inclusão das pessoas portadoras de deficiência, vemos minorias e maiorias que são discriminadas e marginalizadas. No entanto, transversalmente a todos esses indivíduos existe algo que também os une: a sua exploração pela sociedade capitalista. O capitalismo está do lado do lucro. Se ele estiver na promoção da discriminação, assim será, se estiver na aceitação da diferença, assim será. Não somos todos explorados por igual, mas todos o somos.
Até aqui parece que estou a introduzir um pensamento dedutivo com uma conclusão extraordinária. Como não sou pessoa que gosta de desiludir, deixo já aqui o ponto chave: só com uma frente transversal a todos os movimentos que falei anteriormente, aos quais se junta quem com eles concorda, mesmo não sendo um visado direto, é que conseguiremos uma verdadeira mudança na sociedade.
As lutas não são independentes. Se entre si mais óbvia é a sua relação, pelo que já foi antes dito, a sua relação com o anticapitalismo é necessariamente igualmente estreita. Não falamos de fazer uma manta de retalhos de pessoas, mas de organizar um movimento capaz de pensar e tirar vantagem da sua diversidade.
Quando jovens opinam sobre políticas para idosos, quando gays falam sobre o aborto, quando marienses falam sobre a Terceira, temos não só uma troca empática de posições, como também uma perspetiva externa à temática. Todos os assuntos podem ser discutidos por todos, sem ser necessário desvalorizar os entendidos e quem está familiarizado com o assunto.
Em termos partidários, nós encontramos esta noção no Bloco de Esquerda, por exemplo. Contudo, desengane-se o leitor, não estou a afirmar isto em jeito de propaganda. Nem esta é uma caraterística única do Bloco, como deveria ser algo geral. A Iniciativa Liberal, antípodas económico das políticas bloquistas, possui um pensamento semelhante, não reconhecendo, no entanto, logicamente, a vertente anticapitalista.
Aquele que me parece ser um sinal óbvio dessa postura é a inexistência de juventude partidária. Porque precisam os jovens de ser segregados para uma plataforma à parte? Para uma plataforma onde podem ser reproduzidos os principais vícios que fazem muita gente descrer na política. O lugar dos jovens é no lugar dos outros todos, o espaço de discussão é de todos. Para falarmos sobre os assuntos não temos de ter respostas, ninguém sabe tudo, podemos ter perguntas.
O importante é que estejamos juntos e unidos, sem deixar ninguém para trás. Precisamos de dinamismo. Não puxemos cada um para seu lado. Vejamos o que nos une e façamos um esforço para constituir uma frente unida e forte!
No próximo sábado, dia 5, vai decorrer em São Miguel a VII Convenção Regional do Bloco de Esquerda Açores. Trata-se de mais um momento de discussão dentro do único partido parlamentar de esquerda.
Este é, portanto, um momento crucial para se refletir sobre o atual contexto político, marcado por uma mudança no poder executivo e um novo balanço de forças na Assembleia. Ser o singular representante institucional da esquerda açoriana é uma responsabilidade acrescida àquela que já é o peso de representar da melhor forma os interesses açorianos.
A esta convenção apresenta-se uma moção de orientação global, sendo subscrita, em primeiro lugar, pelo atual coordenador regional, António Lima. Este é, naturalmente, o documento orientador que será aprovado nesta reunião magna e norteará a ação bloquista durante os próximos dois anos.
Sob o mote «Combater as desigualdades, construir o caminho à esquerda», a moção apresenta os principais eixos programáticos a serem tidos em conta. Desde logo, um combate à crise gerada pela pandemia e que aumenta ainda mais as desigualdades existentes. Sendo já os Açores uma região extremamente desigual, este é um desafio que cada vez ficará mais urgente ultrapassar. Para isso precisamos de uma resposta que zele pela defesa do rendimento das famílias, da contribuição justa dos que mais ganham, de uma escola pública fortalecida, de um serviço regional de saúde robusto, … Esta é uma crise com muitas caras, que afeta muitas áreas. Temos de ter um plano a sério para enfrentá-la.
Não serão mercados financeiros desregulados nem privatizações que nos salvarão, mas antes um estado social transparente e justo a par de uma intervenção pública estratégica.
Uma região voltada para a ciência e tecnologia que aproveita e explora os seus próprios recursos de forma sustentável e responsável. Uma região que protege a sua natureza, almejando ser um baluarte da sustentabilidade ecológica. Uma região turística, mas que não se subjuga aos interesses do mercado, nem permite uma dependência económica deste setor.
Precisamos de uma região onde os trabalhadores são respeitados, onde os programas ocupacionais ou programas de estágios não são usados como formas de exploração. Onde os contratos precários são trocados pela estabilidade financeira tão necessária para o desenvolvimento de qualquer família e indivíduo. É urgente defender quem trabalha sem medo de fazer frente às elites económicas.
É necessário tornar os Açores uma região progressista, onde políticas feministas, LGBT+, antirracistas, antixenofóbicas e anticapacitistas sejam adotadas e valorizadas devidamente. Onde o patriarcado é substituído por uma sociedade justa, acabando com a vulnerabilidade que é infligida às mulheres e que leva várias vezes à violência doméstica. Só quando se dá visibilidade aos problemas se obtêm as soluções, precisamos de tirar os problemas sociais do armário!
Não esquecer, claro, o necessário aprofundamento da autonomia açoriana. Uma lei das finanças que proteja os interesses da região e uma lei do mar que consagre os Açores como o centro da decisão no que concerne à exploração dos seus recursos marinhos.
O Bloco foi e é pioneiro em muitas destas lutas. Mais que um partido, é um movimento popular em crescimento que se tornou, ao longo da última década, numa voz incontornável na defesa dos e das açorianas e açorianos. Aguardemos por esta convenção com expectativa, porque a cada dia que passa o Bloco torna-se cada vez mais essencial.
Os Açores possuem, muitas vezes, o título de região mais jovem do país. Sendo a juventude um poço de irreverência, a região devia-se orgulhar da intensa efervescência que possui fruto da irreverência, dinâmica e ousadia dos mais jovens. É claro para a maioria dos leitores que nem o orgulho se sente, nem essa energia existe.
Não obstante, já começam a existir certas bolhas onde é possível ver os jovens expressar-se, quer numa dimensão pessoal, cultural, associativa ou política. Até agora a juventude era empurrada para somente para o desporto ou para um campo musical muito selecto.
O que se passa, então, com a juventude açoriana para existir esta lacuna?
Apesar dos jovens serem o sujeito da pergunta anterior, a verdade é que muito pouco têm de culpa pelo seu apagamento. Afirmar que os jovens são desinteressados é um vinte avos da resposta.
Desde logo, temos de perceber que enquanto jovens temos pouca experiência de como funciona o mundo (e muitas vezes nem os graúdos têm) e, por isso mesmo, baseiam-se em exemplos. Os nossos limites são baseados nos limites de quem vemos. É quase o reforço vicariante de Bandura. Se não existirem exemplos, é natural que não haja ação. Neste caso, estamos a falar de gerações de inatividade que se perpetuam, ficando presas ao mínimo dos mínimos.
É claro que esta é, também, só uma outra fração da resposta. Felizmente, existem muitos espaços com grande atividade (em pelo menos alguma das dimensões). O que está a correr mal neles, então?
Já percebemos que os jovens são uma massa inercial: têm pensamento próprio, mas precisam de uma força externa para se movimentarem. Ter um exemplo faz com que nos sintamos com mais esperança no futuro, no entanto quanto maior a diferença de idades, menos impacto tem perante a juventude.
Algo que também não abona a favor destes casos é a ostracização das pessoas vistas como exemplos. Vermos pessoas com pensamento diferente e uma energia arrojada a serem colocadas de lado, a serem desprezadas ou insultadas. Ter destaque público é algo que traz atenção e escrutínio, mas, nos Açores, na sua pior mesquinhez, isso acarreta acima de tudo uma interferência na vida privada. Qual o jovem que a ouvir isso continua motivado para construir algo? Alguns, mas não é suficiente.
O apagamento da pegada dos jovens nos Açores dá-se em grande parte, porque não se quer a mudança. É óbvio que a partir do momento em que haja um passo no sentido do futuro serão necessários novos quadros regionais para o sustentar. Isto assusta os grandes interesses e aqueles já instalados no cenário açoriano.
Existe, claro está, uma clara oposição entre o espírito jovem e os interesses instalados, que não pode ser considerado conflito porque temos os segundos já numa posição de vantagem a imobilizar os primeiros.
Que se desengane o leitor: nada está perdido. Muito pelo contrário. Podemos estar entorpecidos, mas os jovens têm uma energia que, quando se levantarem de forma transversal, teremos uma mudança de forças.
É urgente que os quadros regionais, e mesmo locais, comecem a dar uma maior importância à juventude sem cair na condescendência e no paternalismo. É necessário que a tocha comece a ser passada a outras pessoas, levando a um rejuvenescimento dos quadros. Ninguém nasce com experiência, é preciso aprender e só se aprende fazendo.
Jovens de toda a região, uni-vos!
Cada pessoa é uma pessoa. A única realidade que conhecemos minimamente bem é aquela que vemos pelos nossos olhos, sentimos na nossa pele e construímos no nosso cérebro. Por isso mesmo, muitas vezes sentimo-nos sós nos nossos pensamentos. Qual é o impacto político desta perceção?
Quem nunca não ouviu numa conversa de café as frases «Pois, é, mas ninguém pensa assim» ou «Anda tudo com palas nos olhos»? Elas, normalmente, são ditas quando alguém está a criticar algum aspeto da nossa comunidade junto de outra pessoa. Não será irónico que elas sejam ditas num diálogo em que, normalmente, as duas partes concordam no tema? Afinal, se mais ninguém tem essa opinião como pode outra pessoa concordar? A verdade é que este pensamento é também altamente contraditório: diz-se que algo está mal, mas também não se faz nada, porque não vale a pena, ninguém vê o problema – que está, justamente, a ser exposto a um terceiro!
Este raciocínio aborrece-me particularmente por soar a um atestado de burrice. Todos nós temos cabeça e sentidos. Todos percecionamos a realidade. A única diferença é o interesse e disponibilidade que depositamos em percebê-la e pensá-la. No entanto, é mais que lógico que num sistema em que as pessoas vivem para trabalhar, como é este em que estamos, muita gente não tem condições para o fazer. Não quer dizer que não vejam ou que não tenham capacidade para perceber, simplesmente não conseguem fazer tudo.
Agora, também existem pessoas que conseguem reunir tempo suficiente para refletir. Muitos dos que têm o discurso vazio aparentam ter tempo e, como tal, deveriam, nem que seja a bem da sua consciência, decidir tomar uma postura construtiva e desencadear uma ação. Reclamar sem nada fazer não vale. Além desta tomada de atitude é necessário algo muito importante: empatia.
De nada nos serve espalhar uma mensagem se não tivermos a capacidade de percebermos que ela pode ser melhorada. Voltando ao início: temos de ter consciência que somos uma pessoa, existem outras com outras experiências de vida, com outras sensibilidades. Precisamos de empatia para nos colocarmos na posição do outro, ter a humildade de ouvir e nunca partir do princípio que estamos em vantagem intelectual.
Todos nós somos agentes de mudança, entidades políticas, temos de ter a responsabilidade de nos comportarmos como tal. Apesar dos cafés poderem ser importantes focos de reflexão, as questões resolvem-se muitas vezes fora deles. Cheguemo-nos em frente!
Nos Açores, enquanto espaço pequeno e fragmentado, parece que tomarmos uma atitude é algo esgotante e quase arriscado, que se tomarmos posição ou partido (literalmente ou não) podemos ditar o nosso desemprego. Isto revela mais sobre a necessidade de renovação do cenário político açoriano do que dos açorianos. No entanto, e por experiência própria o digo, quando temos pessoas-exemplo que vencem o receio e avançam, existe uma injeção de esperança e motivação noutras pessoas. Uma espécie de efeito dominó que nos leva a agarrar essa ação, desenvolvê-la e continuá-la.
Não sejamos o rabugento do café, mas sim o construtor empático.
«Na nora do quintal da minha casa
O burro anda à roda, anda à roda,
E o mistério do mundo é do tamanho disto.»
Estes versos descontextualizados da Ode Triunfal de Fernando Pessoa lembram-me sempre a simplicidade que há no mundo. No nosso quotidiano estamos atarefados em completarmos as nossas obrigações, atingir expectativas e procurar o conforto. Nesta rotina de busca pela felicidade acabamos por não contemplar o que nos rodeia e, consequentemente, questionar sobre realidade onde estamos inseridos.
Paremos, olhemos e questionemos:
Como valoramos o que nos rodeia? Conseguimos colocar números nas coisas? O sistema em que vivemos diz-nos que quase tudo se pode converter em números seguidos de euros, libras, dólares, etc. Tendemos a considerar que quanto mais dinheiro damos por algo, melhor servidos estamos e, como tal, vivemos com o objetivo de obter estabilidade financeira na esperança de levar uma vida desafogada. Aqui, desde logo, temos duas questões a explorar: as coisas e o trabalho.
Vejamos a primeira perspetiva. Valerá a pena o esforço tentar obter os bens de maior valor? Será isso uma marca de sucesso? (O sucesso é, tal como o idealizamos, algo assim tão importante?) Não serão os objetos mais caros uma tentativa frustrada de nos sentirmos especiais, uma vez que possuímos algo menos comum? O dinheiro é, portanto, uma forma de quantizarmos a nossa singularidade?
Isto leva-nos à segunda questão, a do trabalho. A nossa singularidade aumenta quanto mais dinheiro temos (se às questões anteriores respondermos afirmativamente). Logo, podemos concluir que se é através do trabalho que recebemos dinheiro, quanto maior for o salário, mais relevante será o trabalho. Isto é verdade? Comparemos então um banqueiro com um indivíduo que recolhe o lixo. Como, nitidamente, o banqueiro ganha mais, pela nossa lógica, é evidente que é mais importante que o funcionário do lixo. Vamos ao «story time» de hoje:
Em 1968 quem recolhia o lixo na cidade de Nova Iorque decidiu entrar em greve. Em 1970, na Irlanda, os banqueiros decidiram fazer greve. A primeira greve levou a um estado de emergência na cidade e acabou ao fim de nove dias (de forma bem-sucedida para os funcionários). A segunda greve durou seis meses e ainda assim o crescimento da economia manteve-se estável. As pessoas com menor salário foram as que provaram a sua importância.
Vivemos num sistema que privilegia empregos que se resumem a transferir riqueza em vez de a criar. Quantos gestores financeiros e corretores de ações precisamos? Quantas mentes brilhantes são empurradas para trabalhos com menor relevância comunitária só porque podem ter maior benefício económico? Existem muitas pessoas que consideram o seu trabalho dispensável e isto tem de motivar preocupação. Não estaremos nós a desperdiçar recursos humanos que poderiam ser melhor distribuídos e serem mais úteis? Estou convencido que sim, mas para fazermos isso temos de abolir este sistema do lucro em que vivemos.
Pretendemos viver num mundo onde desprezamos os trabalhadores essenciais e romantizamos os acumuladores de riqueza? Queremos mesmo ser escravos de cifrões e abdicar de aproveitarmos a nossa vida? Este é um problema político.
Que se desengane o leitor: eu não tenho todas as respostas. O que precisamos é de reflexão. O nosso futuro político depende disto. O nosso sistema tem de ser melhorado: mãos à obra.
Todos nós, mais tarde ou mais cedo, nos pusemos a filosofar. Muito pela mão do meu professor de Filosofia, acabei por pensar acerca das questões do livre-arbítrio e de como podemos enfrentar a nossa ignorância. Algo me pareceu inabalável: tudo poder ser conhecido.
Existe uma corrente filosófica, a determinista, que afirma que a realidade é uma gigantesca rede de causas e efeitos e, como tal, é possível prever os eventos. Se soubermos que A leva a B, então quando acontece A podemos esperar que aconteça B – esta é a essência do pensamento determinista. As ciências naturais e exatas baseiam-se justamente no princípio de que o Universo se rege por um conjunto de leis que são universais e imutáveis.
Sabemos calcular os efeitos da gravidade e modelá-los precisamente porque a sua aplicação é extensível a todo o espaço e em qualquer tempo. A previsão que usamos para a força gravítica na Terra é a mesma que usaríamos em Marte.
Porque é que isto interessa? Significa que todos os problemas têm solução.
A Fundação, da autoria de Isaac Asimov, revela-nos um conceito transformativo: a Psico-história. Hari Sheldon, o fictício inventor desta área de estudo, combinou a História, a Sociologia e a Matemática Estatística como forma de tentar descodificar o futuro. Ele baseava-se em duas máximas: a população em estudo devia ser numerosa e os indivíduos não deviam ter conhecimento dos resultados das previsões, sob pena de mudarem os resultados.
Da mesma forma que tentamos prever o Universo, não conseguiremos prever o comportamento humano? Esta é realmente uma questão avassaladora.
Provavelmente numa tentativa desesperada de tentar sentir algum poder perante a ignorância que tenho, creio sinceramente que é possível obtermos uma resposta a qualquer questão. A realidade, nem que seja num mundo macroscópico, é possível ser conhecida. Mas, nesse caso, porque é que ainda não temos esse domínio? Bem, não temos a ciência desenvolvida a esse ponto. Só uma porção muito reduzida das nossas questões tem resposta. Que se note que com «questões» refiro-me tanto a buracos, como erradicar a pobreza, encontrar as chaves ou a um regime político ideal.
O leitor provavelmente está a pensar: isto de ser tudo previsível soa a destino, então quer dizer que mais vale estar quieto e ir ao sabor do vento? É justamente aqui que quero chegar. Não. O que esta perspetiva nos diz é que existe um futuro e ele baseia-se no que nós fazemos. Somos nós os agentes do «destino».
O facto de sabermos que existe algo que ocorrerá absolutamente não nos deve fazer baixar a guarda, mas sim arregaçar as mangas e garantir que esse acontecimento é aquele que queremos.
O facto de vivermos numa densa cadeia de causas e efeitos deve ser usada a nosso favor e servir para percebermos como funciona a realidade e como chegar às soluções das nossas questões. Da mesma forma que sabemos que 1+1=2 saberemos como resolver a crise climática. Curiosidade e persistência são os motores das nossas descobertas e precisamos de trazer isso para a política. Quando se fala em importar o espírito científico para a arena política, estamos a referir-nos a esta essência e não à construção de uma tecnocracia.
Não nos podemos esquecer que as soluções surgem da ponderação e não necessariamente da moderação. Precisamos de inconformação perante o futuro.
Qual é a relação que temos com os nossos representantes numa democracia representativa? Na última semana falei sobre a necessidade dos nossos representantes ouvirem. Hoje pretendo complementá-la abordando esta nova perspetiva: a forma como nós, cidadãos, encaramos os nossos políticos. Em novembro de 2018 andei a matutar sobre esta questão e acho pertinente deixar neste espaço essa mesma reflexão, tendo apenas feito uns ajustes linguísticos nos parágrafos originais que se seguem.
Hoje cheguei por volta das oito da manhã à escola para ter aula de física e química, no entanto, como não tinha nada para fazer, pus-me a andar em elípticas à frente dos laboratórios e, claro está, a refletir sobre a democracia. Após uma excelente rodada de voltas cheguei a uma conclusão:
Para uma democracia representativa ser saudável é necessário que se estabeleça, entre cidadãos e governantes, dois tipos de confiança: ideológica e humana; onde a primeira deve ser questionável e a segunda deve ser inabalável.
Após a nomeação do governo segundo as normas em vigor, os governantes seguem a sua linha de ação atendendo ao plano de governo apresentado em eleições, existindo um conjunto de propostas do conhecimento dos cidadãos que deverão ser aplicadas. Contudo, qualquer cidadão pode duvidar dos meios, e mesmo dos fins, que o governo pretende, tendo em conta que em democracia um valor fundamental é a pluralidade. Assim sendo, existe a construção de uma confiança, ou desconfiança, por parte do cidadão em relação à ação do governante, estando esta dependente de uma visão ideológica, logo, subjetiva. Daqui se infere a confiança ideológica.
Em relação ao governante, enquanto indivíduo, o cidadão pode considerá-lo não apto a realizar o seu trabalho devidamente, no entanto não deve considerar que o detentor do poder executivo não possui sentido de responsabilidade em relação à segurança dos cidadãos. É de extrema importância partir do princípio de que qualquer governante possui por fim último a salvaguarda dos interesses dos cidadãos (de acordo com a sua visão). Caso contrário seria mais adequado viver-se em anarquia, de forma a cada indivíduo governar-se a si próprio, dada a desconfiança no outro, evitando-se, assim, que alguém possua a responsabilidade de zelar pela segurança do todo. Considerar que o governante, por muito pouco ética que seja a sua conduta, possui por fim prejudicar os cidadãos constitui um clima insustentável para a atuação ideológica do governo (cujo programa foi democraticamente eleito). Logo, é necessário existir a confiança humana.
Apesar desta necessidade de estabilidade, o paradoxo da tolerância mantém-se, não devendo a sociedade ser tolerante com os intolerantes sob pena de perder a tolerância. Na mesma linha de pensamento, a falta de ética dos governantes é reprovável. Pura e simplesmente não é sustentável afirmar que alguém no poder executivo só defende os cidadãos quando se concorda ideologicamente com o mesmo, sendo esta uma ação de enorme perversidade por promover uma ofensiva à pluralidade, valor base da democracia.
Podemos ser críticos da ação do governo, mas não devemos duvidar das suas boas intenções sob pena de se violar a construção de uma sociedade fraterna.
Quando dei por mim estava uma mancha de pegadas, marcadas a água, no chão.
Dia 25 de abril concretizam-se seis meses desde as eleições regionais e ainda nenhuma análise acerca da participação da juventude nelas foi feita. São os jovens desprezáveis para as contas ou inconvenientes?
Permitam-me usar estas linhas enquanto um aprendiz da vida com 18 anos que pretende descobrir-se a si e aos outros, encontrando o seu espaço nesta realidade e sendo útil para aquilo que é o bem comum.
Não são raras as vezes em que ouvimos afirmações do tipo: «os jovens não se interessam»; «os jovens nunca se chegam à frente» ou «esta geração só olha para ecrãs». Mas até que ponto são verdade? Até que ponto não existe um fundo de hipocrisia nestas afirmações?
Analisemos este assunto em duas perspetivas: eleitores jovens e candidatos jovens, respetivamente.
Nestas regionais tivemos mais 1 000 eleitores inscritos e 11 000 votantes do que em 2016. É interessante notar que existiram 3 500 pessoas a votar antecipadamente, o que corresponde a 1,5% dos inscritos e 3,4% dos votantes. Penso ser importante denotar estes factos, quando a descida da abstenção foi na ordem dos 4,5%. Ou seja, aqueles 1,5% de votos antecipados podem explicar esta descida. A isto acresce que: grande parte dos votos antecipados foram requeridos por jovens estudantes. Isto leva-nos a perguntar: os jovens não votavam simplesmente por desinteresse ou porque os mecanismos eram demasiado burocráticos? Este aumento do voto jovem (infelizmente sem estatísticas diretas que o comprovem) não deve passar despercebido e deve estar presente na nossa mente quando se fala na importância da agilização e facilitação do acesso ao voto.
Existe, efetivamente, uma parte da população jovem alheia da causa pública, mas existe uma parcela, com expressividade, que demonstra interesse. A Greve Climática Estudantil é um claro exemplo disso. E o que ouvimos dizer sobre o assunto? São muito novos. Isso é justamente também aquilo que eu mesmo ouvi.
Tive a honra de encabeçar um projeto político em Santa Maria nestas regionais. Com 18 anos, fui o cabeça-de-lista mais jovem e o segundo candidato com menor idade. Por isso mesmo tenho noção da perspetiva com que parte dos eleitores viram uma candidatura jovem.
Existe, portanto, uma notória contradição entre a afirmação da necessidade de jovens nos quadros políticos e a crítica à inexistência de experiência como motor de desqualificação. Só um dos argumentos pode ser usado. Ao enveredar pelo primeiro temos de explorar a falta de rotatividade das pessoas e o envelhecimento de quem detém o poder. Em relação ao segundo, aquele a que pretendo dar destaque, temos a necessidade de perceber que a experiência só se cria quando se “deita as mãos à massa”. A partir do momento em que não permitem aos jovens ocupar lugares, então não é expectável que consigam ganhar experiência. Parece um claro paradoxo, não?
É óbvio que só uma parte da população adulta incorre nestas incoerências, sendo muitas vezes, justamente, aquela que se sente ameaçada por gente com novas ideias, expectativas e motivações. A verdade é que contra as expectativas conseguimos, em Santa Maria, bater uma marca que remontava a 1984. Apesar de se fazerem notar as críticas, a verdade é que há esperança para rejuvenescermos o panorama político regional.
O futuro pertence aos jovens.
Aquilo que parece óbvio pode não o ser ou pode ser esquecido na prática. Por isso mesmo penso não ser redundante escrever este apelo.
Ninguém sabe tudo nem ninguém vive tudo. Contudo, isto não quer dizer que não devemos comentar o que desconhecemos, mas sim que devemos ouvir primeiro quem tem conhecimento de causa. Temos, portanto, de aprender a ouvir.
Ouvir entidades e pessoas deve fazer parte da check list de qualquer agente político quando pretende emitir uma posição sobre um assunto. Mais uma vez, parece óbvio, não é? Pois, mas por experiência própria digo que não o é. Quando estamos cheios de ideias e palpites (ou interesses, que podem ser bem-intencionados ou não, para dizer de outra forma), essa avaliação ponderada e passiva passa despercebida. Queremos levar em frente a nossa visão. Precisamos de pessoas pró-ativas, precisamos de pessoas com pensamento crítico, mas o contexto existe e tem de ser tido em conta.
Nas últimas regionais tive a honra de encabeçar uma candidatura de ilha. Nessa aventura tive a oportunidade de construir um plano eleitoral que refletisse as nossas expectativas sobre a ilha. Estava (e estou) cheio de ideias, umas mais exequíveis que outras, que acabaram também, algumas, por ser acolhidas. O programa eleitoral refletiu, portanto, as posições das pessoas em torno da candidatura e daquelas que foram as conclusões de algumas reuniões que foram sendo feitas.
Quando começou a campanha, resolvemos visitar um conjunto de entidades que considerámos essenciais. Dessas reuniões saímos com mais propostas sobre os temas e com melhorias nas já existentes. Prioridades e experiência são fatores importantíssimos.
Para dar um exemplo concreto: há anos que a nossa escola se debate por um auditório (que chegou mesmo a ser orçamentado pelo executivo regional). Pessoalmente, estive nessa luta durante 4 anos, e obviamente que tinha de fazer parte do nosso programa. Ao reunir com a escola, percebemos que havia uma possível solução para relativizar o problema: aproveitar uma estrutura existente e melhorá-la. Apesar de considerarmos que isso não substitui a necessidade do auditório, percebemos que, no momento, isso seria o melhor a ser defendido, por ser um passo tomado na direção certa, ao lado de quem precisa.
Ninguém sabe tudo. Não é vergonha nenhuma pedir ajuda. Admitir que a nossa posição pode ser melhorada não é afirmar a nossa incompetência, mas reconhecer a nossa maturidade.
Não são raras as vezes que precisamos de desconstruir para construir. É justamente nesse princípio que se baseia o método socrático: no contexto da retórica, Sócrates fazia um diálogo com um outro participante numa dinâmica de perguntas e respostas. As perguntas do filósofo tinham o propósito de, em primeiro lugar, levar o outro a concluir que nada sabia ("Só sei que nada sei") e, por fim, que teria de partir em busca do conhecimento interior ("Conhece-te a ti mesmo"). Obviamente que este raciocínio era aplicado sobre questões conceptuais e não em relação à necessidade de se criar uma companhia de transportes inter-ilhas com submarinos.
Mesmo assim, reivindico o essencial: ponderemos bem a nossa posição, reconhecendo as nossas restrições sobre a matéria e depois aventuremo-nos a perseguir a "verdade", junto de quem nos pode ajudar.
A partir de hoje, a cada terça-feira, os terceirenses vão aturar mais um treinador de bancada, mas, desta vez, um mariense.
É com grande gosto e sentido de responsabilidade que aceito e agradeço este desafio. Espero poder contribuir para uma maior pluralidade de pensamento e trazer a este jornal o olhar de alguém descomprometido com os interesses que podem existir na ilha. O facto de ser mariense tem como consequência a minha impossibilidade de expor situações específicas da ilha Terceira, por falta de conhecimento de causa, no entanto traz o benefício de uma voz com outras experiências, que vive noutro contexto. Que esta colaboração seja baseada numa partilha de humildade e racionalidade.
Sendo eu, quase de certeza, um completo estranho para quem está a ler este artigo, penso ser de bom tom fazer uma pequena apresentação (e que aqui fique um pedido de desculpas pela possível falta de humildade que os parágrafos que se seguem podem demonstrar).
Nasci em 2002, pelo que, fazendo as contas, tenho uns meros 19 anos. Durante toda a minha vida morei em Santa Maria, só tendo alterado essa realidade no final do ano passado, quando rumei ao Porto para estudar Física.
Sou fruto de vários privilégios, como a minha avó diz, nasci em berço de ouro. É a ouvir os relatos dos ascendentes familiares e vendo as notícias que o percebo. Sou incapaz de fazer qualquer análise da realidade sem o mencionar, porque na minha experiência de vida não tive obstáculos que muitas pessoas tiveram ou têm.
Para o meu crescimento contribuiu um apoio familiar muito forte e o entusiasmo de vários professores. Com o seu apoio tive a oportunidade de participar em várias atividades, competições e eventos que em muito me enriqueceram, na forma e no conteúdo.
As legislativas de 2015 fizeram-me parar para observar o que me rodeava. Não sendo o meu cérebro uma máquina de grande distinção, só em 2017 cheguei à conclusão de que se queria algo, deveria arregaçar as mangas e fazer por isso. Se queria uma Associação de Estudantes interventiva, tinha de perder o medo e avançar. Se queria uma voz interventiva a favor dos alunos nos órgãos escolares, então tinha de perder a preguiça. De 2017 a 2020, com mais e menos fracassos e sucessos, erros e aprendizagens, movi-me pelo entusiasmo de quebrar a barreira entre a escola e a comunidade.
Ao longo desse percurso apercebi-me da importância da política. Como cheguei a essa conclusão? Tudo é política. Por isso mesmo decidi aproximar-me do partido que melhor me representava: o Bloco de Esquerda. A partir das regionais de 2016 aventurei-me e em 2018 cheguei à comissão política regional. Durante quase dois anos estive em contacto com uma figura que muito admiro e a quem devo o início da minha atividade política: a Zuraida Soares. Em 2020 fui eleito coordenador daquela que é a primeira comissão coordenadora de ilha do Bloco em Santa Maria.
(Em jeito de curiosidade, gostava de conseguir ter a possibilidade de saber se os leitores reviraram os olhos depois deste parágrafo partidário.)
E agora aqui estou a mandar postas de pescada.
É importante termos estes espaços de reflexão, que devem ser alargados a pessoas muito diferentes, sendo, obviamente, o fator idade aqui inserido. No entanto, a par da ponderação é necessário não esquecer que precisamos de sair da nossa bancada e aventurar-nos na realidade.