Introdução
Robert E. Howard (1906–1936) é mais conhecido como o criador de Conan, o Bárbaro, e um dos pioneiros do subgênero da fantasia heroica ou espada e feitiçaria. No entanto, além de seus contos de aventura e fantasia épica, Howard também explorou temas de horror cósmico, especialmente em suas colaborações indiretas com H.P. Lovecraft e suas próprias criações de horror sombrio. Ele escreveu para a revista Weird Tales, assim como Lovecraft e Clark Ashton Smith, e os três trocaram correspondências, influenciando-se mutuamente.
O estilo de Howard era distinto: enquanto Lovecraft focava no horror do desconhecido e na insignificância da humanidade, Howard introduziu protagonistas fortes e combativos, capazes de enfrentar as forças malignas, mesmo que suas vitórias fossem momentâneas ou insignificantes no grande esquema cósmico. Seus personagens frequentemente se deparam com horrores ancestrais e entidades incompreensíveis, trazendo o terror cósmico para o campo da aventura e da ação.
Howard nasceu em Peaster, Texas, e cresceu em um ambiente rural que teve um impacto profundo em sua visão de mundo. Sua infância foi marcada pelo isolamento e pela observação das tensões sociais e econômicas do Texas na época, o que moldou suas histórias, muitas vezes cheias de violência, luta pela sobrevivência e reflexões sobre o destino da civilização. Ele começou a escrever desde cedo e, na década de 1920, já estava publicando contos em revistas pulp.
Seu relacionamento epistolar com H.P. Lovecraft foi tanto de admiração mútua quanto de divergências filosóficas. Lovecraft acreditava no caos e na indiferença cósmica, enquanto Howard via o conflito, a luta e a força de vontade como forças motrizes do universo. Howard também sofria de depressão, e sua vida terminou tragicamente em 1936, quando ele cometeu suicídio aos 30 anos.
a) "O Povo das Trevas" (The Shadow Kingdom, 1929)
Este conto, publicado na Weird Tales, é considerado uma das primeiras obras da espada e feitiçaria e apresenta o guerreiro Kull da Atlântida, precursor de Conan. Na história, Kull descobre a existência de uma raça de seres reptilianos chamados Homens-Serpente, que se infiltraram na sociedade humana. Os Homens-Serpente têm a habilidade de mudar de forma e tomar o lugar de humanos, o que cria uma atmosfera de paranoia e terror ancestral.
Resumo: Kull, rei da Valúsia, é alertado por um aliado de que seu reino está sob ataque de uma raça reptiliana que secretamente substitui os humanos. Kull luta contra essas criaturas antigas, que representam uma ameaça insidiosa e milenar. O conto explora o medo do desconhecido e o terror das forças ocultas que controlam a civilização por trás das sombras.
b) "Os Vermes da Terra" (Worms of the Earth, 1932)
Este conto é amplamente considerado uma das melhores histórias de horror cósmico de Howard. Ele mistura fantasia heroica com elementos de terror lovecraftiano. O protagonista, Bran Mak Morn, rei dos pictos, busca vingança contra os romanos que oprimem seu povo. Para alcançar seus objetivos, ele se alia a uma raça subterrânea de seres monstruosos conhecidos como os Vermes da Terra, uma antiga espécie que uma vez governou o mundo antes de ser banida para as profundezas da Terra.
Resumo: Bran Mak Morn, em sua busca por vingança, convoca os Vermes da Terra, uma raça horrenda e abominável que vive nas profundezas. No entanto, ao liberar esses horrores ancestrais, Bran logo percebe que sua decisão pode ter consequências terríveis, pois os Vermes não têm lealdade a ninguém e representam uma ameaça muito maior do que ele poderia imaginar.
Adaptações: Embora não tenha adaptações diretas, o conto influenciou várias obras de fantasia sombria e horror, sendo uma inspiração para histórias de vingança sombria e de pactos faustianos com entidades maléficas.
c) "A Coisa no Telhado" (The Thing on the Roof, 1932)
Neste conto, Howard se aproxima diretamente do estilo lovecraftiano. A história é sobre um estudioso que obtém um artefato antigo e acaba inadvertidamente despertando uma criatura alienígena presa há milênios. A história explora o tema clássico de Lovecraft sobre o perigo do conhecimento proibido e as consequências fatais de mexer com forças além da compreensão humana.
Resumo: O narrador, um estudioso de arqueologia, é contratado para ajudar na tradução de um antigo manuscrito que pode levar ao tesouro de uma civilização perdida. No entanto, ao descobrir o templo dessa civilização, ele libera uma entidade alienígena e monstruosa que estava aprisionada no local.
d) "A Torre do Elefante" (The Tower of the Elephant, 1933)
Este conto faz parte do ciclo de Conan e combina os elementos de fantasia épica com temas de horror cósmico. Conan, ainda jovem e em busca de aventuras, tenta roubar um lendário tesouro guardado na Torre do Elefante, onde encontra uma entidade alienígena presa e torturada por um feiticeiro maligno.
Resumo: Conan invade a Torre do Elefante, esperando encontrar riquezas, mas descobre Yag-Kosha, uma criatura alienígena antiga que veio das estrelas. Yag-Kosha revela sua história trágica e pede a Conan que vingue sua tortura. Este conto combina a brutalidade da espada e feitiçaria com a noção de criaturas cósmicas além da compreensão humana.
Adaptações: A história de Conan foi adaptada para várias mídias, incluindo quadrinhos e a animação Conan the Adventurer. Embora A Torre do Elefante não tenha sido diretamente adaptada para filmes, é uma das histórias mais conhecidas do personagem e inspirou várias adaptações.
Contribuições ao Mythos de Cthulhu
Howard não apenas correspondia com Lovecraft, mas também contribuiu para o Mythos de Cthulhu, utilizando entidades e referências cósmicas em seus contos. Ele frequentemente fazia referências a seres como Nyarlathotep e Yog-Sothoth, além de criar seus próprios monstros e deuses.
a) O Serpente e os Grandes Antigos
Embora Howard tenha seu próprio panteão de horrores, ele incorporou o conceito de Grandes Antigos em sua mitologia. Nos contos de Kull e Conan, os inimigos muitas vezes são cultos ou seres que adoram deuses reptilianos ou alienígenas, uma reminiscência das criações lovecraftianas.
b) A Criação de Seres Próprios
Howard também criou seus próprios deuses e entidades que poderiam se encaixar no Mythos de Cthulhu. Por exemplo, o Serpente Valka e os Vermes da Terra são entidades que existem nas margens do conhecimento humano e simbolizam a presença de poderes cósmicos e imemoriais.
Adaptações e Influência na Cultura Pop
a) Filmes e Séries
Embora Robert E. Howard seja mais conhecido pelas adaptações de Conan, o Bárbaro, seu trabalho com horror também influenciou a mídia popular. O filme Conan, o Bárbaro (1982) e suas sequências capturam a brutalidade e o mistério de suas histórias, onde o heroísmo enfrenta forças místicas. Howard inspirou inúmeras produções de fantasia sombria que exploram temas de civilizações decadentes e o confronto com o sobrenatural.
b) Quadrinhos e Jogos
A editora Dark Horse Comics publicou adaptações dos contos de Conan e de outros personagens criados por Howard, incluindo adaptações de "A Torre do Elefante".
Nos videogames, a mitologia de Howard foi adaptada em títulos como Age of Conan: Hyborian Adventures.
Sugestões
Para apreciar o melhor de Robert E. Howard no campo do horror cósmico, sugiro começar com "Os Vermes da Terra" e "A Coisa no Telhado", que são exemplares de seu trabalho mais próximo do estilo lovecraftiano. Também é interessante contrastar seu ciclo de Kull com o de Conan, para entender como ele evoluiu o conceito de horror em seus cenários de fantasia.
Conclusão
Robert E. Howard é um autor multifacetado, cuja obra se estende do horror cósmico ao épico de espada e feitiçaria. Sua visão do horror é marcada por personagens fortes que enfrentam o desconhecido, mas que, no final, não podem escapar da vastidão do cosmos e das forças incompreensíveis que governam o universo. Embora suas contribuições ao horror cósmico sejam frequentemente ofuscadas por seu trabalho com Conan, sua habilidade de mesclar ação intensa com terror ancestral faz dele uma figura central no desenvolvimento do gênero.