Oi, tudo bem?

Deixa eu te contar uma coisa que aconteceu outro dia. Achei uma máquina de escrever antiga no armário da minha mãe. Rosa, velha, com teclas que fazem um barulho gostoso quando aperto: tiquetaque, tiquetaque. Aí fui tentar escrever e percebi que era completamente diferente de tudo que eu uso. Sem autocorreção, sem sugestão de texto, sem nada completando minha frase antes de eu terminar de pensar.

E sabe o que foi estranho? Foi bom. Tipo, eu precisava saber o que queria dizer antes de apertar qualquer tecla. A máquina não adivinhava nada. Não sugeria nada. Não me mandava pra outro lugar no meio do pensamento.

Aí fiquei pensando: será que as escolhas que faço na internet são mesmo minhas? Ou alguém, ou alguma coisa, já escolheu por mim antes de eu perceber?

Porque olha, eu cresci rolando a tela. Com feed, com recomendação, com "você também pode gostar". A inteligência artificial já sabia o que eu ia querer antes de eu saber. E na maior parte do tempo eu nem parava pra questionar isso. Só ficava ali, rolando, rolando, rolando.

Mas quando você para e pergunta quem programou esse aplicativo, pra quem ele foi feito e quem fica de fora quando ele decide o que aparece, as coisas ficam bem mais interessantes. E bem mais sérias. Porque não é só sobre o que você vê. É sobre o que você nunca vai ver porque alguém decidiu que você não precisa.

É disso que as minhas cartas falam. Não de tecnologia como coisa de laboratório ou de gênio em garagem. Mas de tecnologia como algo que atravessa a vida da minha comunidade, das pessoas que eu amo, dos lugares onde a gente vive. Moro no Morro Dona Marta, no Rio, e daqui eu vejo muita coisa que os algoritmos não mostram pra quase ninguém.

Não tenho todas as respostas. Nem quero ter. O que eu gosto mesmo é de perguntar, investigar, checar se aquilo que me contaram é verdade e seguir curiosa. Espero que você também fique com vontade de fazer isso.

E se quiser, me escreve de volta. Quero saber o que você pensa.

Com carinho, 

Sofia