O Impacto das Ciências Sociais
Kenneth Boulding
Tradução de Moacir G. S. Palmeira
Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1974
Título original: The Impact of the Social Sciences
Copyright 1966
Os capítulos deste livro têm por origem as Brown and Haley Lectures da Universidade de Puget Sound, pronunciadas entre 29 e 31 de março de 1966. Tomei a liberdade de ampliar um pouco o conteúdo das conferências para a elaboração desta obra. Os dois primeiros capítulos correspondem à primeira conferência, o terceiro capítulo à segunda e o quarto à terceira. O quinto capítulo é uma espécie de epílogo.
Se, na sua leitura, for notado certo otimismo gratuito, a culpa cabe à paisagem de Mont Rainier, à sensação maravilhosa de um início de primavera no Noroeste, à hospitalidade acolhedora e às discussões estimulantes que mantive na Faculdade de Puget Sound. Creio que este pequeno volume deixará transparecer alguma coisa do clima que envolve as conferências de um professor visitante. Ele não pretende ser nem definitivo nem exaustivo, um tratado ou um livro de texto. Mas nutro esperança de que, pelo menos, servirá para levantar alguns problemas válidos.
Kenneth E. Boulding
Ann Arbor, Michigan
Maio de 1966
O sistema social compreende todos os seres humanos do planeta e todos os seus inter-relacionamentos, como parentesco, amizade, hostilidade, status, trocas, fluxos monetários, conversas, e inputs e outputs de informações etc. Ele inclui também os conteúdos de todas as mentes humanas e os ambientes: físicos, naturais e artificiais, com que se relacionam. Esse sistema social adere de tal maneira à superfície do mundo que pode ser chamado, adequadamente, de sociosfera, embora hoje alguns fragmentos seus estejam sendo jogados no espaço. Assim, a sociosfera passou a ser, ao lado da litosfera, da hidrosfera, da atmosfera, da biosfera etc., um dos sistemas que envolvem este pequeno globo. Ela mantém fortes inter-relações com as outras esferas com as quais está associada e sem as quais não poderia existir. Apesar disso, tem uma dinâmica e integridade próprias. É muito tênue na Antártica, onde não deixa de existir, e muito densa em Nova York. Trata-se de uma rede de relações e não de uma concha ou de uma esfera sólida, embora nenhuma parte do mundo se distancie muito dela. Trata-se de um sistema de enorme complexidade, ainda não submetido inteiramente à nossa compreensão.
Uma parte essencial da sociosfera e um dos maiores determinantes de seu curso dinâmico é o conhecimento que o homem tem de si mesmo isto é de si próprio e de sua sociedade. Somente nos últimos duzentos anos, praticamente nesta geração, é que o homem está se tornando amplamente consciente de suas sociedades e da sociosfera mais ampla da qual fazem parte. Esse movimento do sistema social em direção à autoconsciência é, possivelmente, um dos fenômenos mais significativos de nosso tempo e representa uma ruptura extremamente profunda com o passado, como o desenvolvimento da autoconsciência pessoal muitos milênios atrás.
Sem a autoconsciência, a dinâmica de qualquer sistema evolutivo é uma dinâmica de mutação e seleção aleatórias. Este é um processo inevitavelmente muito lento, uma vez que qualquer sistema, tal como existe em determinado momento, foi selecionado para sobreviver e, por conseguinte, a maioria das variações que se afastem dele provavelmente não sobreviverão. Com o desenvolvimento da autoconsciência humana, o processo evolucionário tornou-se, ao menos parcialmente, teleológico, isto é, dirigido por uma imagem do futuro existente nas mentes de participantes ativos, capazes de afetar o sistema. Com o desenvolvimento da autoconsciência, começou na espécie humana um grande processo de aprendizagem e isso é o mais importante de natureza cumulativa, capaz de sobreviver à morte do indivíduo e de ser transmitido à geração seguinte. Esse crescimento cumulativo do conhecimento é que constitui a essência do processo de desenvolvimento.
O conhecimento, no sentido amplo de estruturas de informação e de arranjos improváveis, é a chave para o processo evolucionário como um todo, do hidrogênio, o mais simples dos elementos, em diante. Ele é, na verdade, a única coisa capaz de evolução, já que a matéria e a energia, tomadas em conjunto, se conservam. Na realidade, a situação é ainda pior: a matéria e a energia não são de fato conservadas. De acordo com a segunda lei da termodinâmica, a energia disponível é dissipada e cada ação esgota parte do potencial disponível para ações subsequentes. A dinâmica da matéria e da energia é, portanto, uma dinâmica involutiva e não evolutiva. Só a informação e o conhecimento são capazes de produzir um processo evolutivo de crescimento em direção à complexidade e, posteriormente, à autoconsciência.
Com o desenvolvimento do organismo autoconsciente, isto é, do homem, o processo evolucionário teve condições de prosseguir dentro da mente humana, deixando de ficar confinado ao mundo dos fenômenos. A partir daí, o homem torna-se um agente capaz de criar o futuro que ele próprio imagina. O futuro é criado primeiro na imaginação, por um processo evolutivo muito mais rápido do que aquele que ocorre fora dela, e o homem então adquire a capacidade de figurar sua imagem do futuro à medida que adquire conhecimento e poder.
A autoconsciência humana produziu as ferramentas, a agricultura e mesmo a civilização. Mas foi somente nos últimos duzentos anos que o homem se tornou consciente de seu sistema social. Até então, aceitava o sistema social mais ou menos como o fazia com as estações do ano, o trovão, o relâmpago e os demais fenômenos naturais circunstantes, que podia observar, mas não controlar. O conhecimento dos sistemas sociais, entretanto, traz dentro de si as sementes de seu controle, isto é, o desenvolvimento de imagens ideais do futuro dentro das mentes daqueles que têm o poder de construí-las. Isso nos provoca algum medo; no entanto, é o fruto da árvore do conhecimento e, uma vez que o tenhamos comido, devemos arcar com as consequências.
Em todo caso, devemos reconhecer que o conhecimento do sistema social é uma parte essencial desse sistema e que, ao afetar nosso comportamento, ele afeta o próprio curso do sistema social. Isso é verdade mesmo ao nível do conhecimento inexato e até do conhecimento supersticioso. É provável que, à medida que avancemos em direção ao conhecimento mais seguro e mais exato, o processo de mudança seja acelerado. É provável que a taxa de invenção social cresça e que, em prazo relativamente curto, testemunhemos profundas transformações nas instituições e comportamentos sociais resultantes da acumulação de conhecimentos sobre o sistema social.
Se olharmos para a taxa de crescimento do corpo operante de conhecimento humano como a chave do desenvolvimento, veremos que houve pelo menos três fases nesse processo, fases que sobrevivem incidentalmente ainda hoje. Chamo o primeiro deles de processo de "conhecimento folk”, que é o processo pelo qual adquirimos conhecimento ao longo da vida cotidiana e através dos relacionamentos comuns na família, entre amigos, no grupo de iguais etc. Constituiu praticamente o único processo de conhecimento na era paleolítica e, na verdade, até o início da civilização. Não era, de modo algum, ineficaz na produção de conhecimento válido, sobretudo de sistemas pequenos e relativamente simples. Foi esse tipo de conhecimento que capacitou o homem primitivo a sobreviver e perpetuar-se. Seu defeito maior é a dificuldade de ser acumulado, pois existe apenas nas cabeças dos viventes. Sobretudo nas pequenas sociedades, era comum perder-se um conhecimento acumulado através de gerações, ao sobrevir uma epidemia ou uma calamidade que matasse aqueles que o tinham em suas cabeças antes que pudessem transmiti-lo à geração seguinte; à sociedade só restava recomeçar tudo.
A Era da Civilização, a partir mais ou menos do ano 3000 a. C. até os dias atuais, é marcada pelo que poderia ser chamado o processo de conhecimento literário, envolvendo o uso da escrita ou outras formas de registro de conhecimentos. Isso veio tornar o problema da transmissão do estoque de conhecimentos de uma geração para outra muito mais fácil e permitir maior especialização, visto que o estoque de conhecimentos não ficava confinado ao que uma cabeça individual podia guardar, e também, uma vez que a capacidade de leitura pode ser transmitida, dava a cada geração acesso à informação elaborada por vivos ou mortos. Esse processo permitiu a formação de sociedades muito mais complexas do que as que o conhecimento folk oralmente transmitido poderia produzir e deu lugar ao que poderíamos chamar de civilizações clássicas.
O conhecimento literário, todavia, está sujeito a certos defeitos que o conhecimento folk não possui. No conhecimento folk, dentro dos limites dos sistemas simples com que lida, o erro é detectado muito rapidamente por causa da rápida realimentação. Se, ao confundir outra mulher com minha esposa, eu me comporto diante daquela como se estivesse diante desta, descubro prontamente o erro da minha imagem e o corrijo a tempo, quer eu viva numa sociedade primitiva ou numa sociedade desenvolvida. Onde as sanções para o erro são negativas e para a verdade, altamente positivas, não tarda a surgir um processo seletivo contra o erro.
Naturalmente, como nos sistemas de conhecimento folk, a superstição pode aparecer em sistemas em que as imagens podem ser autossuficientes, em que a percepção do erro é difícil e em que as imagens são recebidas como verdadeiras mais por causa da autoridade do professor do que pelo processo de teste, da parte de quem aprende. No caso do conhecimento literário, a tendência para a superstição é inclusive maior. A autoridade da palavra escrita é muito grande, especialmente quando ela vem de um passado remoto, e por isso é muito possível que numa sociedade com escrita o erro seja transmitido tão facilmente quanto a verdade. O erro e a verdade crescem lado a lado como o joio e o trigo.
O terceiro processo de conhecimento, que tem sido o característico dos últimos trezentos anos, é o processo científico. A taxa de mudança no sistema social e na condição humana enormemente acelerada do presente é devida quase inteiramente a uma mu- dança no método de aquisição e transmissão do conhecimento que teve lugar há trezentos ou quatrocentos anos na Europa Ocidental e a que damos o nome de ciência. Essa mudança teve lugar dentro de uma subcultura muito restrita; na verdade, é quase um milagre que ela tenha mesmo chegado a ocorrer; e é bastante surpreendente que ela tenha se verificado na Europa e não na China, que foi a parte mais desenvolvida do mundo desde o tempo de Cristo até mais ou menos 1600.
Qualquer que seja a explicação, os fatos são inquestionáveis. A partir do século XVI, encontramos na Europa um grupo pequeno, mas em crescimento contínuo, de pessoas que se especializam em fazer progredir o conhecimento através de um método que envolve a revisão constante de imagens do mundo sob o impacto da observação e do teste refinados. As origens da ciência, evidentemente, são muito remotas e sua busca conduz-nos certamente à Grécia e à Babilônia. Entretanto, como um movimento social na aceleração do conhecimento, a ciência não deve ser muito anterior a 1600 e a fundação, em Londres, da Royal Society (1660) talvez possa ser tomada para simbolizar sua emergência como uma subcultura legítima e estabelecida.
O progresso do conhecimento produzido por esse movimento praticamente dobrou a duração da vida humana, lançou o homem no espaço, explorou toda a superfície da Terra, liberou enormes fontes de energia, criou materiais inteiramente novos e provocou enorme acréscimo da produtividade e da riqueza. Aumentou a renda per capita em algumas partes do mundo pelo menos vinte vezes mais em duzentos anos; também nos deu armamentos fantásticos, uma enorme insegurança no sistema internacional, meios de transporte que põem em risco nossas vidas, uma explosão populacional quase sem solução e a personalidade neurótica de nosso tempo. Mesmo com todos esses custos, entretanto, se fosse dada à maioria dos povos de hoje a possibilidade de escolher no tipo de sociedade desenvolvida que a revolução científica produziu e, digamos, nas sociedades apenas civilizadas da Londres do século XVII ou da Roma do primeiro século, a escolha, se realista, seria muito fácil.
Devemos enfatizar que os processos pelos quais as imagens são criadas ou alteradas e o processo pelo qual o erro é eliminado e a verdade selecionada entre essas imagens não são essencialmente diferentes nos três modos de aquisição do conhecimento. Se quero ir ao correio, uso linguagem folk. Já estive lá antes e sei como fazer. Não uso teodolitos nem qualquer instrumento científico mais avançado; se se trata de minha cidade, nem mesmo preciso usar um mapa, que representa o nível literário. Se chego ao lugar onde pensava ser o correio e percebo que foi transferido, minha imagem errônea pode ser rapidamente corrigida e, através do processo simples de perguntar aos circunstantes, posso encontrar, sem problemas, o local onde o correio está agora instalado. Então, minha imagem pode ser tão verdadeira quanto a mais refinada imagem científica do núcleo.
O conhecimento literário, embora esteja sujeito ao que poderia ser chamado de superstição de autoridade, está também sujeito ao teste. Se existe erro num mapa rodoviário, as queixas surgem rapidamente e o erro é corrigido. Se uma receita de bolo não é boa, ela será mandada de volta à editora e o erro será corrigido. Existem até recompensas a historiadores que descubram erros de seus predecessores.
Portanto, a diferença fundamental entre o conhecimento folk e o conhecimento literário, de um lado, e o conhecimento científico, de outro, não está em seu método de chegar à verdade. A diferença reside antes na complexidade dos sistemas a serem manipulados. O processo científico capacita-nos a manipular sistemas que são mais complexos do que aqueles que podem ser manipulados através do conhecimento folk ou dos meios literários comuns. Podemos encontrar o correio pelo conhecimento folk. Podemos encontrar o caminho para a Califórnia com mapa rodoviário. Mas, se quisermos ser um astronauta, teremos de possuir conhecimento científico, pois, caso contrário, logo depararemos com obstáculos intransponíveis.
As razões pelas quais a subcultura dos cientistas tem sido capaz de adquirir um conhecimento mais ou menos verdadeiro de sistemas muito complexos são de duas ordens. Em primeiro lugar, a subcultura científica desenvolveu a inferência lógica e matemática a partir de modelos operacionais. O processo de inferência lógica e matemática permitiu previsões a partir do modelo, as quais são muito precisas, quer sejam incondicionais, como no caso dos planetas, quer sejam condicionais, como no caso do experimento científico. A partir do modelo matemático, podemos prever que um planeta estará em tal ponto do firmamento num momento determinado do tempo. Também podemos prever que, se tivermos a, b, c e d em circunstâncias definidas com exatidão, ocorrerá e. A segunda razão para o sucesso da ciência foi o desenvolvimento de instrumentos refinados de observação e percepção o telescópio, o microscópio, o sincrotron e, poderíamos acrescentar, as técnicas de pesquisa e as estatísticas da renda nacional.
O experimento, poderíamos dizer, não é essencial ao processo científico. A predição, entretanto, no sentido de uma imagem exata do futuro, é essencial. Quando o futuro é atingido, a imagem do presente pode ser comparada com a imagem passada do futuro e se há alguma divergência entre as duas alguma coisa deve aparecer. No caso dos processos folk e mesmo dos processos literários, é muito fácil tanto rejeitar a inferência que deu lugar à predição e dizer que não poderíamos ter feito a predição em primeiro lugar, quanto rejeitar a imagem do presente e dizer que as coisas não ocorreram de fato daquela maneira. Na subcultura científica estamos protegidos contra essas reações pela inferência lógica, por um lado, e pela instrumentação cuidadosa, por outro. Havendo insucesso, não há outra alternativa senão proceder a uma revisão fundamental do modelo básico ou da imagem do mundo. Uma falha de previsão é um sinal de erro, embora o sucesso na previsão não seja necessariamente um sinal de verdade. Todavia, o método da ciência é essencialmente um processo de mutação-seleção pelo qual as imagens errôneas são continuamente eliminadas. Quanto mais o erro é eliminado, maior, esperamos, é uma aproximação assintótica da verdade.
O método experimental, embora não seja essencial à ciência e não constitua uma característica própria dessa ciência, tem tido grande importância na expansão da imagem científica do universo. Ele requer o desenvolvimento de subsistemas artificialmente simplificados onde um número relativamente pequeno de variáveis pode ser identificado e nos quais, por conseguinte, é mais fácil fazerem-se previsões exatas a partir dos modelos. Muito embora seja enormemente útil, o método experimental também tem seus perigos. O subsistema que usamos para nosso experimento pode não ser representativo do universo que estamos na verdade tentando investigar. O problema da natureza da amostra torna-se, então, muito importante. Mesmo os cientistas naturais não estão isentos da acusação de extrapolar para o universo resultados obtidos em amostras muito pequenas que podem não ser inteiramente representativos.
A divisão das ciências em físicas, biológicas e sociais corresponde, em linhas gerais, às três diferentes espécies de sistemas, com grau crescente de complexidade, existentes em nosso meio. O homem, como conhecedor de si mesmo, participa dos três. Ele é um sistema físico-químico em um ambiente físico-químico, como descobrirá com muita rapidez se tomar veneno ou jogar-se do Empire State Building. É também um sistema biológico de enorme complexidade sobre o qual conhecemos, na verdade, muito pouco. O cérebro funciona graças à interação dos dez bilhões de neurônios que o constituem. Como indivíduo, o homem também participa de um sistema social e de uma sociosfera cujas relações são não apenas enormemente complexas por si mesmas, mas que também, por serem relações entre seres humanos, participam da complexidade biológica do organismo humano. O neurônio, que constitui o elemento essencial do sistema nervoso humano, é relativamente simples comparado com o próprio homem, a pessoa individual que constitui o elemento do sistema social.
Diante da enorme complexidade da sociosfera, não é certamente despropositado perguntar quais são as limitações do método científico ou de qualquer outro método para adquirir conhecimento sobre os sistemas sociais. Alguns cientistas chegaram mesmo a afirmar que o método científico não seria apropriado ao conhecimento dos sistemas sociais, ou por causa dos sistemas de valores envolvidos, ou pelo fato de serem o próprio homem e seu conhecimento parte do sistema que ele estuda. A questão não é, entretanto, saber se as ciências sociais são ou não "científicas"; este é um problema semântico, pois não existe um método de ciência única, aplicável a todos os sistemas e a todas as disciplinas. Na medida em que os sistemas sociais, e mesmo os sistemas biológicos, são profundamente diferentes, em sua natureza, dos sistemas físicos, eles exigirão diferentes métodos de investigação. A questão crucial é saber o que podemos descobrir dos sistemas sociais que seja verdadeiro.
Talvez possamos ser encorajados pela reflexão de que mesmo uma boa parte do conhecimento folk dos sistemas sociais tem pelo menos se mostrado suficientemente verdadeiro para as finalidades da vida comum. De fato, quando uma pessoa se torna incapaz de testar a realidade de suas imagens do sistema social dentro do qual está situada, ficamos propensos a interná-la num hospital de doentes mentais. Nós que não estamos internados operamos nas relações sociais de nossas famílias, em nossos empregos e nas várias organizações a que pertencemos, guiando um carro em uma rua movimentada, em um parque público e assim por diante, de acordo com imagens folk que são ao menos suficientemente verdadeiras para nos livrar de embaraços maiores.
O problema surge quando tentamos aplicar essas imagens folk ou mesmo as imagens literárias, que são simples prolongamentos das imagens folk, ao sistema social como um todo, com todas as suas complexidades. Então, o conhecimento folk tende a sucumbir e métodos mais refinados de adquirir conhecimento dos sistemas sociais têm de ser desenvolvidos. Para o equivalente social de ir ao correio o conhecimento folk é excelente; para o equivalente social de uma expedição astronáutica, é completamente inadequado e conduz ao fracasso. Por conseguinte, devemos reconhecer que para lidar com sistemas sociais complexos, especialmente com sistemas sociais mais amplos, precisamos inventar métodos de adquirir conhecimento e de testar nossas imagens que vão além dos processos do conhecimento folk. Que chamemos tais métodos de "ciência" ou não, não vem ao caso. O importante é que nós temos de desenvolver métodos sofisticados para a aquisição e para o teste do conhecimento. Esta é a tarefa principal das ciências sociais.
Assim, da mesma maneira que não usamos um teodolito para descobrir a agência de correios, as ciências sociais não irão nos ensinar regras de comportamento em uma partida de bridge. Elas serão úteis para treinar gerentes de pessoal e pessoas responsáveis por grandes organizações cuja dinâmica vai além de suas experiências pessoais, ainda que em tais casos um tipo de conhecimento positivamente literário seja, muitas vezes, inteiramente adequado, como acontece com um mapa rodoviário para quem quer viajar de carro através de um país. A administração de um sistema econômico inteiro ou de um sistema internacional, entretanto, é equivalente à viagem do astronauta. Isso requer métodos de formar imagens, adquirir e processar informações, testar previsões e, posteriormente, de modificar as imagens, que são muito mais elaboradas do que aqueles adequados aos sistemas mais simples. O problema das ciências sociais é simplesmente o problema das indústrias produtoras de conhecimentos especializados e organizadas ao nível dos sistemas complexos.
Obviamente, é impossível cobrir, no espaço de um volume relativamente curto, todo o campo das ciências sociais e do seu impacto. Por isso, selecionei, para a exposição que se segue, três áreas e três subsistemas, dentro da sociosfera, para uma análise mais minuciosa. O primeiro é o sistema econômico ou "econosfera" que é a esfera de todas aquelas relações sociais que se organizam através da troca, produção e consumo de bens intercambiáveis. Tomei-o como um exemplo do mais sofisticado e elaborado corpo de conhecimentos científico-sociais e como aquele que tem tido o mais profundo efeito sobre a própria sociosfera. Em segundo lugar, selecionei o sistema internacional como aquele aspecto da sociosfera sobre o qual as ciências sociais têm tido menos impacto e que ainda permanece sendo operado em larga medida pelo conhecimento folk e literário, a despeito do fato de ser um sistema de um grau de complexidade que demanda processos de conhecimento altamente sofisticados. Finalmente, proponho-me a olhar para um aspecto da vida social onde o impacto das ciências sociais ainda é muito ambíguo, qual seja, o campo da ética, da religião e da lei.
Há um bom número de aspectos dos sistemas sociais que deixarei de lado ou mencionarei apenas de passagem. Por exemplo, o impacto dos antropólogos sobre os povos que têm estudado tem sido muitas vezes profundo. Dificilmente alguma coisa ilustrará melhor o princípio de que o conhecimento é a chave para o desenvolvimento — positivo ou negativo ― do que o impacto do novo conhecimento sobre as sociedades primitivas. Inteirei-me apenas de passagem do conhecimento recente sobre a família, talvez porque essa seja ainda uma área onde o conhecimento folk tem grande predominância no controle do comportamento. Olhei apenas de relance também para o impacto das ciências sociais sobre o sistema educacional que, num tratado mais exaustivo, exigiria certamente a exclusividade de um capítulo. Negligenciei também o impacto do conhecimento científico-social sobre os processos políticos internos e sobre a estrutura e a conduta das organizações. Num trabalho mais completo o impacto das ciências sociais sobre a arquitetura e a construção também teria de ser considerado, bem como o impacto da prática médica. A lista poderia ser ampliada consideravelmente. Entretanto, neste ensaio, não é minha intenção ser exaustivo, mas simplesmente ilustrar e apontar o caminho para um mais amplo e mais sistemático tratamento futuro do tema.
Na verdade, desconfio que a história do impacto das ciências sociais não será escrita nos próximos quinhentos anos. Levará pelo menos esse tempo até que as implicações do conhecimento atual se revelem. Os últimos cem anos assistiram a um enorme impacto da física e da química sobre o sistema econômico e todos os demais aspectos da vida social e política, de que resultaram indústrias inteiramente novas, novas fontes de energia, ocupações completamente inéditas e até uma nova imagem do homem. Estamos apenas começando a perceber, nesta geração, o impacto das ciências biológicas e é muito provável que os próximos cinquenta anos sejam olhados como os do florescimento da era biológica, em que o homem talvez comece a manipular o processo genético, desenvolva novas formas de vida e até rompa a barreira da velhice.
O pleno impacto das ciências sociais não deve ser sentido nos próximos cem anos simplesmente porque estamos ainda muito longe de qualquer processo de conhecimento realmente adequado ao estudo da sociosfera como um todo. Nosso sistema de amostragem é embaraçosamente imperfeito. Não dispomos de nenhum sistema centralizado de coleta e processamento de informações. Operamos fragmentariamente e não existe até agora nenhum processo seguro de acumulação, previsão e realimentação na sociosfera como um todo. Sugeri, por exemplo, que, se fôssemos levar a sério as ciências sociais, deveríamos estabelecer pelo menos uma rede mundial de estações de dados sociais, análogas às estações meteorológicas. Elas poderiam fazer mensurações e leituras constantes do sistema social em torno delas através de métodos padronizados e cuidadosamente escolhidos e enviar a informação a uma agência central de processamento, à semelhança das estações meteorológicas, que colhem informações sobre a atmosfera e as transmitem a um escritório central. Como, na realidade, não temos ainda estabelecido um sistema de informações sobre a atmosfera como tal, um sistema global de informações sobre a sociosfera é coisa para daqui a pelo menos uma geração. Todavia, uma vez estabelecido tal sistema, creio que haverá uma rápida acumulação de conhecimento, uma rápida revisão das imagens teóricas e uma mudança profunda correspondente na taxa de mudança do próprio sistema social.
Na verdade, não podemos prever quais serão essas mudanças. Um dos fatos menos reconhecidos com relação ao processo de conhecimento é que, para o conhecimento e, poderíamos acrescentar, para a tecnologia, a previsão do futuro é impossível. Isto é, se soubéssemos o que iríamos saber no próximo ano, nós o saberíamos agora. Daí dever existir sempre algum elemento de surpresa no processo de conhecimento; a surpresa é um elemento essencial da informação. É somente através do inesperado que o conhecimento cresce. Isto não significa, é claro, que não possamos especular de modo útil sobre as possíveis, ou mesmo prováveis, linhas de avanço do conhecimento e da tecnologia. Entretanto, pela própria natureza do processo de conhecimento, tais especulações estarão sujeitas a uma ampla margem de erro. Por essa razão, muito embora possamos esperar, com boa margem de confiança, que o conhecimento das ciências sociais continuará a crescer como sucedeu no passado, ou até mesmo que sua taxa de crescimento se acelere, o que esse novo conhecimento revelará e, sobretudo, que novos caminhos de organização social serão estimulados são coisas que não podemos saber atualmente.
Muito embora não possamos prever minuciosamente o crescimento do conhecimento das ciências sociais, podemos dizer alguma coisa sobre a forma que esse crescimento assumiu no passado e que é provável que venha a assumir no futuro. Todo grande avanço nas ciências parece estar associado a um duplo movimento, como sugerimos antes. O primeiro é o desenvolvimento de um novo ponto de vista teórico, uma reestruturação da imagem do mundo, que cria, como aconteceu, um potencial evolucionário para o crescimento do conhecimento. O segundo é um avanço na instrumentação, isto é, nos métodos pelos quais a informação vinda do mundo exterior pode ser detectada, selecionada e processada. Assim, a revolução coperniciana envolveu em primeiro lugar um deslocamento de uma perspectiva do universo centrada sobre o homem para o que poderia ser chamado de uma imagem orientada para o sistema, muito embora o próprio Copérnico tenha cometido erros quanto a alguns pormenores essenciais. Por exemplo, ele ainda pensava que os planetas se moviam em círculos. O sucesso da revolução coperniciana, todavia, dependeu, em larga medida, da invenção do telescópio, que permitiu grande aumento da coleção de informações sobre o universo astronômico e permitiu comparações muito mais exatas das previsões com as realizações.
Da mesma maneira, o avanço das ciências sociais no passado parece haver dependido de uma combinação de novas perspectivas e pontos de vista teóricos com novos métodos de coleta, seleção e processamento de dados. Não terá sido certamente por acaso que a teoria da população e os censos populacionais tenham surgido mais ou menos na mesma época, por volta do final do século XVIII. Talvez não tenha sido acidental ter a visão teórica de Adam Smith sobre o livre comércio e a liberdade natural aparecido lado a lado com um crescimento substancial das estatísticas comerciais, ou ter a grande visão de Malthus de um equilíbrio de desemprego tido de esperar uma centena de anos até ser revivida por Keynes, enquanto não eram produzidas as estatísticas de renda nacional. Por acaso, parece ser mais fácil encontrar exemplos de casos em que um insight teórico deixou de ter impacto por causa da ausência de instrumentos de coleta e processamento de informações do que o inverso. Por isso, não é despropositado imaginar as maiores mudanças do futuro vindo dos telescópios e microscópios sociais, isto é, do desenvolvimento de métodos de coleta e processamento de informações acurados e constantes. É por sentir que estamos apenas no início desses desenvolvimentos na coleta e processamento de informações sociais que sou otimista quanto ao futuro das ciências sociais. O que as ciências sociais vão fazer com o homem e sua sociedade é, todavia, outra questão, que deixarei para outra oportunidade.
As ciências sociais desculpam-se muitas vezes por sua ineficácia alegando juventude. No caso da ciência econômica, é difícil sustentar tal desculpa, pois a ciência econômica tem boas razões para ser olhada como a segunda mais velha das ciências, mais jovem do que a física, porém mais velha do que a química. Se consideramos a data de fundação de uma ciência como sendo aquele momento em que ela adquira um modelo teórico suficientemente integrado e poderoso de forma que inferências feitas a partir dele possam ser testadas, então a física clássica data certamente de Newton e a ciência econômica de Adam Smith, cuja Riqueza das Nações, de 1776, formula um quadro de referência da teoria do equilíbrio internamente coerente, sobretudo no que diz respeito a preços relativos, que todo o trabalho posterior tem modificado apenas em pormenores, mas não na essência. Além disso, a teoria do desenvolvimento econômico de Adam Smith era melhor do que a de muitos economistas contemporâneos. A química, ao contrário, debatia-se naquela época com a teoria do flogístico e não alcançou nenhuma integração teórica verdadeira antes de Dalton nos anos 1820. Na biologia, Darwin vem uma geração depois; a psicologia e a sociologia vêm ainda mais tarde. Na verdade, poderíamos dizer que as ciências biológicas não encontraram até agora sua síntese newtoniana.
A despeito do fato de terem suas formulações teóricas básicas surgido muito cedo, foi somente nos últimos trinta ou quarenta anos que a ciência econômica desenvolveu algo próximo a um sistema adequado de coleta e processamento de informações sobre a economia. Na época de Adam Smith havia muito pouca informação sistemática disponível e chega a ser espantoso como, sob tais circunstâncias, sua formulação teórica tenha sido tão profunda e penetrante como foi. Muitas das discussões teóricas da época de David Ricardo no primeiro quartel do século XIX foram prejudicadas pela falta de estatísticas, de informação econômica e de índices adequados. Mesmo um artifício simples como o número-índice de preços só se tornou de uso corrente após 1870, embora séries de preços e salários individuais fossem coletadas há muito tempo. As estatísticas da renda nacional e de sua distribuição, entretanto, eram virtualmente desconhecidas antes do século XX. Assim, não foi possível a Malthus confirmar ou testar os insights teóricos profundos de seu último trabalho, The Principles of Political Economy, onde antecipava muito do sistema keynesiano, permitindo que Ricardo levasse a melhor. Uma centena de anos mais tarde, Keynes inverteria dramaticamente o julgamento da história. Contudo, mesmo o sucesso da teoria keynesiana dependeu em larga medida do desenvolvimento paralelo das estatísticas de renda nacional, graças às quais, por exemplo, podia ser revelada a estrutura interna de uma grande depressão em termos de o desaparecimento virtual do investimento e da impossibilidade do consumo ou dos gastos governamentais crescerem de modo compensatório.
Considerando agora mais pormenorizadamente o impacto da ciência econômica e, sobretudo, dos economistas sobre a economia, penso em cinco nomes ou grupos de nomes como tendo tido uma importância maior. Estou excluindo os mercantilistas e os fisiocratas, os primeiros porque representam mais uma espécie de destilação da sabedoria popular do que propriamente uma nova abordagem teórica, com a possível exceção de Thomas Mụn; os últimos porque não tiveram praticamente impacto sobre ninguém, a não ser talvez sobre Adam Smith. Este sim é o primeiro grande nome e seu impacto sobre o desenvolvimento do livre comércio é bem conhecido.
O argumento do livre comércio, que, na verdade, é muito sutil na Riqueza das Nações, só pode ser entendido a partir de um nível de análise do sistema econômico que vá nitidamente além do que poderia ser chamado de uma "ciência econômica folk". Ele supõe um conceito do sistema econômico como um todo e do problema da alocação de recursos, um entendimento da maneira pela qual o sistema de preços serve para alocar recursos, um entendimento do fato de que o comércio é um jogo de soma positiva, como diríamos hoje, em que ambas as partes ganham, e uma compreensão das vantagens da especialização na divisão de trabalho. Os argumentos do protecionismo vulgar, ao contrário, derivam basicamente de imagens folk do processo econômico, imagens essas que sobrestimam as vantagens para a minoria, que está concentrada, e subestimam as desvantagens para a maioria, que está dispersa. O protecionismo apela para aquele ódio ao estrangeiro que é uma característica infeliz da maior parte da humanidade e é mesmo possível que haja razões psicanalíticas sutis por trás do sentimento de que exportar é bom e importar é ruim.
A demolição dos mercantilistas por Adam Smith talvez tenha ido longe demais, pois, como mostrou Keynes, numa espécie de retorno a um neomercantilismo, um balanço de pagamentos favorável, ao aumentar a oferta de moeda, pode levar a um aumento no emprego e no produto de uma sociedade que esteja operando abaixo de sua plena capacidade. Esse, entretanto, é um argumento ainda mais sutil que, possivelmente, nem Adam Smith nem seus adversários poderiam usar. O maior tributo prestado à clareza e ao poder de persuasão de A Riqueza das Nações reside no seu enorme impacto sobre as políticas econômicas não apenas da Grã-Bretanha mas também, durante certo tempo, de outros países. Após 1860, é bem verdade, o nacionalismo em ascensão e talvez um desejo, não de todo injustificado, de usar as tarifas para incrementar o crescimento industrial levaram a um gradual abandono dos princípios de Adam Smith. Contudo, a forte pressão, nos últimos vinte ou trinta anos, pela queda das barreiras comerciais, e até o relativo sucesso econômico de países como a Malásia, que tiraram vantagens de oportunidades de comércio favoráveis e não tiveram medo de se especializarem, mostram que Adam Smith ainda é uma força viva no mundo.
Além disso, qualquer um pode ver o impacto de Adam Smith sobre a ideologia econômica dos Estados Unidos, especialmente com respeito à política econômica interna, em dispositivos tais como a legislação antitruste e a regulamentação do monopólio, mas também em um velho preconceito contra quaisquer formas de intervenção estatal no sistema de preços, mesmo aquelas mais suaves, como o salário mínimo. Nos últimos trinta ou quarenta anos, é verdade, perdemos muitos de nossos preconceitos contra a intervenção no sistema de preços, embora não seja de modo algum seguro que tenhamos interferido inteligentemente e com sucesso. As vozes dos economistas da chamada Escola de Chicago, como Milton Friedman e George Stigler, através de suas críticas, às vezes penetrantes, ao tipo de intervenção que presenciamos atualmente, são um tributo à persistente vitalidade do quadro de pensamento de Adam Smith.
Na geração que sucedeu a Adam Smith, encontramos Ricardo e Malthus. Ambos exerceram uma influência ponderável sobre o sistema social, ainda que por vias bastante diferentes. Malthus deu seu nome a toda uma doutrina, o malthusianismo. Talvez por isso mesmo, tenha merecido uma boa quantidade de injúrias desmerecidas e até de elogios. Seu primeiro Essay on Population, publicado em 1798, pode certamente ser tido como um dos livros de maior influência dos últimos duzentos anos e é até mais importante hoje do que foi na época. Sua grande contribuição é o que poderia ser chamado de uma "visão miserífica" de equilíbrio de longo prazo, onde os únicos meios efetivos para conter eventualmente o crescimento exagerado da população são a fome e a miséria.
A esse respeito, Malthus foi prematuro como pensador. Ele teve sucesso em influenciar as políticas de sua época em boa parte por motivos errados, porque sua doutrina oferecia o que parecia ser uma boa desculpa para uma lei dos pobres altamente restritiva e punitiva. Olhando para trás, podemos ver hoje que Malthus estava completamente errado para seu tempo. Ele escreveu num momento em que se iniciava uma enorme expansão da oferta de alimentos através da ocupação de terras virgens e através de um substancial aumento na produção por acre, graças à tecnologia científica. Consequentemente, embora tenha havido um enorme crescimento da população desde o tempo de Malthus, a oferta de alimentos, até recentemente, cresceu, grosso modo, proporcionalmente, e, na parte desenvolvida do mundo, cresceu em proporção ainda maior.
Apesar disso, Malthus estava certo ao mostrar que muitas vezes a oferta de alimentos não pode acompanhar o crescimento exponencial da população e hoje mais que nunca o demônio malthusiano nos ronda. Mesmo os socialistas, que sempre detestaram Malthus — talvez não inteiramente sem motivo, visto suas teorias terem sido usadas para impedir as mudanças sociais estão sendo agora obrigados a admitir que o crescimento rápido da população pode comprometer o desenvolvimento econômico e que o problema de um equilíbrio de longo prazo eventualmente deva ser encarado. E "eventualmente" aqui quer dizer o mais rápido possível.
Alguém pode argumentar que os resultados imediatos de Malthus foram bastante desastrosos. A Lei dos Pobres de 1834, promulgada na Inglaterra, por exemplo, e que é atribuída sobretudo à sua influência, na realidade deve ter apenas feito com que alguns velhos pobres fossem mais um pouco miseráveis do que teriam sido de outra maneira e deve ter tido muito pouca influência no crescimento da população inglesa. Se o sistema de distribuição de comida nas ruas tivesse continuado, os pobres teriam sido mais felizes e a taxa de desenvolvimento econômico não teria sido muito afetada. Entretanto, é em nossos dias que Malthus está em seu tempo, quando o reconhecimento da necessidade desesperada de meios de controle da natalidade, meios que ele certamente não aprovaria, tornou-se quase um lugar-comum.
Se Malthus veio muito cedo, Ricardo, num certo sentido, chegou tarde demais. Ele codificou e clarificou os insights de Adam Smith em um corpo de doutrina abstrato, mas alguém pode arguir convincentemente que o grande sucesso daquele corpo doutrinário represou o crescimento do conhecimento em ciência econômica por quase um século e teve efeitos substancialmente adversos sobre a política econômica. Malthus, com o gênio que parece ter tido para ser prematuro, desenvolveu em seu Principles of Political Economy (1836) um corpo de insights notáveis, em que reconhecemos hoje em dia a macroeconomia, antecipando a revolução keynesiana em uma centena de anos. Todavia, a argumentação de Ricardo prevaleceu e foi o pensamento ricardiano que dominou o século seguinte, com sua ortodoxia do padrão ouro, pequena atuação governamental, orçamentos equilibrados e uma lei dos pobres punitiva.
O sucesso que de fato tiveram a Grã-Bretanha e os Estados Unidos durante o século XIX foi uma indicação de que o modelo ricardiano fazia algum sentido como uma fórmula de longo prazo para o desenvolvimento e ele foi, sem dúvida, mais bem sucedido que, digamos, os inseguros e profligados sistemas da América Latina. Apesar disso, muitos custos podem ter sido demasiadamente altos: a fome dos anos quarenta, a depressão dos anos setenta e oitenta, a excessiva oscilação do ciclo de negócios etc. Talvez a sua ruína tenha sido o grande sucesso do quadro de referência ricardiano. Nos anos vinte e sobretudo nos anos trinta de nosso século, tornou-se evidente a inadequação daquele quadro de referência para lidar com os problemas de então. É bem possível que, como Keynes sugeriu, se Ricardo tivesse escrito uma geração mais cedo e Malthus tivesse sido mais sistemático e houvesse sido bem sucedido no debate, o século XIX fosse igualmente bem sucedido no desenvolvimento e bem mais feliz em termos de custos sociais. Como todos os "se" da história, isso é algo que nunca poderemos realmente saber.
Se a ciência econômica quiser chamar a si Karl Marx, então, do ponto de vista da simples importância da influência de um único homem na história, o impacto dessa ciência pode ser tido como enorme. Provavelmente nenhum homem teve até hoje na história da humanidade um impacto tão grande sobre o sistema social, para bem ou para mal. É verdade que o impacto de Marx depende não tanto do fato de ter sido ele um economista, pois suas contribuições à ciência econômica não são nem muito boas nem muito originais, mas do fato de ter sido um profeta e um ideólogo cuja visão do mundo parecia ir ao encontro das necessidades da grande maioria de quantos estavam interessados na mudança social no século seguinte. Boa parte do poder do pensamento de Marx advém de sua natureza sintética e sistemática, do fato de que representa o que eu descreveria como uma síntese prematura das ciências sociais em uma visão total da sociedade. Para espíritos intolerantes para com as ambiguidades intelectuais, que querem saber as respostas para tudo, um sistema total como o marxismo é muito atraente. Entretanto, quaisquer que sejam as razões do impacto, sua magnitude dificilmente pode ser negada, pois um terço da população mundial vive hoje sob regimes inspirados em Marx.
Foge certamente ao âmbito deste trabalho tentar fazer um balanço do marxismo e, na verdade, é ainda muito cedo para isso. Tanto os custos quanto os benefícios são muito grandes e, diante de tais circunstâncias, é difícil determinar se os primeiros são maiores ou vice-versa. Do lado dos benefícios, o marxismo forneceu indubitavelmente o pretexto para a transformação de sociedades estagnadas e para a expansão da educação, da ciência e da tecnologia em partes do mundo onde ele tinha tido anteriormente pouco impacto. Produziu uma taxa de desenvolvimento econômico positiva e razoavelmente alta em praticamente todos os países por ele atingidos. Fez isso todavia a um custo social muito alto, resultante principalmente das falhas do marxismo como uma teoria social. Ele representa, na verdade, um caso muito especial que tem relevância para alguns lugares e períodos, mas não para todos. A ideologia da luta de classes e da revolução, além disso, tem sido extremamente custosa em termos de sofrimento humano e mesmo em termos de desenvolvimento. Países que alcançaram o desenvolvimento sem revolução, como o Japão, receberam os benefícios com apenas uma fração dos custos. Intelectual e esteticamente, o marxismo também tem sido custoso, no sentido de ter congelado as sociedades que dominou num complexo de ideias e mesmo de gostos próximo aos dos meados do século XIX. O que mais nos choca em um país socialista da atualidade é seu extraordinário vitorianismo e talvez um dos custos da ideologia seja que ela sempre imprime sobre a sociedade que domina os padrões de um passado morto.
Paradoxalmente, podemos afirmar que, em linhas gerais, os benefícios do marxismo foram proveitosos principalmente para as sociedades não marxistas. A grande importância de Marx está em ter ele contestado a legitimidade da propriedade privada, o mercado como organizador social, os ideais burgueses e o Estado burguês. Ora, qualquer contestação à legitimidade precisa ter uma resposta e a resposta do Ocidente ao desafio de Marx foi bastante profunda. Poderíamos dizer, recorrendo à linguagem de Toynbee, que o marxismo apresentou um grau quase ótimo de desafio àquelas sociedades já bem desenvolvidas, ao passo que foi grande demais para aquelas sociedades do Nordeste da Eurásia, que não tinham ainda alcançado aquele estádio de desenvolvimento em que o desafio pode ser enfrentado sem catástrofes. Não há dúvida de que o mundo capitalista de hoje é muito diferente do que era em 1848 e algumas dessas diferenças são certamente um resultado da resposta ao desafio marxista, embora seja difícil avaliar em que medida.
A principal razão por que o marxismo não foi bem sucedido no Ocidente está em que a dinâmica da distribuição seguiu um caminho inteiramente diferente daquele previsto pela teoria marxista. Marx pensava que a parte do produto que cabia ao trabalhador tendia a manter-se estável e que todo aumento do produto reverteria em favor do capitalista. Mas, na realidade, o que sucedera é que se atingira um enorme crescimento do produto nas sociedades ocidentais, enquanto as parcelas proporcionais se haviam mantido razoavelmente estáveis; na verdade, a proporção que vai para o trabalho tem crescido continuamente. Portanto, ao invés de a mais-valia concentrar-se nas mãos dos capitalistas, ela tem sido amplamente distribuída por toda a população sem a abolição da propriedade privada e sem o desenvolvimento de economias centralmente planificadas. De fato, é nas economias centralmente planificadas que a exploração do trabalho — é bem verdade que em nome de supostos interesses futuros — tem sido mais severa. O fracasso das previsões marxistas no Ocidente é claro; o que não é claro é o quanto desse fracasso se deveu à dinâmica intrínseca de uma sociedade de mercado e o quanto dele se deveu a reações específicas em termos de política econômica surgidas da crítica marxista. Podemos certamente argumentar que a mudança ocorrida no status do movimento operário, o aparecimento da previdência social, o desenvolvimento do imposto de renda progressivo etc. foram, de certa maneira, respostas ao desafio marxista que produziram uma quantidade de benefícios a um custo social muito baixo.
Talvez a grande tragédia do marxismo como ideologia seja haver sido formulado antes do grande desenvolvimento da economia matemática, da econometria e da coleta e processamento de informações econômicas que têm caracterizado os últimos cem anos, mas que floresceram sobretudo nos últimos trinta. É difícil associar essa mudança a uma pessoa em particular, embora Keynes represente certamente seu profeta e visionário, apesar de não ter sido nem grande matemático nem estatístico. O impacto dessa “sofisticação” da ciência econômica foi muito maior nos últimos vinte anos e promete ser ainda maior no futuro. Esse processo de sofisticação tem mostrado muitas das características do que poderia ser chamado o estádio intermediário do desenvolvimento de uma ciência, a exemplo do que ocorreu com a astronomia de Copérnico a Newton. As mudanças que atingem a visão de base da ciência econômica fazem com que não seja inteiramente fora de propósito comparar Keynes com Copérnico, pois a revolução keynesiana, tal como a revolução coperniciana, representa o deslocamento de uma visão antropocêntrica e superficial do universo para o que poderia ser chamado de uma visão orientada para o sistema.
Houve também certo número de arrancadas falsas e de becos sem saída. Por exemplo, é pelo menos questionável que as matematizações feitas por A. A. Cournot (1834), Léon Walras (1870) e V. Pareto (1896) tenham feito mais que refinar e tornar explícito o sistema fundamental implícito na economia clássica de Adam Smith e Ricardo, embora não tenham sido escritas numa linguagem explicitamente matemática. Do mesmo modo, o trabalho empírico de Wesley Mitchell nos anos 20 sobre os ciclos de negócios parece ter sido algo como um beco sem saída, embora com algumas saídas úteis no caminho.
Combinação verdadeiramente poderosa foi a da teoria keynesiana com a coleta e processamento das estatísticas de renda nacional. As estatísticas de renda nacional foram para Keynes o que o telescópio foi para Copérnico. Elas nos tornaram capazes de observar o funcionamento do sistema e de suas partes constitutivas quase mensalmente, trimestralmente pelo menos, fornecendo-nos, assim, um sistema de realimentação de informações inexistentes até então. Essa combinação de modelos econométricos da economia como um todo com um sistema de informações capaz de permitir-nos fazer estimativas razoáveis dos parâmetros deu-nos um senso de "controle" da economia como não havia no mundo antes de 1930. Essa mudança nos atingiu muito lentamente e por isso não temos condições de avaliar sua magnitude. Todavia, há muitas indicações de que atravessamos um tênue divisor de águas e de que conseguimos, por assim dizer, uma mudança revolucionária sem revolução, o que é o caminho ideal.
Se alguém quiser uma data para a transposição do divisor de águas (embora, como em Chicago, seja difícil dizer onde se encontra o divisor de águas), podemos apontar para o ano de 1946, com a aprovação do Full Employment Act que criou o Council of Economic Advisors e o Joint Economic Commitee no Congresso. Isso representou, por assim dizer, a legitimação da economia como uma profissão e o esestabelecimento dos economistas como acólitos nos recintos da Casa Branca e do Congresso. O processo teve altos e baixos. O sucesso da redução dos impostos em 1964, acompanhando as taxas relativamente altas de desenvolvimento na década de 60, é, todavia, a primeira irrupção consciente nos Estados Unidos do que poderia ser chamado de "economia da renda nacional". O sucesso dessa espécie de economia na Europa e no Japão tem sido ainda maior e, nos últimos vinte anos, esses países têm alcançado taxas de desenvolvimento praticamente inéditas.
A sensação de que a Segunda Guerra Mundial representou uma espécie de divisor de águas intensifica-se quando estabelecemos uma comparação entre os vinte anos que se seguiram à Primeira Grande Guerra, 1919-1939, com o período 1945-1965. Os primeiros vinte anos foram um fracasso completo. Eles assistiram ao fiasco das indenizações de guerra, ao colapso econômico provocado pela Grande Depressão e à ascensão de Hitler, e terminaram na Segunda Grande Guerra. No mundo socialista, o período foi ainda mais desastroso: o colapso econômico da Rússia em 1921 e o desastre que foi a Primeira Coletivização representaram um enorme abalo do sistema social. No "Terceiro Mundo" quase não houve progressos em direção à abolição do sistema colonial e a economia internacional permaneceu estagnada ou até mesmo declinou. Na verdade, dificilmente podemos evitar atribuir a esses anos um "zero" do ponto de vista do bem-estar e da decência humanos. Ao contrário, os anos de 1945 a 1965 merecem pelo menos um "seis". Não tivemos nenhuma grande depressão, o desemprego nos Estados Unidos raramente esteve acima dos seis por cento da força do trabalho, taxas aceitáveis de crescimento econômico foram mantidas, e, na Europa e no Japão, e mesmo em outros países, foram obtidas taxas de crescimento extraordinárias cerca de oito por cento per capita ao ano no Japão, mais ou menos sete por cento na Alemanha Ocidental e de cinco a seis por cento em muitos outros países. O sistema colonial dissolveu-se em boa medida. É bem verdade que a guerra fria e a indústria armamentista mundial continuam a representar um enorme fardo para a humanidade, cerca de 120 bilhões de dólares anuais. No entanto, apesar disso, foram feitos pelo menos alguns progressos no sentido da organização internacional e da coexistência pacífica. Estamos certamente mais distantes da Terceira Guerra Mundial em 1966 do que estávamos da Segunda Guerra em 1940, quando ela já se havia iniciado.
Ninguém certamente quererá creditar à ciência econômica todos esses feitos. Entretanto, mesmo que lhe creditemos apenas uns dez por cento deles, já é uma grande coisa. Se, por exemplo, tivéssemos tido nos Estados Unidos na década de 50 uma grande depressão, ao invés de uma semi-estagnação, isso teria, sem dúvida alguma, nos custado uns quinhentos bilhões de dólares e teria provocado uma enorme piora do clima internacional. Nós não investimos seguramente mais do que cem bilhões de dólares na ciência econômica, de forma que a taxa de retorno desse investimento bem pode ser da ordem de milhares por cento. Não é, pois, surpreendente que os economistas mostrem hoje em dia uma certa tendência para o autoelogio. "Como era bela a ciência econômica antes que alguém soubesse de alguma coisa!", disse-me certa vez o professor Schumpeter, querendo dizer que antes das contas nacionais os economistas podiam destilar as teorias que bem entendessem sem que ninguém pudesse testá-las. Atualmente, a realimentação de informações sobre a realidade é tão grande que pode atrapalhar o estilo artístico do teorista, mas, sem dúvida, aumenta o poder da disciplina
O impacto da ciência econômica não se limita, de modo algum, às políticas de estabilização e ao combate ao desemprego. Nos últimos vinte anos assistimos ao desenvolvimento de alguma coisa chamada indiferentemente de "ciência da administração", "pesquisa operacional" ou 'teoria das decisões". Trata-se de um corpo de teoria, coleta e processamento de informações que, de certo modo, surgiu, de dentro da ciência econômica, mas que já se estabeleceu como uma disciplina bastante independente, embora dentro dos quadros das ciências sociais.
A teoria das decisões é um conjunto de variações matemáticas sobre o tema de que cada um faz o que lhe parece ser o melhor num determinado momento e a ciência da administração consiste basicamente em uma variedade de técnicas para definir e identificar qual "o melhor" dentre um conjunto de escolhas possíveis. O primeiro passo é definir o campo da própria escolha, a que se poderia chamar a "agenda' O segundo passo é definir a função que nos capacita a ordenar os elementos do campo de escolhas e, a partir daí, selecionar o prioritário. Quando o número de elementos do campo de escolha é pequeno e os procedimentos de avaliação são simples, o conhecimento folk é bastante adequado para lidar com o problema. Quando, todavia, o número de elementos do campo de escolhas se torna muito grande, procedimentos sofisticados têm de ser encarados se estamos querendo fazer escolhas racionais. O desenvolvimento de campos da matemática como a programação linear e não linear consiste basicamente em artifícios para ordenar grandes campos de escolha através de procedimentos matemáticos. Os praticantes da ciência da administração contam-se hoje em dia aos milhares e têm contribuído grandemente para a implementação de decisões mais realistas e sofisticadas em organizações de todo tipo, públicas e privadas.
É virtualmente impossível neste momento avaliar o impacto desse movimento uma vez que existe há relativamente pouco tempo. Como para tudo mais, teríamos de comparar os ganhos com as possíveis perdas. Os ganhos representam decisões tomadas com a ajuda desses procedimentos sofisticados que são mais proveitosas para o decision-maker ou talvez para a sociedade como um todo do que aquelas que seriam tomadas sem eles. O ganho aqui é a diferença entre nossa avaliação daqueles elementos do conjunto de escolhas que seriam selecionados com a utilização de procedimentos sofisticados e daqueles elementos que seriam selecionados sem tais procedimentos. Isso depende muito da natureza da chamada função de utilidade, isto é, das avaliações dos vários elementos no conjunto de escolha. Se há apenas uns poucos elementos no conjunto que são altamente valorados, com todos os outros elementos sendo muito pouco valorados, os erros de decisão podem ser muito importantes. Se, por outro lado, tivermos um grande número de elementos mais ou menos equiparados na cabeça da lista, todos de valor aproximadamente igual, a decisão será sem importância; qualquer coisa que decidirmos estará bem. Infelizmente, não conhecemos bastante sobre as funções de valor de nossa sociedade para saber em que medida um desses padrões prevalece. Caso prevaleça o segundo, os processos refinados de tomadas de decisão pouco nos ajudarão. Mas, se prevalece o primeiro, eles podem ser de grande valia.
Os procedimentos sofisticados de tomadas de decisão acarretam também, possivelmente, custos inevitáveis. Podem, por exemplo, criar a ilusão de certeza para o decision-maker em situações de incerteza objetiva, quando situações de incerteza requerem um tipo de comportamento e procedimentos de decisão diferentes daquelas em que há certeza. Numa situação de incerteza, por exemplo, aquele que hesita é frequentemente poupado — e um aspecto importante do processo decisório consiste na capacidade não de se antecipar ao futuro mas de deixar as decisões abertas. Os procedimentos de decisão sofisticados podem conduzir ao fechamento prematuro, a muito pouca ênfase na fluidez e na hesitação e daí talvez a enganos desastrosos. Isso causa preocupações sobretudo no que diz respeito ao sistema internacional, onde a pseudo-sofisticação pode facilmente conduzir a uma instabilidade maior. O único remédio para esse reduzido e perigoso conhecimento, entretanto, é mais conhecimento, ou melhor, mais de um diferente tipo de conhecimento. Não há retorno possível à ignorância, mesmo quando a ignorância é vantajosa. Consequentemente, devemos esperar que o processo de tomada de decisões se torne mais e mais sofisticado e que, como resultado, um número cada vez menor de erros de decisão seja cometido.
As consequências a longo prazo de um avanço substancial nos processos de tomada de decisão podem ser surpreendentes. Poderia haver, por exemplo, algum sacrifício do desenvolvimento a longo prazo pela estabilidade a curto prazo. A capacidade de cometer erros e sofrer as consequências é seguramente um aspecto importante do processo evolucionário e os procedimentos de decisão sofisticados podem facilmente introduzir uma diminuição tanto na taxa de mutação quanto na taxa de seleção social. A melhora dos procedimentos de decisão pode resultar, por exemplo, num aumento da duração da vida de organizações de diferentes tipos. O que isso poderia acarretar a longo prazo sobre as taxas de desenvolvimento social não está claro, mas esta é uma preocupação que podemos deixar para o futuro.
Parece claro que a ciência econômica, enquanto ciência social, atingiu um grau de sofisticação que faz com que seu impacto sobre a economia seja muito importante e que provavelmente venha a ser ainda maior no futuro. Dificilmente pode ser negado, no que diz respeito à ciência econômica, que conhecemos hoje alguma coisa e que esse conhecimento pode ser aplicado. Conhecer alguma coisa, entretanto, não é conhecer tudo e ainda temos um grande caminho pela frente. Eu não gostaria de dar a impressão de que a ciência econômica atingiu o auge das suas realizações e de que não há mais problemas a serem resolvidos. Na verdade, ainda há muito por fazer, tanto no que diz respeito à teoria quanto no que concerne ao desenvolvimento da coleta e processamento de informações, e o economista não deve descansar sobre os louros conquistados, mas sim arregaçar as mangas e lançar-se às tarefas mais urgentes.
Um dos maiores problemas por resolver, em termos de política econômica, é o uso inteligente do sistema de preços. Este problema tem dois aspectos. O primeiro é o problema do nível geral dos preços e dos salários nominais. O outro é o problema da estrutura de preços relativos. Enquanto o problema do nível geral se mantiver sem solução, ele continuará a ser o calcanhar-de-aquiles da economia da renda nacional. É muito fácil estabilizar ou fazer o que se deseja com a renda nacional em termos de dólar. Se o objetivo for, por exemplo, um crescimento de 5% ao ano, ajustamentos convenientes do sistema fiscal e monetário irão facilmente permiti-lo e já podemos imaginar um aparato social-cibernético capaz de manter a taxa de crescimento do produto nacional bruto em termos de dólar dentro de limites facilmente toleráveis.
O valor em dólar do produto nacional é, entretanto, um produto de dois agregados ou índices e é igual à quantidade de produto em termos reais multiplicada pelo nível de preços monetário deste produto. Com um mesmo valor total em dólar do produto nacional estável ou controlado, é possível haver grandes flutuações em direções opostas tanto nos preços quanto nas quantidades. Todavia, o que na verdade se quer controlar é o plano da quantidade.
São as flutuações na quantidade ou a dificuldade de crescimento da quantidade que causam problemas e o ideal da política econômica global seria um crescimento regular da quantidade total do produto a um preço razoável. O valor em dólar, nós sabemos muito bem como controlar; o que não sabemos como controlar é o nível de preços. O grande dilema da política de estabilização é que, antes que atinjamos o produto ideal ou o pleno emprego, as forças de mercado da economia parecem criar uma taxa de crescimento inaceitável ao nível dos preços e dos salários nominais.
Até agora, o único artifício institucional descoberto para lidar com isso é a ira presidencial, institucionalizada sob a forma de instruções, mas esse um sistema que pode não ser muito forte. É possível, como foi sugerido por Gardner Means, que possamos encontrar uma solução para esse problema através de certas modificações no sistema tributário que criem discriminações contra crescimentos na renda devidos a aumento dos preços ou dos salários nominais, mas isso ainda parece muito remoto.
Quanto ao problema da estrutura de preços relativos ideal, a situação, tanto em termos de teoria quanto em termos de prática, só pode ser descrita como deplorável. Nos Estados Unidos, por exemplo, apenas agora estamos começando a perceber que boa parte de nossa intervenção na estrutura de preços relativos, motivada, ao menos parcialmente, pelo desejo de redistribuir a renda para os pobres, na verdade redistribuiu a renda para os ricos. Isso é seguramente verdade para a política agrícola, por exemplo, em que a tentativa de resolver o problema da pobreza rural através do aumento do preço relativo dos produtos agrícolas resultou em proveito dos agricultores ricos, que afinal de contas têm alguma coisa para vender, e fez muito pouco pelos agricultores pobres, a não ser afugentá-los completamente da agricultura (o que, para falar com franqueza, pode não ser uma solução má). Em termos de desenvolvimento econômico e taxa de mudança tecnológica, a política agrícola teve um sucesso retumbante, mas em termos dos objetivos de justiça social a que originalmente deveria responder está exposta às críticas mais severas.
Poderíamos dar muitos outros exemplos de casos em que a distorção governamental do sistema de preços apresentou resultados duvidosos. Mesmo no caso da educação pública, em que supostamente subsidiamos a educação para torná-la mais barata ou mais livre, uma parte considerável do subsídio foi para a classe rica ou para a classe média. O sistema tributário local que assegura esses subsídios educacionais é, com frequência, extremamente regressivo, de forma que, na realidade, ele taxa os pobres para educar as classes médias e os ricos. Não é surpreendente, sob tais circunstâncias, que os recursos humanos sejam desperdiçados e que tenhamos um problema de bolsões de pobreza autoperpetuáveis que o sistema de educação pública não consegue de modo algum enfrentar. Se quiséssemos usar mais o sistema de preços, cobrar mensalidades integrais e utilizar os fundos públicos para distribuir bolsas de estudo, muitos dos atuais problemas econômicos do sistema educacional poderiam ser resolvidos. As universidades estaduais são o caso mais flagrante de subsídio aos ricos através de um sistema tributário regressivo, em nome de uma suposta igualdade de oportunidades que, na realidade, não é nada disso. Até a previdência social está sujeita a taxas que fazem com que ela seja uma carga mais pesada para os pobres do que para os ricos e que represente na realidade muito pouco em termos de redistribuição. Ela implica também uma forte taxação da nova geração, que está pagando por seguros e anuidades com uma taxa de retorno muito baixa para subsidiar seus avós imprevidentes.
Quando olhamos para coisas como a política antitruste, a confusão sobre o que deveríamos fazer com a estrutura de preços relativos torna-se ainda mais patente. Se a legislação antitruste americana pode ser defendida por ter criado um suave excitante para os decision-makers da comunidade de negócios, que evitou que eles tomassem certos caminhos fáceis, lançando-os em direção à melhora tecnológica, ela não pode ser defendida em termos de consistência lógica ou em termos de qualquer teoria sobre preços ideais ou mesmo sobre formas ideais de organização econômica. Quando nos voltamos para as indústrias atingidas, vemos um sucesso considerável no caso da American Telephone and Telegraph Company e um desastroso fracasso no caso das estradas de ferro, de forma que mais uma vez parece claro que as soluções do passado não se aplicam necessariamente ao presente.
Na raiz de boa parte dos fracassos do que poderíamos chamar de política microeconômica está uma séria falha da própria teoria econômica: sua incapacidade para lidar com os problemas mais amplos de distribuição de renda. Há ainda muitos problemas sem solução, como, por exemplo, a questão da incidência dos tributos sobre a distribuição da renda. Não sabemos ainda de fato em que medida a manipulação do sistema de preços, por exemplo, através de salários mínimos ou subsídios, afeta a distribuição como um todo. Também não temos nenhuma teoria adequada da distribuição a longo prazo da propriedade, sobre a qual se assenta em parte a distribuição de renda. Esses são problemas técnicos em que não poderemos penetrar neste momento mas que merecem ser lembrados no caso de os economistas se mostrarem inebriados com seu atual sucesso.
Outro problema de enorme importância em que a contribuição da ciência econômica é pelo menos ambígua é o do desenvolvimento econômico. A demanda por um rápido desenvolvimento econômico da parte dos países pobres é agora tão insistente que a economia do desenvolvimento entrou na moda e conseguiu um grande mercado. Apesar disso, os modelos econômicos de desenvolvimento deixam muito a desejar e nem sempre se têm mostrado úteis. Isso se deve em parte a que o processo de desenvolvimento exige mais do que pode dar a ciência econômica em sentido restrito. Ele requer uma dinâmica social unificada que, por enquanto, existe apenas em forma embrionária. Daí ser talvez injusto censurar a ciência econômica pelo que é na realidade uma falha da ciência social geral. Os economistas, todavia, não são inteiramente inocentes, pois presumem saber mais do que sabem e aconselham quando deveriam estar fazendo pesquisa. É claro que o desenvolvimento econômico supõe mudanças culturais profundas do mesmo modo que mudanças econômicas no sentido restrito e, embora tenhamos um início de teoria geral do desenvolvimento em trabalhos como os de Everett Hagen e David C. McClelland, talvez precisemos esperar outros vinte anos antes de ver como os princípios dessa teoria se realizam, em termos de sucessos e fracassos.
Podemos assinalar, para concluir, que o problema do que se poderia chamar de sistemas econômicos comparativos ainda precisa ser resolvido, não de uma maneira ideológica, mas científica. A guerra fria, mesmo ideologicamente, diminuiu seguramente de intensidade nos últimos dez anos e a ciência econômica tem sua parte creditada nisso. O estudo analítico cuidadoso das economias socialistas pelos economistas ocidentais e das economias capitalistas pelos economistas socialistas produziu, senão um acordo, pelo menos um espaço considerável para a comunicação profissional e o entendimento mútuo. Na verdade, podemos admitir que a escolha entre uma economia centralmente planificada e uma economia baseada no mercado depende muito mais de fatores não econômicos do que de fatores estritamente econômicos. Todavia, deve-se dar mais atenção ao que poderíamos chamar de análise custos-benefícios das instituições econômicas, especialmente agora que modificações substanciais tanto nas instituições capitalistas quanto nas socialistas conduziram ao ponto em que diferentes países apresentam um espectro extremamente amplo de instituições econômicas de todo tipo. Eu hesitaria em sugerir, no estádio em que nos encontramos, uma análise custos-benefícios, digamos, do sistema financeiro americano comparado ao planejamento de investimentos iugoslavo; mas creio que algumas comparações racionais poderiam ser feitas. A conclusão de semelhante estudo bem poderia ser que as diferenças entre os vários sistemas não são bastante significativos para justificar um grande esforço para transformá-los, a não ser por uma sucessão de mudanças graduais que tornassem o panorama menos favorável às revoluções. Todavia, também seria possível fazer uma análise custos-benefícios da revolução, pelo menos de modo grosseiro, que pudessem produzir mudanças muito radicais na popularidade de várias ideologias. Tudo isso, na verdade, é muito especulativo, mas sugere que há aqui um amplo campo de pesquisas para o futuro, as quais poderiam ter efeito importante na reconciliação das divisões existentes hoje no mundo.
A conclusão geral deste capítulo poderia então ser que, no que diz respeito à ciência econômica, nós olhamos o passado com modesta satisfação e o futuro com esperança. Acredito que não seja meramente o fato de eu ser economista que assegure otimismo a esta conclusão, mas, em todo caso, numa época de lamentações constantes é agradável sermos capazes de ter pelo menos uma modesta satisfação com alguma coisa. Temo que no próximo capítulo nem mesmo esse pequeno prazer nos esteja assegurado.
Escolhi deliberadamente o sistema internacional por ser a parte da sociosfera provavelmente menos atingida pelo impacto das ciências sociais e que ainda continua a operar regida em ampla proporção pelo conhecimento folk ou, na melhor das hipóteses, pelo conhecimento literário. Trata-se de uma parte do sistema social, além disso, onde as dificuldades de aplicação da metodologia das ciências sociais são enormes, mas onde, por outro lado, os resultados prometem ser compensadores e onde, portanto, podemos com base esperar a aplicação de muitas energias na próxima geração.
Para ilustrar o estado atual dos estudos internacionais, eu gostaria de repetir uma estória que me foi contada por um colega, membro de um comitê para investigar os problemas das pesquisas sobre o sistema internacional. Era um distinto cavalheiro do Departamento de Estado que dizia não acreditar que as pesquisas sobre o sistema internacional fossem de fato necessárias e acrescentava que, todas as vezes que um problema caía na sua mesa, consultava Tucídides, que geralmente tinha a resposta. Essa estória me sugeriu a ideia um tanto sem graça de que a guerra do Vietnã é a nossa guerra do Peloponeso. Mas ela ilustra, de qualquer maneira, o forte contraste entre o que poderíamos chamar de abordagem literária do sistema internacional e a abordagem da ciência social.
Talvez pudéssemos começar tentando definir o sistema internacional, ao menos em suas linhas mais gerais. Os principais elementos do sistema internacional consistem em governos soberanos, soberanos particularmente em suas relações mútuas. Esses elementos, entretanto, não esgotam o campo. Há também territórios dependentes, organizações internacionais como as Nações Unidas e suas várias agências e mesmo organizações privadas que operam por cima das fronteiras nacionais, como as empresas internacionais, as organizações não governamentais do tipo Cruz Vermelha, as associações científicas internacionais etc.
Pode-se fazer uma distinção grosseira, no caso do Estado nacional soberano, entre a parte de suas atividades voltada para o sistema internacional e a parte dirigida para os negócios domésticos. Os "negócios estrangeiros", que constituem o elemento do sistema internacional, consistem em seu departamento de Estado ou seu ministério das relações exteriores, suas forças armadas, seus serviços de espionagem, talvez, sobretudo se se trata de um Estado socialista, alguns aspectos de suas organizações de comércio internacional; em suma, de todas aquelas partes de sua organização que estão voltadas principalmente para suas relações externas.
A distinção entre negócios domésticos e negócios externos, entretanto, não é tão clara e, nos últimos anos, se tem tornado cada vez menos nítida. Muitos aspectos da organização e comportamento de um Estado nacional que são concebidos como referindo-se primordialmente aos assuntos domésticos têm, na verdade, profunda influência sobre o sistema internacional. Um bom exemplo disso é a política agrícola americana. Embora catalogada normalmente como uma atividade governamental puramente doméstica, essa política, por causa de seu efeito de gerar excedentes e da tentativa de resolver esse problema através da exportação, tornou-se um elemento importante do sistema internacional. Do mesmo modo, se um Estado tem uma ideologia revolucionária e procura propagá-la, ou então se é permeado por uma religião complacente com os empreendimentos missionários, seu caráter doméstico terá efeitos importantes na cena internacional. Muito embora a distinção entre negócios domésticos e negócios externos não possa ser inteiramente posta de lado, é necessário reconhecer que o "ator" nacional, como é muitas vezes chamado no sistema internacional, é um subsistema da sociosfera complexo e inter-relacionado com outros e que todos os aspectos de sua condição e movimento podem afetar o sistema internacional em grau maior ou menor.
Deve-se reconhecer também que a dinâmica do sistema internacional é afetada não apenas pelo comportamento consciente ou pela política dos Estados mas também, e de maneira profunda, por aqueles processos latentes, não resultantes de decisões conscientes, que fazem variar a população relativa, a renda e o poder em diferentes sociedades. Na verdade, um dos mais importantes elementos do sistema internacional é a taxa relativa de desenvolvimento econômico dos diferentes países. Como o poder no sistema internacional é em boa parte função do produto nacional bruto e como são relativas as mudanças que aí interferem, com uma nação crescendo mais do que as outras e ultrapassando as que gozavam anteriormente de uma posição de superioridade diante dela, pode haver deslocamentos na ordem internacional difíceis de serem atingidos sem sérios conflitos ou mesmo sem guerra. Por isso, devemos sempre ver o sistema internacional como um subsistema dentro da sociosfera que mantém fortes interações com a economosfera, com o desenvolvimento da ciência e da tecnologia, com os movimentos ideológicos etc., vistos ordinariamente como externos ao sistema internacional.
Todo sistema social é organizado segundo três tipos de atividade: ameaças, troca e atividade integrativa. O sistema internacional não constitui exceção. Todavia, ao contrário do sistema econômico, dominado pela troca, o sistema internacional é dominado pelas ameaças, pelo menos em termos de recursos empregados. A indústria bélica, que é aquele setor da atividade dedicado às forças armadas e ao seu suprimento e que pode ser definido como aquela parcela do produto total da sociedade que é paga pelo orçamento militar, representa, sem sombra de dúvida, a maior parcela do sistema internacional em termos de dólares. A indústria armamentista mundial equivale a cerca de 120 bilhões de dólares anuais, tal- vez mesmo 150 bilhões. Ela se destina primordialmente a preservar a credibilidade das ameaças e contra-ameaças, geralmente tácitas ou implícitas, embora algumas vezes específicas, e representa uma atividade talvez dez ou vinte vezes maior que a atividade dedicada à diplomacia ou a outros aspectos do sistema internacional.
A troca, entretanto, não é um elemento sem importância no sistema internacional e não inclui apenas a negociação de coisas como acordos comerciais, que incidem diretamente sobre o sistema econômico, mas também a negociação de tratados, alianças, reconhecimentos etc., que envolvem a barganha diplomática. Parece-me razoável sugerir que, enquanto as forças armadas representam a encarnação do sistema de ameaças, a diplomacia das relações internacionais envolve principalmente a troca.
Sustentando tanto o sistema de ameaças quanto o sistema de trocas, está o sistema integrativo. Consiste na atividade dirigida para o estabelecimento e manutenção de coisas tais como protocolo, cerimonial, casamentos dinásticos (pelo menos antigamente), intercâmbio cultural e propaganda, além de atividades dirigidas para o estabelecimento de legitimidade, status, respeito, afeição e outras relações do sistema integrativo.
Uma boa parte da atividade integrativa de um Estado nacional é também dirigida para seu próprio povo, que deve ser ensinado a aceitar o sistema de ameaças como legítimo e a amar seu país e se dispor a sacrificar-se por ele, a demonstrar atitudes de lealdade etc. O sistema de educação pública é, muitas vezes, elemento muito importante nessa atividade integrativa voltada para os cidadãos do próprio país. Mesmo a religião, na medida em que seja uma religião nacional e um símbolo da unidade da nação, desempenha um papel importante no desenvolvimento de atitudes de amor e lealdade para com a nação. A família também é um transmissor importante de relações integrativas. As crianças são ensinadas dentro da família a identificar-se com os pais e isso vai significar, naturalmente, identificar-se com tudo aquilo com que os pais identificados.
Nada talvez ilustre mais claramente a diferença entre a abordagem literária ao conhecimento dos sistemas sociais e a abordagem da ciência social do que a atitude com respeito ao sistema integrativo. Em geral, a abordagem literária aceita as coisas como certas e uma questão como "por que as pessoas amam seu país?" nunca ocorre a um não-cientista. A ciência, todavia, porque seu ponto de vista procura afinal de contas transcender as peculiaridades culturais do cientista, tem o direito de levantar questões desse tipo e, de fato, são essas questões que considera as mais interessantes.
O custo do atual sistema internacional é muito alto. A indústria armamentista mundial custa, como vimos, algo entre 120 a 150 bilhões de dólares. Se a isso acrescentarmos o custo da diplomacia, teremos provavelmente mais uns 5 ou 10 bilhões. Se levarmos ainda em consideração uma estimativa dos custos prováveis da destruição provocada por guerras futuras, poderemos facilmente acrescentar mais uns 100 ou 200 bilhões. A indústria mundial de armamentos, por si só, corresponde aproximadamente à renda total da metade mais pobre da população mundial, embora não represente mais que 10% do produto mundial bruto. Em termos comparativos, os recursos que são jogados no sistema integrativo mundial são quase insignificantes. O orçamento total de todas as instituições internacionais, por exemplo, incluindo as Nações Unidas, os fundos especiais, a UNESCO, a Organização Internacional do Trabalho e todas as outras agências internacionais, chega apenas a uma terça parte de bilhão de dólares, ou seja, cerca de 0,3% da indústria mundial de armamentos. Mesmo a quantia gasta em intercâmbio cultural, educação mundial etc. é, do mesmo modo, relativamente insignificante. Não seria, pois, fora de propósito afirmar que o sistema de ameaça domina inteiramente o sistema internacional no momento. Como o sistema de ameaça é capaz de ser um jogo soma-zero, sua produtividade global é muito baixa e não é, pois, surpreendente que tenha havido, através da história, sérias tentativas para contê-lo e modificá-lo.
Ao considerar a dinâmica global do sistema internacional, deve-se fazer uma distinção importante, como já tivemos ocasião de assinalar, entre os processos latentes, que não são resultado de quaisquer decisões conscientes, e os processos manifestos, como os denominava Robert Merton, que são o resultado de decisões conscientes. Os processos latentes incluem não apenas os grandes processos econômicos de desenvolvimento ou declínio mas também certos processos políticos tais como o desenvolvimento de facções e divisões internas, a ascensão ou declínio do poder interno de monarcas, de forças militares, de uma elite capitalista, de uma elite comunista, de uma igreja, de um movimento reformista ou de uma revolução, boa parte dos quais tem lugar independentemente da vontade de qualquer decision-maker. Mesmo a guerra, como mostra Tolstói brilhantemente em Guerra e Paz, torna-se um grande processo impessoal que foge inteiramente ao controle de chefes de Estado, generais ou decision-makers particulares. Esses processos latentes também incluem elementos que deveriam ser vistos como aleatórios, isto é, elementos do sistema que não poderiam ser previstos a partir de informações anteriores. Acontecimentos como o assassínio do Presidente Kennedy e o nascimento e crescimento de um líder político carismático, como Hitler ou Nkrumah, devem ser vistos como aleatórios do ponto de vista do próprio sistema. Essa mistura de processos latentes ordenados ou determinísticos com fortes elementos aleatórios é que torna tão difícil o problema epistemológico dos sistemas sociais em geral e do sistema internacional em particular. Tendemos, constantemente, a interpretar os fenômenos aleatórios como se estivessem submetidos a padrões determinantes, mas isso nada mais é que superstição. Por outro lado, também não conseguimos detectar quais os verdadeiros padrões dos elementos não aleatórios do sistema.
Os aspectos manifestos do sistema internacional compõem-se das decisões tomadas conscientemente pelos principais decision-makers do sistema. Esses decision-makers podem ser, em alguns casos, chefes de Estado, primeiros-ministros, ditadores, gabinetes, secretários de Estado, embora, muitas vezes, algumas decisões importantes sejam tomadas em escalões mais baixos da hierarquia, as quais os decision-makers do topo da hierarquia são obrigados a aceitar, querendo ou não. Os decision-makers hierarquicamente superiores podem facilmente ser apanhados na armadilha de seus próprios sistemas de compromissos e informações. É possível que eles tenham muito menos liberdade de ação do que possa parecer à primeira vista. Tomemos, por exemplo, decisões como aumentar ou diminuir o nível de armamentos, fazer ameaças específicas, reconhecer ou não um país, mobilizar tropas, tomar medidas conciliatórias, declarar guerra ou promover a paz. Todas essas decisões são tomadas à luz de algum tipo de visão de mundo e particularmente de algum tipo de imagem do sistema internacional. O decision-maker tem uma imagem de sua própria nação e de suas responsabilidades para com ela e também uma imagem das outras nações com as quais tem relações. Essas imagens não são obrigatoriamente coerentes e muitas das dificuldades do sistema internacional advêm disso.
Podemos dizer sem medo de errar que até agora as imagens do sistema internacional sobre as quais se têm baseado os decision-makers em suas decisões derivam principalmente de uma mistura de processos de conhecimento folk e literário. Raramente utilizam uma amostragem cuidadosa ou questionam os modelos teóricos através da realimentação e do teste constantes, como é próprio do processo científico. Na verdade, o sistema internacional caracteriza-se por um sistema de informação que é quase planejado para produzir imagens falsas, pelo menos a curto prazo. Assim, não é surpreendente que seja tão custoso ou que as decisões aí tomadas sejam muitas vezes tão desastrosas. Seu sistema de informação consiste basicamente em organizações burocráticas — departamentos de Estado, ministérios de relações exteriores, departamentos de negócios estrangeiros, pouco importando o nome que tenham —, que tendem a ser operadas por uma elite cavalheiresca, aristocrática e literária, cujos membros são estranhos e mesmo hostis aos processos científicos, pertencendo quase exclusivamente àquela entre as "duas culturas" de C. P. Snow que é menos favorável ao entendimento do método científico.
A informação processada por essa burocracia é coletada em primeira instância por diplomatas, espiões e, tratando-se de informação pública, pela imprensa. Tanto os diplomatas quanto os espiões são notoriamente insuficientes por causa da natureza da amostra de informações que suas respectivas subculturas produzem. Os diplomatas vivem em um mundo próprio, composto sobretudo de outros diplomatas, e permanecem muito isolados da vida comum do país junto ao qual estão acreditados. Muito embora tenham equipes especializadas na coleta de informações, é muito raro serem as embaixadas assessoradas por cientistas sociais.
A subcultura das organizações de espionagem, por causa de seu conteúdo emotivo extraordinariamente intenso, está sujeita a produzir informações ainda menos fidedignas. Todo o sistema de informação, coleta e processamento do sistema internacional, para falar com franqueza, está sujeito a ser pervertido pelas influências emotivas que o caracterizam. O Estado nacional, nos dias que correm, é, de qualquer maneira, uma organização quase religiosa, atraindo lealdades ou deslealdades muito fortes e, por isso, seu sistema de informação como um todo tem por base um filtro que tende a afastar o que é desagradável ou está em desacordo com as imagens existentes.
Um grande problema de qualquer hierarquia é que o sucesso individual dentro dela depende da capacidade que tem a pessoa de agradar a seus superiores. Ora, frequentemente, uma pessoa resolve agradar a seus superiores passando-lhes a informação que, no seu modo de ver, irá agradar-lhes. Quando uma informação atravessa um grande número de escalões de uma hierarquia, está sujeita a ser bastante destorcida pelo tempo que leva até chegar ao alto da hierarquia. Por isso, os decision-makers dos escalões superiores estão sujeitos a ficar isolados do mundo real e a receber apenas aquelas informações que confirmam suas imagens preestabelecidas.
Não admira, sob tais circunstâncias, que o sistema internacional opere tão mal, isto é, seja tão custoso, e forneça tão pouca segurança, o que seria seu principal benefício. São precisamente os defeitos em seu sistema de informação que tornam tão alta a probabilidade de guerra e que fazem tão grande o custo da guerra. A guerra pode, na verdade, ser vista como o teste de realidade do sistema de ameaça, mas é um processo de teste de realidade que nos lembra o do homem que se jogou do Empire State Building para testar a lei da gravidade. Um dos grandes problemas do sistema internacional é como desenvolver um processo de aprendizagem que não necessite que tenhamos de cair no abismo para saber onde ele se encontra.
É um argumento meu que os processos científico-sociais de coleta e processamento de informações e de modificação das imagens do sistema podem ser aplicados ao sistema internacional num grau muito mais elevado do que têm sido até agora. É preciso admitir, todavia, que o sistema internacional apresenta problemas peculiares que o tornam um objeto de estudo científico mais difícil do que, digamos, o sistema econômico. O relativo sucesso do método da ciência social na economia e sua relativa falta de sucesso no sistema internacional não é tanto um reflexo do conjunto de habilidades dos respectivos profissionais embora isso possa ter alguma coisa a ver com aquilo — mas é um reflexo da dificuldade intrínseca do próprio sistema internacional.
O economista estuda a interação de um número muito grande de decisões. O elemento aleatório é, desse modo, diminuído e o papel pessoal do decision-maker não é tão importante. Isso é particularmente verdadeiro para a macroeconomia, mas também vale para o nível da análise de oferta e procura. A ciência econômica tem também a grande vantagem de possuir o que A. C. Pigou chamou de "o poder de mensuração do dinheiro".
No sistema internacional, ao contrário, os decision-makers-chaves são poucos e suas interações são correspondentemente complexas. O sistema internacional lembra um duopólio ou um oligopólio em economia, onde temos a interação de uns poucos vendedores. Nesse caso, as personalidades dos decision-makers podem ser importantes. Não podemos supor que as diferenças individuais desapareçam na massa e, muito embora nas organizações o comportamento do ocupante de um papel, como de presidente ou primeiro-ministro, seja determinado em grande medida pelo papel que ocupa e pelo sistema de informações que o cerca, diferentes decision-makers desempenhando o mesmo papel tomarão diferentes decisões, sem que possamos supor que a estrutura da organização determine as decisões que são tomadas dentro dela. Em tais circunstâncias, há elementos verdadeiramente aleatórios no sistema que não são suscetíveis de análise científica, embora a análise científica possa ser útil para proteger-nos de tirar falsas conclusões e de inferir falsas sistematizações a partir de acontecimentos que são essencialmente aleatórios.
Além disso, no sistema internacional, os valores, mesmo os valores peculiares, são de grande importância na determinação da natureza das decisões. Não podemos pressupor, por exemplo, conforme costumamos fazer como uma primeira aproximação em economia, um único sistema de valor como a maximização do lucro. Foram feitas tentativas de encontrar um substituto para o lucro na noção de interesse nacional, mas o interesse nacional é uma variável altamente subjetiva e fugidia que depende em muito daquilo em que os governantes de um país estejam interessados. O interesse nacional da Espanha pode ser a promoção do catolicismo e o da Rússia a promoção do comunismo, ou pode ainda ser, no caso de Estados menores, a promoção da conta bancária do governante em um banco suíço. Algumas nações estão interessadas em expandir seu poder e seu território, outras não. Ora, diante dessa grande variedade de interesses, o conceito de interesse nacional parece desintegrar-se.
Portanto, em qualquer teoria adequada do sistema internacional, o processo de aprendizagem dos valores deve ser incluído. Não podemos tomar os valores como naturais, como costumamos fazer em economia quando supomos que as pessoas preferem enriquecer a empobrecer. Há muitas exceções a isso, mesmo em economia, mas no sistema internacional as exceções são tantas que é difícil encontrar uma regra qualquer. Além do mais, esses sistemas de valor internacionais são associados a fortes sentimentos afetivos que, por sua vez, como notamos anteriormente, tendem a perverter o sistema de informação e, em consequência, a imagem do mundo é, ela própria, um produto do sistema de valor. Se existe uma norma nas tomadas de decisão internacionais, é a crença naquilo em que se deseja crer.
Outra dificuldade que surge é que uma das características mais importantes do sistema internacional é o segredo e o segredo é o maior inimigo de qualquer ciência. O sistema internacional tem uma mística própria, refletida, em sua forma mais absurda, talvez, no modelo James Bond, em que o segredo, o drama, o sadismo e a hostilidade são itens essenciais. Nessas circunstâncias, o que chamei em outra parte de ética 'heroica" tende a predominar sobre a ética econômica e as decisões são tomadas, não a partir da ponderação cuidadosa de ganhos e perdas, mas à base de atitudes heroicas, desejo de morte e toda a panóplia da paranoia política. Na verdade, na ética heroica, um valor positivo é atribuído à falta de escolha — aqui estou e não tenho alternativa — a eles não tenho de perguntar por que, a eles só me resta matar e morrer. Daí ser frequente uma redução quase consciente de alternativas a uma só que é nitidamente ruim mas que também é única.
A despeito de todas essas dificuldades, ainda sustento que a revolução científico-social no sistema internacional não só é possível como realmente já começou. Como vimos anteriormente, o avanço do conhecimento científico em qualquer sistema tende a depender de dois desenvolvimentos paralelos. Um deles é o desenvolvimento de novas compreensões teóricas que sejam capazes de identificar as variáveis essenciais do sistema e relacioná-las de modo coerente num modelo teórico apto a sofrer modificações contínuas, quando sujeito a procedimentos de previsão e teste, e experiências constantes. O trabalho de um bom número de teóricos do sistema internacional nos últimos dez anos contribuiu para que nos aproximássemos disso, embora, na ausência de um sistema adequado de informação, seja difícil termos certeza de ser uma teoria verdadeiramente testável.
O pioneiro desse movimento teórico foi Lewis Richardson, cujas teorias sobre corridas armamentistas, disposições guerreiras e estatísticas de lutas mortais constituem um corpo de trabalho pioneiro notável. Como todo trabalho pioneiro realizado na ausência de colegas ou de uma comunidade intelectual de estudiosos que trabalham no mesmo campo, o trabalho de Richardson é desigual. Conclusões brilhantes podem ser seguidas de puras falácias. Contudo, trata-se de um trabalho de grande importância e a geração atual de teóricos do sistema internacional olha retrospectivamente para ele e para Quincy Wright, outro respeitável pioneiro durante muito tempo associado à Universidade de Chicago, como os fundadores do campo. A teoria dos jogos tem fornecido certa quantidade de artifícios matemáticos que se têm mostrado úteis, embora sua utilidade seja muitas vezes limitada, e no trabalho de homens como Thomas Schelling, Karl Deutsch, David Singer, Charles Mc-Clelland, Robert North, Morton Kaplan e outros, entre os quais eu me poderia incluir, parece que estamos realmente pelo menos próximos de uma teoria geral do sistema internacional que poderia ser objeto de estudo e modificação em direção à realidade através de um processo de observação e teste cuidadosos. Poderíamos chamar essa "teoria" de "teoria dos sistemas internacionais" para diferenciá-la das teorias literárias e especulativas que têm caracterizado o pensamento político desde Aristóteles, que são muitas vezes valiosas e provêm, de fato, compreensões profundas, mas que não constituem um modelo orgânico, continuamente em crescimento e desenvolvimento, como ocorre com as imagens genuinamente científicas.
Podemos dizer que a teoria dos sistemas internacionais tem as seguintes características:
1) Ela é coperniciana, no sentido de que o sistema é olhado como um todo e não da perspectiva de uma nação particular. Isso é o que poderíamos chamar de uma abordagem de sistema mais do que de uma abordagem de política externa. Ela não toma o meio ambiente de qualquer nação como um fator dado, mas vê todas as nações como constituindo o meio ambiente das demais. Isso representa para o sistema internacional o que, digamos, Laplace representou para a astronomia ou Walras para a economia. Ela não pode ser expressa em qualquer sistema simples de equações e provavelmente não deveria sê-lo, embora o modelo geral da indústria de guerra, no qual o orçamento militar de cada nação aparece como uma função do orçamento militar de todas as outras, seja de enorme interesse e ilumine boa parte das realidades do sistema. Temos de reconhecer que um modelo explícito como esse é altamente abstrato. Entretanto, o princípio geral de que o comportamento de cada um depende do comportamento de todos permanece concreto.
2) Trata-se de uma teoria paramétrica, no sentido de que implica a interação mútua de um grande número de variáveis, indo além das noções de causa e efeito enquanto tais, tão populares entre os historiadores. Os modelos paramétricos mais simples são os de equilíbrio estático ou estacionário, que talvez não sejam muito realísticos para o sistema internacional. Contudo, os modelos de equilíbrio não podem ser desprezados, pois há no sistema períodos que poderíamos designar como de quase estabilidade. Além disso, a noção de um sistema dinâmico como uma sucessão de estados de equilíbrio é sempre útil.
3) É uma teoria dinâmica na medida em que reconhece o processo dinâmico de interação, nas corridas armamentistas, por exemplo, a significação crucial dos processos de aprendizagem e os longos e latentes processos de crescimento populacional, crescimento econômico, maturação política etc. Uma teoria do sistema internacional não se pode satisfazer com modelos de equilíbrio, pois as mudanças dinâmicas são da essência do sistema internacional. Os modelos de equilíbrio podem ser tomados apenas como pontos de partida para uma teoria dinâmica genuína.
4) É uma teoria institucional porquanto reconhece a importância das instituições, das estruturas organizacionais, dos canais de comunicação, das constituições e sistemas legais, dos vários procedimentos pelos quais os papéis são preenchidos etc. Como já vimos, não podemos depender, no que diz respeito ao sistema internacional, de qualquer princípio comportamental simples, como o comportamento maximizador, que é útil em economia. O comportamento internacional deve ser estudado em um contexto de observação cuidadosa da realidade. Temos de considerar os elementos aparentemente irracionais. Os elementos simbólicos do sistema devem ser enfatizados. Há, por exemplo, certos acontecimentos salientes que têm um impacto sobre as imagens do sistema internacional que vai muito além da sua importância aparentemente intrínseca e, por conseguinte, deve haver lugar no sistema para uma grande variedade de princípios comportamentais. Uma vez que o comportamento é condicionado pela estrutura organizacional, pelos hábitos culturais e pelas formas constitucionais, esses ele- mentos devem ser considerados explicitamente.
5) Trata-se de uma teoria transacional, no sentido de que acentua não apenas as características dos atores mas também das relações e transações que se estabelecem entre eles. Isso chega, muitas vezes, ao ponto em que os próprios atores parecem desaparecer ou ser fragmentados em uma sucessão de transações relacionadas, o que talvez represente um exagero. Contudo, uma teoria desse tipo deve acentuar o fato de que a significação principal do estado descritivo de um ator está no impacto desse estado sobre as transações em que o ator se pode engajar e que essas transações, por sua vez, criam os estados do futuro.
6) A teoria dos sistemas internacionais é uma teoria agregativa, no sentido de que procura métodos para reduzir e catalogar um grande número de informações em simples índices quantitativos que indiquem as características essenciais do sistema. Para isso, tenta elaborar um aparato de processamento de informações capaz de separar os elementos meramente acidentais e aleatórios dos padrões regulares e permanentes do sistema, sem que tal esforço signifique negar a significação dos acontecimentos aleatórios que, num sistema desse tipo, como já vimos, são de grande importância. Ela procura, antes de mais nada, uma imagem do mundo que possa reconhecer os acontecimentos aleatórios sem ser indevidamente influenciada por eles, que possa ensinar-nos a tomá-los pelo que são. Aqui os modelos estocásticos ou probabilísticos podem ser extremamente úteis para descrever as características sistemáticas essenciais aos processos. A teoria tem de afastar-se das narrativas e sucessões — A fez x, então B fez y — e perceber os padrões mais amplos e estáveis do sistema. Os problemas epistemológicos que aqui se colocam são difíceis, mas, esperamos, não insuperáveis.
Tomaria muito espaço esboçar o conteúdo real da teoria cujas propriedades foram sugeridas acima e não tentaremos fazer isso aqui. O que deve ser salientado, todavia, é que a teoria permanecerá completamente impotente e incapacitada para modificações quando for testada se o aparato de coleta e processamento de informações do sistema internacional não for grandemente aperfeiçoado. Apesar das dificuldades que já foram mencionadas, parece sem dúvida possível conseguir um maior aperfeiçoamento da exatidão e do alcance das informações coletadas no sistema internacional. A chave para esse processo é coletar in- formações adequadas a nossas finalidades. Sabemos, por exemplo, que na ciência econômica, enquanto o sistema de informação sobre a economia consistiu em informações coletadas como um subproduto de outras atividades, da coleta de impostos, por exemplo, não tivemos uma visão clara do sistema como um todo. Foi somente depois que começamos a colher diretamente informações visando às nossas finalidades, através de censos e levantamentos por amostragem, que começamos a ter uma imagem da economia como um todo razoavelmente representativa e sem maiores distorções. De modo similar, coleta e o processamento de informações do sistema internacional são ainda hoje grandemente orientadas por outros propósitos, que sejam a justificação das atitudes nacionais do momento ou a operação dos sistemas de ameaça nacionais, ou mesmo os interesses dos leitores de jornais. Entretanto, já parece possível montar um sistema de coleta e processamento de informações que possa ser científico no sentido de que as informações sejam coletadas para nossas próprias finalidades, e não para outros propósitos, e que possam ser coletadas por processos de amostragem cuidadosos e procedimentos estatísticos rituais que permitam a comparabilidade de conceitos e a agregação das informações coletadas. O que precisamos de fato é de uma rede mundial de estações de dados sociais, algo como as estações de meteorologia, talvez uma para cada cinco milhões de pessoas. Poderiam ser associadas às universidades, onde poderiam desempenhar a função de laboratório de treinamento e pesquisa, tal como as estações meteorológicas. Do mesmo modo que não podemos esperar conhecer muito sobre a atmosfera se não dispusermos de uma rede mundial de estações meteorológicas, não podemos esperar conhecer muito sobre a sociosfera a menos que tenhamos uma rede mundial de estações de dados sociais. Com essa rede e um centro para o processamento das informações centralizadas, não apenas poderíamos obter dados econômicos e demográficos exatos, mas também índices de hostilidade, percepções de ameaça, mudanças nos sistemas de valor etc., que são, hoje em dia, praticamente inacessíveis. A espionagem com satélites é um sucedâneo muito pobre para o conhecimento do que as pessoas realmente dizem, pois são as comunicações entre as pessoas que constituem a maior parte do sistema social.
Haveria, certamente, problemas políticos na coleta e publicação de dados dessa espécie. Um sistema de estações de dados sociais poderia representar uma ameaça ao segredo e à mística, que seríamos tentados a chamar de mística masculina, do sistema internacional. Desde que o poder político permaneça baseado sobre o segredo e a ignorância, não há dúvida de que o desenvolvimento de um aparato científico-social para o aumento do conhecimento será visto como uma ameaça. A única coisa que podemos esperar é que os resultados de um tal sistema no aperfeiçoamento das tomadas de decisão internacionais e a diminuição do custo do sistema internacional venham a ser tão grandes e tão óbvios que possam gradual- mente superar as resistências políticas. Uma boa carga de hostilidade contra as ciências sociais terá, todavia, de ser superada, uma vez que a cultura do sistema internacional é, de maneira geral, hostil à ciência que ela vê, talvez acertadamente, como uma ameaça a seus valores tradicionais.
Evidentemente, não estou sugerindo que uma ciência do sistema internacional desse tipo possa resolver todos os problemas do sistema internacional ou mesmo garantir uma paz durável. Uma paz estável se tem desenvolvido em certas partes do sistema internacional, como a América do Norte e a Escandinávia, dentro mesmo do atual sistema internacional de informação, através de um processo que poderia ser descrito, em termos aproximativos, como um aprendizado folk acidental. De mais a mais, em certas circunstâncias, o aumento do conhecimento do sistema poderia facilmente aumentar as tensões e é muito provável que isso ocorra no início, já que as estruturas de poder tradicionais são ameaçadas pelo novo conhecimento. Jamais poderíamos reivindicar ser o conhecimento científico um substituto para o conhecimento folk e para o conhecimento literário, porque ele não o é. Considerando a enorme complexidade do sistema social, sempre haverá provavelmente lugar para o conhecimento folk do político e para o conhecimento literário do burocrata. Há boas razões, todavia, para supormos que o desenvolvimento de uma ciência do sistema internacional viria diminuir enormemente os custos do sistema internacional e aumentar seus benefícios. É perfeitamente concebível um sistema internacional no qual os custos da segurança sejam menores que os da política interna, ainda que sejam conservados os Estados nacionais e as virtudes que os acompanham ao custo de uma pequena quantidade de organizações internacionais. Se isso fosse claramente percebido, muitas das resistências a uma organização mais racional e menos custosa do sistema internacional poderiam ser superadas. Essa também é, a meu ver, uma das maiores tarefas da próxima geração.
Nos dois capítulos anteriores utilizei a vida econômica para ilustrar uma área onde as ciências sociais têm tido um considerável impacto e algum sucesso e o sistema internacional como a área onde, talvez, tenham tido o menor impacto e o menor sucesso. Neste capítulo pretendo examinar uma área em que o impacto das ciências sociais é altamente ambíguo, em que há pouca dúvida de que esteja havendo algum impacto mas onde não é, de modo algum, fácil avaliar a natureza desse impacto ou qual o futuro que o espera. A área que particularmente me proponho a examinar é aquela que poderíamos chamar de área dos aspectos sagrados da vida, que são caracterizados por fortes sentimentos emotivos, grande confiança na autoridade e por experiências que, em certo sentido, fogem ao comum e nos quais há um grande apelo a sanções e autoridades que estão além do curso ordinário da experiência humana. Três áreas da vida social visivelmente afetadas pelos interesses sagrados são o direito, a religião e a ética. A estética e a política, o casamento, a família, o sexo, a morte, a arte, a arquitetura e muitos outros aspectos da vida humana são igualmente envolvidos pelo sagrado. As limitações de espaço, todavia, impedem-me de dedicar-lhes mais que uma curta menção.
Podemos começar com observações um tanto rápidas sobre o possível impacto das ciências sociais sobre as instituições do direito e sobre o sistema legal. Pode parecer um pouco estranho colocar o direito no domínio do sagrado e, sem dúvida, muitos aspectos dele dizem respeito a procedimentos muito monótonos — a preparação de testamentos, a redação de documentos, a transferência de propriedade etc. Apesar disso, a majestade do direito e ele tem uma majestade — é essencialmente sagrada. A arquitetura dos tribunais, a toga do juiz, o ritual das sessões dos tribunais, mesmo o uso de símbolos religiosos para o juramento, por exemplo, apontam todos para certos aspectos da instituição do direito que têm pelo menos certo sabor de sagrado. O tribunal parece mais com uma igreja do que com uma oficina ou com uma loja e os seus procedimentos são planejados para dar aos seus profissionais, a seus clientes e a suas vítimas certa sensação de autoridade e retitude super-humanas. A solenidade é uma das marcas do sagrado e ela seguramente caracteriza as instituições e a prática do direito.
A ciência, ao contrário, não é muito sagrada, embora tenha, como quase todas as coisas, os seus momentos e os seus aspectos sagrados. A bata branca do cientista visa a evitar que ele manche suas roupas e não a impressionar quem quer que seja com sua majestade, muito embora nas mãos de um propagandista de remédios seja eventualmente usada para esse fim. A autoridade da ciência é a autoridade da previsão realizada, não a autoridade das autoridades ou a autoridade do passado. A atmosfera de um laboratório ou de uma sala de computador está mais próxima da atmosfera de uma fábrica ou de uma sala de caldeiras do que daquela de um tribunal ou de uma igreja. Uma questão que é sempre levantada é se a ciência não é, em certa medida, um agente corrosivo dos valores e instituições sagrados e se não tende a substituí-los. Podemos mesmo indagar se, a longo prazo, as ciências sociais não irão substituir o direito. Minha resposta para tal pergunta, e trata-se apenas de uma resposta pessoal, é que as ciências em geral e as ciências sociais em particular são tanto sucedâneos quanto complementos dos aspectos sagrados da vida e que, se em alguns pontos competem com eles, em outros os reforçam, de forma que o efeito final é ambíguo e muito difícil de ser determinado.
Em certos pontos há uma forte competição latente entre os métodos e os resultados das ciências sociais e os métodos e os resultados do direito. Isso se reflete particularmente nas atitudes das duas subculturas face ao problema da informação e do conhecimento. No direito, supomos geralmente que, se queremos saber alguma coisa, o que temos de fazer é descobrir quem o saiba e perguntar-lhe, sob pena de perjúrio. Esse é o princípio do testemunho. O ritual do tribunal centra boa parte de seus procedimentos em descobrir se o que disse a testemunha é verdade. Quando há conflito entre os testemunhos, o procedimento previsto é que o conflito seja resolvido por uma decisão hierárquica. O sistema de júri baseia-se na suposição de que, se doze homens de bem e de confiança estão de acordo a respeito de alguma coisa, ela deve ser verdadeira. A divisão de trabalho entre o júri e o juiz, pela qual o júri decide a respeito da culpabilidade ou inocência da parte e o juiz pronuncia a sentença, é uma sobrevivência da proposição de que, enquanto os fatos são humanos, os valores são divinos.
A atmosfera das ciências sociais é bem outra. A suposição aqui é que, se somos ignorantes, isso não ocorre porque a pessoa que sabe o que precisa ser conhecido ainda esteja por ser encontrada e colocada no rol das testemunhas, mas sim porque ninguém sabe o que precisa ser conhecido. Se ninguém conhece o que precisa ser conhecido, obviamente ninguém precisa ser encontrado e posto no banco das testemunhas para ser interrogado. Essa é a diferença fundamental entre o princípio do julgamento legal e o princípio da pesquisa. É na ideia da testemunha especialista (perito) que o direito mais se aproxima do conceito de pesquisa. Mesmo nesse caso, contudo, é a autoridade do perito que lhe confere mais credibilidade do que sua capacidade de fazer previsões corretas, pois a capacidade do direito de produzir peritos que se contradizem de ambos os lados de uma questão é notória.
De qualquer maneira, o conflito entre o direito e as ciências sociais tem permanecido até agora muito latente. Os criminologistas têm criticado determinados aspectos dos processos legais e têm conseguido sucesso na obtenção de certas reformas. Alguma coisa do declínio da ferocidade da lei e da natureza de suas punições foi, certamente, devida às dúvidas que as ciências sociais desenvolveram com respeito ao efeito dissuasivo da punição e à sua grande inferioridade diante da recompensa como incentivo à aprendizagem. Há uma forte corrente de opinião oculta de protesto contra a pretensão do direito de lidar com assuntos tais como a toxicomania e os desvios sexuais. Os economistas têm propensão para zombar da pobreza de espírito das leis antitrustes e eles certamente criaram bastante confusão na cabeça dos advogados para que as operações antitrustes evoquem a imagem de um homem que montou num grande cavalo branco e cavalgou em todas as direções. Entretanto, os conflitos são marginais e, de qualquer maneira, as ciências sociais não representam no momento um desafio sério à maquinaria jurídica, nem são capazes de substituí-la. Nas escolas de direito mais esclarecidas, há, na verdade, grande interesse pela utilização dos métodos e das descobertas das ciências sociais para avaliar os efeitos do direito e melhorar-lhe os procedimentos. Por isso, alguém com uma perspectiva otimista pode encarar os dois ramos do conhecimento como fundamentalmente complementares, antes do que conflitantes.
É possível que a ausência de conflito, todavia, seja simplesmente um resultado da fraqueza e das dimensões reduzidas das ciências sociais em contraste com o status, recompensa e prestígio elevados do direito. Nos Estados Unidos, em qualquer circunstância, um juiz da Suprema Corte tem, aos olhos do homem médio, um status muitíssimo mais alto que o de um sociólogo, e um cientista social está muito mais sujeito a olhar como um servo para o tribunal do que a vê-lo como uma ameaça. É possível também que o conflito potencial entre o direito e as ciências sociais venha a ser mitigado e mediatizado pelo desenvolvimento daquilo que poderíamos chamar de instituições paralegais, como a arbitragem, a mediação e a conciliação, o aconselhamento matrimonial, o serviço social etc. O status da profissão de assistente social é de interesse peculiar a esse respeito. Essa profissão tende a afastar-se das ciências sociais que a geraram e o relacionamento atual entre, por exemplo, o serviço social e a sociologia é nitidamente frio. É possível, portanto, que o desenvolvimento de profissões intermediárias entre o direito e as ciências sociais não seja uma solução inteira- mente satisfatória, mas, apesar disso, é uma solução que provavelmente será muito comum no futuro. No outro extremo da escala, há um certo sentimento, entre os advogados mais conservadores e legalistas, de que a Suprema Corte dos Estados Unidos, por exemplo, é muito influenciada em seus julgamentos por considerações extralegais, científico-sociais ou outras, e bem poderíamos visualizar uma rebelião conservadora com a finalidade de levar o direito de volta à legalidade. No momento atual, entretanto, as relações entre o direito e as ciências sociais são muito ambíguas e é muito difícil prever que caminho as coisas tomarão no futuro. Não é de modo algum impossível que os tipos de acomodação que prevaleceram até agora permaneçam e que sejam evitados conflitos mais sérios. Por outro lado, também não me parece fora dos limites do possível que, nas duas próximas gerações, as ciências sociais adquirindo mais força, a acomodação não se dando e a insatisfação com os aspectos "sagrados" do direito crescendo, um grande conflito possa seguir-se, mesmo que não venha a expressar-se em termos tão nítidos quanto ciências sociais versus direito. Ele poderia tomar a forma, por exemplo, de uma oposição entre advogados com uma mentalidade aberta para as ciências sociais e advogados mais conservadores e convencionais.
A religião é um aspecto do sistema social que poderia ser descrito como especializado no sagrado. A exemplo do direito, está corporificada numa panóplia impressionante de instituições, como as igrejas e sociedades religiosas. Ela representa uma considerável fatia do total da atividade e interação humanas. Embora o impulso e a experiência religiosos sejam algo que pode ser praticado em caráter privado, seu maior impacto se dá sob a forma de organizações eclesiásticas. As instituições religiosas desempenham muitas funções na sociedade, além daquelas que poderiam ser concebidas como suas funções especiais de culto e educação religiosa. Elas são muito importantes para o sistema ético, na medida em que estabelecem e propagam certas normas de comportamento e invocam frequentemente certas sanções sagradas contra os afastamentos dessas normas, sanções que podem incluir desde o terror do inferno até um vago sentimento de mal-estar por ter desagradado à divindade. A instituição religiosa tem uma função social muito importante no estabelecimento da identidade pessoal tanto dentro dos quadros da pequena comunidade que é a congregação, quanto dentro da cultura comum do grupo mais inclusivo. A igreja é um suplemento importante da família na educação das crianças, no estabelecimento de normas sociais, na criação de ideais e heróis e na criação de uma comunidade dentro da qual o indivíduo pode sentir-se em casa. A igreja desempenha um papel importante na propagação da cultura literária de uma sociedade. Assim, a Bíblia ou o Corão, os analectos e os outros, em suas culturas respectivas, representam um rico reservatório de alusões comuns e de comunicação emotiva e afetiva. A igreja organiza a caridade e a expressão da preocupação da comunidade tanto para seus próprios membros quanto para a comunidade em que vivem. A igreja exerce uma função recuperadora, que provê terapia para as aflições mentais e espirituais e distúrbios correlatos, e é responsável por boa parte do aconselhamento informal. Ela age como uma grande agência de legitimação, não apenas em matérias óbvias como casamentos e funerais, quando é usada mesmo por pessoas que não compartilham suas crenças, mas também na própria reforma social, onde é usada para legitimar o que, de outra maneira, seria visto como um empreendimento perigoso e ilegítimo.
As relações das ciências sociais com a igreja são ainda mais ambíguas do que as relações daquela com o direito. Uma boa dose de conflito é previsível. A atmosfera das ciências sociais é muito diferente da atmosfera da igreja. Muitos cientistas sociais egressos das escolas dominicais são pessoalmente bastante hostis ou pelo menos ambivalentes face à religião organizada. Encontramos esse tipo de coisa, talvez, entre os judeus, que têm contribuído para as ciências sociais num grau inusitado talvez porque muitos deles encontrem nas ciências sociais um substituto para o sentimento de interesse social e de preocupação com a comunidade que é característico da religião judaica em todas as suas formas e que talvez ainda seja expresso imperfeitamente nas sinagogas organizadas. Os cientistas sociais, igualmente, tendem a ser hostis às pregações, uma vez que pretendem evitar a propagação deliberada de valores, e, em certa medida, eles encontram nas formalidades das ciências sociais um refúgio para as ambiguidades da organização religiosa.
Contudo, o conflito entre as ciências sociais e a religião estabelecida tem sido abafado até agora. Nem de longe ele se aproxima do conflito verificado no século XIX entre as ciências biológicas, sob a forma da teoria da evolução, e a igreja e que ainda se reflete em certas leis antievolucionárias de alguns Estados do Sul. Nem de longe tem a intensidade do conflito que opôs Galileu à igreja numa época mais remota. Na verdade, poderíamos dizer que, do mesmo modo que a relativa suavidade do conflito entre as ciências sociais e o direito se deve à fraqueza das ciências sociais, a natureza relativamente branda do conflito entre as ciências sociais e a igreja se deve à fraqueza da igreja. Todavia, esta seria uma explicação simplista. Em primeiro lugar, porque, pelo menos nos Estados Unidos, a igreja não é, de modo algum, uma instituição fraca. Na verdade, um dos fenômenos mais impressionantes da história americana tem sido o crescimento da religião organizada de uma posição extremamente minoritária no tempo da Revolução para 18% da população em meados do século XIX até chegar a sua posição atual, com 64% da população filiada a igrejas e com as igrejas tendo um poder político bastante grande.
O terceiro grande tópico deste capítulo, a ética, pode ser visto como aquele segmento do sistema social total que lida com a aprendizagem de valores e obrigações aprovados, através de um sistema complexo de interação humana em instituições de diferentes tipos. A ética, como um aspecto do sistema social, difere do direito e da religião pelo fato de não ser definida nitidamente por um conjunto de instituições, o que torna difícil o seu estudo. Não obstante, podemos identificar um processo de aprendizagem, através do qual as pessoas aprendem a distinguir entre o bem e o mal, o certo e o errado, o aprovável e o reprovável. Esse processo tem lugar na família, na escola, na igreja, no grupo de iguais, nos contatos face a face de vários tipos, nos negócios, na vida profissional, na vida acadêmica, na vida legal, na vida social. Na verdade, dificilmente haverá algum aspecto do sistema em que os valores e obrigações éticos não sejam aprendidos e mesmo ensinados. Em todas as partes do sistema, entretanto, os processos pelos quais as normas éticas são estabelecidas guardam certa similaridade. Há tipos de formulações, argumentos, comunicações, conversações, que podem ser facilmente identificados como afetados por interesses éticos. Como um resultado disso, as normas dos indivíduos de uma subcultura tendem a coincidir e as normas de povos de culturas diferentes tendem a divergir. Podemos imaginar o sistema ético como um conjunto de subculturas que se entrecortam, dentro das quais as comunicações éticas são fortes, tendendo a deslocar as posições éticas dos indivíduos para uma norma central, com círculos concêntricos em que o deslocamento de um círculo menor para um maior significa uma diminuição da intensidade da comunicação, da comunidade e da comunalidade do julgamento ético.
Até hoje o sistema ético tem sido quase universalmente parte da cultura folk, com contribuição considerável da cultura literária na elaboração de documentos sagrados como os Dez Mandamentos, o Sermão da Montanha ou mesmo os Gettysburg. Address e também na elaboração de uma grande quantidade de aforismos, provérbios, poemas bem conhecidos, hinos etc., que formam uma espécie de banco da memória linguística de um sistema ético. Até agora as ciências sociais tiveram um impacto muito pequeno sobre o sistema ético. Em alguns meios há mesmo uma forte tendência para negar que possam as ciências sociais ter qualquer impacto sobre ele. Até mesmo uma figura eminente e sensata como Don K. Price, por exemplo, argumenta que os valores são dados essencialmente pelos processos sagrados do folk e que os cientistas, inclusive os cientistas sociais, não têm por que meter suas mãos aí.
Para bem ou para mal, essa é uma divisão de trabalho que, em última instância, não pode ser mantida. Não podemos encarar os valores de uma sociedade como determinados por um conjunto de processos de aprendizagem inteiramente diferentes do processo de aprendizagem científico. Não se trata apenas de que, como a ciência muda nossa visão do universo, o sistema de valor, mesmo da cultura folk ou literária tenha de mudar. A posição das ciências sociais também tem uma significação particular porque ela ocupa o mesmo campo da produção de conhecimento sobre os sistemas sociais, as relações humanas e o próprio homem que o sistema ético ocupa. Seria, pois, surpreendente que não houvesse muitas interações entre os dois sistemas.
A despeito das relações muito tênues e ambíguas existentes entre as ciências sociais e os vários aspectos do "sistema sagrado”, legal, ético ou religioso, o fato de que seus campos coincidam parcialmente força seu contato. Em primeiro lugar, os sistemas legais, éticos e religiosos são objetos de estudo legítimos para os cientistas sociais e estes estão demonstrando um interesse crescente por aqueles objetos. Mas, na medida em que os aspectos legais, religiosos e éticos de uma sociedade são os componentes principais daquilo a que chamei anteriormente "o sistema integrativo", através do qual aprendemos a estabelecer relações tais como status, respeito, comunidade, legitimidade, afeto e outras, eles são mais do que simples objetos legítimos de estudo para os cientistas sociais, são aspectos absolutamente necessários, sem os quais nenhum outro sistema social pode ser entendido. Estudar a sociedade sem também estudar o direito, a religião e a ética seria o mesmo que encenar o Hamlet sem o Príncipe da Dinamarca. Tanto as instituições do sistema de trocas quanto as do sistema de ameaça devem ser legitimadas, se elas querem ser eficazes como organizadoras da estrutura de papéis da sociedade. Chego a acreditar, na verdade, que a dinâmica da legitimação é a força mais importante de todos os sistemas sociais, no sentido de que a perda da legitimidade representa uma perda total da capacidade organizatória. Entretanto, a dinâmica do ganho e da perda de legitimidade é muito pouco compreendida. Ela relaciona-se nitidamente aos aspectos sagrados da sociedade. O direito e a igreja, por exemplo, são dois dos maiores agentes de atribuição de legitimidade, de forma que não podem, de modo algum, deixar de ser estudados.
Entretanto, não podemos estudar o que quer que seja com os instrumentos das ciências sociais, sem antes modificar nossa imagem do objeto. Na medida em que os sistemas religiosos, éticos e legais do passado operam principalmente através de imagens literárias e folk, a introdução de imagens científico-sociais está fadada a ter um efeito profundo, que tanto pode ser criativo quanto desorganizatório, isso dependendo em bom grau de como for recebida, bem como dos ajustamentos que elas venham a sofrer. Não se trata apenas de mudança nas instituições. É provável que haja um impacto sobre as próprias normas éticas do sistema, muito embora esse impacto tenda a ser difuso como o é o próprio sistema ético. Todavia, mesmo aqui já podemos detectar um impacto substancial. O poder de uma norma ética é uma função muito complexa de sua conformidade com a estrutura de valores existente numa sociedade, talvez com alguma verdade ética abstrata, e com a extensão em que a norma é obedecida de fato. Por isso, o conhecimento da extensão em que as normas são de fato obedecidas pode ter um impacto substancial sobre o grau de aceitação das normas. Na verdade, é possível haver normas que todo o mundo aceita e a que ninguém obedece que persistam por causa das outras razões para a persistência das normas. Contudo, se todos sabem que ninguém obedece a uma norma particular, isso é suficiente para miná-la. Se descobrimos que alguma coisa que é denunciada no púlpito ou na imprensa é uma prática da grande maioria das pessoas, inclusive daquelas que a denunciam, as denúncias perdem muito de seu efeito. A economia da renda nacional, por exemplo, questionou algumas das normas éticas da tradição puritana que ainda estão muito presentes na extrema direita. As atitudes que poderíamos chamar de puritanas diante da dívida nacional ou dos gastos governamentais em geral, ou mesmo diante da poupança particular, foram seriamente atingidas pelo conhecimento mais sofisticado da ciência econômica. As grandes questões éticas que envolveram, digamos, a teoria marxista da mais-valia, ou o combate aos aluguéis e arrendamentos, ou ainda o ataque à propriedade privada em geral podem ser consideravelmente modificadas à luz do conhecimento sobre o desenvolvimento econômico. O sucesso do desenvolvimento torna o problema da justiça distributiva muito menos agudo. Quando há mais para todos, deixamos de preocupar-nos com a redistribuição.
Voltemo-nos para outro campo talvez ainda mais importante. O trabalho dos psicólogos que se dedicam ao estudo do desenvolvimento da criança tem tido um enorme impacto sobre as normas da educação infantil e, na verdade, sobre o caráter da sociedade como um todo. O princípio folk do "quem bem ama, bem castiga", que conduziu à perpetuação de gerações e gerações de crianças infelizes, agora finalmente está cedendo lugar, com a geração criada à base dos ensinamentos do Dr. Spock, a um padrão mais literário e científico, embora devamos ser modestos em nossa avaliação do que realmente conhecemos nessa área, especialmente no que diz respeito a seus efeitos de longo prazo. Já discutimos o impacto das ciências sociais sobre as normas do direito e a passagem de uma penalogia punitiva para outra que procura, de qualquer maneira, integrar o faltoso na sociedade, muito embora, mesmo aqui, possamos não estar muito orgulhosos de nosso sucesso. Mesmo em matéria de ética sexual, o trabalho do Dr. Kinsey (por acaso, um biólogo), ao revelar o caráter disseminado de certas práticas que são comumente consideradas "anormais", pode conduzir a uma reavaliação de sua "anormalidade", embora não necessariamente ao estabelecimento de cânones de legitimidade totalmente novos.
As adaptações da religião às imagens científicas do universo têm sido bastante profundas nos últimos trinta anos. Vale a pena observar, todavia, o grau em que o conteúdo do sagrado é, quase por definição, impermeável às críticas do teste empírico. Vemos um bom exemplo disso, por exemplo, na doutrina católica da transubstanciação, pela qual é a substância, não os acidentes isto é, as propriedades físicas do pão e do vinho que são alteradas, o que torna impossível que a doutrina seja testada pela análise física ou química. Do mesmo modo, a aceitação ou a rejeição de qualquer história sagrada é algo que nenhuma crítica histórica parece afetar.
Na medida em que os sistemas éticos e religiosos envolvem certas crenças sobre a natureza dos sistemas sociais, eles estão sujeitos à crítica das ciências sociais e isto pode ter consequências. Um bom exemplo é a mudança de ênfase de pelo menos algumas partes do movimento contra o álcool, a partir dos resultados das pesquisas sociais sobre o alcoolismo. A substituição do movimento em prol da proibição pelo de Alcoólatras Anônimos representa uma verdadeira mudança da imagem do sistema social. Não é difícil perceber que essa mudança foi para melhor e que o movimento pela proibição tinha uma imagem muito estreita e irrealista da natureza do sistema social que o levou a um verdadeiro desastre, de seu próprio ponto de vista. Se o movimento tivesse uma percepção mais sutil da interação entre todas as partes do sistema de normas culturais, uma abordagem mais realista do problema teria sido possível. A maior sofisticação do movimento pelos direitos civis nos anos 60, em comparação com o movimento pela proibição nos anos 20, é um exemplo interessante, não tanto talvez do impacto das imagens das ciências sociais como tais, mas da difusão geral de imagens mais sofisticadas da mudança social na sociedade ao longo de duas gerações.
Para perceber a profunda ambiguidade do impacto das ciências sociais sobre as instituições religiosas basta considerar o fato de que, onde essas instituições têm objetivos específicos em termos de mudança social ou mesmo de mudança na personalidade do indivíduo, as ciências sociais podem inquestionavelmente ser de utilidade no desenvolvimento de um processo de informação pelo qual o sucesso na obtenção desses objetivos é avaliado. Do mesmo modo, os estudos das ciências sociais sobre organizações sugerem diferentes espécies de caminhos pelos quais a organização das igrejas pode ser melhorada; e poderíamos perfeitamente visualizar um maior número de caminhos pelos quais as ciências sociais pudessem ser úteis de alguma forma na consecução de determinados objetivos. Ao fazermos isso, no entanto, os próprios objetivos podem ser questionados, o que pode ser percebido como profundamente ameaçador. Dessa forma, quando descobrimos, como o professor Rokeach, que os membros da igreja se distinguem muito pouco dos não-membros quanto a suas atitudes morais diante de uma grande variedade de normas, surge a importante questão sobre a eficiência do treinamento moral na igreja, que pode, inclusive, pôr em dúvida certos valores fundamentais que até agora não haviam sido questionados na cultura da igreja. Em qualquer sociedade, uma das fontes da legitimidade reside no fato de que o legítimo não é questionado. O momento em que uma antiga legitimidade é posta em questão é, muitas vezes, profundamente ameaçador simplesmente porque, onde a legitimidade depende do não-questionamento, o próprio fato de levantar-se a questão ameaça-a de um modo tal que não há resposta possível. A única resposta à pergunta é "não faça essa pergunta" e essa é uma resposta ilegítima para a cultura das ciências sociais.
Vemos o mesmo fenômeno ainda mais nitidamente no impacto da ciência e das ciências sociais sobre a cultura e as legitimidades nacionais. Se as ciências sociais surgirem com a resposta de que o Estado nacional é obsoleto e perigoso e que deveria, portanto, ser abolido, todos os tipos de valores e legitimidades antigos sentir-se-ão profundamente ameaçados e não seria surpreendente se chegássemos a um conflito extremo. Consequentemente, não existe nenhuma garantia de que o desenvolvimento da subcultura das ciências sociais não provoque conflitos sérios com os valores fundamentais de outras subculturas dentro da sociedade. É difícil impedir que a verdade tenha consequências. Ora, essas consequências não são necessariamente agradáveis.
Contudo, um otimismo moderado pode ser condescendente sem ser absurdo. Pelo menos no mundo desenvolvido, os sistemas sagrados têm demonstrado grande capacidade de adaptação ao impacto das ciências. Vemos um exemplo notável dessa capacidade nas grandes mudanças que têm ocorrido nos últimos anos na Igreja Católica Romana no caminho do aggiornamento. Embora o impacto das ciências sociais sobre os sistemas sagrados da sociedade seja ambíguo e incerto, um otimismo modesto sugere que os resultados não serão catastróficos. O sistema sagrado se ajustará ao novo conhecimento e às novas imagens do mundo social e mesmo as ciências sociais poderão vir a aceitar o sagrado como um elemento essencial do sistema social, contra o qual não têm necessariamente de combater e do qual podem, inclusive, extrair alguma legitimidade e benefício.
A ciência e as ciências sociais estão longe de ser humildes servidores de um sistema de valores folk previamente estabelecido. O produto mais útil das ciências sociais vem a ser a crítica do próprio sistema de valores, que pode resultar em um grande benefício para a humanidade. Quando olhamos para a história humana, é difícil evitar a conclusão de que há doenças nos sistemas de valores e que, embora elas não sejam tão facilmente identificáveis quanto as doenças do corpo, são certamente tão reais quanto elas e talvez tenham mesmo causado maiores desgraças. É possível que a coexistência pacífica, ou melhor, a cooperação pacífica entre as ciências sociais e os aspectos sagrados da vida social venha a desenvolver uma terapia para valores e a impedir pelo menos os piores excessos em termos de falso heroísmo, malevolência autojustificada, nacionalismos estreitos e sectarismos, que tanto têm afligido a humanidade.
Neste ponto, entretanto, a modéstia de nosso otimismo deveria pelo menos ser equivalente à modéstia de nosso orgulho. O fato é que, quanto aqueles aspectos da vida social mais relevantes para os aspectos sagrados da vida em sociedade, as ciências sociais realmente conhecem muito pouco. Os sistemas sagrados, quer se trate do direito, da religião ou da ética, estão profundamente envolvidos no que pode ser denominado "sistemas simbólicos" da sociedade, a respeito dos quais nós, cientistas sociais, sabemos muito pouco. Por exemplo, não sabemos o que faz com que certos símbolos exerçam uma grande atração e tenham tanta força em certas épocas e lugares e nenhuma atração e nenhuma força em outras épocas e lugares. Símbolos como a Cruz, a Virgem, o quarto crescente, a bandeira e até mesmo a mais-valia moveram montanhas e deram origem a organizações e movimentos humanos muito grandes e, no entanto, não compreendemos como isso foi possível. Quando o cientista social honesto estuda a história não pára de repetir: "Quem teria imaginado?"
Por exemplo, quem poderia ter imaginado que um carpinteiro de uma obscura cidade de uma pequena província do Império Romano seria capaz de fundar um movimento que iria construir enormes catedrais em países e continentes de que os romanos nunca tinham ouvido falar? Quem poderia supor que no meio da Arábia, algumas centenas de anos depois, um carismático condutor de camelos seria capaz de criar um movimento que levaria a uma grande civilização que se estendia desde a Espanha até as Filipinas, diante da qual a Europa cristã na Idade Média parecia uma península bárbara e tumultuada? Quem poderia ter imaginado que um velho barbudo e irascível que trabalhava no Museu Britânico em meados do século XIX seria capaz de entusiasmar um terço da raça humana cem anos depois? Quem sabe se a coisa mais importante de nossos dias não está ocorrendo num vale obscuro da Etiópia ou do Afeganistão e do qual só daqui à uns cinquenta anos iremos ter notícia?
Reflexões desse tipo levam o cientista social a pensar duas vezes antes de tentar prever algo, especialmente quando se trata do sistema sagrado. O fato é que conhecemos muito pouco sobre o que impulsiona as grandes massas humanas para a ação e, até que saibamos mais alguma coisa, é aconselhável que o cientista social mantenha uma conveniente modéstia diante de tão grande desafio.
Para o entendimento das relações entre as ciências sociais e o sistema social é essencial compreender que as próprias ciências sociais são parte do sistema social e são produzidas por ele. É da própria natureza dos processos de conhecimento e dos sistemas evolucionários que eles se alimentem a si mesmos, cada parte nutrindo-se na outra num tipo de realimentação positiva ou, pelo menos, desequilibrante.
Nos capítulos anteriores examinamos alguns dos impactos atuais e eficazes das ciências sociais sobre a sociedade. O sistema global, no entanto, é circular e a própria sociedade tem um impacto enorme sobre as ciências sociais. O alimento da ciência são os interesses e a curiosidade dos cientistas e os interesses e a curiosidade do povo que sustenta esses cientistas. Os interesses e a curiosidade raramente são sem importância, muito embora o papel da curiosidade frívola no sistema tenha um impacto bastante desproporcional a sua quantidade, simplesmente porque é como se fosse alimentada de fora do sistema. Mas a curiosidade não ociosa é aquela que surge da percepção de problemas importantes do sistema, pois é apenas quando os problemas se tornam importantes e entram na esfera da consciência que os recursos intelectuais se voltam deliberadamente para sua solução.
Poderíamos, portanto, esperar que os interesses das ciências sociais mudassem toda vez que a dinâmica do sistema social determinasse uma alteração na importância de um problema. As ciências sociais são parte do sistema social e o que é importante para o sistema será possivelmente importante para elas. Uma coisa talvez mais importante ainda é que as pessoas que sustentam as ciências sociais são também importantes no sistema e a pressão para a solução de um problema importante advém quase sempre daquele que arca com os custos. Não é, pois, surpreendente que cada época imponha seus próprios problemas.
Assim, no século XVIII, quando o comércio se expandia em escala mundial, a troca se tornava muito importante como organizador social e as restrições governamentais eram percebidas como inibidoras, Adam Smith surgiu com a doutrina da liberdade natural e com as teorias da divisão do trabalho e do desenvolvimento através da liberdade comercial e mercantil. Malthus, como assinalamos, parecia estar à frente de seu tempo, embora tenha tido influência em tudo isso. É fácil ver em Marx e Engels uma reação à Alemanha feudal da época, à fome dos anos quarenta e às condições da Manchester paleoindustrial. Igualmente Keynes representa claramente uma resposta à Grande Depressão e à experiência chocante e aparentemente sem sentido do desemprego em larga escala numa sociedade relativamente desenvolvida. O interesse pelo desenvolvimento econômico na última geração é sem dúvida inspirado pela importância e dificuldade do problema do subdesenvolvimento, especialmente nos países tropicais. Do mesmo modo o colapso do velho sistema de defesa nacional unilateral inspirou uma boa quantidade de esforços e o início de um trabalho empírico sério no campo do sistema internacional.
Talvez seja válido, portanto, lançar um olhar especulativo sobre o futuro e perguntar-nos sobre quais os possíveis problemas importantes dos sistemas sociais do futuro e como eles afetarão provavelmente as ciências sociais. É difícil não nos impressionarmos, nos dias que correm, com a má alocação de recursos intelectuais, isto é, como estes recursos não são empregados nos campos que mais os exigem. Assim, verificamos que, dentre as profissões, as que gozam de maior prestígio e frequentemente de maiores remunerações são o direito, a medicina e a engenharia, ao passo que o serviço social e a educação se encontram entre as menos privilegiadas.
O direito está voltado principalmente para a redistribuição de velhos direitos e propriedades. Se ele dispensasse uma parte das inteligências que absorve talvez a sociedade estivesse em situação melhor. A medicina tem-se voltado crescentemente para o prolongamento da vida das pessoas velhas e doentes e, junto com as ciências sanitárias, realizou, no final das contas, sua missão, ao estender a vida média até a faixa de setenta anos. Qualquer coisa além disso depende do futuro, mas o problema é saber até que ponto é desejável. Os engenheiros, por causa da sua insensibilidade à importância dos sistemas sociais, dedicam constantemente suas vidas a descobrir a melhor maneira de fazer alguma coisa que não deveria ser absolutamente feita. O planejamento que é feito pelos engenheiros sem levar em consideração o sistema social dentro do qual opera esse planejamento é frequentemente desastroso. Poderíamos citar a política de água, o controle de inundação, a renovação urbana, a construção de estradas e um bom número de outros exemplos em que o planejamento físico resultou em custos sociais altos. Há apenas dois ou três mil sociólogos nos Estados Unidos e a maioria deles está engajada no ensino. A pesquisa prática dos sistemas sociais que é necessária em todos os níveis de tomadas de decisão, tanto públicas quanto privadas, simplesmente inexiste, em parte por causa da total ausência de pessoas para realizá-las e em parte por causa da não-percepção de sua necessidade.
Mesmo dentro das próprias ciências sociais encontramos uma desanimadora falta de correspondência entre os recursos canalizados para os problemas e a intensidade e importância desses problemas. Essa má distribuição é particularmente flagrante na ciência econômica, onde por exemplo temos uma grande quantidade de recursos intelectuais investidos na economia rural enquanto a agricultura representa apenas 5% do produto nacional bruto, ao passo que a economia educacional praticamente não existe, a economia urbana é muito pouco estimulada e a economia de transportes é uma especialidade rara. Nos últimos anos têm-se feito alguns bons trabalhos na economia doméstica, mas mesmo aí estamos ainda muito abaixo do que a importância intrínseca do tema exige. Agora que a indústria de guerra representa 10% do produto nacional bruto, tem havido um aumento de interesse tardio pela economia da indústria de guerra, mas surpreendentemente continua a haver pouquíssimo interesse pela economia do imperialismo, da coexistência, da propriedade da terra e de muitos outros aspectos do mundo que me parecem cruciais.
Na sociologia a situação não é muito melhor. As pesquisas sobre relações raciais cessaram praticamente desde a decisão da Suprema Corte em 1954 e podemos encontrar departamentos de sociologia muito grandes onde ninguém se interessa por esse campo, apesar de sua enorme importância. A criminologia recebeu pouquíssima atenção dos teóricos e mesmo dos estatísticos da última geração e podemos descrevê-la como um campo quase estagnado. A sociologia da família foi surpreendentemente negligenciada nos últimos anos depois de alguns trabalhos estimulantes da geração anterior. A sociologia da educação é um campo que não tem sido cultivado. Há uma grande área da sociologia econômica — a sociologia dos mercados, do sistema financeiro, do sistema bancário, do sistema monetário, dos processos de elaboração de orçamentos nas organizações e governo, das grandes companhias que continuam praticamente virgem. Isso reflete em parte as pequenas dimensões da própria profissão e em parte talvez uma preferência, a exemplo da economia, para as soluções mais fáceis.
A psicologia é uma disciplina tão heterogênea — poderíamos quase descrevê-la como uma federação frouxa de empreendimentos que pouco têm a ver uns com os outros que se torna difícil especificar quais os campos que não foram cultivados. Talvez haja menos deles nessa situação do que nas outras ciências sociais. Chocam-me todavia os parcos recursos que têm sido destinados ao problema da aprendizagem humana, apesar de ser ela o cerne de todo o processo de desenvolvimento individual. Choca-me também a ausência de estudos sobre fenômenos como a psicologia do nacionalismo, a doença mental política e o impacto psicológico da propaganda ou da televisão.
A antropologia é a aristocrata das ciências sociais e talvez seja a menos exposta à crítica de má aplicação dos recursos intelectuais, embora possa ser criticada pelo seu alheamento em relação às outras ciências sociais e por sua má-vontade em aprender com elas, especialmente no que diz respeito à organização econômica.
Voltando-nos agora para as disciplinas fronteiriças entre as ciências sociais e as humanidades, como a história e a geografia, deparamos com um grande contraste. A geografia encontra-se num estado de grande fermentação intelectual, ocupada em incorporar novos métodos, especialmente métodos quantitativos, e bastante consciente de seu papel de integradora de muitas ciências sociais e naturais. De todas as disciplinas, a geografia é aquela que percebeu a importância do estudo da terra como um sistema total, tendo pretensões de ser a rainha das ciências humanas.
Ao contrário, a história, que poderia ser simplesmente a geografia do tempo, reagiu tão fortemente contra as teorias especulativas e filosóficas daqueles que poderíamos chamar os sintetizadores ingênuos ou prematuros, como Marx, Spengler e Toynbee, que os historiadores parecem ter-se refugiado no trivial, tendo horror a qualquer coisa que evoque uma generalização. Há alguns pequenos sinais de mudança, especialmente entre os jovens, alguns dos quais estão começando a interessar-se pela aplicação da teoria dos sistemas sociais aos dados históricos, mas isso às vezes mais parece uma gota d'água no oceano.
Se existe uma má alocação dos recursos intelectuais, como estou afirmando, ela deve ser um produto do próprio sistema social e seria possível identificar pelo menos alguns dos elementos por ela responsáveis. O crítico pode perguntar: "Quem é você para se opor à sabedoria da sociedade e dizer que a alocação de recursos existente não é ideal? Afinal de contas, foi o sistema social que definiu essa alocação e quem é você para criticá-lo?" A única resposta possível é mostrar com algum pormenor que processos do sistema social conduzirão provavelmente a uma má alocação dos recursos intelectuais e mostrar que esses processos operam em nosso próprio sistema social. O próprio sistema social pode ser invocado como testemunha de nossa falta de conhecimento a seu respeito.
Afirmo, então, que há três processos operando em todo sistema social, e particularmente no nosso, que conduzem a uma má alocação de recursos, sobretudo de recursos intelectuais.
O primeiro desses processos é o que em outra parte chamei de "processos Richardson" porque foram inicialmente tratados por Lewis Richardson no seu trabalho clássico Arms and Insecurity. São muito similares aos processos descritos no famoso jogo do "Dilema do Prisioneiro". Trata-se dos processos presentes nas corridas armamentistas, nas guerras de preço e no que poderia ser descrito como uma emulação improdutiva e autojustificativa.
A má alocação de recursos no direito é um bom exemplo disso. Nas situações legais, um advogado se opõe a outro. Em tais circunstâncias a dinâmica do sistema significa que para cada pessoa individual é mais vantajoso ter o melhor advogado. Não é pois surpreendente que o direito atraia algumas das melhores cabeças da nossa sociedade e que a recompensa por uma maior capacidade seja provavelmente tão grande em direito quanto em qualquer outra profissão, senão superior. Todavia, se pudéssemos alcançar um tipo de desarmamento intelectual e chegar a um acordo de que ninguém com Q. I. superior a cem pudesse ser admitido como advogado, a resultante seria quase idêntica; as pessoas tentariam ainda comprar os melhores advogados possíveis, mas recursos intelectuais valiosos seriam economizados.
O desperdício grotesco de recursos provocado pela indústria bélica mundial, cerca de 120 bilhões de dólares ao ano ou mais, atesta o impacto dos processos Richardson na má alocação de recursos. Assim como o cliente deseja o melhor advogado, a nação quer ter a melhor força armada. O resultado disso é um enorme desperdício de inteligência que é dedicada aos meios de destruição ou à ameaça de destruição. Mais uma vez, seria necessário um alto nível de organização para alcançarmos uma paz e um desarmamento estáveis. Mas como isso de fato representa um nível maior de organização, o sistema atual deve ser condenado por sua má alocação.
O segundo motivo para a má alocação dos recursos intelectuais é a decantada defasagem. O fenômeno da defasagem cultural foi percebido há muito tempo. Os sistemas sociais, como todos os outros sistemas, têm um impulso próprio. Tendem a continuar em movimento muito tempo depois de ter desaparecido a força que os originou. A má alocação de recursos na agricultura é um bom exemplo disso. Na época em que a agricultura representava 50% da economia, fazia sentido uma alocação de recursos que a beneficiasse. Atualmente, quando a agricultura representa apenas 5% do produto nacional bruto, parece evidente que devamos desviar para outros campos uma boa parte dos recursos intelectuais alocados atualmente na pesquisa agrícola. O impulso inicial, no entanto, persiste nas escolas rurais, nos departamentos de economia rural, no Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, enormes interesses institucionais estando investidos em objetivos já superados. Daqui a uma ou duas gerações talvez comecemos a perceber isso e a reorientar alguns desses recursos. Nesse meio-tempo, o impulso inicial continuará a conduzir-nos.
A terceira fonte da má alocação de recursos intelectuais seria a evidência intrínseca ou espúria. Um importante princípio deriva dos inumeráveis estudos sobre o comportamento humano, mesmo daqueles sobre coisas supostamente racionais como o comportamento nos negócios: alguns acontecimentos são intrinsecamente mais evidentes que outros, isto é, causam uma impressão mais profunda na mente humana, independentemente do papel que desempenham no sistema inclusivo. O soterramento de alguns mineiros em uma mina provoca pena e angústia no mundo inteiro e merece manchetes em toda parte. Quarenta mil pessoas massacradas por ano nas rodovias não produzem uma resposta correspondente.
Parece haver acontecimentos intrinsecamente dramáticos capazes de chamar nossa atenção, mesmo que em termos quantitativos representem uma pequena parte do sistema total. Como diz o provérbio, é a roda que range que leva graxa. As pessoas barulhentas e agitadas conseguem atenção, enquanto as tranquilas são ignoradas, mesmo sendo sábias. Isso novamente explica em parte por que o advogado, o militar e o cirurgião, envolvidos como sempre estão em acontecimentos dramáticos ainda que de pouca importância, ocupam posições proeminentes no sistema, enquanto o professor secundário, a mãe atormentada e a assistente social, de cujas mãos mal recompensadas e muitas vezes inaptas depende o futuro da sociedade, são vistos como enfadonhos e não merecem nenhuma atenção. É sempre mais fácil para as pessoas buscarem as coisas interessantes ao invés das importantes. Um crítico poderia de novo argumentar: "Quem é você para afirmar que o interessante não é importante?" E, mais uma vez, ele tem algo a seu favor, sobretudo se considerarmos que o consumidor tem sempre razão. Apesar disso, uma falsa evidência é algo contra o que devemos tomar precauções.
É interessante notar que as próprias ciências sociais se tornaram uma agência muito importante de desvalorização das evidências espetaculares e espúrias e, através das técnicas de amostragem, enfatizaram a importância da obtenção de um conhecimento bem fundado de um sistema total. Entretanto, mesmo na busca de seus próprios objetivos, as ciências sociais nem sempre seguem seus próprios princípios e o problema da evidência espúria frequentemente reaparece. Ele surge não apenas nos interesses dos próprios cientistas sociais que tendem a ser atraídos por aquilo que parece excitante no momento, mas também porque todos os tipos de pesquisa científica são, em grande parte, financiados por doações. Os doadores, quer sejam governos, fundações ou mesmo outros patrocinadores, como os ricos preocupados e interessados, estão sujeitos ao modismo e ao entusiasmo e certamente não programam a alocação de seus recursos com base em uma amostragem cuidadosa dos problemas envolvidos.
A consideração desses três elementos do sistema social sugere-me que a tendência à má alocação de recursos dificilmente é questionável e o problema que se coloca é sabermos o que é possível fazer. Minha parte foi escrever este livro, na esperança de ressaltar a importância do problema da evidência. Uma vez percebido o problema, devemos recorrer à arte da retórica para torná-lo evidente. Recomendo essa arte da retórica a meus colegas cientistas sociais, por mais repugnante que ela possa parecer-lhes. Aos meus leitores que não são cientistas sociais recomendo uma atenção cuidadosa e certa dose de atenção para com aqueles que estão lutando, embora imperfeitamente, para compreender os complicados meandros do sistema social. Ouçam-nos com atenção, mas não cegamente. Vocês poderão estar salvando o seu próprio sistema social.
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Malthus, T. R., Essay on Population (1798) é uma edição da Everyman's Library, Nova York, mas também foi publicado pela Ann Arbor Paper Books, Ann Arbor, Michigan.
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Keynes, J. M.. Seus trabalhos mais importantes são o Treatise on Money (Nova York, Harcourt, Brace, 1931) e a General Theory of Employment, Interest, and Money (Nova York, Harcourt, Brace, 1936).
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Piaget, Jean, The Child's Conception of the World (Nova York, Harcourt, Brace, 1929) e muitos outros volumes sobre tópicos próximos.
Gesell, Arnold e Frances Ilg, Child Development, an Introduction to the Study of Human Growth (Nova York, Harper and Bros., 1949).
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