Título: Circo de Palavras: Histórias, Poemas e Pensamentos
Autor: Millôr Fernandes
São Paulo: Ática, 2007.
Velhas novas fábulas
Fabulista é quem cria fábulas, ou é também aquele que as conta, e reconta, e assim sem querer as recria? Agora você vai acompanhar algumas histórias, umas muito antigas, outras quase novas. Talvez até sinta, ao virar a página, uma brisa vinda da Europa, da Índia... mas também um cheirinho de Brasil. Porque Millôr trouxe para cá estas histórias e recontou de um jeito todo próprio, todo brasileiro. Se quem conta um conto aumenta um ponto, quantos pontos Millôr teria aumentado? Você decidirá, durante a leitura.
Joãozinho, o monstro
Joazinho de automóvel
Corre a 90 no cais
Dona Marta ia passando.
Agora não passa mais.
Ode (ou elegia?) a um quase calvo
Ontem, hoje
E amanhã
O homem o cabelo parte
Parte o cabelo com arte
Até que o cabelo parte
Maturidade
O desenvolvimento
Cerebral
Nunca se compara
Ao abdominal.
Poesia matemática
Às folhas tantas
Do livro matemático
Um Quociente apaixonou-se
Um dia
Doidamente
Por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
E viu-a, do Ápice à Base,
Uma Figura Ímpar;
Olhos romboides, boca trapezoide,
Corpo otogonal, seios esferoides,
Fez da sua
Uma vida
Paralela a dela
Até que se encontraram
No Infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
Com ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
— O que, em aritmética, corresponde
A almas irmãs —
Primos-entre-si.
E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz
Numa sexta potenciação
Traçando
Ao sabor do momento
E da paixão
Retas, curvas, círculos e linhas senoidais.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidianas
E os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E, enfim, resolveram se casar
Constituir um lar.
Mais que um lar.
Uma Perpendicular.
Convidaram para padrinhos
O Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
Sonhando com uma felicidade
Integral
E diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
Muito engraçadinhos.
E foram felizes
Até aquele dia
Em que tudo, afinal,
Vira monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
Frequentador de Círculos Concêntricos.
Viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
Uma Grandeza Absoluta,
E reduziu-a a um Denominador Comum.
Ele, Quociente, percebeu
Que com ela não formava mais Um Todo,
Uma Unidade. Era o Triângulo,
Tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era a fração
Mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
E tudo que era espúrio passou a ser
Moralidade
Como, aliás, em qualquer
Sociedade.