Ultimamente, tenho lido muito "O mal-estar na civilização", nessa edição bacana da Companhia das Letras. Um texto singular, no qual Freud fala desde os paliativos para suportar a vida com suas "dores, decepções e tarefas insolúveis", bem como menciona a felicidade - esse sentido de "satisfação repentina de necessidades represadas" - e, por tal, uma felicidade dosadas, momentânea. Uma felicidade, sim, muito incoerente ao pensamento comum, humano, fincado nas aspirações de uma felicidade permanente.
E mais ainda, Freud fala sobre os muitos e dolorosos arranjos à produção imediara de prazer, uma ação tão contrária, quanto inviabilizada ao contínuo funcionamento do aparelho psíquico, regido pelo princípio de realidade. Não haverá a prevalência de uma satisfação total, efetiva, pois, totalmente, vai na contramão do desempenho do aparelho psíquico. E então, aborda-se os temas de religião e amor, onde Freud afirma sua célebre citação que, “nunca estamos tão mal protegidos contra o sofrimento como quando amamos, nunca estamos tão irremediavelmente infelizes como quando perdemos a pessoa amada ou o seu amor.”
Bem, estou expondo, aqui, um pouquinho, dos diversos e relevantes assuntos discutidos por Freud nos quatro capítulos iniciais, os quais já li.
OBS: Aos interessados, a coleção de Sigmund Freud, da Companhia das Letras, a tradução é diretamente do alemão. Gosto desses livros, devido a tradução, organização dos textos e têm a capa dura - em estilo colecionador-. Mas, a editora Autêntica traz em seus livros além do texto em Português, o mesmo texto adicionado em Alemão. Li "O Infamiliar", da Autêntica, e o texto é nas duas versões - em Português e Alemão - e, acredito que, os outros textos de Freud devem ser assim, também. Avisem-me, caso não. Desde já, desejo boas leituras a todos(as)(es)!
Link para download:
https://joaocamillopenna.files.wordpress.com/2013/10/freud-obras-completas-vol-18-1930-1936.pdf
À primeira vista, um livro enigmático. Mas, com a leitura iniciada, percebo, sim, um livro complexo e muito denso. Confesso que, estou lendo aos goles, ou melhor, lentamente, por receio de perder-me entre as diversas significações escritas das palavras. As significações escritas que, dão formato as descrições e a história, em contrate com as peculiares significações presentes nas entrelinhas que, perpassam a escrita real indo ao alcance do que pode-se imaginar e o simbolismo ali, um simbolismo mais além do simplesmente evidente.
Há uma enxurrada de despersonalização do Eu. Uma despersonalização do Eu que, a todo momento, é aprofundada, ramificada. É como se Clarice estivesse descascando o Eu em camadas e, sempre, ao abrir uma camada, outras mais se tornam necessárias para complementar o desvelamento anterior.
Com uma escrita riquíssima, Clarice evidencia em cada desvelamento do Eu as ações realizadas e propícias a despersonalização. Ações tão reais - embora apenas escritas num papel - que, realmente, nunca as imaginei, mas as compreendo. E compreendo tais ações, tais existências pela grandeza de sua argumentação. Argumentação de uma verdade que transpassa em ato a lógica do imaginário e do simbólico e, assim, perfurando com toda veemência o real.
OBS: Marco Antonio Coutinho Jorge, psicanalista, indicou esse livro numa Conferência do Corpo Freudiano - Escola de Psicanálise -. Ainda disse que, na época, os psicanalistas ficavam esperando - com uma curiosidade gostosa - a publicação de cada capítulo - do livro - no jornal, para lerem. Delícia!
|Clarice Freire|
Ao escrever a citação - acima - antes da apresentação do livro, Clarice, com um jeitinho muito bacana, convida o leitor para relaxar e se entregar tranquilamente às paragens repletas de significações belíssimas contidas em cada linha, em cada poema, em cada sentimento que suas palavras despertam, carinhosamente. E desta forma, compondo, sim, ares de familiaridade aconchegante nessa caminhada delícia, em "Pó de Lua".
"Pó de Lua" é dividido em quatro fases, as fases da lua - A Lua Minguante, A Lua Nova, A Lua Crescente e A Lua Cheia -. Nas fases, Clarice fala de si, da família, dos amigos e da vida, seja implícita ou explicitamente. Como também, mostra as transformações acontecidas em cada fase, ou seja, em cada passo dado pelos muitos caminhos que envolvem sua vida para além das palavras escritas ora nas frases e pesamentos soltos, ora nos poemas e poesias.
Acredito que, a escrita do livro seja a própria escrita de Clarice e os desenhos, também. "Pó de Lua" é um livro muito interessante e com uma escrita criativa e inteligente. Escrita esta que, sem dúvida, agrega as verdades mais rasas e mais profundas de Clarice. Que beleza!
TODOS
OS
HOMENS
SÃO
MORTAIS
|SIMONE DE BEAUVOIR|
"Então eu sentiria a vida bater serenamente em meu peito sem me lançar para o futuro; em torno de mim, o tempo seria um grande lago calmo onde eu descansaria, como Deus, nas nuvens."
O pesar transpassou a glória que, a imortalidade representava. Ou seja, para Raymond Fosca, o que seria uma vida permeada pela exaltação aos grandes feitos heroicos ou obras que o concedessem extraordinária fama, com o passar do tempo sobre os séculos se evidenciou um apreço a necessidade de isolamento e ao desejo veemente pela indiferença do outro. Um outro que, continuamente, alimentava a curiosidade em indagar sobre o enigma de uma significação. Significação esta, ancorada na imagem fantasmática que Fosca representava - um nada a saber, um nada a dizer, mesmo quando implicitamente algo insistia em se revelar -.
Raymond Fosca era um camponês e após um ato heroico, tornou-se príncipe. Governou Carmonra por anos, formou uma família, como também construiu um reinado próspero a todos. Entretanto, ao ser gravemente ferido, sobreviveu devido uma bebida - oferecida por um morador da cidade - que o privilegiou com a imortalidade. Contudo, a peste chegou. Na cidade, as pessoas sucumbiram pela doença e, sem família, depois de um tempo, resolveu partir, conhecer outros lugares e governá-los, talvez. Viajou e conheceu terras além mar. Foi comandante do exército de outro rei e, embora, faminto por poder e conquistas, Fosca percebeu que, não teria a glória que almejava - seu nome conhecido e festejado por séculos - pois, simplesmente, a fama perpétua excluía a continuação da vida. Ou melhor, a imortalidade reivindicava sua exclusão do tempo, da história e do mundo o qual almejava tanto conquistar.
Ao longo dos séculos, as grandes inovações, invenções, humanas já não o encantavam e, aos poucos, Fosca se abrigou num marasmo vivencial, deixando-o inerte entre o não pensar e o dormir. Porém, em alguns momentos, a vida o obrigava a retornar, isso sim, quando a curiosidade do outro indagava sobre o enigma que ele representava, evocava. E continuamente, Fosca enunciava seus acordares e suas partidas - de si mesmo - num mundo que nunca o pertenceu e que ele não desejava mais pertencer.
OBS: Um livro superinteressante. Simone de Beauvoir aborda uma diversidade de temas - na leitura - de forma inteligente e objetiva. Ideias escritas fundamentadas numa riqueza de conhecimentos que perpassam sua grandeza filosófica e existencialista pelas quais Simone é reverenciada. Maravilha de escritora!
"Se te pareço noturna e imperfeita
olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse .."
|Hilda Hilst|
II
Estou lendo "Em torno de Hilda Hilst". Infelizmente, não terminei o livro - como era meu desejo - antes de escrever aqui, no site. O livro é composto por 12 artigos de especialistas e estudiosos que prestigiam o trabalho, o legado de Hilda. Há críticas, análises textuais, pequenos resumos, ou mesmo, partes de diálogos importantes dos personagens e das histórias escritas por Hilda sejam os romances e crônicas, sejam as peças de teatro e poesias. Eu, sinceramente, considero apaixonante a escrita dessa indomável e inteligente mulher. Apenas, um escrito de Hilda foi levado ao teatro e, também, o seu trabalho não foi tão aceito pela sociedade, da época, enquanto ela estava viva. Que pena! Hilda possuía uma intelectualidade avançada, mas Clarice Lispector também exalava uma grandiosa inteligência e intelectualidade e, seu sucesso foi fantástico. Por que Hilda não "decolou" como desejava, como esperava? Sua linguagem crua e escrachada nas crônicas - ao jornal semanal - tirava o sossego de uns e conduzia muitos outros às risadas e, mais ainda, fazia emergir em outros tantos a admiração por sua desenvoltura escritual nos mais diversos temas, nos mais diversos aspectos da linguagem escrita, simbólica, fantasmática e real.
Meu desejo??? Tem dois livros de Hilda que, irei ler "Júbilo, memória, noviciado da paixão" e "De amor tenho vivido: 50 poemas". Não os tenho. Ainda vou comprá-los e quero lê-los nas minhas férias. Manterei a leitura de Hilda tão presente em minha vida, quanto as leituras de Sigmund Freud, Jacques Lacan e Clarice Lispector. E sim, recomendo sim, os livros de Hilda Hilst! Descobrir Hilda foi sensacional! Acredito que, vocês gostarão da intensidade de Hilda. Uma intensidade como o mar e, continuamente, presente nos entornos, nos contornos das próprias palavras escritas. Palavras que, inevitavelmente, possibilitam - ou possibilitarão aos novos leitores - mil e uma significações e aproximações também, claro.
Hilda Hilst: A fera indomável
I
É uma maravilha falar um pouco sobre a imensa e intensa grandeza de Hilda. Sim! Impossível tentar conter em palavras toda a beleza de sua escrita e personalidade que escapa aos padrões sociais de uma época - talvez - pequena demais para tal existência humana. A existência de uma mulher e uma mulher sem a menor pretensão de mascarar a realidade, esta seja qual for.
Ama-me. É tempo ainda.
|Hilda Hilst|
Descobri Hilda, quando ganhei dois livros, um sobre seu trabalho e o outro, sua biografia. Que descoberta! E, claro, imediatamente, perguntei-me, por que não tinha lido nenhum livro de Hilda até o presente momento. Confesso que, ouvi muitas vezes seu nome, mas a curiosidade ou mesmo o interesse ainda não tinha me tocado. Bem, ainda bem, que sempre tem-se tempo para as grandes e inevitáveis mudanças.
Primeiro li "Três vezes Hilda - biografia, correspondência e poesia" e agora, estou lendo "Em torno de Hilda Hilst". O primeiro livro traz um percurso sobre a vida de Hilda que, deixou a exuberante vida social de moça de família rica e fez-se escritora - romancista, teatróloga, poeta e cronista -. E, também, traz correspondências de seu amigo Caio Fernando de Abreu mais algumas poesias finalizando a escrita do livro. Poesias repletas de uma intensidade de ser que, transborda paixão, instinto, vida, desejo .. Ou seja, um mix sentimental e vivencial de uma interioridade que, não se agarra ou finaliza, mas, sim, apenas, sente-se, compreende-se. E compreende-se livremente. Ler Hilda requer se abster dos cansativos preconceitos e ignorâncias chatas que, a meu ver, não servem para nada além de ausentar a inteligência e preciosidade bela de uma incrível leitura.
As asas não se concretizam.
Terríveis e pequenas circunstâncias
Transformam claridades, asas, grito,
Em labirinto de exígua ressonância.
Os solilóquios do amor não se eternizam.
E no entanto, refaço minhas asas
Cada dia. E no entanto, invento amor
Como as crianças inventam alegria.
|Hilda Hilst|
II
"Dez anos tinha se passado e ele ainda se lembrava do quarto nos seus menores detalhes ...". Lygia inicia o conto com essa frase pensada por Nikos. Mais ainda, "dez anos de aventura. Agora ali estava (...)", posteriormente, Lygia acrescenta.
Nikos, marinheiro, conheceu Marghí na época natalina. No Natal, resolveram celebrar juntos. Marghí preparou uma ceia onde comeram, beberam vinho e dançaram enlaçados. Após ajudá-la no preparo do bolo de nozes, Nikos a falou que sairia e voltaria para levá-la a Missa do Galo. Mas, bem ... não voltou. Foi embora para Atenas, Creta, etc. Andou muito, mundo à fora, com companhias imprevisíveis. E numa virada sobre o vento, fatigado talvez por tantos rodopios, com tantas andanças, sem saber o que procurava, VOLTOU. Voltou, queria ver Marghí e satisfazer a nostalgia e saudade que sentia ao pensar nela. E então, perguntou-se: Como ela estaria? Onde ela estaria? Nikos procurava algo, mas, nem ele sabia o QUÊ.
DEZ ANOS de AUSÊNCIA. DEZ ANOS de AVENTURAS. E Nikos apenas desejava a encontrar e dizer: VOLTEI, MARGHÍ. Cômico?! Sim?! Não?! Talvez?! Contudo, Nikos encontrou TUDO IGUAL. DEZ ANOS se passaram e tudo estava igual, o quarto conservava ainda seus menores detalhes. Marghí não trocara a fechadura da casa. A casa tinha o mesmo cheiro, a mesma gravura na parede. E, o quinto degrau da escada continuava rangendo. DEZ ANOS, DEZ ANOS. Finalmente, frente a frente, percebeu Marghi mais velha e mais magra e ela usava o mesmo vestido da ceia natalina. Beijaram-se. Enquanto Marghí, apavorada, tentava reter o tempo passado como um enrolar de uma linha num novelo, Nikos, apavorado, evidenciava-a que tudo estava igual, exatamente como deixou. "TE AMO, TENHO QUE IR. TENHO QUE IR, ESTÁ ME OUVINDO? SÓ SEI QUE TE AMO, MAS NÃO POSSO FICAR".
Sem conseguir amparar-se na própria realidade dolorosa e, por tal, realidade não reconhecida, não autenticada, Marghí desnorteada se enlaça numa ausente-presente fantasia - Nikos a esperava na Igreja, na missa, depois ceariam juntos -. "ELE ESTÁ ME ESPERANDO, ELE ESTÁ ME ESPERANDO!", sussurrava, delirante, a si mesma.
I
Quando se pensa no significado da palavra esperar ou mesmo ESPERA, pode-se atrelar ao sentido de permanecia, pois ESPERA permite o sentido de estática, ficar. Contudo, é certo que, cada palavra tem seu reverso, o mais além do significado aparente e facilzinho de apreender. E sim, se expandir a menção ao ESPERA, nota-se um enlaçar aos ares da movimentação, porque, simplesmente, o tempo conduz aos passos, passos livres reais ou imaginários, mas, assim mesmos, aos passos diferentemente da estabilização. Ao nivelar invisível e intencional do tempo, a ESPERA que contradiz ao movimento, só evidencia definhamento, mortificação. Desta forma, como intitulei esse escrito, sim, inevitavelmente, esperar, ESPERA, não induz à firmeza, nem tão pouco às permanências.
Inicialmente, A ESPERA foi escrito por Lygia a pedido de uma amiga que trabalhava para a Revista MS. Esta, faria referência celebratória à Grécia e, depois de 15 dias do pedido, Lygia apresenta o conto escrito para publicação. Após décadas da publicação, aparentemente em 1981, "pelas bençãos das ninfas de Homero" como fala Jane Ciambelli, a história de Nikos e Marghí se emerge brilhantemente para ser lançada nas páginas de um livro físico e virtual, também. Beleza! Assim, com grande alegria, podemos prestigiar atualmente um conto quase inédito dessa escritora maravilhosa.
Lygia Fagundes Telles - A dama da literatura brasileira
III
Dez anos de ausência, dez anos de aventuras ... e, ao voltar novamente, Nikos encontra tudo igual. TUDO ESTÁ IGUAL! Inacreditável?! Certamente. Questionamentos se brotam, então. Mas, como se manter internamente indiferente ao tempo - a vida - que tudo pode transformar? E mais, como encontrar alguém que aceite estar com um outro alguém escravizado numa estática temporal? Sendo assim, podendo estar perdido num passado imutável, em que a espera se faz uma constância inalterável?!
Aqui, na história, o eu definha-se agarrado ao desejo inalterável de esperar. Aqui, na história, a espera acontece numa árdua autossustentação imperiosa, sem deixar margem de possibilidade aos sentimentos e experiências reais, significantes, cotidianas. Marghí esperava, e NADA MUDOU. Marghí fincou raízes em si mesma. Marghí se destitui de ousar movimentar-se, de ousar questionar-se, de ousar viver sem correntes invisíveis que ela - e apenas ela - acreditava que resguardariam o ficar, o conservar. Nada mudou na casa, no quarto, também. Maghí, agora, mulher mais velha e mais magra, deixou-se em permanência, sem transformações esperadas, necessárias. Decerto, aqui, na ESPERA - livro -, Lygia possibilitou-nos esse pensar singular, em que realmente ESPERAR não induz às PERMANÊNCIAS.