"Recria tua vida, sempre, sempre. Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça."
|Cora Coralina|
Começando esse momento bacana, aqui, no site, com os dizeres da Coralina. Palavras delícias, cheias de afeto e de movimentos para luta. Pois, sim, essencialmente, a vida se constrói aos passos firmes e corajosos perante os percalços na caminhada, no dia a dia. Beleza!👣🎶
I D E N T I D A D E
"Sou sempre eu mesma, mas nunca a mesma para sempre .." |Clarice Lispector|
Cotidianamente, percebo - não precisa nem ser em escuta analítica - intricados questionamentos envoltos aos dizeres: “Eu quero me conhecer.”, “Eu quero saber quem sou” e mais “Quem sou eu?”, “Eu não sei nem responder a pergunta: Quem é você?”.
Ultimamente, e mais além do dito instinto de sobrevivência, muitas pessoas têm se agarrado com unhas e dentes – desesperadamente – numa busca fantasmática ao incansável encontro de uma definição tão prévia e pronta, quanto permanente de si mesmo. Uma definição, se possível, via a ‘drive thru’, como se uma pessoa, ou melhor, como se ser uma pessoa, humana, coubesse em ajuste perfeito numa linha no papel, num parágrafo de um texto ou, meramente, numa história de um livro qualquer que seja.
Se por um lado, há a insistência e, mesmo, o desejo residente de uma alienação pela super definição-drive, por outro lado, sim, perambula sem pudor algum – claro – a autodefinição. Uma auto definição inerente na cotidiana auto nomeação arraigada aos bipolares, aos deprimidos, aos ansiosos, aos loucos, dentre outros, sim, veemente, autointitulados, batendo no peito com muito orgulho. Uma auto definição – auto nomeação – consciente, em ritmo de modinha, em amostra nos corriqueiros encontros e conversas, alimentado ferozmente a segregação social, emergindo o resplandecente M - maiúsculo e vermelho - da marginalidade humana que existe e, infelizmente, não se tem contribuído para evitar o aumento, para sua extinção. De mãos dadas, a definição-drive e a auto definição tecem a evidência de um Eu adoecido entre os tramites e destroços – imaginários e simbólicos – do próprio sofrer.
Identidade, de acordo com o Aurélio, significa a existência de possíveis características numa pessoa ou coisa e por meio das quais se podem identificá-la e individualizá-la. Para Freud, a “identificação” é algo que ocorre sempre entre sujeitos – pessoas -, entre tudo - seja humano ou não, seja coisa ou evento – tem sua identidade, permitindo-lhes seu reconhecimento e a afirmação de sua singularidade. E assim, garantindo sua diferença perante outra pessoa, coisa. Ao emblemático frenesi na busca da definição-drive, persiste uma falta – em aberto – frente aos próprios questionamentos e respostas, frente a própria posição – possibilidade – de identificação, identidade e singularidade. E bem, bem como disse o poeta, “Se definir é se limitar”. “Se definir é se limitar”!
Informações Complementares:
Citação 1 - Clarice Lispector
Citação 2 - Autor Desconhecido (Algumas pessoas atribuem essa citação a Machado de Asis, mas não tenho certeza e ainda não consegui identificar ao certo o autor.)
Leitura extra (Artigo): Uma interrogação psicanalítica das identidades. - Eduardo Leal Cunha.
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II
Desde os tais primórdios da humanidade – a era das cavernas, digamos assim – num ato de reunir-se aos demais da mesma espécie com o intuito de desenvolver vínculos seja na formação de uma tribo, seja na instituição de uma família – mulher e filhos – , o homem usufrui da naturalidade instintual inerente a sua condição, de sua posição e reconhecimento de ser e não ser, a agressividade. A agressividade existe, sempre existirá, isso é certo. Independente das mil e tantas mais medidas de contenção a formação e manutenção de um homem pacifista, independente das próprias apreensões sobre moral, ética, sociedade, educação, .. e , sim, independe do tal dito homem possuir dinheiro, casa, trabalho, ou mesmo, um pedaço de terra para exercer a labuta de cultivar o próprio alimento, em algum momento, o homem exercerá um ato, a agressividade. E ser agressivo não corresponde apenas aos atos mais inumanos e tenebrosos – pelo menos pensados assim -. Ser agressivo, ou melhor, a agressividade pode ser representada pela moldura ilusória e brilhante, na qual se estampa um sorriso estridente - colgate – abraçado por um piscar de olho – tipo 43 - e um aceno caloroso de boas-vindas pedindo para ficar.
“Amar teu próximo como a ti mesmo”, assertiva firmada desde os tempos arcaicos, implicitamente, também, institui-se como uma exigência à civilidade social. Mais ainda, tal assertiva, implica uma contradição desde o não tão simples significado de “amar o próximo como a ti mesmo” até a ação propriamente dita de tal amor. Se, inconsciente ou conscientemente, o homem ver o outro – o próximo – como um colaborador ou objeto sexual que facilitará sua vivencia em comunidade, instiga-se o pensar se esse amor ao outro – ao próximo – acontecerá e se esse amor será capaz de ir além da visão objetal. Uma visão - objetal – incrustada ao homem na iminência de impor o próprio desejo, o próprio querer, a própria vontade. Um desejo, um querer, uma vontade que, por vezes, será distinta do desejo, do querer, da vontade do outro que habita ou não o mesmo espaço. Evidentemente, é claro, haverá uma imposição e uma submissão. E evidentemente, é claro, haverá a agressividade, também.
Ora, não busco, aqui, a mera desculpa esfarrapada para isentalidade aos atos humanos – agressivos - anunciados como impensados ou, implicitamente, bem pensados mesmos. Ressalto, aqui, a responsabilidade do tal dito homem frente aos atos que institui e anuncia o próprio desejo, o próprio querer, a própria vontade. Ressalto, aqui, a responsabilidade de cada homem frente as próprias palavras e ações conscientes ou não, que o conduzem a sua naturalidade instintiva mais bestial e inquisitória, que o conduzem para as formas mais sutis e mais selvagens à sua prevalência.
I
Por algum tempo – não tão longínquo que escapa a lembrança – o homem olhava à espreita e assustado, apalpava desengonçado o mundo. Sem demasiada força de vontade ou, talvez, desprovido de uma intensa coragem aos atos imprevisíveis, o homem apreendia o mundo dentro da bolha do próprio abrigo. E apenas, via o mundo em preto e branco. Um mundo aguado destituído das cores trovejantes que transformam e delineiam caminhos, à medida que, concediam-lhe significação. Um mundo carente de um olhar humano e este acorrentado nas paragens de um pensar. Mais ainda, um pensar impossibilitado de um nascer pulsante da própria presença e posição – enquanto humano – de ser e não ser. E o mundo que o homem não tinha , num certo dia, revoltou-se. Já não era um mundo colorido e quente, mas, sim, frio e transparente. Em um mundo transparente e privado de cores, o dito homem dormiu e sonhou. “Já não era homem e nem tampouco sombra, era vulto. Raivoso e preso em vazios, inevitavelmente, o vulto cobiçou, cobiçou vidas mais o prazer e a falta que outrora não soube proclamar, não soube enunciar.” Ao acordar, um silêncio agonizante cindia seu olhar. Um silêncio gesticulado no qual as palavras não entonavam suas próprias significações. Um silêncio detentor de decadências, onde o vulto que não era homem se petrificou. Perdido entre o próprio não pensar e o mundo moribundo e, sob os resquícios da cobiça, o vulto urrou para além ar. Urrando e farejando o ar, o vulto que tinha sido um homem, tampouco era mais vulto. Em falta e pela falta, o que tampouco era vulto, era bestialidade, inevitavelmente, era guerra.
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Citação: Sigmund Freud - O mal-estar na civilização (cap. 5).
Leitura extra (Livro): Simone de Beauvoir - Memórias de uma moça bem comportada.
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Caim e Abel - Google
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"Amo mais do que posso e, por medo, sempre menos do que sou capaz ..”
Lembro-me que, em A Moreninha, Joaquim Manuel de Macedo, costumava conceituar o amor como um demoninho doido, esbravejante – cuspindo fogo, talvez - e, a todo momento, transtornava o coração inocente dos apaixonados com atos ora impulsivos e desatinados, ora intrépidos até. E constantemente, Eros era aclamado – não pelos mais quistos adjetivos, claro – e sim, pelos muitos desatinos e infortúnios que o ser humano vivenciava e praticava conforme uma percepção conturbada de amor, de amor. É certo que, nesse momento, inexistia o deus Eros – em socorro das aflições e lamentações amorosas - e esgueirava-se o fato que, não sendo um deus, agora, era um demônio, lançando maldições em atos temorosos aos rejeitados pelo amor, pelo outro. Ora, e a dor de amar não se extinguiu por calúnias, por fantasias. Mais ainda, a dor de amar não se extinguiu por superinvestimentos exacerbados dirigidos ao outro – ponto de desejo do ser apaixonado-. A dor de amar existe, sempre existiu, e acompanha o homem desde sua jornada inicial e, continuamente, insatisfeita, pelo mundo.
“Quanto mais se ama, mais se sofre.” Evidentemente, uma verdade complexa, uma verdade inerente ao amor, inerente sim ao humano. Uma verdade que perpassa o corpo, transgride o espaço imaterial e traça um rasgo em caminho ao psíquico. Uma verdade que, constantemente, desencadeia uma angústia para além da sensação perceptiva de uma agressão física na carne. Uma verdade precedente ao sofrimento interior, onde perfurações invisíveis irrompem pelas entranhas e gritos ensurdecedores se emergem mediantes dilacerações. Exagero? Claro que, não. A dor de amar acompanha um caos no qual o principio de prazer sofre um abalo. A dor de amar – a dor psíquica – corresponde ao afeto resultante de uma ruptura sem aviso, repentina, de um laço que se tem com o ser ou a coisa amada. E com tal ruptura, o Eu percebendo o próprio transtorno da situação em que se encontra, ou seja, o enlouquecimento das tensões pulsionais, traduz na consciência a mais viva e atroz dor interiorizada. Aqui, a dor de amar - a dor psíquica - já corresponde, sim, a dor de um trauma. Pois, inevitavelmente, o Eu reage pela perda - do ser amado - que ele sofre.
“Nunca estamos tão mal protegidos contra o sofrimento como quando amamos, nunca estamos tão irremediavelmente infelizes como quando perdemos a pessoa amada ou o seu amor.” Em meio ao enlouquecimento pulsional gerado pela perda, o Eu, a partir daí, concentra ferozmente suas forças na representação psíquica do ser amado. Uma representação imagética, tão viva, quanto magnificada. Uma representação fantasiada para, assim, compensar a falta do ser – objeto – amado, no real. Entre o desinvestimento pelo mundo externo e o superinvestimento nesse ser amado ausente-presente-fantasiado, o Eu se impõe ao trauma que instiga a própria angústia.
Mas, sim, necessita-se haver um luto. Necessita-se, sim, um desinvestimento ao sofrimento no qual o Eu se encontra e insiste não se desagarrar. Necessita-se um saber e assim, tamponar a falta do irremediavelmente perdido – a pessoa amada -. Necessita-se perpassar esse estado coagulado do Eu, essa permanente luta entre a dor, a recusa e a loucura. Necessita-se, sim, atiçar e reassentar novamente o desejo. E assim, movimentar o inconsciente e, consequentemente, assim, também, movimentar a vida.
Informações Complementares:
Citação 1: Martha Medeiros
Citação 2 e 3: Sigmund Freud - O mal-estar na civilização.
Leitura extra (Livro): A dor de amar - Juan-David Násio.
Imagens: 1 e 2: Pinterest
OBS: Este meu escrito sobre a dor de amar foi publicado no Instagram - @zuleidesvieirapsi -, de forma mais condensada, no dia 08 de Janeiro de 2022. Acrescentei, aqui, apenas, outra imagem para, assim, trazer uma significação mais bacana as ideias escritas e apresentadas.
"Mas – como era antes o meu silêncio, é o que não sei e nunca soube. Às vezes, olhando um instantâneo tirado na praia ou numa festa, percebia com leve apreensão irônica o que aquele rosto sorridente e escurecido me relevava: um silêncio. Um silêncio e um destino que me escapavam .."
|Clarice Lispector|
Numa comum significação, o silêncio – silenciar-se - consiste na interrupção ou privação voluntária ou não, de um ato. Se o silêncio é oral, então, fecha-se a boca. Ou mesmo, de boca aos ares – aberta – há um tamponamento invisível ao qual se anuncia a falta de um por vir. Um tamponamento em que as palavras ficam suspensas ou não existem para se fazer presença. Um tamponamento em que, não há um caminho às palavras para o ar modular. Sim, há o vazio resplandecente ao não possível de si dizer, há o silêncio. Um silêncio esburacando a realidade com seu ato mais sútil, a ausência do que veio ser dito - ou feito -, mas não ficou, não se completou, porque, simplesmente, perdeu-se. Aqui, a falta impõe e expõe gritos mudos, os quais não há letras articuladas e sim, uma suspensão. Uma suspensão tomando seu caminho, contornando corpo e evidenciando formas e, assim, dissolvendo sons. Sons de um vazio, que a angústia ancora e deixa-se ficar, brincar.
Mediante a escuta e o olhar analítico, o silêncio perpassa um mais, um bem mais que palavras na espreita de um esvaziar-se. O silêncio reviravolta um sofrer. Mediante escuta e olhar analítico, o silêncio instiga a evidência do intraduzível, mas, também, a possibilidade de adentrar na significação da dramática e momentânea afonia do sintoma. E sim, o silêncio se institui como um segredo a revelar-se, mas, que, o ato de calar-se, palavra alguma representou-lhe expressão, acomodação. Numa constante entre o dito e o não dito, o silêncio se emerge em corte, onde a respiração diminuta quer se rebelar, entreabrir os lábios ao desvelamento do ar que penosamente torturado ao se deixar mortificar, anseia um caminho translucido, anseia falar. E mais, mediante o olhar e a escuta analítica, provoca-se um deslizar, um querer representar – do analisante -, um saber de inscrição frente aos tramas da pulsão, frente ao próprio desejo e ao objeto de sofrimento.
Não existem palavras sem respostas, nem atos sem significação. E no silêncio que se transborda no espaço analítico, o psicanalista escuta, sim, esse peculiar nada para dizer. O psicanalista escuta, sim, esse corte que se abrange e, inevitavelmente, insiste na ruptura, rescindindo respostas onde, por hora, as palavras não transportam o grito de um anunciar. O psicanalista ao acolher o silêncio seja do analisante, seja do cliente ou paciente reivindica a voz que escapa e, desta forma, convoca um dizer onde as letras exigem sua própria posse e importância para formação da palavra à arte de mais dizer. E, consequentemente, há a vibração no real. O ato transpõe o imaginário e o simbólico e, enfim, profere-se em som. E ao proferir-se um som, há fala. A fala destrava o tamponamento ao mais a dizer, ao mais a evocar. A fala atravessa o corte imperativo do silêncio.
ENTRE A AUSÊNCIA DO QUE VEIO A SER DITO AO MAIS A DIZER
Informações Complementares:
Citação 1: Clarice Lispector
Leitura extra (Livro): O silêncio na Psicanálise - Juan-David Násio.
Imagens: 1 e 2: Pinterest
OBS: Este meu escrito sobre o silêncio na Psicanálise foi publicado no Instagram - @zuleidesvieirapsi -, de forma mais condensada, no dia 05 de Janeiro de 2022. Modifiquei as imagens para, então, trazer uma significação mais bacana as ideias escritas e apresentadas.
"Quanto mais virtuoso o indivíduo, mas severa e desconfiadamente ele se comporta, de maneira que precisamente os que atingem maior santidade se recriminam da triste pecaminosidade."
|Sigmund Freud|
II
Comumente, o sentimento de culpa introduz sua tão indulgente presença ao instaurar um mal-estar ora pela realização de uma ação, ora pelo pensar em realizar tal ação. Uma ação dita, socialmente, como má, vil, perversa .. - e tantos outros adjetivos que dizimam um ato no real – gerando, então, uma inevitável necessidade inconsciente de castigo. Um não tão doce castigo para aliviar o pesar do ato, o pesar do pensar. Um não tão doce castigo atravessado por submissões e imposições. Ora, um não tão doce castigo no qual as enxurradas de ordenações do Super-eu mantém sob à risca a obediência de um Eu masoquista cegamente vinculado ao castigar, ao torturar.
Num regime inquisitivo e onisciente, o Super-eu fiscaliza todo o pensar, agir, falar e calar – consciente ou não - do homem. Sob um regime onisciente e aniquilador, o Eu traça um caminho em vias conflitivas entre os próprios desejos e suas escassas chances de satisfação mais, ainda, o que se pode pegar ou não do admirável mundo externo, em espreita ao olhar e a vontade do outro. Uma vontade e um olhar aos quais o Eu se subjuga pelo medo de desamparar-se. E em desamparo, perde-se o Eu em dependência ao amor e autoridade desse outro que cinde seu viver no registro do padecer.
Informações Complementares:
Citação 1: Autor não quis identificação.
Citação 2 e 4: Sigmund Freud
Citação 3: H.S.
Leitura extra (Livro): O mal-estar na civilização | Sigmund Freud - Companhia das Letras, volume 18, caps. 7 e 8.
Alguns tipos de caráter encontrados na prática psicanalítica | Sigmund Freud - Companhia das Letras, volume 12, caps. 1, 2 e 3.
Leitura extra (Artigo): Sobre o sentimento de culpa. Que culpa é essa? | Denise Maria de Oliveira Lima
O sentimento de culpa e a étipa em psicanálise. | Taís Ribeiro Gaspar
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"Eu já magoei outra pessoa. Me considero um pessoa boa.
Sim, ninguém está livre de não errar ..."
I
“Se há culpa, há o desejo.” Imediatamente, lembrei-me dessa frase dita por uma professora psicanalítica - nas reuniões do estágio universitário, anos atrás - , enquanto ontem, eu lia sobre o sentimento de culpa. Um sentimento implicitamente atrelado ao medo, trazendo um engodo, trazendo um algo de desprazer que assola, danifica, o psiquismo. Um algo de desprazer para além do perceptível incitando um desamparo e, ao mesmo tempo, uma busca de um alivio que, a clínica psicanalítica, possibilitará o enunciar de uma fala para, assim, a angústia escoar. O enunciar de uma fala que transcende o intraduzível numa convocação a ultrapassar as próprias bordas e por tal, transbordando verdades adjuntas ao entoar do sintoma. Verdades incrustadas em carnes, em sangues, onde o simples dizer sobre “mais a dizer do que se sabe” permite um perpassar, permite atos, permite o transpor das impossibilidades.
Mais do que um arrependimento – uma lamentação temporária pelo mal cometido - , o sentimento de culpa se institui historicamente arraigado à marca aniquiladora da consequente agressão parricida. O bando de filhos assassinou o pai imperioso e castrador, e tão logo, demarcando o processo – desenvolvimento – civilizatório. Desenvolvimento este, intricado na fatídica digressão cultural a qual assinala a perda, ou melhor, a renúncia do homem civilizado a felicidade.
Cuidei dela de todas as maneiras. Eu não me contive. Eu não esperei.
|H.S.|
III
Quimeras de prazer - instintual - intricadas ao sentimento de culpa, convida o Eu ao dócil frustrar, ao dócil abnegar. E numa permanente incidência com a própria vontade a satisfação - de um desejo, de uma ação - o Eu buscar contornar as bordas do insustentável visando escapar ao próprio destino que comporta sua sobrevivência. Um contornar pelas bordas que, em meio ao sentimento de culpa, nem se consagra vontades, nem manifestos. Um contornar pelas bordas que, em meio ao sentimento de culpa, alicia um desvariar superegóico para apaziguar forças e necessidades. Um contornar pelas bordas que, em meio ao sentimento de culpa, impele ao Eu brumas pesarosas de intimidação para contenção, para domesticação. Simplesmente, uma dominação.
"[...] o sentimento de culpa é a expressão do conflito de ambivalência, da eterna luta entre Eros e o instinto de destruição ou de morte."
|Sigmund Freud|
OBS: Postei duas partes desse meu escrito no Instagram - @zuleidesvieirapsi -, no dia 08 de Fevereiro, mas o escrito completo estou colocando aqui, agora. Acrescentei uma imagem e outras citações. E, gostei demais do resultado!!!
Ressalto a todos(as)(es) que, o sentimento de culpa, também, anuncia-se por um desejo há muito tempo nutrido, ou seja, por um momento de sucesso ocorrido numa pessoa. Como disse um colega, nesse momento, o sentimento de culpa evidencia àqueles que são arruinados pelo exito.
Gente?! Obrigada pela espera! Obrigada, também, pelos elogios recebidos.