Líderes da Vila Torres relembram as histórias da comunidade.
Zé Cordeiro, atualmente com 60 anos de idade, é comerciante e morador da Vila Torres há 53 anos. Ele relata que começou a se interessar pelo trabalho de liderança comunitária por volta dos 18 anos de idade por incentivo de sua mãe e também sua maior inspiração. Zé enfatiza o orgulho que tem de morar na Vila das Torres e de ter feito parte da construção da comunidade desde o início e deixa claro sua admiração por todas as lideranças comunitárias da Vila.
Por fim, ele fala sobre o seu desejo de ver o acesso à educação democratizado para que todos os moradores possam ter o seu direito de estudar garantido.
Marcos Eriberto dos Santos, conhecido como Marcão, chega à Vila das Torres 52 anos atrás, ainda no ventre de sua mãe. Relembra sua infância, quando haviam na Vila três ou quatro casas de madeira em meio ao campo. Trabalhou puxando papel dos 12 aos 18 anos e, autodidata, conquistou seu diploma do Ensino Médio. Hoje, é formado em Eletrônica e administra seu comércio online de aparelhos eletrônicos que conserta: “a eletrônica se recicla, evolui muito rápido. Talvez seja por isso que eu goste tanto de reciclagem”. Participou como coordenador geral da Agenda 21, série de ações em prol da construção de sociedades sustentáveis, e ministrou cursos de Educação Ambiental na Vila.
Marcão acompanhou a organização da resistência da Vila das Torres à desocupação e sua luta pela regularização. Aos 18 anos, foi convidado a ajudar a Associação de Moradores pela Dona Arminda, então presidente, com quem aprendeu: “A organização muitas vezes vence a truculência”. Lutou ativamente pela regularização da quadra em que mora. Participou de reuniões com a prefeitura e associações dos demais bairros: “quando nos convidavam, a gente ia. Quando não convidavam, íamos do mesmo jeito”.
Em 2009, assumiu a presidência da Associação de Moradores e cumpre 8 anos de mandato. Hoje, é presidente do união vila torres, Time de Futebol federado da Vila. Marcão reitera a necessidade de “colocar a cabeça para fora” e combater a descriminação social através do diálogo: “Ser líder comunitário não é nada mais que viver sua comunidade e falar sobre ela”.
Natural de Ivaiporã, Paraná, Diorlei é Arte Educador da Cultura Afro-brasileira através da música na ONG Passos da Criança, Presidente do Bloco Afro Pretinhosidade e coordenador da banda percussiva Princesas do Ritmo.
A arte sempre esteve ali mas ele não sabia. Aos 16 para 17 anos conheceu a cultura do tambor ao frequentar uma aula de dança afro e reencontrou a percussão nas escolas de samba e terreiros de umbanda. Aos 19, iniciou o processo de aprender ensinando e ensinar aprendendo.
“Trazer os tambores para a Vila não é algo novo. estamos reconectando essa comunidade à sua ancestralidade”, afirma.
Seu trabalho ultrapassa a educação social. Diorlei é íntimo da Vila e prioriza sua relação de respeito e diálogo com as crianças e adolescentes em vulnerabilidade social. “Já não é comum ver um professor negro — começa por aí. Aí você vê um professor negro de turbante, com uma bata afro e contas, as crianças já vem perguntando, e quando a pergunta parte deles, fica mais fácil o diálogo”.
Valdemilson Osório de Campos, conhecido popularmente como Tanaka, tem 45 anos, é mecânico e atua como Presidente da Associação de Moradores da Vila Torres há dois mandatos. O líder comunitário nasceu na Vila e desde muito cedo trabalhou e lutou em prol do bem-estar das famílias da região. Durante a pandemia, Tanaka mobilizou ONGs, igrejas e até a imprensa para a arrecadação de alimentos para a comunidade. Hoje, além de auxiliar e representar a população em suas demandas, ele oferece cursos em sua mecânica que visam a profissionalização de jovens da Vila Torres.
O líder comunitário Esni Alves de Souza, atualmente com 65 anos de idade e morador da Vila das Torres há mais de 30 anos, atuou ativamente na conquista de semáforos para maior segurança dos moradores da comunidade após a morte de uma criança. O líder também auxiliou na regulamentação de casas da vila. Esni enfatiza em sua trajetória como líder comunitário a importância de democratizar o acesso à educação e se orgulha de ter conquistado através da comunicação com a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) algumas bolsas por ano para que os moradores da comunidade possam ingressar na instituição de ensino superior e adentrar o mercado de trabalho.
Maurina Carvalho da Silva, de 67 anos, presidente da Associação de Moradores da Vila Torres, se mudou para Curitiba com 15 anos para escapar da geada negra de 1975 que aconteceu no norte do Paraná. Moradora na Vila Torres há mais de 49 anos, chegou no começo do desenvolvimento da comunidade, fez parte das primeiras lutas e conquistas da vila. Iniciou seus estudos aos 35 anos, de forma independente, trilhou seu caminho até chegar na formação de magistério, graduação em serviço social e pós-graduação em terapia de família. Fez parte do Conselho Tutelar por aproximadamente 20 anos, é presidente do Conselho Local de Saúde e hoje dedica seus esforços a ajudar sua comunidade. Maurina, se orgulha com as conquistas da Vila Torres e sonha com o amadurecimento político e urbanização da comunidade.
Arminda de Faria de Oliveira, 74 anos, moradora há mais de 50 anos na Vila Torres, chegou à comunidade em 1973. Natural de Barbosa Ferraz, se mudou para Curitiba, sem recursos, a fim de tratar de uma doença de um de seus 5 filhos que a acompanhavam. Na busca por moradia Arminda se encontrou na antiga Vila Pinto, onde conseguiu alugar um quarto, arranjar um emprego e cuidar de seus filhos. Fez parte da primeira Associação dos Moradores em 1979 como secretária, foi figura importante na luta pela regulamentação dos terrenos da Vila. Posteriormente, foi duas vezes presidenta da Associação dos Moradores, e junto dos residentes garantiu creches, postos de saúde, luz e encanamento à Vila. Além de organizar mutirões de limpeza e de doação de roupas e alimentos. Apesar das dificuldades, criou seus filhos e participou ativamente na luta por moradia. Arminda, além de ser figura histórica no bairro, tem muito orgulho da Vila Torres e de tudo que desenvolveu nela. Com mais de 70 anos, nem pensa em morar em outro lugar.
Vídeos: Vitória Smarci; João Pedro Mello; Juliana Barbosa; Alice Lima; Luiza Yasumoto; Beatriz Deschamps; Emily Miquelino; Acervo Museu Da Periferia Vila Torres