Feitiço da vila, uma micro-história
José Carlos Fernandes
A primeira menção nos jornais locais a uma favela, em Curitiba, datam do diário Gazeta do Povo, em 1953. Foi um ano emblemático no estado, pois nele se comemorou o Centenário da Emancipação Política do Paraná. Até então, o estado pertencia à Província de São Paulo. Dada a importância da data, 100 anos de liberdade, a capital se tornou num campo de obras. São do período a criação do Centro Cívico – com a sede dos poderes e num estilo modernista que não muito tempo depois iria ajudar a inspirar o projeto de Brasília. Some-se o Teatro Guaíra e a Praça 19 de Dezembro, conhecida como “Praça do Homem Nu”.
É sintomático que em meio a tantas mudanças na paisagem urbana, a imprensa tenha chamado atenção para o que parecia uma “novidade”. A cidade que ganhava arranha-céus em praças como a Santos Andrade e General Osório, endereço dos endinheirados, era também a cidade que começa a ver hordas de miseráveis andando pelas ruas, recolhendo garrafas para vender e esmolando em companhia da família.
O tom das primeiras reportagens sobre a favelização era dúbio. De um lado, os jornais faziam campanhas, em especial em datas cívicas, para ajudar os mais pobres. As fotos eram dramáticas e os textos, piegas. De outro, em tom higienista, repórteres acusavam os “recém-chegados” de transmitirem doenças, de “mexerem com as moças” e de praticar atos obscenos em público, “na calada da noite”. Havia o medo expresso de que Curitiba se tornasse um Rio de Janeiro.
Foi nesse contexto confuso que a então “Favela do Capanema” começou a ser estigmatizada. E a ponto de que duas décadas depois os moradores das áreas oficiais do bairro mudassem o nome do local para Jardim Botânico. Paralelo, o lado marginalizado do Capanema crescia a cada nova geada ou queimada que assolavam os cafezais do interior. Há quem diga que a cultura do “ouro verde”, como se dizia, representa o maior desmatamento em escala da história da humanidade. Derrubavam-se as perobas para plantar café numa velocidade diabólica. Brasileiros dos estados do Nordeste e do Sudeste eram atraídos pela oportunidade de trabalho nas fazendas, mas as intempéries contínuas os expulsavam em direção do Primeiro Planalto, em direção da cidade grande.
Restava para esses migrantes sem-terra ocupar as margens do Rio Belém, onde se instalou a Favela do Capanema; e as margens do Córrego Guaíra, no qual nasceu a provável segunda área de ocupação da cidade, a Vila Parolin (situada no chamado Parolin de Baixo). Nas margens do Rio Barigui surgiu outra comunidade marcada negativamente, o chamado “Inferninho” do Santa Quitéria, hoje totalmente integrada ao bairro.
Entre os anos 1970 e 1980, o Capanema não só inflou – em especial depois da Geada Negra de 18 de julho de 1975, um evento climático que devassou em definitivo os cafezais, atraindo milhares de “nortistas” empobrecidos para Curitiba –, como selou o desaparecimento da comunidade. Um projeto de desfavelização à moda “era Lerner” retirou morador a morador do Capanema, num processo de gentrificação que os levou para as divisas de bairros como Cajuru, Uberaba, Xaxim, Novo Mundo e Cachoeira.
O Capanema virou o Jardim Botânico – cartão postal da cidade -, mas sobrou um “fiapo” da comunidade antiga, nas margens exatas do Rio Belém. Era apelidada de “Vila do Pinto”, ou “Vila Pinto”, numa alusão ao sobrenome de um dos moradores mais amados do local. Na década de 1980, a área sobrevivente da antiga favela começou a se notabilizar pela organização comunitária, força política, iniciativas cidadãs. Em meados dos anos 1980, num plebiscito, os moradores mudaram o nome para “Vila Torres”, numa alusão às torres de eletricidade que grassam a avenida que divide a comunidade do Jardim Botânico.
A vila não é um paraíso. Sofre com os achaques policiais, com a ação de traficantes, com o olhar torto de parte da cidade. Já se chegou à infâmia de sugerir um muro, escondendo-a dos visitantes que passam pela avenida depois de desembarcarem no Aeroporto Afonso Pena. Mas a vila é bela – tem um primoroso Clube de Mães, administrado pela ativista Irenilda Arruda; Associação de Moradores – em 2024 a cargo do líder Tanaka; e times de futebol, orquestrados pelo líder Marcos Eriberto dos Santos, o Marcão. Essa lista é longa, variada e surpreendente.
A “Torres” desafia o noticiário policial. Foi objeto de três livros reportagem, palco de documentários assinados pelo respeitado cineasta Luciano Coelho; e abriga hoje grupos de percussão como o Afropretinhosidades e o Princesas do Ritmo. Sua ONG Passos da Criança é modelar. Tem biblioteca com seis mil livros recolhidos do lixo, pois, estima-se, 30% dos 6,5 mil moradores vivem da reciclagem. Parte considerável da fama da “Capital Ecológica” se deve aos carrinheiros da vila. Já seria o bastante para que, por que não?, fosse visitada pelos brasileiros e estrangeiros que se deslumbram com as belezas do Jardim Botânico.
Esse dia vai chegar.