Você já percebeu que, às vezes, seu corpo reage a uma situação antes mesmo de a sua mente entender o que está acontecendo? O coração acelera. A respiração muda. Ou você trava, a mente esvazia, e surge aquela sensação de desligar por dentro.
Isso não é falta de força de vontade, nem "coisa da sua cabeça". É o seu sistema nervoso participando ativamente da forma como você sente e responde ao mundo.
A Teoria Polivagal foi desenvolvida por Stephen Porges, pesquisador cuja trajetória reúne psicologia, neurociência e biologia evolutiva. Ele é professor e pesquisador de destaque na Universidade de Indiana, onde dirige o Consórcio de Pesquisa em Estresse Traumático do Kinsey Institute. Sua pesquisa investiga, entre outros temas, como o sistema nervoso participa das respostas ao estresse e ao trauma.
Deb Dana, psicóloga, terapeuta e cofundadora do Polyvagal Institute, teve um papel importante em tornar os conceitos da Teoria Polivagal mais acessíveis à prática clínica. Seu trabalho busca traduzir essa perspectiva para a compreensão do trauma, dos relacionamentos e das experiências cotidianas, desenvolvendo também ferramentas e práticas voltadas à regulação e à percepção de segurança.
Na perspectiva da Teoria Polivagal, o corpo organiza suas respostas em três estados principais. Quando nos sentimos seguros, ficamos disponíveis para conexão, conversa, descanso, para estar de verdade com alguém. Diante de uma ameaça (que pode ser uma discussão, uma cobrança, até uma lembrança), o corpo entra em alerta: o coração acelera, a respiração muda, é o conhecido estado de luta ou fuga. E quando esse alerta dura demais, ou é grande demais para o corpo sustentar, pode surgir um terceiro estado, o de desligamento: um cansaço que não passa, vontade de se recolher, dificuldade de sentir qualquer coisa.
Essas respostas não passam por uma escolha consciente. Esse processo de "escanear" o ambiente em busca de sinais de segurança ou perigo, sem depender do seu pensamento racional, tem até nome na ciência: neurocepção. É o conceito utilizado pela Teoria Polivagal para descrever como o sistema nervoso detectaria, de forma não consciente, sinais de segurança ou ameaça.
É por isso que, às vezes, você sabe com a razão que está tudo bem, e mesmo assim o corpo continua em alerta. Ou entende a situação, mas sente dificuldade em relaxar, se conectar, simplesmente estar presente.
No meu trabalho, uso essa abordagem como uma lente para olhar a relação entre corpo, emoções, ambiente e vínculo. Minha função não é te convencer a "pensar diferente" sobre o que você sente. É te ajudar a reconhecer, momento a momento, em qual desses estados seu corpo está, e, aos poucos, construir caminhos reais (não só racionais) de volta para esse lugar de segurança e conexão. Isso acontece através da respiração, da voz, do olhar, do movimento, do vínculo que a gente constrói ao longo do processo, e também de práticas que ajudam o corpo a desacelerar de verdade, não só a mente.
É nesse ponto que a Yoga Restaurativa também entra no meu trabalho: com posturas sustentadas por almofadas e outros apoios, seu corpo pode descansar de verdade, com pouco ou nenhum esforço, criando espaço para desacelerar e permanecer presente.
Não é fórmula rápida nem promessa de transformação imediata. É um processo de reconhecer, praticar e construir, aos poucos, novos recursos para o seu sistema nervoso, ampliando a capacidade de reconhecer e experimentar segurança.
Se alguma coisa aqui fez sentido para você, talvez seja um bom momento para a gente conversar.
"Quer entender mais a fundo como seu corpo faz essas leituras automaticamente? Veja o texto sobre Neurocepção e Interocepção." Neurocepção e Interocepção