Espiritismo e Reforma Íntima
Rino Curti
Edições FEESP
Este livro, rapidamente esgotado na sua primeira edição, ressurge algo modificado na segunda, quanto à finalidade e à forma.
Em primeiro lugar, junto ao livro “Espiritismo e Evolução”, passou a constituir parte do Curso Básico, introdutório a qualquer outro curso da FEESP, como primeiro volume, enquanto aquele é o segundo.
Em seguida foram explicitadas a bibliografia, fontes para leituras complementares e perguntas, aperfeiçoando-lhe a feição de forma a melhormente facilitar os textos de estudo.
No Capítulo II, da 2.a edição, foi introduzido um complemento para maior e melhor esclarecimento dos temas Deus, Espírito e Matéria, do ponto de vista doutrinário, diante das dificuldades que oferecem à sua compreensão as seculares concepções de caráter mitológico-antropomórfico, as dogmático-religiosas, ou ainda as metafísico-filosóficas. Isso foi feito no sentido de atender a valiosas sugestões, porém, de forma a não alterar o aspecto sumamente introdutório e sintético da exposição, que meramente objetivou fundamentar outros esclarecimentos subsequentes, informando melhor e situando as questões de maneira mais acessível.
Finalmente, introduzimos algumas práticas de Renovação Intima, tendo escolhido, dentre as diversas obras existentes, o livro "Sinal Verde”, de André Luiz, recebido pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, procurando oferecer, tão logo fosse possível, técnicas de aperfeiçoamento, finalidade básica do Espiritismo que, buscando esclarecer melhor, objetiva contribuir para a edificação de um mundo melhor, onde a fraternidade e o amor sejam encarados em novas dimensões.
Este livro tem por finalidade expor a Doutrina Espírita e suas consequências, nos seus princípios básicos e conceitos fundamentais, com o intuito de esclarecer aqueles que dela se informam pela primeira vez.
Antes de tudo, necessário se faz que elucidemos o significado dos termos Espiritismo e Espírita.
Para isso devemos lembrar que, questão primordial, nos diversos ramos do conhecimento, é a escolha de termos adequados para a designação de conceitos novos.
Em geral aqueles de que se dispõe no vocabulário geral têm uma acepção já consagrada, com um conteúdo que não se lhes ajusta, por falta ou por excesso, dificultando a tarefa. Assim sendo há que se recorrer à criação de termos novos, com o significado acertado por meio de definição.
Foi por esse motivo que Kardec criou as palavras Espiritismo e Espírita, para designar, respectivamente, a Doutrina por ele codificada e seus adeptos. E elas não podem ser estendidas a outros credos, justamente por isto: pela diferença de conteúdo.
Espírita é um atributo que subentende várias qualificações:
1.°) a de se ter conhecimento da Doutrina Espírita como teoria explicativa dos fenômenos mediúnicos, de cunho científico, filosófico e religioso, fundamentada nos fatos, com princípios ditados pelos Espíritos e elaboração iniciada por Kardec, dando origem a uma nova concepção do mundo, da razão de existir e do destino dos seres;
2.°) a de se adotar e pôr em prática os conhecimentos acima indicados numa reforma íntima e pessoal, que se constitui do exercício dos princípios evangélicos e normas de conduta cristã, restabelecidos na sua pureza e esclarecidos pela nova Revelação, ponto culminante da transformação do indivíduo em espírita. É nessa realização prática, sob a regência da lei pela qual a vida dá a cada um na exata medida do que ele lhe der, fazendo-o construtor do próprio destino, que o homem descobre em si todas as possibilidades e verifica ser ela o fator primordial de sua evolução.
Daí a importância que se dá à reforma íntima e a razão de seu destaque no título deste livro.
A obra divide-se essencialmente em duas partes: a primeira, expondo em largos traços os fundamentos, os princípios básicos e a própria Doutrina, como alicerce de toda a argumentação; a segunda, desenvolvendo a noção de reforma íntima e explicando a necessidade de sua realização.
No seu todo a obra constituir-se-á de uma síntese da Doutrina nos seus três aspectos de Ciência, Filosofia e Religião — UMA INTRODUÇÃO AO ESPIRITISMO — apta a construir, para o iniciante, uma primeira visão do que ela seja.
Será objeto desta primeira parte dar sucintamente uma visão da Doutrina Espírita, descrevendo-lhe:
— O caráter,
— a concepção acerca do homem e do mundo,
— as noções de percepção sensorial, extra-sensorial e de mediunidade,
— a moral e as noções religiosas.
Estes, inclusive, serão os capítulos em que ela será subdividida. Com isto, visa-se esclarecer ao leitor interessado o posicionamento da Doutrina em relação ao conhecimento atual e os fundamentos para um estudo mais aprofundado ao despertar-se-lhe o interesse.
Exposição mais ampla, embora ainda de caráter introdutório, é a de Allan Kardec em [1].
Neste capítulo procuraremos mostrar como o Espiritismo se constitui num conhecimento de caráter teórico-experimental: Faremos a distinção entre conhecimento dogmático e científico. Mostraremos de que maneira o Espiritismo se afirmou e se constituiu em CIÊNCIA, FILOSOFIA e RELIGIÃO.
1.1 — Objeto do Espiritismo
Em primeiro lugar, o Espiritismo estuda os fenômenos espíritas: a telepatia, a vidência, as profecias, a evocação dos mortos, o movimento de objetos sem causa física observável, os chamados milagres e uma série de outros fenômenos, citados em todos os tempos, relatados por lendas, nas religiões e nas ciências ocultas. Estuda-os e investiga suas leis: é ciência de caráter teórico-experimental [2]. Cap. 1.° n.° 14 — "É pois rigorosamente exato dizer-se que o Espiritismo é uma ciência de observação".
Em segundo lugar, como consequência, estabelece nova forma de atacar os problemas filosóficos; reformula as noções religiosas: é uma doutrina de caráter filosófico e religioso.
É Ciência, Filosofia e Religião.
1.2 — Conhecimento dogmático e conhecimento científico (teórico-experimental)
Para melhor explicar o que se disse no item anterior, faz-se necessária uma pequena incursão na teoria do conhecimento.
O pensamento científico, tal como é concebido hoje, iniciou-se com Galileu, que o fundamentou na observação e experiência. Antes dele, considerava-se válida toda e qualquer conclusão obtida por raciocínio, a partir de algumas supostas verdades, sem o aval da experiência.
A ciência era dogmática, tal qual fora estabelecida pelos gregos. Nestes podemos distinguir entre ciências matemáticas, de um lado, e ciências da natureza, do homem, de Deus, da alma, etc., de outro.
O conhecimento matemático foi desenvolvido pela definição e pela dedução, a partir de indefiníveis (não se pode definir tudo) e a partir de proposições indemonstráveis (não se pode demonstrar tudo). Qualquer conclusão obtida a partir dos postulados, por dedução, era tida como verdadeira.
Os gregos elegeram a matemática como modelo de todas as ciências. Toda doutrina da natureza, do homem, ou metafísica (de Deus, da alma, etc.) construída por este modelo, é dita dogmática; as proposições fundamentais (as equivalentes aos postulados da matemática) denominam-se dogmas. (Nas religiões os dogmas foram estabelecidos na interpretação de suas revelações.)
Cedo verificou-se que, fora da matemática, o modelo era inadequado.
Por exemplo, é da experiência comum que um metal aquecido dilata e que a dilatação é proporcional aos acréscimos de temperatura. Limitadamente a esta verificação poder-se-ia validar a seguinte proposição: podemos aumentar o comprimento do metal tanto quanto se queira, desde que aumentemos a temperatura correspondentemente.
Para um dogmático a proposição seria verdadeira; para um físico a proposição o seria desde que, ou depois de confirmada pela experiência. E a experiência não a confirma. A uma certa temperatura o metal funde e a proposição só é válida dentro de certos limites.
Tais considerações e resultados validaram o conhecimento feito nos moldes da física como o modelo de todo saber seguro: teórico-experimental.
Toda doutrina, qualquer que ela seja, construída sobre este modelo, é dito teórico-experimental. Enquanto as proposições fundamentais de uma doutrina dogmática são denominadas dogmas (científicos, filosóficos ou religiosos), as de uma doutrina teórico-experimental são denominadas leis ou princípios fundamentais.
O dogmatismo foi banido de todas as ciências, primeiro da física e depois das outras, progressivamente, num processo que se completa em nossos dias. (As ciências só progrediram depois que se tornaram teórico-experimentais.) Neste século foi banido das matemáticas, com a descoberta das geometrias não-euclidianas e com a constituição da matemática moderna. Pelo mesmo motivo e com o trabalho de Godel, relativo à axiomática, foi banido da filosofia. Com o Espiritismo, ele é banido da religião.
No dizer de Flammarion, o aparecimento do Espiritismo é o fim dos dogmas religiosos [3]. (Discurso que Camille Flammarion...)
1.3 — O estudo dos fenômenos espíritas: Histórico
O estudo teórico-experimental dos fatos espíritas iniciou-se com Mesmer e sua teoria do magnetismo animal (1779). Dizia ele existir um fluido que interpenetrava tudo e que dava, às pessoas, propriedades análogas àquelas do ímã. Afirmava, ainda, que a falta do mesmo em algum órgão era causa de doenças. Dirigindo este fluido, pelo passe, poder-se-ia restabelecer o equilíbrio e efetuar a cura. Dedicando-se à cura por este processo, teve estrondoso sucesso, o que provocou enorme celeuma e investigação.
Em 1787, o marquês de Puysegur descobre o sonambulismo. Em 1841, Braid descobre o hipnotismo. Charcot o estuda metodicamente; Liebault o aplica à clínica; Freud o utiliza ao criar a Psicanálise.
Em 1847, em Hydesville, a família Fox, numa casa que passara a habitar, depara-se com ruídos, sons, batidas, que ali se produziam. A jovem Kate Fox estabelece comunicação com a causa que se declara espírito e afirma ter sido assassinado naquela casa por um antigo inquilino, que lhe queria o dinheiro. Mais tarde, descobriram-se os ossos e uma lata do mascate, ficando comprovado o assassinato.
A prática dos fenômenos se difunde rapidamente: mesas girantes, pancadas, movimento de objetos, manifestações inteligentes, visuais, auditivas, de escrita, etc., encerrando as mais variadas comunicações, sobre os assuntos mais diversos, através de pessoas — médiuns — que afirmam serem elas provindas de espíritos. Denizard Hyppolyte Leon Rivail, professor universitário, educador, autor de obras de gramática, cálculo, aritmética, questões literárias e filosóficas várias adotadas pela Universidade de França, dedica-se ao estudo desses fenômenos e termina por instituir, sob o pseudônimo de Allan Kardec, o ESPIRITISMO. Nele se reconhecem: a existência dos espíritos, a sobrevivência dos mortos, sua comunicação com os vivos.
Estabelece-se a doutrina dos espíritos — a doutrina ditada por eles [4] — Prolegômenos). Fixa-se novo código moral, nova revelação, uma renovação dos ideais cristãos e um primeiro esforço para o estudo científico dos fenômenos.
1.4 — As hipóteses e as teorias acerca dos fenômenos espíritas — Histórico
Ciência e Religião têm que manifestar-se.
A religião opõe-se ao Espiritismo com atitude dogmática, inadequada para a explicação de fenômenos, qualquer que seja o campo que se considere. A ciência se opõe por vários motivos:
1.o) a ciência não havia constatado, ainda, que se pudesse ter percepções a não ser pelos sentidos comuns. A mediunidade, com a qual se pretende o contrário, contrastava com a sua experiência existente;
2.o) entendia ela que as leis físicas eram leis gerais da natureza e que todo e qualquer fenômeno deveria ser explicado por elas. E tais fenômenos, por elas, são absolutamente impossíveis;
3.°) a sobrevivência e a comunicação dos mortos não são fatos constatáveis pelos sentidos. Sua afirmação era tida do domínio religioso: preconceitos religiosos. Ciência e Religião concluem, novamente, que tudo não passa de mera imaginação.
Às investigações de Kardec somam-se as de vários cientistas de grande nomeada: de Crookes, Wallace, Lodge, Richet, Delanne, Denis, Flammarion e outros, todos eles contribuindo para o engrandecimento e a divulgação da Doutrina, da qual se declaram adeptos.
Outra tentativa científica estabelecida por Richet — A Metapsíquica — não se firma, mas prepara o advento da Parapsicologia — a versão científica atual de tais estudos e com resultados já universalmente aceitos.
A Parapsicologia conclui pela existência dos fenômenos, antes negados. Comprova a existência da telepatia, da clarividência e da premonição, que denomina, conjuntamente, de Percepção Extra-Sensorial. Quanto à explicação, confirma que ela não pode ser dada pelas leis físicas conhecidas (antes, por estas são absolutamente impossíveis) e que são regidas por leis ainda desconhecidas. Suas teorias não ultrapassaram ainda o estágio da formulação de hipóteses.
1.5 — Espiritismo: Ciência, Filosofia e Religião
Os resultados do Espiritismo são mais amplos. Além da telepatia, da clarividência e da premonição, afirma a existência de outras percepções (clariaudiência, percepções olfativas, etc.), que revelam o mundo espiritual, colocando-nos em comunicação com ele, e agrupa todas sob a denominação de mediunidade.
A existência do espírito e a sua sobrevivência são alcançadas de várias formas. Por exemplo: pela clarividência.
A clarividência é a percepção de um objeto por sensitivos, via mental, sem a mediação do órgão visual. Experiências com objetos e cartas levam à conclusão de sua existência, na própria Parapsicologia. Em outras experiências, os videntes dizem estar se comunicando com pessoas vivas distantes e com pessoas que já faleceram. Isso leva à formulação das hipóteses da sobrevivência e da comunicação do espírito que, dessa forma, surgem espontâneas da experiência — não de percepções sensoriais, mas de percepções mediúnicas (extra-sensoriais).
Sobre elas estruturou-se o Espiritismo de forma teórico-experimental. ([2] — Cap. 1.º).
Numa comparação podemos estabelecer as diferenças entre o conhecimento espírita e o das ciências naturais.
O conhecimento nas Ciências Naturais
O conhecimento no Espiritismo
1 - Fundamentados na observação e experiência — na percepção sensorial — formulam-se HIPÓTESES.
1 - Fundamentados na observação e experiência mediúnicas — na mediunidade — formulam-se HIPÓTESES.
2 – Sobre as hipóteses estabelecem-se, dedutivamente: CONSEQUÊNCIAS (válidas para ambos)
3 – As consequências serão aceitas como verdadeiras, se confirmadas pela observação e experiência — pela percepção sensorial.
3 – As consequências serão aceitas como verdadeiras, se confirmadas pela observação e experiência mediúnica — pela mediunidade.
O procedimento é idêntico. A diferença consiste na natureza das percepções consideradas. Desde que fique certificado que as percepções sensoriais e as percepções mediúnicas têm a mesma validade, o conhecimento é igualmente válido.
Assim sendo, o Espiritismo é Ciência de caráter teórico-experimental.
Para ele, a existência, a sobrevivência e a comunicação dos espíritos é fato comprovado.
A Doutrina se firma. Sobre seus dados desenvolve-se nova forma de atacar os problemas filosóficos: constitui-se nova filosofia. Instaura-se nova conceituação para os problemas morais e as noções religiosas: repõe-se a religião sobre novas bases. Renova-se o conhecimento moral e religioso. É codificada por Kardec e sua exposição é apresentada nos cinco livros da codificação:
O Livro dos Espíritos (1857)
O Livro dos Médiuns (1861)
O Evangelho Segundo o Espiritismo (1864)
O Céu e o Inferno (1865)
A Gênese (1868)
a) Bibliografia
[1] Allan Kardec — O que é o Espiritismo.
[2] Allan Kardec — A Gênese.
[3] Allan Kardec — Obras Póstumas.
[4] Allan Kardec — O Livro dos Espíritos
b) Leituras Complementares.
[1] Cap. 1.º.
[2] Introdução e Prolegómenos.
c) Perguntas.
1) O que significa teórico-experimental?
[1] Allan Kardec — O que é o Espiritismo.
2) Qual a diferença entre conhecimento dogmático e conhecimento teórico-experimental?
3) E o Espiritismo dogmático?
4) Qual é o papel dos Espíritos na elaboração da Doutrina? (Vide [1] Cap. 1.º).
5) Qual a diferença entre os resultados da Parapsicologia e do Espiritismo?
d) Prática de renovação íntima.
André Luiz — "Sinal Verde”.
Estudar e pôr em prática o Cap. 1.º.
OBSERVAÇÃO
Na resposta às perguntas, o aluno não deve ater-se exclusivamente ao texto. Ele próprio deverá, por exclusiva iniciativa, pesquisar na literatura espírita e responder tão exaustivamente quanto possível.
Neste capítulo mostraremos quais as noções de Deus, espírito e matéria no Espiritismo. Diremos ainda das leis fundamentais: a da evolução e a da reencarnação; como elas se processam e como delas resulta a formação do perispírito ou corpo espiritual, o meio pelo qual o espírito fixa suas conquistas e suas possibilidades de se relacionar com o meio que o circunda. Veremos ainda que a evolução é dos espíritos, pela lei do trabalho, nas realizações da co-criação e que, em função dela, existem em diversos graus evolutivos.
Por último poremos uma sua classificação, feita por Kardec, tendo por critério o grau de desenvolvimento dos mesmos.
2.1 — Deus, Espírito e Matéria ([1])
O Espiritismo parte dos dados da observação e da experiência que nos colocam diante de dois princípios: um princípio inteligente — o espírito; e um princípio material — a matéria, sem que possamos reduzi-los um ao outro; porém, ambos governados por leis naturais, sujeitos a causas subordinados à lei de causa e efeito (é o pressuposto da ciência ao estudá-los), subordinados, portanto, a um terceiro princípio: o princípio das causas.
Pois bem: ao princípio das causas denominamos Deus — do qual tudo se origina, tudo depende; que é para nós inatingível, inabordável em termos de conhecimento, por sermos destituídos do sentido que o possibilitaria ([1] — Cap. I; [2] — Livros: 1.° — Cap. II; 3.o — Cap. I).
A matéria e o espírito, como princípios, têm origens para nós desconhecidas: se existem de toda a eternidade ou se foram criados por Deus, não o sabemos (vide Complemento)[2]. Apenas, por meio de sua vontade de ([2] L. 1.º; Cap. 1, pág. 38), manipulando os dois princípios, de forma para nós totalmente desconhecida, Deus criou o Universo — todos os seres — governando-o através de seu pensamento, o meio pelo qual ele exerce sua ação.
Esta noção nega o panteísmo ([2] Livro 1.° — Cap. I — Subcapítulo IV).
Embora não possamos conceber Deus, podemos conhecer alguns de seus atributos: infinito, eterno, imutável, imaterial, único, soberanamente justo e bom ([2] Livro 1.o — Cap. I, pag. 12, 13).
2.2 — O Espiritismo como ciência
Em tudo isso, entretanto, não se deve entender que o Espiritismo estabeleça posição metafísica acerca de tais conceitos. Não é um sistema metafísico com pretensões a esclarecer, racionalmente: Deus, o Espírito, a Matéria, o Universo, entes que estão fora do nosso alcance, como nele se diz repetidamente. Ele apenas afirma que a criação está subordinada à lei de causa e efeito e que, portanto, podemos estudar as leis que a governam pelo método científico ([1] Cap. 1.º). Seu valor está na descoberta do sentido — a mediunidade — que nos fornece percepções relativas aos espíritos e ao mundo espiritual (incluindo a percepção extra-sensorial) e que os coloca como partes da criação. Mostra-os subordinados à lei de causa e efeito, governados por leis naturais, que podemos determinar com processo análogo àquele utilizado nas ciências da natureza: o método teórico-experimental. Traz o espírito e o mundo espiritual à esfera do conhecimento e ele próprio se afirma ciência, cujo objeto essencial, no dizer de Kardec, é o conhecimento das leis do princípio espiritual.
Seu objetivo fundamental não é a determinação de objetos metafísicos: Deus, espaço, tempo, substância, etc. mas é, sim, a determinação das leis que nos governam, com o fim útil de que aprendamos a nos conduzir ([1], Cap. IV, n.º 16).
2.3 — O perispírito ou corpo espiritual. Centros de força.
Os espíritos, mesmo no plano dos desencarnados, têm corpo; o perispírito, segundo Kardec, ou corpo espiritual, segundo André Luiz.
É nesse corpo que se estruturam os meios pelos quais o espírito se exprime, por evolução, segundo o grau de desenvolvimento alcançado. A atividade, a acomodação, as experiências vividas, o conhecimento que gradualmente alcança, são os elementos que, segundo leis naturais, desenvolvem "todo o equipamento de recursos automáticos que governam bilhões de entidades microscópicas, a serviço da inteligência" ([3] Cap. II).
A mente, por impulsos, estabelece o comando de que depende todo o comportamento fisiopsicossomático do indivíduo, através de centros de força, relacionados entre si. Temos assim:
O coronário — na região central do cérebro, sede da mente, regendo a atividade funcional dos órgãos. Assimila os estímulos do Plano Superior, orienta a forma, o movimento, a estabilidade, o metabolismo orgânico e a vida consciencial da alma encarnada ou desencarnada. Supervisiona ainda os outros centros, todos interligados a ele e entre si.
O cerebral, contíguo ao coronário, governando o córtice encefálico na sustentação dos sentidos, a atividade das glândulas endócrinas e do sistema nervoso.
O laríngeo, que controla a respiração e a fonação.
O cardíaco, dirigindo a emotividade e a circulação das forças de base.
O esplênico, para as atividades do sistema hemático.
O gástrico, para a digestão e absorção dos alimentos.
O genésico, guiando a modelagem de novas formas ou o estabelecimento de estímulos criadores, com vistas ao trabalho, à associação e à realização entre as almas.
São estes centros que imprimem especialização às células, entidades microscópicas, seres em estágio inicial de evolução, como seres vivos e que, postas a serviço dos seres mais evoluídos, lhes constituem a veste de exteriorização ([3] Cap. II).
2.4 — Leis da evolução e da reencarnação
O espírito humano, desencarnado, é um ser completo: nós mesmos com outro corpo, nova veste. Vive uma vida que é mera continuação desta e a tal ponto semelhante que muitos desencarnados sequer se apercebem de seu novo estado — não se lhe alteram as concepções, a compreensão, o entendimento; permanecem-lhe as sensações e o pensar; possuem corpo pelo qual se exprimem e continuam submetidos às leis do aprendizado, para evoluir.
As células constituem os seres vivos mais rudimentares — associação de espírito e matéria. A evolução se processa com o ingresso no reino vegetal para, a seguir e sucessivamente, continuar pelo reino animal e reino hominal, com origens e fins a nós desconhecidos. (Para André Luiz, já no reino mineral o espírito está associado à matéria.)
Para alcançar a idade da razão, dos seres monocelulares à civilização elementar do sílex, o espírito teria empregado um bilhão e meio de anos ([3] Cap. III).
A lei da evolução é princípio fundamental do Espiritismo. Outro é a lei da reencarnação, parte do processo evolutivo: uma contingência instituída pela natureza, imprescindível, necessária, uma bênção, ao contrário do que afirmam outros credos reencarnacionistas, para os quais ela é uma queda, um desvio do estado natural em Deus, pelo afeiçoamento do espírito às coisas materiais, entendida a matéria como fonte de todos os males.
Para o Espiritismo a vida é uma só e se desenvolve alternadamente em planos diversos. A matéria não é nem um mal nem um bem; é meio, ferramenta, útil para o desenvolvimento do espírito, segundo desígnios para nós imperscrutáveis.
O espírito sempre está associado a ela pelo corpo e sempre a manipula. No corpo realiza uma construção, uma urdidura de recursos feita à custa de milênios de esforço, experiência e aprendizado: o veículo através do qual ele se exprime em manifestação incessante. Uma conquista, portanto, e não uma aquisição má.
O espírito está sempre associado a um corpo material, seja no plano dos desencarnados ou no dos encarnados: o que se diferencia é o estado diferente de condensação da matéria que os constitui. A construção, a urdidura de recursos que vai desenvolvendo com o tempo e que lhe permite manifestação cada vez mais ampla, segundo as conquistas que realiza, constitui patrimônio permanente, indestrutível, inalienável, infenso a toda ação diminuidora, que carreia consigo e desenvolve em qualquer plano em que se situe. O corpo físico é o reflexo do corpo espiritual, pura veste, simples veículo, mas o testemunho inconteste de nossa posição evolutiva, nunca a demonstração de uma queda. ([2] Livro Segundo — Cap. II)
O que o espírito estrutura e desenvolve efetivamente é o corpo espiritual. Daí não ser possível, neste plano, conhecer todas as suas etapas evolutivas, todos os seus elos de transformação: vários são efetuados no plano dos desencarnados, não havendo deles vestígio em nosso plano. ([3] Cap. III)
Quanto à manipulação, ele a efetua em obediência à lei do trabalho: os espíritos menores, no âmbito de suas possibilidades planetárias; os espíritos maiores, no âmbito de suas possibilidades galácticas, pelo trabalho.
Todos os espíritos trabalham, operam no cosmos e atuam na matéria, conduzindo as suas transformações, segundo leis naturais existentes, presidindo a "criações temporárias, que utilizam para o seu desenvolvimento e sua evolução” (André Luiz).
A evolução dos espíritos está subordinada ao trabalho e os há dos mais diversos graus de evolução.
As transformações da matéria, no plano humano, referem-se, em grau menor, à criação de utensílios, vestimentas, apetrechos e outros objetos, para facilitar a satisfação de suas necessidades imediatas. Num estágio mais avançado, o homem atua sobre a superfície terrestre, presidindo a transformações mais amplas, para a produção de energia, fertilização do solo, produção industrial, facilidades de locomoção, sempre para alcançar padrões de vida mais altos e satisfazer a necessidades maiores.
Num plano mais alto, os espíritos excelsos presidem à formação de planetas, sistemas estelares, etc... "milhões de lares, nas mais diversas dimensões e feitios, instituídos de há muito, recém-organizados, envelhecidos ou em vias de instalação, nos quais a vida e a experiência enxameiam vitoriosas" ([3] Cap. I).
A primeira denomina-se "co-criação em plano menor"; à segunda: "co-criação em plano maior", co-criação esta, sobre a qual está fundamentado o desenvolvimento das criaturas.
2.5 — Classificação dos espíritos
Kardec, em ([2]; Livro Segundo — Cap. I), faz uma classificação em que o critério é o grau de desenvolvimento que eles apresentam. Segundo este critério, resultam três categorias principais de espíritos:
— de 3.ª ordem — espíritos imperfeitos;
— de 2.ª ordem — espíritos bons;
— de 1.ª ordem — espíritos puros.
Na categoria de 3.a ordem classifica os:
— espíritos impuros,
— espíritos levianos,
— espíritos pseudo-sábios,
— espíritos neutros,
— espíritos batedores e perturbadores,
cujas características gerais são ditadas pela sua proximidade, em termos evolutivos, do estágio animal. São propensos ao mal. Neles predomina a ignorância, o orgulho, o egoísmo e as más paixões.
Na 2.ª ordem classifica:
— espíritos benévolos,
— espíritos sábios,
— espíritos prudentes,
— espíritos superiores,
espíritos mais avançados, em que predomina o desejo do bem. Uns possuem a ciência, outros a sabedoria e a bondade; os mais adiantados somam saber e qualidades morais. Na de 1.ª ordem, finalmente, coloca os espíritos que já se libertaram de qualquer necessidade de ordem material, ultrapassaram o ciclo das reencarnações, de superioridade intelectual e moral total em relação aos outros.
Finalmente, que existam fim e princípio da escala evolutiva, e quais eles sejam, isto é algo para nós desconhecido.
a) Bibliografia.
1 Allan Kardec — A Gênese
2 Allan Kardec — O Livro dos Espíritos.
3 André Luiz — Evolução em dois Mundos
b) Leituras Complementares,
1 Cap. I e IV.
2 Livro Primeiro — Cap. I e II;
Livro Segundo — Cap. I e II.
3 Cap. 1, II e III.
c) Perguntas
1) Qual a concepção de Deus no Espiritismo?
2) Pode o homem conhecer Deus? Seus atributos? Ou quais?
3) Em que sentido, a palavra princípio é empregada no Livro dos Espíritos?
4) Que significa dizer que o Espiritismo é teórico-experimental?
5) Que é o perispírito?
6) Que são Centros de Força? Enumere-os.
7) Explique o que entende por lei da evolução e lei da reencarnação.
8) Que representa a matéria para o espírito?
9) Qual a relação entre corpo físico e corpo espiritual?
10) Como se realiza a evolução do espírito?
11) O que entende por Co-Criação em Plano Menor e Co-Criação em Plano Maior?
12) Qual o critério de classificação dos espíritos adotado por Kardec no Livro dos Espíritos?
13) Compreende a escala todas as categorias de espíritos?
d) Prática de Renovação intima.
André Luiz Sinal Verde.
Estudar e pôr em prática o Cap. 2.
COMPLEMENTO
Desde os tempos mais remotos a matéria sempre foi entendida como o princípio constitutivo dos corpos. Já a noção de alma teve vários significados. Para os espiritualistas "é um ser moral independente da matéria e que conserva a sua individualidade após a morte" ([2], Introdução). Para os espíritas existem os espíritos, os desencarnados, designados em ([2]. Perg. 76), como os seres inteligentes da criação; e, por alma, entendem um espírito encarnado, tendo o corpo por invólucro.
A divindade era entendida, pelo primitivo, como um poder adquirido pelos mortos, superior aos poderes dos homens e que os tornaria capazes de realizar os fenômenos da natureza e tudo que ele não compreendia.
Já no Politeísmo, este poder era tido como exclusividade dos deuses, conforme explicado na Cosmogonia mitológica. Diz esta que, no começo era o "CAOS", pura extensão com MATÉRIA EXISTENTE DESDE TODA A ETERNIDADE. Em um certo momento ter-se-iam originado a Terra e o Amor. A terra teria criado o céu e, da união de ambos, teriam surgido os outros seres, ao acaso, e desordenadamente. Dentre estes surge Zeus, o ordenador do Universo, que instaura a ordem de forma definitiva. [4], Cap. I).
2. A ideia de um Deus único não podia aparecer no homem, senão como o resultado do desenvolvimento de suas ideias. Incapaz, na sua ignorância, de conceber um ser imaterial, sem forma determinada, agindo sobre a matéria, ele lhe havia dado os atributos da natureza corpórea, ou seja, uma forma e uma figura... ([2], Perg. 667). Uma concepção antropomórfica.
Formaram-se várias noções de Deus, ao longo do tempo, de caráter religioso e filosófico ([5], Verbete: "Dio"; [6], Verbete: Deus; [7], Cap. XVIII), atribuindo-lhe todas, em comum, duas qualificações fundamentais: a de causa e de bem. As principais podem ser classificadas em dois grupos: o teísta e o panteísta ([7], Cap. XVIII).
O Teísmo filia-se à noção bíblica — Deus, Criador de tudo que existe e superior à Criação, tendo criado A PARTIR DO NADA ([8], Gênesis 1) e ([6], Verbete: Criação).
A noção é antropomórfica e mitológica, como também o é a de Criador, descrita com "verbos de caráter artesanal... Na criação do homem, Deus aparece como um ceramista... Mesmo na Bíblia, entretanto, estas não são as únicas noções de Deus e de Criador" ([6], Verb.: Criação).
3. O Panteísmo filia-se à noção hinduísta — a de Deus constituindo o Universo.
“— Se Deus é infinito — dizem — ele não pode criar um mundo que lhe seja exterior, pois, por definição, nada pode ser acrescentado ao infinito... Se Deus houvesse criado algo fora de si, ele não teria sido a totalidade, a absoluta Infinidade. O Universo, portanto, está em Deus e não fora dele. Deus é imanente ao Universo." ([7], Cap. XVIII).
4.O Espiritismo situa estas noções no Livro dos Espíritos, colocando em primeiro lugar a noção de Deus, no Cap. I, como causa última de todas as coisas (o princípio das causas, seu fundamento) ([2], pergs. 1 e 4). Em segundo lugar, põe a definição de infinito como o faz a matemática, isto é, como algo que não pode ser abarcado pelo homem — o desconhecido ([2], perg. 2),([3])
Elimina do conceito teísta o conteúdo antropomórfico ([2], pergs. 10 e 11), dizendo que o homem não pode compreender a natureza íntima de Deus porque, para tanto, lhe falta um sentido. Diz porém que podemos compreender-Lhe algumas das perfeições ([2], pergs. 12 e 13). Refuta o Panteísmo e invalida as especulações metafísicas acerca da existência de Deus, dizendo em ([2], perg. 14): " .. não queirais ir além. Não vos percais num labirinto de onde não podereis sair. Isto não vos tornaria melhores, mas talvez um pouco mais orgulhoso, porque acreditaríeis saber, quando na realidade nada saberíeis. Deixai, pois, de lado todos esses sistemas... Isto vos será mais útil do que querer penetrar no que é impenetrável". (Aliás o abandono dos sistemas, hoje, é feito pela própria Filosofia.)
No Cap. II aborda o conhecimento acerca do princípio das coisas. Cientificamente, o princípio seja que se o entenda como começo, ou como fundamento, está fora do âmbito do observável tanto sensorial como mediúnico. Diz-se ([2], perg. 17): — "E dado ao homem conhecer o princípio das coisas? Não. Deus não permite que tudo seja revelado ao homem aqui na Terra".
A seguir fala da matéria como princípio constituinte de todas as coisas. Para a Mitologia ele preexiste a tudo e aos próprios deuses. Para o Materialismo é o único princípio existente; para outros não foi criado por Deus e existe com Ele toda a eternidade. Cabe então a pergunta formulada por Kardec ([2], perg. 21): — "A matéria existe desde toda a eternidade, como Deus, ou foi criada por ele num certo momento? Deus sabe... Deus jamais esteve inativo."
Isto é, não conhecemos nem a essência, porque nos falta um sentido, nem a origem, porque o tempo é infinito-desconhecido na sua totalidade. E, diante das diversas definições que se pretende dar da matéria, responde na perg. 22 de [2]: " ... a matéria existe em estados que nem conheceis.”
Daí a impossibilidade de o homem defini-la ou conceituá-la.
Sugere, porém, uma definição:
Perg. 22a — "Que definição podeis dar na matéria?'
— "A matéria é o liame que escraviza o espírito.”
Perg. 23 — "O que é o espírito?
A noção é nova. Não há conceito de espírito no teísmo, no sentido que o Espiritismo lhe dá. A alma, para o Catolicismo, é criada no ato da concepção. Após a morte, como pessoa ela é incompleta. Não tem sensações. Daí o dogma da ressurreição, no fim dos tempos, significando o ressurgimento de todos os homens, cada um reconstituído em virtude de cada alma retomar seu corpo. Não há a noção de espírito, como ser inteligente, desencarnado, individualizado, pessoa completa, e muito menos a de espírito como princípio. Esta é uma noção que surge na Filosofia do século XVII e que o Espiritismo assume, embora de forma peculiar. À perg. 23: O que é o Espírito? — responde: "O princípio inteligente do Universo."
E o afirma distinto da matéria na perg. 25: --- "O espírito é independente da matéria, ou não é mais do que uma propriedade desta...? — Um e outra são distintos...” — é a resposta.
E atesta serem estes os únicos dois princípios gerais que constituem todos os seres do Universo e que, por sua vez, são criados. Não no sentido mitológico, com concepção artesanal humana, mas no sentido de resultantes da ação das causas, de que Deus é o princípio, causas estas que conhecemos em parte e que poderemos conhecer sempre mais pela ciência, de forma teórico-experimental ([1], Cap. IV).
Lê-se em ([2], Introdução, n.° VI): — "Deus... criou o Universo, que compreende todos os seres animados e inanimados, materiais e imateriais."
[2], perg. 27 — "Haveria, assim, dois elementos gerais no Universo: a matéria e o espírito?
Sim, e acima de ambos, Deus, o Criador, o Pai de todas as coisas. Essas três coisas são o princípio de tudo o que existe, a trindade universal."
Isto é exterior e superior ao mundo, ao dizer "acima"; princípio do bem, ao qualificá-lo de Pai: e colocando-o no âmbito do nosso alcance ao enunciar: "Essas três coisas...” — uma vez que nada podemos afirmar sobre suas essências e suas origens.
A noção de Criador adquire significado diferente da do bíblico. Não tem qualquer conteúdo relacionado às atividades humanas. Aponta tão-somente um Princípio causador, sem que possamos divisar-lhe a essência, nem o começo, ou o fim, ou a forma de atuar. Nem poderemos pensar diversamente, diante do quadro que a Ciência hoje nos apresenta; no qual se configuram, dentro de um ângulo reduzido como o é do nosso alcance, 10 bilhões de galáxias, contendo, cada uma 200 bilhões de estrelas, uma das quais é o nosso Sol. Nem poderíamos fazê-lo, porque "Se a Religião se nega a avançar com a Ciência, esta avançará sozinha" ([1], Cap. IV, n.º 9).
Que Deus jamais tenha estado inativo, coaduna as noções de eternidade e imutabilidade com a ideia que fazemos das causas. Por exemplo, quando dizemos que o calor é causa de dilatação dos corpos, subentende-se também que sequer podemos imaginar não tenha sido assim alguma vez.
Encerrando o Subcapítulo: Espírito e Matéria, do Capítulo II ([2] Comentário após perg. 28), assim conclui Kardec:
"Um fato patente domina todas as hipóteses: vemos matéria sem inteligência e um princípio inteligente independente da matéria. A origem e a conexão dessas duas coisas nos são desconhecidas. Que elas tenham ou não uma fonte comum e os pontos de contato necessários; que a inteligência tenha existência própria, ou que seja uma propriedade, um efeito; que ela seja, mesmo, segundo a opinião de alguns, uma emanação da Divindade —, é o que ignoramos. Elas nos aparecem distintas, e é por isso que as consideramos formando dois princípios constituintes do Universo. Vemos, acima de tudo isso, uma inteligência que domina todas as outras, que as governa, que delas se distingue por atributos essenciais: é a esta inteligência suprema que chamamos Deus." (Os grifos são nossos).
BIBLIOGRAFIA
1 — Allan Kardec — A Gênese.
2 — Allan Kardec — O Livro dos Espíritos.
3 — André Luiz — Evolução em Dois Mundos.
4 — Abril Cultural — Mitologia.
5 — Nicola Abbagnano — Dizionario di Filosofia, Verbete: "Dio".
6 — Heinrich Freis — Dicionário de Teologia — Vol. 1.º — Verbete: Deus
7 — Denis Huismane André Bergez — Compêndio Moderno de Filosofia. Vol. II: O Conhecimento.
8 — Bíblia Sagrada (Vide edição da Abril Cultural).
O que a Parapsicologia denomina de Percepção Extra-Sensorial, são a telepatia, a clarividência e a premonição em seu conjunto, querendo com isso designar uma faculdade pela qual se obtêm percepções sem a intervenção dos sentidos — sem a intervenção dos órgãos pelos quais eles veiculam as sensações. Já aos efeitos da mente sobre a matéria ela denomina de psicocinesia.
O Espiritismo designa tudo por mediunidade, querendo exprimir, com isso, que a mente a tudo preside sem a intervenção do corpo físico. Chama de mediunidade de efeitos psíquicos àqueles em que se têm percepções via mental, tais como na psicografia, na xenoglossia, e outros; chama de efeitos físicos àqueles que a Parapsicologia considera sob a denominação de psicocinesia.
Neste capítulo nos limitaremos a dar, sem preocupação de classificação ou de detalhe, teoria explicativa da mediunidade, na linha de Kardec, e principalmente desenvolvida por André Luiz,
3.1 — A evolução é do espírito
A evolução é do Espírito: as transformações morfológicas que o ser sofre no decorrer do tempo, realizam-se na mente, para depois se constituírem na organização perispiritual. Segundo André Luiz, esta evolução deve ser considerada, no âmbito de nosso conhecimento, já a partir do próprio mineral.
As próprias faculdades do ser evoluem. Diz André Luiz em ([1], Cap. III): "a mônada vertida do plano espiritual sobre o plano físico, atravessou os mais rudes crivos da adaptação e seleção, assimilando os valores múltiplos da organização, da reprodução, da memória, do instinto, da sensibilidade, da percepção e da preservação própria, penetrando, assim, pelas vias da inteligência mais completa e laboriosamente adquirida, nas faixas inaugurais da razão". E continua, pelo livro todo, a descrever como a evolução se processa, com o aparecimento do sexo, do metabolismo, do cérebro, da palavra, etc...
É na fase humana que o ser adquire o pensamento contínuo: um processo mental inestancável, tal como o é a respiração.
3.2 — Pensamento e matéria mental
André Luiz explica o pensamento da criatura, como o fundamento da ação do espírito sobre a matéria. Fala de matéria mental, um fluido vivo e multiforme (de natureza corpuscular) que emite vibrações (obedientes a leis análogas às que regem as vibrações da matéria), vibrações estas impressas pela mente que o utilizou e cuja ação influencia, a partir desta e sob sua responsabilidade, o meio circundante ([1], Cap. XIII; [2], Cap. IV).
No plano espiritual, a matéria, num estado de condensação diferente daquele que conhecemos, sofre a influência desta ação, e com isso originam-se formações constituintes do meio ambiente em que o espírito situar-se-á e que lhe oferecerão condições mais ou menos felizes, em consonância com os pensamentos dos quais a ação se originou.
As vibrações da matéria mental, resultantes da excitação produzida pela mente no ato de pensar, criam, ao redor do perispírito do indivíduo, um halo vital — a aura — que se lhe espraia pela organização perispiritual, transmite-lhe estímulos e impulsos e dela se irradia, propagando influências. Todo pensamento irradia as características do estado mental que o envolveu: assim, a tristeza, a bondade, o pessimismo, o otimismo em que ele se formou, são veiculados pelas reações influenciando outras mentes.
Diz André Luiz, em ([2], Cap. IV):
"Emitindo uma ideia, passamos a refletir as que se lhe assemelham, ideia essa que para logo se corporifica com intensidade correspondente à nossa insistência em sustentá-la, mantendo-nos assim espontaneamente em comunicação com todas as que nos esposem o modo de sentir".
Da mesma forma que influenciamos, somos influenciados. Pelos desejos, pela fixação de nossos interesses, emitimos e captamos certa ordem de ideias em regime de influência recíproca.
Ao ingressar no reino humano, o ser, além do pensamento contínuo, adquire como novo elemento a vontade, dando origem à possibilidade do livre-arbítrio, pelo qual, pouco a pouco e num crescendo, passa a subtrair-se do determinismo do instinto, para ingressar na liberdade das conquistas da inteligência, dentro da ordem das leis que nos governam — em regime de responsabilidade.
E do desenvolvimento e aprimoramento das faculdades da mente que se realiza nossa evolução: na sublimação dos desejos; no desenvolvimento da inteligência; no engrandecimento da imaginação, da memória e da experiência; no fortalecimento da Bondade e de outras faculdades ainda.
3.3 — A mediunidade
A mediunidade é fenômeno que se assenta no pensamento: efetivamente, no fenômeno da indução mental. Isto é, uma mente, ao pensar, emite matéria mental que influencia e reproduz em outras mentes que se sintonizem com ela, suas próprias características.
A mediunidade, em vários aspectos, consiste na conjugação de mentes entre as quais se estabelece um fluxo de corrente mental, assim como, entre um polo positivo e um polo negativo de um sistema elétrico, pela diferença de tensão, se estabelece um fluxo de corrente elétrica.
O médium, pela apassivação, pelo pensamento de aceitação ou adesão, estabelece como que uma diferença de tensão entre as duas mentes: a dele e a da entidade comunicante, que origina fluxo de corrente mental entre ambas, em circuito fechado, enquanto permanece o pensamento de aceitação do médium.
3.4 — Reflexão de ideias
A corrente mental faz com que o médium absorva as ideias da outra mente, as transforme em ideias próprias e as transmita tais como as interpretou, segundo sua capacidade conceitual e interpretativa.
É o fenômeno da reflexão de ideias entre mentes.
Nisto residem as causas que regem os fenômenos de telepatia, de inspiração, de sugestão e de manifestações de caráter mecânico, em que os estímulos mentais podem comandar o comportamento do indivíduo.
Para que possamos explicá-lo melhor, sirvamo-nos de uma analogia: o reflexo condicionado. ([2], Cap. XII
Pavlov, sábio russo, separou alguns cães do convívio materno desde o nascimento e alimentou-os sem carne. Sempre que lhes mostrava a carne, não havia neles qualquer manifestação de salivação, seja a oferecesse à visão, seja a oferecesse ao olfato. Após certo tempo deu-lhes carne para comer. Daí por diante, o simples mostrar-lhes carne, passou a provocar-lhes salivação, fato este que só se produzira no dia em que lhes pusera carne na boca.
A salivação provocada pelo contato da carne com o órgão, diz-se reflexo congênito; a provocada pela simples visão, reflexo condicionado. O primeiro é um reflexo provocado por um estímulo que excita vias nervosas, hauridas da espécie e construídas ao longo da evolução; o segundo se realiza via mental, numa construção instável não-permanente, feita ao longo da existência.
Pois bem! Assim como falamos de reflexos físicos, falamos de reflexos psíquicos.
Nós somos criaturas com um certo grau de evolução, com tendências que dependem das experiências e das aquisições consolidadas e que nos definem a personalidade, o comportamento e os desejos com que nos voltamos para o mundo. Nascemos com estas tendências como que em estado latente: o meio em que crescemos envolve-nos com estímulos que as despertam. Nosso comportamento é o resultado da resposta que somos capazes de dar em função daquilo que somos. Temos boas e más tendências: umas mais fortes, outras mais fracas. O meio em que nos criamos e os desejos que cultivamos são responsáveis por aquelas que despertam. Uma vez despertadas, qualquer estímulo ou interesse para o qual dirijamos a atenção — uma conversa, uma insinuação, uma alusão — faz com que nossos pensamentos se vigorizem na ordem de ideias que ele desperta, se exteriorizem em direção aos outros e os recebamos de volta enriquecidos de outros agentes. Estes, por sua vez, excitam a mente e compelem-na a sintonizá-los com as próprias criações mentais, criando-nos novos hábitos mentais, novas expressões de comportamento, novas aquisições de experiências,
3.5 — Associação de ideias
Percebe-se aqui a influência do meio e a importância da educação.
A mudança de personalidade, as quedas, ou as elevações a que nos guindamos, estruturam-se na construção de hábitos novos que construímos ao longo da existência, segundo os alvos a que dirigimos nossa atenção.
As novas criações mentais surgidas dos elementos captados de outras mentes por indução, momentânea ou permanentemente, entrosam-se com as nossas próprias, já consolidadas, no fenômeno da associação de ideias. Com isso se realiza nosso desenvolvimento ou expansão da vida mental.
Pela vontade podemos dirigir nossos interesses, sob o ditame do discernimento, dentro da liberdade de escolha que nos é característica, como nos apraz, o que nos torna responsáveis por aquilo que nos acontece e dita as companhias com que nos envolvemos.
Pelo pensamento nos comunicamos seja com espíritos encarnados, seja com desencarnados: bons ou maus; em termos de afinidade com a ordem de ideias a que nos afeiçoamos. Influenciamo-los e somos por eles influenciados, pela inspiração ou pela comunicação direta — espontaneamente ou por evocação.
A vida é comunhão e intercâmbio constante entre os dois planos. No espiritual traçam-se as diretrizes e os planos daquilo que deve ser feito, com a nossa participação. Durante o sono podemos continuar uma vida de aprendizado e desenvolvimento, ou podemos, no ócio e na inutilidade prejudicial do desinteresse ou da incúria espiritual, envolver-nos com círculos piores. Durante, a vigília, viveremos as influências boas ou más em que nos enredamos e continuaremos a conviver com aqueles que se afinaram com a nossa maneira de ser.
3.6 — O animismo
No fenômeno da associação de ideias, temos um obstáculo à comunicação mediúnica. De fato, nesta, o médium recepciona as ideias da entidade comunicante, retransmitindo-as como as interpretou, segundo sua capacidade conceitual e interpretativa; e isto significa que as ideias captadas despertam as ideias próprias do médium, que podem interferir na fidelidade da comunicação. O médium desenvolvido e educado sabe distinguir entre o que lhe é próprio e o que não o é. Apesar disso, a interferência sempre é passível de se dar: mais comumente, porém, com os despreparados ou os perturbados. Com estes o simples estado de concentração, coadjuvado por certas situações, pode provocar o eclodir da memória, o aparecimento de lembranças existentes no inconsciente, que por isso não reconhece como suas e confunde com comunicações ou observações do momento.
A esse fenômeno dá-se o nome de Animismo, fato sempre possível de se dar, mas não o bastante para que não possa ser reconhecido com certa facilidade ou nos faça descrer das possibilidades da comunicação. ([2], Cap. XXIII)
3.7 — Mediunidade de efeitos físicos
Esta e os fenômenos a ela relativos são os menos conhecidos. São explicados doutrinariamente pela existência do ectoplasma, um fluido que, emitido em maior parte pelo médium e menos pela assistência, sob a ação do plano espiritual, que lhe acresce outros recursos, permite a realização de efeitos físicos tais como o aparecimento, o movimento, o desaparecimento de objetos, e outros fenômenos semelhantes.
1.º) As experiências não são fáceis de realizar porque exigem cuidados extremos, uma vez que o ectoplasma é altamente sensível às emanações do álcool, do fumo, de carnes fortes, etc., e pode contaminar-se prejudicando fortemente a organização perispiritual do médium. (É a mesma coisa que retirar sangue de nós mesmos e a seguir reinjetá-lo. Só o poderemos fazer, sem perigo, desde que não o tenhamos exposto a injúrias, uma vez que é altamente contaminável.)
2.º) Porque, por estar muito associado às oscilações mentais, pode sofrer grandes transformações com somente certas mudanças de interesse ou de preocupação.
Só com um preparo físico e moral muito desenvolvido e uma compreensão muito ampla dos fatos, é que se podem encetar experiências de relativo sucesso. ([2], Cap. XVII); ([3], Cap. XXVIII); ([4]. Cap. 10)
a) Bibliografia
[1] André Luiz — Evolução em Dois Mundos.
[2] André Luiz — Mecanismos da Mediunidade.
[3] André Luiz — Nos Domínios da Mediunidade.
[4] André Luiz — Missionários da luz.
b) Leituras Complementares
Os capítulos da bibliografia, indicados no texto.
c) Perguntas
1) Como entende a evolução?
2) Que é matéria mental?
3) De que forma nos influenciamos mutuamente?
4) Como se realiza nossa evolução?
5) Explique a reflexão de ideias.
6) Explique a associação de ideias.
7) Explique a mediunidade nos seus diferentes aspectos?
8) O que é o Animismo?
d) Prática de renovação Intima.
André Luiz — Sinal Verde.
Estudar e pôr em prática o Cap. 3.
Com este capítulo encerraremos esta breve exposição, de caráter informativo, sobre o que é o Espiritismo. Diremos da vida espiritual, da ação dos espíritos, suas relações com os encarnados, e principalmente de sua moral — das regras de comportamento para o desenvolvimento do espírito —, toda ela estruturada no Evangelho, o repositório dos princípios fundamentais que o regem.
4.1 — A vida espiritual
Segundo André Luiz, a transformação do ser, desde a fase animal à fase hominal, caracteriza-se pela aquisição do pensamento contínuo, da razão e do livre-arbítrio, com os quais, orientado pelo Plano Superior, passa a forjar seu próprio destino.
O ciclo das reencarnações desdobra-lhe a vida em duas — uma continuação e complemento da outra — nas quais, sujeito às leis do trabalho e do aprendizado, se desenvolve.
Como ser recém-egresso da animalidade, vive sob o guante dos instintos e dos apelos das necessidades primárias. A satisfação dos apetites é sua meta quase que exclusiva.
Sendo compelido a conduzir-se por si mesmo, pela meditação passa a mentalizar, exteriorizando suas próprias ideias, com consequente produção de aura. Esta o revela e atrai, para o intercâmbio — marco inicial da mediunidade — espíritos melhores ou piores, segundo o teor de seus pensamentos.
No sono, a mentalização produz parcial desprendimento do corpo físico, facilita o intercâmbio e é desta forma que o Plano Superior o inicia na aquisição do conhecimento mais avançado, orientando-o.
Na construção do conhecimento, pouco a pouco, passa a perceber que o mundo é governado por causas, de cuja ação ele pode beneficiar-se, com o próprio comportamento.
Pelo trabalho, pode propiciar-se maior conforto; pelo desabrochar dos sentimentos, que se inicia no amor à própria prole, visualiza e traça, para si próprio, regras de conduta segundo as quais, não impondo aos semelhantes ofensas e prejuízos que não deseja receber, passa a garantir para si melhores condições de paz e tranquilidade.
Inicia-se sua evolução moral.
Após a morte, a vida se lhe apresenta em continuação, sem que se lhe altere o conhecimento, sem que se lhe resolvam os problemas com que se depara. Em ambas, o progresso requer aprendizado e experiência.
4.2 — Relação dos espíritos com os homens
O espírito primitivo, na vida espiritual (que por estar a iniciar-se para ele, não a compreende), sente-se qual criança, aterrada, e permanece junto aos seres do plano carnal, valendo-se da receptividade dos que choram sua perda, em vários processos de simbiose, não tendo outro pensamento senão o de voltar.
Encarnados e desencarnados passam a viver vida de influência mútua, com conjugação de mentes, elas mesmas sofrendo transformações subordinadas à lei do progresso.
Nesta conjugação de mentes se desenvolvem as noções acerca das duas vidas. As voltadas para o bem, mutuamente apoiadas, colhem do Plano Superior, pelo desencarnado, noções de elevação moral, de orientação e de desenvolvimento para as atividades de caráter artesanal. Com isso, se lhes iniciam os primeiros fundamentos da cultura.
Mentes entregues à revolta, ao medo, ao ódio, ou aos impulsos gerados por tais sentimentos, patrocinam as manifestações do mal e se envolvem em reencarnações reparadoras, de reajustamento. A simbiose espiritual transmuda-se em vampirismo, no qual o encarnado é transformado em vítima do desencarnado, nos mais diversos processos obsessivos até que ambos, com a força do próprio trabalho, com o estudo edificante e com as virtudes vividas, se habilitem à necessária transformação e se adaptem a novos caminhos.
A vida material e a vida espiritual se correspondem: a capacidade conceptual alcançada num plano não se altera no outro e as concepções se formam na mesma faixa de conhecimento, relativas ao estágio evolutivo. Ao se lhes expandir a vida mental, nos processos de cooperação construtiva, se lhes desenvolvem as faculdades e com elas os níveis de vida, rumo a estágios em que o inter-relacionamento entre os dois planos permanece, não mais simbioticamente, mas sim por intercâmbio em regime de afinidade.
As mentes envolvidas, em conluio, na subversão da ordem e da harmonia, permanecem estacionárias, caem em estado de perturbação até que a dor e o sofrimento, atuando no sentido de conduzi-las à reconsideração dos próprios atos, lhes propiciam as condições capazes de oferecer-lhes novas oportunidades. (Na literatura espírita e em especial modo nas obras de André Luiz, encontram-se vários exemplos de situações, as mais variadas, que esclarecem, com abundância de detalhes, muitos destes fatos.)
Não há castigo ou condenação, mas somente reajuste ou renovação de experiências, em obediência às leis do aprendizado. A evolução é compulsória, ninguém se perde, as oportunidades se renovam e, por mais recalcitrantes que possamos ser nas sendas do mal, sempre surgirá o dia em que, compelidos pela exaustão, reingressaremos nos caminhos do progresso, rumo a planos de vida mais altos. Diz André Luiz ([1], Cap. XI): — "A civilização, porém, chega sempre. O progresso impõe novos métodos e a dor estilhaça envoltórios. As modificações da escolha acompanham a ascensão do conhecimento. A vontade de prazer e a vontade de domínio, no curso de largos séculos, convertem-se em prazer de aperfeiçoar e servir, acompanhados de autodomínio".
4.3 — As leis naturais
As concepções que o homem forma, acerca da vida, estão sempre relacionadas ao seu nível de compreensão relativo ao estágio em que se encontra e a este relacionamento com o plano espiritual, que sempre existe e se mantém, em estágios mais avançados, pela mediunidade.
Neste relacionamento se lhe infunde a noção de sobrevivência, na qual passa a acreditar. Entretanto, incapaz que é de conceber fenômenos realizados por causas que não tenham origem em seres, atribui aos mortos a causa dos fenômenos. Nesse sentido passa a praticar cultos e rituais com a pretensão de induzir tais entidades a operarem em seu benefício. Desenvolve técnicas especiais, segundo as quais entende poder estabelecer influência recíproca com os desencarnados, dando origem à magia e à feitiçaria, das quais surgirão os princípios da técnica, da arte, da ciência, da filosofia e da religião.
Pouco a pouco começa a perceber que os fatos se apresentam cada vez mais sujeitos a leis naturais do que como resultado de seus rituais; que mais que rituais e cultos valem o esforço, a vontade, a retidão, a ciência, o valor — o desenvolvimento de aptidões e virtudes; que os males se assentam na prática dos vícios, na ignorância, na injustiça, na avareza, na inveja, na cólera, na maldade, na calúnia e no roubo; que as causas independem dos seres e que os princípios da vida tendem a unificar-se em uma causa primordial.
Das crenças totêmicas, através do animismo primeiro, do politeísmo depois, as concepções evoluem para formas mais altas, até atingirem a culminância na organização das formas de saber em que se estruturam a filosofia e as ciências gregas, o direito romano, o monoteísmo judaico. Com estas conquistas, após 250.000 anos de evolução ([2], Cap. III), o homem atinge a maturidade para a vinda do Cristo e para a recepção do seu Evangelho.
4.4 — Jesus
Jesus é o guia, o condutor desta humanidade, na sua caminhada evolutiva ([3], Cap. 1). Recebeu o planeta no instante de sua formação e, secundado por legiões de trabalhadores, definiu sua estrutura, leis físicas e o indispensável à existência dos seres do porvir. Definiu as linhas do progresso, o mundo das células, as formas de todos os reinos da natureza, a linhagem para todas as espécies até o advento do homem e o prosseguimento.
Seus emissários conduzem o homem até às conquistas da sabedoria ateniense, da família e do direito romano, e da religiosidade judaica, até que, para a sua consolidação, necessária se faz a lição ampla e definitiva de sua orientação.
Jesus, como idealizador e responsável maior do conduzir, não pode confiar a outrem a tarefa e ele próprio a realiza, embora tenha de enfrentar sozinho a incompreensão e a cruz ([4], n.º 85).
Seu nascimento é acompanhado dos fatos mais extraordinários da mediunidade; sua vida é a exemplificação dos ensinamentos que viera pregar.
Sua lição, incompreendida então, passa hoje a ser esclarecida pelo Espiritismo, que a reconstitui na sua pureza e no seu lídimo significado. Inicia sua pregação aos 30 anos; tem uma boa nova a comunicar.
4.5 — O Evangelho
Jesus revela, primeiramente, que o que rege o mundo é uma vontade amante que é, para o homem, o que um pai é para os filhos. Deus é pai de todos os homens, de todos os seres; é de uma bondade infinita, na qual todos devemos acreditar e confiar. Governa por leis que nos guiam sempre no sentido da ascensão, as mesmas para todos, provendo a cada um conforme suas necessidades, situação esta em que devemos confiar. E o significado das exortações: Não temais, não vos inquieteis por vossa vida. Olhai as aves do ar: não semeiam, não colhem, nem fazem provisão nos celeiros, contudo vosso Pai Celestial as sustenta. Considerai os lírios do campo: não trabalham, nem fiam; entretanto vos digo que nem Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestiu como um deles. — Pedi e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei e abrir-se-vos-á. Se maus como sois sabeis dar boas dádivas a vossos filhos, quanto mais vosso
Pai que está nos céus, que bens não dará aos que lhos pedirem.
Diz como rogar para Ele no Pai Nosso.
Estabelece como consequência que os homens devem amar-se fraternalmente e estabelece como manda- mentos maiores:
— Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, de toda a tua alma e de todo o teu espírito.
— Amarás o teu próximo como a ti mesmo.
Determina a necessidade de reconciliar-se com todos, de entrar em acordo com os adversários, de amar aos inimigos.
Anuncia o reino de Deus, que entende como esta sociedade de homens piedosos amando a Deus e amando-se entre si.
Aponta o amor como a grande lei, no sermão da montanha, e ensina como praticá-lo curando, ensinando, reerguendo decaídos, demonstrando-o até o último instante no suplício da Cruz.
Situa o perdão como norma máxima de conduta. Elimina as barreiras entre os homens, afirma a igualdade deles e situa a coordenação da vida moral na pureza do coração, na vontade da intenção, na humildade.
No trabalho, na mansuetude, na caridade salienta as forças que enaltecem o espírito; no sofrimento e na dor aponta a quebra dos elos que acorrentam às ilusões.
Reconceitua a noção de pecado e de punição; cura, consola, não assume atitudes de condenação. Não aponta castigos, mas tão-somente a reconsideração de caminhos; não aponta causas; apenas exorta a não pecar mais.
Esclarece que todos têm uma tarefa a cumprir encarecendo a necessidade de fazê-lo da melhor maneira, imitando o Pai, no "sede perfeitos como vosso Pai é perfeito".
Conclui que é com estes preceitos que reinará a paz e a boa vontade: todos serão de Deus. Haverá comunhão das criaturas com o Criador, glorificando a Deus nas alturas e sustentando a paz na terra, e boa vontade para com os homens.
4.6 — A moral dos espíritos
O Espiritismo, hoje, com o estudo científico dos fenômenos espíritas, descortina definitivamente aos homens, pela mediunidade, o mundo dos espíritos, seu relacionamento com o mundo dos encarnados, confirmando a ação dos espíritos, suas relações com os homens e a dependência desta vida daquela.
O relacionamento e as comunicações evidentemente se situam em plano cada vez mais alto, segundo o estágio evolutivo em que nos encontramos; as concepções acerca da vida e do mundo sofrem a reconsideração que o momento exige, apontando a vida como existente em todo o universo.
Assim como o conhecimento científico de nossos dias revoluciona todos os ramos do conhecimento, assim o Espiritismo introduz novos influxos de revitalização na consideração dos problemas filosóficos e religiosos, especialmente trazidos nas obras mediúnicas que, as- sentadas nas obras de Kardec, culminam com a psicografia de Chico Xavier.
Com precisão científica, atesta-se que as leis que governam a evolução do espírito se assentam em algumas fundamentais:
— a do amor ao próximo,
— da humildade,
— da caridade,
— da fraternidade,
— de causa e efeito,
— da responsabilidade e outras,
fazendo do Evangelho o código moral por excelência, o repositório excelso dos mandamentos aptos a nos proporcionar o acesso aos cimos da vida.
a) Bibliografia.
[1] André Luiz — Mecanismos da Mediunidade.
[2] André Luiz — Evolução em Dois Mundos.
[3] Emmanuel — A Caminho da Luz.
[4] Emmanuel — Vinha de Luz.
b) Leituras Complementares.
As dos capítulos da bibliografia citada no texto.
Allan Kardec — Livro segundo Cap. VI.
c) Perguntas.
1) O que entende por "inicio da evolução moral”?
2) De que forma se iniciam os primeiros fundamentos da cultura?
3) Explique o que se quer dizer com "a evolução é compulsória".
4) Comente por que Jesus realiza ele mesmo a tarefa sem confiá-la a outrem.
5) "Devemos confiar em Deus" — Explique.
6) Quais as forças que enaltecem o espírito?
7) Qual a moral dos espíritos?
d) Prática de renovação intima.
André Luiz — Sinal Verde.
Estudar e pôr em prática o Cap. 4.
OBSERVAÇÃO
Julga-se conveniente fazer uma recordação a cada 4 aulas. Os Capítulos do livro "Sinal Verde", entretanto, cremos devam ser dados sem interrupção.
Portanto, na aula de recordação:
Prática de Renovação Intima.
André Luiz — Sinal Verde.
Estudar e pôr em prática o Cap. 5.
No Espiritismo a lei da evolução diz respeito ao espírito. Este, ao terminar seu estágio na fase animal, ingressa na fase hominal, sujeito à lei da Reencarnação e ruma para outro estado no qual o ciclo das reencarnações muda de aspecto. Esta mudança se dá após a conquista do conhecimento relativo à fase humana e após o engrandecimento moral em que se automatiza o comportamento evangélico.
A noção de reforma íntima diz respeito à adequação do indivíduo às leis que nos governam, segundo seu grau evolutivo, que lhe permita crescimento harmonioso e efetivo no desenvolvimento de aptidões e na aquisição de virtudes, rumo às metas evolutivas.
Nesta segunda parte abordamos as questões atinentes à compreensão desses fatos, de maneira sucinta e introdutória, a fim de que, posicionada a questão, possa o leitor encontrar nela, guia seguro para os desenvolvimentos futuros.
Noção importante, dentro do Espiritismo, é a da reforma íntima. Na sua essência, ela significa comportamento segundo a Doutrina, o que não quer dizer, evidentemente, um comportamento perfeitamente determinado por padrões típicos de atitudes, idênticos para todos.
O homem está sujeito à evolução e, por ela, apresenta graus de desenvolvimento distintos, de um para outro. A responsabilidade é relativa ao estágio evolutivo, e cada qual é exigido na medida de suas possibilidades.
"Muito será pedido a quem muito foi dado"; "Ninguém é posto a suportar mais do que suas forças o permitem".
Neste capítulo procuraremos esclarecer que a noção de reforma íntima é relativa ao grau evolutivo de cada um e que sua realização não galardoa ninguém fora do merecimento, não transforma quem quer que seja em sábio ou anjo, só por si mesma. Mas o reajusta dentro de suas possibilidades, reorganizando-lhe a caminhada para a ascensão.
5.1 — A evolução do homem
O Espiritismo, como ciência dos fenômenos espíritas, revela a existência do mundo dos espíritos e seu relacionamento com o nosso, mostrando-nos definitivamente que espírito e matéria obedecem a leis naturais que podemos estudar de forma teórico-experimental.
Dessa forma o Espiritismo constitui-se na ciência que estuda as leis que governam o espírito ([1], Cap. 1.º, n.º 16). Estabelece, como princípios fundamentais, as leis da evolução e da reencarnação, segundo os quais o homem passa a desenvolver-se alternadamente nos dois planos, subordinado às leis do aprendizado e da renovação ([2], Cap. X).
A passagem da fase animal para a fase humana caracteriza-se pela aquisição da palavra, do pensamento contínuo, da razão, do livre-arbítrio e pela iniciação da vida moral, que se constitui no afrouxamento do domínio dos instintos e no desabrochar dos sentimentos.
O homem, compelido a decidir por si mesmo, passa a ser o construtor do seu destino no âmbito de suas limitações, sem que lhe falte a orientação do Plano Superior. Pouco a pouco desenvolve faculdades, recursos mentais e físicos, passando pelas diversas fases do desenvolvimento por nós conhecidas, limitadamente à faixa que separa o selvagem primitivo, existente em nossos dias, e o homem civilizado.
A evolução feita a partir do início das reencarnações até o estágio atual do homem, tal qual somos, exigiu, segundo André Luiz ([2], Cap. III), um espaço de tempo de 250.000 anos. O término do ciclo das reencarnações, na fase humana, também segundo André Luiz, dar-se-á quando o homem tenha automatizado o comportamento evangélico. Após isso ingressará em outro plano, para nós atualmente desconhecido.
5.2 — Estágios evolutivos
Fato consumado, portanto, é a constatação de que os diferentes níveis culturais qualificáveis entre o hotentote é o construtor de computadores, correspondem a diferentes níveis evolutivos, a diferentes estágios de progresso dos espíritos, advindos de períodos de experiência distintos, e a faculdades de expansão desigual. Esse crescimento está condicionado ao desenvolvimento de aptidões e virtudes, de realização lenta, gradativa, dependente do esforço que nela empreguemos, subordinada às leis do trabalho e do aprendizado.
Ninguém pode subtrair-se aos imperativos dessas leis, quer se situe no plano espiritual, quer esteja no plano material. Nem a morte soluciona problemas, nem mesmo nos altera a situação íntima. Permanecemos o que somos em qualquer circunstância e nada do que possamos alcançar sê-lo-á sem que se constitua em conquista pessoal. A própria revelação é gradativa, obedece aos ditames dessas leis e só se realiza uma vez, superadas as limitações que a impedem de se efetuar.
O progresso é compulsório. O espírito integrado na lei, comprometido nas realizações do bem, segue-lhe o curso normal, enfrenta-lhe as dificuldades naturais e fica submetido tão-somente aos percalços da caminhada. O espírito revoltado, envolvido nos processos comprometedores da ordem e da harmonia, tem sua ação cerceada compulsoriamente, estaciona, e só retoma a ascensão após ter esgotado as influências de desordem de que se fez responsável após ter-se reconciliado com a lei.
Nos procedimentos contrários ao bem comum, surge a reação contra a desordem provocada: o remorso, o arrependimento, as acusações dos que se sentiram prejudicados, atuam no sentido de isolar a mente conturbada, a fim de que não prossiga na sua ação perturbadora, à semelhança de um circuito elétrico que dispõe de dispositivos interruptores da ação destruidora de um curto circuito, automaticamente, quando ela acontece.
Nesse estado de conturbação, diz André Luiz, a mente "recorda apenas os acontecimentos que se refiram aos seus padecimentos morais, com absoluto olvido dos outros... num monoideísmo que a isola nas recordações e emoções... E dessa forma, até que se esgotem os motivos que alimentam tais estados, vive o espírito torturado pelas imagens frutos de suas culpas" ([2], Cap. XVI).
São muitas as causas de desajuste que podem nos envolver sem que possamos identificar todas, sem que a elas saibamos sempre nos subtrair, por ignorância, por desinformação ou por erros de educação.
Duas coisas há, portanto, a distinguir: nosso estágio evolutivo e nosso ajuste dentro dele.
Nosso estágio evolutivo nos situa, uns mais adiantados, outros mais atrasados, dentro de uma escala de avaliação compatível com aquela estabelecida por Kardec.
A todos é reservado idêntico destino, que alcançaremos em função do esforço que empreguemos e segundo o merecimento que aufiramos. Temos o mesmo destino perante a eternidade, mas em termos atuais, somos diferentes, uns melhores, outros piores. Todos nos relacionamos, entretanto. Dependemos uns dos outros e nosso evoluir processa-se em função do auxílio e do entrosamento mútuos, quais peças com determinada função, com tarefas a desenvolver, no meio que nos circunda. É por essas tarefas que progredimos. É do perfeito ajuste de cada um, na função que lhe é destinada, que dependem a felicidade e o sucesso, individuais ou coletivos.
Impõe-se não nos desajustemos no concerto das relações que nos unem uns aos outros. Somos diferentes; não temos o mesmo grau de evolução, não podemos dar todos na mesma medida, temos responsabilidades relacionadas a uma participação que não é a mesma; só podemos dar pelo que nossa capacidade permite, segundo nossas forças. Porém, o que se exige, é que, como elementos necessários e indispensáveis de um todo, saibamos desempenhar o nosso papel. A cada um é exigido segundo suas possibilidades.
— Muito será pedido a quem muito foi dado.
O que se requer é que ninguém se torne causador de desarmonia: no plano material fugindo aos compromissos; no plano moral comprometendo a paz, por julgar, por nos tornarmos objeto de escândalo, por sermos maledicentes, buscando relevar mazelas e defeitos de nossos semelhantes, etc...
O que se exige é que colaboremos com nosso semelhante, praticando o amor, a caridade, a fraternidade.
Dentro da sociedade, todos somos parcela útil, indispensável, imprescindível, que não pode perder-se, que não pode ser posta à margem como indesejável, prejudicial, como elemento nocivo.
Por isso é mister aceitar as situações e as responsabilidades sem revolta: saber tomar-nos de autoridade para com quem nos segue, porque orientar é caridade; saber tomar-nos de respeito e acatamento para quem nos precede, porque aprender é uma necessidade, progredir é uma imposição da vida. Saber distinguir o lugar que nos compete e equilibrarmo-nos nele, embora todos, menores e maiores, tenhamos diante de nós o infinito.
Tal qual precisam ser as peças de um automóvel. É necessária a existência do motor, tanto quanto a do parafuso. Este necessita exercer uma força de coesão, de ligação, de segurança; o que se lhe pede é perfeição, mas a perfeição que lhe cabe como parafuso. Aquele tem a função de impulsionar, propulsar. Também se the pede perfeição, mas a perfeição que lhe diz respeito como motor — uma perfeição muito maior, como peça de maior importância, embora o conjunto não possa dispensar nenhum dos dois.
— Somos lavrador: sejamos lavrador perfeito;
— Somos administrador: sejamos administrador perfeito;
— Somos filho: sejamos filho perfeito;
— Somos pai: sejamos pai perfeito.
— Como homem, amemos nosso semelhante, a criação, Deus.
— E para que assim possamos nos tornar, temos que combater em nós:
— o egoísmo, para não sofrermos as consequências do isolamento;
— o vício, para não cairmos no desequilíbrio;
— a agressividade, para não sermos vítimas da violência;
— o ciúme, para não sermos presa do desespero;
— a indisciplina, para não sermos atingidos pela desordem;
— a preguiça, para não provocarmos o aguilhoar das dores que nos obriguem ao progresso:
— a inverdade, para não nos envolvermos nas malhas do desengano;
— a inveja, para não sentirmos as consequências do despeito;
— a leviandade, para não mergulharmos na insensatez:
— a indiferença, para não nos tornarmos presa do desânimo.
E, ao mesmo tempo, cultivar:
— a colaboração;
— a caridade;
— o amor ao próximo;
— o sentimento de fraternidade.
Naquilo que se exige de nós, exortava Jesus: Sede perfeitos como vosso Pai é perfeito.
Para não sofrermos é necessário eliminar os desajustes relativos à nossa situação. Não podemos alojar a mentira, a desonestidade, a prevaricação, a sensualidade, a gula, enfim todos os deslizes que provocam nosso estacionar.
É a eliminação desses desajustes, de que possamos ser portadores, que denominamos de reforma intima.
A reforma íntima, de que as Escolas da F.E.E.S.P. se tornam promotoras, é esta de nos propiciar o conhecimento doutrinário, corrigindo nossas falsas noções, preconceitos, falhas de educação, arranhões de caráter, hábitos indesejáveis, a fim de que, com ele harmonizados, possamos nos constituir nesse homem íntegro, equilibrado, exemplo e força de uma sociedade bem constituída, fator de ordem, progresso e harmonia.
O que as Escolas se propõem é isto. Esforçar-se-ão para que, dentro dos preceitos doutrinários, aprendamos a conhecer, descobrir a nós mesmos e indicar-nos os caminhos do reajuste. Não irão transformar-nos de homem comum em sábio, nos domínios da ciência e da filosofia; nem em anjo, em um virtuoso excelso, segundo os preceitos da moral e da religião. Estas são conquistas que não podemos fazer a não ser à custa de muito trabalho e esforço e ao longo de ainda muitas reencarnações, com a aplicação incansável do estudar e servir.
Ela porém nos auxiliará a reencontrar a nossa posição de homens equilibrados, ajustados, capazes de reencetar a própria caminhada evolutiva com consciência, firmeza e confiança, certos de que quem nos criou está também a nos guiar.
a) Bibliografia
[1] Allan Kardec — A Gênese.
[2] André Luiz — Evolução em Dois Mundos.
b) Leituras Complementares
Emmanuel — Paz e Renovação — Renovação.
André Luiz — Os Mensageiros — n.º 1
André Luiz — Libertação — Prefácio de Emmanuel: Ante as portas livres.
c) Perguntas
1) O Espiritismo é Ciência? O que estuda?
2) Como se caracteriza a passagem do ser do reino animal para o hominal?
3) Quando se dará o término do ciclo das reencarnações, segundo André Luiz?
4) Como se processa o reajuste dos que enveredaram pelas sendas da desordem?
5) De que dependem a felicidade e o sucesso, individuais ou coletivos?
6) Que é que denominamos reforma intima?
d) Prática de Renovação Intima.
André Luiz — Sinal Verde.
Estudar e pôr em prática o Cap. 6.
Estudaremos neste capítulo de que maneira, secundando a Jesus, o Espiritismo vê a solução dos problemas que afligem a humanidade, e como ela se assenta na reforma íntima.
6.1 — Introdução
Uma das coisas que mais impressiona, ao considerar a Doutrina Espírita, é o seu poder de penetração.
Se uma árvore se avalia pelos seus frutos, o Espiritismo é de surpreender. Num momento em que todos os credos religiosos são submetidos a um reexame, no qual as igrejas se esvaziam, com suas doutrinas consideradas à luz de novas noções atingidas, ele se impõe ao respeito geral, qual ciência, filosofia e religião; revela novo poder de consolar os aflitos; reconduz à religiosidade; arregimenta sequazes em quantidade sempre crescente; reconquista, para a religião, a capacidade de fixar orientação, num apelo à ação, ao desenvolvimento de aptidões e virtudes.
Prega o trabalho, a caridade, a solidariedade humana, a fraternidade; a luta contra a ignorância, contra a miséria; clama pelo amparo à velhice, a proteção à infância, o combate à doença, a comiseração para o sofrimento, sob o lema cristão de que fora da caridade não há salvação. E ensina exemplificando, desenvolvendo obras assistenciais de todo o tipo: oferece guarida aos desajustados, nos abrigos, nos hospitais, nos hospícios, nas penitenciárias. Realiza obras de grande alcance na iniciação à profissionalização, na suavização da prova à criatura excepcional ou anormal.
Reconsiderando as noções religiosas conclui pela inutilidade dos ritos e cultos e aponta para as forças que engrandecem o espírito.
Não tem ritos nem cultos, não tem liturgia. Mas desenvolve a tomada de consciência de cada um, nas próprias responsabilidades, pelas escolas que patrocina, conduzindo à reforma íntima, impelindo para o desenvolvimento em todos os sentidos.
Sua bandeira é a autoeducação dos homens: não apregoa revoluções, deposição de partidos, destronamento de pessoas ou grupos. Não patrocina lutas fratricidas. Condiciona o progresso e a reestruturação sociais à reforma íntima de cada um, realizada nas trilhas traçadas pela Escola do Mestre, guiada pelas diretrizes do Evangelho redivivo.
Aos revoltados, aos insatisfeitos, aos queixosos, esclarece que as causas de todos os males estão em nós mesmos e que a solução dos problemas reside na reconsideração das atitudes: sermos operosos na produção do bem; sermos bondosos, pacientes, tolerantes, caridosos, justos, responsáveis, amantes a Deus e ao nosso próximo, na prática constante do estudar e servir. Para que possamos fazer uma ideia mais precisa do que se pretende dizer, façamos uma analogia com o serviço da limpeza pública.
6.2 — Poluição e educação
Há queixas contra o poder público quanto ao atendimento da limpeza; entretanto ninguém considera as posturas que proíbem jogar detritos no chão ou em terrenos baldios. Sabe-se que terrenos sujos proporcionam a proliferação de ratos, tornam-se focos de mosquitos, miasmas e pestilências. Apesar disso não há terreno baldio entre nós que não tenhamos transformado em depósito de lixo. Nos logradouros públicos, mesmo que haja recipientes adequados para a colocação de sujidades, é frequente observar quão poucos se servem deles.
E as praias em época de férias ou em dias de feriado? Transformam-se em verdadeiros tapetes de imundícies. Apesar das advertências relativas aos males que isso pode acarretar, aos perigos da poluição; as doenças, as infecções, as viroses, as enfermidades mais variadas, todos atiram detritos: embalagens de todo tipo, restos de petisqueiras, bagaços de frutas, sobras de comida, cascas de qualquer coisa, na mais insensível desconsideração por tudo e por todos.
A ida à praia, que pretendemos se constitua prazeroso convívio com a natureza, para o retemperar das forças e energias, transforma-se em desagradável envolvimento com a sujeira que nos enche de asco e de revolta.
— Mas não há serviço público? Não há lixeiros? Não há observância de higiene? E a saúde pública? Que faz o governo?
Lixeiros há — amontoam o lixo que carros recolhem. Mas é como se não houvesse. Todo mundo joga coisas a toda hora, a todo instante; é um lançar detritos constante, contínuo, interminável. Enquanto um limpa, o outro suja. Em qualquer logradouro público, mesmo que jamais procedêssemos de forma semelhante em casa, nos tornamos todos sugismundos. Para que pudéssemos desfrutar de ambiente bem posto, desenxovalhado, necessário seria existir um homem de limpeza atrás de cada um.
O problema é insolúvel: não há serviço público que possa atingir os requisitos mínimos de higiene e conforto, se ninguém se preocupa,
É a impossibilidade que enfrenta a dona-de-casa quando, ao pretender manter a ordem, se depara com o descaso, o desleixo de todos um que larga coisas por onde passa, outro que põe em desalinho tudo que toca, outro ainda que deixa desarrumação em tudo que faz.
Não há quem possa manter adequadamente, seja o que for, se cada um não se compenetrar do valor da ordem, não fizer dela parte de suas responsabilidades.
Se cada um considerar, observar e puser em prática os princípios sadios da convivência, não somente facilitará a ação governamental, mas fará com que se possam desenvolver meios mais poderosos, mais eficientes, mais benéficos, possíveis, se alicerçados na compreensão e na participação de todos.
Finalidade da saúde pública é sanear, prevenir endemias e doenças, preservar a saúde, criar recursos de assistência. De pouco valerá o desempenho, entretanto, se continuarmos a poluir as águas, lançar detritos nas ruas ou em terrenos baldios.
De pouco servirá uma alimentação sadia se cultivarmos os vícios do álcool, do fumo, dos estupefacientes, ou outros que solapam as forças e as energias. De pouco valerá qualquer planejamento amplo se não cultivarmos os hábitos da higiene, ou os sadios na prevenção de moléstias: o expor-se ao sol, o praticar exercícios, o não ingerir alimentos fortes; não entregar-se a excessos de qualquer espécie.
São tarefas da educação proporcionar escolas, livros baratos, bolsas de estudo aos que possam ter necessidade. Mas pouco poderão elas proporcionar, se não desenvolvermos sede de conhecimento, ânsia de saber, amor pela verdade; se não nos dispusermos a contribuir com o nosso esforço na produção de aperfeiçoamentos no receber e transmitir o conhecimento.
Qualquer que seja o problema coletivo, não há governo, partido ou grupo capaz de solucioná-lo se cada um de nós não se dispuser a realizar em si mesmo as condições aptas a resolvê-lo.
Não se erradicará a miséria, se quem detém a riqueza não dispuser dela para proporcionar oportunidades de trabalho, ensejos de empreendimentos. Mas também não desaparecerá se o trabalhador desperdiçar o tempo, o vendedor adulterar as medidas, o comerciante falsear os preços, se cada um de nós, na esfera da própria ação, buscar obter para si proveitos ilícitos.
Seria necessário um fiscal para cada um.
A essência de nossos sofrimentos será sempre consequência do nosso despreparo diante dos deveres que o convívio social nos impõe. Para eliminá-los não há outro caminho que aquele da autoeducação, do aprimoramento e do serviço. — Estudar e servir — diz Emmanuel — é o lema.
6.3 — Poluição moral
No campo moral as coisas não são diferentes.
Nossos pensamentos constituem o veículo de influências pelo qual nos relacionamos com os outros. A falta de vigilância para com eles, o descuido com que os formulamos, a fácil adesão às ideias menos edificantes, o palavrório grosseiro, o anedotário licencioso, os julgamentos precipitados, a malícia, a desconfiança, o ciúme, o despeito, a inveja mal disfarçados, são vários dos móveis com os quais lançamos detritos mentais em nosso derredor, conspurcando o meio que nos circunda, provocando poluição no campo das ideias.
Por mais que se esforcem os paladinos do bem, em propiciar meios de paz, tranquilidade e entendimento, pouco ou nada podem conseguir, enquanto ninguém policiar seus próprios atos mentais. Todos, de maneira constante e contínua, atiram faíscas de ódios, fuligem de despeito, negrume de falsidades, dardos de ciúme, explosões de cólera, azinhavre de maledicência, podridões de concupiscência, lodo de desregramentos, nódoas de corrupção, máculas de desonestidade, na mais completa ignorância de que ideias são forças e que constituem a paisagem que nos há de abrigar para o convívio comum. Para poder manter a imaculabilidade, necessário seria um vigilante para cada um.
Para que a paisagem se nos aclare, se nos ofereça apaziguante, confortadora, repousante e acolhedora, necessário se faz que abracemos os preceitos do ajustamento íntimo, adotemos as posturas sugeridas pelos sentimentos nobres; irradiemos as influências inspiradas pelas exigências do bem comum.
E da mesma forma que se exige, para aquele que não quer debater-se com a espurcícia, ser o primeiro a não contribuir para ela, assim se requer, para aquele que clama pelo resguardo dos valores humanos, a necessidade de ser-lhes o fautor.
6.4 — O ensinamento evangélico
Jesus, sabedor de nosso despreparo, conhecedor das causas que nos aduziam dor e aflição, mestre e consolador dos necessitados e famintos, diante daquele que clamava por justiça, obtemperava:
— Sede justos, não julgueis. Sede misericordiosos.
— Bem-aventurados os misericordiosos porque deles é o reino dos céus.
— Não critiqueis. Não lanceis anátemas. Perdoai para serdes perdoados.
— Se perdoardes as ofensas que os homens vos fazem, vosso Pai vos perdoará os pecados.
Quereis justiça? Praticai-a. Porque o dia em que cada um for justo, a injustiça erradicar-se-á da face da terra.
Aprendestes a devolver o insulto, se atacados: olho-por-olho, dente-por-dente. Justiça com Jesus não é o revide à ofensa; não é retribuir com a mesma moeda. É porém atribuir a cada um o que lhe compete segundo a melhor consciência. A justiça apenas não deve agravar os problemas do devedor. Aos que fazem o mal, basta o fogo do remorso, a comburir-lhes o coração.
Reclamais contra as agruras, a miséria, a luta que se torna pesada? Sede operosos, caridosos; não negueis uma camisa a quem a pede, mas dai-lhe duas.
Sede mansos, sede pacientes; não cultiveis a cólera, não pratiqueis a crítica. Dai sempre vossa palavra de estímulo; não censureis. Cultivai a compreensão, oferecei sempre novas oportunidades.
Bem-aventurados os mansos porque cultivam a paz, a paciência, a tolerância, a bondade. Tornar-se-ão os preferidos, os amados por todos. Serão senhores, porque que senhor é aquele que é amado, respeitado.
— Reclamais contra os abusos do poder, os excessos dos privilegiados? — Ele responde:
— Não amealheis tesouros na terra; não temais; não vos inquieteis por vossa vida.
Olhai as aves do ar; não semeiam, não colhem, não fazem provisões nos celeiros, contudo vosso Pai Celeste as sustenta. Considerai os lírios dos campos; não trabalham, nem fiam; entretanto vos digo que nem Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestiu como nenhum deles.
— Reclamais contra as forças da inferioridade que vos solapam o instituto da família, vos desonram o no me, vos desencaminham os filhos, vos conspurcam a imagem?
Responde:
— Sede puro, não pratiqueis a impudicícia. Erguei o pensamento às fontes da vida e não o deixeis mergulhar nos pântanos do vício, para que a vida se vos faça para melhor.
Bem-aventurados os que têm puro o coração, porque deles é o reino dos céus.
E acrescenta:
— Compenetrai-vos de vosso destino e cumpri vossos deveres para realizá-los. Vós sois deuses. Tende fé. Pedi e dar-se-vos-á. Buscai e achareis. Batei e abrir-se-vos-á. Se maus como sois sabeis dar boas dádivas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai que está nos céus que bens não dará aos que lhos pedirem.
Cumpri vossos deveres, praticai a caridade.
Pensai feridas, aliviai o sofrimento, soerguei os decaídos. Ensinai e acreditai no bem e eliminai o mal. Em tudo e em todos esparzi amor e benefícios.
Reconciliai-vos com todos, amai aos inimigos; pagai o mal com o bem. Imitai o Pai — sede perfeitos como vosso Pai é perfeito. Dai a quem pede; fazei aos outros o que desejaríeis que os outros vos fizessem. A paz, a justiça, a prosperidade, a felicidade reinarão entre vós quando vos amardes uns aos outros como vos amei. O reino de Deus pode ser estabelecido mesmo na terra: ela é a sociedade de homens piedosos e honestos amando a Deus e amando-se entre si.
6.5 — O Espiritismo
O Espiritismo, em consonância com o Cristo, não apregoa revoluções, levantes ou destruição de situações existentes. Apregoa a caridade e a reforma íntima porque, ao praticá-las, e a seguir nos depararmos com os problemas que envolvem as necessidades humanas, veremos que, na sua essência, eles se convertem principalmente em necessidades de aprimoramento pessoal, aculturamento, virtuosidade e, acima de tudo, de muito amor ao próximo.
a) Bibliografia
[1] Allan Kardec — O Evangelho segundo o Espiritismo.
b) Leituras Complementares.
[1] Cap. VIII.
Emmanuel — Pensamento e vida — n.º 5.
Emmanuel — Roteiro — n.º 21
Neio Lúcio — Alvorada Cristã — n.º XIII
c) Trabalho — Interprete e análise:
1) Emmanuel — Caminho, Verdade e Vida — n.º 21, 22.
d) Prática de Renovação Intima.
André Luiz — Sinal Verde.
Estudar e pôr em prática o cap. n.º 7.
Indicaremos, neste capítulo, sucintamente, os processos do desencarne e da reencarnação, apontando para as consequências que os nossos pensamentos acarretam.
Mostraremos ainda como, em função da sintonia mental, os espíritos se influenciam mutuamente para o bem ou para o mal, nas associações, na simbiose, no vampirismo é na obsessão.
Ressaltará das considerações levantadas, que ninguém está condenado para sempre; que em qualquer circunstância, o Evangelho servirá de instrumento da redenção e que somente por ele poder-se-á preservar a saúde psíquica, o equilíbrio e as possibilidades de superar os embates da jornada.
7.1 — Desencarnação e reencarnação
A passagem do estágio animal para o estágio hominal caracteriza-se pelo pensamento que, ao expandir- se pela matéria mental, "estabelece, no mundo tribal, um oceano de energia sutil em que as consciências encarnadas e desencarnadas se refletem sem dificuldade, uma às outras" ([1], Cap. X).
O ser, ao iniciar-se na meditação, exterioriza as próprias ideias, capta as que lhe são afins e, no sono, tem o corpo espiritual a inaugurar o desprendimento do corpo físico. Com isso recebe dos espíritos instruções e orientações para o desenvolvimento de sua vida mental e para a iniciação na responsabilidade de conduzir-se por si mesmo.
As experiências que realiza no plano físico, condicionam-lhe aquelas que ele viverá no plano extrafísico.
Ao desencarnar, passa-se com ele algo semelhante ao fenômeno da metamorfose. Da mesma maneira que a larva, após várias fases, se encerra no casulo, desfaz os próprios órgãos e reconstrói outros, aproveitando-se de materiais resultantes da decomposição, para a seguir ressurgir qual borboleta, o homem se imobiliza no cadáver, ensimesmado nos próprios pensamentos, examinando, em retrospecto, todos os acontecimentos da própria vida. Nisso libera energias que, em decompondo sua organização física, propiciam-lhe matéria para a construção de novos órgãos, ressurgindo no plano espiritual com um peso específico resultado da natureza de pensamentos que cultivou.
Fenômeno semelhante se realiza na reencarnação: a fixação do pensamento em voltar, imobiliza-o, atrofia-lhe os órgãos do corpo espiritual e o reduz a uma forma ovoide, e, ao calor do vaso genésico da mulher, recapitula todos os lances da evolução genética. Em ambos os planos, na recomposição do próprio veículo, a mente revisa rápida e automaticamente todas as experiências vividas, imprimindo magneticamente às células as diretrizes que resultam desta revisão e a que deverão obedecer dentro do novo ciclo de evolução a que estarão sujeitas.
Essa é a essência da lei de causa e efeito, pela qual o homem encontra em si mesmo os resultados enobrecedores ou deprimentes das próprias ações.
No plano espiritual ele vai lidar mais diretamente com o próprio pensamento, fluido vivo e multiforme a nascer-lhe da própria alma, que atua na matéria lá existente em novos estados de condensação, originando formações com peso específico correspondente àquele do corpo espiritual e que constituirão o próprio solo que o abrigará. Tais formações constituídas por este fluido em que se lhe imprimem os mais íntimos sentimentos e que lhe definem os mais íntimos desejos, convertem-se em substância gravitante ou libertadora, ácida ou balsâmica, doce ou amarga, alimentícia ou esgotante, vivificadora ou mortífera, segundo a força do sentimento que tipificou e configurou o pensamento.
Com isso o encarnado vai conhecer o resultado de suas próprias criações a que se habituou na passagem pelo campo carnal, criações estas que poderão situá-lo em "povoações mais ou menos felizes, ou em aglomerações infernais de criaturas que, por temerem as formações dos próprios pensamentos, refugiam-se nas sombras, receando e detestando a presença da luz” ([1]; Cap. XIII).
7.2 A simbiose espiritual
O ser, ao iniciar a fase humana, se necessita evoluir do ponto de vista moral e morfológico no plano físico, também no plano espiritual é obrigado a desenvolver recursos de adaptação e sustentação. Não o fará de pronto, entretanto. No desencarne, arrebatado para uma vida que não compreende, permanece fluidicamente algemado aos que mais ama, partilhando-lhes a experiência vulgar. Valendo-se da receptividade dos que The choram a ausência, infiltra-se-lhes na organização fisiopsicossomática, sugando-lhes a vitalidade, qual cogumelo a penetrar na alga, na associação simbiótica do líquen.
A mente encarnada, inconscientemente, submete-se ao domínio parcial do desencarnado, enquanto, em troca, passa a ter sua sensibilidade aumentada. Se pelo primeiro fato fica condicionada no desenvolvimento ao alcance do dominador, pelo segundo fica protegida contra forças ocultas piores.
Se o desencarnado possui inteligência mais vasta, termina por inspirar ao encarnado atividade progressiva, benéfica. Se inferior, subjuga-lhe o campo mental, permanecendo ambos estacionários no tempo.
É esta a razão pela qual, hoje, pessoas pouco aptas ao autocontrole, embora possam ser até inteligências brilhantes, subjugadas pelos espíritos desencarnados, cristalizados em concepções retrógradas, permanecem estacionadas e avessas ao progresso. Acolhendo-lhes os pensamentos, quais fossem os próprios, quedam-se infensas ao estudo que as libertaria, ou apáticas no esforço da própria iluminação, o que lhes proporcionaria renovação.
Mas como o progresso é compulsório, isso permanece até que, pelas dificuldades, pela dor, pelo trabalho, pelo estudo edificante, pelas virtudes vividas, se lhes realiza a transformação com que se adaptam a novos caminhos, aceitando encargos novos, rumo a novos estágios de consciência e de realização, rumo a esferas mais elevadas.
7.3 — Vampirismo e obsessão
Casos há, entretanto, em que tais ligações não são afetivas. Há um desejo de fazer mal; de consumar uma vingança, como represália por prejuízos sofridos; de promover perseguições em razão de interesses insatisfeitos; pelos motivos mais variados, urdidos por nossas imperfeições. Nesses casos as atuações são prejudiciais, podendo provocar as mais variadas enfermidades psíquicas ao subjugado, inclusive a própria morte, em situações que se prolongam além dela.
São as ligações de obsessão e vampirismo,
A obsessão pode nascer do assédio das vítimas do homicídio, da violência, da brutalidade, que ao invés de perdoarem, lançam-se a vinditas atrozes. Mas pode nascer da invigilância, facilitadas pela imperfeições morais de que somos portadores, em virtude de marcas profundas deixadas por falhas pregressas,
Uma ideia torturante, que teima por se fixar, interferindo no curso de nossos pensamentos; que por mais que a queiramos eliminar se insinua, se desenvolve, se instaura, sem razão aparente, causando-nos inquietação e desassossego, poderá ser o início de obsessão, provocada mesmo por quem não tem senão o desejo de fazer o mal.
Toda causa prejudicial ao corpo e à mente, pode constituir-se em uma porta que se lhe abre ao acesso: fumo, álcool, sexualidade desregrada, estupefacientes, jogatinas, e outros vícios da atualidade, pelos prejuízos que ocasionam ao corpo e à mente, constituem-se em verdadeiras brechas espirituais para a insinuação de mentes desencarnadas viciosas que, em se hospedando na intimidade das mentes encarnadas, podem abrir o caminho para dolorosas desarmonias ou gerar obsessões degradantes.
Analogamente "a glutoneria, a maledicência, a ira, o ciúme, a inveja, a soberba, a avareza, o medo, o egoísmo, são outras tantas vias de acesso às mentes desatreladas do carro somático, em tormentosa e vigilante busca na Erraticidade, sedentas de comensais, com os quais, em conexão segura, continuam o enganoso banquete do prazer fugido..." ([2], pág. 29).
7.4 — Desobsessão
Libertar-se da obsessão não é processo simples, nem fácil de realizar, mesmo quando ela não tenha atingido as culminâncias desastrosas, ou apenas se mantenha em níveis de viciação de forças simplesmente.
É comum verem-se pessoas adentrar casas de oração (deixando lá fora as companhias espirituais que, por sua inferioridade, não as podem acompanhar), serem beneficiadas, reconfortadas, reequilibradas, para depois, à saída, serem novamente abordadas por elas, sofrendo-lhes a mesma influência, de novo, por falta de maior determinação ou propósito firme em sustentar os pensamentos que as poderiam libertar.
Enquanto vítima e algoz se igualam nos sentimentos e nos pensamentos, permanecem ligados entre si em situações dolorosas, que só serão desfeitas com a reencarnação, em regime de reajuste, no qual os envolvidos encontram o caminho da redenção, ou por processos outros em que, pela transformação de suas próprias forças, poderão romper as algemas.
Diz André Luiz: "— Não bastará a palavra que ajude, a oração que ilumine. Será necessário que o hospedeiro dê testemunho com o próprio exemplo, nas práticas do amor, em benefício do semelhante. Passando a reformular os próprios pensamentos nas trilhas do bem comum, a corrigir sentimentos inferiores, desenvolvendo sabedoria e virtude, no serviço ao próximo, atua nas disposições dos que se lhe incrustam na intimidade, provocando-lhes intensas transformações no campo íntimo, modificando-lhes as disposições a seu favor... Pelo devotamento ao próximo e pela humildade realmente praticada e sentida, é possível valorizar nossa frase e santificar nossa prece, atraindo simpatias valiosas, com intervenções providenciais em nosso favor...
É que, vendo-nos transformados para o melhor, E nossos adversários igualmente se desarmam para o mal, compreendendo por fim que só o bem será, perante Deus, o nosso caminho de liberdade e luz."
Nos casos em que as obsessões se prolongam além da morte, de forma pertinaz, inflexível, inamolgável, os envolvidos permanecem ligados a ponto de sofrerem transformações morfológicas no corpo espiritual, cujos órgãos, por falta de uso, se atrofiam e assumem formas ovoides, permanecendo vinculados às próprias vítimas que, mecanicamente, a eles permanecem ligadas, por afinidades de ódio, de egoísmo ou de viciação.
Em tais casos — explica André Luiz — o Plano Superior, estudada a situação, promove a reencarnação de um deles, por mulher indicada, em virtude de seus débitos, à gravidez respectiva. A reencarnação se processa permanecendo a entidade ligada aos seus obsessores, padecendo suas influências negativas até que, frequentemente, possa favorecer a reencarnação deles como filhos, devolvendo-lhes em renúncia o bem que lhes deve.
Em todos os casos, quer se trate de recuperar o equilíbrio psíquico, quer se trate de mantê-lo, é no Evangelho que encontramos o guia a reger nosso comportamento.
a) Bibliografia
[1] André Luiz — Evolução em dois mundos.
[2] Manoel Philomeno de Miranda — Nos Bastidores da Obsessão. (Psicogr. por Divaldo P. Franco).
b) Leituras Complementares
Emmanuel — Leis de Amor — Cap. V.
Emmanuel — Pensamento e Vida — n.º 27.
Irmão X — Contos desta e doutra vida — n.º 38
André Luiz — Ação e Reação — Cap. I.
Allan Kardec — O Livro dos Espíritos — Livro Segundo — Cap. II e III.
c) Perguntas
1) Como entende a reencarnação?
2) E a desencarnação?
3) O que é simbiose espiritual?
4) O que é vampirismo?
5) O que é obsessão?
6) Como se processa a desobsessão?
d) Prática de renovação íntima.
André Luiz — Sinal Verde.
Estudar e pôr em prática o Cap. 8.
O Espiritismo, ao estabelecer as leis da reencarnação e da evolução, o conceito de espírito como ser completo (as sensações são do espírito: desencarnado ele vive uma vida total, a tal ponto que, às vezes, nem se dá conta de estar no novo estado), altera o sentido consagrado de muitas das noções relativas ao homem e ao existir.
As noções de amor e sexo não lhe fazem exceção.
Para que possamos abordá-las, portanto, necessário se faz explicar, inicialmente, quais as alterações de conceituação que se devem considerar.
8.1 — Co-criação
À concepção de Deus criador, o Espiritismo acrescenta a noção de ser co-criador, isto é: a de ser agente, realizador, que atua no meio circundante, sob a égide das leis naturais expressões da vontade de Deus para criar formas de duração temporária e desenvolver qualidades para si próprio, que lhe determinam o progresso evolutivo.
O ser adquire pensamento contínuo e livre arbítrio ao passar do estágio animal para o estágio hominal. Pela lei da ação e reação se lhe desenvolvem o sentimento e a razão; começa a distinguir as leis da vida e, sua marcha ascensional.
8.2 — Energia e forças criadoras
O sentimento resulta de uma lenta e progressiva metamorfose dos instintos e a razão se desenvolve para o homem qual faculdade para, com base em tal transformação, nortear-lhe a ação.
O sentimento determina os motivos de interesse do espírito a se projetarem quais quadros em sua mente e a estabelecerem, em seu derredor, campo de influências.
Pelo pensamento, o espírito permuta energia mental com outras mentes, em regime de sintonia, dela liberando forças que governam a formação das outras formas de energia para ele disponíveis (na alimentação, na respiração, etc.), através dos centros de forças,
Os sentimentos e desejos ditam o tipo de energia e de forças que a mente emite em forma de pensamentos e que estabelecem influência sobre o corpo do espírito em seu derredor.
Pois bem! A fim de precisar a linguagem entenderemos, por amor, a totalidade dos sentimentos e desejos que estruturam o pensamento para a liberação de energia e de forças que guiam a ação na produção do bem e possibilitam a aquisição de qualidades, constituintes do crescimento do espírito.
A energia e às forças fundamentadas no amor, denominaremos, respectivamente, energia criadora e forças criadoras.
A energia criadora, pelo coronário e pelo centro cerebral, é distribuída aos diversos centros de força: o laríngeo, o cardíaco... (podendo aqui serem denominadas energia laríngea, energia cardíaca, etc...) para reger, em cada um, complexo de funções distintas.
Com base nisso, denominaremos de funções sexuais aquelas funções do espírito que regulam a permuta de energia criadora entre seres, quando se associam, em regime de afinidade, para produções em comum, que compreendem, no plano físico, as permutas para a procriação.
À totalidade das funções sexuais, no seu todo psicofísico, denominaremos sexo; e àquela particular energia criadora, destinada a reger o sexo ou as funções sexuais, denominaremos energia sexual.
Com isso situamos as noções de energia e força criadora, amor, sexo e energia sexual, em planos bem distintos, com significados bem diferentes dos consagrados entre nós, para conceituá-los (e nisso reside o mais importante do novo significado) como manifestações relacionadas à mais íntima essência do nosso ser: características do espírito, que o corpo apenas materializa.
O sexo, portanto, surge para nós como uma noção que designa um conjunto de características do espírito que podemos também classificar em ativas, constituindo a masculinidade; e passivas, compondo a feminilidade.
No consenso comum, masculinidade e feminilidade se referem a distinções de caráter morfológico, restritas ao plano físico; no Espiritismo elas se modificam e seu significado imbui-se de um contexto que transcende estas formas.
O impulso sexual passa também a adquirir concepção que transcende o significado comum: passa a ser entendido como aquela resposta relativa aos estímulos que estabelece a transmudação de energia criadora entre seres.
Com estas noções podemos desde já afirmar:
— O ser evolui e adquire as qualidades que determinam seu crescimento, quando a energia absorvida é regulada, nas suas transformações, pelas manifestações do amor.
— O ser cria para si processos obsessivos e de regeneração, quando tais transformações são fundamentadas em manifestações outras que não as do amor.
É pela permuta de energia criadora que os seres se desenvolvem e adquirem as qualidades de que necessitam, permuta esta que surge quando os seres se associam nas manifestações de afinidades e que já se nota nas atrações magnéticas, nas combinações químicas, nas organizações minerais e vegetais, nos animais com função prevalentemente orgânica.
Na fase humana o ser passa a viver mais no plano astral e as trocas de energia passam a efetuar-se cada vez mais via mental, num processo de transformação que denominaremos, com André Luiz, mentossíntese. Tal qual a energia elétrica fluente num circuito, em função de uma diferença de tensão entre seus terminais, aquece o forno que irá transformar farinha em pão, assim a energia sexual, fundamentada no amor, atua no espírito, desenvolvendo-lhe qualidades, proporcionando-lhe o crescimento.
Por isso dizemos que o Amor é alimento do espírito; por isso dizemos que Deus é Amor — porque nele está a fonte de toda possibilidade benéfica ([1], Cap. XVIII).
Nos homens primitivos menos evoluídos energia sexual tem função prevalentemente orgânica e sua veiculação está mais vinculada ao concurso dos sentidos. Nos mais evoluídos ela passa a ter função cada vez mais dirigida ao desenvolvimento do espírito; sua veiculação tende a efetuar-se cada vez mais nos processos da mentossíntese, com concurso sempre decrescente dos sentidos.
A marcha evolutiva do homem é também marcha para a conquista da mentossíntese, em cujas expressões o amor forja a grandeza do espírito. Assim, o amor:
— pelo ensino cria a confiança;
— pelo perdão favorece a amizade;
— pela tolerância estabelece a gratidão;
— pela caridade desperta o otimismo;
— pela humildade infunde estima;
— pela boa palavra desenvolve a fé;
— pela bondade apaga a cólera;
— pela imparcialidade revigora o senso de justiça;
— pela defesa dos fracos consolida a força do direitos;
— pelo culto da maternidade exalta a beleza;
— pelo servir fundamenta a cooperação.
Num momento de desespero ou de desilusão, abatimento ou tristeza, são as expressões de amor que reconfortam, pelo aconchego de um carinho de mãe, pela expressão de uma palavra amiga, pela manifestação da compreensão alheia. Nada melhor para o reerguimento e restauração de forças do que o gesto amigo, a prova de confiança, a boa palavra, a infusão de otimismo.
Só o amor constrói, é alimentação espiritual. Seus veículos são o carinho, a confiança, a dedicação, o entendimento, a cooperação.
Toda causa de alegria, superação de provas, autoconfiança, reside no amor que, como fonte detonadora de energia benéfica, nos permite adentrar pelas rotas do desenvolvimento, capacitar-nos às aquisições perenes, rumo aos cimos da espiritualidade.
Amar é engrandecer-se.
8.3 — O crescimento espiritual
As permutas de energia criadora no animal têm função prevalentemente orgânica. O homem primitivo, ainda animalizado, permanece no mesmo nível: é a partir do sexo, limitado à procriação, que inicia o cresci- mento espiritual, rumo a estágios em que o concurso dos sentidos far-se-á cada vez menos presente.
Da mesma maneira que a criança, necessita do concurso dos sentidos para aprender a contar, antes de podê-lo fazer mentalmente, assim o homem se utiliza do sexo (na acepção comum do termo) para iniciar-se na subtração à animalidade. No sexo (entendido agora na forma mais ampla) é que reside essa força que possibilita a ascensão humana aquela força que, pela experiência, nos faz adquirir, como qualidades ativas: a energia, a fortaleza, o poder, a inteligência, a iniciativa, a sabedoria, etc... e como qualidades passivas: a ternura, a humildade, a delicadeza, a intuição, a dedicação, a afetuosidade... em reencarnações sucessivas, nas quais, periodicamente, vive experiências masculinas ou femininas.
Concomitantemente com a experiência, o sofrimento, o aprendizado, se lhe sublimam os anseios, se lhe enaltecem os objetivos.
No terreno das manifestações afetivas, o desejo se lhe transforma em posse; a posse em simpatia e, em escala progressiva: em carinho, devotamento, renúncia, em que, cada vez mais, se desenvolve sua capacidade de amar, independentemente dos sentidos, até o sacrifício, o clímax do dar e do receber.
E nessa crescente capacidade de dar e consequente possibilidade de mais receber, consolidam-se suas conquistas, enobrecem-se seus predicados: a partir da assim chamada satisfação fugaz de amor, a tribo converte-se em família, a taba em lar, a força em direito, a floresta em lavoura, a barbárie em civilização, o grito em cântico, a alavanca em usina atômica, o homem em Cristo.
8.4 — A utilização da energia sexual
A energia criadora, permutada pelo sexo, gera cargas magnéticas, que invadem todos os campos sensíveis da alma. Sua descarga indiscriminada conduz à exaustão e ao sofrimento; tal qual se dá com as nuvens inanimadas que, após terem-se revestido de cargas opostas, incapazes que são de controlar as manifestações oriundas de suas aproximações, entregam-se à descarga violenta de suas energias acumuladas e, na explosão do raio que se forma, com o relampaguear que ilumina apenas por um instante, só deixam atrás de si rastros de tristeza e desolação ([2], Cap. XVIII).
A energia criadora é força que alimenta e constrói o cérebro, clareia a mente, favorece a vida psíquica. Por isso precisa ser gasta, parte para a continuação da vida, parte para o engrandecimento de nós mesmos. Não pode ser retida; não se pode acumulá-la. Seria o mesmo que reter vapor em uma panela de pressão sem válvula de escape: causam-se os mais vastos e frequentes distúrbios nervosos, que conduzem ao ciúme, ao despeito, à rebelião, à loucura. Não se pode despendê-la nos abusos da prática sexual, porque se enfraquece o cérebro, afeta-se a memória, retarda-se o raciocínio, destroem-se elementos preciosos da vida psíquica, responsáveis pela ligação da terra com o plano superior.
Deter-se nas malhas do instinto, com desprezo dos demais departamentos de realização espiritual, é rumar para situações enfermiças, de retardamento e imbecilidade, pelo esgotamento das forças sexuais que alimentam as células cerebrais. Há que conduzi-las para todas as necessidades, pelo abandono da ociosidade, pelo trabalho em benefício do meio que nos circunda, para o desenvolvimento da mente, do psiquismo e da realidade espiritual.
O bom uso purifica as emoções e os pensamentos.
Nesse condicionamento à prática do bem, ao dar para obter, condiciona-se sua liberdade.
No preceito de não fazer aos outros o que não se quer que os outros nos façam, está a impossibilidade de entregar-se à liberdade incondicionada, à permissividade total, em complacência irrestrita, num regime de relações inconscientes, para as permutas de energia sexual. Surge porém a necessidade de dobrar-se aos imperativos da responsabilidade, às exigências da disciplina, aos ditames da renúncia: não por normas rigoristas de virtudes artificiais; mas pelo esclarecimento, pela educação, pela compreensão do estágio de cada um, pela dilatação do entendimento, pelas melhores energias do cérebro, e com os melhores sentimentos do coração; entendendo que a incapacidade de disciplina e renúncia exige orientação, socorro para a sustentação, atitudes de médico e orientador, no socorro às necessidades, onde quer que a incapacidade se manifeste.
a) Bibliografia
[1] André Luiz — Nosso Lar.
[2] André Luiz — Evolução em Dois Mundos,
b) Leituras Complementares
Emmanuel — Religião dos Espíritos n.º 53
André Luiz — No mundo maior — Cap. XI.
Emmanuel — Vida e Sexo.
c) Perguntas
1) O que é energia criadora?
2) Qual a noção de sexo, segundo o texto?
3) Conceitue masculinidade e feminilidade.
4) O que é Mentossintese”?
5) O amor é alimento espiritual. Explique.
6) Como se sucedem, em termos evolutivos, as manifestações afetivas?
7) Qual o papel da energia criadora no desenvolvimento do espírito?
8) Que acha da liberdade de agir: pode ser absoluta, ou não? Faça uma digressão a respeito.
d) Prática de renovação íntima.
André Luiz — Sinal Verde.
Estudar e pôr em prática o Cap. 9.
e) Aula de recordação:
Prática de Renovação Intima.
André Luiz — Sinal Verde,
Estudar e pôr em prática o Cap. 10.
Pontos fundamentais de divergências entre o Espiritismo e as outras Religiões cristãs são os relativos às noções de Revelação e da personalidade do Cristo.
Tais Religiões entendem a Revelação como manifestação de Deus para com os homens: portanto, conteúdo de verdades absolutas. E consideram Jesus ele próprio Deus, na pessoa de seu filho, que ter-se-ia feito homem a fim de redimir a humanidade do pecado original.
Para o Espiritismo as noções se modificam.
A Revelação existe, mas não como manifestação de Deus a comunicar-se com os homens. Deus é o princípio das causas que atua sobre os dois princípios — o material e o espiritual — por leis naturais, leis estas que os espíritos devem determinar e conhecer para aplicar nas tarefas da co-criação, pelas quais, instados a participar nas obras da criação, evoluem.
É da lei que os espíritos progridam pelas realizações da co-criação, segundo desígnios a nós imperscrutáveis. Mutuamente apoiados. Os maiores valendo-se dos menores para afirmar-se; os menores prestando serviço aos maiores e recolhendo deles, a seu turno, preciosa cooperação para crescerem.
Para o homem, tudo procede como se ele estivera dentro de um plano, em que ele figura qual partícipe, ficando-lhe resguardados o exercício do livre-arbítrio e a necessidade de realização própria. Assim sendo, recebe ele, do Plano Maior, pela Revelação, as diretrizes em forma de princípios básicos ou fundamentais, cabendo- -lhe todavia as iniciativas e a elaboração dos meios pelos quais há de se conduzir. Progressivamente. Recebendo nova lição após o aprendizado e o esgotamento de possibilidades contidas na anterior.
Enfim, a Revelação é progressiva. Cabe ao homem, entretanto, dentro desses princípios, proceder à determinação das leis que o governam, para conduzir-se por elas, a fim de evoluir. E, nessa elaboração, deve ele proceder com base nos fatos, pela observação e experiência — metodicamente — com a aplicação do método teórico-experimental, o método já largamente usado pelas ciências.
Esta é a grande revelação do Espiritismo: as leis que governam o princípio espiritual são cognoscíveis com o mesmo método que a Ciência utiliza para a determinação das leis que regem o princípio material. Ele próprio se intitula ciência das leis que regem o princípio espiritual ([1], Cap. 1.9). Por isso refuta as concepções das outras Religiões: porque elaboradas numa Revelação pretensamente divina e definitiva — completa — construídas racionalmente à margem dos fatos e das observações, cada vez mais reveladoras de novos dados, com o progredir.
Veremos neste Capítulo como se estruturam as novas concepções e como, por elas, Ciência e Religião se compatibilizam, irmanando-se quais ferramentas dignas e indispensáveis à realização do progresso e à consolidação das conquistas que hão de caracterizar o homem do futuro.
9.1 — Jesus
A concepção de que Jesus é Deus está elaborada sobre as noções bíblicas de Adão, tido como primeiro homem, e do pecado original, que ele teria cometido. Mais ainda: sobre a noção aristotélica de substância que o dogmatismo consolidou.
Diz-se que Adão, ao cometer o pecado original, ofendera a Deus. O grau de ofensa, sendo determinado pela grandeza do ofendido, resultaria infinito. O homem, ser de possibilidades limitadas, não poderia repará-la. Deus, entretanto, na sua infinita misericórdia, ter-se-ia feito homem na pessoa de seu filho — Jesus — visto que, como Deus, só Ele poderia proporcionar reparo no grau requerido e, com isso, resgatar o homem do pecado original, reabrindo-lhe as possibilidades de salvação.
Não seria, entretanto, pelas vias comuns a todos os homens que Deus ter-se-ia feito homem. E, nisto, intervém a noção aristotélica de substância: assim como de uma galinha só poderá resultar outra, de um cavalo outro também, dado que ambos são constituídos de substâncias ou formas distintas, permanentes, irredutíveis entre si (noção ausente portanto da ideia de evolução, segundo a qual o princípio que anima um ser progride e anima ao longo de sua evolução espécies diferentes), assim do homem só poderá surgir um homem, jamais um Deus. Daí o dogma do engravidamento de Maria pelo Espírito Santo, ele também Deus: a terceira pessoa. ([2], Dicionário)
Com a noção de evolução, tais concepções caem por terra.
Jesus é um espírito de grande hierarquia. É o condutor desta humanidade na sua marcha evolutiva, tendo recebido o planeta no instante de sua formação. Traçou-lhe as leis físicas e morais, em obediência às leis de Deus; conduziu-o no seu desenvolvimento desde os primórdios até os dias atuais e sua reencarnação teve por fim trazer o Evangelho, fruto de sua elaboração: a norma pela qual o homem deve orientar, neste planeta, o seu comportamento. [3]
Com base nos fatos não há nada, até o momento que evidencie qualquer exceção no processo existente da reencarnação e, portanto, nada que justifique não tenha ele nascido de José e Maria, de forma natural Todos os espíritos, maiores ou menores, vêm a este mundo pelos canais normais e comuns da reencarnação.
9.2 — A formação do conhecimento
Para o Espiritismo, a forma que sustenta os corpos é o espírito que evolui, segundo André Luiz, através dos reinos mineral, vegetal, animal e hominal, com origens e fins a nós desconhecidos.
O ser, ao passar da fase animal para a fase hominal, adquire o pensamento contínuo, a razão, o livre-arbítrio, pelos quais é despertado a conduzir-se por si mesmo.
Surgido da animalidade e impelido a aceitar os princípios de renovação e progresso, começa a sentir o amor pelo apego à própria prole; passa a instituir a propriedade e traça para si próprio determinadas regras de conduta, para que não imponha aos semelhantes ofensas e prejuízos que não deseja receber.
Inicia-se sua evolução do ponto de vista moral, em que é amparado e guiado pelo Plano Superior. Diz André Luiz: "Pela troca dos pensamentos de cultura e beleza, em dinâmica expansão, os grandes princípios da Religião e da Ciência, da Virtude e da Educação, da Indústria e da Arte descem das Esferas Sublimes e impressionam a mente do homem". ([4], Cap. XIII)
Nas primeiras manifestações de mediunidade, os homens melhores assimilam, por intuição, as correntes mentais dos espíritos mais avançados, gerando trabalho e progresso nos meandros do bem.
As concepções que se lhe formam, correspondem ao seu poder conceptual, limitado às experiências que vive.
A vida nos dois planos, as manifestações mediúnicas, o sono, o sonho, as inspirações que recebe do alto, fixam-lhe, desde os primórdios, a ideia de sobrevivência.
Incapaz que é de conceber força que não seja exercida por animal ou homem, atribui a causa dos fenômenos aos espíritos que, com a morte, adquiririam poderes sobrenaturais.
Dá-se conta de que há circunstâncias favoráveis e outras desfavoráveis aos acontecimentos, mas não se apercebe de que ele pode nelas atuar. Acredita que os mortos podem fazê-lo. Daí os cultos e rituais, pelos quais pretende influenciá-los a operarem em seu benefício. É o pressuposto das crenças caracterizadas pelo Totemismo.
Pouco a pouco passa a conceber o mundo entremeado por uma força — o maná — pela qual os seres podem influenciar-se mutuamente, podendo dar-se aos objetos, forças e qualidades. Sob esta concepção desenvolve a magia e a feitiçaria, pelas quais supõe poder conferir poder mágico aos objetos, afastar a desgraça ou produzir felicidade, dando origem a todas as espécies de superstições, amuletos, feitiços e talismãs. É a evolução do Totemismo para o Animismo.
Enfim surgem duas atitudes: uma teórica, que pretende explicar ou dar razão de ser aos acontecimentos; outra prática, que pretende, em função do conhecimento teórico, fornecer meios práticos para melhorar o viver.
É nessa fase que as "Inteligências Superiores incentivam o progresso da agricultura, do pastoreio, das indústrias, das artes e da Mitologia, a fim de instaurar a tarefa religiosa que viria ao encontro das civilizações, plena de inspiração e disciplina, patrocinando a orientação do corpo espiritual em seu necessário refinamento" ([4], Caps. XVII e XX). É o Politeísmo.
9.3 — O descobrimento das leis naturais
As concepções teóricas se desenvolvem. Pouco a pouco o homem começa a perceber que na Ciência, na Técnica, na Arte, os fatos se apresentam cada vez mais sujeitos a leis naturais do que como resultado de seus rituais. Começa-se a estabelecer aos poucos que, em lugar dos rituais e cultos, mais valem a prática da bondade, da retidão, da sinceridade, da ciência, do valor, da piedade; que os males se assentam na prática dos vícios, na ignorância, no pessimismo, na avareza, no erro, na inveja, na malícia, na cólera, na maldade, na calúnia, na difamação, no roubo, na contratação de dívidas.
As concepções acerca do mundo e das coisas, sempre alimentadas pelo Alto que guia o homem no seu desenvolvimento, tendem a unificar-se e a entender o princípio da vida como assente em uma causa primordial.
As várias Religiões efetuam conquistas parciais.
O Bramanismo instaura as noções de reencarnação e Carma; o Budismo desenvolve sobre elas a ideia de salvação para todos; o Confucionismo fixa regras de bem viver e de bom comportamento; o Mazdeísmo distingue entre o bem e o mal; o Judaísmo estabelece a crença do Deus único, deus de justiça, pela qual aprofunda o conhecimento das leis que regem o mundo e que a todos determina se viva segundo princípios morais.
9.4 — As três revelações
Certamente a ideia de Deus único e de vida regida por leis morais são ideias que amadureceram ao longo do tempo, não sendo lícito estabelecer-lhes um princípio. Entretanto, por constituir-se o decálogo num marco definitivo na sua maturação e sendo ele atribuído à Revelação feita a Moisés no monte Sinai, como promulgação da Lei e da verdadeira fé, é a isto que se dá o nome de primeira revelação; a primeira revelação das leis de Deus.
Com Jesus estabelece-se outro marco nesta concepção relativa às leis naturais. Revela ele o reino dos céus, no qual se desenvolve a verdadeira vida e as penas e recompensas que aguardam o homem depois da morte. Revela ainda que Deus é uma vontade amante, que ama sua Criação como um pai ama a seus filhos, infinitamente misericordioso, em quem devemos confiar e que governa por leis que são leis de amor. Que todos, por isso, somos irmãos, devemos nos amar fraternalmente, elegendo a caridade a virtude essencial para a salvação. Ele próprio estabelece o princípio da revelação progressiva, ao afirmar que mais tarde enviaria o Consolador, o Espírito de Verdade, para o esclarecimento de outras coisas que Ele não pudera dizer, por não estarem ao alcance dos homens então.
É a segunda revelação da lei de Deus. ([1], Cap. 1.º em diante); ([8], Cap. I)
Com o Espiritismo estabelece-se novo marco fundamental. Fixa sobre bases definitivas, baseado nos fatos, a existência do espírito e do mundo espiritual. Determina as leis da evolução e da reencarnação e estabelece de maneira definitiva que as leis relativas ao espírito se determinam da mesma forma pela qual Ciência determina as leis que governam o princípio material.
Ele próprio se constitui na Ciência que tem este objetivo.
É a terceira revelação acerca das leis de Deus. Como consequência, Ciência e Religião se tornam dois aspectos do conhecimento: pela primeira, determinam-se as leis do mundo material; pela segunda, as leis do mundo espiritual. ([5], Cap. I) E, nesse procedimento teórico-experimental, encontram ambas o elo que as une, o elemento que desfaz a incompatibilidade tida como existente: a Ciência, pela consideração do ele- mento espiritual; a religião, pela consideração das leis da matéria, instituindo a fé raciocinada.
Diz Kardec textualmente em ([1], Cap. I, n.º 16): "O Espiritismo e a Ciência se completam reciprocamente; a Ciência, sem o Espiritismo, se acha na impossibilidade de explicar certos fenômenos só pelas leis da matéria; ao Espiritismo, sem a Ciência, falta apoio e comprovação.”
Da maneira em que a Doutrina se constituiu, passou a ter, como a Ciência, caráter evolutivo, não podendo jamais ser ultrapassada porque é capaz de acompanhar toda e qualquer modificação decorrente de novas descobertas.
Acerca dessa compatibilidade entre a Doutrina e a Ciência, afirma Kardec: "A Ciência tem por missão descobrir as leis da natureza. Ora, sendo essas leis obra de Deus, não podem ser contrárias a religiões que se baseiam na Verdade. E, ao demais, trabalho inútil, porquanto nem todos os anátemas do mundo seriam capazes de obstar a que a Ciência avance e a que a verdade abra caminho. Se a Religião se nega a avançar com a Ciência, esta avançará sozinha." ([1], Cap. IV, n.º 9)
a) Bibliografia
[1] Allan Kardec — A Gênese.
[2] Enciclopédia Barsa — Bíblia Sagrada.
[3] Emmanuel — A Caminho da Luz.
[4] André Luiz — Evolução em Dois Mundos.
[5] Allan Kardec — O Evangelho Segundo o Espiritismo.
b) Leituras Complementares
As dos Capítulos da bibliografia citada no texto.
c) Perguntas
1) O que é a Revelação Segundo o Espiritismo?
2) Quais os caracteres de Revelação?
3) Em que se baseia a crença de que Jesus é Deus?
4) Por que Jesus ter-se-ia feito homem?
5) Por que Maria teria engravidado por obra do Espírito Santo?
6) Explique quem é Jesus e qual sua missão, segundo o Espiritismo.
7) Como surge o homem e como se inicia sua evolução?
8) Qual o significado dos rituais?
9) Como surge a noção de lei natural? A que outra concepção ela se opõe?
10) O que são as três revelações?
11) A Religião sempre se considerou acima da Ciência e da Filosofia, qualificando-as de suas servas, por ela lidar com as coisas de Deus, enquanto estas estariam a lidar com as coisas humanas. O Espiritismo as iguala em importância e as considera complementares. Explique.
d) Prática de renovação intima.
André Luiz — Sinal Verde.
Estudar e pôr em prática o cap. n.º 11.
Jesus é o portador da Segunda Revelação das Lei de Deus, pela qual o crescimento do espírito é entendido feito de aptidões e virtudes. Dentre estas, com sendo a maior, aponta-se a Humildade, virtude que, s não foi compreendida na sua primeira enunciação, continua hoje quase desconhecida. É comum, mesmo entre os que se afirmam cristãos, fazer dela uma ideia totalmente desfigurada, inadequada, destituída de sua significação maior.
A fim de esclarecer seu significado, embora d maneira incompleta, nos apoiaremos em três afirmações de Emmanuel.
A primeira: "Se, na ordem divina, cada árvore produz segundo sua espécie, no trabalho cristão, cada discípulo contribuirá conforme sua posição evolutiva. ([1], n.º 3)
A segunda: "O homem permanece em função de aprendizado e, nessa tarefa, é razoável que saiba valorizar a oportunidade de aprender, facilitando o mesmo ensejo aos semelhantes." ([I], n.º 3)
A terceira: "Quem retrata em si os louros desta virtude... aceita sem constrangimento a obrigação de trabalhar e servir em benefício de todos." ([2], n.º 24)
Assim sendo, diremos que, fundamentalmente, a humildade se distingue por três características principais:
— o desapego aos bens materiais;
— a necessidade de trabalho e aprendizado dentro do estágio evolutivo de cada um;
— o servir, na produção do bem comum.
10.1 — O desapego aos bens materiais
Os judeus esperavam um Messias concebido dentro do dogma da Trindade: filho de Deus, ele próprio Deus. O construtor do mundo — o Demiurgo, na expressão de Platão. O dono do mundo, sendo eles o povo predileto. Dessa forma, não poderia ele apresentar-se como homem, porque de outra substância: de substância divina.
Não poderia vir ele na dependência das mesmas vicissitudes a que estão sujeitos os humanos, tais como: sofrer, morrer, estar envolvido nas mesmas necessidades. Além disso, deveria apresentar-se com toda a magnificência, na detenção de todos os poderes que a sua divina condição de Arquiteto do Universo lhe conferia.
Por tudo isso não viram nele o Messias. Pior: o escarneceram.
Na literatura espírita ([3], Caps. I e II), Jesus é apontado como o Espírito de grande hierarquia que recebe, no momento de sua formação, o planeta, a fim de conduzir, nele, na caminhada evolutiva, esta humanidade. É a partir deste instante que Ele, junto aos seus comandados, lhe definiu a estrutura, as leis físicas, as condições de vida e o desenvolvimento dos seres através das espécies.
Jesus já teria estabelecido sua vinda de antemão.
O momento aprazado teria sido aquele em que a humanidade já teria atingido determinado nível de desenvolvimento, representado peia conquista do monoteísmo, da ciência e da filosofia grega e do direito romano. Atingido esse estágio, necessário se fazia novo impulso nas conquistas de ordem moral. Tal qual hoje, em que, com o progresso material e científico que atingimos, impõe-se novo avanço, também de ordem moral, a fim de consolidar o progresso alcançado. ([3], Cap. XI).
Esta era sua missão: trazer ao mundo novas concepções de comportamento, reajuste da fé, uma reformulada compreensão do relacionamento do homem com Deus e dos homens entre si — um novo impulso no crescimento das consciências — seu objetivo maior.
Sendo da lei que o espírito se desenvolva nas tarefas da co-criação, entrosadas entre si por um Plano Maior, a cada um é atribuído um papel, uma função e os meios adequados ao seu exercício. Por exemplo: é-nos necessária energia elétrica, para as nossas atividades caseiras. Só por isso ninguém irá exigir uma usina para si. Poderá pleiteá-la, entretanto, se para conduzir indústria de porte bastante que a justifique. A cada um segundo as necessidades da função que lhe é atribuída, por uma questão de equilíbrio, Nem mais, nem menos.
E é o conformar-se a este princípio, que denominamos desapego ou desprendimento dos bens materiais
Não desprezo. O trabalhador não pode desprezar as ferramentas de que se serve para produzir. O desprezo dos bens materiais é um falso conceito introduzido na religião pelo panteísmo, que entende a matéria um mal, esta vida uma incursão no pecado, e o desprezo de tudo aquilo que se relaciona à matéria, a salvação.
Desprezar os bens materiais que nos são necessários ao cumprimento de nossa missão corresponderia a enterrar talentos, o que é contrário à lei. ([4], Cap. XVI)
A matéria não é um mal. É uma bênção, uma oportunidade que a reencarnação renova: a possibilidade de recompor caminhos, edificar conquistas novas. ([5], Reencarnação)
Jesus viera ampliar o âmbito da Revelação, no cumprimento da lei. Viera trazer a norma que Ele estabelecerá em obediência às leis de Deus, como guia, para a evolução desta humanidade: novos conceitos de aperfeiçoamento, o aprimoramento dos sentimentos. Não para ostentar grandeza, ou para exibir o de que Ele seria capaz. Mas para ensinar, exemplificando, ao homem, o procedimento que lhe cabe assumir para que se conduza com sucesso.
Viera dar uma lição, colocando-se no lugar do homem, da mesma forma que um professor, ao ensinar algo, se situa na posição do aluno, resolvendo suas dificuldades, mostrando-lhe os caminhos de superação das dificuldades — no mesmo nível.
A primeira lição foi a de limitar-se a possuir apenas o essencial. Para a missão que vinha cumprir bastava-lhe apenas, primeiramente: uma família bem constituída; um pai honesto, cônscio de seus deveres — um trabalhador de profissão bem definida; uma mãe dedicada e extremamente virtuosa; um povo que detinha as noções religiosas mais avançadas da época — as concepções do Deus único e da vida regida por leis morais.
O nascimento na manjedoura é a primeira grande lição de humildade, destacando, como sua característica de primordial importância, o desprendimento dos bens materiais.
10.2 — A necessidade de trabalho e aprendizado dentro do estágio evolutivo de cada um
A segunda característica fundamental da humildade é o conhecimento do que somos, do que significamos, do papel que nos cabe exercer no meio em que vivemos.
É o conhece-te a ti mesmo Somos espíritos em evolução com largo caminho a percorrer, mas com um acervo de conquistas já feitas. De um lado temos o que oferecer; de outro temos que receber. O que já alcançamos, o que já possuímos, são os nossos talentos, que não podemos enterrar; mas que devemos pôr a produzir em benefício do bem comum.
Jesus sabia quem Ele era e não negava sua condição. No início de suas pregações, conta Humberto de Campos, em Boa Nova, vai a Jerusalém e, abordado por sacerdotes que lhe inquirem sobre o que está a fazer, responde:
— Vim implantar o reino de Deus entre os homens.
— Mas como! Tu? Por acaso conheces Roma (c direito, a capacidade administrativa? E assim mesmo sem que Roma tivesse conseguido reunir o mundo em um único reino!); a Grécia (sua ciência, sua filosofia, outros grandes capítulos do conhecimento sem os quais não se pode implantar um reino só!)?
A que Jesus responde:
— Conheço a Vontade de meu Pai que está nos céus. (Não um reino no sentido da palavra; mas o burilamento dos sentimentos humanos, sobre os quais os homens haveriam de instituir um relacionamento pacífico e fraterno entre si —- o reino de Deus.)
Pede aos discípulos que o chamem de Mestre — Ele tem uma boa nova a comunicar. Falava com autoridade: — Ninguém vai ao Pai senão por mim. Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Agia com determinação e consciência de seus poderes. Estendia as mãos: curava, ressuscitava, estancava males, expulsava demônios.
É mister saibamos o que somos, o que se espera de nós, para estabelecer, no chamamento do dever, nossa ação de prestatividade. Para tal devemos seguir nossas inclinações, nossas tendências, nossos impulsos recônditos e profundos.
Nisso reside também a razão pela qual se recomenda aos jovens que se dediquem ao que gostam, independentemente das dificuldades que possam advir e de qualquer consideração interesseira. Porque nesta linha de ação é que se têm intuições desenvolvidas bagagem resultante de um passado de conquistas, sobre o qual se assentam as bases de um maior desenvolvimento, da criatividade, de uma mais ampla prestatividade a benefício do todo que, em permitindo dar mais, acarreta um maior receber. Fora disso corre-se o risco de embrenhar-se em uma luta para a qual não se está preparado, não se está em condições de competir.
Ser humilde não é negar-se a si próprio. Eclipsar-se. Diminuir-se. Não é despojar-se do que se tem. Deter-se numa pousada do caminho a pespegar: — Eu não sou ninguém... Eu nada valho... Eu sou a última das criaturas... Quem sou eu?...
Esta é humildade aparente.
Ninguém é inútil ou destituído de valor. Onde quer que estejamos somos peça importante:
— somos um trabalhador, de quem se espera produtividade determinada, em função da tarefa designada;
— somos um marido em quem a esposa confia, para a manutenção e a sustentação do lar;
— somos um pai, do qual se espera proteção, compreensão, orientação;
— somos um cidadão ao qual se confia a sustentação da pátria;
— em qualquer posição que nos situemos somos um seareiro do Senhor de quem se espera boa vontade para o impulsionamento do progresso e o estabelecimento da paz.
Somos criaturas muito importantes, criadas por Deus, merecedoras do seu amor e amparo, destinadas a um fim glorioso e imortal, de quem se espera o cumprimento do papel que lhe foi atribuído.
Mas se temos muito a dar pelo que já adquirimos, não resta dúvida de que temos ainda longo caminho a percorrer, a exigir-nos aperfeiçoamento, crescimento na capacidade de produzir para o bem comum, recebendo na justa medida do que dermos.
10.3 — Servir na produção do bem comum
Com o desprendimento em relação aos bens materiais e o conhecimento do papel que nos cabe desempenhar, é da lei que demos o melhor de nós, que sirvamos à criação. Que busquemos na ampliação da nossa capacidade de servir os motivos de aprendizado e aperfeiçoamento, superando os tropeços, ignorando o mal que nos possa ser dirigido.
A falta de desprendimento em relação aos bens materiais e o desconhecimento do que somos, nos desenvolvem o orgulho, a cobiça, e nos induzem a considerar-nos proprietários daquilo que nos cerca ou merecedores de posições a que não fazemos jus. Disso despontam o egoísmo e a vaidade a desviar-nos dos propósitos a que devíamos permanecer ajustados, envolvendo-nos a alma com o ciúme, o despeito, a intemperança, ocasionando-nos desequilíbrios emotivos.
Sempre que praticarmos uma ação examinemos o móvel que a determinou. — "Se resultou do desejo injusto de supremacia, se obedeceu somente à disputa desnecessária (se por contenda ou vanglória), cuida do teu coração para que o caminho te seja menos ingrato. Mas se atendeste ao dever, ainda que hajas sido interpretado como rigorista e exigente, incompreensivo e infiel, recebe as observações indébitas e passa adiante." ([1], n.º 3)
O agir movido pela humildade não busca recompensas, nem reconhecimento, a não ser a satisfação do dever cumprido: "Magnificente, o Sol, cada dia, oscula a face do pântano sem clamar contra o insulto da lama: a flor, sem alarde, incensa a glória do céu. Filtrada na aspereza da rocha, a água se revela mais pura e, em seguida às grandes calamidades, a colcha de erva cobre o campo, a fim de que o homem recomece a lida." ([2], n.° 24)
"Humildade é independência, liberdade interior que nasce das profundezas do espírito. Cultivá-la é avançar para a frente sem prender-se, é projetar o melhor de si mesmo sobre os caminhos do mundo..." A despeito de tudo "Continua trabalhando em teu ministério, recordando que, por servir aos outros, com humildade, sem contendas e vanglórias, Jesus foi tido por imprudente e rebelde, traidor da lei e inimigo do povo, recebendo com a cruz a coroa gloriosa." ([1], n.º 3)
Na humildade não cabem a tibiez, a frouxidão, a transigência, o transfúgio, a apatia, a renunciação.
Humildade é fortaleza, firmeza de propósitos, intrepidez na produção do bem. É o destemor daqueles que, ao afrontarem a morte nos circos do sacrifício, entoam hosanas ao Senhor. É a heroicidade de Joana D'Arc, que se imola na fogueira fiel às suas vozes, esquecida de seus algozes. É o desprezo pela contaminação, de São Francisco, quando frente à necessidade de oferecer gesto de consolação fraterna ao leproso. É o nascimento de Jesus na manjedoura, na exemplificação do total devotamento à sua missão. É o término de seus dias na cruz, no derradeiro e maior testemunho de valor, fortaleza e determinação, no ensino do amor que viera ministrar, perdoando a seus inimigos.
a) Bibliografia
[1] Emmanuel — Caminho, Verdade e Vida.
[2] Emmanuel — Pensamento e Vida
[3] Emmanuel — A Caminho da Luz
[4] Allan Kardec — O Evangelho Segundo o Espiritismo.
[5] Emmanuel — A Religião dos Espíritos.
b) Leituras Complementares
[1] Cap. VII
ESPIRITOS DIVERSOS — Ideais e Ilustrações, n.º 34.
Neio Lúcio — Jesus no Lar — n.º 7.
Neio Lúcio — Alvorada Cristã — n.º X, XLIV e XLVII
Emmanuel — Religião dos Espíritos — n.º 46
c) Perguntas
1) Quais são as características da humildade?
2) Explique a diferença entre desapego e desinteresse pelos bens materiais.
3) Acerca do desprezo do dinheiro, ou das ferramentas que Deus nos oferece para o nosso burilamento. Comente e interprete a passagem de "Alvorada Cristã de Neio Lucio — n. º XIII".
4) Que representa a manjedoura?
5) É mister saibamos de nossas possibilidades e pô-las a serviço do bem geral. Comente e interprete "Alvorada Cristã — Neio Lúcio — n.º XXVIII.
6) Comente e interprete de Emmanuel — Roteiro, n.º 32.
d) Prática de Renovação Intima.
André Luiz — Sinal Verde.
Estudar e pôr em prática o Cap. n.º 12.
A noção de caridade está posta na parábola do bom samaritano. (Evangelho de Lucas, Cap. 10; vers. 25 a 37)
Nela se narra sobre um homem assaltado, ferido e abandonado no caminho por malfeitores, pelo qual passam um sacerdote e um levita, sem parar. Um samaritano, entretanto, ao se deparar com ele, condoído, o acode. Leva-o para uma estalagem e lá o deixa, sob cuidados, responsabilizando-se pelos gastos.
A Caridade está simbolizada na ação do samaritano que, embora menos esclarecido que os outros, quanto à lei de Deus, concretiza o auxílio. Quanto à moral, nada melhor a exprime do que esta frase de Neio Lúcio em ([1], Cap. 9):
— "Cultura e santificação representam forças inseparáveis da glória espiritual. A sabedoria e o amor são as duas asas dos anjos que alcançaram o Trono Divino, mas, em toda parte, quem ama segue à frente daquele que simplesmente sabe."
Buscando uma definição para a caridade, deparamo-nos com esta outra frase, de Emmanuel, em torno da Caridade: "Não olvides que a caridade é o coração no teu gesto." ([4], n.º 24). À guisa de definição diremos então: — "Caridade é amor na ação”.
Mais uma vez vemos o Espiritismo a reformular conceitos, a ampliá-los, a revolver-lhes o conteúdo, para clarificá-lo aprofundar-lhe o sentido. Com ele vemos a noção de caridade sair daquele conceito restrito de auxílio direto ao semelhante, para constituir-se numa característica que tipifica a ação toda ação, relativa às nossas manifestações. É amor na ação.
11.1 — O amor no pensamento
Passemos a esclarecer.
Antes de tudo, entendemos por amor o conjunto dos sentimentos e desejos que nos determinam o agir na produção do bem comum, sujeitos à evolução, conduzida pelo livre-arbítrio e discernimento de cada um.
Vontade e discernimento são os dois elementos que, com base na experiência, se ampliam, se desenvolvem e pelos quais se nos fixam os motivos a que nos afeiçoamos, os anseios que acalentamos, os interesses que cultuamos, pelos quais nos tornamos responsáveis.
Sobre eles, e com frequência por eles determinado, se nos estrutura o pensamento qual irradiação a propagar-se, a veicular energia, ativando, primeiramente, nossos recursos. Espraia-se por nossa organização fisiopsicossomática e estabelece influência benéfica ou injuriosa, segundo o teor dos pensamentos que a geraram. Propaga-se qual onda eletromagnética para influenciar, da mesma maneira, mentes que com ela se sintonizam que, a seu turno, nos influenciam.
Estabelece-se regime de permuta no qual, com base nos fenômenos de telementação, reflexão e associação de ideias, se nos reforça o teor dos pensamentos, se nos enriquece o conteúdo e se nos acresce o cabedal com os dados intercambiados.
Os pensamentos de amor exercem ação benéfica, fortificam as mentes, fortalecem os espíritos, desenvolvendo-lhes qualidades, além de protegê-los contra os pensamentos de natureza inferior.
Qual aparelho de rádio que, sintonizado em uma estação, impede a captação da transmissão feita por outra estação, assim a mente que emite uma irradiação sintoniza-se, dentro de certa faixa de frequência, com outras, de forma seletiva, impedindo que outros pensamentos, mesmo se intencionalmente dirigidos, a atinjam e a influenciem.
O primeiro aspecto da caridade consiste, portanto, em acalentar, em relação a tudo aquilo com que nos relacionamos, sentimentos de amor:
— piedade, para aquele que desespera;
— benevolência, para aquele que erra;
— compreensão, para aquele que não nos alcança;
— paciência, para quem nos padece orientação;
— comiseração, para quem sofre;
— tolerância, para quem não nos entende;
— compaixão, para o miserável;
— bondade, para quem convive conosco;
— disciplina, na realização de propósitos;
— energia, na sustentação do bem comum;
— fortaleza, perante os embates;
— renúncia, perante o interesse geral;
— lealdade, para o compromisso assumido;
— dedicação, às tarefas que nos são atribuídas;
— humildade, no servir;
— coragem, frente ao desconhecido;
— altanaria, no coração;
— fé, a nos guiar a caminhada;
— estudo, para ampliar os horizontes;
— perdão, para aquele que nos ofende;
— esquecimento, para a injúria
11.2 — O discernimento para a ação
Cabe-nos, primeiramente, povoar nossa mente de pensamentos de amor. Mas não somente para cultivá-los dentro de nós; mas para traduzi-los nos gestos, na ação. Sem ficar adstritos à edificação de belas teorias impedindo-lhes a concretização nas realizações de ordem prática a que possam conduzir; nem permanece ensimesmados nos temas de nossa predileção, ignaro da colaboração que os que conosco convivem esperam de nós.
Não há âmbito de desenvolvimento do espírito que possa ser percorrido sem ampliação do conhecimento, secundado pela sua equivalente realização prática. O exercício, a prática, a realização das obras que o conhecimento preconiza, são os que o consagram, consolidam suas conquistas, abrem-lhe caminho para novas aquisições, novas reformulações, os que estabelecem mútuo revigoramento, que a todos faz crescer. Permanecer adstrito às aquisições de conhecimentos, sem a correspondente realização de obras, é dirigir-se para a inutilidade, afastar-se da realidade, adentrar-se nos domínios da fantasia; é construir falsos valores para a possibilidade de se melhorar.
É imperioso vencer inibições, desenvolver aptidões, traduzir o mentalizado em obras de boa vontade, guiar as mãos operosas na produção do bem comum; possibilitar ensinamento, fraterno e edificante, transmitindo a própria experiência, para quem se proponha a ouvir; induzir o surgimento da saúde, da paz, da fraternidade, das bênçãos do serviço, da prosperidade, do contentamento de viver, para que o discernimento se nos alargue, e as virtudes se nos consolidem.
Certamente que não poderemos nos desmanchar em atenções para tudo e para todos, mesmo porque temos uma esfera de influência restrita, pela nossa própria pequenez, que nos delimita a ação.
O que se nos pede é o comportamento adequado naquilo para o qual somos chamados a participar, não se exigindo voos maiores que aqueles que possamos dar, mesmo porque, fora do âmbito que nos caracteriza, nem saberíamos nos conduzir.
Não podemos dar, a mancheias, tudo que nos pertence, mesmo porque não sabemos dispensar aquilo de que precisamos para realizar e dar cumprimento à nos- sa missão. Não podemos atender a toda petição, acolher qualquer lamúria, ou pretender socorrer a toda deficiência. É preciso não esquecer que, muitas vezes:
— a paixão se intitula de apego e afeição;
— a cobiça se oculta na concessão;
— a falsidade se acoberta na adulação;
— o orgulho se encapacha na humildade aparente;
— a preguiça se declara impotência;
— a ignorância confunde virtude com fraqueza;
— e que toda dádiva deve constituir-se no talento que se multiplica.
No exercício evangélico, também cabe o não: "Seja o teu falar sim, sim; não, não", Diz Emmanuel em ([2], n.° 80):
— Ama... mas não permitas que o teu amor se converta em grilhão impedindo-te a marcha para a vida superior.
Ajuda... entretanto, não deixes que o teu amparo possa criar perturbações e vícios para o caminho alheio.
Atende com alegria ao que te pede um favor, contudo não cedas à leviandade e à insensatez.
Cultiva a delicadeza e a cordialidade, no entanto sê leal e sincero em tuas atitudes.
O sim pode ser muito agradável em todas as situações, todavia o não, em determinados setores da vida humana, é mais construtivo."
A caridade não dispensa discernimento. Pelo contrário, exige-o! Dentre todos os pensamentos que possamos externar é preciso distinguir aqueles que verdadeiramente sejam cunhados pelo amor, quais os que realmente possam conduzir à ação, na produção do bem, a risco de não comprometê-la inclusive.
Mas uma vez estabelecida a necessidade legítima, há que prestar o concurso que nos compete.
Conta Neio Lúcio, em ([3], n.º 9), que o Poderoso Pai, certa vez, em que pairava perigosa crise de ignorância e perversidade sobre a terra, enviara mensageiro da Ciência, com gloriosa mensagem. Este fez-se professor e permaneceu exclusivamente interessado nas obras da Ciência, enojado da multidão inconsciente. Não atendendo ele aos compromissos assumidos, requereu-se o envio de outro que se tornou médico admirado e dedicou-se somente a enfermos importantes, desprezando a plebe.
Depois de outras tentativas mal sucedidas, enviou mensageiro de amor. Este, compungido, passou a agir em benefício geral. Identificado com o povo, sabia repetir o ensinamento, tanto quanto necessário. Desculpava, mesmo se humilhado e ofendido, qual se tratara de desafio à sua capacidade de persistir na ação regeneradora que o Pai lhe confiara, entendendo que as mais baixas manifestações da natureza humana eram atestado de desconhecimento da grandeza do Pai, a requerer-lhe maior esforço de ação regeneradora.
Concluiu ele: "Foi assim, fazendo-se o último de todos, que conseguiu acender a luz da fé renovadora e da bondade pura no coração das criaturas terrestres, elevando-as a mais alto nível, com plena vitória na divina missão de que fora investido."
Não vivemos sós. Vivemos em convívio social, em dependência, uns dos demais. Por isso não podemos ater-nos somente ao pensamento bem formado, na atitude inoperante de quem só se contenta em saber, distraído nos limites do regozijo interior.
— Diante do desespero, ofertar o concurso amigo;
— do erro, o corretivo que educa;
— da ignorância, o esclarecimento;
— do que busca orientação, paciente ensino;
— do sofrimento, o atendimento;
— da ofensa, o silêncio;
— da miséria, o oferecimento;
— do companheiro, a amizade e confiança;
— do caminho, o cumprimento do dever;
— da meta a atingir, o esforço de vontade;
— das dificuldades, a operosidade;
— do bem geral, a subordinação do próprio.
Qualidade sem ação nada significa e caridade é qualidade em ação. Por isso, Paulo (1.ª Epístola aos Corínthios, Cap. 13, vers. 1 a 7) dizia:
— "Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse caridade, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.
Ainda que tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transformasse os montes, e não tivesse caridade, nada seria.
E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse caridade, nada disso me aproveitaria.
A caridade sofredora é benigna; a caridade não é invejosa; a caridade não trata com leviandade, não se ensoberbece.
Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal;
não folga com a injustiça, mas folga com a verdade;
tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
Para que possamos exercer a caridade em toda a sua plenitude, em toda a sua extensão, exige-se-nos edifiquemos todo o conhecimento, todas as aptidões, todas as virtudes, para a prática do amor em toda a sua amplitude.
No nosso estágio ela limita-se ao amor que possamos colocar em nossas ações. E visto que o amor é alimento do espírito; que só ele constrói; que sua prática encerra o acervo de recursos de que podemos dispor, para a efetivação do nosso desenvolvimento, claro se nos torna o ensinamento evangélico ([3], Cap. XV), pelo qual:
— FORA DA CARIDADE NÃO HÁ SALVAÇÃO.
a) Bibliografia
[1] Neio Lúcio — Jesus no Lar.
[2] Emmanuel — Pão Nosso.
[3] Allan Kardec — O Evangelho Segundo O Espiritismo.
[4] Espíritos Diversos — Caridade n.º 34.
b) Leituras Complementares
[3] Capítulo XV.
Emmanuel — Roteiro n.o 16.
Allan Kardec — O Livro dos Espíritos — Livro Terceiro — Capítulo XI.
Espíritos Diversos — Ideias e Ilustrações, Capítulo 4.
Neio Lúcio — Jesus no Lar — n.º 20, 30.
Irmão X — Lázaro Redivivo — Cap. XIX.
Espíritos diversos — Caridade — n.o 14, 27, 37, 38.
Humberto de Campos — Reportagens do Além Túmulo, Capítulos: Caridade e desenvolvimento, A solução caridosa.
c) Perguntas
1) Reestude e comente a "Parábola do Bom Samaritano" — (Ev. Seg. O Esp., Cap. XV).
2) O primeiro aspecto da Caridade é cultuar pensamentos de amor com aquilo que nos relacionamos. Explique.
3) A caridade não dispensa discernimento. Explique.
4) Não basta a formulação de belos pensamentos. Eles têm que ser concretizados na ação. Explique.
5) Estude e comente no Cap. XV do Ev. Seg. o Esp. a máxima: "Fora da Caridade não há Salvação”.
d) Prática de Renovação Intima.
André Luiz — Sinal Verde.
Estudar e pôr em prática o n.o 13.
Na maioria dos credos religiosos, a prece é entendida como um meio para obter dádivas ou soluções de problemas, na crença de que há entes espirituais que as podem propiciar. Permanece-se, ao pedir, na suposição da existência de milagres, de entidades milagreiras que, na exclusiva dependência da própria vontade, podem fazê-los, derrogando leis naturais, numa barganha com as pessoas que dão óbolos, acendem velas, fazem promessas, submetem-se à sacrifícios, para induzi-las, em troca, a ofertarem aquilo que desejam — a solução de um problema doméstico, o bom sucesso num negócio, a realização de determinado casamento.
A maioria das preces tem esse cunho. E as desilusões que as pessoas possam ter, acerca desta ou daquela religião, desta ou daquela doutrina, desta ou daquela crença, estão sempre relacionadas à falta de resultados no atendimento aos caprichos que a elas os conduziu.
Tais atitudes permanecem porque ainda arraigadas a ideias e a crendices hoje superadas e que o Espiritismo, hoje, com suas noções renovadoras de morte, espírito, salvação, de vida no além, vem corrigir e reformular.
12.1 — A morte
A morte, para a grande maioria, apresenta-se qual separação dos entes queridos, perda de tudo aquilo a que se está afeiçoado e se ama, a interrupção de progresso, aprendizado, na consecução de objetivos que, muitas vezes, se constituem na principal razão de viver.
A morte não é isso. A morte é desencarne: a transmudação para uma nova vida, algo semelhante a uma metamorfose, onde o ser encontra ou aguarda entes queridos, a quem continua a amar, continuando a ser amado. Depara-se com oportunidades novas, pelas quais pode multiplicar bens e valores relativos ao seu crescimento, sempre subordinado às leis da vida às leis do trabalho e do aprendizado que o guiam no progredir.
Entretanto, a perda de tudo a que estamos afeiçoados, que possuímos e almejamos, pode existir. Se a isto chamarmos morte, então a morte existe. Surge quando cessamos de realizar, deixamos de ser úteis, nos acomodamos nos vícios e na transgressão da lei. Ao estacionar, nos separamos daqueles que amamos, porque, prosseguindo sua marcha, nos deixam para trás. No erro e no crime, nos vícios e na transgressão da lei, perdemos tudo que possuímos, aquilo a que estamos afeiçoados e amamos, porque compelidos a refazer experiências, a revalorizar as dádivas recebidas, a reavaliar oportunidades e a reconstruí-las.
A morte existe, mas não no desencarne. Ela reside na preguiça, na revolta, na indiferença, na ausência de luta, no desleixo dos bens que nos foram dispensados, em todas as formas de transgressão da lei que requer sejamos operosos na construção do bem comum.
12.2 — O milagre
O milagre, como derrogação de leis naturais, não existe. Sua noção prende-se a concepções antigas segundo as quais, pelo desconhecimento das leis, os fatos inexplicáveis eram atribuídos a causas sobrenaturais, devidos à atuação de potências ocultas.
E isso explica-se.
O espírito, ao ingressar na fase hominal, está ainda animalizado, dominado quase que totalmente pelos instintos, com um mínimo de recursos, para satisfazer às suas necessidades primárias.
Suas preocupações maiores se limitam ao atendimento dessas necessidades o alimento é escasso, escassas são as possibilidades de obtê-lo. Posto a ter que decidir por si mesmo, tudo na vida parece conspirar contra ele, com obstáculos que se antepõem aos seus anseios, às suas necessidades, aos seus desejos.
Incapaz de entender as causas dos fenômenos e acreditando na sobrevivência, entende que os mortos adquirem poderes sobrenaturais e são a causa de tudo, segundo sua própria vontade. Por isso passa às práticas de persuasão e de entendimento com eles. Estabelece sistemas de troca, de intercâmbio, nos quais reside o significado dos ritos e cultos.
Sua maior preocupação — a finalidade da vida — é obter alimentos, abrigo, vestimenta, tudo que lhe possa assegurar a satisfação de suas necessidades imediatas. Sonha com facilidades, com abundância, com o repouso, com o refastelamento na fartura, na ociosidade e nos prazeres.
A luta, entretanto, desenvolve-lhe as aptidões faculdades.
No desenvolvimento das artes, da técnica, do conhecimento, passa a perceber que certos homens são mais capazes do que outros deixam normas de vida que se impõem pelo que encerram de verdade e de conhecimento, em relação à vida. Nesse sentido passa a acreditar que o poder que se atribui aos mortos, uns o detêm mais do que outros.
Passa a conceber os deuses.
Paralelamente, desenvolve-se sua vida moral.
"Aprendendo a arregimentar riquezas, poder, a usufruir prazeres, começa a perceber que a vida é feita de outras coisas que vão se tornando cada vez mais importantes. Começa a afigurar-se-lhe o valor da amizade, do carinho, da família. Passa a entender que o homem não é um ser isolado, mas um ser social; que as necessidades da vida podem ser mais bem satisfeitas quando, além de desenvolver, aptidões, aprender a granjear amigos, cultivar a simpatia, a solidariedade, a piedade, a justiça, a caridade, a sinceridade, a retidão, a economia...
Com Moisés aprende que, para melhorar as condições de vida, é preciso implantar a justiça para todos, e dispor-se à obediência a leis naturais, no campo moral, implantadas por um deus único.
Com Jesus, as noções novamente se ampliam e se estabelece que a verdadeira vida é a do espírito. Que se é importante ao homem prover sua subsistência, mais importante é prover ao desenvolvimento de suas faculdades espirituais, na prática do amor.
Deus não é só justiça, mas é também amor. Governa por leis naturais, de amor, que o homem deve conhecer e praticar, porque, nisto, está o seu progresso — a salvação.
Os bens que beneficiam os espíritos não são os bens materiais: estes são meio, não fim. A finalidade da vida não está no possuir, mas está no progresso que possamos realizar; não na ociosidade, mas na luta, no trabalho, nas oportunidades que nos desenvolvem as aptidões e as virtudes. Para isso é necessário dar com toda a capacidade de realização e sentimento, para que a vida responda com as suas dádivas:
— ser manso, para estabelecer a harmonia;
— ser misericordioso, para estabelecer a confiança;
— ser puro, para estabelecer a paz;
— ser humilde, para estabelecer a cooperação;
— ser caridoso, para estabelecer o equilíbrio.
A vida é regulada por leis naturais, inderrogáveis, seja no plano físico, seja no plano moral. Estas são as leis expressas no Evangelho, código de leis que importa conhecer e praticar.
12.3 — Aptidões e virtudes
O Espiritismo, com as leis da evolução e da reencarnação, qual nova revelação - o Consolador prometido pelo Cristo reesclarece as noções e amplia os conceitos.
Explica que o homem, recém-egresso da animalidade, destituído de recursos, para satisfazer às suas necessidades primárias, tem sua atitude voltada ao pedir:
— à árvore pede o fruto;
— à sombra, amparo;
— à caverna, abrigo;
— à fonte, água;
— ao fogo, proteção;
— à pedra, força.
E; nesse peregrinar constante pela vida, nesse estender a mão a tudo que o circunda, é que se manifesta aquele princípio divino que nele está, observando, gravando, rememorando, automatizando impulsos e respostas, desenvolvendo o seu raciocinar.
Com esse desenvolver do raciocinar, guiado pelo Plano Maior, começa a intuir as causas que beneficiam o frutificar e percebe que nelas ele pode influir:
— se o chão é seco, pode ser regado;
— se infestado, purificado;
— se poluído, higienizado;
— se pantanoso, drenado;
— se árido, adubado.
Percebe que, influindo no meio de modo provocar circunstâncias favoráveis, atua nas causas do desenvolvimento, e seu pedir é correspondido em quantidades sempre maiores, tanto quanto o forem as benfeitorias que ele produzir.
Descobre, enfim, que a forma mais fecunda e atendível do pedir, é aprender a trabalhar em benefício da vida.
Revela-se-nos que tudo está na natureza e tudo nela pode ser conseguido, desde que criemos em nós as possibilidades do obter, desde que desenvolvamos as aptidões que nos capacitem a obter:
Mas não só. Assim como no plano material a natureza nos dá tudo que possamos necessitar, desde que aprendamos a produzir, dá-nos todos os meios possíveis para multiplicar nossas forças, desde que aprendamos a libertá-las de seus celeiros e a manuseá-las para os devidos fins, assim no campo moral nos dá todos os meios de sermos felizes, desde que aprendamos a distinguir as fontes lídimas da vida:
— ser centro de harmonia, causa do bem alheio, semeadores daquilo que desejamos auferir para nós,
12.4 — O rezar comum
Inútil o petitório aos que já se foram, na ilusão do obter fora do merecimento. A obtenção de bens não é dádiva do céu, mas é conquista feita de esforço e de amor.
O amor é alimento do espírito. É com ele que o espírito se engrandece, se fortifica, se fortalece, desenvolve qualidades: pela prática do bem, pelo amar aos inimigos, pelo perdoar setenta vezes sete, pelo não julgar, pelo aprender a estabelecer, entre todos, paz e solidariedade.
A ascensão do espírito não se consegue com petitórios a supostas entidades poderosas, mas é uma conquista pessoal, feita de suor e lágrimas, de esforços e fadigas, de superação de si próprio, à custa de renúncia e sacrifícios, diante dos quais o Plano Maior oferece incentivo, orientação e auxílio. Porém:
— antes que solicitar as bênçãos do céu, é preciso libertar-nos dos vícios e das mazelas;
— antes que pedir amor e compreensão, é preciso amar e compreender;
— antes que pedir perdão para nossas faltas, é preciso perdoar;
— antes que pedir auxílio, é preciso auxiliar ([2]; Cap. XXVII, n.º 4).
Mas a humanidade não compreende o alcance e o significado da revelação; permanece na superfície: paga dízimas; cumpre rituais; frequenta casas de oração, aonde leva seu petitório. Não vê senão as regras estabelecidas no credo a que se filia, cumpre-as todas à risca e, só por isso, considera-se justa, perfeita, com direito a desprezar os que não lhe seguem as atitudes ([3],
Por mais que o Senhor envie ao homem seus mensageiros, para despertá-lo, a fim de que se lhe possa descortinar, diante do espírito acomodado, a imensa vastidão dos planos da natureza, em lugar de sentir as revelações que eles lhe trazem, os motivos para expandir-se em concordância com as dimensões da criação, ele tudo diminui, tudo nivela, tudo reduz às medidas do seu modo de ser.
Com isso não ultrapassa as fronteiras do pedir. Não concebe nada além de cumprir aquelas poucas regras já estabelecidas de longa data nos credos religiosos: o jejuar, doar moedas, acender velas em altares, fazer oferendas, promessas, penitências e o mais.
E pede dentro das limitações que sua mente estabelece: pede bens materiais, sucesso nos negócios, proteção e força para superar na guerra o inimigo... Distingue as preces: umas lhe parecem mais eficientes, outras mais adequadas, conforme o caso.
Diante de um mundo em que o significado das revelações se perde, em que o homem se lança novamente à ilusão de que a finalidade da vida é obter tudo que ela possa oferecer para a satisfação dos sentidos, o Espiritismo se levanta qual nova revelação a evidenciar a realidade do espírito, da vida que continua, da evolução do espírito pelas leis que governam o mundo e lhe exigem para o progresso esforço próprio. Impõem-lhe a renúncia ao repouso indevido, para que possa dedicar o tempo ao aperfeiçoamento próprio, sem que o desperdice, mas para que o utilize em melhorar-se.
Se queremos o saber, conquistemo-lo: se desejamos riquezas, aprendamos a entender o significado e as finalidades delas, para que nos possam servir de meio útil às realizações; se ansiamos poder, aprendamos antes ser justos e equânimes; se almejamos ser amados, aprendam a amar, porque em tudo, enfim, é dando que recebemos.
12.5 — A prece
No aperfeiçoar-se, no renovar-se, o homem se modifica, supera as circunstâncias que o limitam, vence-as e as transforma a seu favor.
A prece eficiente é aquela em que os pensamentos e a vibração se elevam ao mais alto grau que possamos atingir, porque, externando os melhores pensamentos e os melhores sentimentos, nos pomos em sintonia com os da mesma natureza, nos colocamos em comunicação com aqueles que têm a incumbência de nos orientar e conduzir, criando para nós as melhores influências. É aquela dirigida para o Criador, aceitando as suas leis ou vontade, a dirigida em benefício do próximo, dos necessitados de toda espécie: doentes, pobres, dementes, reclusos, da infância e da velhice abandonadas.
Diz Emmanuel: "Através da prece o homem pensa que muda as circunstâncias, enquanto ele apenas muda a si próprio, porque é através da transformação de si próprio que o homem modifica as situações.”
Também André Luiz, no livro ([1]. Cap. XX), repete o mesmo quando fixa a observância de Aulus a respeito de uma prece feita por uma entidade em favor de outras, que se envolviam em determinada situação. Diz ele:
"Encontramos aqui precioso ensinamento da oração. Anésia mobilizando-a, não conseguiu modificar os fatos em si, mas logrou modificar a si mesma. As dificuldades presentes não se alteraram. Jovino continua em perigo, a casa prossegue ameaçada em seus alicerces morais, a velhinha aproxima-se da morte, entretanto nossa irmã recolheu expressivo coeficiente de energias para aceitar as provas que lhe cabem, vencendo-as com paciência e valor. E um espírito transformado, naturalmente, transforma as situações."
Em outra passagem Emmanuel explica: "À medida em que orava, funda modificação se lhe imprimia no mundo interior. Os dardos de tristeza, que lhe dilaceravam a alma, desapareceram ante os raios de branda luz a se lhe exteriorizarem do coração."
A prece deve externar nossa conformação perante as leis de Deus, nossos melhores sentimentos e pensamentos: isso que Jesus ensina no Pai Nosso. E é na compreensão desta verdade que S. Francisco estrutura sua inconfundível prece:
— Fazei, Senhor, de cada um de nós, um instrumento de vossa paz;
— Que onde haja ofensa, derramemos perdão;
— Onde haja discórdia, consigamos união;
— Onde haja dúvida, acendamos certeza;
— Onde haja erro, anunciemos a verdade;
— Onde haja desespero, semeemos a esperança;
— Onde haja tristeza, conduzamos alegria;
— Onde haja trevas, difundamos claridade.
— Mestre bem amado, não procuremos ser consolados, mas procuremos consolar;
— Não busquemos ser compreendidos, mas busquemos compreender;
— Não desejemos ser amados, mas desejemos amar;
— Porque é dando que recebemos; é esquecendo-nos, que nos encontramos;
— É perdoando, que somos perdoados;
— É morrendo, que ressuscitamos para a vida eterna
Realizar para a produção do bem comum, desenvolver na prece o melhor, de nós mesmos, eis as forças que nos favorecem o engrandecimento. Por isso, Emmanuel assim nos exorta:
— Clareia para que te clareiem.
— Auxilia para que te auxiliem.
— Estuda, servindo, para que o cérebro, hipertrofiado, não te resseque o coração distraído.
— Indaga, edificando, para que a inércia te não confunda.
— Fortalece o bem, para que o bem te encoraje.
— Compreende a luta do próximo, a fim de que o próximo te entenda igualmente a luta.
— Lembra-te, pois, da eficácia da prece e ora, fazendo o melhor, para que o melhor se te faça, sem te esqueceres jamais de que toda rogativa alcança resposta segundo o nosso justo merecimento.
a) Bibliografia
[1] André Luiz — Nos Domínios da Mediunidade.
[2] Allan Kardec — O Evangelho Segundo o Espiritismo.
[3] Emmanuel — Pão Nosso.
b) Leituras Complementares
[2] Cap. XXVII
André Luiz — Entre a Terra e o Céu — Cap. I.
André Luiz — Mecanismos da Mediunidade — Cap. XXV.
André Luiz — Os Mensageiros — Cap. 25
Emmanuel — Pensamento e vida — n.º 26
c) Perguntas
1) Qual o pressuposto da prece, em geral?
2) Neste Capítulo, o Espiritismo renova o conceito de prece. Quantos conceitos religiosos, neste livro, sofreram reformulação? Enumere-os.
3) Morte, outro conceito que é modificado. Digressione sobre ela.
4) Como surgiu a noção de milagre? Qual a acepção espírita?
5) O que entende por lei natural?
6) Qual a forma mais fecunda e atendível do pedir? Qual a melhor forma de obter?
7) É dando que recebemos. Explique o novo significado que o Espiritismo dá a esta máxima.
d) Prática de Renovação Intima.
André Luiz — Sinal Verde.
Estudar e pôr em prática o Cap. 14.
[1] Considerações mais amplas, conquanto de forma ainda sucinta, uma vez que um tratamento mais profundo extravasa os limites e as finalidades desta introdução são feitas no fim do Capítulo, no Complemento.
[2] Fizemo-lo para permitir, pela importância do argumento e para os que o requeiram, um esclarecimento maior, permanecendo, todavia, no âmbito de desenvolvimento pré-fixado.
Fica a critério do Instrutor explaná-las ou deixá-las à leitura do aluno, mesmo porque o assunto é tratado, dosadamente, nos Cursos subsequentes.
[3] Dentro desta noção, dizer, por exemplo, que o Universo é infinito, é dizer que o homem, até o momento, não tem elementos para determinar-lhe limites. Por mais que imagine pontos distantes, o Universo se lhe afigura como estendendo-se sempre mais além. E esta é a visão teológica como o é também a oferecida pela Astronomia do telescópio, anterior à Astrofísica: uma visão ilimitada e estática. Hoje, pela Astrofísica, o Universo se nos apresenta dinâmico, em expansão, portanto limitado, o que reforça a ideia de um Criador exterior e superior, mantendo a concordância do Espiritismo com a Ciência.