Histórico
Como tudo começou...
Criado em 2002, o Grupo de Pesquisa ‘Letramento e Etnografia’ é constituído, atualmente, por seis pesquisadores – 04 vinculados ao Programa de Pós-graduação em Estudos da Linguagem (PPgEL/UFRN) e 02 ao Mestrado Profissional em Letras (PROFLETRAS), colocando-se na posição de grupo consolidado (UFRN/Diretório de Pesquisa/CNPq). Liderado pela pesquisadora Maria do Socorro Oliveira, o grupo teve na sua vice-liderança os pesquisadores: Sylvia Coutinho Abbott Galvão, Alzir Oliveira, Ana Maria de Oliveira Paz e Alana Driziê Gonzatti dos Santos (atual vice-líder).
Nos primeiros anos de atuação, o grupo elegeu, como interesse especial de estudos, os processos interativos presentes nas díades professor/aluno e aluno/aluno, observando-se as contribuições dos interlocutores (professor ou aluno) na escrita colaborativa, com foco nos estudos sobre mediação da aprendizagem. Sob essa perspectiva, várias dissertações foram desenvolvidas no período de 2000-2003 (Barbosa, J., 2000; Lopes, C., 2001; Ramos, F. M. S., 2001; Jafelice, R. P., 2003; Tinoco, G. A., 2003; Rodrigues, M. C., 2003), tempo em que, paralelamente, os estudos do grupo voltaram-se para a questão do gênero textual. Nesse ínterim, atreladas aos estudos de escrita, questões de leitura e de formação do leitor estiveram presentes nas pesquisas do grupo (Benevides, A., 2002; Medeiros, C., 2003).
Embora as investigações sobre a escrita processual e colaborativa tivessem tido lugar de destaque no decorrer desse tempo, os estudos sobre gêneros textuais/discursivos, sob diferentes perspectivas teóricas e metodológicas (Jean-Michel Adam, Jean-Paul Bronckart, Mikhail Bakhtin, Charles Bazerman, John Swales, Carolyn Miller, entre outros), receberam, também, atenção especial (criação de um grupo de estudos em 2000). As contribuições derivadas dessas reflexões fundamentaram os inúmeros trabalhos (dissertações, teses e artigos), desenvolvidos desde então, os quais tiveram como foco não apenas a descrição teórico-analítica dos gêneros, mas também a sua funcionalidade didática nas práticas de ensino (Oliveira, M. S., 2000; 2010; 2019; 2020; 2021; Cruz, N., 2001; Paz, A. M. O., 2001; Silva, E. F., 2002; Dantas, N., 2005; Queiroz, M. E., 2005; Oliveira, A., 2008; Medeiros, M. A., 2008; Costa, S. M., 2014).
Nesse tempo, as reflexões sobre letramento se intensificaram a partir de sessões sistemáticas de estudo sobre este tópico (2003) as quais se consolidaram com a oferta da disciplina ‘Estudos de Letramento’ (2005), incluída no Programa de Pós-graduação em Estudos da Linguagem (PPgEL/UFRN), por ocasião da sua reestruturação curricular, feita em 2005.
Trilhando novos caminhos de pesquisa
Com a reestruturação curricular e a redefinição das linhas de pesquisa do Programa, abriu-se a oportunidade de o grupo de pesquisa (antes denominado Base de Pesquisa) marcar o seu território epistemológico, atribuindo a este delimitação e visibilidade, o que foi instituído por meio da criação da linha de pesquisa ‘Letramentos e contemporaneidade’ à qual se vincularam as disciplinas ‘Estudos de Letramento’ (75 horas/aula) e ‘Gêneros textuais/discursivos e Ensino’ (75 horas/aula), como componentes curriculares obrigatórios. Colaboraram na disciplina de Estudos de Letramento, oferecida em 2005, as professoras Ana Lúcia Guedes Pinto (UNICAMP), com o tópico de História oral e formação de professores, e Maria de Lourdes Meirelles Matencio (PUC/MG), com o tópico de Oralidade, Escrita e Textualização.
Com a oferta desses dois componentes curriculares, firmava-se a articulação entre os estudos de Gênero e Letramento e o empenho do grupo em discutir, teórica e metodologicamente, esses conceitos e elucidar as aproximações epistemológicas existentes entre eles, particularmente no campo do ensino e da aprendizagem.
Consolidando o trabalho
A dedicação a esses estudos se consolidou com a participação do grupo em eventos locais, nacionais e internacionais cujos eixos temáticos se voltavam para as questões de gênero e letramento. Nessa direção, destacam-se os esforços do grupo voltados para a organização de Eventos Científicos sediados na UFRN, quais sejam: 1) o Seminário de Pesquisas em Letramento/SEPEL (última edição em 2023), de âmbito nacional, já na sua primeira edição, em 2003, mas tendo recebido convidados estrangeiros em uma das edições (no IV SEPEL, contamos com a participação de Brian Street); e 2) o Simpósio Internacional de Gêneros Textuais/SIGET (6ª edição em 2011), de ampla abrangência e relevância. Sendo de nível internacional desde 2005 (ano da realização do III SIGET em Santa Maria – RS), o VI SIGET foi sediado na UFRN, graças à proposta feita pelo GT de Gêneros Textuais/Discursivos da ANPOLL durante a realização do V SIGET (2009 /Universidade de Caxias do Sul – RS), evento em cuja programação se incluiu uma mesa redonda sobre Gêneros Textuais e Letramento, integrada por Street, B., Carlino, P., Rojo, R. e Oliveira. M. S. (ver Oliveira, 2010, Revista Brasileira de Linguística Aplicada, Volume 10, Número 2).
Graças ao acolhimento institucional do VI SIGET pela UFRN, que contou com o firme trabalho do grupo ‘Letramento e Etnografia’, além da colaboração de alguns pesquisadores de outros grupos do Departamento de Letras (DLET/UFRN), esse evento científico, que sempre fora realizado na região Sul, deslocou-se para a região Nordeste, favorecendo a participação de vários pesquisadores, professores e alunos que, até então, não tinham tido a oportunidade de se engajar nas discussões sobre gênero textual, noção tão importante para a área de linguagem e para o trabalho do professor de línguas.
Além das reuniões científicas, outra iniciativa que determinou o crescimento e consolidação do grupo foram os acordos de cooperação de ordem internacional e nacional, firmados com outras instituições ou com outras Unidades de Ensino da própria UFRN. Essas parcerias institucionais promoveram o intercâmbio com pesquisadores de outros grupos de pesquisa, agregando diferentes lentes interpretativas para os trabalhos do grupo em desenvolvimento (teses, dissertações, relatórios de pesquisa).
Decorrente do Acordo de Cooperação Internacional (Global Study), firmado entre a UFRN (Brasil) e a USD (California), durante o período de 2003-2008, o grupo ocupou-se, mais detidamente, do componente cultural nos estudos de letramento, trazendo para as pesquisas conceitos cruciais para a Linguística Aplicada (LA), tais como: etnografia, capital cultural, fundos de conhecimento, comunidades de prática, comunidade de aprendizagem, entre outros, além de incluir em sua pauta de discussão questões relativas aos estudos sobre letramento familiar e comunitário. Esse trabalho foi coordenado pela profa. Maria Luiza Dantas (USD) e a profa. Maria do Socorro Oliveira (UFRN). Resultante dessa ação conjunta, textos foram produzidos, a exemplo de: Ol[M2] iveira, M. S., & Dantas, M. L. (2007, April). Community and family literacies & funds of knowledge: The Impact of an international learning experience. Paper presented at the American Educational Research Association, Chicago, IL; e Dantas, M. L. (2007, April). Home visits as contexts for teacher learning from/with families. Paper presented at the American Educational Research Association, Chicago, IL.
Com o financiamento do Projeto "Letramentos múltiplos: formação de agentes de letramento" (CNPq/PADCT – processo nº 62.0204/2004-4), desenvolvido em parceria (UFRN/UNICAMP) e coordenado pelas Profas. Dras. Maria do Socorro Oliveira (UFRN) e Angela B. Kleiman (UNICAMP), uma rede de interações foi aberta (período de 2004-2006), propiciando aos grupos envolvidos (Letramento e Etnografia/UFRN x Letramento do Professor/UNICAMP) um amplo diálogo sobre questões relativas ao letramento do professor. A consideração do letramento como um fenômeno plural e múltiplo (ver a respeito a coletânea: Oliveira. M. S.; Kleiman, A. B., 2008) abriu diferentes filões nos estudos sobre o letramento em contextos vários: o da docência, o laboral, o religioso, o digital, além do escolar (Alves, A. L., 2006; Paz, A. M. O., 2008; Silva, C. P. C., 2005; 2008; Dantas, N. M., 2012; Santos, I. B. A., 2012; Moura, L. L. L., 2013).
Tendo o olhar voltado para o letramento do professor, o grupo, durante alguns anos, inclinou sua atenção para as práticas e os dispositivos didáticos usados pelo professor na sua prática escolar, reflexões que desencadearam a descrição do construto ‘projetos de letramento’ (postulado por Kleiman, 2000), a qual foi desenvolvida nas obras: Letramentos Múltiplos: agentes, práticas, representações (Oliveira, M. S.; Kleiman, A. B., 2008) e ‘Projetos de letramento e formação de professores de língua materna’ (Oliveira, M. S.; Tinoco, G. A.; Santos, I. B. A., 2011; 2014). Contribuindo para a robustez dessa discussão, somaram-se as teses (Tinoco, G. A., 2008; Santos, I. B. A., 2012) e os vários artigos produzidos sobre essa noção, ora com foco nas ações do professor (Oliveira, M. S., 2008; Santos, I. B. A., 2008, Tinoco, G. A., 2008; Oliveira, M. O., 2016) ora nas ações dos alunos em práticas de escrita de natureza cívica e emancipatória (Santos, I. B. A., 2013).
Com a filiação do grupo ao Projeto Interdepartamental (Departamentos de Políticas Públicas/PPCS e de Demografia e Estatística/PPGDEM), ‘O habitus de estudar: construtor de uma nova realidade na educação básica da região metropolitana de Natal’ (2010-2014), sob a coordenação do prof. Moises Alberto Calle Aguirre, somada à implementação do Programa ‘Letramento e políticas públicas: a família na escola’ (financiado pelo MEC/PROEXT), em 2014, vários mestrandos, integrados ao grupo, deram atenção à articulação família/escola/comunidade, analisando a relevância do engajamento desses sistemas no letramento escolar, especialmente com vistas à inserção das famílias e da comunidade em atividades curriculares nas séries iniciais (Santos, A. D. G., 2015; 2020; Brito, M. C. F., 2016; Mendonça, F. N. S., 2017).
Ao longo desse trajeto acadêmico, foi notável o interesse do grupo pelos estudos críticos da linguagem (letramento crítico, pedagogia crítica, análise crítica do discurso). Destaquem-se, nessa direção, os trabalhos: Oliveira, M. S., 2003; 2007; Tinoco, G. A., 2003; 2008; 2023; Santos, I. B. A., 2012; 2013; 2021. Além das publicações do grupo, os estudos de letramento, em sua vertente crítica, passaram a compor as ementas de disciplinas eletivas ou não, oferecidas pela linha de pesquisa ‘Letramentos e contemporaneidade’.
Fortalecendo o grupo de pesquisa
Aliado a essas iniciativas, ressalte-se como fator de incremento e fortalecimento do grupo o ingresso no PPgEL de alguns doutores, cuja formação científica foi plasmada no grupo ‘Letramento e Etnografia’. Com a oferta do Doutorado pelo PPgEL no ano de 2003, vários doutorandos integrantes do grupo concluíram sua carreira acadêmica em meados de 2008. Em 2010.2, credenciaram-se no Programa as professoras: Glícia de Azevedo Tinoco e Ana Maria de Oliveira Paz. Posteriormente (2019.1), a profa. Ivoneide Bezerra de Araújo Santos e o prof. Thiago Manchini de Campos. Todos se integraram à linha de pesquisa ‘Letramentos e contemporaneidade’. Registre-se, também, a participação do prof. Orlando Vian Júnior nos componentes curriculares vinculados a essa linha de pesquisa (2009-2010).
A entrada desses professores no grupo, na condição de pesquisadores, revelou-se como uma força motriz que alavancou a pesquisa dos letramentos, aglutinando esse campo a várias eixos teóricos e abordagens de pesquisa: argumentação, tecnologia, cidadania, direitos humanos, trabalho, políticas públicas, oralidade, cultura, alfabetização, entre outros, e acolhendo novas epistemologias: o pensamento freireano, a lógica decolonial.
Reenquadrando interesses e perspectivas de trabalho
A partir desses movimentos epistemológicos e do (re)enquadre de cada pesquisador, os interesses de pesquisa e de orientação acadêmica diversificaram-se e os objetos de estudo nas produções científicas ampliaram-se. Essa ampliação se deu, também, graças à criação de novos grupos de pesquisa e/ou à vinculação desses pesquisadores a grupos de outras instituições. Nesse sentido, ver: ‘Grupo de Estudos Letramento e Trabalho’ (GELT/UFRN/CERES/DLC/PPgEL), coordenado por Ana Maria de Oliveira Paz; ‘Letramentos, educação e identidades’ (IFRN), coordenado por Ivoneide Bezerra de Araújo Santos-Marques; e ‘Formação de professores, multiletramentos e identidades’, que tem como vice-líder a pesquisadora Glícia Azevedo. A partir dessas articulações, novas temáticas de estudo passaram a fazer parte dos interesses de pesquisa dos pesquisadores do grupo.
Ao longo dessa última década (2014-2024), as produções sobre projetos de letramento ocuparam grande espaço no grupo, especialmente, nas orientações acadêmicas dos professores vinculados ao PROFLETRAS/UFRN. Desenvolveram-se, também, os estudos sobre letramento laboral, incentivados por Ana Maria de Oliveira Paz (Paz, A. M. O., 2008; Paz, A. M. O.; Costa, M. A, 2017; Costa, K. R.; Paz, A. M. O., 2019; Ferreira, J. L.; Silva, D. V. M.; Paz, A. M. O., 2020; Silva, C. H., 2013, 2021); letramento cívico vs argumentação, letramento vs tecnologia e letramento vs políticas públicas, efetivados por Ivoneide Bezerra de Araújo Santos-Marques (Santos, I. B. A., 2012; 2013; Santos, I. B. A; Oliveira, M. S., 2012; Santos-Marques, I. B. A., 2021); letramento vs argumentação e letramento vs tecnologia, conduzidos por Glícia Azevedo (Silva, F. G., 2015, 2023; Oliveira L. M. L., 2017; Fernandes, F. V., 2017; Aquino, J. L., 2018; Tinoco, G. A., 2019; Martins, A. P. S; Kersh, D. F.; Tinoco, G. A., 2021; Cabral, A. H. F., 2023; Kersh, D. F.; Tinoco, G. A.; Martins, A. P. S., 2023); letramento familiar e comunitário, letramento e cultura, letramentos acadêmicos, ecoletramento e desenvolvimento sustentável, letramento cinematográfico, práticas docentes vs ensino remoto, políticas públicas, encorajados por Maria do Socorro Oliveira (Oliveira, M. S., 2017; Souza, A. G.; Oliveira, M. S., 2017; 2018; 2020; Pinho, P. P. B. A., 2020; Santos, M. R. M., 2021; Silva, P. V., 2021; Santos, A. S., 2021; Rocha, C. N. O., 2021; Pereira, D. N. C., 2024); letramento familiar e comunitário; políticas de letramento, levados a efeito por Alana Driziê Gonzatti dos Santos (Santos, A. D. G.; Oliveira, M. S., 2023); letramento vs oralidade e retextualização, guiados por Ana Virgínia da Silva Rocha (Silva, A. V., 2013; 2023; Rocha, A. V. S.; Pereira, G. P., 2021; Rocha, A. V. S.; Monteiro, M. C. B., 2021; 2023).
Olhando para o futuro...
Na atualidade, era em que o letramento e o modo como este tem sido largamente afetado pelo processo de globalização, pelas exigências de uma economia altamente competitiva, pelos meios de comunicação de massa e, naturalmente, pelo uso da tecnologia e da internet, novas questões de letramento estão na mira dos pesquisadores deste grupo, preocupados em entender a complexidade desse fenômeno e em apontar estratégias e recursos que contribuam para que os cidadãos possam ganhar acesso à informação e ao conhecimento, podendo fazer uso das práticas de letramento para enfrentar problemas ligados à ação e à interação dos/entre os indivíduos e/ou relacionados ao funcionamento e à produtividade das organizações sociais. Em razão disso, caminham estudos sobre ensino remoto, fake news, ecoletramento, (des)informação, letramentos na era da inteligência artificial, letramentos acadêmicos, científicos e profissionais, multiletramentos e jogos eletrônicos, entre outras temáticas que se apresentem como letramentos do futuro (perspectivas futuras).