Entrevista com Dirce Ribeiro
Mestra em geografia e organização do espaço geográfico. Especialista em análise ambiental e licenciamento ambiental. Doutora pela UNESP em geociências e meio ambiente. Doutora em geografia e análise ambiental pela UFMG.
Jornal: Como você avalia o rompimento da barragem de rejeito de minério em Mariana?
Dirce: Foi o maior desastre socioambiental do Brasil e um dos maiores do mundo em mineração. Meio ambiente não é metade, é o meio onde o ser humano está inserido. Houve morte de pessoas, agonia de animais e perda de um patrimônio histórico e cultural insubstituível, como o distrito de Bento Rodrigues. A cidade poderia ter sido reconstruída nas vertentes laterais, mesmo ao custo de desmatamento pontual, com uma ponte sobre o fundo de vale. A economia local já satisfazia seus habitantes, que também viviam da pesca no Rio Doce. É preciso evitar o êxodo dessa população para a capital, que já é densamente povoada.
Jornal: Qual é sua opinião sobre a relação do ser humano com a mineração?
Dirce: A mineração é necessária, mas deve ser para atividades essenciais. O aço deve ser minerado para infraestrutura de transporte - pontes e viadutos sem ferrugem e sem desgaste de ferragens que causam acidentes -, para infraestrutura de saúde e bem-estar social e para substituir o plástico, como no caso do canudinho de aço inoxidável.
Belo Horizonte depende da água do Quadrilátero Ferrífero, que não é uma serra única, mas um conjunto de serras como a Serra do Curral e a Serra da Gandarela. O aquífero do itabirito, que é uma rocha impermeável, é da classe de aquífero fraturado. As cidades históricas de Minas, além da capital e da Região Metropolitana, dependem da água de chuva ali infiltrada. Na depressão e nas colinas de BH, o Ribeirão Arrudas secou por conta da urbanização crescente em direção à Serra do Curral. Se não houver preservação de mananciais como o da Serra da Gandarela, a mineração de ferro destruirá esse aquífero e afetará as cidades históricas e seus campos de agricultura.
Jornal: Como você explica a falta de previsão, precaução da empresa e do estado ?
Dirce: Não há a cultura de prevenção. Tudo gira em torno do lucro, em detrimento da qualidade ambiental. O desenvolvimento sustentável só será realidade se consumirmos menos. É preciso mudar da lógica de crescimento industrial para uma lógica ecológica. Quando há acúmulo de bens de luxo, como iates e aviões, é essa demanda que impulsiona a mineração predatória.
Jornal: E a não previsibilidade do rompimento da barragem?
Dirce:Não há imprevisibilidade. Em barragem de rejeito alteada em encosta é possível calcular volume, densidade, viscosidade da lama e a velocidade que ela atingirá. Essa lama, com argila e filitos de ferro ligados por cargas eletrostáticas, permanece em suspensão e só decanta quando a água para, por isso chegou até o mar.
A educação precisa inserir, desde o ensino fundamental, a geografia física dos geossistemas ou sistemas territoriais naturais (biomas), suas estruturas e funcionamento em escalas planetária, regional e local. Quem conhece essa dinâmica não licenciaria aquela barragem sem reforço e sem retirar a população. Se a extensão do impacto até o litoral capixaba era calculável e nada foi feito, foi crime.
Jornal: Qual sua proposta para dar segurança à mineração de ferro no itabirito?
Dirce: Na mineração a úmido e a céu aberto, defendo que não se utilize apenas uma barragem a montante. O sistema deve prever mais três barragens vertente abaixo, em direção à jusante. A última barragem, a de jusante, deve ser construída com a mesma tecnologia e segurança das barragens de hidrelétricas, em concreto. Assim criamos barreiras de contenção sucessivas. Mesmo que haja rompimento a montante, o rejeito ficará retido no sistema e não poluirá rios de grande importância, como aconteceu com o Rio Doce
Entrevista com Sr.Nonô - Bairro Paraiso - BH