Entrevista com Dirce Ribeiro
Mestra em geografia e organização do espaço geográfico. Especialista em análise ambiental e licenciamento ambiental. Doutora pela UNESP em geociências e meio ambiente. Doutora em geografia e análise ambiental pela UFMG.
Jornal: Como você avalia o rompimento da barragem de rejeito de minério em Mariana?
Dirce: Foi o maior desastre socioambiental no Brasil e no mundo em se tratando de mineração. Uma grande destruição socioambiental e da natureza, uma vez que onde o ser humano está inserido é seu meio ambiente. Como um laboratório de biologia é o meio de cultura de bactérias. O meio onde a bactéria está sendo criada. Meio não é metade. Muita gente fala: “ah! Mas por que a metade e não o ambiente inteiro” ? Meio é uma palavra que ora significa metade, ora veículo, meio de locomoção e meio onde o ser humano está inserido. O meio no qual o homem alterou a natureza para o seu próprio bem estar, para inserir-se na natureza a seu bel prazer. Em 1972, quando houve a Conferência de Meio Ambiente, em Estocolmo, as pessoas passaram a perceber mais a importância da preservação do meio ambiente. Mas esta questão ambiental ficou como uma perfumaria da geociências.
Eu fui estudar o tema sobre a origem das veredas. Fiz minha monografia de bacharelado e minha dissertação do mestrado sobre a geomorfologia. Para fazer um estudo sobre a ciência aplicada, temos que fazer um estudo da natureza sem degradação, para se conhecer como ela funciona. Para se saber se houver alteração deve-se implantar uma obra de engenharia e fazer com que continue sem causar erosões. Em Mariana ocorreu o maior desastre ambiental de mineração. Há uma ignorância sobre o conceito de meio ambiente socioambiental com relação à degradação, quando a destruição passa por morte de seres humanos, morte de um patrimônio histórico da população, como Bento Rodrigues. É um patrimônio histórico, cultural perdido. Este foi um desastre que matou seres humanos e animais que agonizaram, causando a morte de animais selvagens. Todo mundo chorou muito. Os pescadores choraram porque ali eles aprenderam a viver. E eles eram felizes como pescadores. Com a pesca alimentavam suas famílias.
Jornal: Qual é sua opinião sobre a relação do ser humano com a mineração?
Dirce: Para minerar os governos estadual e federal têm que saber como fazer. Temos registros do quadrilátero ferrífero, onde inclusive estrangeiros vieram minerar. Você tem a topografia em cima da geologia e analisa tudo que havia na região. Por exemplo, a região próxima a Sabará possui córregos próximos às serras da margem direita do Arrudas, que são córregos volumosos. Ali tem uma área de preservação. Belo Horizonte depende dessa água para sobreviver. Para abastecimento de água potável, necessitamos de preservar a serra do quadrilátero ferrífero, em detrimento do lucro com o ferro. Esta é uma questão. A outra questão é: há áreas com matas como na Serra da Gandarela. Nesse meio há a presença do itabirito, que é uma rocha que contém ferro de ematita, misturado com listas de sílica. Há silício e alumínio que é uma areiazinha branca e a ematita é escura com uma listra branca. O nosso itabirito é muito rico em ferro. É certo que há uma necessidade de mineração para que haja um progresso da ciência que nos é favorável para o prolongamento de nossa vida, como para cura de doenças. Mas há uma necessidade da pessoa conhecer sobre a qualidade da alimentação, de nutrição para manter a saúde. O ser humano tem que saber um mínimo. Ele não pode estar simplesmente nas mãos de um nutricionista, de um médico. As pessoas precisam saber sobre nutrição, fisiologia para não dependerem tanto do lucro para se manterem. O fato é que, infelizmente, a felicidade do homem está muito ligada à necessidade de exploração, à extração do minério para a fabricação de carros de luxo, de aviões, helicópteros, todo um consumo extremo, exacerbado do aço que é feito do ferro e carvão. O Brasil não tem carvão mineral suficiente. Temos que plantar o eucalipto para fazer o carvão, para produzir o aço. A questão do consumo extremo capitalista é um tipo de ditadura do consumismo. Isso faz com que a mineração seja intensa, para se gerar lucro, riquezas nas mãos das mineradoras. A polêmica está em que estas mineradoras estão levando nossas riquezas. Eu vi grupos de jovens em debates na Assembléia dizendo isso e os deputados dizendo: “vamos produzir o aço aqui”. O Brasil vai fazer aço para exportar e vai ganhar mais com a exportação do aço. Mas vai poluir muito mais o meio ambiente. Aumentar nossa temperatura, nosso clima. A média do aquecimento global é devido à emissão de combustíveis fósseis. O aço vai ser feito para o consumo atual de veículos e gasolina.
Jornal: Dirce, como você explica a falta de previsão, precaução da empresa, do estado em relação a este crime ambiental?
Dirce: Tudo gira em torno do lucro em detrimento da qualidade ambiental. O desenvolvimento sustentável para ser uma realidade requer consumir menos. Devemos mudar nosso comportamento de consumo, nossa cultura de um raciocínio de crescimento industrial para um raciocínio de economia baseada no raciocínio ecológico. Como ambientalistas da França, que desde a década de 70 falam em fazer o saneamento básico nas regiões pobres com bambus e não com canos de ferro. Nem tudo tem que ter aço. A canalização pode ser feita com bambu. O aço deve ser minerado, sim. Nós precisamos dele para termos celulares. Mas nós não podemos a toda hora trocar a cor do celular. E nem trocar o carro de luxo por outra cor. Por outro de outro modelo no ano seguinte. Porque um por cento da população pode ter oito carros de luxo, iates, dois aviões, isso é que vai aumentar a mineração, para que haja um consumo extremo dos ricos e consumo exagerado pelos mais pobres, pela classe média.
Jornal: E a não previsibilidade do rompimento da barragem?
Dirce: Realmente os geólogos falam que é preciso minerar. Para se ter uma mesa de aço, minera-se, para se ter uma mesa de granito minera-se, para se ter um lápis minera-se o grafite, só que não se deve minerar ouro. Para que estavam minerando ouro em Paracatu, onde há bairros quilombolas, onde estão todos ficando com câncer de pele? Isso não sai em notícia de rádio da mídia. Por que se está minerando ouro? Não é estrangeiro, é brasileiro mesmo. A Vale é de brasileiros. Ela tem parte da Samarco. A empresa estrangeira é pior. Porque ela não ama a mata atlântica, o cerrado, nós brasileiros é que devemos amar. Nós, brasileiros nacionalistas, patrióticos, que amamos o nosso povo, a nossa cultura temos que investir na educação com foco na estrutura e funcionamento da natureza, na preservação da qualidade do nosso meio ambiente que deve ter qualidade: água potável, ar respirável e solo cultivável.
Jornal: Há uma demora do ser humano agir em defesa do ser humano. Você acredita que há risco de rompimento de outras barragens?
Dirce: O risco de rompimento de barragens gigantescas como a de Mariana, existe porque há notícias de outras duas barragens enormes próximas a de Bento Rodrigues. Mas estão tentando realizar obras de contenção. Porém esta preocupação está se dando por causa deste triste aprendizado do rompimento da barragem do Fundão em Mariana, que não deveria e nem precisava acontecer. Por que aconteceu? Porque no Brasil há uma ignorância ambiental, há uma incompetência profissional devido o desconhecimento do funcionamento da natureza. Quando você constrói uma barragem de rejeito e vai alteando, alteando numa encosta, você pode calcular o volume desse rejeito que está dentro da bacia de decantação, cuja barragem segura. O volume deste material poderia ter sido calculado, a densidade, a quantidade de argila, de filos de ferro, que se ligam por cargas eletrostáticas formando essa lama, que se liga à água e forma um fluxo, da metade da profundidade do rio para a superfície e que vai até o mar. Vai em suspensão.Enquanto essa água estiver em movimento essa lama argilosa, com filos de ferro, não vai se decantar. Há riscos e eles estão tentando conter novos deslizamentos. Monitorar para que? Outro fato que me chamou a atenção. Há uma ignorância para se fazer uma gestão ambiental adequada. Para dar segurança aos moradores de áreas de mineração. Para se dar esta segurança tem que se ter uma competência tanto dos profissionais da área de meio ambiente, como dos engenheiros especializados em barragens de mineração e uma constante observação. Esta monitoração está sendo feita para que? Quando você calcula este volume, esta viscosidade da lama, você calcula até a velocidade da lama, a espessura que ela vai descer e até onde ela vai. Eu duvido que, no relatório de impacto ambiental desta obra para o licenciamento, os gestores ambientais, os analistas ambientais e a empresa conheciam a extensão dessa área. Todo empreendimento que necessita de um licenciamento ambiental tem que ter calculada a área do impacto. Desde o início do funcionamento até o término. Deve haver a recuperação. Se eles sabiam do tamanho da área de impacto até o mar capixaba, se sabiam foi crime. Porque teria que ter retirado o rejeito ou fazer as obras que estão fazendo lá. Monitorar não adianta. Na hora que rompeu vai embora até o mar de novo. Eu vi ignorância ambiental nos jornalistas. Nas questões feitas pelos jornalistas. Os jornalistas desconhecem a questão ambiental profundamente. Não existem jornalistas ambientais especializados em análise ambiental, em questão socioambiental, em constituição da natureza. Não há. Isso foi perfumaria da geociências durante muito tempo. Só agora iniciaram as exigências para as empresas, exigências que passaram a fazer parte do sistema capitalista. As pessoas fazem as análises ambientais, os relatórios de impacto, mas podem até omitir coisas pressionados pela empresa. A empresa tem culpa, porque tem um engenheiro de segurança do trabalho que tem que estar lá conhecendo a barragem. Mesmo uma obra de engenharia pode vir um dia a desabar. Há erosão interna nos solos que você não vê, que vai abrindo poros dentro dessa massa de rochas sobre rochas. Um dia essa massa vai descendo, descendo e desfaz a segurança dos pilares. Estradas, pontes caem por isso. Há uma ignorância dos jornalistas porque eles não conseguem perguntar a Samarco por que vocês não retiraram a população, já que a população de Bento Rodrigues ocupava todo o fundo do vale desde o susante até quase lá o montante? Por que vocês, ao invés de construírem uma represa gigantesca, não desalojaram, não relocaram estas pessoas para uma nova Bento Rodrigues que agora será construída igual a anterior. Eles precisam disso, querem isso. Mas, e o rio sem peixes, e o mar, os animais morrendo, os índios sem banho? Acho que a população brasileira desconhece isso. Os índios tomam banho todos os dias sem sabão e nunca tiveram a hanseníase. O Brasil tem o primeiro lugar em hanseníase no mundo. Depois vem a Índia e África. Isto está ligado falta de higiene que ocasiona esta bactéria, hoje curável. Os índios não tinham essa moléstia, apenas os negros escravos e descendentes de portugueses, os mestiços e os portugueses, que vieram desta colônia. A diferença é que os índios se alimentam mais de frutas e peixes, mais saudável, mas eles têm o banho diário. Eles não têm aquela cultura antiga do interior de Minas, de São Paulo de não se tomar banho todos os dias.
Jornal: O que aprender sobre o que aconteceu em Mariana? Você acha importante o ser humano aprender mais sobre o meio ambiente? Aprender sobre o meio ambiente é fundamental para a sobrevivência do ser humano?
Dirce: A educação tem que inserir no seu currículo, desde o fundamental, até o superior as disciplinas de geografia física, da estrutura e funcionamento da natureza e evolução da Terra. Sobre o impacto das obras de engenharia, é que nós corremos o risco face á insegurança ambiental dessas grandes barragens. Somando esta questão de ignorância ambiental à insegurança profissional. Quem conhece não licenciaria esta barragem de Mariana. Eu sei de licenciadores ambientais que não licenciariam também essa barragem. Pelo contrário: seria feito um reforço nela e retirado o povo. No dia em que a barragem cair não vai ter empresa para pagar a água potável para ninguém. Todos morreriam de sede e ficariam sem segurança ambiental. A ignorância tem que ser sanada, para que uma pessoa possa amar a natureza e chorar quando vir um passarinho agonizando. Quem ama a natureza, os animais, a vida, as paisagens naturais, sabe respeitá-las. Nas cercanias de Ouro Preto e Mariana, as paisagens são lindíssimas. A parte que o homem fez é linda, bem como o entorno de matas verdes, o por do sol e o colorido do sol. Ninguém quer perder isso. Só quem não ama a natureza pode ver um passarinho agonizando e não chorar. Vemos um pescador chorando porque ele aprendeu a nadar ali, ensinou o filho a nadar ali e está fora da ditadura do consumismo exagerado do capitalismo. O capitalismo acabará com a natureza. O desenvolvimento sustentável, em detrimento do acúmulo de riquezas, deve existir para fazer felizes pessoas que não são felizes por terem diamantes no dedo. Ouro nas torneiras. Nós precisamos minerar ouro apenas para a medicina e a odontologia. Nós precisamos acabar com a Floresta Amazônica para tirar diamante? Não. O diamante, que é o mineral mais duto do mundo, já existe em grande quantidade para perfurar, com as brocas, e extrair o petróleo. O aço só deve ser minerado para as necessidades.
Entrevista com Sr.Nonô - Bairro Paraiso - BH