Cidade-memória em fogo lento

Angra visível e invisível, arquitectura e memória, e uma alma de chuva. Às vezes, quase temos a certeza de que foi o mar que subiu em volta – e deixou à superfície só este cimo de cidade grande no exílio. Torres sineiras, festa melancólica e brava, profana e sagrada. Uma maneira de ser entre o mar e o mato, a que no Inverno a neblina baixa empresta uma impressão de mistério, como se tudo isto fosse uma só coisa: terra, céu, o mar a rebentar na pedra, o ferro forjado, as barras pintadas, cidade-archote em fogo lento, aceso a meio da noite do mar.

Tudo isto ainda habita connosco. Todos os navegantes da Ásia e os sonhadores a caminho do Sul, os naufrágios e os poetas-soldado, os marinheiros, os lavradores, os reis presos e exilados. A humidade, a açorianidade, a rede de todos os pescadores, o manto de todos os fantasmas passados entretecidos. Dos primeiros povoadores, das vítimas da ocupação espanhola, dos foragidos liberais, dos jesuítas e dos franciscanos, dos que foram e dos que ficaram depois do abalo, da América, de nós que cruzamos agora o presente, no silêncio vazio que espera.

Aqui mora uma melancolia que se estende ao sol. Ao lado, a nossa vontade de a escrever, pintar, gravar, costurada em linhas de fuga. Guardada pelos pássaros, que já aqui estavam muito antes dos homens, empoleirados agora nas gigantes araucárias do Japão, sentinelas colossais do que vencemos e fracassámos.

Alexandre Borges

[Para “Um Céu de Janelas”, exposição de Helena Vitorino]