HELENA VITORINO, «A Flor do Risco»
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Mário T Cabral, Casa das Tramóias, Agosto, A.D. 2009
A característica mais evidente destas peças é o trabalho de minúcia quase obsessiva com a descrição dos padrões da indumentária do toureiro. Helena Vitorino já demonstrara, em outros períodos e temáticas, o mesmo deleite da mão que pinta e se esquece, ao pintar, absorta na repetição de um motivo, serena na simetria das formas, silenciosa no luxo das cores. Mas este assunto permite uma valorização maior de tal estilo.
O facto de serem fragmentos, quase todos em composição centrada, no vazio do papel branco, evita a repetição do figurativo tradicional, o que não seria um defeito, em si, embora não permitisse a impressão de frescura e atualidade que as peças realmente apresentam, em grande parte, ainda, devido ao trabalho da luz.
Na verdade, não há rostos. De vez em quando, pintam-se as mãos masculinas. E, no entanto, o sentimento profundo que atravessa toda esta coleção é o de um fino erotismo, desejo tipicamente feminino, em cascata: a mão que pinta é a mão que borda, que veste o corpo e o substitui, numa transferência da paixão da realidade para o artefacto, que dispensa e até inverte o ponto de partida; não admira que um dos trabalhos seja a preto e branco.
As mangas rasgadas das jaquetas consentem que se veja o forro branco, o mesmo alvo forro que se vai enchendo de sombras à medida inversa da abertura da vénia. A languidez das mangas dependuradas em cabides insinua o corpo que as moldou…
Por tudo isso, não viu nada quem viu esta exposição depressa. Há que pousar demoradamente os olhos nos ramalhetes e cornucópias e outros padrões pintados, imaginar o tempo que foi preciso empenhar neste ofício e, deste modo, supor o gozo da mão trabalhadora, ouvir no silêncio destes quadros a funda respiração do desejo, uma espécie de atração pelo abismo, uma flor do “risco”, nas ambivalências todas desta palavra.