Principais personagens:
Caos primitivo, um deus incógnito, Céu, Terra, Ar, Éter, Euro, Zéfiro, Bóreas, Austro, Jápeto, Prometeu (filho de Jápeto), Saturno, Jove (Júpiter), Gigantes
Resumo estendido:
O Livro I das Metamorfoses de Ovídio se inicia com um breve prólogo (v. 1-4) em que o autor adianta o tema central de sua obra: um poema contínuo (carmen perpetuum) sobre as mudanças de forma - as metamorfoses - desde a criação do mundo. A narração, porém, começa antes mesmo que este se origine, quando havia apenas o Caos Primitivo (v. 5-20).
Antes, tudo coexistia em discórdia. Este era caos: uma massa confusa impregnada pela semente das coisas - ar, terra, mar, éter - onde o estado da natureza era indiferenciado e tudo se embaraçava e se contrapunha entre si, em um fluxo dinâmico.
Até que um deus e melhor natureza intervieram, desemaranhando o conjunto indiferenciado e separando céu, terras e ondas a seus respectivos lugares, desenvolvendo-os e estabelecendo concórdia. Esta é a primeira metamorfose descrita pelo poema (v. 21-51). O céu, ígneo e sem peso, disparou para a mais alta cúpula e perto dele, colocaram-se os ares. A terra, por ser mais pesada, atraiu também elementos pesados e afundou. O último local foi ocupado pela água, que cercou a terra.
Após dividir a antiga massa confusa, o deus esculpiu a terra em um grande orbe e derramou mares, ordenando-os a inchar com ventos e a cobrirem a terra com praias. Adicionou fontes, lagoas imensas, lagos, rios em declive; fez campos, vales, selvas e montes rochosos. Partilhou a terra em cinco zonas similares às do céu; a zona ao centro não é habitável por conta do calor, e as duas externas estão cobertas no frio. Porém, entre elas há duas outras que misturam o calor e o frio.
Por cima dessas zonas está o ar, que é mais leve que a terra e que a água, mas mais pesado que o fogo (éter). O deus incógnito comandou que as névoas, as nuvens e os trovões residissem nos ares e que os ventos produzissem raios e, junto deles, relâmpagos. Contudo, não deixou que os Ventos (v. 52-68) tivessem pleno domínio dos ares. Irmãos, cada um deles rege a uma direção através de suas rajadas. Euro (vento do sudeste) se retirou à Aurora, aos reinos nabateus, à Pérsia e às cordilheiras do sol matutino; enquanto Zéfiro (vento oeste) manteve-se próximo a Vésper e às praias que se aquecem no pôr do sol ocidente; Bóreas (vento norte) ocupou a Cítia e setentriões; e Austro (vento sul) com assíduas nuvens e chuva inunda a terra a frente.
Assim que acabara de demarcar as fronteiras das coisas, o deus começou a povoar as regiões (v. 69-88). Primeiro, astros irromperam pelo céu, então as ondas viraram habitat de peixes cintilantes, a terra, de feras, e o ar, de aves. Enfim, nasceu o ser humano, um animal superior aos outros, capaz de dominar as outras coisas.
O narrador propõe duas hipóteses para o nascimento da humanidade (v. 78-88): ou ela surgira da semente divina manipulada pelo deus; ou o filho de Jápeto (Prometeu) a modelara à semelhança dos deuses, misturando a terra - com sementes do céu e recém-dividida do éter - à água da chuva. O barro, antes sem forma, converteu-se em figuras humanas.
A partir deste momento, inicia-se a Era de Ouro (v. 89-112). A primeira das eras não era reforçada por leis, auxílios ou forças opressoras, nem era permeada por pena, violência e medo. Naquela eterna primavera, os mortais conheciam apenas suas próprias terras e cultivavam o fiel e o correto. Assim, não precisavam viver em guerra e podiam praticar o ócio, uma vez que a terra, ainda que não arada, já os fornecia todo o alimento necessário.
Depois que Saturno foi lançado ao lúgubre Tártaro, o governo de Jove começou e uma nova geração surgiu, inferior à de ouro, mas superior à de bronze. Durante a Era de Prata (v. 113-124), Jove encurtou a primavera de outrora e mensurou o ano em quatro estações: inverno, verão, outono e primavera; e os mortais passaram a se abrigar - em cavernas, arbustos e galhos atados com cascas de árvore - e a plantar sementes.
Ainda que não fosse malévola, a terceira era, nomeada Era de Bronze (v. 125-127), se caracterizou por maior selvageria e inclinação à guerra. Após esta, veio a Era de Ferro (v. 127-150), em que todos os crimes irromperam e pudor, verdade e fieza deram lugar a fraudes, dolos, insídias, violência e ao amor pelas posses. Os mortais passaram a navegar para explorar ondas e ventos desconhecidos e a delimitar as propriedades que antes eram de uso comum. Assim como a explorar não só o alimento, mas as riquezas escondidas nas entranhas da terra (nas sombras do Estige), o que trouxe inúmeros males: o nocivo ferro e o ainda mais funesto ouro, a guerra, os saques, a quebra da hospitalidade. Não há confiabilidade entre hóspede e hospedeiro, entre sogro e genro, entre irmãos, entre esposa e marido, entre madrastas e afilhados, entre filhos e pais. Subjugada esteve a piedade; e a última deusa, a Virgem Astreia, deusa da Justiça, abandonou as terras encharcadas de sangue.
Então, os Gigantes (v. 151-162) cobiçaram o céu e amontoaram montanhas (Pélion e Ossa) até a alta cúpula. Entretanto, Júpiter, o pai onipotente, arremessou seus raios e esmagou o Olimpo, o que derrubou os outros dois montes. O terrível corpo deles jazeu em meio aos escombros; a Terra (Gaia), impregnada do sangue dos filhos, animou-os e transformou-os em forma humana, para manter monumentos à sua prole. Ainda assim, a prole humana nascida do sangue desprezava os deuses e desejava a violência.
Comentário sobre passagens do texto:
v. 1-4: Proêmio: o poeta explica que seu espírito o estimula a narrar "formas mudadas em novos corpos", e pede ajuda aos deuses para que ele possa cantar um poema contínuo ("perpetuum") desde a origem de tudo até os seus dias.
v. 5-20: O caos primordial, o todo da natureza como massa confusa, em que os elementos, misturados, ainda não haviam sido separados.
v. 21-68: Separação dos elementos, A terra e o mar e as cinco zonas, Os quatro ventos: Aqui o poeta passa a narrar a primeira grande transformação: do caos à ordem. Forças desconhecidas, de um deus não nomeado e da "natureza excelente" organizam os elementos, geram a terra, o mar, os ventos, entre outros.
v. 69-75: O surgimento dos astros e dos animais:
Mal demarcara as certas fronteiras de todas as coisas
quando, tendo por muito vagado em cega caligem,
astros em todo o céu começaram a brilhar fervilhando;
pra que local nenhum fosse órfão de seres viventes,
astros ocupam o solo celeste e as formas dos deuses,
ondas cederam habitat aos peixes de escamas brilhantes,
terra acolheu as feras, alados, o ar agitável. (v. 69-75)
v. 76-88: O surgimento da humanidade: hipóteses sobre a origem da espécie humana: criação de um deus-artífice, da natureza ou de Prometeu, o filho de Jápeto. O poeta discute a importância da espécie e a diferencia dos outros seres animados pelo "rosto sublime", que olha adiante e ao alto, e não mais ao chão.
Mais sagrado animal, mais capaz, com a mente elevada
inda faltava, e que dominasse todas as coisas:
nasce o homem, quer tenha feito com sêmen divino
tal artesão de tudo, do mundo melhor a origem,
quer a terra, tendo-se há pouco apartado do alto
éter, ainda tivesse sementes do céu, seu parente;
esta, o filho de Jápeto, mista com a água das chuvas
modelou em efígie dos deuses, regentes de tudo,
mas, se curvados apenas a terra observam os outros
animais, ao homem deu um rosto sublime
e ordenou que, ereto, lançasse-o ao céu e aos astros.
Essa terra, que, há pouco fora rude e sem forma
converteu-se e assumiu ignotas figuras dos homens. (v. 76-88)
v. 89-112: Era de ouro, eterna primavera: o poeta narra as belezas e benesses de uma era de total felicidade e ausência de trabalho e preocupações. Compare-se com a versão do poeta grego Hesíodo em seu poema Trabalhos e os dias, composto por volta dos séculos VIII e VII a.C.
Áurea, primeira a surgir das eras: sem força opressora,
sem auxílio, sem leis, cultivava o fiel e o correto. (v. 89-90)
Por si só a terra, imune, intocada da enxada
sem os rasgos do arado dava todas as coisas.
Satisfeitos com alimentos criados sem lida,
frutos do arbuto, morangos montanheses colhiam.
Mais: framboesas e amoras pendentes de duros arbustos,
e as borboletas caídas da árvore vasta de Jove.
Primavera era eterna e, com suas tépidas auras,
plácidos Zéfiros flores nascidas sem sêmem mimavam;
logo, também, não arada, frutos a terra trazia,
sua barba profusa o campo inculto aclarava:
já um rio de leite, um rio já de néctar fluíam,
do ílex verde destilava o mel amarelo. (v. 101-12)
v. 113-24: Era de prata, surgimento das estações e dos assentamentos humanos: as coisas começam a piorar, especialmente a partir da separação da eterna primavera em agora quatro estações.
Júpiter encurtou da primavera o período:
com inverno, verão e desigual outono e
breve primavera em quatro estações corta o ano.
O ar, primeiro, por secos fervilhares queimado
incandesceu e a chuva pendeu congelada por ventos.
E, primeiro, abrigaram-se em casas, e casas cavernas
foram, e densos arbustos e varas atadas com cascas. (v. 116-22)
v. 125-50: Eras de bronze e do ferro: surgem as armas, os metais, os crimes, as posses, os enganos.
Sucedeu a essa a terceira era, a de bronze,
mais selvagem no engenho e mais pronta às armas horríveis,
Logo então na era do veio mais baixo irromperam
todos os crimes, fugiram o pudor, a verdade e a frieza,
no lugar deles surgiram as fraudes, os dolos, insídias
a violência e o celerado amor pelas posses. (v. 125-30)
v.151-76: Os Gigantes: primeira narrativa mítica, da luta dos gigantes com os deuses olímpicos, e a vitória destes últimos, que os consolida como nova geração de deuses dominantes, liderados por Júpiter/Jove (o Zeus grego).
Para que não fosse mais seguro que a terra o alto éter,
dizem que aspiraram ao reino celeste os Gigantes
congestionando montanhas até os astros acima.
Onipotente pai estrondou o Olimpo lançando
raios e estremeceu o Pélion ao Ossa submisso;
como jazem seus diros corpos sob os escombros,
com muito sangue banhada dos filhos, a Terra,
dizem, ficou inundada, e animou os quentes cursores
e, para que monumentos à sua estirpe restassem
forma humana lhes deu. Contudo, também essa estirpe
deuses desprezava, e, avidíssima pela matança,
seva foi, violenta: verias que em sangue nasceram. (v. 151-62)
Principais personagens: Júpiter, assembleia dos deuses, Licaon, Aquilão, Austro, Juno, Íris, Netuno
Resumo: Tendo ouvido sobre os horrores na Terra, Júpiter chega na Arcádia com a imagem de um mortal, mas se dizendo deus, provoca riso no rei Licaon. O rei planeja assassinar o visitante para provar sua mortalidade, mas antes lhe serve carne humana no jantar. Júpiter furioso transforma Licaon em lobo.
Na assembleia dos deuses, Júpiter planeja destruir a espécie humana e conta a história de Licaon. Ele decide acabar com a humanidade por meio de um dilúvio e Netuno auxilia na inundação. A água leva do mundo a maioria das coisas vivas.
Resumo estendido:
Do alto, Jove viu isto e gemeu, lembrando-se do banquete repugnante de Licaon - evento recente ainda não divulgado. Imensa era a ira do satúrnio e ele convocou um concílio, que o atendeu sem demora (v. 163-176).
Ovídio, então, apresenta ao leitor a morada dos deuses. Quando o céu está sereno, é possível visualizar uma via sublime: a via láctea, renomada por ter um candor próprio. Nela, há um caminho para a morada de Júpiter. A plebe habita em outros locais, pois lá, no Palatino celeste, os nobres deuses acomodaram suas casas.
Após a convocação de Jove, eles se acomodaram na câmara de mármore. O pai onipotente, do local mais alto, apoiou-se em um cetro de marfim, balançou seus cabelos três, quatro vezes - e, em cada uma delas, estremeceu a terra, o mar e as estrelas - e externou sua indignação. Ele não ficou tão ansioso pelo domínio do mundo quando os monstros de cem braços com pernas de serpente (em Ovídio, os Gigantes) se revoltaram contra o céu. Isto porque, apesar da ferocidade do inimigo, esta guerra se originava apenas de uma única espécie e causa.
Porém, jurou pelos rios infernais sob a terra e o bosque Estige que, na opinião dele, a raça mortal deveria ser aniquilada em todo lugar que Nereu toca. Pois deve-se tentar de tudo, mas se um corpo é incurável, então corta-se ele com a faca para salvar o resto. Neste caso, destruir a humanidade (v. 177-198) para que aqueles que ainda não tinham a honra de habitar o céu - como semideuses, divindades rústicas, ninfas, faunos, sátiros e silvanos - pudessem habitar as terras com tranquilidade.
Revelou, então, como Licaon (v. 199-243) planejou um estratagema contra ele, o deus que domina os raios. Ao descobrir sobre isso, todos os outros deuses demandaram justiça contra aquele que tentara algo tão grave. Nessa passagem, Ovídio faz uma alusão à tentativa de assassinato contra César Augusto, dizendo que também naquela ocasião o temor atingiu o gênero humano pelo receio da ruína. Porém, assim como a devoção dos subordinados não satisfez Augusto, também a reação dos deuses não satisfez Jove, que freou seus murmúrios e retomou o discurso.
Já conhecia a infâmia deste período, mas, querendo prová-la falsa, Jove desceu do Olimpo e perambulou pela terra com aparência humana; levaria muito tempo para contar aos outros deuses quantos e onde ele avistou crimes. Atravessou Mênalo, Cilene e Liceu, até chegar na sede do tirano da Arcádia (Licaon). O crepúsculo anunciava a noite quando Júpiter sinalizou que ali chegara um deus. A multidão começou a suplicar, mas Licaon riu das preces piedosas e afirmou que testaria se aquele realmente era um deus ou apenas um mortal, de modo que a verdade ficaria clara.
Testaria a verdade da seguinte forma: planejava aproveitar enquanto dormia para matá-lo. Não contente com isso, Licaon lacerou com lâmina o pescoço de um refém enviado da Molóssia. Então, ferveu alguns dos membros semimortos em água e outros levou para assar no fogo. Assim que foi servido tal prato, Júpiter usou seus raios para desmoronar o teto sobre a casa. Aterrorizado, Licaon fugiu para os campos silenciosos e ao tentar falar, uivou. De sua boca deriva toda a raiva e desejando o abate ao qual está acostumado, ataca os rebanhos. Suas vestes se transformaram em pelos, braços em patas. Ainda que se tenha se tornado um lobo, manteve os vestígios da forma anterior: o mesmo cabelo grisalho, mesmos olhos e a mesma ferocidade na aparência.
Júpiter, então, declarou que essa casa pereceu, mas não é a única a merecer tal destino. As Fúrias reinam na terra. Então, o regente deu a sentença: todos deveriam pagar pelas penas que merecem (v. 244-273). Uma parte dos deuses concordou, incentivando a indignação de Jove, enquanto a outra apenas encenou assentir. Porém, a perda da espécie humana era um motivo de luto para todos, que se perguntaram como será uma terra sem os mortais, quem levará incenso aos altares, se a terra ficará às feras. O rei do Olimpo apaziguou suas preocupações e prometeu que cuidaria disso; faria uma raça diferente, cuja origem os admiraria.
Antes que lançasse os raios fabricados pelos Ciclopes, Júpiter hesitou. Receava que o éter sagrado fosse tomado pelo fogo e se lembrava da sina de que um dia o mar, a terra e o céu seriam incinerados e a massa do mundo seria desfeita. Portanto, decidiu por outra punição: a espécie humana seria destruída pelas ondas e tempestades irromperia de todo o céu (v. 253-292). Então, recolheu Aquilão (o vento do norte), assim como os ventos que afugentam as nuvens pesadas, nas grutas de Éolo e enviou Austro. O vento sul voou com as asas encharcadas e tenebroso semblante; a barba como nuvens de chuva, cabelos brancos como ondas; neblina envolveu sua fronte, penas e peito gotejaram e quando suas mãos torceram as nuvens, trovejou e a chuva caiu do céu. A mensageira de Juno, Íris, adornada em várias cores, alimentou as nuvens com as águas. Assim, as colheitas foram arrasadas e os colonos soltaram votos de lamentos, pois o trabalho do ano inteiro pereceu.
Isso não satisfez a ira de Jove, e seu cerúleo irmão, Netuno, o auxiliou com ondas e convocou todos os rios. Ao que eles se reuniram no palácio do mestre, ordenou que libertassem toda sua força, relaxando suas rédeas e irrompendo nas casas e destruindo com água as barragens. As águas obedeceram, escancaradas, correndo desenfreadas até o mar. Então, o próprio deus marítimo golpeou a terra com seu tridente e ela estremeceu, abrindo curso para as águas. Os rios transbordaram e entraram pelos campos abertos e com sementes, arrebataram as árvores e o gado e os homens e casas e altares com estátuas sagradas. Se alguma casa permanecesse resistindo, as ondas aumentavam e cobriam seu topo. Havia torres escondidas abaixo do dilúvio e mar e terra não tinham mais distinção: era tudo um mar sem praia.
Ovídio então descreve a devastação causada pelo dilúvio nos versos 293 até 312. Humanos, nereidas e animais foram afetados, movidos de seus habitats, que foram parar embaixo d’água. As águas arrebataram a maior parte daqueles que habitavam o mundo, e aqueles que as ondas pouparam foram devastados pela escassez de alimento.
Comentários:
v. 182-198; 208-243: primeira narrativa longa por um segundo narrador: Jove
v. 199-243: Licaon é transformado em lobo:
Logo que os pôs à mesa, eu, com flâmea vingança
desmoronei os tetos sobre seus dignos36 penates;
terrificado, ele foge de encontro aos silêncios dos campos,
uiva ao tentar, em vão, falar e, por isso, sua boca
toda a raiva concentra, e exerce o desejo de morte
contra rebanhos, e ainda hoje seu gozo é no sangue.
Vestes viram pelos, os braços transformam-se em patas;
torna-se lobo e conserva os vestígios da forma de outrora;
mesmo é o grisalho, mesma violência no aspecto,
olhos brilham igual, e mesma é a fereza na imagem. (v. 230-39)
v. 204: primeira apóstrofe, de "Ovídio" a Augusto:
não menos grata foi a piedade dos teus, ó Augusto,
v. 233: primeira metamorfose, de Licaon em lobo: punição de Jove pela impiedade do tirano. procedimental/dinâmica: a forma final é adequada ao temperamento do rei antes de ser mudado em lobo.
Logo que os pôs à mesa, eu, com flâmea vingança
desmoronei os tetos sobre seus dignos penates;
terrificado, ele foge de encontro aos silêncios dos campos,
uiva ao tentar, em vão, falar e, por isso, sua boca
toda a raiva concentra, e exerce o desejo de morte
contra rebanhos, e ainda hoje seu gozo é no sangue.
Vestes viram pelos, os braços transformam-se em patas;
torna-se lobo e conserva os vestígios da forma de outrora;
mesmo é o grisalho, mesma violência no aspecto,
olhos brilham igual, e mesma é a fereza na imagem.
Foi-se uma casa, mas não foi a única casa a ser digna
de perecer; onde há terra, ali reina a Erínia furente.
Pensarias ao crime jurados; rápido deem-seto
das as penas que mereceram, tal é a sentença”. (v. 230-243)
v. 274-92: O dilúvio: A terra fundiu-se com o mar:
E se alguma casa permaneceu resistindo
indelével a tamanho desastre, seu cume, contudo,
altas ondas cobriam e há torres no fundo do abismo;
já não havia distinção entre o mar e a terra:
tudo era mar e o que era praia não mais existia. (v. 288-92)
Principais personagens: Deucalião e Pirra (um casal - ele, filho de Prometeu, ela, de Epimeteu), Júpiter, Tritão, deusa Têmis.
Resumo: Após o dilúvio, restam apenas Deucalião e Pirra, um velho casal justo e devoto. Eles pedem orientação aos deuses para repovoar a Terra. A deusa Têmis responde enigmaticamente, instruindo-os a lançar “os ossos da mãe grandiosa” atrás de si. Interpretando que os ossos eram as pedras da Terra, seguem o conselho. As pedras lançadas por Deucalião tornaram-se homens, e as de Pirra, mulheres, recriando a humanidade. Além disso, o calor e a umidade restantes do dilúvio dão origem a novas formas de vida, renovando a biodiversidade do planeta.
Resumo estendido:
A Fócida dividia os campos Eteus dos Aônios e era fértil enquanto terra. Porém, no período do dilúvio, formava um campo vasto de águas súbitas, uma parte do mar. Na Fócida se encontrava um monte com dois picos, o Parnaso, com cumes mais altos que as nuvens, rumo aos astros. Nele aportaram Deucalião e sua consorte, Pirra, (v. 313-415) em um barco curvo (o resto de seus pertences fora coberto pelo mar). O casal cultuava as ninfas Corícidas, os numes do monte e a oracular Têmis. Dentre os homens, nenhum era melhor ou mais justo que ele, e dentre as mulheres, nenhuma temia aos deuses mais do que ela.
Quando Júpiter viu o pântano que submergiu o globo e contemplou como um único homem e uma única mulher sobreviveram dentre milhares - ambos inocentes e adoradores das divindades -, partiu as nuvens. Aquilão dissipou as chuvas e foi possível ver a terra ao céu e o éter à terra. A fúria marítima também recuou quando o rei dos oceanos acalmou as águas com seu tridente e convocou Tritão, ordenando-o a soprar sua concha para sinalizar aos rios e mares que refluíssem. Ele obedeceu e as águas que tocavam as terras e mares foram contidas; o mar ganhou praias, os riachos, leitos, as correntes deixaram as colinas, o solo ressurgiu, as encostas cresceram, e após um tempo, as selvas revelaram suas copas, que ainda tinham limo (v. 324-347).
A terra ressurgiu e, ao vê-la vazia, desolada e silenciosa, Deucalião lamentou com Pirra, sua prima e esposa, como apenas os dois restaram e ainda assim não tinham certeza de suas vidas, tal era o pavor pelo que ocorrera. Declarou-se a ela e afirmou como ele, que era filho de Prometeu, gostaria de poder refazer os povos implantando almas em argila, tal como o pai fizera. Porém, por desígnio divino, eram os únicos que restavam. Ambos choraram e suplicaram aos deuses e oráculos por auxílio (v. 348-380). Então, chegaram às águas de Cefiso, aspergiram a cabeça e as vestes e se voltaram aos santuários da deusa Têmis, que estavam cobertos de musgo e sem fogos no altar. Ao chegarem aos degraus do templo, o casal se estendeu ao chão, temerosos, e, beijando a pedra fria, questionaram de que forma a ira dos deuses poderia ser revertida e o dano ao povo humano ser consertado.
Comovida, a deusa profetizou a eles que ao deixar o templo, cobrissem a cabeça, soltassem as vestes e lançassem para trás os ossos da mãe grandiosa. O casal ficou atônito. Após um longo tempo, Pirra rompeu o silêncio recusando as ordens da deusa e pedindo perdão com a voz trêmula. Ela temia que, ao jogar os ossos para trás, ferisse o fantasma da mãe. Refletiram sobre as palavras obscuras do vaticínio, ponderando-as sozinhos e juntos. Até que Deucalião, ao tentar confortar Pirra, considerou que a “mãe grandiosa” é nada mais do que a terra e, dessa forma, seus ossos são as pedras. Portanto, para obedecer o concílio de Têmis, deveriam lançar pedras para trás.
Ainda que as palavras de Deucalião a deixassem aliviada, Pirra hesitou porque ambos desconfiavam dos decretos celestes. Mas como não haveria mal em tentar, o casal cobriu sua cabeça, soltou suas túnicas e arremessaram pedras para trás de suas pegadas, tal como ordenado. As rochas começaram a perder a rigidez e rigor e amoleceram pouco a pouco, tomando novas formas. Conforme se alargaram e sua natura cedeu, uma forma humana, ainda não clara, foi avistada (tal qual o mármore começado, mas ainda não finalizado, uma forma que não era distinta, como um rabisco). A parte úmida com seiva e terra se transformou em corpo, aquilo de sólido que era inflexível virou ossos, as veias de outrora mantiveram seu nome, e, tal qual era a intenção divina, pouco tempo depois, as pedras lançadas por Deucalião se transfiguraram em homens e as lançadas por Pirra, em mulheres. A origem de como nascemos (v. 381-415) é a explicação do porquê somos uma espécie árdua e experiente no trabalho.
Quando a luz do sol acalorou a umidade deixada pelo dilúvio, a própria terra deu à luz a outra animália com inúmeras formas (v. 416-437). O barro e o limo estufaram com o calor e as férteis sementes das coisas, alimentadas pelo solo (como a um ventre materno), expandiram e tomaram corpo. Assim, quando o Nilo, que tem sete embocaduras, retrocedeu dos campos inundados, reconduzindo seu fluxo a seu antigo leito, e o limo cozinhou no sol, os cultores encontraram muita animália, alguns finalizados, outros prestes a nascerem e outros ainda imperfeitos com membros faltando. Com frequência, em um mesmo corpo, metade está viva e a outra metade é só terra rústica.
De fato, quando calor e umidade se misturaram, a vida foi produzida e todas as coisas se originaram. Ainda que fogo e água duelem entre si, o vapor quente cria todas as coisas. Portanto, a discordante concórdia é útil para a propagação. Assim foi que após o dilúvio, a terra aquecida pelo éter, em parte, manteve várias de suas espécies antigas, e por outro lado, criou novos assombros.
Comentários:
v. 339: Manipulação de perspectiva: para encerrar o dilúvio, Netuno ordena que Tritão toque sua trompa. No v. 339, há uma mudança de perspectiva e a trompa é que "toca" os lábios do deus: "Quando ela então a boca do deus, a barba orvalhada / toca e, soprada, canta as ordens então recebidas, /
v. 384: Após relato em discurso direto do oráculo de Têmis, o narrador narra em uma espécie de discurso indireto livre a interpretação que Pirra faz do oráculo:
Paralisados de espanto, após longo tempo o silêncio
Pirra rompe com a voz e recusa os mandados da deusa:
dê-se-lhe vênia, implora, com pávido rosto, pois teme
lacerar com os ossos lançados as sombras maternas. (v. 384-7)
v. 400: Metamorfose de rochas em pessoas:
Rochas (quem o crerias, sem testemunho das eras?)
sua dureza e rigor começam a depor e, com o tempo,
amolecer e, moles, começam a tomar novas formas. (v. 400-3)
"Disso decorre sermos de gênero duro" (v. 414) = interpretação etiológica sobre a natureza sofrida da humanidade
v. 416ss.: transição do cósmico ao episódico/mitológico: depois da nova espécie humana, nascem animais e novas espécies a partir do calor e da umidade (v. 430), incluindo monstros.
Principais personagens: Píton, Febo, Cupido, Dafne, Peneu
Resumo: Apolo mata a serpente monstruosa Píton e se gaba. O Cupido com inveja faz com que Apolo se apaixone por Dafne, filha de Peneu. Dafne recusa o amor do deus e foge. Perseguida por Apolo, Dafne pede desesperada ajuda a seu pai, que lhe transforma em um loureiro. Entristecido, Apolo promete a honra de tornar o loureiro sua árvore sagrada.
Resumo estendido:
Um deles foi Píton, que a terra concebeu contra a própria vontade. Essa cobra sem precedentes era do tamanho de um monte e causava terror aos novos povos. A gigante Píton foi morta pelo deus porta-flecha (v. 438-451), Febo, que anteriormente só havia usado tais armas mortais em corças e cabras, e seu veneno escorreu de feridas escuras. Para que tal feito não fosse esquecido, o deus instaurou jogos sacros, as Pítias, onde todo jovem que vencesse as célebres provas (com mãos, pés ou rodas) seria premiado com uma coroa de carvalho. Naquela época, ainda não havia o loureiro, então Febo coroava os próprios cabelos com qualquer ramo de árvore.
Orgulhoso do monstro derrotado, Febo viu Cupido (v. 452-471) puxando o arco para trás e perguntou o que ele fazia com armas tão fortes. Em sua arrogância, contou sobre o ataque que desferira em Píton e afirmou que tal arma condizia com seus ombros e não com os do devasso menino, que devia se ater aos amores que incita com a tocha e não aos louvores do arco e flecha. O filho de Vênus respondeu a ele que o arco de Febo poderia ferir a tudo, mas que o dele feriria o próprio Apolo, e voando até o topo do Parnaso, retirou duas flechas da aljava, cada uma com um encargo diferente. Uma delas era chata, tinha chumbo na ponta da haste e afugentava o amor. A outra era pontiaguda, reluzia ouro e criava o amor. Com esta flecha, Cupido acertou Febo, mas, com aquela, feriu Dafne (v. 472-567), a ninfa filha de Peneu.
Dessa maneira, enquanto ele a amava, ela afugentava seu nome. Dafne era devota de Febe e se deleitava com as tocas das florestas e as feras cativas. Muitos desejaram a ninfa dos cabelos desgrenhados arrumados em uma única fita, mas ela desdenhava aos maridos e não se interessava por Himeneu, a união, ou por Amor, o conúbio. Quando o pai Peneu a pedia por um genro ou por netos, ela recusava o matrimônio avidamente, pedindo ao pai que pudesse usufruir da virgindade para sempre - afinal, fora isso que Júpiter concedera a Diana.
Por mais que Peneu conferisse isso a Dafne, o que ela queria não lhe foi permitido graças a seu charme e beleza. Febo estava apaixonado e, ao vê-la, desejava que se unissem carnalmente. Via seu cabelo solto e os imaginava penteados, nos olhos enxergava estrelas e admirava seus olhos, mãos, antebraços e braços quase descobertos, e acreditava que as partes ocultas eram ainda melhores. Seu peito ardia, nutrindo os estéreis amores com esperança, e seus oráculos o enganaram ao não avisar que tal ardor não seria correspondido.
Febo seguiu a Peneida implorando que ela parasse, pois corria como quem escapa de algo hostil e ele a perseguia por causa do amor. Contudo, Dafne fugia mais rápido que o vento, sem parar para ouvir as palavras do deus. Ele não cessou a perseguição, pedindo-a que ao menos perguntasse quem era aquele que fora encantado. Apresentou-se: não era um habitante dos montes, um pastor guardando rebanhos e gados, mas um filho de Júpiter. Seus reinos eram Claros, Tênedos, Delfos e os palácios de Pátara e a ele era revelado o passado, o presente e o futuro. Através dele canções harmonizavam em cordas, e sua flecha era certeira - mas uma era ainda mais, a que o acertara. Era “o Curador”, inventor da medicina, mas erva alguma poderia curar o amor e as artes que a outros ajudavam, não poderiam auxiliá-lo naquele momento.
A perseguição continuou, com Dafne correndo assustada dele e de suas palavras. Entretanto, até mesmo assim Febo continuava encantado pois a fuga só fazia aumentar sua beleza. Desejando não desperdiçar a ternura, ele apertou os passos atrás dela, tal como decreta o amor. O deus e a virgem pareciam predador e caça, ele, com fé, queria seu prêmio, ansiando enlaçá-la, e ela, com medo, só pedia para se salvar, esquivando-se. Porém, ele, assistido pelas asas do Amor, era mais rápido e não descansava; estava atrás dela e respirava nos pelos de sua nuca. Dafne, cansada pelo esforço da fuga, empalideceu e suplicou ao pai (ou à Terra, a depender do manuscrito) que destruísse sua forma, mudando-a para que não mais fosse desejada.
Mal dissera as palavras e pôde sentir um torpor em seus membros. Uma casca envolveu os seios, o cabelo brotou como folhas, os braços como galhos, os pés se enraizaram e o rosto virou a copa da árvore. De Dafne restou apenas o lampejo.
Mesmo assim, Apolo a ama. Tocando o tronco ainda trêmulo, tomou a árvore em seus braços e beijou a madeira, que continuava tentando escapar. Prometeu-lhe que já que não poderia ser sua esposa, seria então sua árvore. A partir de então, o loureiro adornaria seu cabelo, a cítara e a aljava e os louros se fariam presentes nos triunfos. Além disso, tal qual a cabeça de Febo permanecia jovem, também a beleza de suas folhas seria perpétua. Com novos ramos, o loureiro assentiu ao parecer balançar sua copa.
Comentários:
v. 438: transição com apóstrofe e narrativa em segunda pessoa:
Inda que a terra não te quisesse, ó máxima Píton,
concebeu-te, e aos novos povos, incógnita serpe,
eras terror: tão grande espaço do monte cobrias. (1.438-40)
v. 450: prolepse (antecipação narrativa): "Não havia loureiro, e sua fronte com longos cabelos / Febo cingia com ramo de árvore de qualquer tipo". A árvore passará a existir a partir da narrativa da metamorfose de Dafne, neste mesmo episódio.
v. 488ss.: após pedir ao pai que permaneça sempre virgem, Dafne recebe resposta do narrador em apóstrofe, culpando Dafne e sua beleza pela desgraça que lhe ocorrerá:
Ele, de fato, concede; mas, ao que queres, teu charme
veta que ocorra: ao voto teu tua forma repugna. (1.488-9)
v. 491ss.: símile do amor de Febo se alastrando como fogo de palha causado por descuido de algum viajante com a tocha acesa perto de folhas secas
v. 497ss.: topos da ligação poética do desejo erótico e da visão
v. 548: metamorfose de Dafne em loureiro:
Mal acabara a prece e um grave torpor toma os membros:
cinge-se com uma tênue casca o seio suave,
numa copa os cabelos, braços crescem em ramos;
pés há pouco velozes se fincam como raízes,
feca é da copa o ápice e dela só resta o lampejo. (1. 548-52)
Principais personagens: Peneu, Ínaco, Io, Júpiter, Juno, Argo
Resumo: após transição para o encontro de rios consolando Peneu pela perda da filha Dafne, o narrador informa sobre a ausência do rio Ínaco, que procura sua própria filha, a ninfa Io. Em analepse (flashback narrativo), o narrador conta que Júpiter a estuprara e sequestrara, e depois a transformara em vaca para despistar Juno, que, desconfiada, pede a vaca e manda o monstro Argo custodiá-la.
Resumo estendido:
Havia na Hemônia uma ravina chamada Tempe, pela qual Peneu descia com ondas agitadas desde o Pindo. Sua queda criava tênues vapores que garoavam no topo das árvores e seu estrondo incomodava lugares distantes. Tal era a casa, a sede, o santuário do poderoso rio, que abrigava as águas e as ninfas aquáticas. Os rios próximos se reuniram lá primeiro, sem saber se davam louvor ou consolos ao pai de Dafne (v. 568-587). Depois, chegaram os outros rios, que descem ao mar com águas cansadas de perambular.
Apenas um rio estava ausente: Ínaco. Escondido no fundo de sua gruta, aumentava a correnteza com seu choro, lamentando pela perda de sua filha, Io, sem saber se ela estava viva ou não. Não conseguia encontrá-la e por isso esperava o pior.
Júpiter vira Io (v. 588-621) advinda do rio paterno e declarou-a uma virgem digna de si, que faria o esposo feliz com o leito matrimonial. Sugeriu que ela saísse do sol do meio dia e buscasse por sombras no bosque, oferecendo-lhe a companhia e proteção de um deus - não um deus qualquer, mas ele, o portador do cetro celeste e dos raios. Porém, por mais que ele a pedisse para não fugir, ela correu. Já tinha deixado os pastos de Lerna e os campos arborizados de Lirceu quando Jove ocultou o extenso terreno com um nevoeiro, bloqueou sua fuga e arrancou-lhe o pudor (estuprou-a).
Enquanto isso, Juno olhou para os campos abaixo e se surpreendeu que a neblina fizesse o dia parecer noite. Sabia que ela não advinha de rios, nem da umidade da terra e procurou seu marido no entorno, tendo flagrado tantos de seus casos. Não o achou e, veloz, deslizou dos céus para a terra, ordenando que as nuvens se afastassem. Ao sentir que a esposa se aproximava, Jove mudou a aparência de Io para a de uma bela novilha. Ainda que ressentida e como se não soubesse a verdade, Juno elogiou a beleza da vaca e perguntou qual seu rebanho, de quem e de onde. Júpiter tentou escapar das perguntas ao mentir que a novilha brotara da terra, mas não teve sucesso, pois Juno a pediu de presente.
Por mais que não quisesse entregá-la - afinal, é cruel entregar os amores -, Júpiter o fez - mais suspeito ainda seria não dá-la, pois caso negasse tal presente para sua irmã e cônjuge pareceria que aquela não era uma vaca.
Juno tomou a rival para si, mas continuou ansiosa e temerosa que Jove a traísse, então designou que Argo, filho de Aréstor, a vigiasse (v. 622-641). A escolha não fora ao acaso, uma vez que Argo tinha cem olhos e apenas dois descansavam por vez, enquanto os outros permaneciam em vigília. Conseguia supervisioná-la até mesmo de costas enquanto ela pastava ervas e arbustos durante o dia. À noite, prendia-a com correntes injustas e ela se prostrava, infeliz, e bebia de riachos cheios de barro. Queria suplicar a Argo, mas não tinha braços para estender a ele e seus lamentos se transformavam em mugidos que a aterrorizavam.
Io se dirigiu até as margens de Ínaco onde outrora brincara e ao ver os novos chifres nas águas, fugiu apavorada. Nem as Náiades nem Ínaco sabiam quem ela era, mas continuou a seguir ao pai e às irmãs, que a acariciavam e admiravam. Ínaco arrancava a grama para ela, que lambia a mão paterna, sem conter as lágrimas. Se ao menos pudesse, pediria por ajuda e contaria seu nome e seu destino, mas como não tinha palavras, desenhou letras na areia para mostrar que sua forma mudara.
Ínaco abraçou os chifres e pescoço da novilha branca, identificando-a como a filha que tanto procurara (v. 642-667). Agora que a encontrara, continuava sendo motivo de pesar, visto que não podia falar ou responder, mas apenas remugir. O velho rio relatou a ela como preparava suas núpcias na esperança de um genro e netos, mas que estes agora deviam estar ali no rebanho. Os lamentos foram escutados por Argo, que o afugentou e moveu a filha arrancada do pai para outros pastos, nos quais ele, de um topo à distância, continuou a vigiar.
Comentários:
v. 588: início da narrativa analéptica do flashback com verbo no mais-que-perfeito: Ínaco procura a filha mas não encontra. Diz, então, o narrador: "Vira-a Júpiter vindo do rio paterno (...)"
v. 591ss.: manipulação do topos do locus amoenus, o local idílico e agradável que, no fundo, prenuncia cenas de violência. Júpiter convida Io a segui-lo a espaços naturais amenos onde há sombras. Após fuga e recusa de Io, Júpiter produz uma nuvem escura em torno da ninfa e a estupra. A nuvem chama atenção de Juno no Olimpo, o que motiva sua descida para averiguar o ocorrido.
v. 601ss.: Ovídio muda o tom narrativo para uma cena quasi-cômica em que os papeis do marido adúltero e da esposa traída são encenados de modo a rebaixar a altivez da narrativa da perseguição de Apolo a Dafne. Os deuses mais poderosos do Olimpo se comportam como os personagens do velho apaixonado e da matrona romana em comédias como as de Plauto e Terêncio.
Principais personagens: Júpiter, Mercúrio, Argo, Pã, Siringe
Resumo: Mercúrio, mandado por Júpiter para matar Argo, chega disfarçado de pastor contando histórias e tocando flauta. Enquanto Argo luta com o sono, Mercúrio conta a história de Siringe, que foi transformada em uma flauta ao fugir do deus Pã. Depois que Argo dorme, Mercúrio o mata.
Resumo estendido:
Sem conseguir suportar o sofrimento de Io, o rei dos deuses convocou Mercúrio, o filho concebido com a lúcida Maia, e ordenou-o a matar Argo (v. 668-688). Mercúrio calçou as sandálias aladas, pegou a varinha e o chapéu na cabeça e desceu à terra, onde manteve apenas a varinha capaz de induzir o sono. Vestiu-se como um pastor e conduziu as cabras com o auxílio de uma flauta que construíra. O guarda de Juno ficou encantado por esse som inédito e convidou-o a se sentar com ele na pedra. Mercúrio sentou-se e passou o dia contando histórias e tocando a flauta, enquanto Argo se esforçava para permanecer acordado. Apesar de metade dos seus olhos dormir, a outra metade se manteve alerta, e ele questionou como a flauta, recém inventada, viera a existir. O deus narrou a história de Pã e Siringe (v. 689-712).
Entre as hamadríades que habitavam os montes gélidos da Arcádia, havia uma náiade famosa conhecida como Siringe. Ela, que honrava a deusa da Ortígia nos gestos e virgindade, algumas vezes antes fugira de sátiros e deuses que a perseguiram, e poderia se passar por Diana, filha de Latônia, se não fosse a diferença entre seus arcos (o de Siringe, de chifre, e o de Diana, de ouro).
Um dia, ao retornar do monte Liceu, Pã, com uma coroa de pinho na cabeça, a viu e tentou conversar com ela. Porém, a ninfa o rejeitou e fugiu por atalhos até chegar ao plácido e arenoso Ládon. Ali, encurralada pelo rio, implorou para que suas irmãs, as ninfas das águas, a mudassem. Pã, pensando ter capturado Siringe, agarrou caniços, que antes eram o corpo da ninfa. Quando soprou, um vento atravessando o caniço e ecoando um som suave parecido com o de um lamento. Pã, encantado pela nova arte, declarou que este diálogo entre eles permaneceria com ele, juntou caniços de diferentes tamanhos, amarrou-os entre si com cera e deu a eles o nome dela: siringe.
Assim contaria Mercúrio (v. 713-721), ao que percebeu todos os olhos de Argo fechados. Calou-se e aprofundou o sono ao alisar os olhos com a varinha calmante. Com a espada curva, golpeou-o enquanto dormia, no local onde cabeça e pescoço se conectam, e arremessou o corpo pela encosta, sujando o rochedo de sangue.
Comentários:
v. 645: Io, na forma de vaca, vaga e encontra as outras ninfas e seu pai, Ínaco. Não consegue falar, espanta-se, mas se entrega aos afagos do pai e escreve com as patas na areia. Topos (?) da privação de voz e da fala e da substituição por meios visuais (tear, escrita na areia).
v. 674: Mercúrio se fantasia de pastor e inicia uma interação com Argo que também parodia elementos literários da tradição bucólica: pastores contando histórias para passar o tempo. Mercúrio tem consigo uma flauta pã, que motiva o interesse de Argo, e, ao contar a história da flauta, Mercúrio assume a voz narrativa e conta mais uma história de perseguição divina a uma ninfa: a de Pã e Siringe, uma metamorfose da narrativa anterior.
v. 689ss.: Mercúrio narra a história de Pã e Siringe em discurso direto. Ovídio-narrador intervém e corta sua narrativa, assumindo o controle narrativo no v. 700, como se estivesse entediado com o modo de narrar de Mercúrio. Aparentemente, o narrador termina de contar a história que Mercúrio interrompeu, e, nela, a ninfa Siringe, perseguida por Pã, é transformada nos caniços que o deus segue soprando, que, por fim, emitem um som "suave semelhante a um lamento" (v. 708, cf. topos da privação da voz discutido acima. Ao encerrar o episódio, o narrador nos diz que "Isso ainda iria dizer o Cilênio" (epíteto de Mercúrio), "mas antes vê que os olhos deslizam das luzes ao sono" (1.713-14). Este episódio é central para a metapoética de Ovídio: Mercúrio consegue fazer adormecer o monstro sempre vigilante de cem olhos com uma história. Mas a história não foi contada, pois o monstro dorme antes. Qual seria o motivo? Mercúrio é um mau narrador? Por que ele não é o poeta? Sua audiência não tem interesse na narrativa? Se for este o caso, por que? Genevieve Liveley (2011: p. 32) discute a possibilidade de que o poeta esteja representando narrador e audiência, ambos masculinos, mostrando desinteresse por mais um história de perseguição e estupro de uma ninfa.
v. 720: apóstrofe narrativa a Argo, quando de sua morte:
Argo, jazes, toda a luz que brilhava em teus olhos
extinguiu-se, uma única noite te arranca cem luzes. (1.720-1)
Principais personagens: Io, Juno, Épafo, Faetonte, Clímene, Mérope
Resumo: Mercúrio faz Argo adormecer, corta sua cabeça, seus olhos viram a cauda do pavão, ave dedicada a Juno. Juno continua perseguindo Io, agora com um aguilhão que a conduz até o Nilo, onde volta à forma de ninfa após intervenção de Júpiter e reconciliação com Juno. Io torna-se a deusa Ísis e seu filho com Júpiter, Épafo, oportuniza a transição ao livro 2, pois é conhecido de Faetonte, ambos filhos de um deus ausente.
Resumo estendido:
Uma única noite arrancou o brilho dos cem olhos de Argo; e Juno os recolheu, colocando-os nas penas de sua ave (o pavão), enchendo a cauda de gemas. Inflamada, a deusa não hesitou e alojou uma fúria tenebrosa entre os olhos e mente da rival. Enterrou estímulos invisíveis no seu peito, e ela saiu, fugitiva, pelo mundo (v. 722-746).
Assim que atingiu o último de seus labores, o Nilo, prostrou-se na margem e curvou-se para as alturas, suplicando a Jove pelo fim de seu sofrimento com penosos mugidos. Abraçando o pescoço da esposa, pediu que ela cessasse pois jurava pelos lagos do Estige que a garota não mais a traria desgosto.
Juno se acalmou e Io recobrou sua aparência anterior - não mais tinha pelos, os chifres, os olhos e a mandíbula diminuíram, voltou a ter mãos e ombros e os cascos se dissolveram em unhas. Da antiga forma de vaca manteve apenas a brancura, e, satisfeita por ter pés mais uma vez, a ninfa se levantou. Contudo, voltou a falar aos poucos, visto que ainda tinha receio de mugir.
Posterirmente, foi cultuada como deusa por multidões que vestiam linho, e seu filho Épafo, fecundado a partir do sêmen de Júpiter, possuía templos por toda parte ao lado dos da mãe.
O Sol teve um filho de idade e ânimo similares, Faetonte (v. 747-779), a quem Épafo não aguentava a soberba e como se vangloriava entitulando-se filho de Febo. Para o filho de Io, Faetonte se inchava pela imagem de um falso pai.
Faetonte corou ao que a vergonha tomou o lugar da ira e relatou a sua mãe, Clímene, as provocações que recebera e como, por mais livre e feroz que fosse, se calara frente a elas, pois não podia refutá-las. Abraçando a mãe, implorou (por sua vida, pela de Mérope e pelo casamento das irmãs) que lhe contasse a verdade sobre sua origem paterna. Enfim, Clímene ergueu os braços aos céus, jurando ao filho que era nascido do Sol e que, se estivesse mentindo, que o próprio se negasse a vê-lo. Então, encorajou Faetonte a atravessar as terras etíopes e da índia e ir rumo ao nascer do sol.
Assim Ovídio conclui o primeiro livro das Metamorfoses e a partir da história de Faetonte começará o livro II.
Comentários:
v. 728: apóstrofe narrativa ao rio Nilo:
Último dos imensos labores restavas, ó Nilo,
que, assim que atingiu, com joelhos depostos na margem
pende (...) (1.728-30)
v. 738: retro-metamorfose de Io:
Logo que a deusa se acalma, aquela retoma a aparência
de antes, se torna o que fora: foge a pelagem do corpo,
chifres decrescem, tornam-se estreitos os cavos dos olhos,
diminui a mandíbula, voltam as mãos e os ombros,
dissolvido, o casco retorna às quíntuplas unhas:
nada resta da forma de vaca, a não ser a brancura;
satisfeita com o uso dos pés, a ninfa levanta,
teme, contudo, falar; vai que ainda, ao costume das vacas
sai um mugido, e timidamente tateia as palavras.
A primeira retro-metamorfose do poema também se encerra com a reversão do topos da privação da voz: ao receber novamente a voz humana, Io tateia lentamente as palavras, com medo de ouvir o lamento bovino.
O livro 2 continua a partir da história de Faetonte.
Anfitrite: uma Nereida, filha de Nereu e Dóris, esposa de Netuno. Aqui, ela representa o mar.
Aquilão: ou Bóreas, o vento Norte.
Arcádia: país no meio do Peloponeso, rodeado por montanhas de todos os lados.
Argo: o navio de Jasão e dos Argonautas, também chamados de Mínias. Esse navio de 50 remos (ou 54 para alguns) foi construído por Argos pra Jasão e seus homens para sua busca pelo velo de ouro. A proa foi feita de um dos carvalhos falantes do bosque de Dodona e fornecida pela deusa Minerva, que atuou como um oráculo na viagem. Após a viagem, o navio encalhou em Corinto, onde, anos depois, a proa apodrecida caiu sobre o velho Jasão e o matou. O resto do casco foi colocado no céu pelo deus Netuno.
Astreia: Deusa da Justiça. Filha de Júpiter e de Têmis, representada no céu pela constelação de Virgem.
Augusto: primeiro César imperial, governou o império Romano entre 31 a.C. e 14 d.C.
Aurora (Éos): filha de Hiperião e de Teia, irmã de Hélio e de Selene, ela é a deusa dos dedos rosáceos, é ela que abre todas as manhãs as portas do céu para a passagem do carro do Sol.
Austro (Noto): é um vento quente e tempestuoso, que sopra do Sul. Filho de Éos (Aurora) e de Astreu e irmão de Euro, Zéfiro e Bóreas.
Bóreas: deus do vento do Norte, filho de Éos (Aurora) e de Astreu, irmão de Euro, Zéfiro e Austro.
Caos primitivo: massa informe e confusa, personificação do vazio primordial antes que a ordem fosse imposta ao mundo.
Capitólio: Templo dedicado a Júpiter construído no monte Capitolino, uma das sete colinas de Roma.
Cefiso: um rio na Beócia, uma região da Grécia. Deus-rio Cefiso, pai de Narciso.
Ciclopes: uma raça de gigantes de um olho só, descendentes de Urano e Gaia ou de Netuno e Anfitrite.
Cítia: Antiga região da Eurásia em que se desenvolveu o império dos citas, um povo de origem iraniana que ocupou o território entre os séculos VIII a.C e II d.C.
Clímene: filha de Oceano e de Tétis. Casou-se com Jápeto e foi mãe de Atlas, Prometeu, Epimeteu e Menécio.
Corícidas: ninfas do monte Parnaso.
Cupido: deus do amor; filho da deusa Vênus e Vulcano, o deus do fogo; mas, dizem alguns, pode também ser filho dos deuses Mercúrio ou Júpiter. Corresponde ao deus grego Eros.
Dafne: ninfa célebre amada por Apolo; perseguida por esse e, quando estava prestes a ser alcançada, pediu que fosse transformada a seu pai, o rio-deus Peneu, e tornou-se assim uma planta de louro.
Deucalião: rei de Ftia. Ele foi advertido pelo pai de que o dilúvio se aproximava e salvou a si mesmo e a sua esposa Pirra. Em algumas histórias, como nesta versão, eles estavam no monte Parnaso, que se projetava acima da inundação, mas, em outras, ele construiu um arca e salvou a si e a esposa quando Júpiter inundou o mundo inteiro.
Deus e melhor natureza (deus et melior natura): princípios causais de todas as coisas. Um deus incógnito e indefinido.
Diana: deusa do nascimento, da castidade, da caça, da luz, da lua, dos plebeus e das coisas selvagens; filha de Júpiter e Latona. Irmã de Apolo. Corresponde à deusa grega Ártemis.
Épafo: filho de Júpiter e de Io, confiado por sua mãe, que temia a ira de Juno, aos Curetes para escondê-lo.
Epimeteu: um dos Titãs; irmão de Atlas e Prometeu; marido de Pandora; pai de Pirra.
Estige: rio feminino do mundo inferior, filha de Oceano e Tétis, e também uma fonte glacial na Arcádia. É uma das chamadas Oceaninas ou Oceânides.
Euro: impetuoso, filho de Éos (Aurora) e de Astreu, representa a personificação do vento Sudeste. Irmão de Zéfiro, Bóreas e Austro.
Faetonte: geralmente, ele é conhecido como filho do deus Sol. Ele persuadiu seu pai a deixá-lo conduzir a carruagem do sol, mas perdeu o controle e despencou das alturas, queimando grandes áreas de terra e fazendo com que os povos africanos se tornassem negros. Júpiter o matou com um raio antes que ele pudesse causar mais danos.
Febe: Titã que rege a Lua e um epíteto da deusa Diana, filha de Latona e neta de Febe.
Febo: deus do Sol e dos oráculos, filho de Júpiter e Latona. Irmão de Diana, ambos nasceram na ilha de Delos. Apolo para os gregos, também conhecido como Délio.
Fócida: uma das regiões da Grécia.
Gaia (Terra): concebida como a Terra. Mãe dos Titãs, das Titânides, dos Ciclopes, dos Hecatônquiros e dos Gigantes.
Gigantes: seres ctônicos fortes e agressivos, nascidos de Gaia. Segundo Hesíodo, foram fecundados a partir das gotas de sangue de Urano após ser castrado por Crono (Saturno). Em Apolodoro, os Gigantes são filhos de Gaia e Urano, mas não há menção à castração. A batalha protagonizada por eles ficou conhecida como Gigantomaquia (luta dos Gigantes).
Hemônia: designação antiga do território grego da Tessália.
Himeneu: deus que conduzia o cortejo nupcial, imaginado como um belo jovem e invocado nas canções matrimoniais.
Ínaco: deus-rio, filho de Oceano e Tétis, pai de Io, Foroneu e Egialeu. Também foi o primeiro rei de Argos, e o rio Ínaco foi assim chamado em sua honra.
Io: jovem argiva, filha do deus rio argólico Ínaco. Sacerdotisa de Hera, foi amada por Júpiter e transformada em vaca pela própria Hera, que a submeteu à custódia de Argos.
Íris: filha de Taumante e de Electra, mensageira dos deuses, que desce voando sobre a curva do arco-íris.
Jápeto: um dos doze titãs, filho de Gaia e Urano, deus da mortalidade.
Jove (Júpiter): deus principal da mitologia greco-romana, também deus do trovão e do céu. Zeus para os gregos.
Juno: deusa do parto, da luz, do casamento; uma das Olímpicas; irmã e esposa de Júpiter; mãe de Marte e Vulcano. Corresponde à deusa grega Hera.
Lácio: região da Itália em torno do rio Tibre, onde fica a cidade de Roma.
Licaon: filho de Príamo.
Mercúrio: o deus da eloquência, dos mercadores, do roubo, da sabedoria; mensageiro dos deuses; um dos Olímpicos; pai de Cupido e de Lares, deus do fogo. Corresponde ao deus grego Hermes.
Nereides: divindades marinhas, ninfas da água, filhas de Nereu e de Dóris.
Nereu: filho de Ponto e de Geia, pai das Nereides, conhecido como "velho do mar", deus marinho dotado de sabedoria profética.
Netuno: o mesmo que Poseidon, deus do mar. Filho de Saturno e Ops.
Olimpo: ou Monte Olimpo. Desde Homero, essa montanha é a residência oficial dos deuses e está sob o domínio de Júpiter (Jove/Zeus).
Ossa: montanha da Tessália e morada dos Centauros.
Pã: deus dos rebanhos, pastores e bosques. Ele era parte homem, parte cabra, com chifres, cascos e cauda.
Palatino: monte, uma das sete colinas de Roma.
Pélion: monte localizado na região sudoeste da Tessália, região grega, e morada de Quíron.
Peneu: deus-rio da Tessália.
Pérsia: nome usado pelos gregos Antigos, e emprestado para o latim, para denominar um território no sudoeste da Ásia e Ásia Central que a população local chamava de Irã.
Pirra: filha de Epimeteu e Pandora, esposa de Deucalião.
Píton: a grande serpente délfica, gerada pela Terra, Geia; atacava pessoas e animais, e Apolo liquidou-a perto de Delfos, junto à fonte Castália.
Prometeu: um Titã, deus dos artesãos; meio-irmão de Atlas e Epimeteu; pai do primeiro homem, Deucalião. Criador do homem, roubou o fogo do céu para uso dos homens.
Saturno: um Titã, responsável pela agricultura, pelas vinhas dos trabalhadores; pai de Juno, Júpiter, Netuno, Pico e Plutão. Corresponde ao Titã grego Crono.
Siringe: ninfa hamadríade (dos bosques) que se transformou em caniço para fugir de Pã, o qual, então, colheu a planta e com ela fabricou um flautim.
Tártaro: uma região do mundo inferior, o lar dos mortos, governado por Plutão (o grego Hades, chamado por Ovídio de Dis ou Dite).
Têmis: deusa da justiça divina, da sabedoria e do bom conselho; intérprete da vontade dos deuses; uma Titânide. Ela foi a segunda dona do Oráculo de Delfos e revelou a Deucalião e Pirra como repovoar o mundo depois do Dilúvio.
Titãs: os seis filhos de Urano com a deusa da terra Gaia. São eles: Ceos, Crio, Crono, Hipérion, Jápeto e Oceano. Outras versões incluem Atlas, Epimeteu e Prometeu. Eles tiveram seis irmãs, as Titânidas: Teia, Reia, Têmis, Menemósina, Febe e Tétis.
Tonante: epíteto de Júpiter, ligado a um de seus símbolos, o trovão.
Tritão: deus marinho, filho de Netuno e Anfitrite.
Vênus: deusa da beleza, dos jardins, do amor e das fontes; esposa de Vulcano. Afrodite para os gregos.
Vésper: designação do planeta Vênus ao cair da noite.
Zéfiro: deus do vento Oeste. Filho de Éos (Aurora) e de Astreu e irmão de Euro, Bóreas e Austro.
Referências:
BRANDÃO, Junito de Souza. Dicionario mitico-etimologico da mitologia grega. Petrópolis, RJ: Vozes, 1991-1992. 1v.
BRANDÃO, Junito de Souza. Dicionario mitico-etimologico da mitologia grega. Petrópolis, RJ: Vozes, 1991-1992. 2v.
BULFINCH, Thomas. O livro da Mitologia: A Idade da Fábula, tradução de Luciano Alves Meira. 1.ed. São Paulo: Martin Claret, 2013.
COLEMAN, J. A.. O dicionário de Mitologia - um A-Z de temas, lendas e heróis, tradução de Monica Fleisher Alves. Brasil: Pé de Letra, 2021.
Dicionário Etimológico da Mitologia Grega disponível em <https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/409973/mod_resource/content/2/demgol_pt.pdf> acesso em 05/11/2024.
GUIMARÃES, Ruth. Dicionario da mitologia grega. São Paulo, SP: Cultrix, 1999.
Ovid. Ovid's Metamorphoses, tr. Anthony S. Kline. Disponível em <https://ovid.lib.virginia.edu/trans/Ovhome.htm>
Ovídio. Metamorfoses. Tradução Rodrigo Tadeu Gonçalves. São Paulo: Penguin-Companhia, 2023.