Algo que ficou bastante evidente nos últimos anos, especialmente após o crescimento da extrema direita no Brasil, bem como em escala global, é que o lugar da ciência em meio à sociedade atual está em disputa. As diversas ciências e, com maior destaque, as ciências humanas vêm sofrendo sérios ataques, sobretudo, por meio de notícias falsas e mentirosas, além de cortes de verbas destinadas a seu desenvolvimento, entre outras ações. Não se trata de algo inusitado, mas que ganhou novos contornos, tendo em vista o ecossistema de comunicação contemporâneo que favorece a rapidez e o excesso de informações, gerando a temida infodemia.
A necessidade de combater esses discursos e ainda de aproximar a ciência de outros setores da sociedade se torna, portanto, cada vez mais premente. Diversas medidas que vão nessa direção podem ser observadas hoje no Brasil, como, por exemplo, o estímulo à divulgação das pesquisas por meio da criação de bolsas voltadas ao jornalismo científico, que algumas agências de fomento à pesquisa vêm propondo; o surgimento e o fortalecimento de agências de checagem de notícia; a produção de podcasts e videocasts de ciência realizada por pesquisadores, instituições de pesquisa, jornalistas e outros atores sociais; a ocupação das redes sociais por universidades e instituições produtoras de pesquisa em geral; entre tantas outras. Frente a esse cenário, o Grupo de Trabalho de Semiótica da Anpoll escolheu como tema para o biênio atual justamente a popularização e o ensino da Semiótica, uma vez que se trata de uma teoria que, certamente, pode contribuir para uma leitura mais crítica e sensível do mundo que nos rodeia, ou mais especificamente dos textos e práticas que o constituem.
A semiótica discursiva desenvolvida no Brasil já possui uma longa tradição de estudos voltados à relação entre semiótica e educação. Podemos recuperar aqui alguns trabalhos que mostram essa proximidade, como o doutorado de Portela, de 2008: Práticas didáticas: Um estudo sobre os manuais brasileiros de semiótica greimasiana; os livros Para entender o texto: leitura e redação (1988) e Lições de texto: leitura e redação (1996), de Fiorin e Savioli, que se tornaram obras de referência para o Ensino Médio e também para a formação de professores; a obra Comunicação nos textos: leitura, produção e exercícios (2005), de Discini, voltada a um público mais amplo; ou as teses de doutorado de Mendonça, intitulada Telenovela e leitura: reflexões sobre uma prática de análise semiótica no ensino médio (2013), e de Merith Claras, intitulada Semiótica, leitura, análise linguística: uma proposta de intervenção no Ensino Fundamental (2011), em que são desenvolvidas atividades de leitura embasadas na semiótica, posteriormente aplicadas em sala de aula.
Também merecem destaque o livro Semiótica e ensino: diálogos teóricos e práticos para/com a escola (2024), organizado por Silva e Miqueletti; a coleção de livros didáticos para o Ensino Fundamental II “Apoema” Português, de autoria de Teixeira, Sousa, Faria e Silva; bem como diversos artigos de Lima, como “Prática didática: entre a programação, a manipulação e o ajustamento” (2021); o dossiê “Contribuições da Semiótica e de outras teorias do texto e discurso ao ensino” (2019), organizado por Barros, Teixeira e Lima, entre outros inúmeros livros, capítulos e artigos de semioticistas das cinco regiões do Brasil. São publicações que tanto refletem sobre o ensino da semiótica e sua didatização, quanto sobre as contribuições da semiótica para as práticas de multiletramento.
Já no campo das reflexões sobre popularização da ciência do ponto de vista semiótico ou sobre a popularização da própria Semiótica, ou da Linguística, encontramos um número menor de trabalhos, sendo um deles o mestrado de Tadayesky (2024) sobre a popularização da ciência como uma estratégia semiótica, ou ainda a dissertação de Carvalho (2026), que discute, com base na metodologia da Semiótica Discursiva, os desafios da popularização da Linguística no contexto contemporâneo, tomando como corpus textos da Revista Roseta, mantida pela Associação Brasileira de Linguística, a Abralin. Ainda assim, multiplicam-se as iniciativas que visam a divulgar e a popularizar a proposta teórico-metodológica da semiótica, por meio, geralmente, de análises de fenômenos contemporâneos. É o caso da obra de Demuru: Políticas do encanto: extrema direita e fantasias da conspiração (2024); de podcasts realizados por pesquisadores, como a série Qual é o sentido?, proposta pelo próprio GT, ou o Fora da curva, coordenado por Fechine; de cursos de extensão ofertados por diversas instituições, entre outras empreitadas.
Partindo desse acúmulo de reflexões e de experiências tanto com o ensino quanto com a popularização da semiótica, para este biênio, propomos, então, que seja desenvolvida uma obra conjunta que poderá apresentar, por um lado, reflexões de cunho mais teórico a respeito do ensino e da popularização da semiótica e, por outro, exercícios práticos em que objetos de estudo atuais sejam analisados a partir de estratégias de didatização e/ou de popularização da ciência, tendo como enunciatários leitores não especializados. Apresentamos a seguir uma lista de eixos temáticos para a elaboração dos capítulos:
Didatização da semiótica
Semiótica e práticas de ensino
Popularização da semiótica
Popularização da ciência
Semiótica e suas contribuições para os multiletramentos: exercícios práticos
5.1 produção e leitura de textos audiovisuais;
5.2 produção e leitura de textos digitais;
5.3 produção e leitura de textos visuais;
5.4 produção e leitura de textos literários;
Exercícios de análise com vistas à popularização da semiótica nos seguintes campos:
6.1 gênero e sexualidade;
6.2 raça;
6.3 literatura;
6.4 política;
6.5 cidade;
6.6 design e/ou moda;
6.7 comunicação digital;
6.8 IA;
6.9 artes plásticas;
6.10 audiovisual.
Dinâmica de trabalho do GT:
Frente à dificuldade para dividir o tempo de apresentação dos resultados das pesquisas realizadas durante o biênio nos dias de evento estipulados para o Encontro Nacional da ANPOLL, já que o GT vem felizmente contando com uma grande participação de seus membros, no biênio de 2024-2025, a partir de proposta da coordenação do GT, os membros optaram por se organizar em subgrupos para o desenvolvimento de um trabalho conjunto. Apesar dos desafios encontrados pelos participantes em relação à nova dinâmica de trabalho, durante o 39º Encontro Nacional da Anpoll (2025), avaliaram a experiência de forma bastante positiva, optando pela manutenção dos subgrupos.
Assim, para o biênio atual, a proposta é que os membros se organizem em duas, três ou quatro pessoas junto com as quais deverão escolher um dos eixos propostos para trabalhar. A partir disso, deverão desenvolver um capítulo, cujo plano será apresentado no Encontro Intermediário, a ser realizado em 2026. Já no 40º Encontro Nacional da Anpoll, em 2027, o subgrupo deverá apresentar o capítulo pronto. Conforme os tópicos sugeridos, haverá uma parte do livro dedicada a reflexões de cunho mais teórico e outra em que são realizadas análises de objetos específicos para um público não especializado, num exercício de popularização e didatização da semiótica.
AUTHIER-REVUZ, J. A encenação da comunicação no discurso de divulgação científica. In: Palavras incertas: as não coincidências do dizer. Trad. E. P. Orlandi et al. Campinas: Unicamp, 1998 [1982]. p. 107-131.
BARROS, D. L P.; TEIXEIRA, L.; LIMA, E. S. (orgs.). Dossiê temático – Contribuições da semiótica e de outras teorias do texto e do discurso ao ensino. Estudos Semióticos, v. 15, n. 2, 2019.
BATISTA, J. L. T. A popularização da ciência como estratégia semiótica: um estudo do mangá “Cells at Work!” 163f. Dissertação (Mestrado) – Instituto de Letras, Universidade Federal Fluminense, 2023.
CARVALHO, A. I. Que linguística é essa? Uma análise semiótica dos discursos de popularização da Linguística na Revista Roseta. 186 f. Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2026.
DEMURU, P. Políticas do encanto: extrema direita e fantasias da conspiração. São Paulo: Elefante, 2024.
DISCINI, N. A comunicação nos textos. São Paulo: Editora Contexto, 2005.
FIORIN, J. L. O ensino da produção textual: a questão da coerência. Práxis (Rolim de Moura), vol. 4. Cacoal, RO, 2004. p. 75-92.
FIORIN, J. L.; SAVIOLI, F. P. Para entender o texto, São Paulo: Ática, 1988.
FIORIN, J. L.; SAVIOLI, F. P. Lições de texto: leitura e redação, São Paulo: Ática, 1996.
GERMANO, M. G.; KULESZA, W. A. Popularização da ciência: uma revisão conceitual. Caderno Brasileiro de Ensino de Física, v. 24, n. 1, 2007, p. 7–25.
GREIMAS, A. J. Semiótica e ciências sociais. Trad. Álvaro Lorencini e Sandra Nitrini. São Paulo: Cultrix, 1981.
GREIMAS, A. J.; FONTANILLE, J. Entretien. Langue française, Sémiotique et enseignement
du français. n. 61, p. 121-128, 1984. Disponível em: https://www.persee.fr/doc/lfr_0023-8368_1984_num_61_1_5186.
GRILLO, S. V. C. Divulgação científica: linguagens, esferas e gêneros. 333f. Tese (Livre Docência) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, 2013.
LIMA, E. S. (Multi)letramentos na escola: proposições da semiótica discursiva à ação didática. Revista do GEL, v. 16, n. 3, 2019a. p. 165-190. Disponível em: https://revistas.gel.org.br/rg/article/view/2804.
LIMA, E. S. de. De triagens a misturas: por uma compreensão semiótica do processo de transposição didática. Estudos Semióticos. São Paulo, v. 15, n. 2, 2019b, p. 114-132.
LIMOLI, L. MENDONÇA, A. P. F. Utilização da telenovela no desenvolvimento de competências de leitura: uma abordagem semiótica, Estudos Linguísticos, v. 38 n. 3, 2019, p. 551–560.
MASSARANI, L.; MOREIRA, I. de C.; BRITO, F. (Orgs.). Ciência e Público: caminhos da divulgação científica no Brasil. Rio de Janeiro: Casa da Ciência/UFRJ, 2002.
MENDONÇA, A. P. F. Telenovela e leitura: reflexões sobre uma prática de análise semiótica no ensino médio. 274f. Tese (Doutorado) – Universidade Estadual de Londrina, 2013.
MERITH-CLARAS, S. Semiótica, leitura, análise linguística: uma proposta de intervenção no ensino fundamental. 282f. Tese (Doutorado) – Universidade Estadual de Londrina, 2011.
MOTTA-ROTH, D.; SCHERER, A. S. Popularização da ciência: a interdiscursividade entre ciência, pedagogia e jornalismo. Bakhtiniana. São Paulo, v. 11, n. 2, 2016, p. 164-189.
PORTELA, J. C. Práticas didáticas: um estudo sobre os manuais brasileiros de semiótica greimasiana. 181 f. Tese (Doutorado) – Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara, Universidade Estadual Paulista, 2018.
PORTELA, J. C.; LEMOS, C. L.; BARROS, M. L. P. Le soin de la formation: L’institutionnalisation de la sémiotique au Brésil. Signata, vol. 3. 2012. p. 47-89. Disponível em: http://www.signata.ulg.ac.be/tomaison_2012.html.
ROSARIO, I. da C. do; ESTEVES, P. M. da S. (orgs.). Estudos de linguagem: transferência de conhecimento e popularização da linguística. Niterói: EDUFF, Campinas: Pontes, 2025.
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