Nossos antepassados europeus: um breve olhar.
Sumário:
I - Introdução
II - Origem longínqua
III - Os germanos
IV - Os italianos
V - Traços do caráter dos imigrantes
e adaptação à cultura local
I - Introdução
As informações históricas encontradas acerca dos nossos antepassados tribais da Europa são poucas e frágeis. Servem, entretanto, como um substrato, ainda que tênue, ou uma espécie de pano-de-fundo, para compreender de onde viemos e aquilo que somos.
O objetivo aqui é apresentar as notícias mais antigas disponíveis sobre esses antepassados da Alemanha e da Itália; aquilo que se sabe acerca da sua época pré-histórica, e o que foi registrado a respeito deles no momento em que começaram a aparecer nos registros da História. É raro o aparecimento de nomes de indivíduos dessa época, pois destes ficaram apenas registros de alguns poucos reis e chefes militares; a tribo é a menor unidade social da qual se tem algumas informações, e estas são sempre breves, pontuais. Para aqueles que se interessarem por conhecer mais a respeito da nossa história mais antiga, o que aqui se registra serve, talvez, como ponto de partida.
Grande parte do conteúdo abaixo nada mais é do que a reunião e organização de informações obtidas de diferentes fontes indicadas no final. Daquilo que foi obtido na Wikipédia estão assinaladas em itálico as palavras-chave usadas na pesquisa; cabe atentar para o alerta, dado pela própria Wikipédia, de que as informações nela contidas nem sempre são corretas.
As cidades atuais dadas como ponto de referência geográfica para a localização de territórios tribais, ou de origem dos nossos antepassados, podem ser vistas nos mapas por satélite do Google.
Não foram consultadas fontes no idioma alemão e italiano, as quais, em especial as acadêmicas, podem ser as mais ricas e confiáveis a respeito do presente assunto; uma futura pesquisa em tais fontes poderá modificar significativamente o que é aqui exposto.
Também não foram pesquisadas informações acerca de estudos genéticos das populações; estas e futuras outras poderão aclarar muito a classificação e os laços de parentesco dos diferentes povos do mundo; desde logo, já se sabe que há significativa uniformidade genética entre os europeus, o que indica um elevado grau de miscigenação; há também indícios de que, em linhas gerais, as pesquisas até agora realizadas confirmam o que adiante é informado acerca dos primeiros europeus e as grandes migrações, ainda que muito falte por detalhar, esclarecer e, provavelmente, corrigir. Seguem dois endereços para quem desejar ter um primeiro contato com este tema:
http://en.wikipedia.org/wiki/Genetic_history_of_Europe
http://www.eupedia.com/europe/origins_haplogroups_europe.shtml (em especial seus links para os halogrupos R1a e R1b, que identificam os povos de origem indo-ariana)
Não foram abertos neste documento capítulos relativos aos antepassados ingleses e portugueses por faltarem informações acerca do local de origem dos mesmos; a história e a geografia humana antiga da Inglaterra e de Portugal diferem bastante de uma região para outra desses países. Esta é uma pesquisa que fica por ser ainda realizada.
Joinville, 11 de janeiro de 2015.
Estácio Söthe
II - Origem longínqua
A origem comum de todos os povos da Terra, com base nos conhecimentos atuais e provisórios de paleoantropologia, arqueologia, linguística, história, genética e outras ciências, pode ser assim resumida:
1. A nossa espécie, Homo Sapiens Sapiens, surgiu há cerca de 200 mil anos, possivelmente em algum local do sul do continente africano. Em termos genéticos, o povo atual que está mais próximo da origem desta espécie é o dos San (San People), antigamente conhecidos também como Bosquímanos (San Bushmen) ou Hotetontes, que vivem na região do deserto do Kalahari. Fisicamente, eles são o protótipo de todos os tipos humanos atuais, dos negros aos brancos, dos caucásicos aos mongólicos. O primeiro homem e mulher humanos da nossa espécie, nossos avós mais antigos, que na tradição ocidental chamamos de Adão e Eva, podem ter sido parecidos com as pessoas que vemos nas fotografias abaixo.
Nota:
2. Há cerca de 80 mil anos um pequeno grupo da nossa espécie saiu da África cruzando o Mar Vermelho e se instalou no Oriente Médio. Dali se espalhou gradualmente para o resto do mundo ao longo dos milênios. Na Eurásia, ocuparam o lugar da espécie antecessora, Homo Erectus, ou Homo Sapiens, que por ali havia se espalhado, também oriunda da África, há cerca de 1,7 milhão de anos, e da qual um dos ramos evolutivos mais conhecidos é o chamado Homem de Neandertal.
3. À Europa a nossa espécie chegou há cerca de 45 mil anos, possivelmente vindo do Oriente Médio e atravessando o Estreito do Bósforo, seco na época porque, devido a um período glacial, o nível do mar era muito mais baixo; avançou gradualmente rumo ao oeste, alcançando a região que é hoje Portugal há 28 mil anos. Esse povo de caçadores/coletores é conhecido genericamente como Cro-Magnon; ele ocupou também a região mediterrânea do norte da África. Com o fim da última grande era glacial (Idade do Gelo, Glaciação Wisconsin, Glaciação Würms, Würmiano ou Laurenciano) que, passando por fases de retração e expansão, durou de aproximadamente de 110 mil até 10 mil anos atrás, houve uma dramática mudança do clima. Na Europa, como deve ter também acontecido em outros lugares do hemisfério norte, isto levou a um grande declínio populacional. Além da mudança do clima e, por consequência, de todo o bioma, o processo da mudança em si gerou eventos catastróficos, como enchentes colossais e grande elevação do nível do mar devido ao derretimento das geleiras, que então cobriam inclusive parte do continente europeu. Não obstante, seguiu existindo na Europa uma população humana, concentrada principalmente no sul, ao longo da costa do mar Mediterrâneo; à medida que o clima tornou isto possível, parte dos membros dessa população remanescente foi emigrando para o norte, espalhando-se novamente, aos poucos, por toda a Europa, inclusive ilhas britânicas e Escandinávia, e para o leste, até a borda da Ásia.
Notas:
4. Em algum momento entre 5 mil e 2 mil a.C. começam a chegar à Europa invasores oriundos da Ásia central, conhecidos genericamente como povos indo-europeus. Esta designação não se refere a alguma "raça" humana como pretendiam, por exemplo, os energúmenos nazistas, e sim a diferentes povos cujos idiomas fazem parte do grupo das línguas indo-arianas, o que indica uma origem comum, ou seja, que em algum momento fizeram parte de uma mesma população que viveu, provavelmente, na região que compreende hoje territórios da Índia, Paquistão, Afeganistão e Pérsia (parte da área dos dois últimos foi na antiguidade um território denominado Ária). A invasão indo-ariana da Europa deu-se em sucessivas ondas, ao longo de milênios. Sendo tempos pré-históricos, não existem registros desses acontecimentos; são desconhecidos os motivos que a desencadearam; não se sabe se ela deu-se pacificamente ou pela força das armas; provavelmente por ambas as formas, dependendo de circunstâncias como o grau de resistência das populações nativas aos invasores. Sabe-se entretanto que as populações autóctones não desapareceram; em muitos lugares há evidências de que houve miscigenação com populações locais e fusão de suas culturas.
Notas:
Os Celtas, foram o primeiro grupo indo-ariano a invadir a Europa. A época da sua chegada é incerta; alguns autores propõe que tenha ocorrido por volta de 2000 a.C.; outros mostram indícios de que teria ocorrido em 5000 a.C. Instalaram-se no norte da Europa, chegando até as regiões da atual Espanha, Portugal e ilhas onde estão hoje a Inglaterra e Irlanda. Algumas tribos ou povos celtas: Arvernos, Bitúrigos, Brácaros, Bretões, Brigantinos, Caledônios, Catuvelanos, Celtiberos, Célticos, Eburões, Éduos, Escotos, Galaicos, Gauleses, Helvécios, Icenos, Lusitanos, Pictos, Suetones, Trinovantes. Existe uma terceira hipótese defendida por alguns acerca da origem dos celtas, a de que eles eram autóctones que adotaram em algum momento um idioma de origem indo-ariana; hipótese semelhante é também defendida com relação a outros povos, um deles o eslavo; teoria provavelmente motivada por nacionalismo, é pouco defensável, pois é difícil crer que um povo abandone o seu idioma nativo por um outro, estrangeiro, sem que alguma circunstância o force a isto; geralmente, esta circunstância se dá na forma de invasão e domínio militar e político, por um povo culturalmente mais avançado; existe um exemplo notório disto nos tempos históricos, que é o das línguas latinas; estas prevaleceram na maioria dos atuais países que fizeram parte do Império Romano, mas não naqueles que possuíam cultura mais antiga, como o caso da Grécia e Oriente Médio; já na maior parte das regiões romanas da Europa Ocidental invadidas pelos germanos no final do Império manteve-se o idioma latino, pois estavam ocupadas por povos culturalmente mais adiantados que os invasores.
Notas:
Depois dos celtas vieram os Germanos, por volta de 1700 a.C, instalando-se inicialmente na Escandinávia e depois expandindo-se para o sul, num território que vai aproximadamente da Alemanha até o oeste da atual Rússia. Destes falar-se-á mais adiante.
Os Gregos chegaram ao sudeste da Europa em três ondas invasoras: Aqueus, no período 2000 a 1200 a.C.; Eólios e Jônios em 1700 a.C.; Dóricos, no final do período 1200 a.C. Instalaram-se nas regiões da atual Grécia e Anatólia, esta última localizada no oeste asiático correspondente à atual Turquia. Dali se expandiram gradualmente, na forma de fundação de colônias ou cidades, para as ilhas do Mediterrâneo e diversos outros locais da faixa costeira deste, até a Espanha, e do Mar Negro. Esses invasores encontraram povos vizinhos com civilização mais avançada, como a minoica (3000-1400 a.C.) e outras, do Egito e Oriente Médio; delas absorveram elementos culturais que iriam desenvolver, assim formando o que chamamos hoje cultura grega. A Grécia veio a ser o lugar de onde surgiria muito da nossa cultura ocidental.
No sul, os Latinos e outros povos chegaram por volta de 1000 a.C., ocupando regiões da península itálica. Há indícios de que alguns destes povos invasores tinham sua origem na região grega, tendo de lá emigrado em razão de eventos catastróficos ocorridos por volta de 1200 a.C., possivelmente motivada pela invasão dos Dóricos. Foram o embrião do que viria a se transformar no Império Romano, fonte da cultura romana, ou greco-romana.
Os Eslavos aparecem na história no século V da nossa era. Existem debates quanto a serem eles autóctones que em algum momento da história adotaram um idioma indo-ariano, ou invasores; uma das hipóteses alega que eles ocupavam a região leste da Europa desde pelo menos 2000 a.C. São classificados geográfica e linguisticamente em eslavos ocidentais (Tchecos, Eslovacos, Morávios, Poloneses, Silesianos e Sórbios), eslavos orientais (Bielorrussos, Russos e Ucranianos) e eslavos do sul (Bosníacos, Búlgaros, Croatas, Macedônios, Montenegrinos, Sérvios e Eslovenos).
Notas:
Já dentro da Era Cristã ocorreram na Europa diversas invasões de povos não indo-europeus oriundos da Ásia. Os Hunos chegaram no século V. Eram uma federação tribal sob comando mongol, oriundos do Altai, na Ásia Central. O motivo da emigração para o oeste parece ter sido climático: uma grande seca teria forçado esses povos a buscar novas pastagens. Nômades e semi-nômades, dedicavam-se à criação de cavalos. Instalaram-se na região onde estão hoje a Hungria e a Bulgária (nesta mesma época hordas de Hunos invadiram também regiões da China, Pérsia e, possivelmente, Índia). Suas táticas de guerra tornavam quase inúteis as dos povos ocidentais. Com sua fama de imbatíveis os precedendo, várias tribos germânicas orientais trataram de "sair do caminho" movendo-se também para o oeste, empurrando as que estavam à sua frente na mesma direção, num "efeito dominó" que acabou resultando numa invasão em massa para dentro do Império Romano do Ocidente e, em seguida, no colapso deste. Os hunos, através de conquista pela força, ou por aliança/adesão espontânea, inclusive de algumas tribos germânicas, tornaram-se senhores de um vasto território. Passaram a dedicar-se à rapinagem contra os povos vizinhos, ou à ameaça desta como meio de extorsão, acumulando assim enorme quantidade de riqueza. Acabaram contidos quando Átila (406 a 453 d.C.) invadiu a França, sendo ali derrotado (na batalha dos Campos Cataláunicos, Châlons-sur-Marne) pelo exército romano, o qual já era então composto, na sua maior parte, por tropas germânicas. Por nunca terem organizado instituições na forma de um Estado, após a morte de Átila os hunos acabaram por desaparecer da história, como um povo, miscigenando-se com a população local. Não deixaram legado cultural; foram, entretanto, os principais causadores de uma sucessão catastrófica de eventos que iriam mergulhar a Europa numa era de trevas, com um alcance e horror inimagináveis.
Os Ávaros, aparentados com os turcos, chegaram no século VI, dirigindo-se inicialmente para o noroeste, a Germânia; diante da resistência dos francos e por não serem as terras apropriadas para o seu modo de vida como pastores nômades, dirigiram-se para as planícies do Danúbio. Marcaram presença até o século IX, quando desaparecem da história, também miscigenados com a população local.
O último povo invasor a chegar à Europa Ocidental foi o dos Magiares (ou Húngaros), no século IX, quando se instalaram na região da atual Hungria e arredores. Durante décadas aterrorizaram os povos da região com expedições de rapinagem.
Houve ainda uma outra invasão oriunda da Ásia, a dos Mongóis, na Rússia, durante o século XIII, mas esta foi exclusivamente militar e eles dali se retiraram alguns anos depois.
Por fim, no século XI houve uma última grande invasão, a dos Turcos, que se instalaram na Anatólia e que viriam a formar um gigantesco império que abrangeu todo o Oriente Médio, parte do norte da África e do sudeste da Europa. Em 1453 tomaram Constantinopla, aniquilando assim o último reduto do Império Romano, cujo território já fora tomado em grande parte por invasores árabes islâmicos; cortaram assim as antigas rotas de comércio entre a Europa e a Ásia, o que por sua vez teve grandes impactos como, por exemplo, a decadência de Veneza e o impulso à navegação e à descoberta e tomada, pelos europeus, de novas terras. Hoje a presença turca no continente europeu se limita à região de Constantinopla e, como legado cultural, à presença de comunidades de religião islâmica na região dos Bálcãs e no leste do Mar Negro.
As informações disponíveis acerca dos germanos e de outros povos da antiguidade Européia foram, na sua maior parte, coligidas por historiadores romanos; merecem algumas ressalvas. Muitos deles não conheceram pessoalmente os lugares e povos que descreveram; valeram-se de relatos de autoridades administrativas e militares, viajantes e aventureiros. Uma das evidências disto está no fato de que diferentes historiadores da época não raro discordam bastante entre si acerca do local, da área geográfica, em que vivia tal ou qual tribo. Por outro lado, pelo menos parte do que escreveram merece crédito diante do fato de que os germanos representaram uma ameaça quase contínua para a segurança dos romanos quando o território destes chegou às fronteiras daqueles, fazendo com que tivessem grande interesse em conhecê-los; "conheça teus inimigos" é um ditado bem antigo. O historiador Tácito dá um bom resumo do que os germanos representavam, já no século I d.C.: "Nem os Samnitas, nem os Cartagineses, nem as Espanhas, nem as Gálias, nem ainda os Partos nos inquietaram tantas vazes: mais dura é de vencer a liberdade dos Germanos que o reino de Arsace ...".
Notas:
Um outro fator limitante acerca das informações históricas diz respeito às mudanças que ocorreram com o tempo, desde a época em que os historiadores romanos descreveram as tribos germânicas. Eram originalmente muitas dezenas, talvez até centenas de pequenas tribos; contudo, durante os séculos III e IV d.C. organizaram-se gradualmente em federações tribais, ao que parece cada vez mais abrangentes. As fontes divergem acerca do número de tais federações; por exemplo, uma afirma que eram apenas três na região hoje compreendida pela Alemanha: francos, saxões e alamanos; outra fonte lista seis: alamanos, bávaros, turíngios, francos, frísios e saxões; as fontes também pouco informam acerca de quais tribos, respectivamente, compunham essas federações.
Além disto, tribos ocasionalmente mudavam de um lugar para outro; e isto ocorreu em larga escala a partir dos séculos IV e V d.C., quando várias delas se deslocaram em massa para dentro do Império Romano; pode-se supor que o espaço que elas deixaram na Germânia foi ocupado por outras tribos que ali permaneceram; estas mudanças em geral não foram registradas pela história pois, coincidentemente e causada por tudo isto, aquela foi a época que hoje denominamos Idade das Trevas, sobre cujos acontecimentos quase nada se sabe. Do outro lado, quando começou o processo do Renascimento (Renascença) da Europa e se passou a ter um registro histórico mais confiável, a organização de tipo tribal já havia, pelo menos na sua maior parte, desaparecido. Por isto não se pode, por exemplo, afirmar seguramente que os nossos antepassados vindos da Vestfália no século XIX eram descendentes de alguma das tribos germânicas que viviam nessa região na época romana. É bem provável que sejam, mas não há certeza.
Essa denominação, germanos, habitantes da Germânia, foi difundida pelos os romanos mas é, de acordo com Tácito, a forma pela qual esses próprios povos referiam-se a si mesmos. Foram encontradas duas explicações bastante diferentes para o seu significado.
A primeira afirma que "germani" é simplesmente o plural do adjetivo "germanus", oriunda de gérmen, "semear, disseminar", "desdobramento", que tem o sentido de "parente" ou "aparentado", e que o nome próprio posterior Germani deriva desta palavra, sendo que a referência a este uso deve ser baseada na experiência romana de ver as tribos germânicas como aliadas dos celtas; esta parece uma explicação um tanto forçada e pouco crível.
Uma segunda explicação afirma que o nome latino Germânia é derivado do alemão Gehrmann ou Wehrmann, que significa "homem de guerra" ou "homem de lança"; parece uma explicação mais plausível. E, como já foi dito, era de fato assim que os romanos também viam, com razão, aqueles povos.
Notas:
A chegada dos germanos à Europa teria se dado por volta de 1700 a.C. ou, conforme outra fonte, cerca de 2000 a.C. Teriam se instalado inicialmente na Escandinávia; noutra fonte, é informado que esse território alcançava já então o norte da atual Alemanha. Júlio César e Tácito dão breve notícia acerca do que seriam as origens míticas desse povo:
O deus Manus, ou Mann, seria o antepassado comum de todos os germanos; teve três filhos, Itgo, Ermn e Isto, que são os sobrenomes de três deuses, respectivamente Freyr, Tin e Wodan; destes descenderiam três grupos germânicos, respectivamente: Ingevões (ou Ingaevones), estabelecidos nas costas do Mar do Norte, desde o território da atual Holanda até a península dinamarquesa; Herminões (ou Irminones, Herminones, Hermiones), que ocupavam a planície fluvial do rio Elba, expandindo-se depois para a Baviera, Suábia e Boêmia (o idioma deste povo viria a se transformar no idioma oficial da Alemanha de hoje, o alto-alemão); Istevões, (ou Istvaeones, Istaevones, Istriaones, Istriones, Sthraones, Thracones), estabelecidos na Renânia.
Nota:
The distribution of the primary Germanic dialect groups in Europe in around AD 1:
Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Ingvaeonic_languages
Azul: North Germanic
Vermelho: North Sea Germanic, or Ingvaeonic
Laranja: Weser-Rhine Germanic, or Istvaeonic
Amarelo: Elbe Germanic, or Irminonic
Verde: East Germanic
Plínio (Gaius Plinius Secundus, 23 – 79 d.C.), diferencia cinco grupos étnicos germânicos; acrescenta aos três já mencionados, os Vândalos e os Bastarnas; este número é condizente com o mapa lingüístico acima. Afirma também que compunham o povo Ingaevones as tribos Cimbri, Teutons e Chauci; dos Irminones, informa que incluía os Suebi, Hermunduri, Chatti e Cherusci (com relação a estes dois últimos, ele estava provavelmente equivocado, pois estas duas tribos viviam dentro do território acima assinalado como sendo o dos Istvaeones que, como veremos mais adiante, falavam uma língua francônia).
Tribos germânicas
As informações a respeito das tribos em si são relativamente escassas, não sistemáticas e, muitas vezes, confusas; em alguns casos fala-se de tribos propriamente ditas, noutros de federações tribais, nem sempre fazendo distinção dessas diferentes estruturas. Igualmente incertas são as informações sobre os territórios que ocupavam; exceto nos casos em que o mar ou um rio marca os limites territoriais, as demais fronteiras em geral são meras estimativas; mesmo quando várias tribos se sucedem ao longo de um rio, sabe-se apenas a sequência ou ordem de localização delas, mas não as dimensões, em largura e profundidade, dos seus territórios.
Aqui se fará apenas uma breve referência às tribos germânicas em geral. Será dada atenção um pouco mais detalhada às tribos que viviam nas regiões noroeste e sudoeste da Alemanha, de onde se originaram respectivamente os nossos antepassados da Vestfália (aproximadamente onde está o atual estado da Renânia do Norte-Vestfália, ou Nordrhein-Westfalen) e da Renânia (atual Renânia-Palatinado ou Rheinland-Pfalz).
Algumas fontes apresentam as tribos germânicas em dois grandes grupos:
a) Tribos germânicas orientais: Godos, que junto com os Visigodos, Ostrogodos, Godos criméios, Greutungos e Tervíngios vieram a formar uma grande federação; Bastarnas; Burgúndios, Esciros, Gépidas, Hérulos, Lombardos (ou Longobardos; é uma parte dessa tribo, que emigrou do norte da Alemanha para a região do Danúbio; mais tarde, uma parte emigrou para a Itália, na região hoje conhecida como Lombardia), Rugios, Vândalos.
b) Tribos germânicas ocidentais, cujos territórios estavam localizados aproximadamente onde hoje estão a Dinamarca, Alemanha, Holanda, Bélgica, Luxemburgo, Áustria e parte da Suíça: Alamanos, Anglos, Catos, Chaucos, Cimbros, Francos, Frísios, Jutos, Lombardos, Marcomanos, Quados, Sicambros, Saxões, Suevos, Teutões e Turíngios, além de muitas outras.
Das três federações de tribos germânicas ocidentais que se afirma terem surgido a partir do século III, Saxões, Francos e Alamanos (este último, que alguns autores nominam como grupo dos Suevos, congregava estas duas tribos e também a dos Bávaros e outras), nos interessam diretamente as duas primeiras, Saxões e Francos, que existiram nas regiões de onde vieram nossos antepassados. Irão merecer atenção individual as tribos germânicas que viviam a oeste do rio Reno as quais, provavelmente por terem passado a integrar o Império Romano desde meados do século I a.C., nunca chegaram a formar alguma grande e duradoura federação de tribos locais.
Saxões
Compunham a federação dos Saxões as seguintes tribos: Saxões (Saxons germanic tribe), Longobardos (Lombards, ou Langobards germanic tribe), Frísios (Frisii), Anglos (Angles), Verinos (Warini) e Turíngios. Com relação à tribo dos Saxões, uma fonte informa que estes já eram uma federação formada anteriormente com os Chaucos. Parece ter sido uma aglutinação gradual e sucessiva de tribos em grupos cada vez maiores, possivelmente baseada em laços de parentesco, fossem eles míticos ou reais (evidenciados, por exemplo, por um dialeto germânico comum ou similar) e contiguidade territorial.
Notas:
O território da federação dos Saxões ia, no litoral do Mar do Norte, da margem leste do rio Reno até ambas as margens do rio Elba, incluindo o sul da península dinamarquesa; a divisa oeste, no Reno, ia para o sul até incluir pelo menos parte do território do atual estado federal alemão da Renânia do Norte-Vestfália; quanto à divisa leste, ia para o sul até o atual estado da Turíngia, ou parte deste; corresponde hoje, aproximadamente, aos territórios dos estados federais da Renânia do Norte-Vestfália, Baixa-Saxônia, Bremen, Hamburgo e Schleswig-Holstein; não incluía a região do atual estado federal da Saxônia, localizado no sudeste da Alemanha. Há informações de movimentos das diferentes populações tribais saxônicas dentro do território da federação; por exemplo, quando muitos habitantes partiram para a invasão anglo-saxã da Inglaterra, no século V d.C., populações do território frísio teriam se deslocado para áreas costeiras a leste da sua, despovoadas pela emigração dos nativos, chegando no século VI até a desembocadura do rio Wesser e no século VII até Dorestad; os Chaucos teriam no século I expandido o seu território invadindo o dos Ampsivários. Há também informações sobre mudanças nas federações tribais; é mais uma vez exemplo o caso dos Frísios, aqui dados como membros da federação dos Saxões, mas que aparecem igualmente como membros da federação dos Francos (ressalvando-se que, neste caso específico, parece existir algum equívoco da fonte, pois consta que esse território foi incorporado ao Império Franco somente em 734, séculos depois da formação da federação destes).
De tudo isto, no que respeita à identificação da tribo específica da qual descendem os nossos antepassados vestfalianos, nenhuma resposta segura é encontrada. Algumas informações a mais foram examinadas.
As localidades de onde vieram esses antepassados imigrantes da Vestfália são, entre outras, Ahaus (os Söthe), Wüllen (os Locks), Borghorst (os Hülse) e Schoeppingen (os Wigger), todas próximas da fronteira da Alemanha com a Holanda, junto à margem leste do rio Ems, no noroeste da região onde está a cidade de Münster, a qual por sua vez está localizada no norte do que é hoje o estado alemão da Renânia do Norte-Vestfália. O idioma dos imigrantes era um dialeto chamado plattdeutsch, ou baixo-alemão, que era falado, com algumas variações, numa região do norte da Europa que ia do leste da Holanda à parte sul da península dinamarquesa e, na direção sul, até aproximadamente a altura das cidades de Münster, Hannover, Magdenburg e Brandenburg. Essa área coincide com aquela que foi acima descrita como território da federação tribal dos Saxões. Assim, tanto o idioma quanto a geografia nos dizem com alguma certeza que somos descendentes destes. Resta saber de qual das tribos.
Low Saxon language area
(Baixo-alemão, Niederdeutsch, Plattdeutsch ou Plattdüütsch, Nedersaksisch)
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Low_Saxon_language_area.png
O território dos Frísios na época romana ia do rio Reno até o rio Ems, fazendo divisa com os Chaucos. Nos tempos modernos, a maior parte desse território frísio está dentro da Holanda; mas, uma faixa de terras frísias a leste do rio Ems faz parte do atual território da Alemanha; é precisamente dessa faixa que vieram nossos antepassados. Assim, podemos descender ou dos Frísios ou dos Chaucos.
Ao sul do território dos Frísios, sem que se disponha de quaisquer coordenadas para localização da área dos seus territórios, viviam os Ampsivários (Ampsivarii tribe); a leste destes os Chasuários (Casuari); ao sul destes últimos estavam o território dos Angrivários (Angrivarii), o dos Chamavos (Chamavi) e, em seguida, o dos Brúcteros (Bructeri). Não foram encontradas nesta breve pesquisa informações de que alguma destas tribos tenha sido membro do grupo tribal dos Saxões.
Algumas evidências arqueológicas encontradas em Münster, na mesma região de onde vieram os nossos antepassados, indicam que ali existiu no século V d.C. uma aldeia cujos restos revelam ser de uma população de Saxões (fonte Wikipédia, palavras-chave: history german city münster); foram também encontradas em registros francos referências de que o nome Vestfália significava "região dos saxões do oeste". Fica-se por saber se com a palavra "saxões" se referiam aos originais, aqueles do sul da península dinamarquesa, ou ao grupo tribal dos Saxões; provavelmente era a este último.
Os Francos, aliás, sob o imperador Carlos Magno, travaram uma longa guerra contra os Saxões, de 772 a 804; não foi uma guerra envolvendo mudança da população mas sim visando conquistar o domínio de mais territórios e povos para a construção de um império. A Vestfália foi por eles conquistada no período de 774 a 775. Afirma-se que "dois anos depois de Verden (uma das batalhas contra os saxões, em 787), Carlos Magno estava sempre em cima da sela, coordenando ações que eram praticamente varreduras executadas por suas divisões em toda a Vestfália e no restante da Saxônia".
A conclusão que se extrai do último parágrafo acima é de que no século VIII já não existem referências às tribos originais que formaram a federação dos Saxões; eles já haviam se tornado um só povo, o dos Saxões. Este é o povo dos nossos antepassados oriundos da Vestfália.
Finalizando este capítulo, merece ser mencionado um dos eventos históricos mais conhecidos relacionados aos Saxões, que ocorreu no século V d.C.: a invasão da Britânia pelos Anglo-Saxões. Participaram também outros povos da região, entre eles os Jutos (Jutes germanic tribe). Este foi um caso de emigração em grande escala, parte de um movimento muito mais amplo de povos germânicos para dentro de territórios do já agonizante Império Romano. Um dos efeitos duradouros deste evento é o fato cultural de ter o idioma inglês muitas evidências de parentesco com o plattdeutsch, o dialeto germânico falado por nossos antepassados. Diferentemente do que ocorreu com outras tribos germânicas, em especial as orientais, em que populações inteiras abandonaram seu território, no caso dos Saxões apenas uma parte da população emigrou para o que é hoje a Inglaterra.
Acerca de outras tribos aqui mencionadas em relação com os Saxões, pouco se sabe. Há algumas evidências de que os Ampsivários, que viviam entre os rios Wesser e Ems, se deslocaram rumo ao oeste em alguma época não conhecida, vindo a compor a federação tribal dos Francos; o mesmo se pode dizer acerca dos Chasuários, Chamavos e Brúcteros.
Nota:
Francos
Esta federação tribal germânica nos interessa por dela fazerem parte, desde o início, tribos das quais provavelmente se originam os nossos antepassados da Renânia.
A origem dos Francos é bastante obscura. A primeira notícia a respeito deles data de 240 d.C. quando Aureliano, ainda um tribuno (mais tarde tornou-se imperador de Roma), informa ter expulsado da região de Mayense um grupo de saqueadores francos.
De acordo com outra fonte eles aparecem pela primeira vez na história romana por volta de 250 d.C., quando um grupo teria penetrado até Tarragona, na atual Espanha, atormentando a região por cerca de uma década até ser subjugado e expulso.
Walter Copland Perry em seu livro The Franks, from their first appearance in history to the death of King Pepin, informa que a palavra "Francia" aparece pela primeira vez em um mapa romano do século V, "Charta Peutingeria", no lado leste do rio Reno, frente a Coblenz (Koblenz, Coblença).
Nota:
Alguns autores franceses afirmam que os Francos descendiam de gauleses; um indica que eles descendiam da tribo dos Volci Tectosages que, conforme Julio Cesar, viviam na Germânia, próximo da floresta Hercínia (Hercynian forest); essa teoria gaulesa, possivelmente de motivação nacionalista, é negada pela maioria dos historiadores que tratam do assunto.
Gregório de Tours, (c.538 a 594), um bispo católico e historiador, afirmou que os Francos viviam originalmente na Panônia, região junto ao rio Danúbio, hoje a parte ocidental da Hungria e oriental da Áustria, e que teriam mais tarde se estabelecido junto ao rio Reno, no nordeste da Holanda. Ainda conforme Gregório, as seguintes tribos compunham a federação dos Francos: Brúcteros (ou Boruktuarier, Boruakter, Borcht, Boructuarii), Chamavos (Chamavi), Ampsivários (ou Ampsivarii) e Catos; ele informa também que a língua falada nestas tribos era a mesma dos Francos.
Nota:
A mais antiga descrição que se tem acerca do território dos Francos é um documento romano, Panegyrici Latini (Panegíricos Latinos), do início do século IV d.C.; tal território corresponderia então à área situada no norte a leste do rio Reno, com limites que formavam aproximadamente um triângulo entre as atuais cidades de Utrech, Bielefeld e Bonn. A fonte acrescenta que neste território se localizavam as terras da federação de povos francos dos Sálios, Sicambros (Sicambri), Tencteros (Tencteri), Usipetos (Usipetes), Vindelices (Vindelici), Brúcteros, Ampsivários, Camavos e Catos.
Estudiosos contemporâneos sugerem que o povo Franco emergiu da unificação de vários grupos tribais germânicos menores, os Usipetos, Tencteros, Sicambros e Brúcteros, que habitavam o vale do Reno imediatamente ao leste; o nome, Francos, que significa "livres", aplicar-se-ia à federação tribal, não existindo nesta uma tribo específica com tal nome. Seja qual for a origem correta, parece certo que tribos germânicas que viviam na margem leste/norte do Reno ingressaram nessa federação.
Noutros documentos vê-se que são distinguidos no grupo Franco, o dos sálios e o dos ripuários; algumas fontes distinguem ainda um terceiro grupo, o dos francos camavos; trata-se de distinções primitivas dessa federação, de quando existiam diferentes estatutos entre esses membros (no início eles não formavam uma só nação, a dos Francos; Sálios e Ripuários não cooperavam necessariamente uns com outros); estas distinções desapareceram posteriormente. Os Francos Sálios teriam habitado desde meados do século III d.C. na região da Foz do Reno, num território correspondente ao nordeste da atual Holanda e noroeste da Alemanha; os Francos Ripuários (que significa "do rio") viviam ao sul destes, na margem leste do Reno.
Em 355–358, Juliano, então no cargo de césar do Império do Ocidente e futuro imperador conhecido como Juliano o Apostata, concedeu uma parte considerável da Gália Belga aos francos; esse território correspondente aproximadamente a Flandres e Holanda atuais, que permanece como de fala germânica até hoje. Dessa época em diante os Francos se tornaram foederati do Império Romano e o ajudaram a proteger as fronteiras como aliados; mas à medida que o Roma definhava conquistaram a maior parte da Gália e deram início à formação do seu próprio império.
Nota:
No final do século V o rei Clóvis converteu-se ao cristianismo, seguido pelo resto dos francos. Isto os tornou mais aceitáveis para os povos já cristãos da região, facilitando a incorporação dos seus territórios no reino franco. Não criaram entretanto um ambiente de estabilidade; foi uma época de violência, aumento do desrespeito à lei, fragmentação da sociedade, surgimento de vilas auto-suficientes (o comércio reduziu-se drasticamente, pois todos os caminhos haviam se tornado inseguros; este estado de coisas, caos e anarquia, esteve presente em toda a Europa Ocidental naquele período); o conhecimento da leitura e escrita praticamente desapareceu fora das igrejas e mosteiros. A adoção, pelos chefes Francos, da prática germânica de dividir a herança entre os filhos, levou a freqüentes processos de divisão, reunificação e re-divisão de territórios que não raro resultavam em assassinatos e guerra entre as famílias líderes, prejudicando a população. Por outro lado, deve-se aos Francos a gradual reorganização da sociedade, com o ressurgimento de instituições características de um Estado, com autoridades, leis e ordem; eles iniciaram a saída da Era das Trevas.
A área franca seguiu sendo expandida para o sul e também para áreas a leste do rio Reno, como a Alamânia, hoje sudoeste da Alemanha, e Turíngia. A Saxônia, no entanto, permaneceu fora do reino franco até ser conquistada por Carlos Magno séculos mais tarde.
Pelo fato de a persistente resistência dos Saxões à dominação estar atrapalhando Carlos Magno em seu grande projeto de reconstituição do Império Romano ou, Sacro Império Romano-Germânico, a guerra franco-saxã foi se tornando cada vez mais feroz. Em 782, "durante um dia longo e infame (cuja data exata é desconhecida), o franco de grande estatura observou enquanto seus homens massacravam 4.500 saxões prisioneiros de guerra ...". Foi adotada a prática de deportações em massa, de milhares de famílias saxãs, para outras regiões do território franco. Foi adotada a prática de obrigar os saxões a converterem-se ao cristianismo, sob pena de morte; aos que se converteram, foram instituídas punições, que iam de pesadas multas à morte, caso voltassem a praticar qualquer ritual pagão.
O território saxão foi dividido e entregue como prêmio aos comandantes francos que mais se haviam destacado nessa guerra; este é o sistema que se expandiu e se tornou conhecido como feudalismo; a propriedade da terra já não pertencia a tribos, clãs, famílias ou indivíduos; dividida em condados, ducados e marcas, pertenciam a um duque, conde ou marquês; os nossos antepassados camponeses se transformaram em servos; os que residiam em vilas tornaram-se vilões; os que se dedicavam à confecção de produtos, artesões.
Não obstante os aspectos terríveis do seu governo, Carlos Magno construiu um gigantesco império e deixou um legado que também teve efeitos positivos muito importantes na história européia. Seu maior legado foi talvez o de dar início à instalação de escolas, as quais haviam desaparecido junto com as demais instituições do Império Romano quando este faliu; a sua iniciativa de espalhar mosteiros por todo o reino, embora visasse primariamente assegurar ao cristianismo o monopólio religioso, teve o efeito de disseminar núcleos de detentores de conhecimentos, que eram por sua vez irradiados localmente; a instituição do sistema feudal, ainda que possa parecer repulsivo nos dias atuais, criou um ambiente mais estável e seguro para as populações do que aquele do período de anarquia; um segundo efeito do feudalismo foi o de enfraquecer o poder dos reis, tornando difícil a existência de tiranias; por sua vez, a política de associação entre o Estado e a Igreja criava os riscos de um sistema totalitário, mas em geral não foi isto o que ocorreu: na prática, estas duas instituições eram concorrentes numa luta pelo poder e, com isto, acabavam limitando uma à outra quanto a abusos desse poder.
Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Frankish_Empire_481_to_814-es.svg
Notas:
Finalizando este capítulo, vejamos a questão do possível parentesco de antepassados nossos com os Francos. Como vimos mais acima, a tribo dos Catos parece ter integrado essa federação desde algum momento muito próximo ao da sua formação. Como veremos mais adiante, os Catos são, possivelmente, os antepassados tribais mais antigos conhecidos dos nossos familiares que emigraram da Renânia para o Brasil. Pode-se concluir assim que é muito provável que tenhamos um vínculo parental com os Francos; talvez mais correto seria dizer simplesmente que, junto com outras tribos da região, estes nossos antepassados longínquos da Renânia são os Francos, aqueles chamados Francos Ripuários. Um elemento adicional a favor disto é o fato de o idioma destes antepassados ser um dialeto francônio, ou seja, da língua usada pelos Francos na época em que estes surgiram na História; o mapa abaixo mostra isto. Como já vimos no caso dos Saxões, a identidade linguística entre diferentes tribos ou grupos tribais geralmente implicava em uma origem comum, em vínculos parentais entre estes.
Franconian languages:
Franconian is a term collectively referring to a number of languages and dialects possibly derived from the languages and dialects originally spoken by the Franks. Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Franconian_languages
Map showing the areas in Europe where the Franconian languages and dialects are currently spoken. Legend:
Tribos germânicas a oeste do rio Reno
Vários dos nossos antepassados imigrantes são originários de localidades da Renânia-Palatinado, um dos estados da Alemanha atual, situado a oeste do rio Reno: Reil, Mosela (Nicolau Arns; deste, com a ressalva de que o seu antepassado mais antigo conhecido veio da Vestfália, no século XVII); Enkirch (Anna Margaretha Junkes); Löffelscheid (Margaretha Meurer); Hermeskeil (Mathias Michels); Oberdiebach (Helena Catharina Schneider).
Essa região faz parte de outra maior, conquistada por Julio Cesar em meados do século I a.C. e incorporada ao Império Romano com o nome de Gália Belga; o território desta abrangia então o sul da atual Holanda, a Bélgica, Luxemburgo, nordeste da França, oeste da Alemanha (as áreas a oeste do rio Reno) e oeste da Suíça. Numa reestruturação administrativa no século I d.C. a região foi dividida, passando a parte norte a chamar-se Germânia Inferior e a outra Germânia Superior.
A sua população de celtas e germanos estava dividida em um grande número de tribos, sendo desencontradas as informações acerca de quais delas eram desta ou daquela etnia. A César interlocutores locais informaram que os povos que viviam ao longo da margem ocidental do rio Reno eram de origem germânica. Tácito limitou essa generalização e chegou a fazer graça a respeito: "Os Tréviros e Nérvios pretendem descender dos germânicos, como se por essa honrosa descendência não se semelhassem em frouxidão aos gauleses". Ainda nos dias atuais as informações acerca das etnias existentes nessa região na antiguidade são contraditórias; uma das causas disto é o fato de que são precários os registros acerca de mudanças populacionais ali ocorridas durante a Era das Trevas; uma outra causa provável decorre talvez de interesses nacionalistas: as regiões da atual Alemanha a oeste do rio Reno têm sido objeto de disputa entre alemães e franceses durante séculos, ficando ora sob domínio de um e ora de outro; isto poderia ser motivo para franceses verem historicamente sua população como majoritariamente gaulesa - e os alemães, como germânica. De que esta última estava presente em número significativo não há dúvidas; os próprios conquistadores romanos confirmaram isto ao denominarem oficialmente a região como "Germânia". Uma fonte afirma que algumas tribos da região eram de origem celta, mas que haviam se "germanizado", adotando usos, costumes e idioma dessa etnia; e que, por outro lado, também os germanos da região, que ali já estavam havia longo tempo, teriam assimilado parte dos costumes celtas. Resumindo, a população original da província constituía-se de uma mistura de tribos celtas e germânicas, frequentemente chamados de belgae, que estavam na época em um processo de integração cultural.
Notas:
Tribos, entre outras, do norte para o sul, que viviam junto à margem oeste do rio Reno, ou que por ali passaram (esta lista não contempla portanto outras tribos cuja etnia era possivelmente germânica, mas que viviam em territórios afastados da margem oeste do Reno):
O principal ponto de referência geográfica a partir dos tempos romanos é a cidade de Augusta Trevorum, fundada pelos romanos, posteriormente chamada Treves, ou Tréveris, e nos dias de hoje Trier, que foi por séculos sede de imperadores ou césares romanos, entre eles Constantino, o Grande. Seu território estava localizado ao sul da floresta das Ardenas (Ardennes Forest), indo desde o atual Luxemburgo até o rio Reno, incluindo o vale do rio Mosela (Moselle); não há informações claras acerca da altura em que, de norte a sul, começava e terminava o território dos Tréviros na margem do rio Reno.
Depois da conquista romana o latim tornou-se o idioma utilizado na região, nas atividades de governo e administração. Significa dizer que o seu uso era limitado, não alcançando todos os habitantes.
Com relação à população que vivia naquela parte do território dos Tréviros situada entre Trier e a margem do Reno, e que é o lugar onde viveram os nossos antepassados renanos, as informações também não são claras.
Uma fonte informa que no período de 250 a 150 a.C. a região entre os rios Reno e Mosa (ou Meuse) passou por uma reestruturação drástica da população. Devido a alguma crise de causas desconhecidas, os sinais de habitação se limitaram às alturas do Hunsrück, e que só depois que as terras baixas passaram a ser novamente ocupadas com assentamentos rurais se pode falar da existência dos Tréviros.
Noutra fonte está a informação de que as tribos Vangiones e Nemetes foram autorizados a ocupar a região a leste de Trier, ao longo do Reno, na época da conquista romana.
No século I d.C., com a reorganização administrativa que dividiu a Gália Belga em Germânia Inferior e Superior, foi retirada dos Tréviros a autoridade sobre o vale do rio Reno, mas não está claro em que extensão a leste; por exemplo, não se sabe quanto do vale do rio Mosela ficou ou não dentro do território deles.
Em 275 d.C. o território foi devastado por invasores alamanos em tal escala que as áreas agrícolas teriam ficado desertas.
No século V, então com 70.000 habitantes, Tréveris foi destruída pelos Vândalos e outras tribos germânicas orientais; nunca recuperou a antiga importância (no século XVII tinha apenas 3.600 habitantes). A região inteira foi devastada pelos invasores. Não há informações sobre o destino da população local (pode-se supor que uma parte sobreviveu e se recompôs, mas possivelmente também com a presença de alguns invasores que se estabeleceram na região; há pelo menos um caso registrado a respeito, de Sármatas, que será comentado mais adiante).
Mapa da fronteira renana do império romano em 70 d.C.:
Fonte: http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://www.ancient.eu.com/uploads/images/549.png&imgrefurl=http://www.ancient.eu.com/image/549/&h=1605&w=2000&sz=1432&tbnid=ja47xOkMdmAoBM:&tbnh=96&tbnw=120&zoom=1&usg=__eF39dWwBngMTWkBuMhWc7tAxGTg=&docid=rNQ-8kx4U_-MoM&sa=X&ei=hySXUvv-EM3rkAez5YDwAw&ved=0CE8Q9QEwAw
Chama a atenção, no mapa acima, aparecerem os Vangiones e Nemetes no lado leste do Reno, o que está em desacordo com outras fontes, mas parece concordar com uma informação de Julio Cesar a respeito; questão por esclarecer.
Mapa de tribos a oeste do rio Reno
Fonte: http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/9/9a/BelgicaI_GermaniaI.jpg/300px-BelgicaI_GermaniaI.jpg&imgrefurl=http://en.wikipedia.org/wiki/Nemetes&h=360&w=300&sz=49&tbnid=0zE2MkGD-PxdfM:&tbnh=90&tbnw=75&zoom=1&usg=__pjF1BbhnEIQuG4V0jXbfEFxqtGA=&docid=9C-jJjkhSnAlWM&sa=X&ei=SCWXUuWyK8bokQekm4CwDQ&ved=0CEUQ9QEwAw
Notas:
A questão que nos resta é: De qual destas tribos se originaram os nossos antepassados da Renânia? Nenhuma resposta taxativa é possível. Podemos apenas formular hipóteses.
A primeira delas seria simplesmente aceitar a declaração dos Tréviros aos romanos, de que descendiam de povos germânicos; implicaria em que uma parte da população passara a adotar idioma e religião celtas, enquanto a parte junto ao Reno seguia praticando costumes germanos. Os Tréviros seriam portanto a tribo dos nossos antepassados. Entretanto, pelo que se sabe de organizações tribais, parece bem pouco provável o surgimento de uma divisão cultural em aspectos tão cruciais como o idioma e a religião. Mais provável seria uma hipótese de que, até a chegada de Júlio Cesar, todo o território dos Tréviros era ocupado por estes e que só depois teriam abandonado as margens do Reno, como o fizerem outros celtas, dando espaço à ocupação do local por população germânica.
Um outro ponto de partida é examinar o idioma do povo dessa região, o dialeto Hunsrückisch, uma das variações locais de um dialeto francônio. O mapa abaixo mostra aproximadamente as regiões em que estes eram falados.
Rhine Franconian dialects.
Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Rhine_Franconian_dialects
Area where Rhine Franconian is spoken: 1 Hessian, 2 Palatinate German, 3 Lorraine Franconian
Sem entrar na questão das origens remotas desses dialetos, o que se nota é que eles se diferenciam de acordo com fronteiras, sendo, de norte para o sul, a primeira o rio Reno e a segunda o território francês. Pode-se supor com bons argumentos que a fonte original situa-se na região centro-oeste da Alemanha, ou seja, no norte do mapa linguístico acima. A formação de dialetos tende a ocorrer quando uma parte de uma população com um mesmo idioma fica, por qualquer motivo, isolada do grupo original por um tempo relativamente longo. Se isto estiver correto, a implicação é de que a origem da população da Renânia que fala o Hunsrückisch é alguma das tribos germânicas situadas imediatamente do lado leste do Reno, ou seja, não seriam germanos invasores oriundos de alguma região distante dali; o isolamento em relação à população original seria causada pelo próprio Reno e, principalmente, pelo fato de a população a oeste deste ter ingressado no Império Romano. Nesta condição podem ser listadas várias tribos, e excluídas outras.
Os Mattiaci, possivelmente ligados à tribo dos Catos, são os candidatos mais óbvios. Isto seria coerente com a aparente afirmação de Tácito, feita no século I d.C., de que eles habitavam as duas margens do Reno; explicaria ao mesmo tempo o comentário, do mesmo Tácito, de que os Mattiaci assemelhavam-se as Batavos, também ligados aos Catos e que tinham emigrado para a foz do Reno depois de um conflito intra-tribal.
Notas:
Finalmente, numa outra hipótese, os candidatos seguintes a antepassados nossos seriam os Vangiões e os Nemetes. O primeiro motivo para isto é, mais uma vez, o idioma: lembremos que a origem dessas duas tribos é desconhecida; mas, note-se no mapa lingüístico acima, que Speyer, a capital dos Nemetes, está dentro do território dos dialetos reno-fancônios; portanto os Vangiões, que ficavam ao norte dos Nemetes, também estão nesse território; se o idioma deles era da mesma família dos seus vizinhos a nordeste, no outro lado do Reno, pode-se presumir que se originaram daquela região. O outro motivo seria a informação de uma das fontes de que o território dos Tréviros à margem do Reno, a região de onde vieram nossos antepassados, teriam sido dadas por Júlio Cesar aos Vangiões e Nemetes. Resumindo, é a hipótese de que os nossos antepassados descendem dos Mattiaci e/ou, talvez, também dos Vangiões e Nemetes; todos eles linguisticamente ligados aos Catos; enfim, é a hipótese de que descendemos da tribo dos Catos.
Com relação às demais tribos que estiveram na região da Renânia --- Alamanos, Borgúndios, Vândalos, Alanos --- elas não se assentaram no vale do Mosela ou no Hunsrück; ou, se alguns dos seus membros o fizeram, constituíram minorias locais cujas etnias próprias acabaram desaparecendo, miscigenados na população nativa; seus idiomas ou dialetos eram diferentes e não prevaleceram. Quando muito, podemos ser portadores de alguns de seus genes.
De alguma forma, estes nossos antepassados da Renânia sobreviveram desde os tempos históricos, aqueles de Julio Cesar, a todas as invasões que por lá passaram e a muitas outras agruras, com uma população pelo menos em número suficiente para manter viva e predominante a sua comunidade e cultura. Assim, também, os Vestfalianos. Nós somos o seu principal legado, dois milênios, cerca de 80 gerações, depois.
Notas:
Alguns elementos da cultura dos germanos
Os povos da Germânia eram, no tempo de Julio Cesar, culturalmente bastante atrasados em relação aos povos do sul do continente europeu. O eram mesmo em relação aos povos celtas, do oeste. Por exemplo, os Tréviros da Renânia já tinham nessa época instituições típicas de Nação ou Estado, com governo e leis; cunhavam a própria moeda; comerciavam há muito com os Etruscos e os Gregos; exploravam e comercializavam os ricos depósitos de ferro existentes no seu território; é-lhes creditada uma importante invenção, o "vallus", uma máquina puxada por cavalos ou mulas para colher trigo.
Nota:
O principal motivo do atraso cultural dos germanos é, possivelmente, de origem geográfica. Estavam relativamente isolados no norte da Europa, ao contrário dos povos mais a oeste como os da Gália e da Península Ibérica, que tinham uma longa história de contatos com os povos que navegavam no Mediterrâneo - egípcios, fenícios, gregos, cartagineses, etruscos, romanos e outros, cujas influências culturais penetravam gradualmente em direção ao interior dessas regiões. Assim, tinham os germanos características culturais próprias, algumas típicas de povos que estão no estágio de organização tribal, outras que são peculiares à etnia, das quais são apresentadas algumas:
Escrita: Tinham um alfabeto, as runas, de origem celta, mas o seu uso parece ter sido limitado a fins mágico-religiosos. De um modo geral, pode-se dizer que os germanos eram, nos tempos de Julio Cesar, ágrafos, ou seja, não tinham escolas e não deixaram registros escritos sobre quaisquer aspectos de sua história; estavam, portanto, em um mundo ainda pré-histórico. Em um período posterior, adotaram o alfabeto latino, ornamentado na moda gótica.
Tecnologias: Dominavam técnicas metalúrgicas, confeccionando objetos de ferro e jóias ou enfeites de prata, cobre e calamina (zinco), com aplicações de cristais, onixes, turquesas, opalas, e até mesmo diamantes. Destacavam-se pelas suas olarias e também pelos seus trabalhos como carpinteiros, pedreiros e ferreiros; as mulheres, na fiação e tecelagem.
Agricultura: Criavam cavalos, gado, ovinos e caprinos; leite, queijo e carne eram os principais componentes de sua alimentação; no litoral do Mar do Norte, dedicavam-se à pesca; nas regiões do interior a caça também era fonte importante de alimento. Cultivavam trigo, cevada, centeio, aveia, linhaça, nabos, rabanetes, aspargos, feijão, legumes etc. (noutras fontes, Julio Cesar inclusive, informa-se que pouca coisa cultivavam, mas existem evidências de que isto, quando muito, se aplica somente a uma ou outra tribo); fabricavam uma bebida (cerveja) a partir de trigo e cevada; na Renânia, aprenderam com os romanos a cultivar uvas e produzir vinhos.
Julio Cesar informa que os homens adultos da Germânia eram pouco dados aos serviços agrícolas; Tácito dá idêntica informação: que o trabalho agrícola era função das mulheres, jovens e velhos. Essa generalização parece surpreendente, tendo em vista vários fatores; entre outros: (1) poucos viviam o suficiente para se tornar "velhos" naqueles tempos; (2) por não existirem pastagens naturais na Germânia, estas também dependiam de cultivo anual, inclusive o suficiente para formar estoques de forragem para alimentar os animais domésticos na época do inverno, o que exigia bastante trabalho; (3) os germanos não estavam "sempre" em guerra, sendo difícil acreditar que todos os homens adultos ficassem simplesmente ociosos nos tempos de paz; (4) embora existissem escravos (prisioneiros de guerra; pessoas que haviam apostado e perdido tudo em algum jogo de dados), não consta que fossem em grande número, como ocorria entre os romanos.
Notas:
Comércio: Não era um ponto forte dos germanos, embora existam muitas evidências arqueológicas de que faziam trocas comerciais com outros povos desde sempre. À medida que entraram em contato com os romanos houve um incremento nessa atividade; passaram a exportar para estes peles, carnes (presuntos, carne salgada defumada), sal (provavelmente das minas deste, abundantes em algumas regiões da Alemanha), âmbar, cabelos vermelhos (estes últimos, para a fabricação de perucas dessa cor, que se tornaram moda entre as mulheres romanas da época), penas de ganso (usadas para fazer travesseiros e cobertores) e hidromel (um autor, Paul Herrmann, afirma que o imperador Nero era grande apreciador dessa bebida). Com o dinheiro obtido nas exportações, os germanos importavam por sua vez, dos romanos, os produtos que eram objeto de seus desejos. Essa intensificação do comércio foi um dos meios pelos quais gradualmente ingressou na Germânia aquilo a que chamamos de civilização, a saída da barbárie.
Notas:
Direito de propriedade: O solo era propriedade da tribo. As terras para cultivo eram sorteadas equitativamente a cada ano entre as famílias; Júlio Cesar dá, acerca dessa prática, a seguinte explicação: "Muitas são as razões que dão desta usança, tais como: — para não trocarem, demovidos pelo hábito, o ardor guerreiro pela agricultura, não procurarem alargar cada um o seu campo, o mais poderoso a custo do mais fraco, não se ocuparem em construções próprias a guardá-los do frio e da calma, não fazerem nascer entre eles a ambição de dinheiro, donde procedem as facções e as discórdias, e conterem a plebe por um princípio de equidade, vendo cada um que iguala em riqueza ao mais poderoso". Não tendo a propriedade da terra, a casa, a moradia, era, entretanto, propriedade da família, sagrada.
Notas:
Instituição familiar: Era patriarcal, sendo o homem mais velho, ou então o melhor guerreiro, o cabeça da família; depois, vinham os clãs, compostos pela reunião de famílias aparentadas, com ascendentes comuns; finalmente, vinham as tribos, formadas pelo agrupamento de vários clãs. Eram monogâmicos. As mulheres não exerciam poder político, mas eram muito respeitadas; os alemães antigos as reverenciavam, acreditando que elas possuíam um certo poder divino e profético; elas não só tratavam dos assuntos domésticos, mas também acompanhavam muitas vezes os exércitos em suas expedições militares, cuidando dos feridos, aplaudindo os atos de bravura, e às vezes até mesmo tomando parte ativa nas batalhas.
Notas:
Instituições de governo: Os povos germânicos não estavam organizados socialmente em Estados, mas em comunidades tribais, cada uma com seu território próprio. Elegiam um rei (os Saxões não tinham reis; adotaram tal prática mais tarde; existiam também outras diferenças entre as tribos quanto a detalhes da forma de governo). A autoridade formal estava geralmente nas mãos de uma assembléia de homens livres, que deliberava sobre questões relativas a direitos individuais, declarações de guerra ou de paz, etc.; tinha poderes inclusive para destituir o rei. Em tempos de guerra, era eleito um general que detinha poder total.
Não possuíam, antes das grandes emigrações, normas jurídicas escritas; baseavam-se em normas, tradições, usos e costumes transmitidos oralmente de uma geração para outra; entretanto, e de forma notável, após o período de emigração deram origem, a partir do direito romano, a um sistema que é hoje o mais disseminado no mundo; o sistema romano-germânico é, talvez, em termos culturais, o maior legado que os germanos deixaram à posteridade.
Nota:
Outros costumes:
Os germanos tinham tradição de ser muito hospitaleiros com estranhos.
Apreciavam particularmente as refeições sociais; eram, entretanto, dados a beber em excesso, principalmente cerveja, raramente vinho; isto não raro fazia com que suas confraternizações terminassem em brigas e até assassinatos; talvez por esse risco, era costume as mulheres se retirarem mais cedo desses eventos festivos.
Quando reunidos, gostavam de cantar; faziam isto em suas festas, casamentos, funerais e também antes de ir para uma batalha. Esse antiquíssimo costume de cantar em grupo persiste ainda hoje nos encontros sociais e eventos religiosos, em pequenas comunidades de descendentes de alemães no interior do Brasil.
Até os tempos de Tácito, os povos germanos não tinham vilas nem cidades; achavam esse modo de organização anti-higiênico, insalubre. Quando autores como Julio Cesar e Tácito falam em 'cidade' dos germanos, referem-se na realidade aos territórios em que habitavam.
Nota:
Quando a parte ocidental do Império Romano entrou em colapso, dando início à chamada Idade Média, idade das trevas, isto levou a um certo nivelamento da cultura de todos os povos da região. "Nivelamento por baixo". Com a ruína das instituições do Estado Romano, em poucas gerações a quase totalidade da sua população era de analfabetos. Ao mesmo tempo, em sentido oposto, as atrasadas tribos germânicas que haviam se espalhado por quase todo esse território acabaram se elevando culturalmente por adotar parte dos elementos remanescentes da cultura romana, inclusive o idioma local; desapareceu assim, ali, o caráter de etnia germânica; a subseqüente adoção do cristianismo romano e seus valores operou como mais um fator de nivelamento cultural.
Quanto aos povos da própria Germânia que nunca haviam feito parte do Império Romano, eles também foram se convertendo ao cristianismo romano. Este fato, mais as várias influências externas já mencionadas mais acima e, por fim, a gradual unificação das tribos germânicas como um só povo dentro do nascente império dos Francos, fez com que sua cultura se elevasse, nivelando-a gradualmente com a (já rebaixada) cultura dos demais povos do ocidente da Europa. Dali em diante, a história deles é aquela que encontramos nos livros de História.
Nota:
IV - Os italianos
Os imigrantes antepassados de Eulália Nilda Barrichello, mãe de Eliana Barriquello Cassins, vieram todos do Vêneto, região administrativa do nordeste da Itália cuja capital é Veneza; os Barrichello e Zanlorenzi, de Treviso; os Fressato e Bellon, de Pádua.
O território que constitui hoje a Itália já é ocupado pela espécie humana há muitos milhares de anos. Na Idade do Ferro, quando começam também os tempos históricos, viviam ali vários povos de diferentes etnias, alguns deles autóctones e outros, invasores, como os Vênetos, Gauleses, Etruscos, Gregos e Latinos. Um mundo cosmopolita. Aqui iremos tratar do povo Vêneto, os antepassados de Eliana Barriquello Cassins.
A localização do território dos Venetos em relação aos de outras tribos no início da história pode ser vista no mapa abaixo. Esse território passou por mudanças ao longo dos séculos, ora se expandindo ou retraindo. No início dos tempos históricos pode ter abrangido, por exemplo, o território da atual região italiana de Friul-Veneza Júlia (ou Friuli-Venezia Giulia) e do país vizinho, a Eslovênia; no auge da República de Veneza, abrangia grande número de territórios distantes em diferentes áreas do Adriático e Mediterrâneo; esta mesma Veneza, por outro lado, esteve politicamente separada do restante do Veneto em certa época; e o próprio Vêneto esteve em algumas épocas fora do mundo italiano: por exemplo, no século XIX foi por alguns anos parte do Império Austríaco.
Groups within the Italian peninsula in the Iron Age. Veneti are in brown
http://en.wikipedia.org/wiki/Adriatic_Veneti
O povo que ocupava essa região no início da era histórica é precisamente o que lhe dá o nome, a tribo dos Venetos (ou Veneti; em latim, "Heneti"; em grego, "Enetoi"), também designada como Vênetos Adriaticos (Adriatic Veneti).
Notas:
O Vênetos adriáticos parecem ter chegado ali por volta do século 12 a.C. Falavam uma língua indo-européia, da qual pouco se conhece, mas que continha elementos que indicam parentesco com as línguas celtas, latinas e germânicas, além de influências etruscas; uma outra fonte afirma que a língua continha elementos do sânscrito, armênio, hitita, persa, grego, celta, gótico e latim; uma terceira fonte indica a presença de elementos eslavos, não no texto, mas nos nomes de pessoas, em epitáfios ou inscrições votivas, o que tem servido a alguns autores como argumento para classificar os Vênetos da Itália como sendo também eslavos, ou proto-eslavos.
Notas:
Existem várias hipóteses concorrentes acerca da origem remota dos Vênetos, não havendo certeza acerca de nenhuma delas. Eis algumas:
Autóctones. De acordo com esta hipótese esse povo já ocupava a região desde tempos imemoriais. Implica que seriam simplesmente descendentes dos primeiros homo sapiens sapiens que chegaram à Europa. A dificuldade dessa hipótese refere-se ao idioma indo-ariano, que indicaria a presença de um povo invasor. Ademais, contraria essa hipótese o fato mencionado por Lívio (Titus Livius Patavinus, 59 a.C – 17d.C), historiador romano, de que nos tempos míticos essa região era ocupada por uma tribo nativa, a dos Euganei, que teria sido expulsa dali "pelos Venetos e Troianos ...", instalando-se na região do lago Como.
É possível que a verdade abranja as duas coisas: um povo invasor numa área já habitada por um povo autóctone, com subseqüente miscigenação e prevalecendo o idioma do invasor. Existe menção de pelo menos um estudo sobre variedades genéticas humanas na região que indica ser esta uma explicação plausível; mas, com a ressalva de que essa variedade genética pode ser resultado de invasões posteriores da região dos Vênetos por outros povos, que veremos adiante.
Ligação com os Ilírios. As várias tribos desse povo viviam ao longo do lado norte do mar Adriático, a partir da fronteira leste do território dos Vênetos, supondo-se ter com estes uma origem comum. É também uma hipótese plausível, mas faltam elementos para confirmá-la. Sabe-se que os Ilírios tinham origem indo-ariana, e que ocuparam a região mais ou menos na mesma época em que chegaram os Vênetos, mas quase nada se sabe acerca do seu idioma.
Eslavos. Há estudiosos que afirmam ter elementos suficientes para indicar que os Vênetos tinham ligação com os Eslavos; para alguns, seriam proto-eslavos, ou seja, membros do povo do qual se originaram os demais dessa etnia; para outros, seriam simplesmente uma dentre outras tribos eslavas. Aqui, mais uma vez o fator linguístico aparece como fonte de reservas à hipótese, já que não há menção de que o idioma dos Vênetos Adriáticos tivesse componentes do idioma eslavo. Estes mesmos autores que defendem a etnia eslava para os Vênetos também o fazem para os Ilírios, com a mesma fragilidade que decorre da ausência de provas linguísticas. É possível que a tribo chamada Venedos que existia na região do mar Báltico se enquadre como proto-eslava; este assunto não foi aqui pesquisado além daquilo que já foi informado a respeito mais acima, pois é alheio ao nosso tema. Em termos históricos concretos, sabe-se que as atuais populações eslavas da região que foi a Ilíria descendem de invasores que ali se estabeleceram no século V d.C., no mesmo contexto das grandes emigrações que deslocaram outros povos da Europa Oriental quando da invasão dos Hunos.
Troianos. Esta é uma hipótese bastante popular, indicando que os Vênetos se originam de uma região do norte da Anatólia, a Paflagônia, junto ao Mar Negro, onde teriam chegado, por sua vez, vindos de alguma região entre o sul da atual Rússia e o norte do Irã. Teriam sido aliados dos troianos na famosa guerra de Tróia, descrita pelo poeta grego Homero na sua Ilíada. Terminada a guerra e não querendo se submeter aos vencedores, teriam dali emigrado para a região norte da península itálica. Um dos problemas com relação a esta hipótese é o fato de que muitos povos da antiguidade têm esta mesma pretensão, de serem descendentes de troianos; um deles, os fundadores de Roma; há "povos demais para troianos de menos".
Notas:
Por outro lado, a alegação de origem troiana pode não ser incorreta no que diz respeito aos Vênetos e outros povos, mas sim que requer uma explicação diferente, em um contexto maior que o dos acontecimentos descritos na Ilíada, os quais, ainda que uma carnificina de ponta a ponta, seriam apenas uma versão poética, oriunda de tradição oral grega, parcial, mítica, talvez simbólica, metafórica, alegórica, de acontecimentos ainda mais abrangentes, funestos e trágicos.
Comecemos lembrando que existiu uma idade das trevas grega, no período que vai de cerca de 1200 a 800 a.C. Alguma coisa aconteceu, muito grave, de grande impacto, que destruiu nações (Micenas; Império Hitita; possivelmente foi também a verdadeira causa da destruição de Tróia); desencadeou um grande movimento de emigração de povos na região do mar Negro e leste do Mediterrâneo; causou acentuada regressão na cultura grega local e séculos de generalizada pobreza material no seu território. Parece ter sido algo similar ao que aconteceria no final do Império Romano ocidental com o deslocamento de povos germanos ante o aparecimento dos Hunos, mas com a diferença de que, no caso grego, tanto os invasores, se foi esta a causa, quanto os emigrantes, podem ter-se deslocado mais por via marítima do que terrestre; as poucas informações históricas existentes a respeito referem-se a Povos do Mar (Sea Peoples) atacando e invadindo territórios costeiros em quase todo o Mediterrâneo. Não é descabido concluir que os emigrantes que deixaram aquela região tenham sido genericamente rotulados como Troianos, em vários lugares onde se instalaram, o que explicaria as histórias de muitas cidades ou nações que atribuem a estes a sua fundação; entre elas a dos Vênetos.
Notas:
1. Historiadores, Tucídides entre outros, acham exagerada a informação contida na Ilíada, de que os gregos haviam mobilizado nessa guerra aos troianos mais de mil navios. Este número entretanto não seria nada extraordinário se examinado num panorama mais amplo, o da invasão dórica (ver adiante) e emigrações decorrentes. Os povos da região do Mar Negro e Egeu tinham, já na época, uma longa tradição como marinheiros.
2. Um dos possíveis "povos do mar" mais conhecidos no Ocidente são os Filisteus, povo de Dalila, aquela personagem envolvida com Sansão, que consta na Bíblia, Velho Testamento.
Uma das causas apontadas para a idade das trevas grega é uma gigantesca explosão do vulcão Santorini (ou Tira; Thera), seguida de maremotos que varreram muitas regiões do Mediterrâneo, o que teria ocorrido por volta do século 12 ou 13 a.C.; entretanto, em anos recentes cientistas têm encontrado evidências de que esse evento ocorreu bem antes, cerca de 1650 a.C.
Outra causa, possivelmente a correta, é a invasão dos territórios gregos pelos Dóricos, de mesma etnia, por volta de 1200 a.C. (notar que é a mesma época em que os Vênetos e outros povos teriam chegado à região do mar Adriático e outros lugares da península italiana).
Notas:
1. Os chamados "povos do mar" podem nem ter algo a ver com a idade das trevas grega e as possíveis catástrofes que a ocasionaram; ou poderiam ser antes efeito do que causa. Isto no entanto em nada muda o fato de que essa idade das trevas ocorreu, que a causa deve ter sido algo com um poder muito grande de destruição, e que o evento significativo conhecido e com maior potencial destrutivo que coincide com o início da idade das trevas é a invasão dos Dóricos. Um dos principais indicadores dessa invasão está na linguística, com mudanças na língua grega antiga: os povos da região grega deixaram de usar uma escrita, a Linear B, que por sua vez era baseada em uma língua mais antiga, Linear A, de origem cretense e não indo-européia; esta é por sua vez uma evidência de que os Dóricos eram culturalmente mais atrasados, provavelmente ágrafos; na Renascença grega, meados do século VII a.C., quando reaparecem documentos escritos, estes usam o alfabeto inventado pelos fenícios.
2. Uma evidência de que os Dóricos se moviam por via marítima está no fato de que, quando renasce a História grega, várias ilhas do Mediterrâneo, entre elas a de Creta, estavam povoadas por descendentes deles. As evidências de que os retirantes, por sua vez, também se moviam por mar são abundantes; num primeiro momento eles procuraram refugiar-se em ilhas próximas, sendo acolhidos em alguns lugares e não noutros; em diversos casos, desembarcaram à força; por exemplo, evidências arqueológicas na ilha de Chipre indicam que esta foi especialmente afetada por esse movimento, com ondas sucessivas de refugiados e sinais de devastação; nos registros egípcios consta que algumas das investidas de povos do mar no seu território tinham origem nas ilhas mediterrâneas.
3. Algures, nas fontes, consta que uma das hipóteses sobre a causa da catástrofe do século 12 a.C. teria sido uma associação de piratas, não se sabendo bem de onde vieram nem para onde foram; é difícil de aceitar, por várias razões, a principal sendo o fato de que implicaria terem desembarcado e se embrenhado pelo interior do território inimigo, vencendo vários povos famosos como guerreiros, como os Micenicos e os Hititas, por exemplo. Mais crível é que tenham ocorrido atos de pirataria por oportunismo deste tipo de gente; ou que, com ou sem ação destes, os próprios povos que estavam em retirada praticaram atos de pirataria ao longo de sua jornada na busca de um novo lugar para viver; afinal, estavam com suas famílias, precisavam abastecer-se de víveres e água, não tinham bens para oferecer em troca, restando-lhes apenas o recurso de tirá-los à força, atacando navios mercantes e cidades ao longo da costa do mar. Em alguns casos de destruição de nações da região grega isto pode ter sido feito não diretamente pelos invasores Dóricos, mas sim pelos retirantes, numa espécie de efeito-dominó, em busca de um novo território; a destruição do Império Hitita pode ter sido um destes casos.
Concluindo, a hipótese da origem troiana dos Vênetos, feitas as ressalvas acima, parece admissível. Um dos "povos do mar", eles teriam chegado à Itália pelo mar Adriático, da mesma forma como outros, em torno da mesma época e região, inclusive aqueles cujos descendentes viriam ser os fundadores de Roma.
Notas:
1. Antônio D. Lorenzatto, no seu livro "Os Vênetos – Nossos Antepassados", acredita na origem "troiana marítima" desse povo vindo da Paflagônia. Entretanto, ele afirma ter ocorrido também uma invasão anterior do território Vêneto adriático, por via terrestre, na qual Vênetos oriundos da região da Bavária, Alemanha, teriam para ali se deslocado, por volta de 2000 a.C. De acordo com Lorenzatto, os Vênetos da Paflagônia sabiam da existência destes do Adriático, tendo ido abrigar-se junto a estes. Pode ser; isto é compatível com a afirmação de Lívio, mais acima, de que "Vênetos e Troianos" expulsaram os Euganei, habitantes nativos daquele território. É mais uma hipótese a ser considerada.
2. Um fonte afirma que os Vênetos vieram da Paflagônia até o norte da Itália por via terrestre, atravessando os Bálcãs.
3. Entre as bases que dão suporte à origem troiana dos Vênetos, além das já mencionadas, estão: (a) evidências arqueológicas na forma de presença de artefatos similares no Vêneto e na Paflagônia; (b) o fato de vários historiadores da antiguidade (Strabo, Tito Lívio, Heródoto e Políbio) informarem ser esta a origem.
4. O fato de a língua dos Vênetos não ser grega não invalida a hipótese de que estes vieram da Anatólia, pois ali viviam, em maior número, outros povos de origem indo-ariana com idiomas próprios, além dos gregos; o mais conhecido deles foi o dos Hititas; a Paflagônia, aliás, foi parte do império destes durante longo tempo.
5. Os Etruscos, vizinhos dos Vênetos ao sul, parecem ter chegado à região italiana num momento entre 1200 e 700 a.C; uma das suas cidades, Adria, atualmente faz parte da região do Vêneto; também no caso dos Etruscos existem várias hipóteses acerca da origem, sendo uma delas a de que vieram da Ásia Menor (o historiador grego Heródoto parece ter sido o primeiro a defender essa origem). É um dos poucos "Povos do Mar" claramente identificados nos registros egípcios acerca dos ataques ao seu território; estes atacantes vinham do oeste, o que faz supor que os Etruscos, antes de se instalar na Itália, tenham vivido em outro lugar, talvez no norte da África; os registros egípcios também informam que não se tratava de expedições militares ou de pirataria e sim de tentativas de invasão/emigração, pois os atacantes traziam consigo suas famílias. Existem evidências de que os Etruscos e os Vênetos se associavam para empreendimentos comerciais; um destes foi o comércio de âmbar: tinham uma rota comercial que ia da Aquileia, no Vêneto, até o Mar Báltico.
6. Os Messapios, povo cujo território estava situado no sul da península italiana, junto ao mar Adriático, também teriam chegado à região na mesma época que os povos acima; aponta-se possível parentesco deles com os Ilírios. Algumas fontes afirmam que o idioma dos Messapios parece ter alguns elementos em comum com o dos Vênetos.
As invasões bárbaras
Os Vênetos, desde que chegaram ao território italiano, ali permaneceram. Um feito por si só extraordinário e que muito diz sobre a fortaleza do caráter desse povo, tendo em vista as muitas invasões que sofreram. Situada entre os Alpes e o mar Adriático, a sua região era ponto de passagem obrigatória para os povos do centro-norte e oeste europeu que se dirigiam por terra para a região italiana do Império Romano. Alguns dos invasores estiveram na região apenas de passagem mas outros, em especial os ostrogodos e os longobardos, eram emigrantes que ali permaneceram, acabando por miscigenar-se com os habitantes nativos, formando inicialmente uma comunidade multiétnica e multicultural que, com o passar dos séculos, fundiu-se e gerou uma cultura que é própria do norte da Itália, característica, distinta em alguns aspectos daquela do restante do país. Eis algumas destas invasões:
Alamanos, em 268 d.C., espalharam-se por toda a Itália ao norte do rio Pó. Acabaram derrotados pelos romanos e retornaram à Germânia.
Visigodos, em 401 d.C., chefiados por Alarico I, entraram na Itália e invadiram a planície do Pó, mas foram repelidos. Em 408 atacaram pela segunda vez e chegaram às portas de Roma, que foi tomada e saqueada em 410. Os Visigodos mais tarde emigraram para o oeste do Império, estabelecendo um reino numa região que abrangia o leste da atual França, a Espanha e o sul de Portugal.
Hunos, em 452, numa expedição militar sob o comando de Átila, moveram-se em direção à península Itálica, apoderando-se de Aquileia, que foi destruída, e devastando Milão, Feltre, Pádua e Pavia, cujas populações se refugiam nos Apeninos. Uma parte dos moradores do Vêneto, na costa, refugiou-se nas lagunas do mar Adriático.
Notas:
Ostrogodos. Videmiro, seu rei, foi com parte desse povo (emigração) até a Itália, em 473. Ali, o imperador Glicério os convenceu a dirigir-se à Gália, juntando-se com seus parentes visigodos.
Hérulos. Flávio Odoacro (ca. 434 a 493), rei dessa tribo germânica, ao depor o imperador Rômulo Augusto, em 476, pôs fim ao Império Romano do Ocidente e se tornou o primeiro dos reis bárbaros de Roma.
Ostrogodos. Zenão I de Bizâncio, preocupado com os sucessos de Odoacro, estimulou Teodorico, o Grande, rei dos ostrogodos, a invadir a Península Itálica. Teodorico derrotou Odoacro nas margens do Rio Isonzo, em Aquileia (488), Verona (489) e no Rio Adda (490). No final, nenhum dos lados pôde prevalecer de forma conclusiva; em 2 de fevereiro de 493, Teodorico e Odoacro assinaram um acordo que garantiu a supremacia de ambos; um banquete foi organizado para celebrar o tratado e ali Teodorico matou Odoacro com as próprias mãos. O reino ostrogodo da Itália (que abrangeu todo o território desta) durou até 553, quando seu exército foi derrotado na Úmbria pelo de Bizâncio; os sobreviventes se dispersaram (integrando-se à população, portanto) ou foram reduzidos à escravidão; os ostrogodos caíram na obscuridade.
Longobardos (ou Lombardos). Viviam nas margens do rio Elba, onde era vizinhos dos Chaucos. Numa data não conhecida uma parte deste povo emigrou em direção ao sul, instalando-se na Panônia; séculos depois foram atacados ali por um novo povo invasor, os Ávaros, motivo pelo qual em 568 d.C. invadiram a Itália, junto com outras tribos germânicas (bávaros, gépidas, saxões) e búlgaras, totalizando 400 a 500 mil pessoas, sob a liderança de Alboíno; estabeleceram ali um Reino Lombardo, posteriormente chamado de Reino Itálico (Regnum Italicum), que durou até 774, quando foi conquistado pelos Francos.
A primeira cidade importante a ser tomada pelos Longobardos foi Forum Iulii (Cividale del Friuli), no nordeste da Itália; logo também Vicenza, Verona e Bréscia; no verão de 569 conquistaram o principal centro romano do norte da Itália, Mediolano (atual Milão); Pavia caiu após um cerco de três dias, em 572, tornando-se a primeira capital do novo Reino Lombardo. Nos anos seguintes foram rumo ao sul, conquistaram a Toscana e fundaram dois outros ducados, Spoleto e Benevento, que logo se tornaram independentes e duraram mais que o reino do norte, sobrevivendo até o século XII. Sua influência na geografia política italiana fica evidente na denominação regional da Lombardia.
Notas:
1. Toynbee afirma que os invasores lombardos eram mais bárbaros do que os ostrogodos. Informa também que, diferentemente destes últimos, chegaram à Itália gradualmente, não todos de uma só vez; esta afirmação parece contrariar os fatos.
2. Chama a atenção, na lista de povos que compunham a invasão dos Longobardos na Itália, a presença de búlgaros. Acerca da origem longínqua destes, como ocorre com quase todos os povos da época, existem várias hipóteses; qualquer que seja a correta, há o fato de que eles conviveram com os Hunos (o que ocorreu também com os Ostrogodos citados mais acima); com a desintegração da sociedade depois da morte de Átila, em 453, sabe-se que muitos Hunos se fixaram principalmente na Bulgária, integrando-se à população local (sua presença era tão significativa ali que alguns historiadores, ao usarem a classificação "búlgaro", referiam-se, de fato, aos hunos; uma outra evidência dessa presença é a existência de ossadas de indivíduos com o crânio artificialmente alongado). Ante a presença desse povo na invasão longobarda, não será surpresa se algum estudo futuro vier a identificar, em parte da população italiana, a presença de algumas características genéticas mongóis.
Francos. Invadiram o norte de Itália em 594, saqueando o reino dos Lombardos. Carlos Magno conquistou os lombardos em 773 a 774 (conquista militar, de expansão do Império Franco), incluindo o norte da Península Itálica em sua esfera de influência. Ele renovou a doação ao papado (de parte do território italiano, ao sul, numa prática de aliança iniciada por Carlos Martel, entre os francos e os papas).
Nota:
Toynbee afirma que o domínio franco foi bem aceito no norte da Itália devido ao fato de serem os Lombardos, tal como também os Saxões, parentes dos Francos (isto é correto apenas no sentido de eram todos povos germânicos). Parece duvidoso que a referida aceitação tivesse como causa esse parentesco. Uma explicação muito mais plausível para tal boa recepção é o fato de os Francos colocaram novamente em funcionamento algumas instituições sociais que haviam desaparecido no decorrer da Idade Média, período de anarquia; este renascimento da ordem provavelmente terá sido considerado bem-vindo por um povo que dava grande valor à produção de bens e ao comércio. Por outro lado, vale lembrar que essa nova ordem não foi duradoura; devido a causas que não foram aqui examinadas, o modelo de organização feudal na região se deteriorou e ela voltou ao estado de anarquia.
Magiares. Baseados na Hungria, no século X faziam com grande ferocidade expedições de rapinagem na Europa Ocidental, incluindo o território italiano e, por conseguinte, o Vêneto, por ser ponto de passagem. A Itália era-lhes especialmente atraente pelo estado de anarquia que então reinava ali, deixando-a praticamente indefesa; a primeira invasão deu-se em 912; em 926 devastaram até Roma; em 937, novamente, fizeram uma incursão devastadora.
Cultura veneta
Os povos da Itália na mesma época em que se tornaram conhecidos os germanos, virada dos séculos I a.C. e I d.C., eram culturalmente muito mais desenvolvidos. Isto é devido, em grande parte, ao fato de que os vários povos que viviam na região do mar Mediterrâneo, com diferenças até milenares de níveis de cultura, passaram a interagir cada vez mais entre si, especialmente através do comércio, que levou a uma disseminação de usos, costumes, conhecimentos, produtos, etc. Tal não acontecia com os povos mais isolados do interior e norte da Europa ou, pelo menos, não na mesma escala e velocidade. Eis alguns elementos da cultura dos Vênetos, desenvolvida ao longo de sua história; a fonte destas informações é Antônio D. Lorenzatto:
Escrita: Tinham um alfabeto, aprendido de seus vizinhos Etruscos; que por sua vez o tinham aprendido dos gregos; que o aprenderam dos fenícios, aperfeiçoando-o. Os primeiros escritos vênetos datam do século VI a.C.
Tecnologias: Produziam vidro, técnica aprendida com os fenícios. Dominavam técnicas metalúrgicas, aprendidas com os hititas, confeccionando objetos de ferro, cobre, bronze, estanho, prata e ouro. Com o linho, algodão e a lã, confeccionavam tecidos e roupas. Conheciam engenharia hidráulica, construindo aquedutos e termas.
Agricultura: Criavam gado, ovelhas e porcos. Semeavam trigo, centeio, aveia, cevada, sorgo, grão-de-bico, fava, feijão, ervilha, verduras, radici, cebola, alho, etc. Cultivavam macieiras, pereiras, ameixeiras, nogueiras, castanheiros, cerejeiras, figueiras, etc. Dos parreirais, produziam excelentes vinhos.
Comércio: Este foi para os Vênetos um poderoso sustento e um contínuo estímulo para o seu bem-estar e para a sua cultura. Vendiam o que produziam, ou o trocavam por outros produtos, transacionando com todos os povos do Mediterrâneo; possuíam navios próprios para essa finalidade. No século III a.C. começaram a cunhar moeda própria, de prata. Reconheciam no comércio a dignidade de um trabalho necessário.
Instituições de governo: Foi sempre um povo intrinsecamente democrático, cioso da liberdade e amante da ordem. Por isso ele tinha seu tipo próprio de governo, uma república verdadeiramente democrática. Nunca aceitou reis, tiranos, ditadores ou imperadores. A maior exigência dos Vênetos em relação aos seus governos era a liberdade de trabalhar e comerciar livremente.
Os Vênetos ingressaram gradualmente no Império Romano, por sua própria iniciativa, após séculos de convívio, na sua maior parte colaborativo. Em 49 a.C. Julio Cesar deu-lhes o status de plena cidadania romana. Por volta do século IV passaram a adotar como religião o cristianismo. E, assim, a sua história e cultura passaram gradualmente e em grande parte a ser aquela do Império Romano; sofreu acentuada decadência quando o Império ruiu e o território foi invadido pelos povos germânicos, dando início à "idade das trevas".
Do outro lado das trevas, o norte da Itália, Vêneto inclusive, foi o primeiro lugar da Europa que se iluminou, e passou a irradiar a sua luz, naquele fenômeno cultural chamado Renascença. Das dez primeiras universidades da Europa, três estão no norte da Itália: Bolonha, a mais antiga de todas, foi fundada em 1088; Módena (Modena), em 1175; Pádua (Padova), em 1222, com a ressalva de que as faculdades de Direito e Medicina já existiam antes dessa data; Galileo Galilei foi um dos professores que ali trabalharam; Pico della Mirandola e Nicolau Copérnico constam entre os que ali teriam passado como estudantes.
Notas:
Assim, decorridos agora mais de três mil anos de história, pode-se afirmar, de um modo genérico, que a cultura dos Vênetos é, fundamentalmente, uma versão moderna da cultura greco-romana, com elementos da cultura germânica e da judaico-cristã; é a mesma mistura que determinou também, embora em diferentes graus, grande parte da cultura de todas as nações modernas da Europa ocidental.
Entretanto, talvez num grau semelhante ao que se observa nas diferenças entre nações européias com relação à cultura original comum, aquela dos povos do norte da Itália moderna apresenta diferenças em relação à do restante da Itália. Essa diferença se traduz, em última análise, por resultados de desenvolvimento tecnológico e econômico, sendo o do norte da Itália comparável com o das nações mais desenvolvidas do mundo. A raiz dessa pujança é sutil e tem a ver com traços de caráter generalizados na população local, através da sua cultura, como previdência, poupança, pragmatismo, criatividade e operosidade.
Notas:
http://www.youtube.com/watch?v=4kVzmn5m3N4
http://www.youtube.com/watch?v=J6bP65dh2Yo
http://www.youtube.com/watch?v=hrCWg-8IZsI
http://www.youtube.com/watch?v=EbwIyQW__sQ
http://www.youtube.com/watch?v=4FE-grgJi3k
V - Traços do caráter dos imigrantes e adaptação à cultura local
O objetivo aqui é discorrer brevemente sobre o que parecem ser alguns traços do caráter que prevaleciam nas populações de imigrantes de origem alemã e italiana. É uma tentativa de reunir algumas informações que nos ajudem a responder à pergunta "por que somos como somos?".
Não se falará dos componentes gerais ou mais amplos da cultura, como organização social e tecnologias, porque nestes aspectos não havia grandes diferenças entre a Europa e o Brasil do século XIX; ou seja, as diferenças eram mais de grau de desenvolvimento do que de conteúdo.
Traços do caráter, para os presentes efeitos, consistem nos valores, atitudes, tendências e sentimentos dos membros de uma sociedade ou comunidade, que independem parcialmente das diferenças individuais de personalidade, ou seja, são compartilhados por uma parcela significativa da população. Esse caráter forma-se ao longo do tempo, determinado por um conjunto complexo de fatores, como os descritos mais adiante. O mecanismo que forma esse caráter é essencialmente social, iniciando-se já na infância, durante a aprendizagem natural que ocorre no convívio com a família, pela observação do que fazem os adultos, por aquilo que ouvem de suas conversas, das advertências e lições que estes lhes dão; depois, de forma institucionalizada, na escola; por fim, na vida prática, pelo convívio com outros membros da comunidade. Opera através de estímulo e aprovação àqueles comportamentos dos indivíduos membros que são valorizados na comunidade, ou à punição e desestímulo dos comportamentos não condizentes. Acaba por formar uma espécie de ego-ideal coletivo (como gostaria de ser vista, a nossa comunidade, por outras comunidades, nossos descendentes, outros povos). É uma base importante na construção das normas de comportamento que uma sociedade estabelece para seus membros.
Antes de mais nada, é necessário ter cautela na abordagem desse tema, pois resvala facilmente para estereótipos preconceituosos e generalizações sem fundamento. Um breve exemplo disto:
Alguns desses estereótipos, quando considerados positivos, são produzidos e mantidos pelos próprios nativos. O fato é que nenhum desses traços de caráter atribuídos de forma generalizada a esses dois povos tem qualquer base científica. Alguns podem estar presentes em uma parte da população de qualquer lugar do mundo; outros são claramente estereótipos ridículos ou preconceituosos.
Mesmo na ciência, psicologia social, onde o tema é tratado sob títulos como caráter nacional, personalidade básica ou personalidade modal, há grandes polêmicas e o resultado da maior parte das pesquisas é considerado frágil e até inconclusivo; na melhor das hipóteses, o que se encontra, na comparação de curvas de distribuição do tipo sino referentes a diversos povos europeus, é uma grande superposição dessas curvas em certos traços de caráter; e, como o evidenciam as próprias curvas de distribuição do tipo sino, ocorrência de variações individuais significativas dentro de uma mesma população, em cada um dos traços examinados.
Feitas estas ressalvas, outra cautela é ainda requerida: de que aquilo que está expresso adiante é apenas fruto da percepção do autor; não tem suporte de estudo ou pesquisa de natureza científica a respeito. A fonte são as histórias de populações de imigrantes no Brasil, biografias de alguns deles e informações constantes em genealogias familiares hoje disponíveis em livros e na internet; embora estas sejam fontes válidas, envolvem subjetividade, tanto por parte dos autores como dos leitores.
Finalmente, e desde logo, cabe afirmar que não parecem existir diferenças significativas e generalizáveis de caráter entre os imigrantes de origem alemã e italiana que vieram para o Brasil. E isto se explica por vários fatores, que excluem qualquer elemento de natureza racial:
Nota:
Traços do caráter dos imigrantes
Pragmatismo como um valor cultural. Aqui o termo não se refere exatamente àquela filosofia moderna que leva esse nome e sim, mais simplesmente, tem o sentido de as pessoas serem práticas, objetivas e racionais quanto aos motivos e métodos de ação, escolhendo estes mais pela eficácia ou eficiência já comprovada (experiência), ou guiando-se mais pela razão ou lógica do que se deixando guiar por ideologias, idealismos utópicos, crenças, crendices ou tabus não racionais. Humanos, nem sempre se comportam de maneira racional, mas se esforçam por fazê-lo.
Neste sentido, agricultores tendem a ser algo conservadores, tradicionalistas, preferindo repetir as práticas que no passado deram os resultados desejados, seja quanto ao que irão criar ou produzir, seja quanto à forma de organização social e econômica na qual estão acostumados a viver.
A maioria, realista, não se deixa seduzir por promessas utópicas que prometem algum "Paraíso na Terra".
Notas:
1. Existem dois casos de imigração que tentaram implantar no Brasil colônias agrícolas com formas de organização social utópicas, não pragmáticas. Um, de imigrantes italianos, na Colônia Santa Cecília, em Palmeira, Paraná, que consistia de anarquistas (anarquismo); procuraram operar de acordo com o seu ideário; fracassou completamente, em poucos anos. A outra tentativa, esta por imigrantes franceses, ocorreu na península do Saí, em São Francisco do Sul, Santa Catarina; tinha o objetivo de implantar uma colônia dentro dos moldes de um socialismo utópico, o Falanstério; fracassou já antes de começar a existir. Um grande número de tentativas deste tipo ocorreu com emigrantes que foram para os Estados Unidos; todos, exceto alguns grupos religiosos como o dos menonitas (que mantinham a instituição da propriedade privada e tinham o trabalho árduo como uma obrigação moral), fracassaram, em geral com grande sofrimento para os seus participantes.
2. A maioria dos agricultores que participam de movimentos marxistas do tipo "trabalhadores sem terra" é composto de pessoas despossuídas que lutam para obter uma propriedade agrícola; tão logo alcançam esse resultado, muito deles tornam-se defensores da propriedade, antipáticos a ideais coletivistas. Eles parecem ignorar a história dos agricultores nos regimes onde os marxistas conseguiram, com o apoio destes, chegar ao poder, como ocorreu na URSS, China e Cuba: tão logo firmados no poder os regimes comunistas estatizaram as terras para implantar um modelo coletivista de produção agrícola. Todos fracassaram, custando a vida de milhões de pessoas na URSS e China; em parte, pela ação do governo, que simplesmente assassinou os muitos agricultores que resistiram à coletivização, e, em parte, pela fome decorrente da queda na produção de alimentos.
3. Acerca do conservadorismo dos agricultores com relação a novas tecnologias, isto tem uma clara base no seu pragmatismo (aqui estamos falando dos pequenos agricultores, não o de tipo empresarial, com produção de larga escala). O pequeno agricultor (agricultura familiar, de subsistência), tem poucos recursos para investir e, especialmente, não pode se dar ao luxo de experimentações que ponham em risco nem mesmo uma só safra. Há algumas décadas uma agência internacional de fomento, tendo detectado em muitos lugares do mundo essa mentalidade aparentemente conservadora com relação a novas tecnologias e métodos de produção agrícola, desenvolveu uma nova abordagem, bem-sucedida, que começava sempre com um experimento limitado a pequenas áreas e com um pequeno número de agricultores especiais ― aqueles considerados formadores de opinião em suas comunidades; comprovada a eficácia da inovação, esta era rápida e espontaneamente adotada pelos demais.
Resiliência como resposta esperada, ou adequada, às agruras. No sentido psicológico, resiliência é um termo que designa a capacidade das pessoas para lidar com situações adversas, se recuperar e seguir adiante apesar de eventos catastróficos que as atinjam. Essa capacidade varia de um indivíduo para outro; em parte pode ter uma base biológica, ou no tipo de personalidade; mas parece que também diferentes povos variam nessa capacidade, o que indica a presença de um elemento cultural, um valor onde não há muito espaço para a auto-comiseração; neste caso, o que se espera em tal sociedade é que o indivíduo vitimado por alguma catástrofe, passada a fase do luto por suas perdas, recomece, vá a luta, mostre sua fortaleza e não caia na apatia.
Toda a história dos nossos antepassados imigrantes, incluindo a das primeiras gerações de seus descendentes no Brasil, está repleta de dificuldades e tragédias pessoais. Essa constante necessidade de superações provavelmente forjou uma alta capacidade de resiliência nos indivíduos e nas suas comunidades.
A resiliência parece também ser quase um requisito para sobrevivência dos agricultores e a persistência destes na profissão. Os resultados do seu labor, por maior que seja o seu empenho, estão sujeitos a muitos fatores que não estão sob o controle da sua vontade; por exemplo, fenômenos climáticos ou pragas que podem destruir todo o esforço, ou oscilações econômicas, de demanda do que produz, que podem anular os seus ganhos.
Estoicismo. Embora a maioria dos agricultores talvez nunca tenha ouvido falar de Zenon e outros filósofos da escola estoica, parece que essa filosofia de vida, não no sentido de uma aceitação passiva das vicissitudes, mas sim no sentido de que "é preciso seguir adiante, apesar de todos os pesares", era comum entre eles. Isto pode estar associado ao pragmatismo e à resiliência.
Locus de controle interno. As pessoas diferem com relação àquilo a que atribuem seus sucessos e fracassos; algumas tendem mais a atribuí-los a si mesmas, o seja, o seu "locus", ou local, de controle é interno; outras tendem a atribuí-los mais a fatores externos, como Deus, governo, patrão, sorte, etc., sendo portanto externo o seu local de controle.
Essa característica psicológica das pessoas foi pesquisada e descrita por Julian B. Rotter. No primeiro caso, pessoas que se sentem responsáveis pelo controle de suas próprias vidas, elas tendem a exigir mais de si mesmas, ser mais proativas, aprender com os fracassos e buscar assim novos caminhos para obter o sucesso, etc. No segundo caso, as pessoas tendem a ser mais passivas, reativas, menos interessadas no auto-desenvolvimento; assim, acabam eventualmente transformando em realidade a sua submissão e dependência às idéias e iniciativas de outras pessoas.
Existem indícios de que essas duas atitudes são, ou podem ser, culturalmente desenvolvidas; por exemplo, em nações mais democráticas, onde a iniciativa e independência pessoal é valorizada, tende a se desenvolver mais o local de controle interno; em regimes tirânicos de longa duração, onde uns poucos reservam para si mesmos todo o poder para determinar quem deve fazer o que, quando e como, tende a se desenvolver o local de controle externo, pois todo o aparato das instituições sociais conduz nesta direção. Também as religiões e seitas possivelmente influenciam em algum grau na formação desta posição quanto ao local de controle; aquelas que dão ênfase muito grande ao papel divino na condução do destino humano tenderão a desenvolver mais indivíduos com local externo; já naquelas cujo princípio está mais próximo do ditado "Deus nos dotou de inteligência e o resto é responsabilidade nossa", tenderão a estimular o local interno. Nos países ou regiões onde não prevalece a meritocracia como medida para o sucesso, assunto que veremos mais adiante, parece até mesmo existir, por parte das elites, um esforço direcionado para desenvolver local externo de controle nos membros da população; líderes populistas e demagogos, e as próprias instituições do Estado por eles criadas, "ensinam" às pessoas que tudo de bom que possa existir depende deles, os "bondosos" líderes, "pais", e da Nação, a "grande mãe", em cujas tetas todos podem mamar.
Um exame da vida dos nossos antepassados indica, com bastante clareza, que prevalecia entre eles um grau relativamente alto de "locus" interno de controle; ainda que considerassem os desígnios divinos como uma das fontes de acontecimentos que os afetavam, eram proativos, tomavam iniciativas, interessavam-se por aprender mais, não se conformavam com estados de coisas que julgassem impróprios; todos comportamentos típicos de um controle interno. O princípio fundamental que os guiava pode estar, talvez, resumido no ditado "Deus ajuda os que se ajudam".
Previdência. Com este termo quer-se designar um valor, ou atitude, mentalidade, que leva as pessoas a agirem hoje tendo sempre em vista não apenas as contingências e necessidades imediatas, mas também as de amanhã, do futuro. Leva a um modo de vida que valoriza frugalidade, sobriedade, ou seja, a não desperdiçar oportunidades e recursos, a poupar ou acumular estes, visando formar uma reserva tendo em vista as incertas contingências do futuro.
Parece existir grande diferença entre povos e culturas a este respeito; parece mais presente entre povos de nações que, per se, já possuem poucos recursos em seu território; o caso dos japoneses, com sua fama de poupadores compulsivos, é talvez um dos mais ilustrativos. No outro extremo, onde é baixo esse tipo de preocupação, estão os povos que vivem onde há recursos naturais abundantes o ano todo; explica pelo menos parte do fato de isto ocorrer mais entre povos das regiões tropicais do planeta, o que, por sua vez, é uma das explicações para o estranho fato de que, vivendo entre recursos abundantes, sejam com freqüência economicamente pobres.
Os nossos antepassados europeus se originam de regiões onde os invernos são rigorosos; mesmo no Vêneto pode cair neve em abundância nessa época; nesta condição, a falta de estoques de alimentos para homens e animais domésticos torna-se rapidamente mortal. Este tem sido um fator geográfico, ou climático, apontado entre as causas que explicam o valor dado pelos povos do hemisfério norte à previdência, frugalidade, poupança e acumulação de recursos; é fruto de milhares de anos, uma geração após a outra, precisando lidar de acordo com o mundo natural onde vive. Este hábito, transformado em valor cultural, foi levado pelos emigrantes para os lugares onde foram viver, mesmo sendo as condições climáticas dali diferentes. É uma causa, dentre várias outras, que explica o porquê de as regiões onde vivem esses povos serem, em média, mais ricas e desenvolvidas do que outras.
Trabalho como um valor em si. Nossos antepassados imigrantes, embora cristãos, não encaravam o trabalho como um castigo divino, aquele a que Deus teria condenado a humanidade quando expulsou Adão e Eva do Paraíso. Guiavam-se, antes, e mesmo sem necessariamente conhecê-las, pelas declarações de São Bento de Núrsia (480-547), o fundador da Ordem Beneditina, sobre o valor do trabalho e os perigos espirituais da ociosidade; "A ociosidade é inimiga da alma", afirmava. Guiavam-se também, talvez, por um velho ditado neste mesmo sentido que afirma "A mente desocupada é o jardim (o campo) onde o demônio faz a sua semeadura". No caso dos protestantes, o trabalho é encarado como um dos caminhos da redenção, uma obrigação moral, ética, ganhar o próprio pão sem precisar viver às custas de outras pessoas.
Mesmo no campo laico vemos essa visão; por exemplo, em As aventuras de Pinóquio, de Carlo Collodi, "O homem, ... nasça rico ou pobre, é obrigado neste mundo a fazer alguma coisa, a ocupar-se, a trabalhar. Ai daquele que se deixar levar pelo ócio! O ócio é uma doença péssima, e é preciso curá-la imediatamente, desde pequeno; caso contrário, e uma vez adultos, não tem mais cura."
Ainda, num plano laico pragmático, o trabalho era visto simplesmente como contingência incontornável da vida, único meio legítimo de sobrevivência, incorporado aos hábitos desde a infância e há tanto tempo na história que deixou de ser questão sujeita a reflexões filosóficas.
Numa visão mais ampla, o trabalho era visto também como meio para a conquista de ideais como a autonomia, a independência e o respeito (dignidade), incluindo o auto-respeito. A pessoa que não trabalhasse, sendo para isto apta e tendo oportunidade, era percebida como parasita social, "sem-vergonha", não merecendo respeito e sim profundo desprezo; sabiam que a pessoa dependente de outras, não tendo para isto a justificativa de uma real incapacidade, não alcançava a autonomia e não fazia por merecê-la. Assim, ficar na dependência de caridade alheia, não existindo para isto uma justificativa excepcional, era, para a maioria das pessoas, causa de sentimentos de profunda vergonha, embaraço e constrangimento.
Notas:
1. O trabalho como um valor em si não se desenvolveu igualmente em todos os países europeus. Em alguns deles, caso de Portugal e Espanha, por exemplo, desenvolveu-se numa época, nas elites, uma cultura para a qual o trabalho, qualquer que fosse, era uma coisa aviltante. Essa atitude é apontada por alguns autores no fenômeno dos "senhores de engenho" ou fazendeiros, no Brasil, e a relação disto com o uso do trabalho escravo.
2. Nesta questão do trabalho como valor ético, são conhecidos casos entre os imigrantes que servem para lembrar da existência de diferenças, demonstrando que nem todos os indivíduos de uma população se enquadram no perfil do caráter prevalecente numa comunidade, ou então, que se enquadram em alguns valores mas não em outros. Houve entre os imigrantes, em várias comunidades, casos de indivíduos que agiam como parasitas sociais, alcoólatras e delinquentes; eram, entretanto, uma minoria.
3. Talvez um dos mais dramáticos exemplos sobre diferenças, dentro de uma mesma população (neste caso relacionadas ao trabalho honesto como meio legítimo para obter renda), seja o do tratamento dado aos emigrantes nos seus próprios países de origem, na Europa, durante a sua viagem para o exterior. Tanto italianos quanto alemães foram, muitos deles, vítimas de exploração por parte de hospedarias e fornecedores de alimentação nos portos; na Itália, constam casos de "acordos" entre capitães de navios e hoteleiros, com divisão dos lucros, para fazer os emigrantes virem para o porto muitos dias antes da data do embarque, de forma a haver tempo para os espoliar; ainda com relação a capitães de navios buscando lucros ilegítimos, há relatos de casos em que a alimentação fornecida durante a viagem era insuficiente, de baixíssima qualidade, deteriorada até, a ponto de ser possivelmente a principal causa da grande mortalidade verificada entre os passageiros em alguns dos navios, durante a viagem para o Brasil; e, para completar, há relatos de casos em que os passageiros, ao receberem as suas bagagens depois do desembarque, constatavam que as malas haviam sido violadas por tripulantes do navio, e que tinham sido furtadas as poucas preciosidades que haviam trazido.
Meritocracia. Em termos bem simples, é a ideia de que é legítimo um sistema no qual quem se esforça mais, produz mais, receba recompensa proporcionalmente maior (o termo "proporcionalmente" é muito importante nesta questão). Implica no reconhecimento das diferenças em riqueza entre os membros de uma população, desde que baseadas ou sustentadas por maior esforço e trabalho produtivo; e honesto, ou seja, dentro das normas éticas da sociedade. O critério meritocrático de progresso econômico pessoal parece estar presente em todas as sociedades onde há elevado desenvolvimento econômico e social; onde o critério meritocrático vai mal o desenvolvimento não vai bem.
Existem, na psicologia social, evidências da operação do mecanismo que explica a fonte da aceitação dos critérios meritocráticos por parte dos indivíduos (por exemplo, George C. Homans, teoria da justiça distributiva; J. Stacy Adams e outros, teoria da equidade; Samuel A. Stouffer, teoria da privação relativa). Parece, com algumas variações, operar universalmente.
Nossos antepassados imigrantes, mesmo sendo pobres, também viam, afora a pura sorte ou o acaso, os critérios meritocráticos como o meio legítimo de aumento individual de riqueza. Esta postura deles está relacionada com o seu pragmatismo: sabiam que é o modo mais eficiente para o desenvolvimento econômico de uma sociedade. A história de progresso desses imigrantes, seus descendentes e suas comunidades, no sul e sudeste do Brasil (hoje também no centro-oeste), são provas irrefutáveis de que eles tinham razão.
Notas:
1. Há, entretanto, indivíduos e grupos que negam a validade da meritocracia e a própria existência dos mecanismos acima mencionados. Seus argumentos em geral baseiam-se em argumentos subjetivos, de natureza ideológica, e não em pesquisa sistemática, científica, do fenômeno.
O repúdio a critérios de competência e mérito (na forma de resultados reais) para ascender economicamente é a trincheira dos ineptos, incompetentes, preguiçosos e parasitas sociais; querem um "nivelamento por cima": ser, sem fazer os mesmos esforços, premiados no mesmo grau que aqueles que se esforçam.
As ideologias utópicas igualitaristas também são inimigas da meritocracia, razão porque atraem de forma irresistível muitos indivíduos do tipo descrito no parágrafo acima. Fracassaram em todas as tentativas de tornar real o mundo utópico idealizado. O motivo principal desse fracasso é simples e óbvio: numa comunidade em que as recompensas são iguais para todos os membros, independente da contribuição de cada um deles à produção, a produtividade cai fatalmente a um nível insuficiente para a sobrevivência do grupo; o paradigma para comparação e determinação dos esforços será aquele indivíduo que for o pior do grupo, o que menos se empenha - este ditará o nível ou padrão de produtividade; em duas atividades vitais, indústria e agricultura, a identificação de quem produz quanto, e os efeitos disto na produtividade, é especialmente fácil e rápida. A inexistência de sociedades natural e verdadeiramente igualitárias duradouras na História deveria alertar os adeptos das utopias acerca da fatal inviabilidade das mesmas no mundo real.
2. Nas sociedades onde não é a meritocracia o critério de progresso, desenvolvem-se outros mecanismos. Populismo, coronelismo, nepotismo, compadrismo, filhotismo, clientelismo, cartorialismo, corporativismo, sinecura e mais uma longa lista de práticas contraproducentes e, muitas vezes, corruptas, passam a ser a forma de progredir econômica e socialmente; elas condenam tais sociedades, invariavelmente, ao subdesenvolvimento. A sua pior face acaba sendo a de desenvolver uma cultura da esperteza e condições institucionais defensivas cujo objetivo é, precisamente, o de bloquear quaisquer mudanças efetivas nas instituições sociais e políticas que possam por em risco a subsistência do estado de coisas existente. Os serviços públicos tornam-se autotélicos, isto é, mais voltados a servir aos interesses dos seus próprios membros do que aos da população à qual deveriam servir; e isto com a anuência dos líderes políticos, pois é uma forma de cooptação. Em países assim a riqueza, mesmo sendo pouca, tende a ficar altamente concentrada numa elite voraz e malvada; o povo percebe isto como injusto, mas, imerso longamente na mesma cultura, apático, conformado, mal escolarizado, nada faz para mudar as coisas. À medida que têm acesso aos meios de comunicação, os jovens pobres tomam ciência das coisas boas que os ricos têm e passam a desejá-las; muitos deles podem recorrer à delinquência e ao banditismo para obter esses bens (rapinagem, imitando, a seu modo, grosseiramente, com os parcos recursos de que dispõem, o comportamento da elite improdutiva); eles são os bárbaros da idade moderna.
3. Com relação ao estado de pobreza em que viviam os agricultores europeus na época em que emigraram, é importante lembrar que tal situação não se devia a eles, ou seja, não era conseqüência de serem pouco laboriosos ou coisas assim. A pobreza era generalizada e decorria de causas muito mais amplas, que afetavam todas as atividades econômicas de então, tanto na Alemanha quanto na Itália; um dos eventos importantes, dentre outros que causaram isto, foi o das lutas pela unificação nacional, que ocorreram em ambos os países, mais ou menos na mesma época.
Independência individual, com interdependência social. A dependência de ajuda alheia, como já foi visto, era percebida como vergonhosa, salvo em situações extraordinárias e temporárias. A independência individual era portanto valorizada pelos nossos antepassados, levando-os a esforços para assegurar o alcance dessa condição. Entretanto, eles tinham também uma noção clara acerca do interdependência existente entre os diversos membros da comunidade. Isto fica bem evidente nos muitos eventos descritos na história dos imigrantes em que estes juntaram esforços, se organizaram coletivamente, cooperaram entre si com vistas a alcançar um objetivo desejado por todos e inalcançável através de atos individuais isolados. Como exemplos disto temos a construção de capelas ou igrejas, a instalação e funcionamento de escolas, a construção de estradas (muitas delas feitas com pá e picareta pelos próprios colonos, em mutirões nas épocas de entressafra).
Liberdade individual, com responsabilidade social e pessoal. Este valor, liberdade, está bem evidente na história de alemães e italianos já desde os seus tempos tribais. Parece tratar-se de um valor universal presente na maioria dos povos. O que talvez mereça particular destaque, é o fato de que este anseio, entre os nossos antepassados, estava atrelado com firmeza e realismo a uma contrapartida essencial à liberdade individual, que é a responsabilidade social e pessoal dos indivíduos. É disto que surge a consciência de que não é possível a existência de uma sociedade em que cada indivíduo tenha plena e completa liberdade individual; que, para podermos ter alguma liberdade individual e, ao mesmo tempo, uma indispensável comunidade humana, é necessário que todos aceitem e respeitem um limite, que é o ponto a partir do qual a liberdade de um invade, inibe ou perturba a liberdade do outro.
A história dos imigrantes, mais uma vez, mostra que estes buscavam esse equilíbrio entre o ideal e o possível; os relacionamentos nas suas comunidades eram de um modo geral pacíficos, respeitosos e ordeiros a tal ponto que, talvez, para alguns, cheguem a parecer quase monótonos.
Notas:
1. Existiram, é verdade, conflitos. Casos de brigas entre vizinhos. Na localidade alemã de Loeffelscheid, na Colônia Teresópolis, houve conflitos entre a comunidade e alguns padres que a atendiam. Os protestantes, sendo minoritários, sofreram tratamento discriminatório preconceituoso em alguns locais, tanto por parte de outros imigrantes alemães, católicos, como por parte de padres. Nas colônias italianas em torno de Blumenau, houve conflito entre estas comunidades e alguns padres alemães que as assistiam (tanto neste caso, como no de Loeffelscheid, possivelmente a culpa foi mais dos padres do que da população: alguns deles eram dados, por alguma noção equivocada de autoridade, a intrometer-se demais na vida comunitária, violando precisamente a noção de liberdade cultivada pelos membros destas). Mas de modo geral, foram eventos pontuais, limitados no espaço e no tempo.
2. O equilíbrio entre o ideal e o possível, no tocante a liberdade individual em uma sociedade, não é fácil de ser alcançado. Requer maturidade, inteligência, boa fé, tolerância, paciência e tempo; exige dos indivíduos disciplina e autodomínio. Muitas sociedades, especialmente aquelas que estiveram muito tempo submetidas a regimes tirânicos que reprimiam a liberdade individual, alcançada esta, passam por outro longo tempo numa condição de semi-anarquia, desordem e conflitos até alcançar o equilíbrio. Noutras, devido à ação conjugada de humanistas bem intencionados mas equivocados, mais apóstolos de doutrinas revolucionárias que, para seus fins, desejam criar um ambiente social do tipo "quando pior melhor", mais demagogos populistas irresponsáveis, criam-se estatutos onde a liberdade individual é amplamente concedida, sem exigir a contrapartida de responsabilidade social e individual dos cidadãos; o próprio sistema educacional neste caso tende a ser frágil, pouco valorizado, e às vezes passa a formar sociopatas e irresponsáveis, não cidadãos; o resultado é uma sociedade instável, com crescente insegurança, atos de violência, abuso e desrespeito aos direitos e à liberdade alheia; sob a pretensão de ser progressista, é de fato um caminho de retorno à barbárie.
3. Os alemães têm sido, histórica e genericamente, taxados como demasiado submissos às autoridades. Trata-se de um estereótipo improcedente, que confunde disciplina com submissão. Nos tempos da sociedade tribal ocorria exatamente o contrário de submissão: o poder dos reis era limitado e o dos chefes de guerra terminava com o fim do conflito. E na maior parte da sua história moderna, aquela posterior ao período renascentista, na era do iluminismo e da revolução industrial, os alemães estiveram sob governos moderados, mesmo quando não democráticos (no tempo em que o país estava dividido em várias pequenas nações; o caso recente do nazismo foi uma aberração, uma exceção histórica). O que eles têm como característica, em termos de ordem e disciplina, é precisamente o cultivo do ponto de equilíbrio entre as liberdades individuais desejáveis e as possíveis; nenhuma sociedade humana saudável é possível sem ordem e disciplina dos membros; por outro lado, nenhuma sociedade é saudável se submetida a um excesso de ordem e disciplina; em certo sentido, sem ser budistas, buscaram, a seu modo, praticar o "caminho do meio".
Necessidade de realização e afiliação. Em algumas sociedades humanas prevalece com mais força, como fonte de motivação dos indivíduos para a ação, a chamada necessidade de realização; noutras, prevalece a necessidade de afiliação. Existem diferenças individuais a respeito dentro de uma mesma comunidade. Por outro lado, as pesquisas indicam que sociedades inteiras podem desenvolver uma dessas necessidades com mais força do que a outra, ao longo das gerações; isto é uma evidência de que a cultura vigente num determinado povo, em uma determinada geração, irá determinar a motivação preponderante dos indivíduos das gerações subsequentes; da mesmo forma que podem desenvolver essa força motivacional, podem fazê-la regredir, o que explica, pelo menos em parte, tanto os fenômenos de desenvolvimento como os de decadência de uma sociedade.
Pessoas motivadas pela necessidade de realização se caracterizam por serem enérgicas, proativas, empreendedoras realistas (pragmáticas, estabelecem para si mesmas metas que exijam esforços mas cujo alcance seja viável com os recursos de que dispõem; não são atraídas por metas que envolvam grandes riscos); sentem-se gratificadas mais pelo sucesso em si, dos seus empreendimentos e esforços, do que pelos ganhos financeiros decorrentes (estes servem principalmente como parâmetros da medição dos resultados e como indicadores da sua competência e não pelo que representam em riqueza). Uma das características mais evidentes entre aqueles motivados pela necessidade de realização é o trabalho árduo. Populações com alto nível de motivação para realização tendem a estar mais dispostas a adotar meios mais eficientes, complexos e difíceis (que exigem maior qualificação, escolaridade) de ganhar a vida.
Pessoas motivadas pela necessidade de afiliação focalizam seus esforços mais no estabelecimento, manutenção ou renovação de uma relação afetiva positiva com outras pessoas, amizade; têm interesse associativo; são propensas a desejar a aprovação de outras; tendem a escolher amigos em vez de especialistas para trabalhar com elas. A existência da necessidade de afiliação em algum grau pode ser útil, talvez até essencial para a saúde de uma comunidade; entretanto, quando ela se torna o motivador principal dentro de uma população, poderá ser prejudicial ao progresso desta. Nas sociedades onde não prevalece a meritocracia como critério de recompensa, é possível que, principalmente na sua elite, prevaleça a necessidade de afiliação ― esta é importante onde compadrismo e formas semelhantes de relacionamento são as formas de progredir.
Dados de pesquisa indicam que entre os agricultores tende a existir um percentual elevado de indivíduos motivados por realização. O desenvolvimento das regiões onde se estabeleceram os imigrantes europeus, nossos antepassados, agricultores, confirma isto.
Notas:
1. A maioria das fontes sobre o tema da necessidade de realização na internet estão voltadas para as peculiaridades de ambientes empresariais. A sua implicação mais ampla, como explicação para a ascensão e decadência das nações, é encontrada num livro de David C. McClelland, "A sociedade competitiva: realização & progresso social".
2. Os povos germânicos são apontados como não tendo fortes tendências gregárias; afirma-se que os indivíduos unem esforços com vistas a alcançar objetivos de interesse comum que exijam uma ação coletiva mas que, no cotidiano, tendem a limitar a sua interação social ao pequeno grupo dos familiares; e que, mesmo nesta última situação, os relacionamentos tendem a ser sóbrios. Manifestações emocionais em público são vistas com reserva. A convenção social sobre distância física entre pessoas em interação (Edward T. Hall, proxêmica) é maior entre os povos nórdicos do que, por exemplo, entre os da América Latina.
2. Religiões em que existe intermediário (sacerdote, por exemplo), nas relações entre o indivíduo e a divindade, tendem a fomentar menos necessidade de realização.
3. Há indícios, nas pesquisas de McClelland, de que uma das causas para a decadência da força dos motivos de realização nas sociedades ricas pode ser o fato de os pais, realizadores, estando demasiado ocupados em seu trabalho, "terceirizarem" excessivamente a educação dos filhos.
Religiosidade, sem fanatismo. Os imigrantes eram pessoas religiosas. Não viviam conflitos interiores relacionados a questões de fé ou, se os tinham, parece que não costumavam torná-los públicos. A prática das obrigações religiosas estava incorporada em suas rotinas de vida. A fé era-lhes preciosa como uma das fontes de consolo e socorro, não raro a única, diante das muitas atribulações que os afligiam. Ainda que algumas pessoas se mostrassem mais rigorosas que outras na questão do cumprimento dos deveres religiosos, não se tem notícia de que existissem comunidades de fanáticos, exceto um único caso (ver notas).
A religiosidade, provavelmente junto com outros componentes do caráter, como os decorrentes da valorização da meritocracia, responsabilidade individual e social, independência e dignidade, era fonte de uma forte valorização da probidade; a maioria dos imigrantes dava grande importância à honestidade, respeito à propriedade alheia, inclusive a pública; honravam a palavra dada e agiam de boa fé no trato com os demais membros da comunidade.
Notas:
1. Uma das maiores dificuldades iniciais enfrentadas pelos imigrantes alemães e italianos em algumas de suas colônias foi o fato de terem pouca ou nenhuma assistência religiosa. Estavam habituados havia séculos, em suas vidas na Europa, à presença dessa forte instituição que é a Igreja; tinham uma rotina semanal que incluía frequentar a igreja pelo menos aos domingos; eventos importantes em suas vidas, como o batismo dos filhos e os casamentos, e o registro formal disto, dependiam do trabalho dos padres ou, no caso dos protestantes, pastores; mas no Brasil, a assistência destes, nas áreas coloniais mais distantes, ocorria a intervalos de meses ou, em alguns casos, até de anos.
2. Em algumas regiões mais afastadas das colônias de imigrantes alemães nas quais, ao mesmo tempo em que faltava a assistência religiosa, esses imigrantes conviviam com comunidades nativas próximas, eles passaram a adotar certos usos e costumes desses nativos como, por exemplo, as uniões informais de casais (eles simplesmente "se juntavam"); em alguns lugares esses imigrantes eram designados, pelos demais, como "alemães caboclos".
3. Os efeito de uma religião sobre o desenvolvimento de certos aspectos da cultura vai, na opinião de alguns estudiosos, muito mais longe do que aqui se aponta. Max Weber, por exemplo, economista e sociólogo alemão, defendeu a ideia de que o capitalismo, aquele do tipo que surgiu na Alemanha e Inglaterra, tem suas raízes na religião (livro: "A ética protestante e o espírito do capitalismo)".
4. O único caso, encontrado nesta pesquisa, de comunidade religiosa fanática entre os imigrantes, foi o dos Muckers, numa colônia alemã na região de São Leopoldo, RS; seu fim foi violento e catastrófico. Já na comunidade protestante da Colônia Teresópolis, numa época em que não havia pastor residente, passaram por ali pastores itinerantes, alguns dos quais com pregações de fanatismo, motivo pelo qual a comunidade dispensou os seus serviços.
Valorização da educação escolar. Alfabetizados em grande parte, vindos de nações onde a existência de escolas nas comunidades já era amplamente disseminada, os imigrantes davam alto valor à instituição educacional. Tanto quanto o problema da falta de assistência religiosa, uma das carências mais sentidas por eles foi a ausência dessa instituição nos lugares onde foram viver; o Brasil era ainda um país onde a vasta maioria da população era analfabeta; a educação escolar restringia-se, em grande parte, às elites.
O valor dado à educação está provavelmente associado a vários dos traços ou valores já mencionados acima, como o pragmatismo, "locus" de controle interno, meritocracia e previdência. Com relação a esta última, por exemplo, esses imigrantes tinham, entre os seus objetivos, o de dar condições à geração seguinte para progredir (num sentido amplo, em termos econômicos e noutros aspectos da vida); não almejavam grandes saltos; realistas, visavam o alcance, a cada nova geração, de condições um pouco melhores, mais elevadas, que aquelas dos pais. Provavelmente uma das principais consequências disto, considerando as condições miseráveis em que viveram nos primeiros anos, foi a de terem evitado, assim, cair vítimas de uma cultura da pobreza.
Notas:
1. Em muitos lugares a primeira geração de descendentes dos imigrantes cresceu analfabeta. Em algumas colônias, apesar da pobreza de recursos para tanto, membros da comunidade contrataram professores particulares. Tão logo possível, buscaram ajuda em seus países de origem para a construção e manutenção de educandários; na maior parte, nas comunidades católicas, estes eram mantidos e conduzidos por freiras de ordens religiosas voltadas para a educação; no caso dos protestantes, por voluntários.
2. O início da disseminação de escolas na Europa, visando alcançar toda a população, teve entre as suas principais causas uma "competição pelas almas e mentes" entre católicos e protestantes; foi um efeito benigno e não previsto desse conflito. O primeiro passo neste caso foi dado pelos protestantes, como uma consequência de ter Lutero traduzido a Bíblia, até então editada apenas em latim ou grego, para o idioma alemão; facultou assim a cada pessoa a leitura desses livros.
3. A instituição de escolas conduzidas por professores europeus em algumas comunidades de imigrantes, cujas aulas e material didático eram no idioma deles, foi um dos fatores que podem ter contribuído para uma menor velocidade na adaptação dos seus descendentes à cultura brasileira.
4. Durante a 2ª Guerra Mundial, depois que o governo brasileiro declarou guerra ao Eixo e passou a perseguir descendentes de alemães, italianos e japoneses, uma das primeiras providências das autoridades foi fechar as instituições educacionais que essas comunidades haviam construído. Alguns dos seus professores foram presos; Jacó Arns, por exemplo, foi preso porque tinha na sua biblioteca livros didáticos e outros relacionados à educação, em idioma alemão; parece ter sido o suficiente "como prova" de que ele era "simpatizante e propagador das idéias de um país inimigo"; desconheciam aos inquisidores, talvez, o fato de que na época era paupérrima no Brasil a literatura técnica relacionada à educação, enquanto que, desde há muito, a Europa era já pródiga em obras a este respeito, tendo Jacó Arns ali buscado tais conhecimentos (apenas para lembrar alguns nomes, ressalvando-se que não se tem informações sobre quais eram os livros "subversivos" que Jacó Arns possuía: Johann Friedrich Herbart; Johann Heinrich Pestalozzi; Friedrich Wilhelm August Fröber; Maria Montessori; Jean Piaget; obviamente, nenhum destes tinha qualquer relação com nazismo ou fascismo).
5. Acerca da cultura da pobreza: é uma condição social, ou mentalidade de um grupo humano em condições de pobreza, estudada por Oscar Lewis e colaboradores. Verifica que os pobres podem perder a ambição de melhorar de vida, adotando a crença fatalista de que estudo escolar, trabalho pesado e ambição em nada irão melhorar a sua existência; essa cultura é transmitida de uma geração à outra. Lewis sugeriu que à medida que indivíduos se adaptam às circunstâncias da pobreza, tendem a desenvolver uma cultura compatível com ela e que por isso a sustentam. Esta explicação teórica é contestada por alguns mas, talvez não por acaso, esses críticos são, na sua maior parte, marxistas ou simpatizantes, cujas teorias consideram apenas os "exploradores burgueses e capitalistas" como culpados de todas as situações de pobreza; isto até pode ser verdade, mas apenas em alguns casos, especialmente naquelas culturas já descritas mais acima nas quais a meritocracia não é o critério básico para elevação dos indivíduos em termos de riqueza pessoal e status social.
Adaptação cultural
A adaptação do imigrante à cultura do país que o recebeu é inevitável e necessária. A velocidade e o grau, ou abrangência, com que se dá essa adaptação depende de várias circunstâncias.
Existe uma tendência natural do imigrante no sentido de se esforçar por manter viva a cultura do seu país de origem. A base disto está em um vínculo afetivo profundo, embora geralmente inconsciente, que todos temos com a "nossa pátria", "nossa terra natal", "nossa história". A distância que separa o imigrante do seu lugar de origem faz emergir para a consciência e aguça esse sentimento, é fonte de nostalgia. Embora esses sentimentos possam diminuir ao longo dos anos, parece comum os imigrantes limitaram a sua adaptação à cultura do país que os recebeu ao mínimo necessário - aprender um pouco do idioma local e adaptar-se às condições climáticas, por exemplo.
Já os filhos, a partir da primeira geração nascida no país receptor, não têm esse vínculo afetivo com o país de origem dos pais; falta-lhes a vivência pessoal a respeito; a sua adaptação à cultura local, embora gradual e imperceptível, é mais rápida e abrangente, dependendo de diversas condições que facilitem ou não a convivência com a população nativa. Em geral essas mudanças são melhor percebidas pelos avós, não raro sendo fonte de grande desgosto para estes.
Nota:
Entre os fatores que aceleraram ou alongaram o tempo de adaptação cultural dos descendentes dos imigrantes estão:
Grau de proximidade das suas colônias com áreas habitadas por brasileiros nativos. Onde as colônias de imigrantes estavam próximas de populações brasileiras a adaptação cultural foi mais rápida devido à facilidade das interações entre essas comunidades; os colonos aprenderam mais rapidamente a falar português; ocorreram mais casamentos entre nativos e imigrantes. Nas colônias mais isoladas em relação às comunidades nativas a adaptação cultural foi mais lenta; os casamentos ocorriam, ao longo de várias gerações, quase exclusivamente entre descendentes dos imigrantes. Nesta questão dos casamentos, é preciso lembrar que o fator "vizinhança" é importante, especialmente em se tratando de uma população de agricultores, com seu trabalho cansativo e continuado ao longo de todo o ano; a pesquisa dos registros de casamento dessas populações evidencia claramente que estes tendiam a se dar entre membros de famílias que residiam próximas umas das outras.
Religião. As comunidades de imigrantes católicos próximas de comunidades nativas adaptaram-se mais rapidamente à cultura local por freqüentarem a mesma igreja que os nativos, passando a interagir e integrando-se. No caso dos protestantes, não existindo comunidades brasileiras com esse mesmo credo, não tinham a mesma oportunidade natural para interações sociais, sendo assim mais lenta a sua adaptação cultural; existe pelo menos um estudo sociológico que comprova essa diferença, e sua conexão com o credo religioso.
Existência de sistema educacional com professores e idioma estrangeiros. Onde as comunidades foram dotadas de escolas nestas condições isto foi um fator importante na determinação de uma menor velocidade na adaptação cultural. Não só o idioma dos imigrantes se mantinha em uso como também os valores, usos, costumes, etc.: os professores, estrangeiros, transmitiam aqueles do seu país de origem.
Presença de instituições do Estado. Nos lugares onde as instituições características de Estado estavam mais presentes, a adaptação cultural dos imigrantes foi mais rápida. É preciso lembrar que tais instituições eram muito precárias, às vezes quase totalmente ausentes, em amplas regiões do Brasil no século XIX.
Migração interna. A partir do final do século XIX, em parte por não haver mais disponibilidade de terras agricultáveis nas colônias originais de imigrantes, seus descendentes começaram a mudar para outras localidades. Em alguns casos, foram para regiões onde já existiam comunidades brasileiras e isto foi um fator que acelerou a sua adaptação cultural. Mas, em muitos casos, alguns facilmente identificáveis, em termos de geografia humana, em Santa Catarina, os migrantes foram para novas áreas de colonização em que também se concentravam de acordo com a sua etnia - colônias italianas ou alemãs (isto deu-se, em muitos casos, menos por algum critério étnico em si do que por fatores sociais triviais: uma família mudava-se para uma outra região, dava sobre esta notícias positivas a parentes e conhecidos, que por sua vez resolviam para lá mudar-se também); este fator determinou, pelo menos em parte, uma menor velocidade na adaptação cultural; por exemplo, casamentos, já na terceira ou quarta geração de descendentes, seguiam sendo em grande parte entre membros da mesma etnia; não por alguma coisa parecida com racismo e sim por mero acidente geográfico.
Notas:
1. O mito dos "quistos raciais", instrumento racista. O próprio termo "quisto", é pejorativo, uma "doença", mal a ser extirpado. Essa "teoria" sociológica passou a ser cultivada em dado momento por alguns "pensadores" e políticos brasileiros; no intento de mostrar a existência de racismo nos imigrantes, estavam de fato manifestando-se racistas com relação a estes. De cunho nacionalista, uma preocupação relativa à presença, em um país, de comunidades que se esforçam por manter uma cultura exótica, é até compreensível. De fato existiram comunidades de imigrantes que talvez tenham se excedido no seu zelo de manutenção da cultura, ou tenha havido desejo de 'não se misturar'; mas esta não foi uma coisa generalizada. O problema com relação à teoria dos "quistos raciais" está, antes de mais nada, em dar como generalizados casos isolados de auto-segregação. E, na incorreção do diagnóstico das causas que levavam comunidades a se manterem dentro da cultura de seus antepassados estrangeiros; isto em geral decorria não de um ato de vontade coletiva, uma opção consciente e cultivada, mas sim precisamente de fatores relacionados ao próprio Estado brasileiro; a começar, pela criação de colônias de imigrantes em regiões onde estes ficavam relativamente isolados das comunidades nativas; em segundo lugar, pela ausência ou, pelo menos, fraca presença, das instituições do Estado entre essas populações.
2. Não foram encontradas, além do caso dos "quistos", acima, informações sobre doutrinação ou manifestações sistemáticas de racismo entre os imigrantes. Isto não permite concluir que não tenha existido mas sim que, se houve, era discreto, ou não era muito significativo, ou, ainda, que se limitava a formas de preconceito ou a alguns pequenos grupos. O que se verificou, sim, é que em alguns lugares os imigrantes tinham uma atitude de cautela, ou até de receio, com relação a algumas populações brasileiras que viviam nas imediações; os motivos nada tinham a ver com racismo. Na região de Braço no Norte, por exemplo, viviam alguns brasileiros que eram foragidos da justiça e haviam se instalado na região quando esta ainda era quase desabitada, antes da chegada dos imigrantes, e estes temiam a sua proximidade. Situação semelhante ocorria em Itapiranga, com relação a uma comunidade de brasileiros na região chamada Linha Glória, onde o rio Peperi desemboca no rio Uruguai; também entre estes viviam muitos foragidos, motivados pelo fato de poderem rapidamente atravessar o rio para território argentino caso a polícia aparecesse por ali; alguns inclusive moravam no lado argentino, em choupanas construídas em pequenas clareiras na floresta.
3. Ocorreram na década de 1930, é verdade, casos em que imigrantes japoneses, italianos e alemães, ou descendentes destes, se entusiasmaram pelos eventos políticos e militares que vinham ocorrendo nos seus países de origem. Em algumas regiões de colonização alemã, por exemplo, surgiram grupos organizados que se manifestavam a favor do nazismo. Eles estavam equivocados e é compreensível que o Estado brasileiro tenha agido para reprimi-los; pode ser questionável apenas a forma como o fez.
A adaptação cultural dos nossos antepassados imigrantes não foi plena nem unilateral. Ao mesmo tempo em que adotavam usos e costumes brasileiros, mantinham parte do seu próprio legado europeu. Do lado dos nativos que conviviam com os imigrantes, também estes adotaram alguns elementos da cultura estrangeira. O resultado disto é terem as regiões sul e sudeste do Brasil (e hoje também o centro-oeste, para onde muitos descendentes migraram), certas características culturais que são um pouco diferentes daquelas de outras regiões do Brasil.
Nota:
Finalizando, cabe lembrar que a cultura é um fenômeno dinâmico; ela evolui (ou involui) com o passar do tempo; os valores mais prezados da cultura atual e, portanto, o tipo de caráter que deles decorre, não são exatamente os mesmos da época em que nossos imigrantes aqui chegaram; também não são mais os mesmos naqueles lugares da Europa de onde eles vieram. Não apenas nós, os descendentes, nos tornamos brasileiros em todos os aspectos, incluindo muito da cultura, como também, por sua vez, a cultura brasileira mudou.
Além disto há o fato, muito relevante, de que grande parte de nós já não se dedica à agricultura; em alguns casos, há várias gerações. Criaturas urbanas, implica imergir em um mundo cultural algo diferente daquele dos agricultores.
Um substrato da cultura antiga entretanto permanece, permeia os componentes da nossa cultura contemporânea. Se por isto o nosso caráter ficou melhor ou pior, é questão discutível; se olharmos para o passado e para o grau de progresso econômico dos lugares onde hoje vivem os descendentes dos imigrantes europeus, pode-se afirmar que a cultura atual tem gerando efeitos positivos para suas comunidades. Acredito que os nossos antepassados se orgulhariam de nós.
O futuro.
O que está nas nossas mãos hoje é a formação dos nossos próprios descendentes. Cada geração altera em parte a cultura recebida dos seus antecessores e modela parcialmente a cultura dos seus sucessores.
Durante toda a história humana este foi o mecanismo que determinou o desenvolvimento da cultura ou, em alguns casos, a regressão desta. Isto era realizado em grande parte dentro da família, no lar, e o resto através de instituições da sociedade, especialmente o clã, a tribo e, a partir de certo momento, a religião.
Hoje não é mais assim. Uma parcela crescente da educação e, portanto, da modelação da cultura foi assumida pelos grandes meios de comunicação de massa e pelo Estado; foi "terceirizada". Não há como saber antecipadamente se isto terá efeitos positivos ou negativos.
Os sinais de hoje não dão motivo para sermos otimistas acerca do futuro. O mundo humano não parece estar ficando mais iluminado. Parece, isto sim, estar se tornando cada vez mais estranho, desvairado. A imensa quantidade de informações e conhecimentos hoje disponíveis não parece estar resultando em maior sabedoria. Mas, este quadro pode não mais que impressão pessimista deste sexagenário autor; talvez seja comum, em todos os tempos, que os membros idosos da população tenham, diante das mudanças que assistem, uma sensação de que o mundo está prestes a desabar; isto até pode ser verdade, mas apenas com relação ao seu próprio mundo pessoal.
Seja como for, o que mais podemos desejar aos nossos descendentes, daqui a uma, duas ou mais gerações,
é que eles não possam afirmar honestamente, sobre o passado, que o nosso tempo era melhor do que é o deles.
Que eles jamais tenham algum motivo para sentir inveja de nós.
Fontes: