A 30° Conferência das Partes da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima (COP30), realizada em Belém entre 6 e 21 de novembro de 2025, chega num momento crítico: as decisões tomadas nas negociações e nos pavilhões paralelos definirão, em curto prazo, que tipo de rotas políticas e financeiras tornarão possível conciliar segurança energética, desenvolvimento e metas climáticas globais. A presença do setor de óleo & gás na COP30 é, portanto, esperada e necessária — mas controversa.
O argumento é direto: a maior parte das emissões globais de CO2 relacionadas à energia vem da queima e da produção de combustíveis fósseis — carvão, petróleo e gás.
Qualquer caminho credível para limitar o aquecimento a 1,5 °C exige mudanças profundas no modelo energético, tanto na demanda (eficiência, eletrificação, renováveis) quanto na oferta (redução de intensidade de emissões nas operações, fim de novos projetos incompatíveis com metas climáticas). Relatórios da IEA e análises acadêmicas deixam claro que transformar essas cadeias produtivas é condição necessária para atingir metas globais.
Nas últimas décadas as grandes empresas de óleo & gás têm buscado alternativas sustentáveis à sua atividade atual, dentre elas, podemos citar:
1. Redução da intensidade de emissões das operações como o maior controle da emissão de metano, maior eficiência energética, eletrificação em plataformas, entre outros.
2. Desenvolvimento de produtos “de menor carbono” como biocombustíveis, misturas com conteúdo renovável, combustíveis sustentáveis para aviação e navios e hidrogênio de baixo carbono.
3. Investimentos em nature-based solutions e projetos de restauração com o fim compensação e conservação ambiental, embora haja um limite no uso dessa estratégia para continuar com as atividades.
4. Pesquisa e testes em tecnologias de captura como uso e armazenamento de carbono e parcerias com renováveis e armazenamento para criar portfólios “mais limpos”.
Essas frentes estarão na pauta dos estandes e painéis em Belém: não apenas para mostrar compromisso, mas para negociar financiamento, regulações e mercados que deem escala às soluções de baixo carbono.
A estatal tem intensificado a comunicação de que está se reposicionando como “empresa diversificada”, com negócios em óleo & gás e projetos de baixo carbono. Entre ações públicas recentes:
● Fornecimento de combustível com conteúdo renovável para a operação da COP30 (uso em geradores e frota de ônibus do evento), anunciado pela própria Agência Petrobras durante a véspera da conferência — uma medida direta para reduzir a pegada do evento.
● Programas de conservação e restauração (por exemplo, iniciativas Floresta Viva e participação no Restaura Amazônia) e fundo voltado à bioeconomia, descritos no Relatório de Sustentabilidade 2024 da companhia. Essas ações são apresentadas como parte da estratégia socioambiental da empresa.
Mas nem tudo são flores, os relatórios da própria Petrobras descrevem investimentos socioambientais e metas, mas há a necessidade de transparência sobre metas de redução absoluta de emissões e uma grande controvérsia, sobre como esses projetos se combinam com a continuidade de atividades fósseis.
A PetroRio tem divulgado redução da intensidade de emissões e políticas de eficiência operacional. Nos relatórios públicos a empresa destaca ganhos de eficiência e monitoramento das emissões de suas operações, além de compromissos de governança ESG. Essas informações constam em documentos oficiais de sustentabilidade da companhia.
A Enauta tem relatórios de sustentabilidade e performance ESG que enfatizam eficiência, governança e inclusão em índices de sustentabilidade. A empresa tem comunicado melhorias em gestão ambiental e indicadores operacionais — pontos que estarão em debate sobre como empresas de menor porte no setor se adaptam à transição.
A Presidência da COP30, o governo federal e ministérios do Meio Ambiente e Minas e Energia, colocaram a transição energética e a proteção de florestas como eixos centrais das negociações e eventos paralelos. O Brasil, como anfitrião, tem buscado atrair compromissos sobre combustíveis sustentáveis e financiamento para adaptação e conservação — pautas que batem com as ofertas comerciais e programas de ESG do setor.
Pesquisas científicas e análises de cenários como do IPCC, Nature Communications, IEA e estudos sobre a redução do uso de combustíveis fósseis, mostram que diminuir apenas a intensidade das operações não é suficiente, é urgente e necessário também uma redução rápida no consumo agregado de petróleo e gás em cenários compatíveis com a meta de não aumentar a temperatura média do planeta em 1,5 - 2 °C. Além disso, a governança regulatória muitas vezes trata as emissões da produção e as emissões pela queima dos combustíveis de forma fragmentada, ou seja, relativa e não absoluta, um desafio que exigirá alinhamento legal e de investimento na COP30.
A presença do setor de óleo & gás na COP30 é dupla: necessária para viabilizar soluções técnicas e um teste político — a comunidade internacional avaliará se a transição prometida vem com metas ambiciosas, transparência e alinhamento com os limites científicos do orçamento de carbono. Empresas brasileiras como Petrobras, PetroRio e Enauta trazem projetos e anúncios públicos que ilustram direções possíveis; entretanto, cabe aos negociadores, investidores e à sociedade civil sustentar a exigência de metas verificáveis, políticas públicas coerentes e financiamento para a transição justa.
REFERÊNCIAS:
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