Financiamento Climático Global nas COPs: o que está em jogo?
09 de maio de 2025
09 de maio de 2025
Quando falamos sobre mudanças climáticas, geralmente pensamos em redução de emissões, energias renováveis, protestos... Mas tem uma parte essencial dessa conversa que muitas vezes passa batido: o dinheiro. Quem vai pagar a conta da transição para uma economia de baixo carbono? E quem vai ajudar os países que já estão sofrendo com os impactos da crise climática? É aí que entra o financiamento climático global – um dos temas mais importantes e sensíveis das Conferências das Partes (as COPs).
Basicamente, é o conjunto de recursos destinados a ajudar os países em desenvolvimento a mitigar (ou seja, reduzir emissões) e se adaptar aos efeitos das mudanças climáticas. Isso inclui desde investimentos em energia limpa até medidas de proteção contra desastres naturais.
O problema é que esses recursos ainda são muito abaixo do necessário – e nem sempre chegam a quem mais precisa. Por isso, as negociações climáticas colocam tanta ênfase nesse tema.
Fundo Verde para o Clima (GCF)
Criado na COP16, em 2010, em Cali (Colômbia), é hoje o maior fundo climático do mundo. Ele apoia projetos em países em desenvolvimento, com foco tanto em mitigação quanto em adaptação. Um diferencial importante é que permite acesso direto aos recursos por meio de entidades nacionais. O Brasil, por exemplo, já teve mais de 13 projetos apoiados, especialmente voltados para a conservação da Amazônia e transição energética.
Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF)
É um dos mais antigos, criado em 1991 por um grupo de organizações internacionais, incluindo o Banco Mundial, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e outras entidades. Trabalha com temas como biodiversidade, mudanças climáticas e gestão de recursos naturais. No Brasil, o FUNBIO (Fundação Brasileira para a Biodiversidade) virou uma das agências implementadoras do GEF. Um ponto importante é que os projetos do fundo precisam respeitar "salvaguardas ambientais e sociais", o que ajuda a proteger comunidades locais.
Fundos de Investimento Climático (CIF)
Foram criados em 2008, pelo Banco Mundial, e trabalham junto a bancos multilaterais como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Têm uma abordagem programática e ajudam países em desenvolvimento a fazer a transição para economias mais verdes. Um dos diferenciais é o uso de financiamento misto, ou seja, combinando recursos públicos com capital privado para escalar os investimentos. O Brasil tem uma relação estreita com os CIF, sendo beneficiado por vários programas que visam a mitigação das mudanças climáticas e a promoção de uma economia sustentável, como o Programa de Investimento Florestal (FIP), iniciativas de energia limpa e renovável e o Programa Natureza, Povos e Clima (NPC).
Fundo Amazônia
Criado pelo governo brasileiro em 2008, foi influenciado pela proposta de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD), discutida durante a COP13 de Bali (Indonésia), em 2007, que visa criar incentivos financeiros para países em desenvolvimento preservarem florestas e a reduzirem emissões de gases de efeito estufa resultantes do desmatamento. O Fundo Amazônia financia ações para reduzir o desmatamento e promover o desenvolvimento sustentável na Amazônia Legal e é baseado em pagamento por resultados: ou seja, só recebe recursos se provar que conseguiu reduzir o desmatamento. Noruega, Alemanha e Petrobras são alguns dos principais doadores. Depois de um tempo paralisado, entre 2019 a 2023, por conta da extinção dos comitês de governança, Comitê Orientador (COFA) e o Comitê Técnico (CTFA) do fundo durante o governo Jair Bolsonaro, ele foi reativado em 2023.
Esse é um tema recente e super importante. O Fundo para Perdas e Danos foi uma das maiores conquistas da COP27, em 2022, em Sharm El-Sheikh (Egito). Ele surgiu para apoiar países em desenvolvimento que já estão sofrendo com os efeitos irreversíveis da crise climática – que não dão mais para mitigar, nem adaptar, como perda de território, eventos extremos ou deslocamentos forçados.
Diferente de outros fundos que focam em mitigação e adaptação, esse tem uma função específica: reparar o dano já causado. É uma questão de justiça climática.
Na COP28, em 2023, em Dubai (Emirados Árabes Unidos), o fundo finalmente saiu do papel. Alguns países já anunciaram contribuições, mas os valores ainda estão bem abaixo do necessário. E ainda faltam regras claras sobre como acessar o dinheiro, quem vai decidir a distribuição e como garantir que ele chegue aos mais afetados. Por enquanto, o fundo está sendo gerido pelo Banco Mundial, mas isso é temporário.
O Brasil tem se envolvido ativamente na criação e implementação do Fundo para Perdas e Danos, destacando sua vulnerabilidade aos impactos climáticos, como a perda de território e desastres naturais. Durante a COP27, o país apoiou a criação do fundo, defendendo a justiça climática. Na COP28, o Brasil continuou a pressionar por uma governança transparente e por uma distribuição justa dos recursos, essenciais para ajudar as populações mais afetadas pela crise climática, como as da Amazônia.
A discussão sobre financiamento climático começou a ganhar força na COP15, em 2009, em Copenhague (Dinamarca), quando os países desenvolvidos prometeram mobilizar US$ 100 bilhões por ano até 2020. Mas essa meta não foi completamente cumprida.
Na COP29, realizada em novembro de 2024 em Baku, Azerbaijão, o financiamento climático foi um dos temas centrais das negociações. Os países desenvolvidos comprometeram-se a mobilizar US$ 300 bilhões anuais até 2035 para apoiar os países em desenvolvimento na adaptação e mitigação dos impactos das mudanças climáticas. Esse valor representa um aumento significativo em relação ao compromisso anterior de US$ 100 bilhões anuais, estabelecido na COP15 em Copenhague. No entanto, a cifra ainda está aquém das estimativas que apontam a necessidade de até US$ 1,3 trilhão anuais para atender às demandas globais de financiamento climático.
Apesar do avanço, o acordo gerou críticas de países em desenvolvimento, que consideraram o montante insuficiente e expressaram frustração com a falta de compromissos mais ambiciosos. O Brasil, por exemplo, propôs um valor superior, defendendo uma contribuição mais robusta dos países ricos.
Agora, com a COP30 se aproximando, em novembro de 2025, aqui no Brasil, a meta é bem mais ambiciosa: mobilizar pelo menos US$ 1,3 trilhão por ano até 2035. Isso inclui governos, bancos multilaterais e, principalmente, o setor privado – que precisa ser atraído com regras claras e incentivos.
Autores: Beatriz Lueders, Eduarda Dias, Eduarda Camargo, Giovanna Gutierrez, Giovanna Souza, Isabel Ester, Mariah Eduarda Santos, Rosilene Sepúlveda