Módulo II - Parte II
Tema: Do osso à história: fio e labirinto no ofício de contar
Bem-vindos à fase de observação do osso de uma narrativa popular transmitida oralmente, ancestralmente, livremente. Por osso entenda-se a fundação que sustenta o conto-tipo, e sobre a qual inúmeras histórias/versões poderão ganhar anima e seguir viagem, como corpos vivos em constante evolução, transformação, crescimento, relação. Trabalharemos exclusivamente sobre contos populares de tradição oral e, como tal, compreenderemos que um conto-tipo nada mais é que um tipo de conto tradicional do qual podemos encontrar diferentes versões. Nenhuma será mais certa do que outra. Porém, é importante encontrar em todas elas aquilo que verdadeiramente as sustenta: o seu osso, o seu esqueleto, que funciona como um mapa subjectivo de sobrevivência. Neste módulo, o nosso ponto de partida será compreender a estrutura tipológica de uma determinada história e ser capaz de mergulhar nela, até às suas profundezas, e, se possível, regressar com vida -- para contá-la.
Tópicos de conteúdo programático
Esta formação propõe um diálogo guiado por técnicas de análise textual a partir da experiência de fruição da escuta de um conto, ancorado em três premissas fundamentais para os processos de aprendizagem utilizados pelas comunidades orais: a ritualização do encontro e do acto de ouvir e contar; o respeito pelo lugar da fala e da escuta do eu e do todo; e a criação de uma atmosfera de confiança mútua.
Valorizar e sensibilizar para a importância do património oral como primeira grande leitura;
Impulsionar e sublimar o pensamento e o imaginário, as descobertas mentais, a criatividade, a construção de ideias e teorias, e a formulação de conceitos e juízos;
Explorar técnicas de desenvolvimento da linguagem, expressão e comunicação;
Conhecer e contactar com outras formas de ver, sentir, percepcionar e habitar o planeta, através dos tempos e em diferentes contextos sociogeográficos;
Compreender a importância do conjunto de valores veiculados pelos contos populares: solidariedade, honestidade, ética, responsabilidade, liberdade, igualdade, etc.;
Através de uma visão de sensibilidade cultural, assumir a comunidade como um agente activo e participativo em todo o processo de construção de um leitor;
Visar a autonomia de um leitor, crítico e consciente das suas competências;
Realizar boas prácticas que permitam a aquisição de diversos e distintos conhecimentos, que promovam e visem um desenvolvimento sustentável.
“You enter the forest at the darkest point, where there is no path.
Where there is a way or path, it is someone else’s path (...)
The idea is to find your own pathway"
Joseph Campbell, Pathways to Bliss
Ana Sofia Paiva é actriz, aprendiz e outras coisas. Filha das margens e do vento, neta de Lisboa antiga, afilhada de algum Norte e todo o Sul, cresceu com histórias, cantes, descantes e muita sede de raíz.
Dedica-se desde 2008 à narração e investigação de contos de tradição oral, dentro e fora de Portugal, ouvindo e contando para traçar a sua própria geografia. Passou por diversos encontros de narração oral por toda a Europa, Irão, Cabo Verde, Canárias, América do Sul e EUA, contando em português, inglês, francês e espanhol.
Formada em Teatro pela Escola Superior de Teatro e Cinema (2001) e pós-graduada em Promoção e Mediação da Leitura pela Universidade do Algarve (2012).
Trabalha como actriz, contadora de histórias e investigadora de contos populares de tradição oral, sendo membro do Instituto de Estudos de Literatura e Tradições (FCSH-UNL), do Centro de Estudos Ataíde Oliveira (FCHS-UAlg) e da cooperativa Memória Imaterial. Entre a oralidade e a escrita, dedica-se desde cedo à poesia como ofício de culto. "Serpe - As três águas do encanto" (2018) é o seu primeiro livro publicado.