JOSÉ REIS
especial para a Folha
David F. Marks vem estudando de maneira crítica e sistemática os fenômenos paranormais e sobre o resultado de suas investigações publicou artigo em "Nature" (320, 119). Suas conclusões indicam que "a paranormalidade tem todas as qualidades de um sistema mágico coberto com um manto de ciência". Afirma ele que até que se façam quaisquer descobertas significativas, a ciência pode com razão ignorá-la, mas é importante dizer por quê. "Paraciência é um sistema pseudocientífico de crenças não-testáveis, baseado em ilusão, erro ou fraude."
O paranormal sempre exerceu especial atração sobre a mente humana e os meios de comunicação têm contribuído para difundi-lo, dando relevo a suas alegações e nem sempre se ocupando com a mesma veemência em seu desmascaramento. Todavia, "após milênios de experiência e mais de um século de investigação controlada, desde a fundação da Sociedade de Pesquisa Física, em 1882, o paranormal permanece mais controvertido do que nunca".
Em consequência de experimentos aparentemente cada vez mais sofisticados, a percepção extra-sensorial (ESP) e a pré-cognição adquiriam difundida credibilidade, embora a parapsicologia haja malogrado em apresentar uma única demonstração repetível. Ao indagar o porquê desse fato, o autor imagina que o estabelecimento da ESP talvez requeresse uma mudança de paradigma (no sentido kuhniano) do tipo mais fundamental, impondo então alteração radical dos nossos conceitos das relações mente-cérebro e consciência. Seria preciso rever toda a nossa abordagem da psicologia como ciência experimental, baseada no antigo pressuposto de que a percepção só pode resultar da atividade sensorial.
Em 1976, fundou-se o Comitê para a Investigação Científica de Casos de Paranormalidade (CSICOP), com o objetivo de aumentar a qualidade da pesquisa científica do paranormal por meio de crítica construtiva e denúncia de alegações inválidas e fraudulentas. Esse comitê reuniu e examinou nesses dez anos uma grande quantidade de "fraudes, erro e incompetência" em investigações paranormais.
Marks organiza uma longa lista de efeitos até há pouco apresentados como paranormais que hoje se explicam pela ciência ortodoxa (efeito Kirlian, caminhar sobre fogo, a varinha, a cirurgia psíquica, a fotografia mental, o dobrar de metais, os relógios "gellerizados", a astrologia, a grafologia, a leitura de cartas tarô, I Ching e outras formas de divinação etc.).
As mais espetaculares provas do paranormal baseiam-se em fraude ou erro metodológico. As fraudes por vezes abrangem personalidades respeitáveis, como as de S.G. Soal, matemático da Universidade de Londres, que manipulou os seus registros, de Tanhaeff, da Universidade de Utrecht, que confirmou Croiset, o "detetive psíquico" holandês, e a descrição que C. Castañeda, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, faz dos ensinamentos paranormais de Don Juan.
Mas a fraude, adverte Marks, "não é o único veículo em que a causa paranormal possa trafegar" e constitui grave equívoco presumir que ela seja parte indispensável de toda experiência desse gênero. Outras fraquezas decorrem da falta de teorias para explicar os efeitos paranormais ou suas propriedades, assim como da suposição de que a prova do paranormal seja incompatível com o materialismo.
Segundo o sociólogo D. O'Keefe, o atual ressurgimento do oculto pode ser encarado como reação ao excessivo racionalismo que muitos percebem na ciência. Entrariam, porém, sustenta Marks, contra o pano de fundo mágico-religioso, alguns fatores extrapsicológicos que fazem das crenças paranormais uma característica inevitável da consciência e do pensamento humano. Nesse campo, entrariam as fantasias, a expectativa, as coincidências, as causas invisíveis, a vontade de crer etc.
https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe04049901.htm